domingo, 30 de novembro de 2014

N@ CAPA: Filippo Timi


Houve gente que pensou que a capa do Dáriw no mês de novembro fosse o ator brasileiro Gabriel Braga Nunes, mas, apesar da semelhança, era o italiano Filippo Timi num ensaio fotográfico de autor não creditado que encontrei na internet. Timi é um dos atores mais populares do cinema italiano e chegou a ser cotado ao Oscar por sua encarnação de Mussolini em Vincere/2009. Seu último filme a entrar em cartaz no Brasil foi Um Castelo na Itália - que lhe valeu uma indicação ao prêmio de ator coadjuvante do Sindicato Italiano de Jornalistas Cinematográficos. O ator é um dos mais concorridos do cinema e do teatro na Itália e já apareceu aqui no blog com os filmes A Hora Dupla (2009), Quando Anoitece (2011) e na participação especial como o palhaço sinistro de A Solidão dos Números Primos (2010). O ator também já atuou ao lado de George Clooney em Um Homem Misterioso (2010), mas prefere trabalhar em filmes europeus. Em 2015 ele estará em L'ultimo Vampiro, longa de Marco Bellochio (diretor de Vincere).

Timi: agenda cheia na Europa. 

CATÁLOGO: Natureza Quase Humana

Patricia e Tim: releitura amalucada de Rousseau. 

Desde que estreou na direção com o controverso Sinédoque, Nova York (2008), o celebrado roteirista Charlie Kauffman anda sumido da telona. Acho que ele ficou incomodado quando começaram a especular que ele era bastante superestimado por seus trabalhos. O fato é que Kauffman é o responsável pelo conjunto de roteiros mais doidos que alguém é capaz de escrever para o cinema. Ele ficou conhecido com Quero Ser John Malkovich (1999) que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar. No entanto, vale lembrar, seu primeiro roteiro foi esse Natureza Quase Humana que saiu da gaveta após a consagração de Malkovich. O filme ainda marcou sua primeira parceria com o diretor francês Michel Gondry (que depois faria com ele Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças e juntos dividiriam o Oscar pelo roteiro). Como era de se esperar, A Natureza Quase Humana é delirante do início ao fim, mas conta com uma essência bastante relevante.  Nathan (Tim Robbins) é um cientista comportamental que cresceu escravizado pelas normas, convenções e etiquetas sempre lembradas por seus pais (Mary Kay Place e Robert Foster). Lila (Patricia Arquette) é uma mulher que desde a adolescência sofre com o crescimento abundante de pelos por todo o corpo, depois de um tempo isolada da civilização ela começa a investir em livros sobre a relação com a natureza. Os dois personagens terão um relacionamento problemático, dado ao apego de Nathan ao que é convencional e a natureza de Lila (que de ícone feminista se torna bastante submissa). A vida do casal terá mudanças quando encontrarem um homem que cresceu na floresta, Puff (Rhys Ifans), que foi sequestrado ainda menino quando seu pai decepcionou-se com a vida em sociedade imposta pelo ser humano. Enquanto Nathan desistirá de seu experimento com ratos que devem usar talheres, para civilizar Puff através do uso de choques, Lila ficará perdida quando Nathan descobrir que precisa barbear todo o corpo todo dia. Nessa mistura ainda existe Gabrielle (Miranda Otto) a estagiária sonsa de Nathan, uma depiladora e um anão! Gondry até consegue contornar sua dificuldade em contar uma história usando uma narrativa multifacetada centrada nos depoimentos dos três personagens principais. Além disso, não tem a mínima cara de pau de disfarçar os efeitos especiais toscos artesanais (que o consagrou nos clipes) para contar os momentos mais doidos do filme, no entanto, isso confere charme à produção que mantem o tom de farsa exagerada até o final, onde descobrimos que Puff aprendeu com seu mestre tudo o que (não) devia. Kauffman criou uma história esquisita e um tanto desengonçada para relembrar o que o filósofo Jean-Jacques Rousseau já dizia no século XVIII: o efeito corruptivo da sociedade sobre o homem. Ainda que seja uma obra longe de ser perfeita, Natureza Quase Humana consegue ser bastante interessante em seu pessimismo disfarçado de comédia maluca contra o preconceito.  

Natureza Quase Humana (Human Nature/EUA-França/2001) de Michel Gondry com Tim Robbins, Patricia Arquette, Rhys Iphans, Miranda Otto e Robert Foster. ☻☻☻

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

APOSTAS PARA O OSCAR 2015 - Capítulo IV

Grandes Olhos (Big Eyes)
Já faz algum tempo que Amy Adams se tornou uma atriz que todo cinéfilo aguarda o dia em que levará um careca dourado para a casa. A atriz já soma cinco indicações ao Oscar e pode conseguir uma sexta com a nova obra de Tim Burton - que investe numa linguagem menos fantasiosa para contar a história da pintora Margaret Keane, que ficou muito famosa na década de 1950 por seus quadros com pessoas de olhos enormes, mas que enfrentou sérias dificuldades financeiras quando o esposo Walter Keane (Christoph Waltz) reivindicou crédito por suas obras. Burton tem aqui a (grande) chance de redimir-se por seus micos recentes. 

Whiplash
Desde que Whiplash teve sua primeira exibição, tornou-se um dos filmes mais cotados para concorrer ao Oscar do próximo ano - tudo por conta da abordagem intensa da relação entre aprendiz e mestre, no caso, baterista (Miles Teller) e instrutor (J.K. Simmons). Andrew é um jovem baterista que participa da seleção para uma prestigiada escola de música - e para explorar seu potencial ao máximo ele precisa da ajuda de um (super)exigente professor. O filme de Damien Chazelle ganhou o prêmio do júri no Festival de Sundance embalado pela trajetória de sangue e suor de seu esforçado protagonista (e o veterano Simmons se tornou o favorito ao prêmio de coadjuvante).
  
Caminhos da Floresta (Into the Woods)
Rob Marshall não acertou uma desde que Chicago ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2003, mas não são poucos que consideram que sua volta por cima está nessa adaptação do premiado musical da Broadway produzido pela Disney. Na trama, uma bruxa (Meryl Streep, finalmente aceitando um papel de bruxa) conspira para ensinar importantes lições para Chapeuzinho Vermelho,  Rapunzel, João (aquele do pé de feijão) e Cinderela. Todo mundo conhece a resistência que a Academia tem com fantasias, mas as expectativas geradas pelo elenco (com destaque para Emily Blunt, Chris Pine e Anna Kendrick) e o capricho na produção devem contar a favor. 

Corações de Ferro (Fury)
Pouca gente se deu conta que Brad Pitt ganhou seu primeiro Oscar em 2014 pelo drama 12 Anos de Escravidão. Não, ele não ganhou pela sua pequena participação de sotaque estranho, mas por ter produzido o filme de Steve McQueen que levou para a casa a estatueta de melhor filme. No entanto, Pitt continua esforçado para receber o Oscar de melhor ator - e o filme de guerra dirigido por David Ayer serve para nos lembrar disso. Na pele de um sargento que guia seus homens (incluindo Shia LaBeouf e Logan Lerman) por uma missão suicida dentro de um tanque durante a segunda guerra mundial, Pitt vem colhendo elogios crescentes. Mas será que o filme tem fôlego para tanto?

St. Vincent 
As chances dessa pequena comédia suburbana nas premiações são pequenas, mas existe uma campanha crescente para que, ao menos, a despachada atuação de Bill Murray seja lembrada por incorporar um veterano de guerra (hedonista e misantropo) que serve de mentor para um menino que enfrenta o divórcio dos pais. O elenco inspirado conta com Naomi Watts, Melissa McCarthy, Chris O'Dowd e (o fofo) Jaeder Lieberher (que já tem três filmes agendados depois de sua atuação nesse filme de estreia de Theodore Melfi). Comédias não costumam cravar muitas indicações, mas podem surpreender - especialmente com as indicações ao Globo de Ouro no dia 11 de dezembro!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

§8^) Fac Simile: Bridget Fonda

Bridget Jane Fonda
Bridget Fonda foi uma das jovens atrizes mais celebradas da década de 1990, mas depois de participar de alguns filmes importantes (e outros nem tanto), a atriz resolveu jogar a toalha e se aposentar precocemente em 2002. Casada com o músico Danny Elfman desde 2003, ela preferiu largar a carreira para se dedicar à vida em família - que ainda conta com Oliver, filho do casal nascido dois anos depois. Foi por acaso que nosso repórter imaginário encontrou com Bridget na saída de um restaurante em Los Angeles. Prestes a completar cinquenta e um anos, ela tentou escapar, mas acabou colaborando nessa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Você vem de uma família nobre de Hollywood, sobrinha de Jane Fonda, filha de Peter, neta de Henry... sua desistência da carreira de atriz não gerou problemas no legado da família?

Bridget: Não mesmo. Minha tia Jane também largou a carreira para se dedicar à família por muito tempo. Ela ficou quinze anos sem atuar, voltando apenas recentemente ao cinema. Pode ser algo genético... rs

§8^) Você quer dizer que pode voltar a ter uma carreira?

