domingo, 3 de maio de 2026

PL►Y: Twinless

O'Brien: sem o irmão. 

Surpreso diáriw, acho que Twinless é um dos filmes com roteiro mais original que assisti nos últimos tempos. Indie e sem grana para campanhas milionárias, a produção ficou de fora do Oscar na categoria de roteiro original. Foi indicado ao Independent Spirit de roteiro, de melhor ator (Dylan O'Brien) e de melhor filme. Em Sundance ganhou o prêmio de melhor filme dramático, melhor ator (pro Dylan) e o prêmio do júri na categoria de drama. Além destas credenciais, foi lembrado em várias listas de críticos como um dos melhores lançamentos do ano passado. Considero a celebração bastante justa, já que James Sweeney faz um ótimo trabalho em seu segundo longa-metragem, sendo também responsável pelo texto e por carregar metade do filme nas costas interpretando Dennis. Dennis conhece Roman (O'Brien, que está ótimo) em um grupo de suporte para pessoas que perderam o irmão gêmeo. Dylan ainda amarga o luto recente pelo irmão Rocky, que faleceu em um acidente. Ambos estão inundados por uma sensação de vazio e, complementa ainda mais a amizade que se instaura entre os dois, o fato de Roman ser hetero e Dennis ser gay - assim como Rocky. Os dois estabelecem um laço que oferece suporte de um para o outro e tudo vai bem até que o roteiro resolve demonstrar que existe algo mais por trás disso tudo. O roteiro é bastante engenhoso e faz tudo se (embolar e) encaixar com perfeição, funcionando de forma bastante convincente, especialmente pela mistura de drama com o senso de humor perigoso - que funciona surpreendentemente bem com a habilidade do diretor e das atuações. A montagem do filme realça ainda mais as nuances presentes relações entre os personagens (que inclui ainda a mãe de Roman e uma colega de trabalho de Dennis). O filme é uma pérola que merece ser descoberta no streaming e já está no meu top10 do ano. 

Twinless: Um irmão a Menos (Twinless - EUA /2026) de James Sweeney com Dylan O'Brien, James Sweeney, Lauren Graham, Aisling Franciosi e Chris Perfetti. ☻☻☻☻

PL►Y: Harry Chegou Para Ajudar

Sergi: estranha amizade. 
Arrepiado diáriw, este filme francês dividiu opiniões ao chegar nos cinemas. Enquanto alguns enxergavam nele um exemplo do cansaço de filmes sobre psicopatas dos anos 1990, outros enxergaram méritos na inspiração hitchcockiana impressa pelo diretor Dominik Moll. Moll utiliza de fato uma narrativa bastante elegante na forma como apresenta os personagens, especialmente a psique perturbada do vilão, ao mesmo tempo que o herói perdido se insere em uma estranha dinâmica que não está sob seu controle. Quando Michel (Laurent Lucas) viaja com a esposa (Mathilde Seigner) e as filhas, ele nem imagina que irá reencontrar um antigo colega da escola pelo caminho. Harry (Sergi López) não vê Michel faz tempo, mas deixa claro desde o início o quanto o admirava, sobretudo os seus textos publicados no jornal da escola.  Ao que parece Michel soube organizar sua via ao lado da noiva, Plum (Sophie Guillemin), mas aos poucos percebemos uma necessidade de validação pelos olhos do antigo amigo e um exagero na forma com que deseja fazer Michel reorganizar a vida. A trama começa um tanto arrastada até que possamos perceber que existe algo fora do eixo na mente de Harry e as coisas começam a piorar quando fica clara a obsessão do personagem por Michel. É um exercício de suspense dramático lento e, talvez por isso mesmo, seja tão perturbador perceber o que se passa na cabeça do rapaz. Sergi López apresenta um ótimo trabalho, construindo um personagem de casca indefectível acima de qualquer suspeita, mas que de inofensivo não tem nada. Pena que falte a Laurent Lucas um tanto de garra para espantar a apatia de seu personagem e criar um duelo de atores de mesmo calibre, sobretudo no desfecho. 

Harry chegou para Ajudar (Harry, un ami qui vous veut du bien / França - 2000) de Dominik Moll com Sergi López, Laurente Lucas, Mahtile Seigner, Sophie Guillemin, Liliane Rovère, Dominique Rozan e Michel Fau. ☻☻☻

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pódio: Sergi López

Bronze: o amante descompromissado. 

