quinta-feira, 31 de agosto de 2023

HIGH FI✌E: Agosto

 Cinco filmes assistidos durante o mês que merece destaque:





NªTV: Ted Lasso - Temporada Final

 
Nathan vs Ted: embate decepcionante. 

Confesso que demorei para começar a assistir a série Ted Lasso (2020 - 2023) na AppleTV+, principalmente porque demorei um bocado para assinar o streaming. Quando comecei a assistir ao programa foi justamente no longo intervalo que separou a segunda temporada de seu terceiro ato final. Logo a série se tornou o meu programa favorito para assistir antes de dormir. Especialmente pelo tom otimista e terno da série sobre um técnico de futebol de times nada cultuados que assume um time de futebol da primeira divisão no Reino Unido. A ideia era que sua inexperiência levasse o time AFC Richmond para o pior lugar que ele poderia chegar. Tratava-se de uma vingança pessoal da dona do time, Reecca Welton (a ótima Hannah Waddingham) que herdou o time no divórcio. O time era a coisa favorita do seu ex-marido e sua vingança seria destruir o time. no entanto, ela descobre que a pior coisa que ela poderia ter feito para dar prosseguimento aos seus planos foi ter contratado Ted Lasso (Jason Sudeikis). Com seu bigode exuberante, o sorriso simpático e o humor tão inocente quanto sem noção, Ted conquista a amizade da patroa assim como da audiência e do time que o olhava cheio de desconfiança. Essa ode à gentileza é o principal mérito do programa em suas duas temporadas iniciais, que aos poucos expande nosso interesse para os personagens coadjuvantes da série. Assim, conhecemos um pouco mais dos jogadores e de quem mais cerca o protagonista. A fórmula se saiu muito bem na primeira temporada e na segunda aprofundou ainda mais a sensação de que apesar de todo o alto astral, as coisas não estavam muito bem no interior de Lasso. De certa forma a terceira e última temporada muda o time a fórmula que estava ganhando. Além de ter demorado mais do que o planejado para ficar pronta, os novos episódios deixam transparecer as atribulações pelos quais passou seu astro e idealizador Jason Sudeikis. O ator, sempre muito discreto, teve que lidar com o fim de seu relacionamento com a atriz Olivia Wilde com toda a mídia mundial de olho, ao ponto dos papéis sobre a guarda dos filhos do casal terem sido entregues diante da plateia numa coletiva de imprensa realizada por Olivia. Fora isso, não faltaram comentários sobre a obsessão de Jason sobre a perfeição absoluta que existia em sua mente para que o desfecho da história fosse contado. Com isso, o resultado são episódios inchados que apresentam o dobro da duração dos episódios das temporadas anteriores, além da "obrigação" de tocar em temas complexos de forma aligeirada como rivalidade, porn revenge, homofobia, racismo e bullying. Tanta pressa é apresentada até nas  histórias de amor que poderiam ser melhores trabalhadas em torno do triângulo amoroso formado por Keeley (Juno Temple), o esquentado Roy Kent (Brett Goldstein) e o bocó Jamie Tartt (Phil Dunster), até a redescoberta do amor por Rebecca parece corrida demais. Com tanto temas para se falar sobre tanta gente, o Ted Lasso acaba ficando de escanteio recebendo pouco espaço para que seus dramas apresentados nas temporadas anteriores sejam aprofundados aqui. Assim, até a complexa rivalidade instaurada entre ele e o sempre inseguro Nathan Shelley (Nick Mohammed) deixa a desejar em seu discreto desenvolvimento. No fim das contas achei a última temporada inchada em todos os sentidos. Acho que as ideias para uma quarta temporada acabaram acopladas nas ideias para a terceira e o resultado é um programa mais exaustivo do que a leveza e o frescor das temporadas anteriores (em diversos episódios eu optei por quebrar a duração no meio e continuar no dia seguinte). Se o protagonista Ted Lasso atravessou todos os episódios com sua gentileza intacta, o mesmo não se pode dizer do programa que, apesar dos seu ótimo elenco (dedicado como sempre), se tornou um tantinho mais árdua para o espectador que queria apenas se divertir. 

Ted Lasso (EUA / 2023) de Brendan Hunt, Joe Kelly e Bill Lawrence com Jason Sudeikis, Brett Goldstein, Juno Temple, Brendan Hunt, Nick Mohammed, Hannah Waddingham, Phil Dunster, Billy Harris, Stephen Manaz, Jeremy Swift, Cristo Fernández e Moe Jeudy-Lamour . 
1ª Temporada| 2ª Temporada| 3ª Temporada

PL►Y: Till - A Busca por Justiça

 
Danielle: quase no páreo de melhor atriz do Oscar2023.

Assim que Till foi exibido pela primeira vez, a atriz Danielle Deadwyler foi apontada para uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Ainda que a produção seja de uma produtora sem muita experiência nas campanhas de "for your consideration" perante os votantes da Academia, a presença da protagonista do novo filme de Chinonye Chukwu entre as indicadas era tida como certa (mais até do que a presença de Viola Davis por A Mulher Rei). Eis que quando foi divulgada a lista de indicadas as duas ficaram de fora. A culpa acabou recaindo sobre os ombros inocentes de Andrea Riseborough (To Leslie) que teve sua primeira indicação ao careca dourado marcado por um gosto amargo. Ainda que Andrea recebesse a indicação por uma campanha de seus pares em redes sociais (e que posteriormente uma comissão da Academia considerou que não foi uma infração às regras de votação), seguiu-se a ideia de essa campanha toda nunca ter sido realizada por uma atriz afro-americana. A justificativa foi que as indicações de Viola e Danielle foram dadas como certas (e francamente mereciam mais do que Michelle Williams em Os Fabelmans), até que naufragaram na reta final. No meio de tanta confusão, Till acabou chegando no Prime Video sem o alarde que uma indicação ao Oscar lhe traria (e o filme poderia ter sido indicado em outras categorias como figurino e direção de arte que constroem uma competente reconstituição de época, além de uma indicação à fotografia). De resto, o filme parece um teledrama feito para arrancar lágrimas a todo custo da plateia. A diretora  Chinonye Chukwu já havia realizado um filme muito mais sóbrio com Clemência/2019 (que deveria ter rendido uma indicação ao Oscar para a veterana Alfre Woodard, mas acabou lembrado só no BAFTA), aqui a diretora pesa a mão em uma história que por si só já pediria uma caixa de lenços inteira. A história é baseada na tragédia que se abateu na vida de Mamie Till-Mobley (Danielle Deadwyler), que vivia bem empregada e feliz com seu filho de treze anos, Emmett (Jalyn Hall) até que ela autorizou que ele fosse visitar os parentes no Mississipi em 1955. Ainda que ela tenha dado instruções claras de como a realidade por lá era complicada, nada adiantou diante do racismo impregnado por aquelas bandas. O menino foi retirado da casa de seus parentes e dado como desaparecido até ser encontrado desfigurado dentro de um rio. O crime brutal virou notícia e o choque de Mamie se tornou numa verdadeira cruzada por justiça. Obviamente que a luta desta mulher contra o racismo estrutural do Mississipi ganharia cores ainda mais inacreditáveis nos tribunais, mas serviu como o anúncio de que havia algo de muito errado entre os supremacistas autointitulados de boa gente perante o resto do país. A história em si é mais do que relevante e importante, mas o tratamento dado ao filme sofre com exageros na execução, o que faz algumas cenas soarem demasiadamente ensaiadas e outras feitas para ressaltar o óbvio sobre as emoções da protagonista. Com isso, por vezes o longa soa repetitivo e redundante. A sorte é que quando tudo isso é deixado de lado e Danielle Deadwyler surge parada diante da câmera, ela demonstra que o filme não necessitava da ausência de sutileza para comover.  Danielle já havia chamado atenção em Vingança e Castigo (2021) e diante da potência que exibe aqui, arrisco que a Academia deverá ficar de olho nela para se redimir nos próximos anos. Aqui, a atriz apresenta como a dor de toda a família Till é bastante palpável, assim como dos outros afro-americanos que sentem suas vidas ameaçadas por um alvo fixado na cor de sua pele. 