Bridget: Pode ser... mas manter uma carreira é algo realmente estressante e vejo que tenho outras prioridades. Considero meu tempo em família mais prazeroso! Gosto que as pessoas lembrem que fiz alguns filmes que podem ser considerados clássicos daqui há alguns anos... mas acho que parei na hora certa, antes que me rotulassem como decadente ou coisa parecida. 

§8^) Não sente falta da fama?

Bridget: Nem um pouco. Lembro quando um bando de garotas copiaram o meu cabelo curtinho de Mulher Solteira Procura (1992) e achei que o mundo enlouquecia feito a personagem de Jennifer Jason Leigh. Também não curtia quando atuava em filmes menores e as pessoas imaginavam que deveria alcançar um sucesso absurdo. Quando eu acordava cedo para filmar eu não pensava em bilheterias milionárias, meu trabalho era atuar. Sem falar quando os críticos pegavam no meu pé e imaginava que eles não entendiam nada do que eu tentava expressar. Veja só o meu pai, ele precisou de 35 anos de carreira para ser indicado ao Oscar de melhor ator... todo mundo celebrou na época mas a carreira dele continuou na mesma.

§8^) Seu pai é sempre lembrado por Easy Rider (1969), sua tia por Barbarella (1968) por qual filme gostaria de ser lembrada?

Bridget: Gosto muito da minha personagem em Jackie Brown (1997), curti muito trabalhar com Tarantino. Ele me confiou um papel totalmente diferente de tudo que eu havia feito. Talvez em mais uns quinze anos ele me convide para fazer outro filme e minha carreira decole novamente, assim como ele fez com John Travolta em Pulp Fiction/1994.

§8^) Ainda não acredito que você prefere ser dona de casa do que atriz famosa...

Bridget: Fala sério, você acha que estrago minhas unhas lavando louça?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

FILMED+: Jackie Brown

Pam Grier (ao centro): blaxploitation by Tarantino.

De vez em quando tenho certeza absoluta de que Jackie Brown é o melhor filme de Quentin Tarantino. Sei que para os fãs do diretor minha consideração soa como uma heresia, já que é o filme menos celebrado do diretor e o qual ele filma de forma mais tradicional. O motivo para essa experiência mais contida foi que conforme seus primeiros filmes ganhavam projeção (Cães de Aluguel/1992 e Pulp Fiction/1994) e outros saiam da gaveta dos estúdios (Amor à Queima Roupa/1993, Assassinos por Natureza/1996 e Um Drink no Inferno/1996) os mais desconfiados começavam a criticar sua obra por glamourizar a violência. Em Jackie Brown, o diretor quis provar seu cinema tinha outros elementos. Para começar pegou o romance policial Ponche de Rum de Elmore Leonard e transformou seus personagens brancos em negros. O que parece apenas um detalhe faz toda a diferença no contexto social que o diretor quer abordar em uma estética que remete diretamente ao blaxploitation, um subgênero cinematográfico em alta nos anos 1970 voltado para o público negro urbano com tramas regadas com policiais, violência, trilha soul e sensualidade. Por isso, não é por acaso, que Tarantino ressuscita a musa do gênero Pam Grier para encarnar sua protagonista com todo o rigor que ela necessita. Grier está espetacular em cada cena, recebendo tratamento de Diva, mesmo quando surge desglamourizada na tela (por sua atuação foi lembrada no Globo de Ouro e no prêmio do sindicato mas foi desprezada no Oscar). Jackie é uma comissária de bordo que transporta dinheiro em suas viagens de trabalho para o traficante Ordell (Samuel L. Jackson, que pelo papel foi eleito o melhor ator do Festival de Berlim em 1997). Eis que um dia ela é abordada por dois policiais que investigam uma morte em que Ordell está envolvido e ela percebe que pode ser a próxima vítima. Jackie sabe que a vida para uma mulher que beira os cinquenta anos, negra e que trabalha numa pequena companhia aérea não promete melhorar depois de uma situação dessas - especialmente por Ordell desaparecer com as pessoas que colocam em risco seus negócios. Sorte que Jackie é mais esperta do que os outros personagens - e que Ordell colocou em seu caminho o agente de fianças Max Cherry (Robert Foster, indicado ao Oscar de Coadjuvante), que cai de amores por Jackie desde que a vê pela primeira vez. Os dois colocaram em prática um plano perigoso, mas que, se funcionar, tem tudo para ser perfeito. Depois do Oscar de roteiro original por Pulp Fiction, Tarantino comprovou aqui sua astúcia na escrita de diálogos inteligentes e elétricos, além disso, reforçou sua habilidade em gerar tensão nas cenas - embora seja óbvio que se sujeitou à uma camisa de força (repare como as cenas com tiros e armas sempre desviam o olhar do espectador para tornar tudo menos explícito). Além disso, Tarantino reafirmou seu faro perfeito para que ator deverá viver cada papel, sem ligar para quem está em alta ou em baixa. Repete a parceria com Samuel L. Jackson, oferece um papel de periguete para a classuda Bridget Fonda (que abandonou a carreira de atriz anos depois), deixa Robert DeNiro em segundo plano, mostra que Michael Keaton ainda é interessante e valoriza veteranos deixados de lado pela indústria como Robert Foster e Pam Grier (que tem uma química incrível na tela). Não bastasse o ótimo elenco, o filme segue o curso necessário para dizer  que Tarantino não estava disposto a se repetir e que era capaz de gerar momentos geniais como a antológica cena do plano em prática no shopping (o que já vale o filme por mostrar o ponto de vista de cada personagem sobre o elaborado plano de Jackie para atravessar um vale de bandidos e policiais que não dão a mínima importância para ela). Repleto de qualidades, ainda que subestimado por suceder Pulp Fiction, Jackie Brown  é o filme que mostra que ainda contido, Tarantino pode criar uma verdadeira obra-prima. 

Jackie Brown (EUA/1997) de Quentin Tarantino de Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Foster, Robert DeNiro, Bridget Fonda, Michael Keaton e Chris Tucker. ☻☻☻ 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pódio: Patricia Arquette

Bronze: morena?
3º A Estrada Perdida (1997)
Noa anos 1990 Patricia Arquette foi uma das jovens atrizes mais celebradas de sua geração. Vinda de uma família de irmãos atores (Rosanna, Richmond, Alexis e David) ela era de fato o nome mais interessante... tanto que foi a única a ter prestígio para trabalhar com diretores de peso - como David Lynch nessa piração onde ela vive duas personagens diferentes, ou pelo menos, é isso que parece quando no meio do caminho ela deixa de ser morena (e casada com Bill Pullman) e fica loira (para namorar com Balthazar Getty). A personagem parece ser a chave do mistério envolvendo os personagens de mais esse enigma do universo Lynchiano. 

Prata: maternal.
2º Boyhood (2014)
Depois de anos conhecida como a protagonista da série Medium, Patricia voltou aos holofotes com esse filme diferente de Richard Linklater, onde as filmagens atravessaram mais de uma década. No papel da mãe do protagonista, Patricia é dona da performance mais consistente do filme, conseguindo compor uma personagem sólida no decorrer dos três dias de filmagens anuais em que reencontrava a personagem. Além de interpretar, a atriz ainda se despe de vaidade para envelhecer diante da câmera, mas sem perder o foco de uma mulher que tenta criar os filhos, construir uma carreira e sobreviver a um casamento problemático...

Ouro: amor segundo Tarantino. 
1º Amor a Queima Roupa (1993)
O primeiro roteiro escrito por Quentin Tarantino só conseguiu sair da gaveta depois que o diretor ganhou prêmios com Pulp Fiction/1994. Sorte da plateia que recebeu um dos melhores romances de ação de todos os tempos (se não for o melhor). Na pele da garota de programa Alabama, Patrícia alcança uma atuação inesquecível ao lado de Christian Slater. Os dois se apaixonam na primeira noite juntos e para tirá-la do submundo ele terá que enfrentar um bocado de problemas (ainda mais depois que desafia alguns traficantes). Clássico dos anos 1990, trata-se do melhor filme de Tony Scott. 

CATÁLOGO: Procurando Encrenca

Stiller e seus parceiros de jornada: em busca da identidade perdida?

