sábado, 23 de setembro de 2017

PL►Y: Tomcat

Hochmair e Toni: destruindo o paraíso domiciliar.  

Stefan (Lukas Turtur) e Andreas (Phillip Hochmair) trabalham juntos em uma orquestra filarmônica, tem muitos amigos e conseguiram fazer da casa onde moram um pequeno pedaço do paraíso onde vivem ao lado do gato de estimação. Moses apareceu sem que eles soubessem de onde veio, como a grande maioria dos gatos, escolheu os seus donos por sentir-se seguro e querido pelos dois. Claro que o felino também gosta do vasto quintal verde, onde de vez em quando encontra algum "presente" para os donos. Vale dizer que o quintal é repleto de árvores frutíferas - e parte da diversão da casa é fazer doces de compota para distribuir aos amigos. Eles ainda são bons anfitriões para os visitantes e se dão bem com a vizinhança... se você se incomoda com filmes centrados em casais homossexuais é melhor ficar bem longe de Tomcat, já que o diretor Händl Klaus aumenta a sensação idílica daquele mundo paralelo com várias cenas de nudez numa intimidade despojada e até ousada (o que ajudou para que em 2016 o filme ganhasse o Teddy Bear, o prêmio do Festival de Berlim para filmes com temática GLSBTT - essa é a sigla atual?). Por meia hora o diretor nos mostra, sem pressa ou sobressaltos esse universo domiciliar onde Stefan, Andreas e Moses criam a dinâmica de um lar sem maiores preocupações... mas tudo muda quando Stefan demonstra uma atitude violenta sem justificativa alguma e altera para sempre aquele mundo. A partir de então, culpa, remorso, raiva, medo e ressentimento passam a existir dentro da casa e os dois personagens se atraem e repelem em busca de um equilíbrio que nunca chega. É neste momento que Tomcat demonstra não se contentar em ser um filme "gay", ele ambiciona mais, principalmente quando constrói cenas onde a plateia, assim como Andreas, não consegue mais confiar em Stefan - e olha que ele se esforça para que voltemos a gostar dele, afinal ele chora, apanha, torna-se isolado, desprezado, humilhado e até ferido. Em seu segundo filme o cineastas Händl Klaus mantem seu interesse pelo efeito da morte em seus personagens (o anterior foi o deprimente Março/2008 onde três jovens amigas se suicidam), mais uma vez ele a utiliza para revelar o que estava escondido nas  camadas subterrâneas do cotidiano. A narrativa lenta (que aumenta a tensão da narrativa) e a ausência de respostas óbvias alimentaram as comparações de Klaus com seu conterrâneo Michael Haneke (com quem ele trabalhou como ator em A Professora de Piano/2001), mas o cinema de Klaus consegue conciliar o rigor de seu mentor com um tom diferente, um pouco mais leve, embora complexo e incômodo. Considero justo destacar o trabalho dos atores, que conseguem ser bastante precisos na construção de um relacionamento que se vê na beira de um abismo revelado pelo lado obscuro até então desconhecido de um deles. Obviamente que muita gente irá considerar o longa tedioso em seu clima de suspense psicológico, mas as suas entrelinhas carregam algumas simbologias (especialmente a cobra congelada que desaparece,  a queda da árvore, o nome do gato - que na vida real se chama Toni e pertence ao próprio diretor...) que quando percebidas deixam tudo amais interessante, além, claro, do final que deixa o espectador com a pulga atrás da orelha e a sensação de que nada entre aqueles dois personagens será como antes. Nunca mais.

Tomcat (Kater/Áustria-2016) de Händl Klaus com Lukas Turtur, Phillip Hochmair, Cornelius Meister, Manuel Rubey e Maria Grün. ☻☻☻

terça-feira, 19 de setembro de 2017

PL►Y: Free Fire

Hammer, Brie, Cillian, Sam e Smiley: brincando de resta um. 

Em 1978 um grupo de pessoas se encontram num galpão abandonado para negociar armas com um contrabandista. Cada um desconfia do outro e ninguém parece ser de confiança mesmo, até que por conta de um desentendimento a troca de tiros começa e... segue assim até o final. Resta saber quem irá sobreviver no meio da artilharia que guarda algumas surpresas (que só deixa tudo ainda mais absurdo). Esta é a história de Free Fire, novo longa de Ben Wheatley (do arrepiante Kill List/2011 e do interessante High Rise/2016). Posso dizer que Wheatley merece cada vez mais atenção do público, por mais qu ainda seja um ilustre desconhecido. Aqui existe muito do cinema que fez de Guy Ritchie um diretor conhecido mundialmente por seus filmes de personagens malandros e diálogos espertos, no entanto, vale lembrar, que Ritchie deve muito ao cinema que consagrou Tarantino na década anterior. Hoje nem Ritchie ou Tarantino se dedicam aos tipos urbanos que aparecem em Free Fire e por isso mesmo, ele me pareceu tão divertido e acima da média. Desde a primeira cena podemos perceber que existe uma tensão no ar, seja quando o grupo formado por Chris (Cillian Murphy), Stevo (Sam Riley), Frank (Michael Smiley) e Bernie (Enzo Cilenti) encontra com o elegante Ord (Armie Hammer) ou quando desconfiam que Justine (Brie Larson), a única mulher do grupo, pode ser na verdade uma agente do FBI disfarçada. Chegando no lugar marcado, o encontro com Vernon (Sharlto Copley e sua voz peculiar) todo mundo sabe que a coisa irá por água abaixo, só não imaginamos que seja por conta de uma espécie de... honra familiar envolvendo Stevo. Produzido por Martin Scorsese, Wheatley não parece interessado em levar a situação a sério, sempre contrabalançando o tiroteio com diálogos bem humorados e uma ação constante. É preciso dizer que ele não gasta muito tempo apresentando os personagens, deixando somente que o espectador conheça o básico de cada um deles, e, ainda ssim, escolha alguém para torcer no meio de tantos marginais. Pela energia que se vê na tela, Free Fire ganhou o prêmio do público no Festival de Toronto no ano passado e concorreu ao prêmio de Mellhor Diretor no British Independent Film Award - que também reconheceu o trabalho da diretora de elenco Shaheen Baig pelo ótimo elenco que conseguiu reunir nesta despretensiosa obra. Free Fire pode não ser revolucionário (e nem pretende ser), mas diverte com sua ação quase cartunesca com personagens carismáticos - e bem que merecia ter entrado em cartaz em nossos cinemas antes de ser lançado diretamente em streaming

Free Fire - O Tiroteio (Free Fire / Reino Unido - França / 2016) de Ben Wheatley com Cillian Murphy, Brie Larson, Armie Hammer, Sam Riley, Sharlto Copley, Michael Smiley, Enzo Cilenti, Babou Ceesay, Noah Taylor, Jack Reynor e Patrick Bergin. ☻☻☻ 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

10+:Stephen King

O sucesso de It: A Coisa me fez lembrar a quantidade absurda de produções inspiradas nas obras de Stephen King (e como ele não para de escrever, provavelmente muitas outras ainda devem estrear). É verdade que em sua grande maioria o resultado é uma porcaria (inclusive um que King se aventurou a dirigir, o ridículo Comboio do Terror/1986), no entanto, diretores renomados, atores competentes e roteiristas inspirados conseguiram honrar a obra de Stephen em filmes que foram sucessos de público e crítica, alguns foram até oscarizados, outros se tornaram cult ou inspiraram séries de TV. A seguir meus dez filmes favoritos baseados nas obras do mestre do terror:

#10 A Hora da Zona Morta (1983) de David Cronenberg
Pouca gente lembra deste filme que conta com ótima atuação de Christopher Walken como um sujeito que usa uma parte específica do cérebro mais do que a maioria dos mortais e, por isso mesmo,  consegue ver o futuro... além de incomodar os planos de um político temeroso.