Till - A Busca por Justiça (Till / EUA - 2022) de Chinonye Chukwu com Danielle Deadwyler, Jalyn Hall, Frankie Faison, Whoppi Goldberg, Jamie Renell, Sean Patrick Thomas, Halley Bennett, Sean Michael Weber e Eric Whitten. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

FESTIVAL DE VENEZA 2023

Ferrari, Priscilla, Evil does not Exist, Pobres Criaturas e Maestro: rumo ao Leão de Ouro. 

Sempre lembrado como um dos festivais de cinema mais importantes do mundo, o Festival de Cinema de Veneza nos últimos anos ganhou ainda mais relevância na temporada de premiações justamente por conta de sua proximidade da temporada de ouro do cinema dos Estados Unidos. Assim, sua mostra competitiva se torna uma plataforma para projeção de filme em nível internacional quando os votantes começam a pensar em suas listas de melhores produções do ano. Em 2023 o impacto do Festival pode ser menor por não contar com as estrelas de Hollywood perante a greve que se arrasta há meses sem previsão de término. Resta então voltar os holofotes para as assinaturas ilustres na direção dos longas que fazem parte da competição. Segue a lista de todos os filmes presentes no Festival que começa hoje e vai até dia nove de setembro:

COMPETIÇÃO PRINCIPAL
"Bastarden" de Nikolaj Arcel
"Dogman" de Luc Besson
"La Bête" de Bertrand Bonello
"Hors-Saison" de Stéphane Brizé
"Enea" de Pietro Castellitto
"Maestro" de Bradley Cooper
"Priscilla" de Sofia Coppola
"Finalmente L'Alba" de Saverio Costanzo
"Comandante" de Edoardo De Angelis
"Lubo" de Giorgio Diritti
"Origin" de Ava DuVernay
"The Killer" de David Fincher
"Memory" de Michel Franco
"Io Capitano" de Matteo Garrone
"Aku Wa Sonzai Shinar" de Ryusuke Hamaguchi
"Zielona Granica" de Agnieszka Holland
"Die Theorie Von Allem" de Timm Kröger
"Pobres Criaturas" de Yorgos Lanthimos
"El Conde" de Pablo Larraín
"Ferrari" de Michael Mann
"Adagio" de Stefano Solima
"Kobieta Z..." de Malgorzata Szumowska & Michal Englert
"Holly" de Fien Troch

MOSTRA HORIZONTES - EXTRA
"Bota Jonë" de Luàna Bajrami
"Nazavzhdy-Nazavzhdy" de Anna Buryachkova
"El Rapto" de Daniela Goggi
"Day of the Fight" de Jack Huston
"In the Land of Saints and Sinners" de Robert Lorenz
"Felicità" de Micaela Ramazzotti
"Pet Shop Boys" de Olmo Schnabel
"Stolen" de Karan Tejpal
"L'Homme D'argile" de Anaïs Tellenne

FORA DE COMPETIÇÃO - FICÇÃO
"Coup de Chance" de Woody Allen
"The Wonderful Story of Henry Sugar" de Wes Anderson
"The Penitent" de Luca Barbareschi
"La Sociedad de la Nieve" de J.A. Bayona
"L'Ordine del Tempo" de Liliana Cavani
"Vivants" de Alix Delaporte
"Daaaaaali!" de Quentin Dupieux
"The Caine Mutiny Court-Martial" de William Friedkin
"Making Of" de Cédric Khan
"Aggro Dr1ft", de Harmony Korine
"Hit Man" de Richard Linklater
"The Palace" de Roman Polanski
"Xue Bao" de Pema Tseden

FORA DE COMPETIÇÃO - DOCUMENTÁRIO
"Amor" de Virginia Eleuteri Serpieri
"Frente a Guernica" de Yervant Gianikian & Angela Ricci Lucchi
"Hollywoodgate" de Ibrahim Nash'at
"Ryuichi Sakamoto: Opus" de Neo Sora
"Enzo Jannacci Vengo Ach'Io" de Giorgio Verdelli
"Menus Plaisirs - Les Troisgros" de Frederick Wiseman

FORA DE COMPETIÇÃO - SÉRIES
"Znam Kako Dises" de Alen Drljevic & Nemin Hamzagic
"D'Argent et de Sang" de Xavier Giannoli & Frédéric Planchon

FORA DE COMPETIÇÃO - CURTA-METRAGENS
"Welcome to Paradise" de Leonardo Di Costanzo

MOSTRA HORIZONTES - LONGA-METRAGENS
"A Cielo Abierto" de Mariana Arriaga
"El Paraíso" de Enrico Maria Artale
"Oura El Jbel" de Mohamed Ben Attia
"The Red Suitcase" de Fidel Devkota
"Paradiset Brinner" de Mika Gustafson
"The Featherweight" de Robert Kolodny
"Invelle" de Simone Massi
"Tatami" de Guy Nattiv & Zar Amir Ebrahimi
"Sem Coração" de Nara Normandi & Tião
"Una Sterminata Domenica" de Alain Parroni
"Ser Ser Salchi" de Lkhagvadulam Purev-Ochir
"Magyarázat Mindenre" de Gábor Reisz
"Gasoline Rainbow" de Bill Ross & Turner Ross
"En Attendant la Nuit" de Céline Rouzet
"Domakinstvo Za Pocetnici" de Goran Stolevski
"Hokage" de Shinya Tsukamoto
"Yurt" de Nehir Tuna

MOSTRA HORIZONTES - CURTA-METRAGENS
"Aitana" de Mariana Alberti
"Sea Salt" de Leila Basma
"A Short Trip" de Erenik Beqiri
"Et si le Soleil Plongeait Dans L'Océan de Nuages" de Wissam Charaf
"Wander to Wonder" de Nina Gantz
"The Meatseller" de Margherita Giusti
"Dive" de Aldo Iuliano
"Area Boy" de Iggy London
"Cross My Heart and Hope to Die" de Sam Manacsa
"Dar Saaye Sarv" de Hossein Molayemi
"Bogotá Story" de Esteban Pedraza
"Sentimenal Stories" de Xandra Popescu
"Duan Pian Gushi" de Lang Wu

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

PL►Y: Paradise: Love

 
Terese e seu desejo: o paraíso visto nos outros. 

