quinta-feira, 29 de setembro de 2011

APOSTAS PARA O OSCAR 2012 - CAPÍTULO II


J. Edgar
Já que falamos do novo filme de Clint Eastwood, não custa nada dar mais detalhes - já que o diretor anda querendo mais espaço nas premiações há uns três anos. O filme é a cinebiografia de J. Edgar Hoover, criador do FBI. Temido e admirado em iguais proporções, Hoover era símbolo da justiça dos EUA. As coisas complicam quando um segredo ameaça destruir sua reputação: a relação homossexual com Clyde Tolson (Armie Hammer, os gêmeos de A Rede Social). Levando em consideração que Hoover é interpretado por Leonardo DiCaprio, que o elenco tem nomes robustos como Naomi Watts e Judy Dench, além do roteiro assinado pelo premiado Dustin Lance Black, as expectativas são as melhores possíveis!

The Descendants
Quem também promete estar de volta ao páreo é Alexander Payne, que desde o Oscar de roteiro adaptado por Sideways (2004) andava sumido (e o fato de ter se divorciado de Sandra Oh deve ter ajudado no enclausuramento). Quem viu garante que o filme deve render algumas indicações aos cobiçados prêmios de fim de ano, especialmente para George Clooney, que interpreta o patriarca de uma família que deve fortalecer os laços com suas filhas depois que a esposa sofre um acidente. Todo mundo sabe que Payne é mestre em contar dramas sem cair na pieguice e caprichando no humor inusitado. Esta produção independente promete ganhar espaço nas disputas que culminam no Oscar. 

The Ides of March
Clooney também possui grandes ambições para seu novo filme na direção. Este thriller político (que deve se chamar Tudo Pelo Poder em terras tupiniquins) é o seu quarto longa como diretor e promete colocar as coisas nos mesmos eixos que fizeram de Boa Noite, Boa Sorte (2005) um dos queridinhos da Academia. O filme aborda a campanha de um governador (Clooney) para a presidência e os conflitos que gera no jovem idealista (Ryan Gosling) encarregado da campanha (e que nela se depara com o lado mais obscuros de sua política). Mesmo que o filme naufrague em suas intenções, um elenco que conta com Paul Giamatti, Phillip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Jennifer Ehle, Evan Rachel Wood e Jefrey Wright jamais pode ser ignorado! Porém, muita gente já garante que Gosling terá lugar nas premiações.

War Horse
Ando desconfiado deste filme de Steven Spielberg, mas tudo bem. A história da amizade entre um rapaz (Jeremy Irvine) e seu cavalo em meio a Primeira Guerra Mundial não me soa atrativo, mas vai entender o que o criador do Resgate do Soldado Ryan prepara com um plot desse nas mãos! Há quem diga que a saga do bicho vai provocar lágrimas mundo afora - mas a campanha de marketing da Dreamworks promete ser mais agressiva do que qualquer outra coisa. Spielberg se encantou com a história quando a viu no teatro e resolveu levá-la para as telas. Filme família e chapa branca que pode cair no gosto da ala mais conservadora da Academia. No elenco ainda há nomes como os de Emily Watson, Tom Hiddleston e David Thewlis. É ver para crer...

The Artist
Tido como o favorito ao Oscar de filme estrangeiro do ano que vem, The Artist começou sua carreira com o pé direito em Cannes - com o prêmio de melhor ator para Jean Dujardin. Desde então o filme tem se tornado objeto de culto por onde passa, o que só aumenta sua força para a temporada de prêmios que se aproxima. O mais impressionante é que se trata de um filme mudo e em preto e branco! O cineasta francês Michel Hazanavicius disse ter pensado muito sobre o filme e como contaria a história de um ator com a carreira em declínio entre os anos 1927 à 1931 e a ascenção de uma jovem atriz no mesmo período (que coincide com a produção dos filmes falados). É, Capitão Nascimento vai precisar de sorte...

Ladies & Gentlemen: Naomi Watts

Não deve ser fácil carregar um sobrenome como Watts, afinal, nos lembra energia, choque elétrico, luzes de tudo mais. Sorte que Naomi Ellen Watts consegue carregar um nome desses em grandes problemas. Claro que houve um tempo que ela era apenas mais uma atriz querendo aparecer em bons filmes à altura de seu talento, mas Naomi ainda é um caso curioso que precisou apenas de um longa de sucesso para ser colocada entre as melhores atrizes de Hollywood. Naomi nasceu na Inglaterra em 1968 e a vida familiar da loura não foi fácil, seus pais se separaram quando tinha apenas quatro anos e o pai faleceu quatro anos depois. Seu pai era engenheiro de som do Pink Floyd e sua mãe era um hippie meio destrambelhada que tinha a ideia fixa de dar a guarda de Naomi e seu irmão para os avós. Aos quatorze anos Naomi foi morar em Sidney, onde começou a fazer cursos de interpretação e conheceu sua melhor amiga, Nicole Kidman.   Aos 18 anos se aventurou numa mal fadada carreira de modelo, a qual a atriz quer esquecer até hoje. Enquanto a carreira de atriz não deslanchava trabalhou no comércio e depois com um editor de revistas de moda - além de dedicar-se ao judô (esporte pelo qual chegou a participar de alguns campeonatos). Quando a vida artística voltou aos eixos foi  para uma participação em filmes pouco conhecidos como For love alone (1986), Flertando (1990) e séries de TV. Do seu período de anonimato os filmes mais conhecidos são (o legal) Matinee (1993),  Tank Girl (1995) e a voz usada em Babe 2 (1998). Mas, quando Naomi foi escalada para trabalhar com David Lynch em Mullholand Drive (1999) que as coisas mudaram de rumo. Está certo que MD era uma série de TV que acabou rejeitada, engavetada, reciclada e lançada só em 2001 com prêmios em Cannes e indicações a prêmios importantes como o Oscar. Mullholand Drive virou Cidade dos Sonhos e deu ao mundo uma atriz capaz de tirar o fôlego da plateia sobre o efeito da mente criativa de Lynch. O filme se tornou sucesso mundial e colocou Naomi no páreo pelos grandes papéis. Ela não parou mais, enfileirando o sucesso O Chamado (2002), o namoro com Heath Ledger nas filmagens de Ned Kelly (2003), trabalho com James Ivory em À Francesa (2003) e a consagração deifinitiva com  21 Gramas de Alejandro Gonzalez Iñarritú no mesmo ano. Este último lhe rendeu o prêmio de atriz em Veneza e sua merecida primeira indicação ao Oscar.  Naomi ainda ganhou espaço em produções independentes como na troca de casais de Tentação (2004), a participação especial em O assassinato de um presidente (2004) e exercitou seu lado cômico em Huckabees (2004) e Elle Parker (2005) - onde reviveu a personagem de um curta de 2001. Enfileirando vários projetos por ano ela ainda arranjou tempo para a continuação de O Chamado, ser a musa do  King Kong de Peter Jackson e uma das peças de A Passagem de Marc Foster - tudo isso em 2005. Workaholic assumida, ela diminuiu o ritmo em 2006, fazendo a voz de um dos coelhos do novo filme de David Lynch, Império dos Sonhos e tentou uma vaga no Oscar com O Despertar de uma Paixão. Se os prêmios ignoraram sua atuação, pelo menos nas filmagens ela conheceu o esposo Liev Schreiber, com quem está junto há seis anos. Depois do casamento, a atriz diminuiu o ritmo para dar conta das duas vezes em que engravidou (que gerou Alexander Pete em 2007 e Samuel em 2008), mas ainda assim arranjou tempo para atuar no remake de Violência Gratuita (2007) de Michael Haneke e o badalado Senhores do Crime (2007) de David Cronenberg, que vivem dizendo que terá uma continuação. Em 2009, com outra gravidez no currículo, sua partipação em Trama Internacional de Tom Tykwer foi modesta, mas não atrapalhou seu vigor no maternal Destinos Ligados de Rodrigo Garcia. Ano passado, Naomi quase trabalhou com Nicole Kidman em Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010) de Woody Allen, mas Nic acabou desistindo do papel por problemas de agenda. O filme de Allen foi exibido em Cannes assim como Jogo de Poder (2010), mas nenhum deles fez o sucesso esperado. Este ano, Naomi está em três filmes inéditos por aqui: A Casa dos Sonhos (ao lado do casal Rachel Weisz e Daniel Craig), The Ipossible (com Ewan McGregor) e o ambicioso J. Edgar de Clint Eastwood estrelado por Leonardo DiCaprio, Armie Hammer e Josh Lucas, que deve figurar entre os mais cotados para o próximo Oscar. Resta cruzar os dedos...

Naomi e Liev: de amantes na tela para o "casal mais feliz de Hollywood"!

DVD: Jogo de Poder


Sr. & Srª Plame: casamento ameaçado pela era W. Bush.