#09 O Aprendiz (1998) de Bryan Singer 
Antes de enveredar pelo universo dos X-Men, Singer se aliou a Magneto Ian McKellen para contar a história de um velhinho pacato que tem seu passado descoberto por um jovem vizinho (o finado Brad Renfro) - só que o rapaz sente-se cada vez mais atraído pelo lado sombrio do ex-oficial nazista. 

#08 O Nevoeiro (2007) de Frank Darabonts
O filme ficou famoso pelo final (que eu adoro) ainda mais perturbador que o do livro. A história é ambientada dentro do mercado de uma cidadezinha assombrada por um denso nevoeiro que esconde um segredo assustador (tão assustador quanto a histeria de alguns personagens). 

#07 Eclipse Total (1995) de Taylor Hackford
Kathy Bates é sempre lembrada como uma excelente atriz, especialmente quando se trata de dar vida às personagens mais complexas do escritor. Ela é Dolores Claiborne, que acusada de assassinato, enfrentará o passado obscuro e os ressentimentos da própria filha (Jennifer Jason Leigh)

#06 Conta Comigo (1986) de Rob Reiner
Este deve ser o filme mais terno baseado na obra de King. Inspirado num conto sobre um grupo de amigos que pretende ver um corpo morto no bosque de uma cidadezinha, o longa de Rob Reiner transpira nostalgia e tem fãs fieis até hoje. O resultado foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado.  

#05 Louca Obsessão (1990) de Rob Reiner 
Kathy Bates ganhou o Oscar de melhor atriz pelo seu trabalho como a desequilibrada Annie Wilkes, mulher que vive solitária até encontrar o seu escritor favorito (James Caan), que acaba de sofrer um acidente. Este é o início de uma relação complicada que parece tirada de um pesadelo de King. 

Esta versão de Kubrick é uma grande provocação, já que ele alterou vários pontos do livro. Ainda assim, a história do escritor que vai para um  hotel com a família e passa a ser assombrado pelo passado macabro do lugar é considerado um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. 

Aqui o público já sabia que nem só de terror vivia as adaptações de King. Baseado em um dos seus textos mais sensíveis, a trama conta a história do encantador John Coffey (Michael Clarke Duncan), condenado à morte que possui um poder miraculoso. O resultado concorreu a quatro Oscars. 

Sissy Spacek (indicada ao Oscar) entrou para a memória cinéfila por sua espetacular atuação como a menina de educação repressora que é perseguida e humilhada por seus colegas na escola... sendo assim, uma das primeiras vítimas de bullying do cinema, perde as estribeiras no baile de formatura.  

#01 Um Sonho de Liberdade (1994) de Frank Darabonts 
Frank Darabonts deve ser lembrado como o melhor tradutor das obras de Stephen King para o cinema! Basta ver que ele aparece três vezes nesta lista com filmes muito bons - e este é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Nele, conhecemos a história de amizade entre dois prisioneiros e o desfecho surpreendente de quem teve paciência para conseguir o que muitos consideravam impossível. Indicado a sete Oscars o filme (inexplicavelmente) não levou nenhuma estatueta para casa, mas conquista  fãs até hoje. 

Na Tela: It - A Coisa

Bill: palhaço do mal. 

Fazia tempo que um filme baseado na obra de Stephen King não dava tanto o que falar quanto It: A Coisa, ironicamente o filme entrou em cartaz praticamente ao mesmo tempo que outra versão de uma obra do autor que vai muito mal nas bilheterias (o fiasco A Torre Negra), o que faz lembrar que somente a assinatura ilustre do escritor não garante sucesso. Já vai para quatro décadas que as obras do escritor chegam aos cinemas e o sucesso de It não deixa de ser uma comemoração para a ligação de King com o cinema. Houve uma versão anterior lançada no formato de mini-série em 1990 e marcou época para aqueles que foram às locadoras acompanhar as diabruras de um palhaço macabro que azucrinava um grupo de pessias nos anos 1960.  A nova versão foi sabiamente transposta para os anos 1980 e deixou tudo com clima da série Stranger Things, o que ajuda o filme a dialogar muito bem com o público atual (lembrando que a série bebe diretamente na fonte de King), além de aumentar o charme da ambientação com pôsteres na parede, trilha sonora e uma ingenuidade desbocada que se perdeu no tempo. O diretor argentino Andy Muschietti (de Mama/2013) demonstra total domínio narrativo para equilibrar cenas de horror e humor, conduzindo muito bem o grupo de jovens atores - que causa identificação na plateia e gera torcida empolgada durante todo o filme. O ponto de partida é o desaparecimento do irmão caçula de Bill (o ótimo Bill Denbrough de Destino Especial/2016) que junto com um grupo de amigos (incluindo Finn Wolfhard e Stranger Things) conhecido Clube dos Perdedores irá tentar encontrá-lo. As poucos o grupo de amigos cresce em número e passa a contar até com uma menina, a adoravelmente mal falada Beverly (Sophia Lillis). A apresentação dos sete personagens forma o primeiro ato da história, que também explora os problemas adolescentes que cada um deles possuem, o que ganha maior importância quando passam a ser assombrados pelo estranho palhaço Pennywise (em arrepilante atuação de Bill Skarsgaard), que está por trás do desaparecimento de crianças há tempos e que se alimenta do medo de suas vítimas. Com várias cenas de arrepiar (usando toda a cartilha do gênero, efeitos especiais nojentos, sangue, monstros, casa assombrada, garoto psicopata, trilha sonora arrepiante...), o filme não economiza nos sustos (alguns bem elaborados), mas consegue manter o tom de aventura sem esquecer de aprofundar seus heróis juvenis. Tocando em questões de abuso, bullying e preconceitos sem parecer forçado ou didático, o filme mostra-se um grande acerto ao ter um  olhar terno sobre seus heróis cheios de boas intenções. Com a bilheteria astronômica arrecadada ao redor do mundo, crescem os boatos de uma segunda parte, onde será abordada a outra fase da história onde os personagens aparecem crescidos. Sem a leveza da infância no próximo filme, provavelmente resultado será ainda mais sombrio, resta saber se o público irá se envolver da mesma forma com a nova aventura. Até lá, It: A Coisa promete fazer ainda mais sucesso, afinal, foi feito sob medida para isso. 

O Clube dos Perdedores: jeito de Stranger Things. 

It: A Coisa (It / EUA-Canadá) de Andy Muschietti com Bill Denbrough, Sophia Lillis, Bill Skarsgaard, Jack Dylan Grazer, Wyat Oleff, Finn Wolfhard, Jeremy Ray Taylor e Chosen Jacobs. ☻☻

domingo, 17 de setembro de 2017

PL►Y: Tracks

O pequeno camelo, Mia e Adam: dias de deserto. 