Está em cartaz na MUBI a trilogia Paradise do diretor  Ulrich Seidl, elogiada em festivais a obra lança um olhar no mínimo curioso sobre o que o senso comum pode imaginar que possa ser o paraíso. Com pontos de partidas simples, roteiros radicais e tempero ácido, Seidl nos brinda com obras que são provocações bastante instigantes. Eu pensei em assistir os três longas e escrever tudo em uma tacada só, mas acho que postar sobre separadamente daria mais destaque para o que as obras apresentam. O primeiro capítulo da trilogia é Paradise: Love (ou Paraíso: Amor) que é ambientado num litoral idílico, com muito sol, mar e praia, um verdadeiro paraíso (valorizado ainda mais pela fotografia) para aqueles que procuram uma realidade ensolarada após meses no gélido hemisfério norte. É neste ambiente que a austríaca Teresa (Margarete Tiesel) foi passar as férias distante de sua filha adolescente. O filme não perde tempo explicando como anda a vida amorosa de sua protagonista, mas aquela senhora que ganhou peso no decorrer dos anos e não demonstra medo em assumir que tem uns cinquenta anos, parte para novas praias disposta a encontrar o que falta em sua vida trivial. Acontece que o local escolhido para passar as férias é no Quênia, onde fora do resort voltado para turistas com dinheiro disponível para se divertir, existe uma realidade social bem vulnerável. Seidl não hesita em exibir os contrastes, dos turistas caucasianos torrando no sol, aos habitantes da região que os observa com a intenção de ganhar algum dinheiro extra, seja vendendo colares, souvenirs ou até o próprio corpo, existe um abismo social entre seus personagens. Existe ali uma divisória visível, antes mesmo que ela seja demonstrada nas ações de seus personagens. Teresa não apenas percebe que pode satisfazer seu desejo sexual com os rapazes da região como estes também percebem que seduzi-la é a porta de entrada para o dinheiro que falta para bancar as despesas. Começam então as desventuras de Teresa em busca de sexo, depois para algo a mais, o amor que dá nome ao título. Mas esta "sugar mama" logo descobrirá que o amor de seus escolhidos é mais ampliado do que ela imagina. Com cenas que parecem improvisadas, Seidl cria uma narrativa em tom de crônica que pode provocar risadas nervosas pela condição humana de seus personagens, seja de sua protagonista que é capaz de acreditar que encontrará o amor pagando por ele ou de seus jovens parceiros que em alguns casos são capazes de se sujeitarem à objetificação mais descarada. Para quem tem problemas com nudez é bom manter distância de Paradise: Love, aqui ela aparece de forma bastante natural tal e como se fossem Adão e Eva procurando o paraíso, esse despudor se aplica também à atriz Margarete Tiesel que parece muito a vontade em exibir seu corpo fora dos padrões. Obviamente que para coroar o desfecho, surge umas uma das cenas mais repletas de erotismo e canastrice do cinema envolvendo Teresa, suas amigas e um rapaz digamos... capaz de tudo para ganhar uma grana. Obviamente que o final melancólico deixará aquele sabor de que Teresa precisa perceber que o amor está em um lugar bem diferente do que ela imagina. 

Paradise: Love (Paradies: Liebe / 2012 - Áustria, Alemanha, França / 2012) de Ulrich Seidl com Margarete Tiesel, Peter Kazungu, Inge Maux, Helen Brugat, Gabriel Mwarua, Josphat Hamisi, Tobias Kasiwa e Carlos Mkutano. 

PL►Y: Casa de Antiguidades

 
Pitanga: atuação de excelência. 

Aproveitando para lembrar que de 1º a 7 de setembro teremos, aqui no blog, a sétima edição do Ciclo Verde e Amarelo - uma semana com postagens somente sobre filmes produzidos no Brasil. Como lembrete resolvi adiantar minha postagem sobre Casa de Antiguidades, filme pelo qual nutri uma grande curiosidade desde que ele foi selecionado para o Festival de Cannes em 2020, aquele que acabou cancelado pela pandemia. O primeiro longa-metragem de João Paulo Miranda (que foi premiado em Cannes como o curta A Moça que dançou com o Diabo em 2015) conta com Antônio Pitanga em um ótimo trabalho que lhe rendeu recentemente uma indicação ao Grande Prêmio Cinema Brasil de melhor ator. Aos oitenta anos, o ator recebeu um dos melhores papéis de sua carreira em um filme que é bem mais complexo do que pode parecer. Cristovam (Antonio Pitanga) é um homem introspectivo que consegue emprego em uma fábrica localizada em um local marcado pela colonização austríaca no Brasil. Nota-se que mais do que deslocado naquele ambiente de trabalho (que é apresentado com uma estética futurista incomum para o cinema brasileiro) ele também sente-se um tanto dissonante naquela localidade. Além de ter a cor da pele diferente dos demais habitantes, perpassa por ali um orgulho pelas origens europeias e um certo autoritarismo (repare nos discursos do patrão sempre que aparece em cena) que contamina os moradores da região que percebem na fábrica a razão do sustento da cidade. Cristovam acaba encontrando o acolhimento que lhe falta em uma casa abandonada, repleta de objetos antigos que  despertam não apenas seu interesse como também remetem à suas origens. O roteiro não mastiga a relação do personagem com aquele lugar, mas deixa claro que existe uma identificação maior do personagem por aquele espaço do que por tudo o que está lá fora. Ao mesmo tempo, o mundo que está ao redor da casa torna-se cada vez mais hostil, algo que se torna ainda mais assustador quando envolve as atitudes das crianças ao longo da história (culminando até a cena final). O filme se arrisca em cores surrealistas quando o personagem começa a confundir o que é real e imaginário, deixando sua relação com os demais moradores cada vez mais complicada. O mais interessante é que o diretor João Paulo Miranda (que assina o roteiro ao lado de Felipe Sholl) consegue construir um universo que soa distópico em seu anacronismo, mesclando referências que bebem diretamente na história do Brasil, seja do período da ditadura, da industrialização, da escravidão, da colonização e até o Brasil folclórico por trás de tudo isso. Em alguns momentos o filme tropeça, curiosamente as cenas em que ele parece se apaixonar por uma mulher e precisa conviver com a filha dela, deixando que a pior face do personagem venha à tona sem maiores explicações (lhe dando contornos de um anti-herói). Casa de Antiguidades torna-se interessante ao fugir do óbvio, usando simbologias para falar sobre a identidade de seu protagonista como uma metáfora ao povo brasileiro, sua capacidade de pender para lá e para cá e o desconforto sobre o que se é e o que desejam que ele seja. Não por acaso o final é bastante pessimista e ressalta que o objetivo do filme é fazer pensar e, por isso mesmo, incomodar. 

Casa de Antiguidades (Brasil/2020) de João Paulo Miranda com Antonio Pitanga, Ana Flavia Cavalcanti, San Louwyck, Soren Hellerup e Aline Marta Maria. 

domingo, 27 de agosto de 2023

FILMED+: Marcel, A Concha de Sapatos

 
Connie e Marcel: a vida sob o olhar de uma concha. 

Marcel é uma pequena concha de dois centímetros que vive com sua avó, Connie, em uma casa vazia. Os dois moram ali contando apenas um com o outro para lidarem com os desafios do dia a dia desde que os moradores foram embora e, por algum motivo, a comunidade de conchas em que viviam partiu para um lugar desconhecido. Eis que a casa é alugada para curta temporada e um jovem documentarista resolve registrar o cotidiano de Marcel e postar na internet e, quem sabe, ter notícias sobre o paradeiro da comunidade perdida da dupla. O problema é que o discreto Marcel se assusta com a fama e todas as pessoas que passam a rodear sua casa, o que só aumenta os motivos de reflexão da pequena conchinha sobre a vida e o mundo dos seres humanos. O fato é que Marcel, A Concha de Sapatos é um dos filmes mais fofos dos últimos tempos! Não bastasse a caprichada técnica de stop-motion que dá vida aos dois personagens principais (que após um dia de trabalho da equipe, gerava apenas cinco minutos de filme - o que fez com que toda a produção demorasse sete anos para ser concluída), o filme também envereda por um olhar bastante bem vindo sobre a produção de um documentário, dos apuros que os personagens vivem sem intervenção do cineasta (como o dia em que um esquilo invade a casa) aos diálogos em que Marcel indaga sobre a vida do rapaz (que prefere não falar de sua vida), assim, o longa também flerta com um exercício de reflexão sobre o próprio gênero que pretende retratar a realidade enquanto ajuda a construí-la a partir do olhar de seu autor. O autor no caso é Dean Fleisher Camp que demonstra uma sensibilidade gigante de apreciar as pequenas coisas sob o olhar de seu meigo protagonista, gerando cenas que nos fazem pensar na vida e, de vez em quando, sentir aquela lágrima escorrer sem pudores. Marcel já era conhecido por seus curtas na internet e aqui amplia-se seu universo com louvor. Outro destaque do filme fica por conta do registro vocal de Jenny Slate, que mais uma vez (com seu timbre inconfundível) prova ser uma atriz com pendores dramáticos tão relevantes quanto seus dotes cômicos (não lembro se comentei certa vez que sonhei que ela ganhava um Oscar de coadjuvante por um filme de época). Jenny também escreveu o filme ao lado do diretor e Nick Paley, o que colabora muito para que ela deixe ainda mais encorpada a alma da conchinha. Já a voz da vovó ficou por conta de Isabella Rossellini que também tem momentos comoventes na produção. Feito para derreter corações, tanto empenho foi reconhecido com uma indicação ao Oscar de Melhor Animação, mas perdeu para outra animação com elaborado trabalho de stop-motion, o Pinóquio de Guillermo del Toro. Sinceramente, acho pouco. Os dois filmes tiveram que se contentar com uma indicação e mereciam maior reconhecimento (ambas deveriam ter sido lembradas em direção, montagem, fotografia, direção de arte, roteiro adaptado e até em Melhor Filme). A Academia precisa rever seus conceitos urgentemente com o gênero (assim como nossos distribuidores que não permitiram que o filme estreasse nos cinemas brasileiros, o lançando diretamente para aluguel digital). Este verdadeiro tesouro está foi recentemente adicionado ao TelecinePlay

