sábado, 19 de agosto de 2017

NªTV: Os Defensores

Jessica, Punho, Demolidor e Luke: aguardado encontro. 

Quando a série do Demolidor (2015) estreou na Netflix muita gente ficou surpresa ao investir num tom mais sombrio do que a Marvel oferecia aos fãs de seus heróis no cinema. Era o mundo do entretenimento pós-Vingadores (2011) e a Warner/DC Comics começava a repensar a abordagem de seus filmes, buscando uma unificação na telona enquanto as séries de TV da DC ainda investiam num tom visivelmente adolescente. Demolidor trouxe um clima mais pesado, dark e conquistou adultos e adolescentes com uma abordagem que deixava o filme protagonizado por Ben Affleck comendo poeira. Tão logo a série começou a fazer sucesso surgiram os rumores de que em breve o herói se reuniria a outros três para compor Os Defensores. Se Jessica Jones (2015) também conquistou público e crítica ao apresentar uma ex-heroína que ganhava a vida como uma detetive particular, Luke Cage (2016) começou a dividir opiniões sobre o fôlego dos heróis na internet. Algumas decisões equivocadas comprometeram a série e a situação só piorou quando Punho de Ferro (2017) se tornou o primeiro fracasso da série. Os fãs já estavam tensos quando Os Defensores fora anunciado para este ano, afinal, será que conseguiriam resgatar a enercia das primeiras séries? Pelo que se pode ver na Netflix desde ontem a resposta é sim. Defensores é um grande acerto e promete colocar nos trilhos um universo que antes parecia desgastado.  É verdade que os dois primeiros episódios penam para amarrar as pontas dos personagens, mas, tão logo os primeiros heróis se encontram a coisa começa a empolgar quando a série se torna uma consequência natural do que vimos nos outros programas. Sendo assim, o encontro de Demolidor (Charlie Cox), Jessica (Krysten Ritter), Luke (Mike Colter) e Punho de Ferro (Finn Jones) supera nossas melhores expectativas. Claro que existem os  manjados estranhamentos iniciais, já que a maioria deles estão acostumados a trabalhar por conta própria, na clandestinidade, ficando na mira da justiça e dos bandidos. No entanto, quando a ameaça do Tentáculo fica cada vez mais presente, o quarteto percebe que precisa juntar forças para derrotar o inimigo em comum. Assim, o advogado Matt Murdock está  hesitante em voltar a vestir o traje do Demolidor, assim como Cage e Jessica se reencontram depois de um tempo afastados e Danny Rand se torna alvo Tentáculo por ser o lendário Punho de Ferro. Além  dos heróis, outro destaque da série é o bom elenco de coadjuvantes, todos tem momentos estratégicos na trama e ajudam a costurar a trajetória de cada um dos protagonistas. As cenas de luta são bem coreografadas, os vilões realmente funcionam - contando com o retorno de Elektra (Elodie Yung) discutindo a relação na pancada com Demolidor e até Sigourney Weaver incrementando o time do mal. Outro fator que ajuda muito no ritmo da série é o fato de ter apenas oito episódios, o que cria um arco mais enxuto e aumenta a dinâmica dos episódios (algo que ficou claramente faltando ao longo dos 15 episódios de Luke Cage e intermináveis 13 capítulos de Punho de Ferro). Os Defensores funciona tão bem que consegue encerrar o que vimos no universo Marvel da Netflix até aqui ao mesmo tempo que injeta novo fôlego nos personagens. Animada, a Netflix já anunciou a terceira de Demolidor  e a segunda temporada de Jessica Jones e Luke Cage para o ano que vem, além da repaginada de Punho de Ferro para 2019 e a série solo do justiceiro que deve estrear até o fim deste ano.

Os Defensores (The Defenders/EUA-2017) de Douglas Petrie e Marco Ramirez com Charie Cox, Krysten Ritter, Mike Colter, Finn Jones, Sigourney Weaver, Elden Henson, Elodie Yung, Scott Glenn e Rosario Dawson. ☻☻☻☻

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: A Lenda de Tarzan

Alexander: cavalheiro descamisado. 