Confesso que preciso de uma motivação extra para ver filmes de pessoas que resolvem se perder por aí em contato com a natureza e suas adversidades. Nunca entendo muito bem o que se passa na cabeça de quem faz uma coisa dessas - talvez se eu procurasse os livros que viraram filmes sobre estes personagens eu entendesse melhor. Recentemente procurando um filme para assistir na Netflix me deparei com Tracks, filme que deu azar de ser lançado no mesmo ano que Livre/2014 estrelado por Reese Witherspoon (que foi indicada ao Oscar) e carrega uma história real bastante parecida. Afinal, os dois tem protagonistas femininas louras que pretendem caminhar muito enquanto expiam seus problemas pessoais. Tracks foi baseado na história de Robyn Nelson, uma jovem que resolveu atravessar o deserto australiano até encontrar o mar. Foram vários dias andando no sol escaldante diante de um cenário árido com a companhia somente de sua cadela de estimação e quatro camelos. Dirigido por John Curran e escrito por Marion Nelson, o filme não faz questão de aliviar a ansiedade da plateia, esticando a peregrinação por quase duas horas de paisagens desérticas e uma protagonista que não faz questão de ser simpática com as pessoas que encontra pelo caminho. Vivida por Mia Wasikowska, Robyn oscila entre a força e a fragilidade, mas não está interessada em ser uma heroína ou representante de causa alguma, no meio do caminho nem ela mesmo sabe direito de onde surgiu a ideia da jornada que propôs a si mesma. Como era de se esperar, ela encontra vários desafios pelo caminho, incluindo a incompreensão de um acampamento que não permite animais ou um grupo de aborígenes que a rejeita por conta das fotos que foram tiradas de uma cerimonia secreta. Sorte que no meio do caminho ela também encontra personagens que ajudam sua caminhada, uma pessoa que lhe ensina o que precisa saber sobre camelos, um guia que a ajuda a livrar-se de turistas inconvenientes (e ainda ganhar uns trocados) e um fotógrafo que que cai de amores por ela (cortesia de Adam Driver) - mesmo que ela não esteja preparada para que gostem dela. É preciso um bocado de paciência para acompanhar o filme, mas neste aspecto valeu a pena a minha motivação extra para assisti-lo: os bichos. Primeiramente, desde o documentário Camelos Também Choram/2003, eu não via um filme que oferecesse destaque aos camelos (e posso dizer que diversas vezes eles roubam a cena), por outro lado, a cadela de estimação de Robyn também consegue ser bastante expressiva na história, tendo um dos momentos mais tristes (e reveladores) da trama. No fim das contas, são eles que revelam os aspectos mais interessantes sobre a protagonista e nos ajudam a acompanhar Robyn em sua árdua jornada pelo deserto de si mesma. Obiviamente que você pode encontrar várias lições no filme, mas eu não quero escrever sobre isso, prefiro ressaltar como a direção de Curran nos colocar lado a lado com a personagem, nos oferecendo uma experiência sensorial bastante incomum. 

Tracks (Australia/2013) de John Curran com Mia Wasikowska, Adam Driver, Philip Dodd, Fiona Press e Rainer Brock. ☻☻

PL►Y: Absolutely Fabulous - O Filme

Saunders e Lumley: musas politicamente incorretas. 

A série Abstolutely Fabulous foi lançada em 1992 e seu tom politicamente incorreto logo conquistou uma legião de fãs ao redor do mundo. As peripécias de Edina Monsoon (Jennifer Saunders) e sua melhor amiga, Patsy Stone (Joanna Lumley) renderam de início três temporadas em que abusaram do álcool, drogas, figurinos espalhafatosos e alfinetadas ao mundo do entretenimento. Era como se Beavis e Butt-head ganhassem uma encarnação como duas mulheres maduras britânicas desbocadas que gostariam de levar sua vida de excesso até o túmulo. A série rendeu mais duas temporadas, até ser cancelada e retomada em 2001, quando rendeu mais três anos de  risada. Ao todo foram 39 episódios que fizeram a glória dos fãs. Ano passado as duas comediantes se juntaram para mais uma aventura, Absolutely Fabulous - O Filme era um dos filmes britânicos mais esperados do ano passado, mas agradou somente as fãs da série, talvez por conta de parecer um episódio estendido da dupla (o que não chega a ser ruim, mas que não funciona como deveria na tela grande). O roteiro é uma mistura de  desastres pessoais de Edina, que vê o seu trabalho de relações públicas irem de mal a pior. A salvação parece estar na chance de ter Kate Moss (tinha que ser!) como sua cliente, mas ela acaba sendo acusada de tentar matar a cultuada ex top-model. No meio da confusão em que Edina se mete, sobra para Patsy se fingir de homem e se casar com a mulher mais rica do mundo. Nada faz muito sentido na história e alguns dos momentos mais engraçados nascem daí mesmo (a própria Patsy se passando por homem continua maquiada, com unhas pintadas... mas com o acréscimo de um bigodinho vexaminoso). Existe uma penca de participações especiais, principalmente de celebridades europeias (a Spice Girl Emma Bunton, Jerry Hall, Gwendoline Chritie, Jean Paul Gaultier, Lulu, Lilly Cole, Stella McCartney...) que nem sempre são aproveitadas como deveriam deixando a graça mesmo por conta de Edina e Patsy (que sempre foi a minha favorita e a cena do encontro dela com Jon Hamm é uma das melhores coisas do filme). É verdade que o filme conta com coadjuvantes da série, como a filha aguada de Edina (Julia Sawalha) e a secretária espalhafatosa Bubble (Jane Horrocks), mas também procura dialogar com o público mais jovem escalando Chris Colfer (da série Glee) e Indeyarna Donaldson-Holness para ser a neta crescida de Edina. No entanto, o resultado não  parece muito diferente das comédias de linguagem televisiva da Globo Filmes (talvez pela própria diretora Mandy Fletcher ter seu currículo basicamente na TV), a diferença é que o tom politicamente incorreto das indestrutíveis amigas soa como um sopro de ar fresco em meio a tantas comédias mansinhas que tem por aí. 

Absolutely Fabulous - O Filmes (Absolutely Fabulous - The Movie / EUA-Reino Unido / 2016) de Mandie Fletcher. ☻☻

sábado, 16 de setembro de 2017

Na Tela: Ao Cair da noite

Famílias reunidas: suspense pós-apocalíptico. 

O cineasta Trey Edward Shults ganhou o mundo quando sua estreia recebeu elogios no Festival de Cannes, com o drama familiar Krisha  (2015) o rapaz se tornou figura conhecida em festivais do cinema independente e ainda levou para a casa o cobiçado John Cassavetes Awards no Independent Spirit Awards concedido ao melhor filme com baixíssimo orçamento daquele ano. Quem viu Krisha percebeu seu talento para criar uma narrativa onde os fatos falam mais do que os diálogos e a narrativa imagética criava mais tensão do que qualquer outro elemento em cena. Seus closes e movimentos de câmera foram capazes de fazer um dia de Ação de Graças fadado ao fracasso ganhar forma de um filme de horror, mesmo sendo um drama. Não por acaso que o filme seguinte do jovem diretor é um suspense que, alguns tentaram vender como um filme de terror (e gerou alguma insatisfação no público), mas na verdade é um filme que fala muito sobre o imaginário mundial atualmente e suas paranoias. Houve quem ficasse se perguntando o que de tão terrível acontece durante a noite durante a trama, mas posso garantir que não é algo tão terrível quanto as atitudes que Paul (Joel Edgerton) é capaz de fazer para manter a segurança de sua família. Shults não explica muito bem como seus personagens foram parar naquela situação, mas basta usar a cabeça para imaginar que tudo se passa num período pós-apocalíptico onde há pouca comida, água escassa e um perigo eminente de contaminação quando anoitece. Logo no início Paul precisa lidar com a contaminação do sogro. Ao lado da esposa, Sarah (Carmen Ejogo) e o filho adolescente, Travis (Kelvin Harrison Jr.) ele precisa tomar uma atitude drástica. Enquanto a família (e o cachorro de estimação) ainda enfrenta o luto , eles percebem que a casa foi invadida. Assim eles conhecem Will (Christopher Abbott) outro sobrevivente que pensou ter encontrado um casa vazia e que poderia ter suprimentos para sua família. Deste ponto em diante a rotina da família muda, embora permaneçam as regras que precisam ser respeitadas para que continuem seguros e sem risco de contaminação. No entanto, por mais que exista um clima amistoso na casa, Paul sempre ensina ao filho que ele não pode confiar em ninguém que não seja da família. Logo a fragilidade daquelas relações irá se revelar e, acredite, os desdobramentos serão mais assustadores do que os pesadelos que assombram Travis. Shults faz um filme que parece extremamente simples, com um único cenário isolado da civilização e bons atores (destaque para Edgerton e Abbott em duelo constante), mas o melhor desta produção modesta (custou três milhões e arrecadou três vezes este valor nas bilheterias americanas) são as  suas ideias, especialmente a de que os outros não são pessoas iguais a você, mas ameaças iminentes - o que torna o filme numa dolorosa alegoria bastante necessária sobre os tempos estranhos em que vivemos. Ignore os sustos presentes nos sonhos ruins de Travis e se concentre na essência do filme, que garanto que você irá notar que os pesadelos já estão acontecendo. 