Marcel, A Concha de Sapatos (Marcel, the Shell with Shoes on / EUA - 2022) de Dean Fleisher Camp  com Jenny Slate, Dean Fleisher Camp, Isabella Rossellini, Joe Gabler, Rosa Salazar, Thomas Mann e Lesley Stahl. 

#FDS Patricia Highsmith: Pacto Sinistro

 
Granger e Walker: acordo por água abaixo. 

Fechando o #FimDeSemana dedicado à escritora Patricia Highsmith, escolhi o clássico Pacto Sinistro de Alfred Hitchcock, primeira adaptação da escritora para o cinema. Reza a lenda que Hitchcock enganou a escritora para comprar os direitos autorais da obra, utilizando terceiros que nunca revelaram que era ele o interessado em realizar a adaptação. A medida acabou rendendo outra pendenga na hora de lapidar o roteiro, já que o cineasta não gostou da primeira versão do texto e depois teve problemas em conseguir alguém concluísse o trabalho de forma satisfatória. Sorte que o cineasta é escolado suficiente para driblar todos esses problemas e fazer um filme exuberante do mesmo jeito. Embora não tenha recebido a atenção devida em sua época de lançamento, Pacto Sinistro se tornou uma referência do gênero com sua história de elaboração de um crime perfeito calcado em dois estranhos que se conhecem em um vagão de trem. Um deles é o jogador de tênis Guy Haines (Farler Granger) o outro é o estranho Bruno Anthony (Robert Walker), que de início parece um fã do jogador (chegando a conhecer sua vida amorosa) mas que depois revela uma verdadeira obsessão por ele. Acontece que Guy tem uma ex-esposa que hesita em lhe dar o divórcio e lhe impede de se casar com a bela filha de um senador, enquanto Bruno tem problemas com o pai, que gostaria que já tivesse partido para o andar de cima faz tempo. Eis que no meio da conversa, Bruno oferece a ideia de que um assassinasse a pessoa indesejada da vida do outro, o que não levantaria suspeitas perante possíveis investigações, uma vez que não haveria motivação para o crime trocado que realizariam. Guy acha aquela conversa toda muito estranha e Bruno resolve fazer sua parte do "acordo". Surgem então dois problemas: a perseguição do biruta ao jogador e as suspeitas que acabam recaindo sobre o próprio Guy - o que coloca em risco toda sua carreira. Hitchcock desenvolve a história calcada principalmente na relação doentia que se estabelece entre os dois, não deixando de pontuar uma certa tensão sexual entre eles (enfatizada por olhares, gestos e toques), o que torna toda a obsessão do assassino ainda mais complexa com a vida do tenista. Se Farier Granger cumpre bem o papel de mocinho da história, o destaque fica mesmo para a composição esquisita de Robert Walker que constrói um sujeito de gestos duros, postura tensa e olhar vidrado a maior parte do tempo (ele parece um rascunho de Tom Ripley e até de Norman Bates, que surgiria somente nove anos depois em Psicose/1960).  Se a elegância de Hitch já é esperada, aqui ele consegue inserir humor em alguns momentos inusitados, observe a cena final e até  a elaborada cena do carrossel descontrolado. A cena deve ter dado um trabalho danado para ser realizada e ainda hoje é capaz de provocar vertigens, mas não deixa de ser divertida com todos os gritos e um garoto que se mete na briga entre os dois homens enquanto monta seu cavalinho desesperado. Há quem diga também que os dois personagens são na verdade os lados opostos de uma mesma moeda, basta verificar que são bastante diferentes, mas que de vez em quando Guy parece até próximo de cair na tentação de seguir o plano do amigo perturbado.  

Pacto Sinistro (Strangers on a Train / EUA - 1951) de Alfred Hitchcock com Farley Granger, Ruth Roman, Robert Walker, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock, Kasey Rogers, Marion Lorne, Jonathan Hale, Howard St. John e John Brown. 

sábado, 26 de agosto de 2023

#FDS Patricia Highsmith: O Talentoso Ripley

 
Damon: jovem Ripley como manda o figurino. 