Hoje David O. Russel pode ser reconhecido como um diretor queridinho de Hollywood. Depois que seus filmes O Vencedor (2010), O Lado Bom da Vida (2012) e Trapaça (2013) caíram na graça do público, da crítica e do Oscar, os tempos em que seus filmes eram lançados com desconfiança parecem ter ficado para trás. Talvez o motivo da desconfiança estivesse em seu filme de estreia, uma comédia de humor negro sobre incesto (A Mão do Desejo/1994 que conta com atuações vigorosamente ambíguas de Jeremy Davies e Alberta Watson), isso sem contar com seu mal fadado filme com Jake Gyllenhaal (Nailed) que está concluído desde 2008 e que ainda não foi lançado (dizem que chegará às telas em 2015 graças à boa fase do diretor). Procurando Encrenca foi o segundo longa metragem do diretor e, visto hoje, podemos identificar algumas marcas bastante características do seu cinema. Estão lá o gosto por traumas e recalques de seus protagonistas, a visão caótica dos laços de família, o embaralhamento esperto da trajetória de personagens e o gosto por colocar vários atores em uma única cena. Mesmo sendo um filme de pequeno orçamento, o longa surpreendeu nas bilheterias americanas com sua mistura de busca de origens e road movie biruta. Ben Stiller ainda não era reconhecido como astro quando encarnou Mel Coplin, um sujeito comum que ainda saboreia o nascimento do primeiro filho ao lado da esposa Nancy (Patricia Arquette). Porém, depois de descobrir que é adotado, Mel encontra sérias dificuldades para escolher o nome do filho que já completa meses de vida. Sentindo a necessidade de descobrir suas verdadeiras origens (para desespero da mãe zelosa vivida com deliciosa desenvoltura por Mary Tyler Moore), Mel parte com a esposa e uma assistente social (Téa Leoni) em busca de seus pais biológicos. Obviamente que haverá várias trapalhadas nessa jornada, especialmente quando existe um flerte entre a assistente e Mel, além do encontro de Nancy com um ex-namorado (Josh Brolin no papel mais simpático de sua carreira) que agora é agente do FBI e parceiro (não apenas no trabalho) de um homem mais velho (Richard Jenkins). Desde o início Russell faz troça dos filmes sobre a busca pelas raízes em busca de soluções para seus problemas pessoais,  afinal, quando Mel encontra seus pais biológicos (os impagáveis Alan Alda e Lily Tomlin) ele percebe que  tem mais coisas em comum com as neuras de seus pais adotivos - e isso é mais positivo do que ele imagina. Russell aproveita ao máximo os personagens curiosos que tem em mãos, colocando-os em situações inusitadas e aumentando a tensão sexual entre eles de forma quase ingênua, forma que era comum nas comédias da década de 1980. Com a desenvoltura que conta sua história nervosa, Russell já indicava o caminho que sua cinematografia seguiria nos anos seguintes entre o mainstream e o estilo indie de contar histórias. 

Procurando Encrenca (Flirting with Disaster/ EUA-1996) de David O. Russell com Ben Stiller, Patricia Arquette, Mary Tyler Moore, Josh Brolin, Téa Leoni, Lily Tomlin, George Segal, Alan Alda e Richard Jenkins. ☻☻☻

domingo, 23 de novembro de 2014

DVD: As Aparências Enganam

O gigante a mãe dominadora: hora de crescer (por dentro). 

Em 2007 o diretor dinamarquês Mads Matthiesen lançou seu aclamado curta metragem Dennis. Contando a história de um fisiculturista tímido que vivia com a mãe, o filme chamou atenção em festivais e serviu de cartão de apresentação para sua estreia em longa metragem com esse As aparências Enganam. O filme é gratificante de se assistir, especialmente porque Mathiesen não está preocupado em criar planos inovadores, provocações ou utilizar uma edição moderninha. Sua maior ambição é fazer a plateia conectar-se com o seu protagonista. Dennis (o ex-jogador de futebol Kim Kold) é um fisiculturista que ainda mora com a mãe dominadora (Elsebeth Steentoft) e, para além do culto ao corpo em busca de uma musculatura perfeita, aos 38 anos, Dennis é extremamente tímido - o que só atrapalha sua relação com as mulheres. Ele até tenta sair com algumas garotas da academia, mas acaba desistindo. Sua grande chance de decolar a vida amorosa é quando seu tio casa com uma garota tailandesa e ele decide sair de Compenhagen para Pattaya. Acreditando que por lá é fácil encontrar o amor, ele irá perceber que as coisas não são tão fáceis - especialmente quando terá que mentir para a mãe, dizendo que irá participar de uma competição na Alemanha. Entre inúmeras prostitutas que cruzam seu caminho (sem muito sucesso), Dennis nem imagina que seu gosto pelo fisiculturismo irá colocar uma pessoa especial no seu caminho. Mathiesen  cria um filme elegante, simples e nobre ao explorar o contraste da fragilidade emocional de Dennis com sua aparência de gigante. É verdade que Kim Kold mostra-se um ator surpreendente por conseguir expressar suas emoções com pouco mais do que um olhar ou sorriso, além disso, a história não deixa de ser original por utilizar um personagem de porte que acostumamos a ver em filmes de ação (o próprio Kold atuou em Velozes e Furiosos 6 no ano passado) mostrando que existe um bocado de emoções dentro dele. O filme ainda cria um clímax poderoso quando Dennis precisa escolher entre tornar-se homem ou ser eternamente filho de uma mãe castradora. Matthiesen inova por um caminho diferente, explorando o romantismo de forma quase antiquada e mostrando que o fundamental é a plateia comprar a história que ele quer contar (ao ponto de lançar seu filme no exterior com o nome de Teddy Bear!!!). Premiado em Sundance (e em vários outros festivais) por ser sensível (sem cair em armadilhas), As Aparências Enganam é uma bela surpresa.

As Aparências Enganam (Teddy Bear/Dinamarca-2012) de Mads Matthiesen com Kim Kold, Elsebeth Steentoft e David Winters. ☻☻☻☻

DVD: O Maravilhoso Agora

Teller e Woodley: dupla de talento. 

Miles Teller e Shailene Woodley são dois jovens atores de ouro em Hollywood. Bem, para falar a verdade Miles tem vinte e sete anos, enquanto Shailene tem vinte e três - embora ambos aparentem ter bem menos. Talvez por essa aparência enganosa, eu ainda me surpreenda quando penso nas histórias que ambos têm para contar. Woodley merecia uma indicação ao Oscar por ser a filha adolescente de George Clooney no superestimado Os Descendentes (2011), mas desde então conseguiu destaque em produções independentes e tem forte lobby para cravar uma indicação ao Oscar por A Culpa É das Estrelas (2014), se conseguir é merecido. Vale lembrar que a mocinha também é capaz de fazer a plateia esquecer a tosquice da série Divergente (2014) e se concentrar em sua capacidade de carregar um filme nas costas. Teller também esteve em Divergente e prepara-se para mergulhar em outra franquia ambiciosa, a nova versão de Quarteto Fantástico (prevista para o ano que vem) onde viverá o Sr. Fantástico. Teller chegou ao estrelato devagar como o adolescente perdido por ter atropelado o filho de Nicole Kidman em Reencontrando a Felicidade (2010), mas desde então sua carreira passou longe da apatia com oito longas no currículo (incluindo o cotado ao Oscar do ano que vem, o elogiado Whiplash de Damien Chazelle) e outras seis produções para estrear nos próximos anos. Talvez o grande diferencial de Miles e Shailene seja aparência de gente comum, sem o peso de ser galã ou beldade, são experts em viver pessoas com problemas comuns, especialmente se fora aquele mal estar típico da adolescência. Ambos já viveram essas desventuras em seus filmes, mas em O Maravilhoso Agora (título fiel, mas infeliz para The Spectacular Now) os dois mostram porque estão há léguas de distância de outros astros adolescentes que Hollywood quer nos empurrar goela abaixo. Quando o filme começa e somos apresentados a Sutter (Teller) ele está diante de uma tela de computador com grandes dificuldades para escrever uma redação. Esse no entanto parece ser o menor de seus problemas, já que ele ainda não digeriu o fim de seu namoro com Cassidy (Brie Larson). Além disso, a vida de Sutter segue uma rotina bastante semelhante a de outros adolescentes:  tenta ajudar a decolar a vida amorosa do melhor amigo (o simpático Masam Holden), frequenta festas, tem problemas com algumas matérias na escola, problemas de relacionamento com a mãe e, de vez em quando, exagera na bebida. É num desses excessos que encontra Aimee (Shailene), que estuda na mesma escola que ele, mas é incapaz de ter chamado sua atenção até aquele momento. Se Sutter tem uma forte tendência a enxergar o próprio umbigo, Aimee é sua antítese. Sempre preocupada com a mãe, mas incapaz de fazer dramas até com o falecimento do pai, por isso a plateia logo percebe que existem algumas fagulhas no ar quando o casal se encontra. O diretor James Ponsoldt faz seu filme evoluir sem pressa diante da plateia, até que chega ao ponto em que nos damos conta de que a relação de ambos com suas mães e o espectro dos pais ausentes servem para mostrar um problema muito maior. Quando Sutter resolve reencontrar seu pai, que não encontra há tempos, o que percebemos é que o rapaz é um protótipo do pai (vivido com desleixo preciso por Kyle Chandler), assim como, ele tem forte tendência a carregar a esperançosa Aimee para o fundo do poço. Apesar da cara de romance adolescente, O Maravilhoso Agora mergulha no drama como só os filmes de sarjeta podem fazer. Sem excessos ou grandes polêmicas, o filme desenvolve o personagem de Sutter com mais nuances do que o estereótipo desse tipo recebe até em filmes badalados. No fim das contas, gostei do filme romper com aquela bobagem determinista que algumas produções independentes utilizam. Se existe um defeito no filme é que Aimee é praticamente uma santa diante dos tropeços de seu amado, sempre disposta a perdoar a torna um pouco forçada (mas nada que a última cena não deixe espaço para minha mente corrigir). 