Doug Liman é um diretor esperto, mas certo dia acordou de manhã e resolveu se tornar um diretor sério. Com a pompa de ter feito sucessos do porte de Sr. & Srª Smith (2005) e A identidade Bourne (2002), além de cultuados filmes independentes como Curtindo a Noite (1996) e Vamos Nessa (1999), demonstrou seu interesse em levar para as telas a história da agente da CIA Valerie Plame. Plame era uma renomada agente secreta da Inteligência Americana que trabalhava nas investigações da existência de armas de destruição em massa no Iraque. Ela e sua equipe investigavam para descobrir a verdade que George W. Bush tanto queria esconder no mundo pós-11 de setembro de 2001: que não havia ameaça nuclear no Iraque. Quanto mais as investigações de Plame apontavam na direção contrária dos interesses do governo, mais as pessoas envolvidas nas missões organizadas por ela se arriscavam no território inimigo. As coisas pioraram mesmo quando em 2003 seu esposo diplomata começou a confrontar os interesses do presidente americano e a identidade de sua esposa foi revelada - colocando em risco a vida da família, dos colaboradores, das missões e, especialmente, o casamento dos Plame. O estopim de tudo foi uma prosaica indicação de Valerie para que seu marido fizesse uma viagem à Niger para estudar as ameaças que o país apresentava. O caso ganhou os programas de televisão, os jornais, tornou-se um escândalo deixando Valerie em um limbo onde suas missões foram abortadas, seus aliados civis assassinados, restando-lhe apenas ofensas na mídia e brigas com o marido. Sem dúvida esta é uma história que merecia ser contada, mas está longe de merecer a abordagem que Liman confere ao filme baseado no livro de memória de Valerie. Embora tenha concorrido à Palma de Ouro em Cannes no ano passado, o filme padece do diretor querer dar um passo maior que a perna, agregando tantas informações (que se confundem com subtramas) que acaba perdendo ritmo (que é perfeito em sua tensão na primeira meia-hora de filme) tornando-se cada vez mais arrastado. É até interessante a forma como utiliza cenas de notíciários reais para entremear a história, mas demora uma hora contruindo as missões de Valerie para depois expor o drama a que sua família se submete - sem nunca deixar explodir a tensão que emana das relações fragilidades. Chega a dar pena de Naomi Watts que tenta entregar uma atuação digna de prêmios, mas o filme não ajuda, sempre com a marcha emperrada.. Tentaram até usar como desculpa o fato de Valerie ser uma mulher séria e com nervos quase de aço, mas o problema não é a concepção que Watts faz do personagem (que é irretocável), mas da atmosfera que está ao seu redor. Nem Sean Penn, que vive seu esposo, Joe Wilson,  ajuda. Penn e Naomi são atores competentes que já demonstraram que dão caldo juntos em outras produções (21 Gramas/2003 e O Assassinato de um Presidente/2004), mas aqui, enquanto Naomi se esforça, Penn consegue ser apenas chato e pedante. Embora Liman deixe algumas cenas em que Naomi pode brilhar no caos de sua personagem, ainda é de uma crueldade sem tamanho tirar-lhe a cena final onde utiliza cenas da própria Valerie Plame falando sobre os acontecimentos em juízo. A impressão é que Liman tenta fazer um filme explosivo mas se perdeu tanto entre os meandros da história real que não soube escolher o que seria melhor para o seu filme - que deve agradar mesmo só os antiamericanistas. O resultado soa pretensioso e frio, uma espécie de Sr. & Srª Smith sem muito o que fazer, mas ainda assim, sorte que a história, por si só, já prende a atenção até o fim. Imagino uma trama dessas nas mãos de Ridley Scott ou Fernando Meirelles - iria, com perdão do trocadilho, bombar!
 
Jogo de Poder (Fair Game/EUA-2010) de Doug Liman com Naomi Watts, Sean Penn, Noah Emmerich, Ty Burrell e Sam Shepard.

Combo: Marginália

Tropa de Elite 2 com todas as suas qualidades é um exemplo de um gênero que se consolidou na década passada em nosso cinema brasileiro. Filmes de estética crua, um verniz de crítica social e qualidade técnica irretocável ao contar histórias violentas. Nem sempre a fórmula funciona (basta ver a carreira pífia de 400 contra 1 no ano passado ou o fracasso de Salve Geral) e em outras torna-se algo diluído (Meu Nome não é Johny, Federal e Assalto ao Banco Central). A seguir destaco cinco filmes que se tornaram clássicos do gênero e sucessos de maior ou menor escala deste tipo específico de cinema brasileiro.

05 Carandiru (2003) é a única trama paulista deste Combo. O filme de Hector Babenco pode não ser nenhuma Brastemp, mas chegou a concorrer à Palma de Ouro em Cannes, disputou vaga no Oscar e ainda se tornou um sucesso de bilheteria maior do que o badalado Cidade de Deus. Inspirado no livro de Dráuzio Varela o maior problema do filme foi tentar equilibrar diversas histórias de prisioneiros da famosa casa de detenção em mais de duas horas de filme. Neste ponto cabe pensar como o cinema sai perdendo com relação à noção de tempo a que se dedica à uma obra. O livro Estação Carandiru pode ser esmiuçado numa leitura por meses, mas o filmes tem que ter duração mais curta e nisso alguns aspectos importantes se perdem. Um deles é a própria postura do médico narrador que no longa torna-se passiva diante do que vê e a outra é o sensacionalismo piegas com que algumas coisas são mostradas. Ainda assim o filme trás personagens inusitados para o nosso cinema, como Peixeira (Milhem Cortaz), Zico (Wagner Moura) o boa praça Sem Chance (Gero Camilo) e sua noiva Lady Di (Rodrigo Santoro) em meio ao massacre que se aproxima. 

04 Madame Satã (2002) Menos sobre prisioneiros, bandidos de facções criminosas e policiais corruptos, o filme de Karim Aïnouz é sobre a sensação de inadequação que caracteriza algumas pessoas como marginais - que em sua concepção mais pura constitui-se de um sujeito que vive à margem dos padrões sociais - o que não impede de que sejam figuras culturalmente riquíssimas. Madame Satã é um filme sobre João Francisco dos Santos, negro, homossexual, pobre, presidiário, pai amoroso de sete filhos, malandro e performer da Lapa carioca que estabelecia uma sexualidade híbrida em suas performances. Madame apresenta-se na noite boemia, lutando por respeito com golpes de capoeira e se metendo em algumas confusões. Esteticamente irretocável o filme conta com uma atuação avassaladora de Lázaro Ramos e de um elenco formado por Marcélia Cartaxo e Flávio Bauraqui, como integrantes de uma família incomum de desassitidos. Em cores em tom de vermelho e preto, Aïnouz conta uma história que flerta o tempo todo com o que há de real e de mito na construção deste personagem da noite carioca.

03 Tropa de Elite (2007) Já disse antes que não sou muito fã do filme de José Padilha, mas é impossível não perceber como o filme mostra um viés diferente para o gênero em questão. Não trata de bandidos ou figuras da noite, trata de policiais. Mas não são policiais quaisquer, trata-se dos mais preparados da tropa carioca, o BOPE, uma tropa que faz juz ao título do filme. Quem viu o documentário Notícias de uma Guerra Particular (1999) vai identificar muita coisa deste filme e não é por acaso. Baseado no livro A Elite da Tropa (escrito por Rodrigo Pimentel, um dos entrevistados mais notórios do obrigatório documentário) o filme aborda os bastidores da visita do Papa ao Rio de Janeiro no ano de 1997, para isso conta a preparação dos integrante do BOPE e alguns aspectos pouco lisonjeiros da polícia carioca. Entre cenas cruas, trêmulas e predominantemente violentas, nasce um dos maiores (se não for o maior) herói do cinema brasileiro: Capitão Nascimento (Wagner Moura). Acusado de fascista na Europa, o Festival de Berlim não estava nem aí quando enxergou os méritos do filme que esgarçava a ferida e lhe entregou o Urso de Ouro em Berlim. 

02 Cidade de Deus (2002) Eu sei que tem gente que vai me apedrejar por não ter posto Cidade de Deus no topo da lista, mas não quero dizer com isso que o filme não seja tudo o que todos já disseram. Fernando Meirelles mostrou que o cinema brasileiro tinha condições de construir um blockbuster mundial e com qualidades técnicas nunca antes vistas num mesmo filme. A inovação estética foi tão gritante que o Oscar se rendeu a ele lhe dando quatro indicações: fotografia, roteiro adaptado, direção e edição - abrindo portas para todos os indicados no cinema mundial. A saga do menino que sonha em ser fotógrafo (Alexandre Rodrigues) que tem o destino cruzado com o temido traficante Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora) é repleto de cenas assustadoras e críticas sociais (as melhores estão na construção da  própria Cidade de Deus, um lugar afastado do mundo para não incomodar a elite carioca)  mostra a chegada do tráfico e do armamento pesado no subúrbio carioca. Meirelles prefere não julgar seus personagens e não tem medo de assumir o humor cruel do livro de Paulo Lins. O resultado é o que muitos consideram o melhor filme da retomada do cinema nacional.