Lançado em 1955, o livro O Talentoso Ripley se tornou a obra em que a escritora Patricia Highsmith nos apresentou seu personagem mais famoso: Tom Ripley. Tom é apresentado como um jovem pobre, mas ciente das oportunidades que atravessam seu caminho. É assim que ele aceita a oferta de um milionário para ir à Europa e trazer seu herdeiro de volta. Se no início, Tom é capaz de nos despertar alguma simpatia, aos poucos ele demonstra ser um dos personagens mais ardilosos e oportunistas que a literatura já concebeu. O romance se tornou um marco da literatura do século XX e gerou um personagem com fôlego para perpassar várias obras da escritora. Se Highsmith é adorada pelo cinema, obviamente que a obra recebeu uma versão para o cinema. O Sol por Testemunha trazia o belo Alain Delon na pele de Ripley e Maurice Ronet como o tal herdeiro milionário chamado, o Dickie Greenleaf. O filme se tornou um clássico, embora o cineasta francês René Clement traia a obra original com um final um tantinho moralista. Se há um princípio que Patricia sempre deixou claro sobre Ripley é que ele "sempre irá se safar". Que assim seja. Talvez seja esse o principal motivo para o britânico Anthony Minghella arriscar uma nova adaptação do aclamado romance. Minghella tinha um Oscar fresquinho na estante por O Paciente Inglês, que em 1997 havia levado para casa nove Oscars, incluindo melhor filme e direção. No entanto, Anthony tinha uma abordagem bastante diferente sobre Ripley. Lendo as entrelinhas do romance de Highsmith (e os outros quatro romances em que o personagem aparece, especialmente The Boy who Followed Ripley lançado em 1980), Minghella ressalta a homossexualidade do personagem e transforma sua relação com Dickie e todos os outros personagens muito mais interessante. Obviamente que a radicalização desse conceito provocou polêmicas, mas o cineasta não se esquivou e persistiu em entrevistas destacando que sua intenção foi sobrepor dois pontos que nutriam a sensação de exclusão de Tom: a pobreza e a homossexualidade. Longe de querer justificar as ações de um serial killer, a leitura de Minghella sobre o personagem lhe oferece nuances diferenciadas mesmo aos que estavam tão familiarizados com a personalidade do cultuado personagem. Para encarnar Ripley, o cineasta fez a ótima escolha de colocar Matt Damon (talvez no melhor trabalho de sua carreira), que começa exalando fragilidade e aos poucos se torna um ser realmente ameaçador. Levando em conta que o personagem seguiu sua trajetória em outros livros, fica a impressão que se torna um filme de origem que poderia ter rendido continuações se a bilheteria (infelizmente) não houvesse ficado abaixo da esperada. Damon está muito bem em cena, defendendo com perfeição as alternâncias do protagonista, melhor ainda que ele esteja acompanhado de um cintilante Jude Law (indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que constrói um mimadamente sedutor Dickie Greenleaf - que se torna mais do que um amigo para Tom, mas um verdadeiro objeto de desejo pelo qual Ripley acredita valer a pena fazer qualquer coisa para tê-lo por perto, ou pelo menos até que tudo saia dos trilhos. Minghella tempera o filme com bastante suspense e toques de homoerotismo, sem perder de vista a importância de outros personagens na história, entre eles a noiva de Dickie, Marge (Gwyneth Paltrow), o insuportável amigo Freddie Milles (Philip Seymour Hoffman), além da dondoca Meredith Logue (Cate Blanchett) que tem papel fundamental em toda a confusão identitária que se segue na segunda metade do filme (afinal Ripley não apenas deseja Dickie, mas deseja ser ele, literalmente). Ao longo de toda a trama, Ripley irá demonstrar como é esperto o suficiente para manipular todos que estão ao seu redor, embora, ao final, deixe claro que manter suas mentiras exija cada vez mais sacrifícios. Com belíssima fotografia, cenários e figurinos caprichados, O Talentoso Ripley é um belo suspense, embora tenha um gosto mais amargo do que a plateia esperava. Se  Minghella queria se consagrar novamente perante a Academia teve que se contentar com uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado. O filme ainda concorreu às estatuetas de figurino, direção de arte e trilha sonora e não ganhou nada.  E daí? O que importa é que Patricia Highsmith teria adorado esta adaptação.

O Talentoso Ripley (The Talented Mr. Ripley/EUA-1999) de Anthony Minghella com Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, Jake Davenport, Philip Baker Hall, James Rebhorn, Sergio Rubini e Celia Weston. 

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

#FDS Patricia Highsmith: Amando Patricia Highsmith

 
Patricia: digna de culto. 

Pode se dizer que Patrícia Highsmith é uma das escritoras mais queridas do cinema. Ao longo da carreira ela lançou 22 livros e quase todos receberam versões para a telona, sobretudo os protagonizados pelo seu personagem mais famoso: Tom Ripley. Patricia também escreveu oito livros de contos (alguns também receberam adaptações para o cinema ou TV), um livro infantil e um de não ficção. O motivo para tamanho interesse do audiovisual pelas obras da autora é a sua capacidade de construir personagens cheios de camadas em tramas repletas de suspense, algo que funcionou bem desde a sua primeira adaptação para Hollywood com Pacto Sinistro (1951) de Alfred Hitchcock (mas que nem sempre garante um bom filme, vide a lambança que Adrian Lyne fez com a nova versão de Águas Profundas/2022). Basta ver o universo que construiu em torno de Tom Ripley, o jovem oportunista capaz de qualquer coisa para alcançar o que deseja e no documentário Amando Patrícia Highsmith (em cartaz na Filmicca) conhecemos um pouco mais sobre a celebrada escritora através de entrevistas dela ou de pessoas conhecidas, além de cenas de arquivo que ajudam a decifrar uma mulher tão complexa quanto seus melhores personagens. Mary Patricia Plangman nasceu no Texas em 1921 em uma família de origem alemã. Seus pais se separaram quando ela tinha apenas onze dias de nascida e aos seis foi morar em Nova York com a mãe e o padrasto. A vida na big apple durou pouco tempo, já que aos onze anos foi morar com a avó. O afastamento da mãe lhe gerou uma sensação de abandono que afetou muito a sua personalidade. Foi do padrasto, Stanley Highsmith, que a Mary Patricia herdou o nome artístico. A autora era bastante discreta com sua vida pessoal, o que ressalta ainda mais seu gosto por personagens enigmáticos. Talvez a maior revelação de sua intimidade tenha sido exposta sob o pseudônimo Claire Morgan, nome com o qual assinou o lançamento de The Price of Salt (1952) que três décadas depois seria rebatizado de Carol e receberia uma versão para o cinema pelas mãos de Todd Haynes em 2015 e indicado a seis Oscars. Ao misturar a vida pessoal de Patricia com sua obra, Amando Patricia Highsmtith explora um pouco do que havia de pessoal na história das duas mulheres que se apaixonam e enfrentam um mundo repleto de preconceitos. Price  of Salt se tornou um marco ao romper com o paradigma de amores lésbicos na literatura, que até então eram narrativas sobre à ruína de suas personagens. Highsmith mandou às favas o cunho moralista desta regra e ofereceu às suas personagens um final feliz, tal e qual Patrícia desejava para si. Patrícia pensou em retomar tramas parecidas em sua carreira, mas acabou investindo em outras histórias. No entanto, as questões relacionadas à homossexualidade surgem nas entrelinhas de seu personagem mais famoso e ganham destaque em O Garoto que Seguiu Ripley (1980) em que explora nuances surpreendentes para os fãs do personagem. Com a bela voz de Gwendoline Christie narrando em nome de Patricia, o documentário traz relatos interessantes da relação da autora com seus personagens e se desvia de algumas polêmicas sobre sua personalidade, mas constrói um painel bastante interessante sobre a cultuada escritora além de instigar ainda mais seus fãs a conhecerem a mente por trás da tensão presente em sua obra. 

Amando Patricia Highsmith (Loving Highsmith/ Suíça - Alemanha /2022) de Eva Vitija com Patricia Highsmith, Judy Coates, Dan Coates, Monique Buffett e Gwendoline Christie. ☻☻☻☻

Na Tela: Fale Comigo

 
Sophie: brincando com espíritos zombeteiros. 