Estranhei bastante quando soube que estavam preparando mais uma versão de Tarzan para os cinemas  tendo como astro o sueco Alexander Skarsgaard. Nada contra o ator filho do grande ator Stelan Skarsgaard, mas ainda que ele tenha trabalhado em papéis impactantes na TV (True Blood e o recente Big Little Lies), ou mesmo no cinema (Melancolia/2011 e Diário de Uma Adolescente/2015), Alexander sempre me parece um ator muito comportado e controlado, o que não significa que seja ruim,  pelo contrário, é bastante esforçado, mas nunca parece sair da zona de conforto. No entanto, quando vi a concepção do novo filme eu entendi a escolha. Alexander tem um jeito que cai muito bem para encarnar um verdadeiro cavalheiro e ao começar mostrando a vida de Tarzan como um lorde, depois que está plenamente ajustado na vida em sociedade, a minha desconfiança se dissipou. O cineasta David Yates (que ficou famoso fazendo os episódios finais da série Harry Potter) ainda não demonstrou muita personalidade atrás das câmeras, mas parece ser uma escolha segura para que os estúdios invistam em uma produção de orçamento elevado e ganhando a atenção do público sem muita ousadia. Na trama, Tarzan já deixou a vida na selva africana e vive com a bela esposa Jane (Margot Robbie) em Londres. Agora ele é reconhecido pelo nome de batismo, John Clayton. O herói parece feliz em sua nova vida e não faz questão de visitar a terra onde ele cresceu... até que o Rei da Bélgica solicita sua ajuda para resolver alguns problemas diplomáticos no Congo. No início Clayton recusa a tarefa, mas é convencido por um americano, George Washington Williams (Samuel L. Jackson) e a esposa que está com saudade de suas origens. Chegando lá eles vão se deparar com um vilão (Christoph Waltz fazendo o de sempre) que instiga as disputas entre dois grupos de habitantes locais enquanto tenta atingir Tarzan em seu ponto mais fraco. A Lenda de Tarzan está longe de ser um filme surpreendente, mas prende a atenção por ser uma aventura bem realizada, que utiliza flashbacks  para contar a origem do seu protagonista e inova ao mostrar uma Jane bem mais esperta do que poderia ser "uma donzela em perigo". Os efeitos especiais que dão vida aos animais são convincentes e a própria pendenga entre Tarzan e sua família selvagem também me parece bem explorada durante a história. É um filme de aventura tradicional que tenta fazer diferente do que já foi visto dezenas de vezes - afinal, é um dos personagens mais tradicionais das histórias em quadrinhos (foi lançado em 1912). O melhor é que o filme não compromete a essência do personagem e conta com um elenco competente para dar conta do seu recado com frágil verniz anti-colonialista. 

A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan/Reino Unido - Canadá - EUA) de David Yates com Alexander Skarsgaard, Margot Robbie, Samuel L. Jackson e Christoph Waltz. ☻☻☻

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: Rei Arthur

Hunnam (ao centro): outro Rei Arthur?