1 Quase Dois Irmãos (2004) Acho que é o menos visto dos cinco filmes e talvez até o menos premiado, mas existe algo que me fascina cada vez mais neste filme de Lucia Murat. Dizem que Paulo Lins sentiu falta de alguns elementos ao ver Cidade de Deus e resolveu aprofundar um pouco mais algumas questões, o resultado é um dos filmes mais esclarecedores e bem escritos de nosso cinema - que aborda, modestamente, trinta anos de nossa história nacional. O filme aborda a amizade de dois homens, um branco e intelectual (Caco Ciocler) e um negro acusado de furto (Flávio Bauraqui). Os dois se conhecem desde a infância, mas se reencontram no presídio da Ilha Grande durante a Ditadura Militar na década de 1950. A relação entre os dois irá criar desdobramentos inimagináveis para a história de nosso país. Somente lá pelo final que nos damos conta do que assistimos durante a sessão: a criação de uma das maiores facções criminosas do país. Bem escrito, ousado e nada modesto, o filme conta ainda com atuações inspiradas de Maria Flor, Werner Schünemann, Antônio Pompeo e Marieta Severo.  O filme pode não ser modernoso como os outros, mas sabe extamente como contar a sua história, ou melhor, a nossa história carioca.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

DVD: Tropa de Elite 2

Nascimento: querendo pegar o Oscar na marra!

Agora que a continuação de Tropa de Elite é o representante oficial do Brasil na disputa à vaga de Filme Estrangeiro no Oscar (derrotando títulos como Bruna Surfistinha e Malu de Bicicleta), torna-se meio que inevitável especular sobre as chances do filme. Eu prefiro ser direto e dizer para o pessoal não se empolgar, nem Cidade de Deus (2002), com toda sua projeção, conseguiu uma indicação na categoria - sendo redescoberto no ano seguinte com quatro vistosas indicações (direção, roteiro adaptado, edição e fotografia). Se Tropa de Elite 2 conseguir sua vaguinha eu vou ficar muito surpreso, menos pelas qualidades do filme e mais pela capacidade dos votantes de resistirem ao tom caótico impresso por José Padilha (já estou até vendo o filme ficando de fora e os críticos explicando que só os membros mais velhinhos costumam assistir os concorrentes às vagas de Filme Estrangeiro). Todo mundo sabe que este segundo episódio é mais maduro que o primeiro, que os personagens receberam mais camadas do que no longa anterior, mas será que a Academia quer saber disso? Tanto esforço tornou o filme o maior sucesso de todos os tempos do cinema brasileiro e é merecido (e talvez até o primeiro tivesse feito o mesmo se não fosse por toda aquela polêmica da pirataria). Ouvi dizer que o filme teve boa receptividade nos EUA e que teve uma campanha de divulgação que ignorava o fato de ser uma sequência (e o roteiro é tão coeso que torna-se independente do anterior), os distribuidores foram espertos,  até por conta do primeiro não ter sido distribuído por aquelas bandas depois de vencer o Festival de Berlim e ser chamado de fascista por críticos americanos. Toda esta situação me lembra a conversa que tive com alguns amigos na época: ver Tropa de Elite criticamente é uma coisa, vê-lo como entretenimento é outra (basta ver o bando de desmiolados que saem do cinema inspirados a matar bandidos por aí), da mesma forma, vê-lo no contexto de nossa realidade tupiniquim é uma coisa, vê-lo dissociado do que vemos nos telejornais todos os dias e outra coisa. Acho que é esse aparato nas entrelinhas que deve fazer falta nos gringos quando baterem os olhos no filme. De resto, Tropa de Elite 2 mostra os rumos do Capitão Nascimento (Wagner Moura voltando ao papel de sua vida) treze anos depois do primeiro filme, especialmente depois de uma malfadada operação num presídio, o que acarreta seu afastamento do BOPE e sua ida para a Inteligência Nacional. De tom mais intimista e depressivo que o anterior, Nascimento irá perceber que esta mudança é menos um reconhecimento e mais uma forma de afastá-lo das verdades do que ele chama de “sistema”, felizmente o tiro sai pela culatra e ele começa a desvendar o envolvimento da polícia e dos políticos com as milícias que tomaram os morros cariocas fazendo com que moradores paguem à milícia para serem protegidos da própria milícia. Pois é, o inimigo agora é outro... O roteiro ainda tem espaço para as confusões familiares de Nascimento após o divórcio e a adolescência do seu filho que está sob a guarda da mãe e do padrasto (o bom Irandhir Santos) que é um professor de história militante dos direitos humanos (no início o personagem é visto com irritante desdém, mas depois ganha contornos mais sólidos). Tropa de Elite 2 ainda é violento e não tem medo de resgatar personagens do anterior (nem que seja para descartar no meio do caminho), mas desta vez dá tempo do espectador respirar. Se existem defeitos em sua realização é o papel modesto de Tainá Müller em meio aos marmanjos (como uma repórter investigativa) e a mania de Padilha de deixar a câmera desviando de um lado para o outro para causar mal estar em quem tem labirintite. Este recurso ao invés de dar ritmo acaba enjoando lá pela metade da sessão, Tropa já tem méritos suficientes em seu estilo documental para não precisar desses recursos. Com direção vigorosa e atuações primorosas (destaque para Wagner e o vilão Sandro Rocha), vindo o Oscar ou não o terceiro filme da série deve ser lançado nos próximos anos...

Tropa de Elite 2 (Brasil/2010) de José Padilha com Wagner Moura, Sandro Rocha, Irandhir Santos, André Marques, Maria Ribeiro, André Ramiro, Milhem Cortaz e Tainá Müller. ☻☻☻

domingo, 25 de setembro de 2011

CATÁLOGO: Shortbus

 
Com a chegada de Reencontrando a Felicidade (2010) nas locadoras é provável que muita gente busque o conhecer o trabalho de John Cameron Mitchell (foto), mas é bom deixar claro que apesar de todo o tom singelo da trama protagonizada por Nicole Kidman e da cara de bom moço de seu diretor, o cara tem uma cabeça flamejante.  Famoso por ter levado às telas sua peça Hedwig (2001) sobre punk drags,  o moço resolveu radicalizar de vez com Shortbus (2006) - um filme que causou escândalo por suas cenas de sexo explícito inseridas num drama - o que não chega a ser uma novidade, apesar de raramente aparecer com tanta contundência e serventia à trama quanto em Shortbus. O título se refere a um clube onde os personagens se encontram para refletirem sobre seus dilemas sexuais e terem novas experiências na área. Mitchell escalou amigos para darem conta dos personagens de seu texto que gira em torno de um casal de homossexuais, James (Paul Dawson) e Jamie (PJ DeBoy) que aparentemente estão dispostos a aderirem ao relacionamento aberto e uma terapeuta sexual (Sook-Yin Lee) que não consegue atingir o orgasmo. É por conta do casal que ela começa a frequentar o clube do título e questionar o que acontece com seu corpo e mente, já que ama o marido mas não consegue atingir o ápice do prazer. Em suas dúvidas nem adianta utilizar explicações científicas ("para a reprodução humana o orgasmo feminino não tem obejtivo nenhum"), sua insatisfação é latente. Ao lado desses personagens existes outros tipos curiosos como a drag queen que serve de mestre de cerimônias desse point moderninho, uma dominatrix e seu namorado encoleirado, o esposo da terapeuta, um pretendente para James & Jamie, um senhor que lamenta não ter assumido sua homossexualidade e um voyeur. Há muito humor no filme, mas o que mais impressiona é a forma cuidadosa com que Mitchell constrói a história de seus personagens, com melacolia e solidão. Enquanto os mais conservadores devam reparar somente nas cenas de sexo explícito (reconheço que o começo do filme é um desafio explícito aos puristas), os mais espertos e capazes de entender um filme para adultos (com trocadilho, por favor) vão perceber que o filme trata da solidão dos conflitos internos com a sexualidade. Saber entender e articular a individualidade com o mundo é a grande questão evidenciada por Michell. O ônibus pequeno do título pode ser interpretado como um espaço fácil de acumular pessoas amontoadas, ou como o nosso corpo é capaz de abrigar diversos traços de personalidade. A criatividade de Mitchel em criar alegorias aparece em outros momentos, como a maquete de Nova York que abriga os personagens (que pode ser interpretada como a afirmação de que um filme não é capaz de captar com fidelidade absoluta a vida real, ou como todos são sujeitos que vivem no mundo criado por seu autor, ou, a melhor de todas, que é um olhar novo sobre uma cidade que cansamos de ver no cinema como um cartão postal). Você pode até se escandalizar com o filme, mas ao final da sessão terá a sensação de que viu um raro caso de originalidade ao lidar com um assunto que ainda é tabu - e a trilha sonora em colaboração com  Yo La Tengo (uma des melhores bandas indies de todos os tempos) só ressalta a visão única sobre o tema. Em determinado momento um personagem diz: "é como nos anos 60, só que com menos esperança", alimentando que não há há moralismo, vulgaridade ou hipocrisias no filme, trata-se de uma obra que trabalha a sexualidade com rara naturalidade (graças a um diretor que almeja estimular um músculo que ainda precisa ser muito trabalhado na espécie humana: o cérebro).    

Lee e Barker: falta algo nesse casamento...

 Shortbus (EUA-200) de John Cameron Mitchell com Sook-Yin Lee, Raphael Barker, Paul Dawson, PJ DeBoy, Jay Brannan, Peter Stickles e Lindsay Beamish. ☻☻☻

CATÁLOGO: Trama Internacional


Clive e Naomi: lutando contra um vilão abstrato.