De vez em quando o ano cinéfilo nos presenteia com uma surpresa. Aquele filme de um diretor desconhecido, com atores que nunca ouvimos falar e ideias diferentes que bagunçam clichês de um determinado gênero e consegue entregar algo imprevisível e cheio de frescor. Este é o caso do australiano Fale Comigo, um filme dirigido por uma duplas de irmãos estreantes (os youtubers Danny Phillipou e Michael Phillipou) que começa vendendo a ideia de que fará mais do mesmo, mas aos poucos consegue desenvolver tantas camadas de sua narrativa que ela permanece viva na mente do espectador quando o filme termina. Lançado nos Estados Unidos, o filme se tornou um sucesso de crítica e ganhou o público cada vez mais no boca a boca. A trama é aparentemente simples, com um grupo de jovens às voltas com uma misteriosa mão embalsamada que funciona como uma espécie de portal para conversar com os mortos. O filme não perde tempo com explicações sobre a mão (o que é ótimo), basta segurá-la e dizer "fale comigo" para que a pessoa enxergue a alma penada da vez. Depois ao dizer "eu deixo você entrar" a pessoa é possuída pela alma, mas a "brincadeira" deve durar apenas noventa segundos, caso contrário, o espírito pode gostar de seu novo corpo e não querer sair mais. Se a ideia em si é uma variação de algo que já vimos diversas vezes, é no desenvolvimento dos personagens que a coisa se torna mais assustadora. Logo depois do enigmático início, conhecemos a protagonista Mia (Sophie Wilde) que acabou de perder sua mãe. O relacionamento dela com o pai não é muito bom, o que só piora o processo de digerir a perda da mãe em circunstâncias que nunca ficaram bem explicadas. Ela acaba procurando abrigo na casa de sua melhor amiga, Jade (Alexsandra Jensen) e se tornando cada vez mais próxima do irmão dela, Riley (Joe Bird). Some ao trio o namorado de Jade, Daniel (Otis Dhanji) e você terá o grupo que irá se meter em apuros com a tal mão embalsamada. Os Phillipou sabem exatamente onde querem chegar ao apresentar seus personagens e as relações entre eles e, portanto, quando o filme parece que vai cair na repetição, eles viram do avesso tudo o que você imagina que irá acontecer. No decorrer do filme o que vemos é uma trama de terror sobrenatural mesclada com o suspense de nunca entender ao certo o que está acontecendo (o que é ótimo, já que temos a mesma sensação da protagonista), mas que se torna atrativo justamente por outros pontos que os diretores tocam em seu roteiro: nossa atração pelo desconhecido, o que nos motiva a ver filmes de terror (só para sentir medo) e, sobretudo, a analogia que podemos fazer daqueles instantes em que se toca a mão com o uso de drogas em busca de um conforto efêmero. Fiquei muito assustado com o que vi na tela. Fechei os olhos. Tampei o rosto. Virei a cara e por vezes as pancadas vistas na tela parece ser em nós mesmos. Se Miranda Otto é o rosto mais conhecido em cena como a mãe de Jade, o brilho maior fica por conta de Sophie Wilde (que realmente impressiona ao tratar sua personagem com uma dramaticidade de gigante do cinema) que é seguida de perto por Alexandra e Joe Bird. Fale comigo vale o ingresso e embora termine de forma dramática angustiante e redondinha (somando uma última peça aos segredos da trama) tem material de sobra para gerar outro filme (embora eu prefira que os mistérios permaneçam exatamente como estão). Se o  Chaves (aquele mesmo do seriado clássico que passava no SBT) aparecesse aqui, ele diria que não se deve brincar com espíritos zombeteiros, pena que Mia e seus amigos não assistiam ao programa mexicano . 

Fale Comigo (Talk to Me / Austrália - 2023) de Danny Phillipou e Michael Phillipou com Sophie Wilde, Ari McCarthy, Alexandra Jensen, Joe Bird, James Oliver, Marcus Johnson e Miranda Otto.  

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Pódio: Uma Thurman

Bronze: A Mocinha Virginal
3º As Ligações Perigosas (1988) Uma Karuma Thurman começou a a carreira de modelo aos quinze anos de idade. Três anos depois já aparecia nas telas de cinema. Em 1988 ela realizou três filmes, mas foi o seu desempenho como a virginal Cécile de Volanges que público e crítica começaram a prestar atenção nela. Aos dezoito anos a jovem atriz deu conta do papel complexo de uma jovem ingênua que aprende a lidar com os jogos de sedução na corte francesa do século XVIII. Apesar do papel ser pequeno, Uma não se intimidou diante de veteranos do porte de Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer. Seu desempenho está em perfeita sintonia com o trio protagonista e é a que tem o arco de desenvolvimento mais surpreendente. 

Prata: A Femme Fatale.
2º Pulp Fiction (1994) Ainda que tenha se tornado estela de cinema, Uma sempre preferiu participar de produções mais alternativas em sua carreira. Foi ao apostar em um cineasta novato que partia para seu segundo longa-metragem que ela conseguiu a única indicação ao Oscar de sua carreira. Pelo papel da aspirante à atriz e esposa de gangster Mia Wallace, Thurman foi lembrada na categoria de atriz coadjuvante por conta de suas cenas icônicas, como a dança com Vince Vega (John Travolta), o diálogo sobre catchup, seu embalo na canção Girl You'll be a Woman Soon e a cena de overdose. Uma se tornou amiga do diretor novato que ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo filme e retomou a parceria tempos depois com...

Ouro: A Noiva Vingativa
1º Kill Bill (2003/2004) Com aspirantes a blockbuster que fracassaram na bilheteria, um casamento desfeito com Ethan Hawke e uma filha para criar (Maya Hawke), Uma já tinha vivido dias melhores. Ela estava esquecida quando o amigo Quentin Tarantino lhe mandou o roteiro de Kill Bill embrulhado para presente. Ela ficou surpresa com o presente e um tanto temerosa com o risco que era fazer um filme sangrento sobre vingança entre bandidos cheio de referências orientais em um texto gigantesco (que acabou dividido em dois capítulos). Na pele da noiva, Uma foi lembrada no Globo de Ouro de melhor atriz dramática e se consagrou como uma das maiores personagens de filme de ação de Hollywood. Uma encarou o maior desafio da carreira com uma energia que beira o inacreditável. 

PL►Y: Vermelho, Branco e Sangue Azul

Taylor e Nicholas: contra o peso da tradição. 

Quem acompanha o blog sabe que não sou muito fã de comédias românticas. Quando se trata de um exemplar do gênero que cria certo burburinho e assisto sem achar nada demais, desperta então a estranha sensação que estou me tornando um velho rabugento. Foi assim que me senti ao ver Vermelho, Branco e Sangue Azul em cartaz no Prime Video. Baseado no livro de Casey McQuiston, a produção se tornou uma das mais faladas do catálogo da Amazon. No entanto, tirando algumas cenas calientes aqui e ali, o filme é feito para cair nas graças do público comum que não se incomoda de ver dois homens com cara e porte de modelo trocando beijos e amassos diante da câmera. Como 90% das comédias românticas, os dois começam se odiando, mas as circunstâncias irão exigir que fiquem próximos o tempo suficiente para perceberem que estão atraídos um pelo outro. O inevitável acontece até que se instaura uma crise e o final você já sabe qual é. O bom é que aqui a fórmula serve para evitar mais um filme em que personagens gays comem o pão que o conservadorismo amassou alcançando um resultado otimista. A diferença mesmo fica por conta dos dois rapazes serem representantes de duas das nações mais poderosas do mundo. Alex (Taylor Zakhar Perez) é filho da presidente dos Estados Unidos, Ellen Claremont (Uma Thurman) que encontra-se em campanha para reeleição, já o louro Henry (Nicholas Galitzine) é um príncipe do Reino Unido. Depois de um incidente desastroso, os dois precisam fingir que são amigos e a coisa progride mais do que eles imaginam. Para evitar escândalos, os dois preferem ser discretos com o sentimento que está rolando entre os dois, mas não demora para que os maiores temores de Henry venham à tona. Os dois personagens servem para uma analogia interessante sobre o olhar que temos sobre os EUA mais liberais e o peso da tradição da realeza nos ombros de Henry, mas obviamente que o filme não irá aprofundar muito os dilemas do moço e a crise no relacionamento não dura mais do que duas cenas. Existe uma alfinetada aqui e ali sobre a família real, sobre a forma do Tio Sam fazer política, mas tudo isso interessa menos do que exibir os corpos sarados dos protagonistas. O resultado é menos esperto que Mais que Amigos (2022), mas consegue ser mais interessante do que a insossa segunda temporada de Heartstopper (que estica duas ideias ao infinito em oito episódios que poderiam ser resumidos em três). Seja como for, o velho rabugento admite que é o tipo de filme que o público LGBTQIAPN+ não se importa de ver para passar o tempo, mas que os conservadores ainda se incomodam. 