Ao Cair da Noite (It Comes at Night/EUA-2017) de Trey Edward Shults com Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr. e Riley Keough. ☻☻☻☻

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

MOMENTO ROB GORDON: Narizes

A preocupação com a estética é mais do que comum no mundo das celebridades, ainda mais quando falamos sobre cinema - e se for na telona, que deixa tudo ainda maior, a coisa complica mais ainda. Sorte que diante dos padrões de beleza sempre existem aqueles  artistas que desafiam a ordem estabelecida dos traços delicados e simétricos. Este Momento Rob Gordon é inteiramente dedicado aos artistas que sempre foram reconhecidos não apenas pelo talento mas também um traço marcante: o nariz. Sem se render aos comentários maldosos ou  apelar para cirurgias plásticas, vários artistas foram capazes de tornar esta característica pessoal como sua marca registrada. 

#5 Sofia Coppola
Embora pouca gente saiba, Sofia estreou no cinema com apenas um ano de idade no primeiro filme da saga O Poderoso Chefão (1972) na pele do bebê Michael Francis Rizzi. Papai Francis Ford Coppola é tão coruja que também escalou sua herdeira para atuar no segundo filme da trilogia como uma das crianças que aparecem em cena, até aí tudo bem, o problema foi dar para a filhota o papel de destaque no terceiro e último filme da cultuada cinessérie. A crítica foi implacável e massacrou Sofia, não apenas por sua performance, mas também por sua aparência. Sofia entrou em crise, se dedicou ao mundo da moda por um tempo até resolver ser cineasta. Desde então foi a primeira diretora americana indicada ao Oscar (por Encontros e Desencontros/2003, que também lhe rendeu o Oscar de roteiro original),já foi premiada no Festival de Veneza (por Um Lugar Qualquer/2010) e recentemente foi premiada como melhor diretora no Festival de Cannes por O Estranho que Amamos/2017. Quanto ao nariz, as pessoas nem lembram mais dele...  

#4 Barbra Streisand
Barbara Joan Streisand repetiu diversas vezes que não faria plástica alguma no nariz para não prejudicar a qualidade de sua voz. Levando em consideração que a cantora, produtora, compositora, diretora e atriz é uma das pessoas mais bem-sucedidas do shobizz americano,  nunca entendi a relevância de tal pergunta para uma diva de seu quilate. Bem que poderiam apreciar sua carreira e deixa-lo em paz: indicada duas vezes ao Oscar de Melhor Atriz (sendo premiada por Funny Girl/1968), duas vezes ao de Melhor Canção Original (levou para casa pela canção de Nasce uma Estrela/1976) e uma pela produção de O Príncipe das Marés/1991, Barbra transformou seus traços em sinônimo de uma beleza diferente, forte e única, que não se rende aos padrões e que sempre deixa sua marca. No entanto, isso não impede que os críticos de cinema vivam pegando no pé dela. 

#3 Gérard Depardieu
Com mais de duzentos filmes no currículo, Depardieu é uma espécie de patrimônio do cinema francês. Pode se dizer que o ator já fez de tudo: comédias, dramas, romances, fantasias, nu frontal (quando era um jovem galã e quando já era um senhor bastante acima do peso). Antes de começar na carreira de ator no final da década de 1960, o jovem Gérard quase se perdeu na delinquência juvenil, depois trabalhou como caminhoneiro, mas não demorou muito para que os diretores percebessem que seu talento era proporcional ao seu notável nariz (não por acaso ele encarnou o famoso narigudo Cyrano de Bergerac/1990 e foi indicado ao Oscar de Melhor Ator). Embora o auge de sua carreira tenha passado, ele ainda é um dos atores mais requisitados do cinema mundial - e atualmente está envolvido em oito produções para o cinema. 

#2 Rossy de Palma 
Rosa Elena García Echave foi descoberta pelo cineasta Pedro Almodóvar pelas ruas de Madri e bastou ela aparecer em seus primeiros filmes para que a classificassem como uma mulher com rosto "cubista". Não sei se isso era um elogio, o fato foi que Rossy de Palma nunca ligou para esses comentários, pelo contrário, sempre colocou seus traços peculiares em evidência, sendo muito requisitada como modelo nos anos 1990 e participando de vários editoriais de moda (basta procurar no Google). Logo Rossy se tornou uma das musas mais marcantes do universo almodovariano, eles trabalharam juntos em sete filmes (por Kika/1993 e A Flor do Meu Segredo/1995 ela foi indicada ao Goya de melhor atriz coadjuvante), mas não são poucos que consideram a amarga empregada de Julieta/2016 o seu melhor trabalho ao lado do diretor.  

#1 Adrien Brody
Acredito que nenhum ator soube capitalizar melhor o tamanho do nariz como Adrien Brody - e há quem diga que seu nariz é por si só uma indecência, mas as fãs não tem do que reclamar. Brody se tornou o artista mais jovem a ganhar o Oscar de melhor ator (por O Pianista/2002) e depois de ser garoto propaganda de lojas chiques, participar de editoriais de moda e posar de galã em algumas produções, a carreira de Brody pode até não ter o mesmo fôlego de antes, mas ele continuar destilando charme nos papéis em que contracena com belas mulheres. Os diretores só precisam lembrar que Adrien é um ator muito versátil e que não sabe apenas fazer papéis dramáticos de homens em situações sombrias (Wes Anderson e Woody Allen já perceberam isso, mas os outros ainda parecem ignorar). Eu até gostaria de vê-lo em uma comédia romântica das boas, ou até fazendo um herói descolado, feito o Homem-Borracha, num futuro próximo da Liga da Justiça, ou um herói maldoso feito Princípe Namor nos próximos filmes da Marvel.    

PL►Y: Manhatan Nocturne

Adrien e Yvonne: aprendiz de noir. 