A cada filme que realiza, tenho mais certeza que o mais sem graça de Tom Tykwer é Corra, Lola, Corra (1998), o cult moderninho que revelou o diretor, mas que com um olhar mais atento tem o maior sabor de pastel de vento. Embora o meu favorito continue sendo Perfume (2007), o que ele faz nesse Trama Internacional é louvável. Selecionado para abrir o Festival de Berlim em 2009 o filme é tão ambicioso quanto todos os outros do diretor alemão, a diferença é que trata-se de um legítimo filme de ação - algo que até então o diretor não havia experimentado. Ambientado em diversos países, o filme acompanha um agente da Interpol, Louis Sallinger (Clive Owen, competente como sempre) que a partir de um caso de assassinato retoma suas investigações de que existe um grande esquema de corrupção dentro de uma corporação financeira. Ao seu lado, Sallinger possui somente um promotora de justiça de Manhattan (Naomi Watts, numa participação menor do que se esperava) que acredita em suas argumentações.  Com locações em Berlim, Lyon, Milão, Nova York e Istambul, o filme mostra como os esquemas bancários possuem ramificações e poder mundial, por isso o roteiro é capaz de transformar um banco em vilão internacional a ser temido. Apesar de beber em referências que vão de James Bond à Jason Bourne, o filme consegue exalar boas ideias ao não se perder em frescuras. Embora tenha cenas de ação de tirar o fôlego, sabe exatamente equilibrar isso com as peças de sua trama - onde cada personagem representa alguma coisa. Nessa proposta enxuta, chega ao ponto de não detalhar muito os seus protagonistas, por isso mesmo precisava de atores capazes de transmitir a índole de seus sujeitos com posturas e olhares. Owen por exemplo  tem até algumas informações sobre o seu personagem para trabalhar, mas de sua vida pessoal pouco se sabe. Ao contrário da personagem de Naomi (que numa breve cena aparece em sua vida domiciliar tranquila) que tem como maior característica exalar confiabilidade (sua participação no filme ficou comprometida por ter acabado de ser mãe e ter pouco tempo para as filmagens). Com todas as suas qualidades o filme garantiu parte de sua fama por ser o primeiro a conseguir permissão para filmar no Museu Guggenheim - e comemora a oportunidade com muitos tiros de metralhadora. Em tempo, vale dizer que Tykwer prova nas cenas do museu toda a sua habilidade de realizador, com movimentos, cortes e ritmo precisos e efeitos que conseguem fundir perfeitamente o icônico museu com sua réplica construída em Berlim. Até o fim - que está longe de parecer um ponto final numa trama de vilão tão abstrato - Tykwer conquista a prateia com uma trama de suspense adulta e sem firulas.

 Trama Internacional (The International/EUA-2009) de Tom Tykwer com Clive Owen, Naomi Watts, Armin Mueller Stahl e Felix Solis. ☻☻☻

DVD: Rio


Rio: sucesso na mira do Oscar.

Outra animação que já chegou às locadoras é Rio, o sucesso de Carlos Saldanha que tem fortes chances de ser indicado ao Oscar de animação desse ano. O diretor brasileiro já havia provado que era capaz de criar filmes que magnetizassem o público como na trilogia Era do Gelo (ele não dirigiu o primeiro, mas foi co-diretor) e visualmente arrojados (especialmente no subestimado Robôs), em Rio ele mistura essas duas habilidades de forma muito convincente. A história da arara azul Blu (voz de Jesse Eisenberg) que pelo contrabando de animais acaba nos Estados Unidos sobre os mimos de uma menina. Vários anos depois essa menina cresceu e Blu, domesticado, não sabe nem voar. É quando um especialista brasileiro (voz de Rodrigo Santoro) em pássaros silvestres o descobre e tenta convencer Blu e sua dona de que devem ir para o Brasil para que o pássaro conheça a última de sua espécie, Jade (voz de Anne Hathaway) e procriar. O mais bacana do roteiro é criar conflitos entre Jade e Blu. O maior deles é o fato de serem os últimos da espécie e não se interessarem um pelo outro, pelo menos não no primeiro momento (é delirante demais imaginar que entre os pássaros o amor também é algo construído?). Esta ausência de afinidade parece relacionada, especialmente com os medos do domesticado Blu em viver por conta própria no mundo exterior ao confinamento a que se acostumou enquanto Jade só pensa em sair do confinamento. O filme procura se equilibrar entre os pós e contras das visões de mundo de seus protagonistas (que de certa forma se reproduz nos humanos que cuidam deles) e o fato das araras azuis acabarem roubadas pelo tráfico de animais silvestres é o estopim de uma aventura que deve ensinar a Blu como se deve usar as asas. De visual arrebatador e de roteiro simples, o filme caiu em cheio no gosto do público (especialmente o brasileiro, que lhe deu uma bilheteria maior que a de Titanic) mas rendeu algumas críticas ao seu realizador. Reclamaram que o filme é paradisíaco demais, que retirou as favelas dos morros cariocas (ué, aquele lugar onde moram os traficantes de animais é o que? A Barra da Tijuca?), que os personagens de índole duvidosa do filme são mais bronzeadinhos, reclamaram dos micos trombadinhas (ideia que já aparecia naquele polêmico episódio dos Simpsons)... francamente, queriam uma desenho para crianças ou a versão animada de Cidade de Deus em 3D?! Não lembro de terem reclamado que não aparecia homens bomba em Aladdin ou a miséria dos países africanos em Rei Leão! A reclamação é tão descabida quanto a dos professores intelectualóides que reclamaram que em Entre os Muros da Escola não aparecia a vida dos alunos fora da escola (será que eles souberam ler o título do filme?). Embora alguns personagens pudessem ser mais explorados, Rio não caiu na bobagem de trair o seu público em nome do politicamente correto e resgata elementos de um Rio de Janeiro que é bonito de se ver, bem diferente do que aparece nos jornais todos os dias (que é tão real quanto os que aparecem nas novelas da Globo!).

Rio (EUA-2011) de Carlos Saldanha com vozes de Jesse Eisenberg, Anne Hathaway e Rodrigo Santoro. ☻☻☻ 

DVD: Enrolados


Rapunzel e Flynn: agradável de se ver e ouvir (apesar da voz de Luciano Huck)

Enrolados também é um filme que busca dar uma conotação moderninha a um clássico infantil. Este parece ser o caminho escolhido pela Disney para voltar a ser referência de sucesso em animação após ter perdido território para a Pixar. Embora esta opção recicladora tenha mais relação com o tapa com luva de pelica que recebeu de Shrek (que é da Dreamworks) e seu bando. Esta relação fica ainda mais evidente quando levamos em consideração sua versão repaginada de A Princesa e o Sapo (onde ao beijar o príncipe, a garota que se transforma numa sapa, ou seja, quase uma Fiona!). A reciclada dessa vez é Rapunzel, aquela das longas tranças que serviam de cordas para que fosse visitada pelo príncipe na torre onde era prisioneira de uma bruxa cruel. Sei que parece bobagem, mas fiquei pensando o que as feministas diriam de um príncipe que vive puxando os cabelos de sua amada... enfim, a Disney tinha a tarefa de tornar o clássico palatável a uma nova geração de fãs. O sucesso de bilheteria serviu para comprovar que o resultado é bem agradável de se assistir, mesmo convertendo seu casal principal em uma dupla de aventureiros (o cabelo de Rapunzel é quase uma habilidade mutante de uma X-Men!)o resultado é bem convencional. Rapunzel continua vivendo numa torre aprisionada por uma megera, mas não tem tranças (afinal, o penteado saiu de moda!). Achei interessante o fato de colocarem a vilã da história colocando um monte de caraminholas sobre o mundo exterior na cabeça da menina para evitar que ela saia de sua torre - uma tática mais sutil que a vista a na história original (e que conheço um monte de mães e pais que usam a mesma estratégia). Desta vez, Rapunzel não conhece exatamente um príncipe, mas um rapaz esperto com pinta de canastra e voz de Luciano Huck (o que esse pessoal tem na cabeça?) que empresta a voz para a versão dublada nacional. Flynn Rider é um anti-herói que lembra um pouco Robin Hood - e que acaba encontrando a torre da mocinha em meio à uma fuga, já que é procurado pela guarda do reino. Ao contrário da trama dos Irmãos Grimm, Rapunzel deixa a torre para viver aventuras com o seu companheiro, mas só lá pelo meio que se apaixonam. É engraçado como o roteiro brinca com o contato de sua heroína com o mundo exterior (incluindo um momento impagável de bipolaridade) até que a garota conhece sua verdadeira história. Bem realizado e com roteiro redondinho o filme agrada principalmente as crianças, mas os adultos (especialmente os mais nostálgicos, com saudades dos antigos filmes da Disney) não terão do que reclamar. Talvez por ser assumidamente inspirado nos clássicos, que o filme tenha ficado de fora na disputa do Oscar de animação desse ano (concorreu somente ao prêmio de melhor canção). Isso não deve ser problema para as vendas do DVD no dia das crianças que se aproxima.

Enrolados (Tangled/EUA-2010) de Nathan Greno e Byron Howard com vozes de Mandy Moore, Zachary Levi e Donna Murphy. ☻☻☻ 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

DVD: A Garota da Capa Vermelha


Seyfried: a nova aventura crepuscular de Hardwicke.