Lembro que cresci assistindo a um desenho na TV sobre o Rei Arthur, era um anime que passava na finada TV Corcovado (eu sei, você agora se deu conta de como sou velho) e aqueles episódios serviram de referência sobre o herói para toda uma geração de meninos. Parece que realmente existiu em líder nomeado Arthur na Grã-Bretanha no final do século V e início do Século VI, mas muito do que sabemos sobre ele foi composto pelo folclore construído em torno de seus feitos. A popularidade do Rei Arthur cresceu muito na Literatura Medieval graças ao escritor francês Chrétien de Troyes, ja que foi ele que tornou ainda mais conhecido o amigo Lancelot, o romance com Lady Guinevere, os fieis Cavaleiros da Távola Redonda, além de Merlin e a bruxa Morgana. O personagem é tão marcante para a literatura europeia que já rendeu além de animações para a TV várias produções cinematográficas. Destas, três habitam minha memória, a melhor é Excalibur (1981) de John Boorman, mas existe também uma (des)animação da Disney (A Espada Era a Lei/1963) e uma versão com Clive Owen, Rei Arthur (2004) de Antoine Fuqua que pretendia contar a história real por trás da lenda. Curiosamente a versão mais recente não tem pretensão de seguir os contos clássicos, a realidade ou até o bom senso. Rei Arthur - A Lenda da Espada com a bilheteria fraca, o filme levantou debates sobre o desgaste do personagem, mas trata-se de um debate que não contempla o maior problema aqui: a qualidade do filme. Dirigido por Guy Ritchie, ele faz para o estúdio o mesmo que já fizera com outro personagem britânico clássico, Sherlock Holmes (2009), aqui ele também reinventa o personagem para o público do século XXI, no entanto, a repaginada deixa a Távola Redonda um tanto quadrada. Se no início o filme parece promissor ao destacar a tirania do tio Vertigern (Jude Law que parece estar adorando envelhecer) e a magia daquele universo, basta o Rei Arthur crescer para a história começar a desandar. Nada contra Charlie Hunnam, pelo contrário, eu até considero uma boa escolha para o papel, o problema é que o roteiro ingrato reserva ao personagem mais uma história de herói que precisa amadurecer com perseguições, treino e ajustes com o passado. A trama segue sem inovar na cartilha do super-herói, reservando a criatividade somente para alterações descabidas na história clássica. Merlin nem aparece, Morgana também não. Tire do filme também sua amada Guinevere e o leal Lancelot, acrescente um mestre de Kung-Fu e a mágica Excalibur num misto de espada do He-Man e dos Thundercats. O filme investe pesado nas cenas de ação, mas o desenvolvimento da história é confuso ao investir na atração e repulsa de Arthur com sua espada - e o estilo de Ritchie não ajuda. Aqui sua marca de idas e vindas temporais durante os diálogos são utilizadas em momentos cruciais da história, investindo num ritmo frenético desnecessário que só prejudica o desenvolvimento da história. Ao final a sensação é que não vimos o Rei Arthur, poderiam ter inventado qualquer outro nome para o personagem, seria algo mais digno do que esta propaganda um tanto enganosa. As cenas de ação mirabolantes podem até prender atenção, mas não custava ter um roteiro melhor - sugiro que da próxima vez assistam ao desenho animado de minha infância e percebam todos os bons elementos que as histórias do Rei Arthur tem a oferecer. 

Rei Arthur - A Lenda da Espada (King Arthur - Legend of Sword/EUA-2017) de Guy Ritchie com Cahrlie Hunnam, Jude Law, Adam Gillen, Eric Bana, Djimon Hounson e Neil Maskell. ☻☻

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: O Agente da U.N.C.L.E.

Armie e Henry: não, eles não são modelos...

Sou daqueles fãs que já perceberam que aquele Guy Ritchie esperto que dirigiu Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch (2000) não existe mais. Hoje sei que ele foi totalmente absorvido pelo mainstream, uma espécie de efeito colateral de seu casamento e divórcio com Madonna, enfim, Freud explica. O fato é que desde que alcançou bilheterias milionárias com Sherlock Holmes (2009), o diretor se tornou um nome à frente de criar novos formatos para personagens famosos. Com Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras (2011) ocupando o posto de meu filme menos favorito de sua carreira (isso mesmo, atrás até mesmo de Destino Insólito/2002) eu não tive nenhuma empolgação de assistir sua versão cinematográfica para O Agente da U.N.C.L.E. até recentemente. O fato de algumas fotos promocionais do filme parecerem saídas de um catálogo de moda (incluindo a que ilustra essa singela postagem) também despertavam a minha desconfiança.  Na verdade eu tentei assistir ao filme outras três vezes, mas eu sempre dormia logo no início, só que ontem eu me obriguei a ver tudo até o final e depois que me acostumei com a atmosfera do filme o assisti sem problemas. O fato é que ele demora um pouco para engrenar entre as brincadeirinhas com o mundo da espionagem e a edição não ajuda muito ao repetir cacoetes de Ritchie em meio às várias reviravoltas da história. Baseado na famosa série dos anos 1960 sobre o período da Guerra Fria, o filme conta uma missão de Napoleon Solo (Henry Cavill um britânico sofrendo para disfarçar o sotaque na pele de um americano) onde ele tem que resgatar Gaby (Alicia Vikander), a filha de um cientista que vive disfarçada na Alemanha Oriental, só que ele é perseguido por um agente russo durante a missão. Solo não faz ideia que na segunda parte da missão ele terá que trabalhar ao lado do próprio agente russo, o temperamental Illya Kuriakin (Armie Hammer), para ajudar Gaby a encontrar o seu pai (que também desperta o interesse de espiões nazistas). Aos poucos o trio de personagens se afinam e a narrativa flui melhor quando descobrimos um pouco mais sobre a personalidade dos três - e o trio de atores charmosos conseguem dar conta de suas identidades escorregadias. No entanto, nem sempre alguma cenas alcançam suas intenções com a edição "estilosa" que nem sempre faz muito sentido, a sorte de Ritchie é contar com um elenco que consegue fazer algumas gracinhas com um roteiro não muito divertido (incluindo Hugh Grant em um papel que não lhe exige muito e Elizabeth Debicki que tem presença marcante). Curiosamente, embora tenha surpresas a cada quinze minutos e várias cenas de ação O Agente da UNCLE não chega a ser um filme empolgante, mas tenta manter alguma elegância enquanto se equilibra entre a seriedade e a gaiatice (mas eu só consigo imaginar o resultado se Ritchie não estivesse sob a coleira de um estúdio doido por uma franquia milionária). 