O Maravilhoso Agora (The Spectacular Now/EUA-2013) de James Ponsoldt com Miles Teller, Shailene Woodley, Kyle Chandler e Jennifer Jason Leigh. ☻☻☻

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

4EVER: Mike Nichols

6 de novembro de 1931 / 20 de novembro de 2014

Nascido em Berlim, Michael Igor Peschkowsky deixou sua cidade natal junto com a família em 1939 devido à Segunda Guerra Mundial. O início da carreira foi em 1950 e desde então colecionou elogios e prêmios, tornando-se um dos poucos diretores a receber os quatro principais prêmios do showbizz americano (Oscar, Tony, Emmy e Grammy). Em 1968, antes de completar trinta anos, recebeu o Oscar de direção pelo seu magnífico trabalho em A Primeira Noite de Um Homem, tento concorrido anteriormente por seu trabalho em Quem Tem Medo de Virginia Woolf/1967 e posteriormente por Silkwood/1983 e Uma Secretária de Futuro/1988. Na década de 1990 seus trabalhos foram menos celebrados, sendo lembrado novamente com o trabalho na aclamada série Angels In America/2003 pelo qual recebeu vários prêmios e abrindo caminho para sua cultuada adaptação cinematográfica de Closer (2004), baseado na peça de Patrick Marber. Nichols faleceu em 20 de novembro de um ataque cardíaco. 

domingo, 16 de novembro de 2014

APOSTAS PARA O OSCAR 2015: Capítulo III

Selma
Abordar a luta pelos direitos civis nos EUA é sempre bem vindo na temporada de premiações e se tiver os atores certos nos papéis cobiçados de Martin Luther King (David Oyelowo) e George Wallace (Tim Roth), as chances de sucesso aumentam consideravelmente! Dirigido por Ava DuVernay, o filme deixou a expectativa crescer ao seu redor aos poucos - e a presença de Oprah Winfrey e Tom Wilkinson só faz aumentar a atenção que o filme deve receber nos próximos meses em seu retrato da marcha pelos direitos civis na terra do Tio Sam. 

A Most Violent Year
O diretor J.C. Chandor já provou que pode fazer milagres num filme com um único cenário e um único ator em cena  (o cult Até o Fim/2013 com Robert Redford). Imagine o que ele pode fazer com uma atriz que chama cada vez mais atenção na sétima arte? Jessica Chastain estrela ao lado de Jason Isaacs esse drama de uma família de imigrantes que tenta manter os negócios na cidade de Nova York no ano mais violento de sua história (1981 - só para lembrar). Doses de violência, corrupção e decadência, atrapalham os personagens que lutam para evitar que tudo que construíram desabe perante a dura realidade que enfrentam. 

Livre (Wild)
Não sei por quanto tempo a moda permanece, mas o cinema oferece cada vez mais espaço para filmes onde um ator tem que estar sozinho em cena a maior parte do tempo (prendendo a atenção da plateia), a próxima a enfrentar esse desafio é Reese Witherspoon, que cada vez mais decepcionada com os papéis que os estúdios lhe oferecem, volta-se cada vez mais para filmes independentes de pequeno orçamento. Quase dez anos depois de seu Oscar por Johny e June (2005) a atriz tenta voltar ao radar da Academia nessa jornada intimista de uma mulher que tenta fugir de uma catástrofe pessoal. Obviamente que a assinatura de Jean Marc Vallée (de Clube de Compras Dallas/2013) valoriza o passe do filme consideravelmente. 

Sniper Americano (American Sniper)
Deve ser realmente ótimo não ter que provar mais nada para ninguém. Com duas indicações seguidas ao Oscar (ator por O Lado Bom da Vida/2012 e coadjuvante por Trapaça/2013), Bradley Cooper é capaz de emplacar uma terceira indicação no seu currículo. Com direção de Clint Eastwood, esse filme conta a história de Chris Kyle (Cooper), um atirador do exército americano que matou mais de 150 pessoas. Com previsão de lançamento para o final de dezembro, o filme chamou atenção pelos festivais onde passou. No elenco ainda estão Sienna Miller e Eric Close. 

 O Abutre (Nightcrawler)
O que seria de alguns atores sem as dietas radicais de Hollywood? Jake Gyllenhaal sempre foi um ator interessante, mas foi o último da lista  a enfrentar uma perda radical de peso para um papel. Vivendo um jornalista desesperado por emprego e obcecado por crimes - ao ponto de não dormir -, as coisas complicam quando ele ultrapassa a linha entre observador e criminoso (chamando a atenção de uma veterana da televisão). A estreia de Dan Gilroy (roteirista da trilogia Bourne) promete um retrato sórdido de Los Angeles (e da mídia). 

FILMED+: Entrevista com o Vampiro

Claudia, Pitt e Cruise: família disfuncional?

Faz tempo em que assisti Entrevista com o Vampiro, versão cinematográfica do clássico livro de Anne Rice lançado em 1976 (e que no Braisl foi traduzido por Clarice Lispector). Recentemente o filme me veio à memória por conta de Amantes Eternos (2013) de Jim Jamursch. O filme estrelado por Tom Cruise (que estava no auge) e Brad Pitt (que começava a consolidar seu fã clube) permanece intacto em suas qualidades - além de ter uma fluência igualmente envolvente à sua época de lançamento. Evidente que os maiores elogios são para o diretor Neil Jordan, que criou um visual barroco para contar a história de vampiros mais multifacetada da história do cinema, além de manter a rédea curta para que tudo não caísse no ridículo (e acredite o risco era grande: vampiros afetados com um único personagem feminino marcante - feito por uma criança que age feito adulta). Beneficiado pelas influências do horror clássico, Entrevista com o Vampiro é uma ode à maldição de ser eterno na busca por sangue. Não lembro de ter visto um filme que conseguisse retratar tão bem essa sensação, até então não explorada sobre essa figura emblemática do horror. A trama começa como o título anuncia, quando um jornalista (Christian Slater) se prepara para entrevistar um homem de pele muito branca e reservado, mas que não demora muito para revelar-se um vampiro. Seu nome é Louis (Brad Pitt ainda apático), transformado em vampiro no século XVIII pelo misterioso Lestat (Tom Cruise). Porém, enquanto Lestat considera ter conferido ao rapaz a maior dádiva de todas (a eternidade), Louis considera que sua vida se transformou num inferno. Condenado à escuridão, ele atravessa o século ao lado de Lestat e seus métodos de sedução para conquistar as presas. Enquanto Lestat abraça sua maldição com gosto, Louis apenas lamenta o que seus olhos veem. A vida entre os dois tem uma guinada brusca quando a menina órfã, Claudia (Kirsten Dunst, com 12 anos na época do lançamento do filme) cruza-lhes o caminho e ela se torna uma criança vampira. Condenada a amadurecer num corpo infantil, Claudia rebela-se contra Lestat e o resultado só aumenta o tom de tragédia do filme. Ao lado de Louis ela precisa  sufocar seus desejos de mulher e enfrentar sua impossibilidade de crescer. Jordan cria uma dinâmica irresistível entre o trio, com surpreendente destaque para a atuação madura de Kirsten na pele de uma personagem difícil e que poderia gerar polêmicas desnecessárias ao filme. Mas além do trio, existem outros vampiros, sendo a sequência mais desagradável o dos membros do sanguinário Teatro dos Vampiros. Liderados por Armand (Antonio Banderas, com uma peruca que tenta imitar a cabeleira de Glória Pires), a trupe poderá descobrir o maior segredo de Claudia e Louis e deixá-los em perigo. Neil Jordan cria um espetáculo visual que impressiona, sem perder a densidade desses seres imortais. Além de todo cuidado estético e dramático, o filme carrega forte no homoerotismo que chamou atenção da crítica e público por seu elenco repleto de de galãs hollywoodianos. Recentemente, a fome dos estúdios por novas sagas cinematográficas milionárias gerou uma nova compra de direitos da coleção criada por Anne Rice, a série Crônicas Vampirescas conta com dez livros - se contarmos com o ainda inédito Princípe Lestat a ser editado ainda esse ano - e todos devem chegar ao cinema nos próximos anos. Com especulações de que Pitt e Cruise podem atuar novamente juntos pela saga (será que dessa vez os dois se entenderão melhor no set?), a série parece querer manter distância do grotesco A Rainha dos Condenados (2002), outro livro da série que mostrava Lestat com pose de rockstar (vivido por Stuart Townsend) e que fracassou nas bilheterias. O mais interessante é que enquanto Entrevista mostra exatamente como tratar os personagens de Rice, o outro reflete exatamente o oposto. 

Entrevista com o Vampiro (Interview with a Vampire/EUA-1994) de Neil Jordan com Tom Cruise, Brad Pitt, Kirsten Dunst, Christian Slater, Atonio Banderas e Stephen Rea. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DVD: Michael

Fuith e um menino: monstro disfarçado. 