Virou moda reciclar clássicos da literatura infantil. O estopim de tudo isso pode ser o sucesso de Shrek (2001) que já rendeu filmes como Deu a Louca na Chapeuzinho (2005),  mas agora a moda é transformar os clássicos em obras para os mais crescidos como ocorreu no o decepcionante Alice no País das Maravilhas (2010), e o menos badalado Fera (2011). Agora é a vez de A Garota da Capa Vermelha (2011) chegar nas locadoras. O fato é que sua diretora, Catherine Hardwicke, ainda me deve um filme bom. Pode parecer implicância, mas ainda não consegui ver nada de interessante no cinema desta diretora, todos me soam primários demais (mesmo o badalado Aos 13, lançado em 2003). Podem dizer que ela tem sintonia com os anseios do público adolescente, mas nem isso me convence (afinal, se ela entende tanto assim de adolescentes, porque o seu sucesso de bilheteria é o tosco Crepúsculo/2008 , que é no mínimo um xarope que deu sorte de ter Robert Pattinson entre os iungredientes). Catherine resolveu pegar a história da Chapeuzinho e dar uma conotação mais adulta e o resultado consegue ser mais infantil que o original (precisa dizer as simbologias originais da escolha da cor vermelha ou o que significa a ameaça do Lobo Mau?). Hardwicke até decorou o discurso literato de que os clássicos infantis lidavam com questões morais e retratavam um período obscuro na forma como as crianças eram tratadas, mas daí fazer um triângulo amoroso onde uma das vértices é um lobisomen... a coisa complica! Considero impressionante a cara de pau com que o roteiro utiliza recursos manjados para contar sua história: Valerie (Amanda Seyfried, que é até talentosa, mas precisa mudar de agente se pretende ser levada a sério) está prometida para um rapaz (Max Irons, o filho de Jeremy Irons), mas é apaixonada por um amigo de infância (Shiloh Fernandez) com o qual vive se amassando por aí. Nem vou levar em consideração que a trama parece ser ambientada na Idade Média, mas todos se comportam como se vivessem no século XXI (inclusive o discurso modernoso de Shiloh e seu cabelo arrepiado). Para incrementar a trama meteram um lobisomen no lugar do lobo mal. A ideia podia ser até interessante se Hardwicke não parecesse querer fazer um novo Twilight, chegando ao ponto de escalar o ator Billy Burke (o pai da insossa Bella de Kirsten Stewart) para ser o pai de sua chapeuzinho. Embora as qualidades técnicas e do elenco sejam infinitamente superiores a Crepúsculo, o filme não empolga por não acertar no tom da narrativa. Não parece um romance, um filme de terror ou uma aventura, são apenas ideias mal alinhavadas nas mãos de uma diretora que ainda precisa comer muito feijão com arroz. Se existe algo que chama atenção em suas obras recentes é não ter medo de parecer ridículo (a cena em que Valerie conversa com o Lobisomen a primeira vez é de rolar de rir), mas é preciso ter muito pulso para saber converter isso em algo positivo. Arrecadando menos nas bilheterias americanas (37 milhões) do que custou (45 milhões) o filme joga fora uma boa direção de arte e uma fotografia bem cuidada - e esses aspectos podem até fazer o longa parecer melhor do que é. Resta agora esperar a nova versão de Branca de Neve na pele de Kirsten Stewart (medo!) tendo que sobreviver à sua madrasta (Charlize Theron).

A Garota da Capa Vermelha (Red Hidding Hood/EUA-2010) de Catherine Hardwicke, com Amanda Seyfried, Max Irons, Gary Oldman, Shiloh Fernandez, Virginia Madsen e Max Irons.    

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DVD: O Ritual

Hopkins e O'Donoghue: mais do mesmo.

O Ritual é um filme de terror que já começa por um tema batido: o exorcismo. Depois a coisa piora com o pôster mostrando Anthony Hopkins fazendo mais uma vez aquele olhar de Hannibal, mas dessa vez o ator inglês não interpreta um canibal elitizado, mas um padre que vive desafiando o coisa ruim. Apesar disso, o filme tem até um ponto de partida original ao mostrar um curso de formação de exorcistas, mas a coisa não é desenvolvida como deveria. O tema em si sempre chama a atenção dos fãs - árduos por um filme de terror que saiba dar sustos e alguma densidade psicológica - o mais engraçado é como o filme começa cheio de ideias até originais que vão sendo abandonadas gradualmente até que tudo se resuma ao mais trivial feijão com arroz - e, ironicamente, o filme cospe no prato em que come: o clássico O Exorcista (1973), para depois ficar cada vez mais parecido com ele. Claro que para tudo que acontece existe a proteção de um enorme clichê (ser inspirado em fatos reais). É interessante quando tenta acompanhar os dilemas do jovem Michael (o estreante Colin O'Donoghue) que desde sempre soube que sua família lhe oferece duas opções de carreira: ser padre ou agente funerário. Ele não se empolga com nenhuma das duas opções, mas (nunca fica muito explicado) escolhe ir para o seminário (e todas as suas famosas restrições), mas pretende desistir de tudo após concluir seus estudos para padre. Depois de alguns acontecimentos que tentam fazê-lo reencontrar a fé ele é escolhido para aprender o ofício de exorcista em Roma. Lá conhece o esquisito padrexorcista Lucas Trevant (Hopkins) e a repórter Angeline (a brasileira Alice Braga, novamente correta e subaproveitada), não precisa ser muito esperto para saber que um simboliza o caminho do celibato e o outro as tentações que encontra pelo caminho. Se o filme se restringisse às indagações de Michael entre o seu ceticismo e a fé o resultado poderia ser mais satisfatório do que os caminhos que o roteiro segue de forma cada vez mais brusca. A ideia bacana de colocar o chifrudo ameaçando uma doce jovem grávida (Marta Gastini, numa atuação impressionante), logo se dilui para caminhos cada vez mais óbvios. Não há surpresas ou sustos quando vemos que o capeta encontra abrigo em quem antes o ameaçava e aí o filme joga tudo que prometia ladeira abaixo. Apesar disso, O Ritual não é um filme ruim, apenas fraquinho por abandonar suas melhores ideias pelo que já foi visto dezenas de vezes, inclusive no filme que faz chacota. Em determinada cena Hopkins diz após um trabalho de exorcismo: "O que esperava? Cabeças girando? Sopa de Ervilha?" parece uma provocação e de fato é, pena que não coloque nada memorável no lugar (pessoas cuspindo pregos?!) como fez o mais corajoso O Exorcismo de Emily Rose (2005). No fim das contas os maiores elogios ficam por conta da coragem de Colin que mesmo não sendo um ator impressionante,  aceitou enfrentar Hopkins  e o fato de Mikael Hafstöm convencer gente o porte de Rutger Hauer e Maria Grazia Cucinotta para serem figurantes de luxo. 

O Ritual (Rite/EUA-2011) de Mikael Hafström com Colin O'Donoghue, Anthony Hopkins, Alice Braga, Ciarán Hinds, Toby Jones e Marta Gastini. ☻☻  

terça-feira, 20 de setembro de 2011

APOSTAS PARA O OSCAR 2012 - CAPÍTULO I

Com a chegada do outono nos EUA, o término do Festival de Veneza e a realização do emergente Festival de Telluride (realizado numa pequena vila em meio às montanhas rochosas do estado americano do Colorado) que tem demonstrado cada vez mais influência nos esboços das disputas de fim de ano, começamos a ter ideia de quem deve fazer bonito entre os melhores de 2011. Estão abertas as apostas e cinco filmes que vem ganhando força são os seguintes:

The Help
Ainda é cedo para apontar favoritos, mas The Help era visto somente como um filme simpático até entrar em cartaz e começar a fazer grande sucesso com uma poderosa campanha boca a boca. O roteiro que explora o efeito de entrevistas com mulheres negras em meio à luta pelos direitos civis num subúrbio do Tio Sam chamou a atenção pela mistura de drama e humor. No elenco, Emma Stone, Jessica Chastan, Sissy Spacek e (a especialmente aclamada) Viola Davis devem disputar seu lugar ao sol perante a Academia. O diretor novato Tate Taylor promete frescor entre as produções sisudas de fim de ano.  

Carnage
É sempre bom ficar de olho nos trabalhos de Roman Polanski, especialmente se ele tem nas mãos um material tão explosivo como o premiado texto da peça O Deus da Carnificina e um elenco do porte dos ganhadores de Oscar Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e o já indicado John C. Reilly. O filme acompanha o encontro de dois casais que tentam discutir as pendengas do filho de um que agrediu o filho do outro. Tudo poderia ser resolvido se a agressividade da conversa não crescesse gradualmente. Precisa dizer que é um dos filmes mais aguardados deste fim de ano?

We Need to Talk about Kevin
A temática é parecida com a de Carnage, mas o roteiro vem de outra inspiração: o livro (arrepiante) de Lionel Shriver. Kevin é um garoto que resolve entrar na escolar e matar alguns colegas. O filme explora os sentimentos contraditórios de sua mãe e o peso da responsabilidade sobre os atos dele. O elenco também conta com John C. Reilly - mas quem deve chamar a atenção dos votantes é Tilda Swinton no papel da mãe e o novato Ezra Miller como o rapazinho do título. A direção de Lynne Ramsay pode não ser perfeita, mas deve garantir que a produção figure em algumas categorias.