Pode se dizer que Adrien Brody se esforça mas público e crítica são cada vez mais indiferentes aos seus filmes. Manhattan Nocturne me pareceu mais falado antes de seu lançamento do que quando chegou finalmente às salas de cinema. Baseado na obra de Colin Harrison, o longa dirigido por Brian DeCubellis (experiente em trabalhos para televisão) é declaradamente um exercício de filme noir, com a história da femme fatale que contrata alguém para ajudá-la com problemas pessoais depois que mexeu com quem não devia. Estão presentes a narrativa em off do investigador que não faz a mínima ideia de onde se meteu, os fantasmas do passado que saem do porão quando menos se espera e as cenas sensuais que fazem um homem correto ter medo de ir para o inferno. Brody interpreta um jornalista investigativo chamado Porter Wren, que por conta de uma matéria ficou famoso na cidade. Wren no entanto prefere ter uma vida reservada ao lado da esposa (Jennifer Beals) e dos filhos. É interessante como o diretor apresenta o lar do protagonista como um universo paralelo à sordidez que ele mergulha ao conhecer a loura Caroline Crowley (a promissora Yvonne Strahovski), viúva de um diretor de cinema, Simon Crowley (Campbell Scott, bem distante da pinta de galã dos anos 1990) que é apresentado como um sujeito perturbado nos bastidores de sua vida pública. A morte de Simon foi cercada de mistério, já que seu corpo foi encontrado dentro de um prédio interditado para demolição e Caroline quer descobrir mais sobre o que de fato aconteceu. No entanto, existe outros mistérios rondando a viúva, já que ela é constantemente ameaçada por um milionário chantageado - o qual acredita que Caroline está envolvida com as ameaças que recebe. Criar um bom noir não é tarefa fácil. É preciso manter o crescente clima de mistério, descascar personagens sem muita cortesia e embaralhar crimes e motivações de forma que tudo faça sentido no final. Manhattan Nocturne tenta fazer isso, mas erra na atmosfera por acreditar demais na pureza de seu protagonista e tropeça no ritmo várias vezes (reparem como o milionário malvado fica bonzinho rapidinho). O alento é que no emaranhado de mistérios você pode até querer saber o desfecho da história da boa moça que se deu mal ao embarcar num relacionamento abusivo (e Campbell Scott está realmente nojento no papel do marido esquisito) - e a grande revelação dos últimos minutos é realmente arrepiante. Porém, nada impede que você considere Adrien Brody cada vez mais repetitivo (pelamordeDeus coloquem o cara numa comédia, num papel de vilão, de drag queen, de alienígena, de astronauta, de super-herói... ele dá conta, acreditem em mim! Ele tem até um Oscar na estante!), sorte que você ainda pode se impressionar com Jennifer Beals (a musa de Flashdance/1983) que aos 53 anos continua linda e banhada em formol.   

Manhattan Nocturne (Manhattan Night/EUA-2016) de Brian de Cubellis com Adrien Brody, Yvonne Strahovski, Jennifer Beals, Campbell Scott e Will Beinbrink. 

domingo, 10 de setembro de 2017

FILMED+: Lady Macbeth

Florence: silenciosamente amoral.

Que delícia que é assistir a um filme do qual não se sabe muita coisa e ser surpreendido por ele! Li algumas resenhas gringas sobre o filme quando foi lançado nos Estados Unidos e não sabia que ele já estava em cartaz por aqui quando o encontrei por acaso. É bom destacar que o filme não conta a história da personagem Shakesperiana que se casou com Macbeth na peça maldita do bardo inglês, esta Lady Macbeth é outra (mas já que esta versão é transposta para a Inglaterra, você pode fantasiar que ela é a própria antes de conhecer o futuro marido), o filme é baseado na obra Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk do russo Nikolai Leskov, que já virou até ópera ao contar a história de uma jovem insatisfeita com o casamento e que se torna uma assassina amoral. No século XIX a jovem Katherine (Florence Pugh) foi vendida para ser esposa de um senhor de terras (Paul Hilton), No início é visível como Katherine ainda tem esperanças de que poderá ser feliz, até que na noite de núpcias o marido a manda tirar a roupa e ao vê-la nua vira para o canto e dorme. Dali em diante a rotina da personagem a coloca na posição mais baixa na hierarquia da casa, sendo alvo do desprezo do esposo, dos desmandos do sogro (Christopher Fairbanks) e até das retaliações da empregada (a ótima Naomi Ackie) - que a cada ajuste de espartilho, pentear de cabelo ou primeiro contato do fia aproveita para torturar um pouco a nova moradora da casa. O resultado disso é o tédio, regado com doses de ódio sufocado e uma vontade constante de dormir - o que só aumenta a alegria quando Katherine se vê sem os homens da casa por alguns dias e poder dormir o quanto quiser. As coisas mudam drasticamente quando ela conhece Sebastian (Cosmo Jarvis), um cavalariço da propriedade, que logo será seu amante e colocará sua reputação a perder - mas são nos momentos em que se encontra mais acuada que Katherine terá suas atitudes mais macabras. Se no início podemos até entender suas atitudes devido a opressão que sofria, logo ela descamba para a covardia mais fria e amoral. O cineasta William Oldroyd marca sua estreia com uma narrativa que avança de forma delicadamente cruel e meticulosamente envolvente. Destoa da maioria dos filmes de época por não ter trilha sonora onipresente, cenários exuberantes, fazendo um retrato cru sem truques ou invencionices. Suas opções valorizam o texto e as atuações, sobretudo a performance da desconhecida Florence Pugh que está magnífica no papel principal. Florence transita por cada emoção da personagem com uma destreza impressionante para uma novata de vinte e um anos (e este é apenas o seu segundo filme), especialmente no final onde cai por terra toda a "pressão do romantismo" que existe sobre a atroz protagonista. A obra de Leskov foi concebida para denunciar a sociedade de sua época, o tratamento das mulheres, a semi-escravidão e a ignorância, sorte que Oldroyd mantem tudo isso ao transpor a história para a Inglaterra - e o resultado da transposição parece uma mistura de O Morro dos Ventos Uivantes com visual de Jane Austen numa versão cinematográfica de Alfred Hitchcock. Lady Macbeth é um filme impressionante.

Lady Macbeth (Inglaterra/2016) de William Oldroyd com Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Naomi Ackie,  Paul Hilton, Christopher Fairbanks e Goulda Rosheuvel. ☻☻☻

PL►Y: Passageiros

J.Law e Chris: dilema moral para debaixo do tapete espacial.

Com a presença do astro do momento (Chris Pratt) e a darling Jennifer Lawrence, os produtores resolveram lançar Passageiros, equivocadamente, entre os pesos pesados da temporada de premiações do ano passado, o resultado foi um filme massacrado pela crítica. Dirigido pelo norueguês Morten Tyldum (indicado ao Oscar de direção por O Jogo da Imitação/2014) o filme tem como melhor o visual (que foi indicado ao Oscar, assim como a trilha sonora) que emoldura dois protagonistas carismáticos defendendo um roteiro cheio de problemas - que deixa a impressão de que a ideia inicial foi tão alterada que tudo perde um pouco o sentido ao chegar ao final. Ambientado em uma nave espacial que carrega mais de quinhentas mil pessoas adormecidas para uma nova vida em outro planeta, a história começa quando uma chuva de meteoros causa um problema na câmara do mecânico Jim Preston (Chris Pratt) que acorda noventa anos antes da chegada em seu destino. Ele faz o que pode para tentar contornar o problema, mas passa um ano sozinho conversando com um androide barman (Michael Sheen) e se cansando do café da manhã repetido (afinal, ele não era de primeira classe). Eis que surge então o grande dilema do filme:  Jim resolve ter companhia e desperta outra passageira, a jornalista Aurora Lane (Lawrence). A situação é um tanto sombria, já que ao despertar a bela Aurora 89 anos do necessário, ele automaticamente designou a ela o mesmo destino de vagar pelo espaço até a morte. Jim guarda o segredo e fica difícil contornar as consequências de sua atitude junto ao público, embora ajude o fato de Chris Pratt ser um bom ator (e mesmo perdido peso e ganho pinta de galã, ele ainda tem aquele jeito de ser inconsequente feito um guri), fica difícil não ficar com raiva quando Aurora se envolve com ele para logo depois expressar todo o ódio pela crueldade do ato daquele que deveria ser o nosso herói. Um tema assim tão delicado já daria para desenvolver o filme inteiro, mas... resolveram criar uma trama cheia de ação e aventura para fazer você voltar a torcer para que Jim e Aurora fiquem juntos no final, um objetivo capenga para o que deveria ser uma discussão interessante sobre o limite do poder que alguém pode ter sobre a vida do outro.  Com a mudança brusca na narrativa sobra pouco tempo para desenvolver uma ideia complicada, ou seja, Passageiros segue relativamente bem até o momento em que se esquiva de mostrar o simpático Preston como um dos personagens masculinos mais vis da história do cinema. Pratt faz de tudo para torná-lo adorável, Lawrence aos poucos cede a se tornar uma personagem de comédia romântica e o filme aos poucos se curva para o previsível, desperdiçando uma ideia que poderia render discussões mais interessantes do que mais uma nave espacial em perigo. Sorte que quem acorda primeiro é justamente um mecânico!