Os primeiros minutos de Michael mostram um homem chegando em casa e realizando coisas comuns que qualquer outra pessoa faria depois de um dia de trabalho. Após preparar o jantar e fechar as janelas, abre a porta do porão e diz "saia". Alguns segundos depois, um menino aparece. A plateia pode não entender ainda o que presencia, mas o trato do personagem adulto com a criança está longe de ser carinhoso, é apenas ríspido, sem muito carinho ou atenção. Alguns minutos depois a plateia terá a dimensão assustadora do que presencia. Michael (vivido pelo ator Michael Fuith) é o protagonista do filme de estreia do austríaco Markus Schleinzer e, não demora muito para notarmos o que sua rotina regrada tem de doentia: o sujeito é um pedófilo. Não sabemos direito como aquela criança foi parar em seu porão, mas alguns detalhes deixam claro os motivos pelo qual o personagem é mantido trancado por um adulto. O diretor constrói um filme perturbador a partir da rotina dos personagens. Envolto em silêncios e solidão, o filme se desenvolve mais como um suspense (que nos faz esperar para ver o que irá acontecer até o desfecho), amparado pela tortura psicológica de Michael sobre o menino e seus truques para mantê-lo ali. Diante da abordagem de um tema tão explosivo, Schleinzer faz o favor de evitar cenas polêmicas, afinal de contas, sabe que não é necessário chocar a plateia mais ainda (tem apenas uma cena que foi realizada através de montagem - cena que serve para o diálogo mais cruelmente patético do filme - e talvez da história do cinema). O filme se desenvolve com uma fluência mórbida, com poucos diálogos e ritmo quase arrastado, feito de pequenos detalhes que anunciam a quebra do equilíbrio forjado dentro da casa. Há de se elogiar a atuação de Michael Fuith (que quase desistiu do papel com medo do impacto em sua carreira), que interpreta um personagem difícil de contenção impressionante, da mesma forma, seu parceiro de cena (o menino David Raunchenberger) consegue conciliar a inocência perdida com a precisão de uma bomba relógio (e o diretor ressaltou que em momento nenhum o menino sabia o que seu personagem sofria no filme). O filme foi exibido em Cannes e conseguiu vários elogios pela maneira sutil como aborda um tema tão perigoso. Longe de fazer uma obra agradável, vale lembrar que Schleinzer trabalhou com Michael Haneke (A Fita Branca/2009) em vários filmes e aqui demonstra que aprendeu a lição direitinho: seu cinema é cerebralmente devastador (com a vantagem der ser menos explícito que algumas obras de seu mestre). Deixando a última cena à cargo do público, cria em nossa mente o momento da descoberta de que aquele homem calado e solitário era apenas o disfarce de um monstro. 

Michael (Áustria/2011) de Markus Schleinzer com Michael Fuith, David Raunchenberger, Christine Kain e Victor Tremmel. ☻☻☻ 

DVD: Joan Rivers - Piece of Work

Rivers: os dias difíceis de uma diva. 

Em 2014 o mundo ficou mais triste com a morte de Joan Rivers. Embora estivesse em alta com seu programa de TV (o hilariamente maldoso Fashion Police) e com participações mais que especiais no cinema (a melhor delas em Homem de Ferro 3), Joan já teve o seu período de vacas magras. As diretoras Ricki Stern e Anne Sundberg escolheram justamente esse período para contar a história da atriz nesse documentário que fez sucesso em vários Festivais (incluindo Sundance, de onde saiu com o prêmio de melhor montagem, além de ter concorrido ao prêmio de melhor documentário). Os envolvidos mal sabiam que a atriz estava prestes a dar novo fôlego à carreira depois de participar do programa Celebrity Aptrentice capitaneado pelo milionário Donald Trump. Quando o filme começa, Joan não poupa esforços para manter seu estilo de vida luxuoso, aceitando propostas para shows em qualquer lugar, propagandas de qualquer coisa e capas de qualquer revista (enquanto prepara um espetáculo sobre a sua vida e se prepara para o retorno à TV - que parece nunca chegar). Rivers estava com 75 anos na época da filmagens e não tem pudores em aparecer diante da câmera sem maquiagem ou com os efeitos de aplicações de botox ou cirurgias plásticas (dizem que foram mais de 70!). Rivers não tem pudores de se despir da personagem que criou para si e relembra alguns momentos delicados de sua carreira e vida pessoal. Desde o início quando apareceu na TV ao lado de Johnny Carson no celebrado The Tonight Show em 1965, os americanos se depararam com aquela mulher de humor ácido, voz rouca e forte sotaque novaiorquino. Ainda que o filme aborde um período de maré baixa da artista, fica claro que sempre foi considerada uma rainha da comédia americana, ainda que seu humor peculiar possa ter lhe custado caro (especialmente pela perseguição sofrida pelos críticos que nunca a reconheceram como ela gostaria). Passagens como sua traumática carreira solo na Fox, o suicídio do marido e o relacionamento com a filha Melissa Rivers são abordados sem sentimentalismo, mostrando como Rivers é capaz de rir de si mesma (e não apenas de outras celebridades) e reinventar-se quantas vezes forem necessárias. Para os fãs os momentos onde cria (e arquiva) suas piadas são saborosos! No entanto, o filme de Stern e Sundberg ultrapassa os limites da vida de sua biografada quando amplia seu olhar para o ingrato mundo artístico, onde a velhice é considerada um demérito aos mais experientes, especialmente se for comediante! Piece of Work mostra o vigor de Joan e outros artistas que foram esquecidos pelo mainstream (o momento em que ela encontra a fotógrafa Flo Fox é de arrancar lágrimas da plateia) e a necessidade de reconhecimento. Com cenas de palco, de arquivo e entrevistas, Piece of Work é um retrato riquíssimo de uma mulher que desafiava as convenções conservadoras dos americanos na década de 1960 e que, com o passar do tempo, só tornou seu olhar mais arguto e sua língua feroz. Entre fãs, críticos, seguidores, familiares e entourage, Joan Rivers aparece como uma personagem imortalizadamente irresistível. 

Joan Rivers - Piece of Work (EUA-2010) de Ricki Stern e Anne Sundberg com Joan Rivers, Jocelyn Pickett, Kathy Griffin, Melissa Rivers e Bill Sammeth. ☻☻☻☻

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MOMENTO ROB GORDON: CineRobôs

5  - Gigante de Ferro (Gigante de Ferro/1999)
O filme de estreia do diretor de Os Incríveis/2004 teve que se contentar com o fracasso nas bilheterias. Confiante do que tinha em mãos, a Warner teve enormes dificuldades na distribuição do seu filme, ao ponto de cancelar seu departamento de animação com medo de outro fracasso. O fato é que a história do robô (construído para ser uma arma) e sua amizade com um menino torna-se uma bela fábula antibelicista. Ambientado num tom de paranoia, Gigante de Ferro é um personagem que conquista fácil (curiosamente ele tem voz de Vin Diesel que recentemente interpretou outro personagem de poucas falas: o Groot de Guardiões da Galáxia/2014) por mostrar em suas expressões que mesmo construído para matar, ele pode redimir-se por sentimentos bastante nobres.

4 - WALL.E (WALL.E/2008)
Talvez num futuro próximo, a tecnologia deixe todos os homens gordinhos de tão sedentários e a Terra se torne um grande depósito de entulhos. Nesse futuro possível que vive o robozinho Wall.E, um coletor de lixo que acaba se apaixonando e vivendo uma aventura no espaço. O personagem carismático tem o grande desafio de prender a atenção da plateia durante boa parte do filme emitindo somente ruídos num ambiente de lixão. O Oscar de melhor animação comprovou que o robozinho alcançou seus objetivos. 

3 - TARS (Interestelar/2014)
Um dos melhores personagens do novo filme de Christopher Nolan é um robô bastante estranho, que lembra o monolito de sua fonte de inspiração (2001 - Uma Odisseia no Espaço/1968). No entanto, sua estrutura física pode limitar seus movimentos, mas ainda assim é capaz de surpreender quem lhe confia missões bastante perigosas. TARS ainda tem um senso de humor bastante peculiar, (ainda que ajustável) que ajuda a solidão no espaço ser um pouco mais agradável. 

 2 - Marvin (O Guia do Mochileiro das Galáxias/2005)
Poucos robôs são dignos de culto antes de sua ida para as telonas, nesse clube se encontra Marvin o robô mais depressivo do universo! Cultuado já no livro de Douglas Adams, o personagem inspirou até uma música do Radiohead (Paranoid Android do histórico álbum Ok, Computer). Inteligente como todos os robôs, Marvin sabe que as possibilidades de tudo dar errado é muito grande (especialmente depois que a Terra foi demolida por uma construtora alienígena pelo simples fato de estar no meio do caminho de uma obra). Seu baixo astral o torna ainda mais divertido!