The Iron Lady
Mais uma vez a disputa de Melhor Atriz deve ser acirrada, para azeitar ainda mais a corrida pelo ouro a recordista de indicações ao Oscar (Meryl Streep) está de volta com a intenção de levar para a casa sua terceira estatueta. Esta cinebio da primeira dama da Grã Bretanha Margareth Thatcher traz mais uma atuação impressionante da atriz - o que levanta suspeitas é a direção de Phyllida Lloyd (do questionável Mamma Mia!), mas nada que prejudique as intenções e repercussão da atuação de sua estrela.  

Albert Nobbs
Para aumentar a tensão da disputa, nada melhor do que o retorno de uma veterana com cinco indicações e nenhuma vitória: Glenn Close. Close passou os últimos anos ganhando prêmios nos palcos e produções para a TV, só os deuses do cinema sabe o efeito que isso terá nas votações, mas o fato é que sua atuação sob a batuta de Rodrigo Garcia em Albert Nobbs lhe dá a chance de finalmente ser premiada pelo papel da mulher que se passa por homem na Irlanda do século XIX. O que pesa contra é o fato do papel já ter premiado Close no teatro. Ainda no elenco Mia Wasikowska e Johnatan Rhys Meyers. 

domingo, 11 de setembro de 2011

FESTIVAL DE VENEZA 2011

Fassbender: cavando sua vaga no Oscar.

Apesar de contar com esperados novos filmes de diretores célebres em Hollywood como David Cronenberg (A Dangerous Method), George Clooney  (The Ides of March), Roman Polanski (Carnage), William Fredkin (Killer Joe) e Todd Solondz (Dark Horse), o júri presidido por Darren Aronofsky (que exibiu Cisne Negro no Festival do ano passado) deu preferência aos filmes que estão bem distantes dos filmes americanos. A exceção foi Michael Fassbender (famoso por seu Magneto em X-Men First Class) que foi aclamado por sua atuação como ninfomaníaco no polêmico Shame (o cara tem quatro filmes que não devem passar em branco neste ano e este promete uma vaga nas premiações de 2011). A seguir todos os premiados da edição deste ano:

LEÃO DE OURO DE MELHOR FILME: "Faust" (de Aleksander Sokurov)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: "Terraferma" (de Emanuele Crialese).
LEÃO DE PRATA DE DIREÇÃO: Shangjun Cai (por "People Mountain People Sea").
COPPA VOLPI - MELHOR ATOR: Michael Fassbender (por "Shame" de Alexander McQueen)
COPPA VOLPI - MELHOR ATRIZ: Deannie Yip (por "Tao Jie" de Ann Hui)
MELHOR ATOR JOVEM: Shota Sometani (por "Himizu" de Shion Sono)
MELHOR ATRIZ JOVEM: Fumi Nikaidou (por "Himizu")
CONTRIBUIÇÃO TÉCNICA: Robbie Ryan (o cinefotógrafo de "O Morro dos Ventos Uivantes")
MELHOR ROTEIRO: Giorgos Lanthinos (por "Alpeis")
LEÃO DO FUTURO: "La Bàs" (de Guido Lombardi)

sábado, 10 de setembro de 2011

KLÁSSIQO: Ensina-me a Viver

Curt e Ruth: química inusitada em 40 de um clássico.

Clássico que se preze não envelhece! Melhor ainda, quando assistimos ficamos imaginando o escândalo que foi assistir aquele filme em décadas longínquas! Ensina-me a Viver está completanto 40 anos e o mais engraçado é que não envelheceu! Não estou me referindo às roupas ou penteados (que ficariam bem até em uma produção de época de hoje em dia), mas à sua essência trasngressora que deve causar calafrios até hoje nos mais conservadores. O diretor Hal Ashby deixa tudo em seu devido lugar (até mesmo as canções de Cat Stevens que dialogam com os personagens) nesta comédia de humor negro  que vez por outra ganha uma nova versão no teatro. O filme conta a história de Harold (Bud Cort, com pinta de moleque aos 23 anos), um rapaz problemático de 20 anos que se diverte fingindo suicídios diante da mãe ricaça  (enforcamento, afogamento, tiros, mutilação...) e visitando enterros de desconhecidos. Essa identificação com a morte vem do fato que sua vida é quase um sepultamento, exemplo disso é a cena em que a mãe pretende arranjar-lhe uma esposa e ao preencher uma ficha de cadastro para uma agência casamenteira ela decide as respostas dele. A vida de Harold poderia se arrastar até o dia de seu funeral, mas ele conhece Maude (Ruth Gordon, também famosa como a vizinha satanista de O Bebê de Rosemary/1969)  uma senhora de 79 anos e muita energia (às vezes até demais). Entre as travessuras de Maude se enquadra pegar carros de outras pessoas (isso sem carteira de motorista), o sequestro de uma árvore entre outras aventuras. Maude ensina Harold que a vida não precisa ser levada tão a sério e que ficar remoendo suas mazelas não ajuda. Mas, aos poucos percebemos que Maude também teve seus momentos tristes (uma inscrição em sua pele demonstra que esteve em campos de concentração). Curioso como Ashby consegue imprimir na história um tom realista que vez por outra flerta com o surreal e o imaginário - por vezes tudo parece uma grande fantasia, mas o filme tudo está de fato acontecendo -  mesmo quando descobrimos que Harold considera a amiga idosa muito mais interessante que as pretendentes que assombra nos encontros organizados por sua mãe (com direito até a arakiri no tapete do escritório). com o tempo é inevitável que Harold e Maude tenham uma noite de amor. O filme não faz escândalo com a cena, sendo simples e eficaz (e a ideia de Harold menos menino e mais homem funciona muito bem). Não é novidade que Harold & Maude não fez muito sucesso em seu lançamento, mas ao longo do tempo foi colecionando admiradores fiéis. O melhor de tudo é que aos 40 anos, o filme permanece mais moderno e inovador do que algumas comédias recentes.

Ensina-me a Viver (Harold & Maude/EUA-1971) de Hal Ashby com Ruth Gordon, Bud Cort e Vivian Pickles. ☻☻☻☻

Combo: Travestidos

05 A Gaiola das Loucas (1996) Fiquei em dúvida se colocava Nathan Lane em quinto ou Robin Williams (por Uma Babá Quase Perfeita/1993) nesta lista. Como Williams não está nem entre meus duzentos atores favoritos e sempre que penso em Lane eu lembro dele bancando a matriarca nesta comédia de Mike Nichols, bem... você já sabe quem está na lista! Lane já tinha o seu fã clube no teatro quando topou entrar nessa refilmagem da famosa comédia italiana e seu trabalho é magistral. Não me refiro aos seus trejeitos efeminados ou histerias, mas no exato momento em que se veste de mulher temos certeza de que àquela forma o personagem se completa. Lembro quando minha mãe viu o filme e se questionou porque o estranhamento perante o personagem desaparece quando dele se veste de mulher. Apesar de ser uma comédia que apela para a caricatura, Lane nos faz lembrar que todos somos pessoas, a questão de ser masculino ou feminino é algo que transcende a genitália. Acho que é essa a lição que o visitante (político conservador vivido por Gene Hackman) precisa aprender.  

04 Café da Manhã em Plutão (2005) Cillian Murphy geralmente aparece em papéis pequenos sendo coadjuvante de Christian Bale (Batman Begins/2005) ou Leonardo DiCaprio (A Origem/2010), o fato é que Murphy consegue carregar um filme nas costas facilmente e basta ver este filme de Neil Jordan para ver que o cara é competente! Por sua atuação foi até indicado ao Globo de Ouro de melhor ator de comédia/musical. Apesar do nome esquisito, Café da Manhã em Plutão é um filme que lembra muito Forrest Gump (1994), só que com cores mais... digamos... vibrantes! Murphy é Patrick, um menino que cresce sabendo ter sido abandonado pela família nos conturbados anos 1970 na Irlanda! Seus pais adotivos estão prestes a fazer o mesmo quando percebem que o rapaz vai sair do armário! Não, mais que isso: Patrick assume-se mulher! Misturando fatos históricos à trajetória de Patrick o filme conta com ótima trilha sonora, coadjuvantes de prestígio, montagem ágil e uma atuação histórica de Murphy. Deu tão certo que Murphy resolveu fazer uma versão hardcore de Patrick no recente Peacock (2010).

03 O Ano em Que Vivemos em Perigo (1982) Entre o pessoal que já vestiu as vestes do sexo oposto, o caso de Linda Hunt é um dos mais notáveis. Pra começar ela conseguiu roubar a cena de Mel Gibson e Sigourney Waver num filme de Peter Weir. O filme se passa no ano de 1965 em meio à uma revolução na Indonésia onde um repórter (Gibson) passa por perigos enquanto se apaixona por uma funcionária da embaixada britânica (Weaver) e conta com somente com a ajuda de um repórter anão. Onde Linda Hunt entra nessa história? Bem, Linda é o anão em pessoa! A atriz realiza um trabalho tão notável que colecionou vários prêmios pela atuação, incluindo o Oscar de atriz coadjuvante - um feito inédito onde um artista ganhou o prêmio por interpretar um personagem do sexo oposto.