Passageiros (Passengers/EUA-2016) de Morten Tyldum com Chris Pratt, Jennifer Lawrence e Michael Sheen. ☻☻

sábado, 9 de setembro de 2017

PREMIADOS FESTIVAL DE VENEZA 2017

The Shape of Water: o melhor do Festival de Veneza.

E hoje chegou ao fim mais um Festival de Veneza e, com a proximidade da Temporada de Ouro de todo final de ano, os longas exibidos e premiados merecem cada vez mais atenção. Neste ano houve a primeira exibição de filmes aguardados como a comédia Downsizing de Alexander Payne, o terror  Mãe! de Darren Aronofsky, o drama Lean on Pete de Andrew Haigh e o novo filme dirigido por George Clooney, Suburbicon. No meio de tantos filmes aguardados quem surpreendeu foi a nova fantasia de Guillermo del Toro, que deve aparecer no Oscar em categorias prestigiadas como (com destaque para a inglesa Sally Hawkins no papel principal). 

Leão de Ouro
The Shape of Water de Guillermo del Toro

Grande Prêmio do Júri
 Foxtrot de Samuel Maoz

Leão de Prata de Melhor Direção
Xavier Legrand por Custody

Copa Volpi de Melhor Atriz
Charlotte Rampling por Hannah

Copa Volpi de Melhor Ator
Kamel El Basha por The Insult

Melhor Roteiro
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri de Martin McDonagh

Prêmio Especial do Júri
Sweet Country de Warwick Thornton

Prêmio Marcello Mastroianni (Performance Jovem)
Charlie Plummer por Lean on Pete

MOSTRA HORIZONTES
Melhor Filme
Nico, 1988 de Susanna Nicchiarelli

Melhor Direção
Vahid Jalilvand por No Date, No Signature

Prêmio Especial do Júri
Caniba de Verena Paravel and Lucien Castaing-Taylor

Melhor Atriz
Lyna Khoudri por Les bienheureux

Melhor Ator
Navid Mohammadzadeh por No Date, No Signature

Melhor Roteiro
Oblivion Verses de Dominique Wellinski e Rene Ballesteros

Melhor curta-metragem
Gros Chagrin de Céline Devaux

Leão do Futuro / Filme de Estreia
Custody de Xavier Legrand

Melhor Documentário sobre Cinema
The Prince and the Dybbuk de Elvira Niewiera e Piotr Rosolowski

CICLO VERDE E AMARELO: Nise - O Coração da Loucura

Glória e seus companheiros: o tratamento pela humanização. 

Conheci o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira na faculdade, quando minha turma foi visitar uma exposição da celebração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Lembro que no Paço Imperial no Rio de Janeiro estavam expostos vários trabalhos de pessoas que participaram dos tratamentos por Terapia Ocupacional realizados por ela a partir da década de 1940. O mais fascinante da mostra chamada Imagens do Inconsciente (nome que batiza o museu criado por Nise em 1952) era que todas eram assinadas por clientes de sua iniciativa no Centro de Alienadas de Engenho de Dentro, uma instituição psiquiátrica criada para abrigar pessoas em tratamento no Hospício Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira). O cineasta Roberto Berliner resolveu levar para as telas uma biografia de Nise e usou toda a sua experiência no gênero documental para dar vida aos desafios que ela e seus clientes precisaram enfrentar. Berliner opta por uma narrativa clássica, que funciona muito bem, especialmente para seus aterradores momentos iniciais. Desde o momento em que ela volta ao  percebemos que ela não é uma pessoa de desistir fácil. Depois de um período afastada do serviço público (por motivos políticos que lhe renderam até uma prisão no ano de 1936) ela fica chocada com os tratamentos a que são submetidos os internos da instituição. Lobotomia e eletrochoque eram vistos como os melhores tratamentos para os transtornos que apresentavam, mas Nise sempre se posicionou contra tratamentos agressivos e violentos, de forma que revolucionou o tratamento da época utilizando a arte como terapia. Nise ganha corpo com a atuação vigorosa de Glória Pires que resgata a força da personagem diante do embate com o tratamento excludente com que se depara. Há de se exaltar também a atuação do elenco de apoio que tem a difícil tarefa de encarnar os clientes da clínica de forma convincente, especialmente na transição que atravessam ao longo do filme. A história de Nise é tão fascinante que poderia render outros filmes, um que conte o que houve antes do período retratado aqui (tempo em que se tornou amiga de Graciliano Ramos na prisão, o que a tornou personagem do livro Memórias do Cárcere) e até outro sobre a forma como se tornou reconhecida após anos desafiando seus colegas de trabalho a buscar um tratamento mais humanizado para os pacientes psiquiátricos (já que aqui existe um corte bem antes disto). Nise tinha diálogos com críticos de arte e Carl Jung (que aparecem no filme sem ser muito explicativos) serviram para que seu trabalho transcendesse a lógica da época, a tornando referência no tratamento psiquiátrico. O Ciclo Verde e Amarelo deste ano se despede com uma personagem histórica que merece ser sempre lembrada e celebrada, assim como Elis, que abriu nossa semana por aqui. 

Nise - O Coração da Loucura (Brasil/2015) de Roberto Berliner com Glória Pires, Fabrício Boliveira, Caludio Jaborandy, Flavio Bauraqui, Roney Villela, Julio Adrião e Bernardo Marinho. ☻☻☻

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Redemoinho

Júlio e Irandhir: o passado presente na memória. 

O diretor mineiro José Luiz Villamarim ganhou o coração da crítica com duas séries bem sucedidas na TV (Justiça e Nada será Como Antes ambas de 2016), mas foi no início de 2017 que ele conseguiu seu voo mais ambicioso com a chegada de seu primeiro longa-metragem nos cinemas, o elogiado Redemoinho. Baseado no livro Inferno Provisório de Luiz Ruffato, o filme conta a história de dois amigos de infância que se reencontram depois de muito tempo. Um deles é Luzimar (Irandhir Santos) que cresceu na pequena cidade de Cataguases (Minas Gerais), trabalhando na tecelagem que movimenta a economia local até se tornar fiscal de produção. Ele se casou com Tonia (Dira Paes) e parece ter uma vida feliz, ainda que a audição tenha sido maltratada pelo barulho das máquinas ao longo dos anos. O outro é Gildo (Júlio Andrade) que foi tentar a vida em São Paulo e voltou dirigindo um carrão para visitar a mãe solitária, Dona Marta (Cássia Kis Magro) que sempre aguarda a visita de seu outro filho - o mais querido Gilmar. Até o encontro de Luzimar com o visitante, Villamarim apresenta a cidade sempre rompendo a quietude que se espera da cidadezinha, seja pelo trem que está sempre cortando o silêncio ou o maquinário pesado que produz a leveza dos tecidos. Seja por uma senhora triste, um personagem sem destino que vagueia desequilibrado pelas ruas ou a própria Dona Marta que parece acolhedora mesmo com as frases amargas que destila entre os dentes, a cidade se equilibra entre dois movimentos: o que se mostra e o que se sente. Curiosamente, desde o primeiro momento, a presença de Gildo não parece bem-vinda e a situação piora depois de várias garrafas de cerveja e as verdades desconfortáveis começam a aparecer . Não é por acaso que Villamarim escolheu o nome de Redemoinho para sua cria, afinal, seja pelos ventiladores, pelo movimento da água que desce pelo ralo ou as lembranças de Luzimar que persistem em sua memória a narrativa evoca o movimento circular sem ser óbvia, sempre indo e vindo ao mesmo ponto: é melhor sair ou ficar naquele lugar? A esta ideia de movimento (ressaltado ainda mais pela ponte e o trem - que também marca passagem do tempo), somado ao fato da história se passar toda no dia de Natal, tudo se torna ainda mais emocional e extremamente contido. Villamarim não gosta de malabarismos visuais ou invencionices  narrativas, nem precisa, já que seu estilo é extremamente preciso no corte das cenas e nos enquadramentos que emolduram os diálogos reveladores. Construído milimetricamente em seus fantasmas, Redemoinho é uma estreia que competente,  principalmente por sua atmosfera cheia de camadas. 