O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E./ Reino Unido-EUA/2015) de Guy Ritchie com Henry Cavill, Armie Hammer, Alicia Vikander, Hufh Grant, Elizabeth Debicki e Jared Harris. ☻☻☻

terça-feira, 15 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: Planeta dos Macacos - A Guerra

César (ao centro) e seus seguidores: jornada de respeito. 

Foi a primeira vez que vi a nova saga de Planeta dos Macacos no cinema e fiquei realmente impressionado com a quantidade de crianças de dez, onze anos no cinema. Lembrei do meu sobrinho, que era uma criança ao ver Planeta dos Macacos - A Origem (2011) e ficou fascinado com a figura de César, o chimpanzé que foi alvo de experiências e se torna super inteligente ao conviver com os humanos (e ajudou muito que estes fossem a família formada por James Franco e John Lithgow). Depois ele passou por maus bocados, a se ver novamente em um laboratório para depois liderar uma rebelião para libertar sua espécie. A cruzada do personagem prosseguiu em Planeta dos Macacos - O Confronto (2014) onde a tensão entre homens e macacos crescia, assim como havia divergências dentro do próprio grupo de César sobre a forma como seria a convivência entre os símios e a humanidade. Agora com Planeta dos Macacos - A Guerra acompanhamos apreensivos o desfecho da jornada do personagem. Durante os três filmes nós vimos a construção de um verdadeiro líder, da construção de seus ideais, de seus conflitos, conquistas e derrotas, por isso mesmo torcer para César nos parece tão natural, afinal, ainda que seja uma chipanzé, ele agrega uma humanidade irresistível. Obviamente que a atuação por captura de movimento de Andy Serkis foi definitiva para o sucesso do personagem (e se o Oscar lhe render uma estatueta especial pelo conjunto do seu trabalho estaria mais do que justificado). Outro destaque do filme é a direção de Matt Reeves, que pegou o bastão do diretor Rupert Wyatt (responsável pelo primeiro filme) no segundo filme e não hesitou em aprofundar ainda mais as possibilidades de mudar totalmente a perspectiva de um clássico do cinema. Não podemos esquecer que este terceiro filme termina tento ligação com o primeiro de toda a série, o antológico O Planeta dos Macacos (1968) onde o olhar de toda a narrativa era do astronauta vivido por Charlton Heston. Depois que Tim Burton se perdeu em seu confuso remake com Mark Wahlberg em 2001, foi preciso dez anos para colocar as ideias nos eixos e colocar a perspectiva na gênese daquele mundo, afinal, como os macacos dominaram nosso mundo. Entre as duas pontas que se ligam agora, o que salta aos olhos é a relação entre opressor e oprimido, como quem chega ao poder faz de tudo para permanecer ali, mesmo que isso signifique o genocídio de quem ameaça sua posição de comando. Por isso mesmo, Reeves investe numa narrativa clássica dos filmes de guerra - e o ato inicial é arrebatador ao conjugar ação e drama como os melhores do gênero para depois mostrar os prisioneiros vivendo em condições precárias após perderem tudo o que tinham, tudo comandado por um coronel militar (Woody Harrelson) que está tão certo de suas convicções que não consegue perceber o quão absurdas são suas ideias. É louvável que um filme desta magnitude consiga contar sua história, fazer sucesso de bilheteria e ainda fazer uma analogia tão vigorosa com o mundo em que vivemos. Planeta dos Macacos - A Guerra é o desfecho de uma repaginada que deu certo, justamente por se inspirar em uma obra clássica para criar algo novo e surpreendente. O segredo talvez esteja em algo que alguns filmes direcionados ao grande público tem deixado de lado em nome do espetáculo: construir um personagem realmente interessante em um conflito bem desenvolvido. Ave, César!