Vermelho, Branco e Sangue Azul (Red, White and Royal Blue / EUA - 2023) de Matthew López com Taylor Zakhar Perez, Nicholas Galitzine, Uma Thurman, Thomas Flynn, Bridget Benstead, Aneesh Sheth  e Rachel Hilson. 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

4EVER: Léa Garcia

 
11 de março de 1933 15 de agosto de 2023

Léa Lucas Garcia de Aguiar nasceu no Rio de Janeiro. Aos onze anos passou a ser criada pela avó devido ao falecimento de sua mãe e desde pequena demonstrou interesse pela carreira artística. Desde jovem soube combater o racismo e o discurso antirracista se tornou uma marca em sua carreira. Seus primeiros passos nos palcos foi no Teatro Experimental do Negro, foi lá que conheceu o esposo, o dramaturgo e ativista Abdias Nascimento, que a motivou a realizar uma formação clássica nas tragédias gregas que marcou para sempre a intensidade de de seus trabalhos. Em tempos em que mulheres negras tinham poucas oportunidades de trabalho na dramaturgia, a atriz quebrou barreiras ao conquistar papéis que fugiam do estereótipo das personagens negras. Além do teatro, Léa atuou em clássicos da teledramaturgia como Selva de Pedra/1972, Escrava Isaura/1976, Agosto/1993, A Viagem/1994, Chica da Silva/1996 e O Clone/2002. No cinema forma mais de quarenta trabalhos, com destaque para sua indicação ao prêmio de melhor atriz em Cannes por seu trabalho em Orfeu Negro (1959), a refilmagem Orfeu (1999), Filhas do Vento (2005) e Boca de Ouro (2020). Léa faleceu de infarto na cidade de Gramado no Rio Grande do Sul dias antes de seu prêmio especial no Festival de Gramado pelos seus setenta anos de serviços prestados à cultura brasileira.   

domingo, 13 de agosto de 2023

PL►Y: Medusa Deluxe

Lilit e Clare: alguém escalpelando por aí. 

Imagine um concurso de penteados inacreditáveis que precisa lidar com a sombra de um assassinato cometido pouco antes de sua realização. Entre muita estilização, laquês, apliques e o que mais você imagine que possa ser agregado aos cabelos das modelos, o que não falta são conversas e especulações sobre o crime ocorrido, ressentimentos de eventos passados, contrabando de remédios para calvície, suspeitas e corrupção nos bastidores. Parece uma loucura? Agora imagine uma narrativa de uma hora e quarenta minutos que progride como se fosse um longo plano sequência. Sem cortes. Os diálogos se acumulam enquanto a câmera procura os personagens a todo instante com suas declarações e potências pessoais. O resultado é bastante curioso e cheio de frescor graças ao estreante Thomas Hardiman que após trabalhar no cinema e na televisão no setor de direção de arte resolveu estrear como cineasta em um trabalho estilizado e que remete às obras do mestre Robert Altman em suas obras sobre bastidores que serviam como análise ácida de um microuniverso movido pelos seus personagens. O caráter caleidoscópico é fundamental para que o filme funcione, afinal, o embalo do filme acontece justamente pelos encontros que a narrativa proporciona entre cabeleireiras, produtores, seguranças, bombeiros, policiais e tudo mais que apareça na frente da câmera. Estão ali o clima de competitividade e um bocado de ressentimentos que parecem nunca ter recebido a oportunidade de virem à tona. Assim, Cleve (Clare Perkins) está doida para se consagrar na disputa, assim como Kendra (Harriett Webb) quer ganhar novamente, Rene (Darrell D'Silva) está cada vez mais preocupado com os acontecimentos clandestinos ocorridos nos bastidores, Angel (Luke Pasqualino) não sabe se fica mais preocupado com o bebê que está pendurado em seu colo ou que descubram as atividades ilegais que realiza ao lado do misterioso Patricio (Nicholas Karimi), além disso tem o estranho Gac (Heider Ali) - que talvez saiba mais do que diz. Misture todo mundo numa cadência esperta (que por vezes se torna escrava da ideia de ser uma narrativa em plano sequência com longos períodos em que a câmera segue as costas de um personagem, algo que incomoda lá pela terceira vez). Interessado pelos personagens, às vezes Hardiman nos faz esquecer que houve um crime por ali e nos faz apenas ser um penetra nos bastidores daquela famigerada competição. Pode não ser o melhor filme que você irá assistir na semana, mas é com certeza um dos mais originais (e está em cartaz na MUBI). Não satisfeito em revelar seu desfecho, o filme ainda capricha em uma cena de encerramento em que coloca todo o elenco para dançar ao som de Chrissy. Mais camp impossível! Hardiman consagra aqui o estilo que já exibia em curtas como Radical Hardcore (2015). 

Medusa Deluxe (Reino Unido/2022) de Thomas Hardiman com Clare Perkins, Kayla Meikle, Heider Ali, Luke Pasqualino, Lilit Lesser, Kae Alexander, Harriett Webb, Nicholas Karimi, Darrell D'Silva e Heider Ali. 

PL►Y: Ela Disse

 
Carey e Zoe: boas atrizes sem atmosfera. 

As denúncias de abuso sexual envolvendo o empresário Harvey Weinstein, que ficou famoso por seu trabalho à frente da Miramax nos anos 1990 e posteriormente na Weinstein Company, foi um dos maiores escândalos da história de Hollywood. Famoso por suas campanhas agressivas na temporada de prêmios, Harvey viu seu império ruir quando um grupo de mulheres resolveu enfrentar todo o esquema de proteção criado ao seu redor. Atrizes como Mira Sorvino, Gwyneth Paltrow, Ashley Judd e principalmente Rose McGowan foram fundamentais para que a verdade sobre o abusador viesse à público através da imprensa na segunda metade da década passada numa ação articulada por diversas jornalistas. Obviamente que em tempos de #MeToo e engajamento, Hollywood não pensaria duas vezes ao olhar para si mesma e levar a história para a telona. Eu só não imaginava que seria tão rápido. Ela Disse foi badalado em sua produção que acreditava que o longa seria lembrado na temporada de prêmios ao abordar um tema tão explosivo, mas teve que se contentar com menções ao roteiro e ao trabalho de Carey Mulligan em poucas premiações (como BAFTA e Globo de Ouro). o problema é que toda a tensão é exposta com a emoção de quem está prestes a dormir. O filme gira em torno de duas jornalistas do The New York Times que por conta de uma matéria sobre assédio sexual em locais de trabalho se deparam com as denúncias feitas a Harvey Weinstein. Jodi Kantor (Zoe Kazan) e Megan Twohey (Carey Mulligan) puxam então um fio que revela um verdadeiro emaranhado de acordos que protegiam Harvey, assim como instituições que deveriam zelar pelas vítimas e terminam fazendo o trabalho oposto. Kantor e Twohey (que escreveram os artigos e o livro que deu origem ao filme) passam a maior parte do tempo conversando por telefone e tentando convencer as vítimas a se pronunciarem sobre as situações sofridas. O filme menciona estrelas a todo instante, mas poucas aparecem em cena, deixando o destaque mesmo para Zelda Perkins (Samantha Morton) e Laura Madden (Jenifer Ehle) que se tornam fontes importantes para as jornalistas. Zoe e Carey são ótimas atrizes, mas tenho a impressão que suas personagens poderiam ser vividas por quaisquer outras, já que o texto dedicado à elas não lhes exige muito mais do que o esperado. As vidas particulares das jornalistas aparecem aqui e ali sem muito destaque. A diretora alemã Maria Schrader (do filme pré-indicado ao Oscar O Homem Ideal/2022) faz o que pode para não soar sensacionalista, mas esquece de repor o caráter explosivo da história por qualquer outra coisa. Por diversas vezes o filme soa longo em sua repetição, caindo na armadilha de soar artificial em seu retrato da investigação jornalística que apresenta. Talvez o que falte mesmo é o distanciamento histórico para que introduza na trama alguma surpresa. Ao abordar um crime tão recente, o filme não traz nada de muito revelador perante o que os cinéfilos já acompanharam sobre todo o ocorrido execrável dos bastidores da elite de Hollywood. Algo me diz que o livro é muito melhor. 