1 - C-3PO & R2-D2 (Star Wars/1977)
O motivo dos inesquecíveis personagens da saga de George Lucas aparecerem em primeiro lugar não apenas por eu querer me livrar de outro apedrejamento, mas porque a soma da força de ambos fizeram essa colocação, afinal, eu poderia separar os dois? Os dois funcionam juntos, como Bonnie & Clide, Timão & Pumba ou Thelma & Louise! Ou seja, uma dupla clássica da história do cinema! Ajudando mestre Luke em sua luta contra o lado negro da força, os dois personagens atravessam muitos problemas com mais dignidade do que muito ator de carne e osso que tem por aí!

Na Tela: Interestelar

Hathaway e McConaughey: aventuras num buraco de... minhoca?!

Em pouco mais de uma década, Christopher Nolan se tornou um desses diretores que chamam a atenção quando desenvolve qualquer projeto. Se levarmos em consideração que seu cartão de visitas era um longa contado de trás para frente (Amnésia/2000) e que anos depois reformulou a estética dos heróis da DC Comics para a telona com a trilogia Cavaleiro das Trevas de Batman (ao ponto de quem foge da fórmula, como o patético Lanterna Verde/2011, amargar severas críticas e bilheteria decepcionante) sabemos logo o motivo dos filmes do moço ser tão aguardados. Interestelar é o primeiro filme de Chris depois que se despediu da batcaverna, ao mesmo tempo que parece um irmão bastante próximo de A Origem (2010), seu único trabalho a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme. Enquanto A Origem utiliza a ficção científica para mergulhar em várias camadas do inconsciente, Isterestelar é o retorno do diretor ao gênero, mas dessa vez ele não mergulha nos segredos do ser humano (pelo menos, não explicitamente), mas em aventuras espaciais. Num futuro próximo nosso planeta enfrenta problemas sérios com a produção de alimentos, cada vez mais seca e com poeira constante, os humanos questionam o rumo de algumas coisas. Uma delas é que os produtores de alimentos merecem ser mais valorizados que engenheiros, assim como os gastos com explorações espaciais precisam ser deixados de lado, já que a prioridade é melhorar a vida na Terra, que está ameaçada de extinção. Por conta disso os livros de história foram revistos, a chegada do homem à Lua questionada e a NASA trabalha de forma clandestina. Nesse cenário conhecemos relatos de idosos sobre como nosso planeta mudou nos últimos anos, especialmente de Murphy (Ellen Burstyn) que conta a história de seu pai, o ex-piloto e fazendeiro Cooper (Mathew McConaughey) que cuidou dela e do irmão até partir para uma viagem espacial idealizada por Professor Brand (Michael Caine). Em instalações clandestinas, Brand descobriu indícios de planetas que poderiam ser colonizados por humanos, contra a vontade da então pequena Murphy (a ótima Mackenzie Foy), Cooper parte na expedição ao lado da filha de Brand (Anne Hathaway) e Romilly (David Gyasi). Esse é o início do filme e... tudo o que podemos mencionar para não estragar as surpresas que Nolan reservou no roteiro de seu irmão, Jonathan (em texto escrito originalmente para Steven Spielberg). Muito se fala sobre as referências ao clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço/1968  de Stanley Kubrick (e tem mesmo, não apenas os silêncios, a lentidão dos movimentos no espaço, mas o próprio monolito que aparece transfigurado em mais um robô cool para a história do cinema). No entanto, o que marca a história é como ela relativiza mais do que tempo e espaço, ela relativiza nossas verdades. Tecnologia ou alimentos? Engenheiros ou fazendeiros? Individual ou coletivo? Nessas dicotomias alguns sentimentos se tornam tão constantes (e necessários) como a gravidade para manter nossos pés no chão (ou não). Nolan nos esfrega o presente de nosso mundo destinado a virar pó (ou como bem lembrou minha querida amiga Marcela Paula: "do pó vieste a ao pó retronarás!") para situar sua obra. Em projetos de novos mundos que parecem uma Terra com defeito (muita água, ou muito frio...), o desespero da solidão, da distância do lar, da extinção mostra-se sempre presente e gerando reações adversas. Enquanto a vida no mundo segue seu rumo - e a solução parece cada vez mais distante - a aventura espacial parece destinada ao fracasso.  Considero que às vezes o roteiro se perde em explicações desnecessárias, especialmente quando lembramos que as melhores obras de ficção científica (como de qualquer outro gênero) funcionam melhor quando servem de espelho para refletir o mundo aos olhos do espectador. Talvez por isso o diretor não esclareça quem foi que ajudou a NASA com o tal buraco de minhoca (também conhecido como buraco branco ou, numa linguagem leiga, "um atalho através do eixo espaço/tempo"), ou quais foram as informações dadas por um dos personagens para guiar a humanidade a desfecho que presenciamos. Para terminar, agradeço a Christopher Nolan por não fazer o filme em 3D - do jeito que está já gerou dor de cabeça na plateia, especialmente pela "pentadimensão", uma vertiginosa representação das três dimensões espaciais mesclada ao tempo e ao espaço, o que gera uma cena vertiginosa (que representa com maestria como o agora mescla passado e futuro para quem consegue enxergar além da percepção simplista do presente). Quem embarca na viagem e não perde tempo buscando defeitos irá perceber que Nolan acertou mais uma vez em fazer cinema espetacular sim, mas sem deixar de estimular a inteligência da plateia (e isso é mais raro do que você pode imaginar). 

Interestelar (Isterstellar/EUA-2014) de Christopher Nolan com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Mackenzie Foy, Michael Caine, David Gyasi, Wes Bentley, John Lithgow, Casey Affleck, Matt Damon e Ellen Burstyn. ☻☻☻☻

domingo, 9 de novembro de 2014

DVD: A Menina que Roubava Livros

Sophie Nélisse: menina prodígio, filme nem tanto. 

Não sei por onde anda, mas de vez em quando eu cito meu amigo Osmar (quase um clone de Lázaro Ramos), que me ensinou que "devemos fugir de best sellers como o diabo foge da cruz" (e como tenho vontade de rir quando alguém diz "mas é um best seller" como se fosse sinônimo de qualidade literária... aff). A máxima também é lembrada quando vejo um filme baseado num grande sucesso editorial, às vezes até com mais força do que quando leio o sucesso editorial. A Menina que Roubava Livros do australiano Markus Zusak teve sucesso estratosférico próximo ao de O Caçador de Pipas  de Khaled Hosseini. Depois que Caçador foi levado para as telas, era bastante provável que o livro de Zusak tivesse o mesmo destino. Eu li O Caçador de Pipas e me frustrei com a versão cinematográfica, já que a trama perdia seus pontos mais interessantes na adaptação. O início com seu relato histórico ficou de fora, os conflitos culturais também e a surra catártica foi amenizada. Já A Menina que Roubava Livros é um livro que nunca consegui terminar de ler (e juro que o retomei umas cinco vezes). Não que seja um livro ruim, mas um dos aspectos mais alardeados do livro me incomodava bastante: os comentários da morte. Todo mundo sabe que o livro é narrado pela morte e seus encontros com a menina Liesel. O artifício quebra o fluxo da narrativa constantemente, ao ponto de eu abandonar a leitura várias vezes. Tem gente que curte, eu não curti. No filme, o diretor Brian Percival (famoso por seu trabalho na série Dowton Abbey) tem o bom senso de amenizar essas digressões da célebre narradora (com voz de Roger Allam) e se concentrar na jornada de Liesel (a canadende Sophie Nélisse) a partir do encontro com seus novos pais: o casal formado pelo bondoso Lars Hubermann (Geoffrey Rush) e a megera Rosa Hubermann (Emily Watson), ou nas palavras de Liesel, um homem com coração de acordeon e uma mulher vestida de trovão. O cenário da história é a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, com perseguições a judeus, comunistas e outros que incomodavam a política nazista, no entanto, a trilha sonora melosa de John Williams (indicada ao Oscar) entrega que o tom da narrativa está mais para fantasia da Disney do que para a densidade dramática que o livro sugere. É evidente a Fox quis amenizar o que o livro tinha de mais desagradável, mas com isso perdeu a oportunidade de criar uma obra cinematográfica mais poderosa. O resultado é um filme que se assiste fácil, mas que perde a capacidade de permanecer em nossa lembrança. É verdade que os atores conseguem manter nossa atenção, mesmo quando o tom melodramático domina a produção, especialmente quando Leisel ao lado dos Huberman escondem o jovem Max (Ben Schnetzer) no porão - e se Lars já aguça na menina o gosto pelos livros (onde ela descobre novas palavras, novos mundos, emoções e alento) o contato com Max e os livros que consegue na casa do prefeito da cidade só aumentam sua paixão pelo uso das palavras. O mais interessante do filme é que enquanto os experientes Rush e Watson tentam dar carne e osso para os personagens, é Sophie Nélisse que precisa defender sua personagem com a graça de uma veterana. Quem curtiu o trabalho dessa pequena atriz aqui pode ver o que ela faz em O que Traz Boas Novas (2011), onde sua atuação é ainda mais comovente. Se eu já conhecia o talento de Sophie, o meu achado foi o menino Nico Liersch que desde a primeira cena ganha o coração da plateia (para depois despedaçá-lo impiedosamente). A Menina que Roubava Livros pode não ser a obra excepcional que todos esperavam, mas envolve personagens que não costumam ser o centro das atenções em longas da Segunda Guerra Mundial: os cidadãos alemães comuns largados à própria sorte sob os devaneios do führer e seus seguidores. 