Planeta dos Macacos - A Guerra (War for the Planet of the Apes/EUA-2017) de Matt Reeves com Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Toby Kebbel, Amiah Miller e Aleks Paunovic. ☻☻☻☻

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: O Lar das Crianças Peculiares

Crianças Peculiares: belo livro em adaptação decepcionante. 

Não foram poucos os leram O Orfanato para Crianças Peculiares da Senhorita Peregrine do escritor Ransom Riggs e imaginaram que Tim Burton faria um filme perfeito com aquele material. Afinal, elementos que consagraram o cineasta já estavam todos presentes ali: fantasia, melancolia, personagens estranhos gerando um clima de conto de fadas gótico estranhamente ilustrado com fotografias esquisitas. Portanto, antes que estreasse, o filme já estava com a expectativa nas alturas com o trailer divulgado onde tudo parecia ser uma mistura de X-Men com Harry Potter. Mas o livro tão interessante resultou num filme insosso. A obra de Ranson consegue se sustentar belamente (no que acabou virando uma coleção de livros infanto-juvenis) por haver ali uma analogia sobre o holocausto. Em vários momentos fica claro que o tal orfanato era um refúgio para crianças que seriam procuradas e mortas por serem diferentes durante o período da Segunda Guerra Mundial., uma clara analogia ao extermínio de quem não se enquadrava nos padrões "arianos". Embora o mundo acredite que o orfanato foi destruído num bombardeio, ele sempre se reconstrói numa espécie de mundo paralelo graças a um loop temporal que a Srta. Peregrine realiza justamente no momento em tudo explodiria. Trata-se de uma fantasia que mexe com um dos momentos mais tristes da história da humanidade, mas que Riggs faz de forma bastante lúdica. Afinal, quem não gostaria de voltar no tempo e evitar todo o sofrimento provocado naquele período? Infelizmente o filme mal toca nessa questão e prefere gastar seu tempo sendo mais uma aventura de fantasia com personagens excêntricos.  O orfanato e seus habitantes são descobertos graças à curiosidade de Jake (Asa Butterfield), que pretende investigar um pouco mais as estranhas histórias de infância que seu avô (Terence Stamp) sempre lhe contava. Quando ele encontra a casa mantida pela Srta Peregrine (Eva Green, a atual musa de Burton) só nos resta acompanhar a apresentação dos personagens diante da ameaça de um vilão (Samuel L. Jackson) que precisa se alimentar dos peculiares para se tornar ainda mais poderoso. De alguma forma, Burton não consegue costurar os momentos presentes no roteiro e o resultado soa tão episódico quanto Sombras da Noite/2012 - outra adaptação que lhe cairia como uma luva, só que também não funcionou. Embora o visual siga a cartilha Burton de qualidade, a narrativa não empolga e segue irregular até o desfecho. Quanto aos atores, Eva Green (cada vez mais bruxesca) e Samuel L. Jackson tem bons momentos. Judi Dench entra muda e sai calada e as crianças fazem o que podem com o pouco que o roteiro lhes oferece no desenvolvimento de personagens tão interessantes. Vale destacar que o protagonista Asa Butterfield segue em sua dura peregrinação de ser um ex-ator infantil em crescimento diante da câmera. O rapaz (que completou vinte anos em abril) parece cada vez mais inseguro, bem diferente de suas atuações  (lembre dele em A Invenção de Hugo Cabret/ e você terá uma ideia do que digo) - como parâmetro basta ver o que o desconhecido Finlay MacMillan faz ao colocar muito mais substância no sisudo Enoch com menor tempo em cena. O Lar das Crianças Peculiares não foi o sucesso esperado e dificilmente irá render continuações, mas o pior de tudo é ver a criatividade de Tim Burton ficar estagnada mais uma vez com um material tão interessante para trabalhar.