Ela Disse (She Said/Japão - EUA/ 2022) de Maria Schrader com Zoe Kazan, Carey Mulligan, Patricia Clarkson, Samantha Morton, Adam Shapiro, Andre Braugher, Tom Pelphrey e Ashley Judd. 

PL►Y: Peter von Kant

Khalil e Ménochet: clássico repaginado. 

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant é um texto clássico de Rainer Werner Fassbinder que o próprio adaptou para o cinema em 1972, contando a história da personagem do título (vivida nas telas por Margit Carstensen), uma estilista de prestígio que vive acompanhada pela assistente, a amplamente explorada Marlene (Irm Hermann). Petra tem como amiga mais próxima a prima Sidonie (Katrin Schaake), que a apresenta à jovem Karim (Hanna Schygulla), jovem com a qual a experiente Petra irá viver uma intensa paixão. O filme é um dos mais celebrados do diretor ao contar uma narrativa habitada somente por mulheres que utilizam a casa de Petra como único cenário nos cinco atos que compõem a história. Se o filme se tornou um clássico, a peça recebeu várias montagens ao redor do mundo, inclusive no Brasil (tendo o papel principal representado por nomes como Fernanda Montenegro e Renata Sorrah). Reza a lenda que a peça é baseada no relacionamento do próprio Fassbinder com seu amante (Günther Kaufmann) e o dedicado assistente pessoal (Peer Raben), sendo assim, nada mais justo que com o passar do tempo, um diretor resolvesse devolver os personagens ao sexo original. Aqui Peter von Kant (Denis Ménochet) é um cineasta famoso que acaba de ficar sem o amor de sua vida, mas conhece o jovem Amir Ben Salem (Khalil Ben Gharbia) graças à amiga Sidonie (Isabele Adjani). A atração pelo jovem é imediata e não demora muito para que Peter lhe ofereça abrigo, dinheiro e a oportunidade que o rapaz tanto deseja de ser famoso. Se a ralação entre os dois é tórrida no início, logo ela demonstra as outras faces dos envolvidos. O mocinho demonstra ser cada vez mais oportunista e Peter deixa seu ego transbordar em diálogos cada vez mais árduos perante quem está por perto, o que revela estar à beira do surto. As alterações de Ozon oferecem um fôlego mais moderno à história e também tornam o texto menos pesaroso em sua transposição para a tela. A dramaticidade por aqui é puro exagero melodramático, o que por vezes remete até ao tom cômico dos filmes iniciais de Almodóvar. Tudo poderia sair dos trilhos não fosse o talentoso Denis Ménochet incorporando um sugar daddy cheio de desejo e inseguranças. Ménochet comprova aqui que é um ator interessantíssimo, como pudemos ver em sua pequena participação como o pai de Shoshana em Bastardos Inglórios (2009) ou como o ex-marido de Custódia (2017). As nuances que o ator emprega ao seu von Kant são tão humanas quanto mundanas e convence o espectador no malabarismo de suas emoções até o final. Ozon também acerta ao trazer uma cintilante Isabelle Adjani um papel que brinca com a carreira da própria atriz enquanto evoca Elizabeth Taylor, assim como homenageia o elenco original do filme clássico de Fassbinder ao colocar Hanna Schygulla numa participação especial. Pena que o novato Khalil Ben Gharbia não tenha a desenvoltura suficiente para não ser soterrado por Menóchet em cada cena em que aparece. O moço se esforça, mas não consegue ser mais do que um corpo em cena, basta ver o que o silencioso Stefan Crepon faz no papel do assistente sem dizer uma palavra em cena (não por acaso, foi indicado ao César de ator coadjuvante pelo trabalho assim como Ménochet concorreu a melhor ator). François Ozon permanece sendo um dos nomes mais badalados do cinema francês mantendo o ritmo de lançar um filme por ano, basta  lembrar que ele corta quase meia hora do material original nesta sua versão, o que talvez deixe as lágrimas um tanto menos amargas para o espectador. Embora meu filme favorito do diretor permaneça sendo Sob a Areia (2000), mas Peter von Kant chega muito perto do meu segundo favorito, Gotas D'água em Pedras Escaldantes (2000), que traz alguns elementos novamente trabalhados aqui. 

Peter von Kant (França - Bélgica / 2022) de François Ozon com Denis Ménochet, Khalil Ben Gharbia, Izabelle Adjani, Stefan Crepon, Hanna Schygulla e Auminthe Audiard. ☻☻☻

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

4EVER: Aracy Balabanian

 
22 de fevereiro de 194007 de agosto de 2023

Filha de um casal de imigrantes armênios que chegaram ao Brasil fugindo do genocídio promovido pelos turcos otomanos no país, Aracy Balabanian nasceu em Campo Grande no Rio de Janeiro.  Seu pai era comerciante e a mãe era dona de casa responsável por cuidar dos sete filhos do casal. Aracy quase se tornou socióloga, mas abandonou a faculdade de Ciências Sociais para se dedicar ao teatro. Sua estreia na televisão foi na TV Tupi em uma versão do clássico Antígona nos anos 1960. A atriz atuou pouco no teatro e fez apenas cinco filmes para o cinema ao longo da carreira, porém, se tornou um dos rostos mais conhecidos da televisão, participando de vários sucessos como Casarão (1976), Ti Ti Ti (1985), Que Rei Sou Eu (1989) e fez sua famosa personagem Dona Armênia em Rainha da Sucata (1992) a repetindo em Deus nos Acuda (1993), reaparecendo depois como a gélida Filomena Ferreto em A Próxima Vitima (1995). Para coroar sua carreira na televisão, ela interpretou a inesquecível Cassandra na sitcom Sai de Baixo de 1996 a 2002, sendo a versão cinematográfica do programa seu último trabalho em 2019. Discreta em seus relacionamentos, a atriz não se casou ou teve filhos. A atriz faleceu em decorrência de um câncer de pulmão. 

4EVER: William Friedkin

 
25 de agosto de 193507 de agosto de 2023

Nascido na cidade de Chicago (EUA), William Friedkin era filho de imigrantes judeus da Ucrânia. O pai era um jogador semiprofissional de softball que ganhava dinheiro vendendo roupas masculinas e a mãe era enfermeira. O jovem Will  não era um aluno muito aplicado, mas gostava de jogar basquete e sua habilidade quase o levou a se tornar um atleta profissional. O interesse pelo cinema só veio em 1945 após assistir Cidadão Kane (1941) e dois anos depois estreava atrás das câmeras em trabalhos para a TV. No cinema estreou dirigindo Cher e Sonny Bono na paródia Good Times (1967), mas sua habilidade em construir narrativas tensas apareceram seu seu filme seguinte (Feliz Aniversário/1968) e a ousadia veio logo depois com Quando o Strip-Tease Começou (1968). Seu estilo já parecia consolidado com o retrato da comunidade gay em Os Rapazes da Banda/1970 (grupo que voltou a explorar dez anos depois em Parceiros da Noite) que o agregou aos cineastas que revolucionaram Hollywood nos anos 1970. Seu Operação França (1971) levou cinco Oscars para casa, incluindo melhor filme e direção enquanto O Exorcista (1973) o consolidou de vez em Hollywood com dez indicações ao Oscar. Seus últimos filmes foram Killer Joe (2011) e o documentário O Demônio e Padre Amorth (2017), espécie de homenagem ao padre que o ajudou na feitura de O Exorcista. O cineasta faleceu em sua residência de insuficiência cardíaca e pneumonia.