A Menina que Roubava Livros (The Book Thief/2013) de Brian Percival com Sophie Nélisse, Geoffrey Rush, Emily Watson, Nico Liersch e Ben Schnetzer. ☻☻☻

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

APOSTAS PARA O OSCAR 2015 - Capítulo II

Unbroken
O filme ainda nem foi lançado é já existem mais do que expectativas, são quase promessas para o novo filme de Angelina Jolie na direção (O anterior, Na Terra do Amor e Ódio/2011, não vingou). Com lançamento previsto para a semana do Natal, o filme conta a história de Louis Zamperini, um atleta olímpico que sofre uma acidente de avião, lutando 47 dias para encontrar terra firme - mas quando encontra é capturado por japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Com roteiro em colaboração com os irmãos Coen, atuação devotada de Jack O'Connel, produção caprichada de Brad Pitt e história incrivelmente edificante, Unbroken tem tudo para cair nas graças da Academia de Hollywood (e o falecimento recente de Zamperini aos 97 anos só aumenta a força do filme). 
Vício Inerente 
Depois de O Mestre/2012 Paul Thomas Anderson retoma sua parceria com Joaquin Phoenix (em papel que seria de Robert Downey Jr.) colocando-o ao lado de sua companheira no oscarizado Johny & June (2005), Reese Whiterspoon (que teria atuado no papel que ficou com Amy Adams em O Mestre). Phoenix interpreta o detetive particular Larry Spotello,  que é contratado por uma ex-namorada para investigar o sequestro de um bilionário latifundiário. Baseado no livro de Thoman Pynchon, a história mistura traficantes, policiais corruptos e várias camadas de mentira que surpreende no trailer pelo seu tom cômico. O elenco ainda conta com nomes de peso como Josh Brolin, Benicio Del Toro e Maya Rudolph. 

Mr. Turner
O Oscar tem os seus autores favoritos, um deles é o inglês Mike Leigh, cujas produções costumam receber alguma indicação. Em sua cinebiografia do pintor impressionista J.M.W. Turner o diretor exibe novamente o rigor estético apresentado em Topsy Turvy/1999 para contar a história de um homem apaixonado pela luz e seu efeito sobre o mar, cidades, paisagens... o filme retrata um período difícil na vida do artista, onde ainda cuidava de suas duas filhas e onre reencontra o amor. Exibido em Cannes, o filme premiou Timothy Spall (o ator favorito de Leigh) por sua atuação na pele do protagonista e o fotógrafo Dick Pope por seus respectivos trabalhos (e lhes deu fôlego para as premiações que culminam no Oscar).

Still Alice
Falando no prêmio de Melhor Atriz, existe um consenso de que já passou da hora de premiar Julianne Moore com uma estatueta. A atriz indicada ao Oscar quatro vezes deve entrar no páreo novamente por sua atuação nesse filme assinado por Richard Glatzer e Wash West Moreland. Na pele de Alice Howland, uma conceituada professora de linguística, Moore encarna todas as dificuldades de perder aos poucos a memória para o Mal de Alzheimer. Enquanto a relação com o esposo (Alec Baldwin) corre riscos, os laços com a filha (Kirsten Stewart) se fortalecem. Será que Julianne será finalmente premiada? A crítica garante que sim. 

Cake
Sempre percebi um incômodo em Jennifer Aniston em ter que interpretar sempre o mesmo papel na maioria de seus filmes. De vez em quando a atriz aparece em um longa independente com atuações mais dramáticas (vale conferir Por Um Sentido na Vida/2002), mas esses acabam tendo pouca repercussão e ela volta para as comédias românticas... mas agora Aniston parece ter entrado no radar das premiações com sua atuação desglamourizada nesse drama dirigido por Daniel Barnz sobre uma mulher traumatizada e deprimida que entra para um grupo de autoajuda e, após o suicídio de uma integrante do grupo, acaba se envolvendo com o ex-marido da falecida (Sam Worthington). Exibido em Toronto, as apostas em Jennifer cresceram consideravelmente nas últimas semanas. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ROBOCOP x ROBOCOP

Weller: O Robocop em nossa memória. 

O fato é o seguinte: ninguém pediu por uma refilmagem de Robocop. Dito isso, escrevo o que hesito há tempos, desde que a versão de José Padilha chegou aos cinemas. Passado todo aquele alvoroço do lançamento e com o distanciamento seguro de todas as expectativas possíveis, acho que é um momento onde minha opinião será apenas isso: uma opinião. O filme de Paul Verhoeven está na memória de quem cresceu curtindo o cinema na virada da década de 1980 para os anos 1990. Era uma verdadeira orgia de violência, mas que debaixo de tudo aquilo guardava simbologias sobre o homem fundido à tecnologia de uma sociedade onde os interesses de grandes corporações contaminavam a política e transbordava numa sociedade agressivamente sombria. Por isso mesmo, nada melhor do que localizar a trama na cidade americana de Detroit, que cresceu como terreno de indústrias milionárias e viu sua economia ruir mediante cortes para evitar a falência das mesmas. Com bairros que parecem fantasmas, Detroit era o palco para as desventuras do policial honesto Alex Murphy (Peter Weller) que é quase morto pelos criminosos mais sanguinários da cidade num futuro próximo. O que restou do corpo de Murphy é utilizado num experimento revolucionário que produzirá o policial ideal para lidar com a violência das ruas. Servindo à criação do Robocop, Murphy conta com a ajuda de sua parceira Anne Lewis (Nancy Allen) para lembrar um pouco de sua história enquanto lida com os interesses da megacorporação OCP e a vontade de capturar os homens que atiraram nele. Verhoeven explora os conflitos desse futuro distópico de forma mais sombria do que o habitual nos blockbusters, sobrando poucos mocinhos e muitas intenções politiqueiras em temáticas como influência da mídia, privatização e corrupção numa atmosfera acertadamente opressiva. No centro da narrativa, a química entre Weller e Allen é uma atração a parte na colaboração de um filme que custou modestos 13 milhões de dólares e se tornou um sucesso mundial. Obviamente que criar uma franquia era inevitável e Robocop 2 tinha o desafio de elevar o que vimos no primeiro filme a um novo patamar. Inserindo o tráfico de drogas na narrativa, além da criação de um novo modelo de híbrido de homem e máquina para as ruas, a continuação ousa colocar uma criança como líder do tráfico e cenas ainda mais violentas. No projeto do novo Robô, eles acabam utilizando um traficante chamado Cain (Tom Noonan) no protótipo e, como era de se esperar o fracasso é iminente.  O maior problema da continuação é a perda da direção visceral do pessimista (com causa) Verhoeven, substituído por Irvin Kerschner (que pouca gente lembra ser o diretor do melhor Star Wars de todos os tempos: O Império Contra-Ataca/1980). O filme consegue ser mais sombrio que o anterior, mas falta aquela substância densa que pesava nas entrelinhas do primeiro filme. Sem tantos conflitos pessoais para lidar, Peter Weller aparece mais heroico que antes e com a mesma química de antes ao lado de Lewis.  Com boa bilheteria, o filme garantiu um terceiro longa da série, onde o Policial do Futuro tinha que lidar com um grupo de sem teto de Detroit, tornando-se muito amigo de uma menina inexpressiva. O roteiro capenga do terceiro filme enfatizava a criação de Delta City, sendo Robocop com o risco de ser destruído ao ir contra o sistema. A trama era tão ruim que a direção ficou a cargo do inexpressivo Fred Dekker. Peter Weller deve ter ficado com vergonha do que estavam fazendo com a franquia milionária e deixou que Robert John Burke o substituísse, enquanto Nancy Allen tem participação inexpressiva. Com pouco para se lembrar do filme (ah, o Robocop agora voa!), a franquia foi aposentada. Vale lembrar que além dos longas, o filme gerou um desenho animado (em 1988) e uma série para a TV (em 1994 - que durou apenas quatro episódios). Até aí, todas as ideias do filme original foram diluídas.

Kinnaman: armadura sem brilho.