02 Traídos Pelo Desejo (1992) Há quem diga que o filme de Neil Jordan perde muito de sua graça quando descobrimos o segredo de sua mocinha. Quase vinte anos depois de seu lançamento ainda é um SPOILER dizer que sua mocinha não é bem uma mocinha? Não é todo dia que se vê um filme que mistura travestis e terrorismo (se bem que Jordan misturou esses temas novamente em Café da Manhã em Plutão/2005). Um guerrilheiro irlnadês (Stephen Rea) promete a um soldado inglês sequestrado que, se ele morrer, cuidará da namorada dele. Terrorista de palavra, acaba conhecendo a tal: uma cantora da noite que guarda um segredo que surpreendeu muita gente - até por conta da androginia de Jaye Davidson (que desapareceu do universo depois de ter feito poucos filmes). Apesar de seu porte e traços delicados ajudar um bocado, o trabalho de composição do ator é surpreendente (o que lhe valeu uma merecida indicação ao Oscar de coadjuvante). Para curtir ao som da versão de The Crying Games de Boy George...

01 Tootsie (1982) Devo ter visto algumas dezenas de vezes esta que é sem dúvida uma das melhores comédias americanas de todos os tempos. Existem vários motivos para isso, além do roteiro saboroso (com críticas que vão do mundo artístico à forma como as mulheres são mostradas na televisão) tem uma atuação matadora de Dustin Hoffman. Hoffman é um dos melhores atores vivos do cinema americano, mas faz tempo que inventaram que ele só pode dar conta de papéis menores que seu talento. Neste, ele interpreta um ator que não consegue emprego faz tempo (alguns o acham velho demais, outros consideram que seja baixo demais,  os que sobram pensam que ele é encrenqueiro mesmo) e no desespero de ter que pagar suas contas acaba conseguindo um papel numa novela televisiva, só que fingindo ser uma mulher. Colecionando fãs e admiradores, este é o ponto de partida de um filme que brinca com as relações entre o gênero masculino e feminino com maestria. Para completar a confusão ainda contamos com atuações inspiradas de Jessica Lange, Teri Garr e Bill Murray em piadas sobre gêneros.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

DVD: Fúria


Jude: "Te cuida Gisele Bündchen"!

Dia desses me deparei com um filme que havia causado certo alvoroço no Festival de Berlim em 2009, mas que permanecia inédito nos cinemas brasileiros e em DVD. Mesmo nos EUA acho que nunca entrou em cartaz. Alguns blogs de cinema falavam do longa de Sally Potter especialmente pelos atores de seus créditos: Jude Law, Judi Dench, Adriana Barraza, Steve Buscemi, Dianne Wiest, John Leguizamo... mas vendo o filme, percebemos logo a dificuldade encontrada para sua exibição. Trata-se de um filme que tenta seguir a estrutura de um documentário, mas não é só isso. Percebemos que existe um cineasta, Michelangelo, que colocou sua câmera em meio a um desfile para registrar depoimentos dos envolvidos. Entre modelos (destaque para Law e a exótica Lily Cole) e outros funcionários que constituem a fauna dos bastidores fashion, o diretor faz indagações sobre beleza e a moda, gerando depoimentos interessantes (especialmente na fala de Judi Dench, mais elegante e do que nunca) de farpas e alfinetadas à atmosfera de glamour dos fashionistas. Mas subitamente começam a acontecer coisas estranhas no desfile, uma modelo sofre um acidente, depois outra é vítima de um atentado e assim por diante. Como o filme não tem cenário (os atores falam para a câmera diante de um fundo que muda de cor), as impressões do espectador ficam por conta da sonoplastia (tiros, gritos e helicópteros) e das atuações. Uma ideia interessante (e que concorreu ao prêmio máximo do Festival de Berlim), mas que lá pela metade começa a cansar por bater sempre na mesma tecla de ressentimentos e egos inflados (algo nada original quando se trata do mundo da moda no cinema). Apesar de ter boas atuações e ousadias (Jude Law merece atenção ao interpretar Minx, uma supermodelo andrógina que ganha destaque conforme as outras são vitimadas. Me arrisco a dizer que é uma das melhores atuações de Law, acreditem, ele está absurdamente confortável) a diretora Sally Potter merecia ter aparado algumas arestas  e ter desenvolvido melhor alguns sujeitos de seu filme (Buscemi como o fotógrafo amargurado está excepcional, mas outros com possibilidades, como Riz Ahmed, ganham menos espaço do que deveriam). Ainda que por  cansativo, o filme mostra que Potter (diretora de Orlando/1992 com Tilda Swinton e Por que choram os homens/2000 com Johny Depp) é uma diretora competente na condução de seus atores e na capacidade de gerar tensão, mesmo diante de recursos tão minimalistas - o que não é pouco, já que a diretora inglesa está longe de ser uma darling cinematográfica. Nada mal para uma pessoa que aos 16 anos decidiu ser cineasta e largou a escola.

Fúria (Rage -  Reino Unido/EUA - 2009) de Sally Potter com Simon Abkarian, Bob Balaban, Judi Dench, Patrick J. Abrams, Jude Law, Adriana Barraza, Lily Cole, Eddie Izard e Jakob Cedergren. ☻☻

DVD: Bruna Surfistinha


Deborah: boa atuação em adaptação de sucesso editorial.

Uma amiga minha disse que Bruna Surfistinha é a "garota de programa que deu certo! Com trocadilho e tudo!". Dito isso, acho que Marcelo Baldini assumiu uma série de desafios quando resolveu adaptar o livro de Bruna  para o cinema. Um deles era lidar com uma história que não era novidade para ninguém: a garota de classe média que começa a se prostituir, cria um blog que causa sensação na internet ao contar detalhes de seus dias (e noites) de labuta com clientes e, mais tarde, o lançamento de suas memórias no best seller O Doce Veneno do Escorpião. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, fazer um filme de forte carga sexual é uma das coisas mais complicadas que existem. Se escancarar fica pesado demais, perde distribuidores, público, salas exibidoras... se maneirar na pimenta fica sem graça e artificial... e qualquer uma dessas escolhas corre o risco de resultar num filme moralista ou vulgar. Vendo o filme percebe-se que Baldini não queria ser uma coisa nem outra, apesar de toda a curiosidade e especulações, o diretor quis fazer um filme sério. Claro que tem cenas de sexo, mas o diretor nunca perde de vista sua personagem e a forma como esta lida com seus sentimentos e angústias perante a profissão mais antiga do mundo. Essa busca de um equilíbrio entre o comercialmente viável e as expectativas de um filme sobre prostituição rendeu ao filme mais de um milhão de espectadores e, muito se deve, à sua atriz Déborah Secco. Não apenas por Déborah ter um vasto fã clube de marmanjos, mas porque a garota mostra que longe dos tipos cabeça-oca que insistem em lhe dar na TV, ela pode se tornar uma atriz de notas mais dramáticas. É corajosa a forma como enfrenta a transição de Bruna de garota meio tímida para um furacão sexual que torna-se a preferida de seu local de trabalho. Baldini não poupa recursos para desglamourizar qualquer ilusão de um mundo marcado por humilhações, drogas e conflitos internos que precisam se esconder por trás de uma personagem.  O roteiro faz tudo direitinho (até demais), mostra Bruna, ainda Raquel, em sua família onde os quesitonamentos eram deixados de lado com um sonoro "vamos mudar de assunto", os problemas na escola (bullying again!), a chegada ao prostíbulo, o ciúme das colegas, os primeiros clientes, as ambições, a ascenção, a queda, a retomada onde Bruna tem que lembrar quem ela é ou quer ser. Baldini não tenta fazer da trajetória de Bruna agradável para o espectador, mesmo que algumas cenas flertem com o humor (os clientes mais excêntricos, a cotação dada a eles no blog, a cena no salão de cabelereiros) o tom está longe de ser leve. Baldini além de ter escolhido bem sua protagonista, também foi muito feliz na escolha de seu elenco de apoio, com destaque para Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Cristina Lago e Cássio Gabus Mendes (que tem encontrado nas telas alguns de seus melhores momentos). Bem produzido e filmado, Bruna Surfistinha chega a surpreender pela honestidade que é feito.

Bruna Surfistinha (Brasil/2011) de Marcelo Baldini com Déborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabíula Nascimento, Cristina Lago, Juliano Cazarré e Clarisse Abujamra. ☻☻☻

CATÁLOGO: Vamos Nessa


Katie e Sarah: traficantes, aspirinas e carros raivosos.