Redemoinho (Brasil/2017) de José Luiz Villamarim com Irandhir Santos, Júlio Andrade, Cassia Kis Magro, Dira Paes e Cyria Coentro.  ☻☻☻

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

10+: MEUS FAVORITOS DO CINEMA BRASILEIRO

Este é o quarto ano em que escolho a primeira semana de setembro para comentar um filme brasileiro por dia. Neste ano, para anabolizar as comemorações do dia 07 de setembro eu resolvi fazer diferente e fazer a minha lista de dez filmes brasileiros favoritos de todos os tempos. Foi uma lista muito difícil de fazer e alguns muito queridos ficaram de fora (Sonho de Valsa/1987, Durval Discos/2002, Janela da Alma/2001 e Lavoura Arcaica/2001 foram alguns). A seguir, dez pérolas do nosso cinema que se você não viu, não sabe o que está perdendo (em ordem alfabética). 

#01 "A Marvada Carne" de André Klotzel (1985)
Eu gosto tanto do filme de estreia de Klotzel que eu o colocaria em todas as listas de filmes favoritos que eu fizer. Ele utiliza tantos elementos folclóricos em uma narrativa divertida e belamente interpretada pelos atores principais, afinal,  Fernanda Torres e Adilson Barros estão irresistíveis como o casal que para realizar o casamento terão que passar por algumas provações bastante incomuns - e ainda ter que lidar com a vontade irresistível do noivo comer carne. Não há Santo Antônio que resista!

#02 "Assalto ao Trem Pagador" de Roberto Farias (1962)
Antes de ter um blog eu escrevia sobre os filmes que assistia em um caderno e este longa de Roberto Farias tem uma das resenhas mais elogiosas que já escrevi (e sei que estou devendo escrever sobre ele aqui no blog), especialmente pelo tom moderno com que conta a história de seis homens que resolvem assaltar um trem na Central do Brasil. A partir daí, as investigações revelam um mundo que tinha pouco espaço no nosso cinema e - ainda hoje - carece de uma visão tão autêntica quanto a que vemos aqui. Cheio de estilo e bela fotografia em preto e branco, o filme de Farias é uma das obras-primas inquestionáveis do nosso cinema. 

#03 "Central do Brasil" de Walter Salles (1998)
Premiado no Festival de Berlim, o filme ainda recebeu o Globo de Ouro de filme estrangeiro e concorreu ao Oscar da mesma categoria (e perdeu para o sacal A Vida é Bela) - além de colocar Fernanda Montenegro no páreo de melhor atriz por sua atuação memorável! Sempre me emociono quando vejo a história da amarga Dora e do menino Josué. Acho magnífica a forma como Walter mostra que cada busca, encontro e despedida que atravessa o caminho dos personagens revela uma nova camada de suas personalidades. Central do Brasil é basicamente a essência de um road movie em sua melhor estrada: a da busca de si  mesmo em todas as suas dores. 

#04 "Eles Não Usam Black Tie"  de Leon Hirszman (1981)
Premiado no Festival de Veneza o filme de Hirszman anda esquecido, mas merece ser lembrado pela forma como mescla a história de uma família com movimentos sociais, no caso uma greve de operários de uma grande metrópole. Coletivo e individualidades se chocam todo o tempo e revelam como a dinâmica social nunca pode ser simplificada, algo que algumas pessoas ainda precisam lembrar... cortesia do belíssimo roteiro do diretor ao lado do ator Gianfrancesco Guarnieri! De brinde, mais uma atuação memorável de Fernanda Montenegro. 

#05 "Não Por Acaso" de Philippe Barcinski (2007)
Desde que lançou o premiado curta Palíndromo (2001), Barcinski demonstrou seu interesse por contar histórias de um jeito diferente. Em Não Por Acaso ele compõe um drama romântico urbano belíssimo, cruzando o caminho dos personagens que vivem na correria de uma grande cidade. Entre perdas, encontros e revelações, Barcisnki introduz até um pouco de metafísica em sua história e lhe atribui uma sensibilidade tão incomum quanto envolvente. Além disso, tem atuações marcantes de Leonardo Medeiros, Letícia Sabatella, Rodrigo Santoro e Cássia Kiss - plenos como peças no tabuleiro do destino. 

#06 "O Ano que Meus Pais Saíram de Férias" de Cao Hamburger (2006)
Sempre fico triste quando pergunto se alguém viu este belo filme do Cao sobre o olhar de um menino sobre um dos períodos mais obscuros de nossa história. Por ser centrado em uma criança (o bom Michel Joelsas, que depois foi o Fabinho de Que Horas Ela Volta?) o filme ganha em leveza e originalidade ao contar uma história sobre crescimento e perda da inocência. Misture Copa do Mundo, festinhas ao som de Roberto Carlos (ainda roqueiro) e atores infantis realmente bons e você terá um filme irresistível! Para além do belo roteiro (ambientado no ano de 1970), o filme é bem cuidado tecnicamente, além de ser bastante sensível ao abordar temas complicados na telona. 

#07 "Quase Dois Irmãos" de Lucia Murat (2004)
Quando o filme chegou aos cinemas muita gente ainda estava sob o efeito de Cidade de Deus/2002. Ambos tem o envolvimento de Paulo Lins em sua escrita (já que Lins escreveu o livro do primeiro e o roteiro do segundo) e podem soar bastante complementares ao contar como foi o embrião da violência que vemos todos os dias no Rio de Janeiro. Murat realiza aqui o seu trabalho mais maduro e aos poucos revela a história que de fato está contando. Lembro que fiquei arrepiado ao final da sessão e um tanto sem palavras. Quase dois Irmãos é mais do que um belo filme, torna-se uma obra obrigatória para entender o caos que vivemos hoje.

Assim que foi lançado, o filme de Muylaert foi reconhecido como um dos mais queridos do cinema brasileiro, ironicamente, não sabíamos que ele serviria como registro perfeito de uma era que segue rumo ao sepultamento. A história da doméstica e sua filha merece atenção pelas entrelinhas, belamente ressaltadas pela dupla Regina Casé e Camila Márdila. O drama e o humor impressos pela diretora aqui chegam ao auge do seu estilo de fala mansa e assuntos incisivos, por isso mesmo, foi premiado muito elogiado pelo mundo afora, trazendo para o Brasil o prêmio dado às suas atrizes no Festival de Sundance. 