Fazia tempo que Hollywood queria repaginar Robocop. A vez em que isso chegou mais perto foi com Darren Aronofsky antes de Cisne Negro/2010. Mas, reza a lenda que foi José Padilha que numa conversa com produtores americanos revelou sua vontade de refilmar o clássico de 1987. Em alta com o sucesso de Tropa de Elite 2 na Terra do Tio Sam, Padilha era uma boa aposta para dar nova vida ao Policial do Futuro. No entanto, por mais que Padilha seja um bom diretor, ele não conseguiu driblar as armadilhas de repaginar uma franquia milionária. Existem pontos interessantes como dar mais destaque para a família de Murphy, ou enfatizar discursos (muito presentes no Brasil) de colocar aparato militar nas ruas, mas as ideias parecem estar no limite da diluição. A violência chocante do filme original (que era um reflexo do abandono da população à lei do olho por olho, dente por dente) é amenizada, ficando restrita às intervenções americanas no exterior. O próprio Murphy é vitima de uma explosão no quintal de casa e não mais de uma rajada de balas. Até aí, tudo bem. A coisa começa a virar água quando esperamos cenas de impacto que nunca chegam. O roteiro gasta tempo demais nos conflitos de Murphy como um homem máquina e parece esquecer de todo o resto. Joel Kinnaman (da série The Killing) consegue dar conta do personagem, mas o roteiro não o ajuda, dando voltas para chegar no mesmo lugar a todo instante. As ideias de Padilha começam a ficar pelo caminho até que o final óbvio aparece quando torna-se impossível enrolar mais a plateia nas duas horas de duração. Cenas como Murphy observando o pouco que restou de seu corpo humano ou os conflitos éticos dos cientistas envolvidos em sua criação não conseguem sustentar o filme, deixando um gosto de decepção. Percebe-se que existiam boas ideias, principalmente pelo elenco que aderiu ao projeto (Samuel L. Jackson, Gary Oldman, Jennifer Ehle, Jackie Earle Haley, Abbie Cornish...), mas todas foram diluídas nos interesses dos produtores. Os fãs de Padilha elogiaram a forma como relaciona o universo de Robocop com a política armamentista americana, politicagens e a polícia corrupta, mas vale lembrar que tudo isso estava presente no filme original, de forma mais rica e até mais moderna.  Entre os detalhes que não curti estão a pintura preta no corpo de Robocop (que o faz parecer mais um uniforme do que um corpo cibernético) e o desaparecimento completo de sua parceira Anne Lewis (já que os produtores preferiram substituí-la por um homem). Se serve de consolo, o filme consegue ser melhor do que o terceiro filme da série, mas não tem força para relançar a franquia. Padilha já disse que não retorna se houver continuação - ele sabe das coisas. 

Robocop - O Policial do Futuro (EUA- 1987) de Paul Verhoeven com Peter Weller, Nancy Allen, Ronny Cox e Miguel Ferrer. ☻☻☻ 

Robocop 2 (EUA-1990) de Irwin Kershner com Peter Weller, Nancy Allen, Mario Machado e John Dolittle. ☻☻☻

Robocop 3 (EUA-1993) de Fred Dekker com Robert John Burke, Nancy Allen, John Castle e Jill Hennessy. #

Robocop (EUA-2014) de José Padilha com Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jennifer Ehle, Jay Baruchel e Jackie Earle Haley. ☻☻ 

Na Tela: Attila Marcel

Paul: quebra-cabeça da memória. 

Diretores que deixam a animação para lidar com atuações de carne e osso costumam tropeçar ao não perceber que alguns recursos narrativos podem funcionar melhor num universo de fantasia. A crítica tem assistido Attila Marcel com grande desconfiança, afinal, marca a estreia em longa metragem live-action do cineasta Sylvain Chomet com atores de verdade (antes ele havia dirigido uma das histórias de Paris, Eu Te Amo/2006). Chomet lida com um filme cheio de referência, nem sempre costuradas com a competência de quem criou animações inesquecíveis como As Bicicletas de Belleville/2003  e O Mágico/2010. O filme conta a história de Paul (Guillaume Goix), um pianista mudo que vive com duas tias idosas desde que seus pais morreram de forma inexplicável. As esquisitices de Paul remetem aos de Amélie Poulain (2001), mas a culpa é mesmo do cuidado exagerado de suas tias Annie (Bernadette Lafont, musa da nouvelle vague falecida em 2013) e Anna (a veterana Héléne Vincent), que parecem guardar um segredo sobre a morte dos pais do moço. Atormentado por pesadelos e cansado de viver tocando piano em saraus e aulas de dança, Paul encontra na estranha vizinha Madame Proust (Anne Le Ny) algumas respostas para seus dilemas - vale ressaltar que as respostas estavam o tempo todo escondidas em sua memória. Chomet desenvolve assim uma espécie de quebra-cabeças sobre a identidade de Paul. Esse mergulho nas memórias do personagem tem alguns momentos interessantes e outros nem tanto. As cenas onde consegue desvendar um pouco mais da personalidade agressiva de seu pai - o lutador que dá título ao filme (que por sua vez é inspirado numa canção) - até funcionam em seu exagero caricato, mas o filme não deveria investir em cenas que parecem um musical pobre. Quando os personagens começam a cantar nos pensamentos do protagonista o efeito é o mesmo do chá misterioso que Madame Proust oferece a Paul. É melhor quando aparece uma banda de sapos nos momentos mais inusitados, ou a própria cantora da canção título. Existem outras passagens que remetem às animações de Chomet (o jantar que termina com cerejas em licor, a competição de música ao final da sessão, a casa cheia de plantas de Madame Proust, ou a cena da briga entre senhoras mostrado somente em sombras). Talvez se fosse uma animação, o filme seria mais harmônico, em live action parece um primo menos exuberante do cinema de Jean Pierre Jeunet ou uma versão pobre de Wes Anderson. No entanto, a história do rapaz que busca respostas sobre sua origem ainda pode encontrar fãs graças à ingenuidade fantasiosa que permeia todo o filme. 

Attila Marcel (França-2013) de Silvayn Chomet com Guillaume Goix, anne Le Ny, Bernadette Lafont e Héléne Vincent. ☻☻☻

§8^) Fac Simile: Julia Louis-Dreyfus

Julia Scarlett Elizabeth Louis-Dreyfus
Com o calor que anda fazendo no Brasil, nosso repórter imaginário nem acreditou quando percebeu que Julia Louis-Dreyfus estava disfarçada na orla carioca. A atriz já recebeu vários prêmios em sua carreira (Globos de Ouro, Emmys, Prêmios do Sindicato de Atores, Critic's Choice Award...) Em alta com sua atuação no seriado Veep da HBO, a atriz aproveitou o período de férias para curtir o calor brasileiro. Um tanto esquentada, ela respondeu a cinco perguntas numa entrevista que nunca existiu:

§8^) No Globo de Ouro desse ano fizeram piada com o fato de você ter sido indicada ao prêmio de melhor atriz em filme de comédia.  Ainda existe esse racha em Hollywood?

Julia: Claro que sim! Acho impressionante como atores que não garantem bilheterias milionárias no cinema estão invadindo a televisão! Matthew McConaughey, Eva Green, Clive Owen, Vera Farmiga... estão todos migrando para a TV! Eu estava quieta no meu canto e resolvi fazer um filminho para me distrair e todo mundo ficou pegando no meu pé! Halle Berry topou fazer um seriado e acho que em breve teremos um programa com Jim Carrey! Eu tenho um programa de sucesso para voltar e ganhar prêmios no fim do ano... e esse pessoal? 

§8^) Você deu realmente muita sorte com seus papéis na TV...

Julia: Sorte? Sorte? Não me venha falar de sorte, eu ralo muito isso sim! Fiz Saturday Night Live, fui a única garota de Seinfeld! Penei em Arrested Development! Fiz As Novas Aventuras de Christine e agora Veep! Tem gente que diz que se eu sair da TV o mundo acaba!

§8^) Você tinha medo daquela história de maldição dos atores de Seinfeld?

Julia: Não acredito em nada disso! Acredito no meu talento e ponto! Não tenho reclamação alguma de Jerry Seinfeld! Eu adorava fazer uma série dos anos 1990 sem a necessidade de ser a gostosa da TV! Mas tenho reclamações de Clark Gregg, meu ex-marido em As Novas Aventuras de Christine! O safado foi fazer filmes na Marvel e esquece completamente de mim! Eu topava qualquer coisa! Ser a Mulher-Hulk, Mulher-Invisível, Mulher-Aranha, Mulher-Cretina... topo tudo! Eles faturam bilhões de bilheteria e recebem percentual no número de ingressos, já pensou nisso?

§8^) Fazer a vice-presidente dos EUA é cansativo?

Julia: Pra #$%@&*! Ainda mais que Selina Meyer tem plena consciência de que é incompetente, mas eu preciso disfarçar isso! Ela parece que fica feliz quando está prestes a assumir a presidência, mas sabe que assim que os holofotes principais estiverem sobre ela, tudo irá por água abaixo! Se ela não tem competência para ter um cargo tão irrelevante quanto ser vice-presidente imagine se tem competência para ser qualquer outra coisa!? Talvez ela esteja no lugar certo, se fosse professora ou engenheira seria ainda mais desastroso!

§8^) Você é parente de uma pessoa muito famosa não é?

Julia: Como você descobriu? A qual deles se refere? Meu avô francês Gérard Louis-Dreyfus era um bilionário muito famoso na França! Meu primo Robert Louis-Dreyfus é um dos fundadores da Adidas, mas hoje se dedica somente ao time de futebol dele na frança! E, antes que pergunte, eu não tenho nenhuma relação com aquele soldado francês traidor Alfred Dreyfus... do Caso Dreyfus!

§8^) Eu estava pensando no Richard Dreyfus...

Julia: Que tipo de pessoa lembra do Richard Dreyfus?!!