Falando em filmes independentea (e Katie Holmes), chega a ser vergonhoso eu admitir que vi Vamos Nessa, o segundo filme de Doug Liman, pela primeira vez hoje de manhã! O filme esteve em várias listas de melhores do ano em que foi lançado (e convenhamos que não era um ano qualquer, era 1999! Ano de Quero ser John Malkovich, Beleza Americana, O Talentoso Ripley, Magnólia, Clube da Luta...) e serviu para consolidar Liman como um diretor arrojado. Antes ele havia realizado Curtindo a Noite (1996) com roteiro de Jon Favreau (diretor de Homem de Ferro), mas neste aqui ele demonstrou as qualidades que o colocaria no piloto da trilogia Bourne (2002) e em produções como Sr. e Srª Smith (2005). Basta ver as cenas de ação que realiza para ver porque o cara foi parar em filmes de ação. O mais incrível é que Vamos Nessa é uma comédia. Ok, uma comédia de ação (assim como o filme do casal Smith) só que não gira em torno de policiais ou matadores profissionais, mas de um grupo de adolescentes. Narrado em três núcleos que se interagem, Vamos Nessa tem como personagem principal a loura Ronna (Sarah Polley), que está com problemas financeiros, mesmo ficando quatorze horas trabalhando no caixa de um supermercado suburbano. Ela precisa de 300 dólares para pagar o seu aluguel e acaba conhecendo dois atores (Scott Wolf e Jay Mohr) que precisam comprar ecstasy para animar um grupo de amigos numa rave. Ronna e seus fiéis escudeiros (Holmes e Nathan Bexton) não fazem ideia que vão se meter em uma grande confusão envolvendo uma investigação sobre narcotráfico e um traficante com cara de doidão (Timothy Olyphant). Liman mostra grande competência em misturar as trajetórias dos personagens que tem nas mãos, de forma que a narrativa nunca parece forçada ou quebrada, a trama flui tranquilamente quando deixa Ronna entre a vida e a morte e volta ao início de tudo para mostrar o dia de seu amigo junkie (Desmond Askew) para depois seguir os dois atores - que se encontram às voltas com um casal estranho (Willian Fichtner e Jane Krakowski) e o risco de terem seus segredos revelados.  Neste liquidificador de tramas, sons e cortes vibrantes, Liman comprovou que sabe fazer cinema de apelo pop irresistível com orçamentos restritos e sem perder as rédeas das atuações. Não fosse por alguns exageros na trama do meio (que envolve até sexo tântrico) esta poderia ser a obra-prima de Liman - algo que ele ainda persegue, percebemos isso quando vemos sua tentativa de ser sério no recente Jogo de Poder com Naomi Watts e Sean Penn (que já chegou em DVD e que devo escrever uma resenha em breve, mas que posso adiantar que está longe de ter a energia deste aqui).

Vamos Nessa (Go!/EUA-1999) de Doug Liman com Sarah Polley, Katie Holmes, Scott Wolf, Jay Mohr e Timothy Olyphant. ☻☻☻☻

CATÁLOGO: Do Jeito que Ela é


Katie Holmes: em busca de um forno.

Quem acompanha o blog há algum tempo deve ter percebido que tenho uma queda por filmes independentes. Gosto deles porque acho que não ficam perdendo tempo com o que é acessório (efeitos especiais, exagero no uso de trilha sonora, astros que esquecem de atuar...) e esquecendo o que realmente importa. Claro que existem exceções, vícios de toda espécie e hypes que não se justificam, mas na maioria das vezes é comum ver sinceridade e originalidade nestas produções de pequeno porte que tem feito a graça dos cinéfilos desde meados da década de 1980. Do Jeito que Ela é serve de exemplo de trama que vai direto ao ponto num roteiro enxuto e que serve para boas atuações de seu elenco sem ter pretensão de ser genial ou cabeça. O filme mostra uma garota com pinta de maluquete, April (Katie Holmes, correta e antes de se casar com Tom Cruise) que deve preparar a ceia de Ação de Graças para os seus familiares que não vê a algum tempo. Como o filme é anunciado como comédia é de se imaginar que tudo que puder dar errado, dará! Não bastasse todos os ressentimentos familiares que estarão em jogo mais uma vez (todos personificados magistralmente pela mãe vivida por Patricia Clarkson, que acabou indicada ao Oscar de coadjuvante), April ainda tem problemas sérios para preparar o peru da ceia, uma vez que seu forno acaba apresentando defeito! Este fato corriqueiro irá revelar ironicamente detalhes não imaginados entre os moradores do prédio de April e ainda um pouco mais de nossa protagonista. Enquanto vemos April ser descascada diante da câmera - mostrando de debaixo do cabelo ruivo mal pintado, das roupas e penduricalhos moderninhos existe uma garota que só quer receber bem os pais e deixar para trás seu estigma  de filha problemática - acompanhamos sua peregrinação atrás de um vizinho caridoso que possa lhe emprestar o forno. O roteiro consegue ser ironico e inofensivo ao mesmo tempo, desenvolvendo seus personagens com honestidade e auxílio de um elenco competente que sabe lidar com momentos bem humorados (como a cena de ares dramáticos em que a mãe pede para que os filhos não deixem April perceber que jogam a comida fora), tristes (como a mesma mãe mandando a filha caçula vivida por Alisson Pill pedindo para ela parar de cantar) e até violentos (a surra sofrida pelo namorado de April). Mas, apesar de cômico existe um bocado de drama em Do jeito que ela é, sorte que Hedges não deixa a coisa pesar nem quando exibe as marcas do sofrido câncer que a família tem de lidar. Embora exiba algum desleixo visual, o filme é cheio de boas intenções e não subestima a inteligência dos espectadores, mesmo quando inventa cenas improváveis como a matriarca mal humorada andando de carona na moto, o peru sendo sequestrado ou tendo a sua coxa remendada. O longa tem alma de filme família, mas trata-se de uma dramédia que aborda de forma simpática um tradicional feriado americano que conhecemos pouco, mas que mostra-se uma data interessante para uma família juntar os seus próprios pedaços. Hedges demonstrou mais uma vez ter mão boa para lidar com problemas familiares, são de sua autoria o roteiro de Gilbert Grape (1993) e Um Grande Garoto (2002), além de seu filme seguinte, a dramédia Eu, Minha irmã e Nossa Namorada (2007), mas foi por este longa de estreia que ganhou o prêmio do júri em Sundance.

Do Jeito que Ela É (Pieces of April/EUA-2003) de Peter Hedges com Katie Holmes, Patricia Clarkson, Oliver Platt, Alison Pill, Derek Luke e John Gallagher Jr. ☻☻☻ 

domingo, 4 de setembro de 2011

DVD: Sentimento de Culpa


Atrizes em ação: assuntos sérios em comédia de costumes.

Nicole Holofcener não é uma das minhas diretoras favoritas, sempre acho seus filmes meio frios e a comparação na década de 1990 de que era o Kevin Smith de saias não lhe fez bem. No entanto, nada como o passar do tempo. Enquanto Smith se perdeu em produções que só demonstram que seus melhores anos ficaram para trás, Nicole demonstra estar mais madura, principalmente quando vemos sua última obra. Sentimento de Culpa fez sucesso em festivais independentes e alcançou boas críticas e foi merecido, apesar de ter feito carreira modesta em nossos cinemas. Pra começar conta com duas boas atrizes em momentos inpirados: Catherine Keeneer e Rebecca Hall. Keener é uma veterana e já trabalhou com a diretora outras vezez, já Hall demonstra, sem estardalhaço que é uma das melhores jovens atrizes em atuação. Keener interpreta Kate, uma mulher casada com um gorducho (Oliver Platt) que a ajuda a administrar uma loja onde vendem móveis antigos ao preço de pequenas fortunas, juntos tem uma filha que tem os conflitos da auto-estima adolescentes instigados por um jeans que custa 200 dólares e uma espinha que lhe nasce no nariz. Esta família tem lá os seus bons momentos, mas tem certa culpa em ter comprado o apartamento ao lado, onde a octogenátia Andra (Ann Morgan Gilbert) vive com o cachorro. As obras para ampliar o conforto do casal dependem da morte de Andra - que recebe constantemente os cuidados a neta Rebecca (Hall) que atualmente mora com a irmã, trabalha numa clínica e procura um namorado. A vida de Rebecca poderia ser bem mais legal se sua irmã Mary (Amanda Peet) não fosse uma das criaturas mais insuportáveis que já apreceram num filme. Holofcener não inventa muita coisa nesta trama sobre pessoas comuns e seus dilemas cotidianos, mas consegue promover reflexões interessantes sobre a solidariedade e o envelhecimento. É no centro dessa discussão que se insere de forma convincente a personagem de Keener, que compra mobiliário, por alguns trocados, de pessoas que perderam os parentes - para revender por preços exorbitantes à gente endinheirada que quer dar um toque cool  aos ambientes que habitam. A culpa que começa a sentir irá mudar a forma como percebe as relações e os valores atribuídos às coisas ao seu redor. Além desse argumento existe nas entrelinhas reflexões apoiados em dicotomias como juventude/beleza e velhice/feiúra e as ações que motivam. Esses contrapontos se fazem ainda mais presentes na relação entre as duas irmãs (que lidam de formas diferentes com uma trajetória semelhante). Sentimento de Culpa é um filme simples, mas que fala de coisas importantes por baixo de sua casca de comédia de costumes. Longe de garantir bilheterias exorbitantes, o cuidado da diretora com seus personagens traz ao filme uma identidade agradavelmente palpável - como se todos fossem nossos vizinhos parceiros de um lanche no fim de semana.

Sentimento de Culpa (Please Give/EUA-2010) de Nicole Holofcener com Catherine Keener, Rebecca Hall, Amanda Peet, Oliver Platt, Josh Pais e Ann Morgan Gilbert. ☻☻☻