3º Uma Relação Pornográfica (1999) Fazendo cinema desde 1991 é curioso perceber que aos poucos, o ator passou a ser conhecido pelos vários papéis de vilão que interpretou.  Como acompanho a carreira de Sergi faz tempo, sei como ele é bastante versátil em papéis mais dramáticos, cômicos e até românticos como neste filme. Basta lembrar seu personagem que responde ao anúncio de uma mulher que procura um homem para viver um relacionamento descompromissado, pornográfico e anônimo. De encontro em encontro a curiosidade sobre um e do outro se torna inevitável, assim como os sentimentos que começam a aparecer entre eles. O filme concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, mas foi Sergi que saiu de lá com o prêmio de melhor ator e sua parceira em cena, Nathalie Baye, com o prêmio de melhor atriz. Merecidíssimo!  

Prata: o vilão sanguinário. 
2º O Labirinto do Fauno (2006) Muita gente conheceu o trabalho do ator por conta de sua performance como o vilão deste sucesso assinado por Guillermo Del Toro. Na pele de Capitão Vidal, muita gente cogitou que o ator merecia uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante por sua performance assustadora (e um tanto sedutora) como um fascista sanguinário. Ambientado na Espanha falangista de 1944, ele vive o novo padrasto da protagonista que não mede esforços para conter grupos rebeldes que atuam na região. Se você ainda não assistiu a esta obra-prima, não perca tempo e descubra o melhor trabalho do prestigiado Del Toro. Uma mistura de realidade e fantasia que poucas vezes alcançou um nível tão sublime na história do cinema. 

Ouro: o amigo obsessivo. 
1º Harry Chegou para Ajudar (2000) Este foi o primeiro filme que assisti com Sergi López e me fez fã de seu trabalho. Ele interpreta Harold Balestoro, que reencontra um amigo do Ensino Médio e provoca uma reaproximação. Acontece que o Harry do título tinha uma verdadeira obsessão pelo amigo e ela se reacende. O diretor Dominik Moll usa referências hitchockianas para construir uma narrativa que evolui gradativamente e que depende muito da habilidade de Sergi transitar entre o simpático e o arrepiante em um personagem complicado de tão escorregadio. O filme rendeu ao espanhol o prêmio de melhor ator no Cesar (o Oscar francês) daquele ano e o colocou entre os melhores atores europeus de sua geração. Nascido em 1965, Sergi seque aos 60 anos ativo nas telonas. 

PL►Y: Sirât

Bruno e Sergi: leite de pedra. 
Confuso diáriw, pode me explicar como Sirât cravou sua indicação ao Oscar de melhor filme internacional no Oscar deste ano? Eu já sabia (devido as críticas de suas passagens em festivais) que dentre os cinco indicados ele era o filme mais controverso (mas sinceramente, não me importo com isso). Por aqui, o filme já recebeu uma antipatia bônus devido ao comentário infeliz do diretor Oliver Laxe sobre o Brasil ter muitos votantes no Oscar e, por isso ,qualquer coisa consegue ser indicada (oi? ele sabe quantos Oscars e indicações a Espanha já teve?). O comentário soa ainda mais irônico quando durante as quase duas horas de personagens vagando no deserto em seu filme eu me perguntei: onde está a história? O ponto de partida é um pai (Sergi López tirando leite de pedra), com o filho caçula (Bruno Núñez), chega em uma rave no meio do deserto do Marrocos procurando pela filha desaparecida. Embalado por música eletrônica por uns vinte minutos, o exército chega e  eles e a multidão conduz para fora dali, mas um grupo foge pelo deserto. Seguindo pelo meio do nada, com comida e água escassas, eles passam por adversidades enquanto a Terceira Guerra Mundial se aproxima. As dificuldades do grupo só aumenta entre um cachorro que come excrementos com LSD e um trágico acidente. O cuidado com a estética não consegue disfarçar a falta de assunto e ausência de desenvolvimento de personagens em um road movie que é uma verdadeira peregrinação (até para o público que não entende o objetivo da produção). Haja paciência para presenciar os acontecimentos ruins que recaem sobre o protagonista para fingir que existe um desenvolvimento de narrativa. O sentido do título (que na mitologia islâmica é uma ponte mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma navalha situada sob o inferno) é muito mais interessante do que o filme em si. 

Sirât (Espanha - França / 2025) de Oliver Laxe com Sergi Lopez, Bruno Núñez, Steffania Gadda, Joshua Lian Henderson, Tonin Janvier e Jade Oukid.