Considero este a obra-prima de Babenco! Acho fascinante como ele constrói a história entre os personagens dentro de uma cela, utilizando as fantasias narrativas de Luis Molina (William Hurt que ganhou o Oscar de melhor ator) para escapar dali. Conforme se desenvolve o relacionamento entre os dois personagens, Babenco nos brinda com lindas imagens e uma amizade complexa que ainda pode surpreender muita gente pelo desfecho doloroso. Embora seja falado em inglês, a alma do filme é plenamente brasileira, com destaque para Sonia Braga, muito glamourosa como a musa de Molina (que também funciona como seu alter-ego em atuação antológica). Simplesmente, sublime!

Sinto muita falta do punch dos primeiros filmes de Beto Brant. Quando (o baratinho) Os Matadores estreou no Festival de Cannes muita gente ficou de queixo caído com a forma mirabolante com que Brant contava a história simples sobre dois matadores que estão numa mesma cidade na fronteira brasileira. O motivo? Nós só descobrimos aos poucos até o final arrepiante numa trama cheia de ironias. Sem dúvida, foi uma das melhores estreias da história do nosso cinema. Pena que depois Brant mudou seu estilo cru e áspero para fazer filmes mais convencionais. Alguns consideram que ele amadureceu... eu ainda acho que ele apenas encaretou. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Canção da Volta

Marina e Miguel: casal feliz até a página dois. 

Sou fã de Marina Person desde os tempos em que a considerava minha apresentadora favorita da MTV Brasil. Lembro quando ela começou a apresentar os programas Semana Cine e depois o Cine MTV sempre buscando dar destaque ao cinema brasileiro que ainda estava na retomada. O envolvimento de Marina com o cinema está no sangue, filha dos cineastas Luís Sergio Person e Regina Jeha, aos poucos a carreira de apresentadora passou a ser conjugada com a de cineasta. Em Person/2007 ela documentava a trajetória do pai e em Califórnia/2015 ela voltava  para sua própria história como adolescente dos anos 1980. No entanto, o carisma de Marina já lhe rendeu pequenas participações em alguns filmes, mas nada que se compare ao destaque recebido neste Canção da Volta, dirigido por seu esposo Gustavo Rosa de Moura (o que torna ainda mais interessante o desenvolvimento da história). Marina vive Julia, uma mulher madura, casada e com dois filhos, que muda o rumo de sua família após uma tentativa de suicídio. No entanto, acompanhamos a história de Julia sobretudo pelos olhos de seu esposo, Eduardo (João Miguel). Eduardo apresenta um programa sobre literatura na TV e tem sua rotina totalmente alterada logo no início do filme, quando busca o paradeiro da esposa e recebe um telefonema comunicando que ela se hospedou solitária num quarto de hotel para cortar os pulsos. A carta de despedida é quase uma declaração de amor para sua família e torna tudo ainda mais confuso para todos. O melhor de tudo é que o roteiro de Moura e Leonardo Levis não gasta seu tempo apresentando uma esposa deprimida, prefere mostrar como a família não sabe reagir diante do inesperado ato. Enquanto o filho se distancia para evitar qualquer surpresa semelhante no futuro e a filha caçula parece, por vezes, querer aproveitar cada momento perto da mãe, fica por conta da dinâmica entre marido e esposa a parte mais instigante do filme. Ainda que sejam apaixonados um pelo outro, o atencioso Eduardo mostra-se uma pessoa cada vez mais complicada. Obcecado por controle e organização - e isso explica muitas cenas do filme, como a cena em que tenta arrumar a luminária da casa,  a briga no trabalho por conta de um e-mail e até a cena em que Julia está sozinha em casa e desorganiza o ambiente. Não que isso revele algum motivo para a personagem ter feito o que fez, mas  ajuda a notar que existe algo abaixo da superfície do casal que nunca se revela. Neste ponto, o filme torna-se ainda mais interessante por não querer ser um filme sobre suicídio, mas sobre o casamento. Acho que não é por acaso que quando Julia está cada vez mais segura, o esposo está cada vez mais paranoico (e meta os pés pelas mãos). Por estes motivos Canção da Volta é um filme que fala mais nas entrelinhas do que nos diálogos e prova que Marina Person é uma atriz de verdade ao dar conta de uma personagem complicada. 

Canção da Volta (Brasil/2016) de Gustavo Rosa de Moura com João Miguel, Marina Person, Francisco Miguez, Stella Hodge, Poliana Pieratti e Marat Descartes. ☻☻☻

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Sinfonia da Necrópole

Eduardo e Luciana: humor mórbido. 

Sinfonia da Necrópole é um dos filmes brasileiros mais elogiados dos últimos tempos e assim que você começa a assistir você entende logo o motivo. Ambientando num cemitério o filme gira em torno de um coveiro medroso chamado Deodato (Eduardo Gomes) que começou no ofício por influência do tio, que tem longa experiência no ramo. Enquanto Deodato ainda tenta se adequar ao trabalho, ele recebe a tarefa de ajudar Jaqueline (Luciana Paes), funcionária que chega para reformar o cemitério em busca de mais jazigos. A tarefa dela não é fácil, já que ele precisa dar conta da criação de um jazigo vertical que dará conta de abrigar mais ossadas e, com isso, gerar mais ganhos à administração. Existe uma atração e uma tensão visível entre o casal, mas a diretor Juliana Rojas (parceira de Marcos Dutra em Trabalhar Cansa/2011) sempre escapa do óbvio e resiste ao tom de comédia romântica, preferindo realizar um... musical! Pois é, Sinfonia da Necrópole é um musical ambientado num cemitério e reside aí todo o interesse que você pode sentir pelo filme. Passado o estranhamento inicial (menos pelo fato de ser no cemitério e mais por conta das músicas constantes), você irá perceber que o longa cumpre várias tarefas complicadas por optar por um gênero pouco visto no cinema brasileiro e manter o bom senso de evitar o desrespeito com um espaço que envolve sentimentos delicados de abordar. Com tantos complicadores, Rojas faz um filme simpático e divertido, especialmente pelas letras das músicas, que ajudam não apenas a trama avançar, mas na abordagem de alguma ironias sobre a história em si. O que considerei o ponto mais fraco do filme são as melodias, não sei se é proposital, mas achei de um tosqueira sonora total, o que aumenta a graça, mas castiga os ouvidos de vez em quando. Talvez a ideia seja esta, a de  revelar o quanto um musical pode soar artificial e ironizar um pouco mais a trama o absurdo da ideia (e a cena do karaokê talvez revele que as músicas não são mesmo para serem num nível profissional, por isso, não vou entrar no mérito dos pendores cantantes dos atores). Portanto, se concentre nas letras escritas pela diretora e seu fiel parceiro Marcos Dutra e você verá como elas podem revelar o estilo fruto da união da dupla que curte temas sombrios abordados com humor peculiar (aspectos que fizeram de Trabalhar Cansa um filme bastante especial e elogiado ao ser exibido no Festival de Cannes). Quem acompanha o trabalho do casal verá como seus voos solo (Dutra fez o tenso O Silêncio do Céu/2016 e o arrepiante Quando Eu Era Vivo/2014) ajudam a compreender a identidade cinematográfica de cada um (os dois dupla estarão junta novamente em As Boas Maneiras previsto para estrear ainda neste ano).  Sinfonia da Necrópole vale sobretudo por sua inventividade e será um dos filmes mais originais que você verá em muito tempo. 

Sinfonia da Necrópole (Brasil/2014) de Juliana Rojas com Eduardo Gomes, Juliana Paes, Paulo Jordão, Antonio Velloso e Adriana Mendonça. ☻☻☻