Eva Green: (novamente) deliciosamente bruxesca.

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children/Reino Unido - Bélgica - EUA) de Tim Burton com Asa Butterfield, Eva Green, Samuel L. Jackson, Allison Janney, Finlay MacMillan, Chris O'Dowd, Judi Dench e Terence Stamp. ☻☻

CATÁLOGO: Os Sonhadores

Pitt, Eva e Louis: o triângulo amoroso de Bertolucci. 

Fazia tempo que um filme do diretor italiano Bernardo Bertolucci não chamava tanta atenção da mídia. Desde que O Pequeno Buda (1993) encerrou sua grandiloquente trilogia oriental com críticas mornas, o diretor voltou para a Europa em busca de produções mais modestas e intimistas. Beleza Roubada (1996) e O Assédio (1998) mostrava que ele voltava às suas origens na busca de personagens que buscavam a si mesmos - tendo o desejo como um poderoso verniz de suas narrativas. Em Os Sonhadores (2003) ele vai mais longe no erotismo e deixa a impressão de que sua intenção era revisitar o seu clássico O Último Tango em Paris (1972) com um elenco jovem e, não por acaso, as tramas de ambos os filmes se passa isolada num apartamento em um período bastante libertário. Ambientado em 1968, Os Sonhadores é baseado no livro de Gilbert Adair e conta a história de dois irmãos e um amigo que se conhecem em meio às manifestações estudantis de Paris. Os protestos ficaram famosos por motivarem debates sobre reformas educacionais na França e instigarem trabalhadores a realizarem uma greve geral que marcou a história política da França. Em meio aos protestos havia também um discurso de liberação sexual que era considerado bastante avançado para época. Os protestos tem papel importante no filme de Bertolucci, já que são eles que aparecem no início fazendo com que o estudante americano Matthew (Michael Pitt) conheça os irmãos franceses Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrell). O amigo é acolhido pela família dos irmãos e sua presença se torna constante na casa, especialmente quando os pais do casal (vividos por Anna Chancellor e Robin Reuncci) viajam e os três constroem um mundo a parte. Bertolucci cria então um triângulo amoroso incomum, afinal, existe uma atração sexual explícita entre os três personagens, tornando Matthew cada vez mais um objeto do desejo de ambos. Em alguns momentos o filme deseja ser uma homenagem aos clássicos do cinema (sob o pretexto de uma brincadeira estabelecida pelos três personagens vários trechos de obras consagradas aparecem durante o filme), assim, parece que Bertolucci glamourizar essa atração no início para depois a envolver num cenário cada vez mais caótico - repare como o apartamento se deteriora aos poucos, tornando-se mais sujo e desorganizado. No entanto, tudo parece um tanto frouxo na história, tornando a narrativa irregular enquanto esgarça aquela relação ao limite - e, ironicamente, o que os salva é justamente quando a realidade invade o ambiente em que se isolaram. O que mais impressiona durante o filme é a desenvoltura do elenco em ficar sem roupa diante de câmera - o que foi suficiente para transformar Eva Green em símbolo sexual instantâneo, o que não foi suficiente para que aparecessem papeis marcantes em sua carreira (ela apareceu como a melhor Bondgirl de todas em Cassino Royale/2006 para depois ter o papel de sua vida na série Penny Dreadful/2014-2016). Michael Pitt também se destaca e mostrou que deixava de ser um adolescente estranho para se tornar um ator de verdade, já Garrell tem o mesmo ar blasé de sempre (seja com ou sem cueca). No fim das contas, Os Sonhadores é um filme sobre perda da inocência ambientado numa época em que ocorreu exatamente isso ao redor do mundo.

Os Sonhadores (The Dreamers / Reino Unido-França-Itália / 2003) de Bernardo Bertolucci com Eva Green, Michael Pitt, Louis Garrell e Anna Chancellor. ☻☻