sábado, 23 de setembro de 2017

PL►Y: Tomcat

Hochmair e Toni: destruindo o paraíso domiciliar.  

Stefan (Lukas Turtur) e Andreas (Phillip Hochmair) trabalham juntos em uma orquestra filarmônica, tem muitos amigos e conseguiram fazer da casa onde moram um pequeno pedaço do paraíso onde vivem ao lado do gato de estimação. Moses apareceu sem que eles soubessem de onde veio, como a grande maioria dos gatos, escolheu os seus donos por sentir-se seguro e querido pelos dois. Claro que o felino também gosta do vasto quintal verde, onde de vez em quando encontra algum "presente" para os donos. Vale dizer que o quintal é repleto de árvores frutíferas - e parte da diversão da casa é fazer doces de compota para distribuir aos amigos. Eles ainda são bons anfitriões para os visitantes e se dão bem com a vizinhança... se você se incomoda com filmes centrados em casais homossexuais é melhor ficar bem longe de Tomcat, já que o diretor Händl Klaus aumenta a sensação idílica daquele mundo paralelo com várias cenas de nudez numa intimidade despojada e até ousada (o que ajudou para que em 2016 o filme ganhasse o Teddy Bear, o prêmio do Festival de Berlim para filmes com temática GLSBTT - essa é a sigla atual?). Por meia hora o diretor nos mostra, sem pressa ou sobressaltos esse universo domiciliar onde Stefan, Andreas e Moses criam a dinâmica de um lar sem maiores preocupações... mas tudo muda quando Stefan demonstra uma atitude violenta sem justificativa alguma e altera para sempre aquele mundo. A partir de então, culpa, remorso, raiva, medo e ressentimento passam a existir dentro da casa e os dois personagens se atraem e repelem em busca de um equilíbrio que nunca chega. É neste momento que Tomcat demonstra não se contentar em ser um filme "gay", ele ambiciona mais, principalmente quando constrói cenas onde a plateia, assim como Andreas, não consegue mais confiar em Stefan - e olha que ele se esforça para que voltemos a gostar dele, afinal ele chora, apanha, torna-se isolado, desprezado, humilhado e até ferido. Em seu segundo filme o cineastas Händl Klaus mantem seu interesse pelo efeito da morte em seus personagens (o anterior foi o deprimente Março/2008 onde três jovens amigas se suicidam), mais uma vez ele a utiliza para revelar o que estava escondido nas  camadas subterrâneas do cotidiano. A narrativa lenta (que aumenta a tensão da narrativa) e a ausência de respostas óbvias alimentaram as comparações de Klaus com seu conterrâneo Michael Haneke (com quem ele trabalhou como ator em A Professora de Piano/2001), mas o cinema de Klaus consegue conciliar o rigor de seu mentor com um tom diferente, um pouco mais leve, embora complexo e incômodo. Considero justo destacar o trabalho dos atores, que conseguem ser bastante precisos na construção de um relacionamento que se vê na beira de um abismo revelado pelo lado obscuro até então desconhecido de um deles. Obviamente que muita gente irá considerar o longa tedioso em seu clima de suspense psicológico, mas as suas entrelinhas carregam algumas simbologias (especialmente a cobra congelada que desaparece,  a queda da árvore, o nome do gato - que na vida real se chama Toni e pertence ao próprio diretor...) que quando percebidas deixam tudo amais interessante, além, claro, do final que deixa o espectador com a pulga atrás da orelha e a sensação de que nada entre aqueles dois personagens será como antes. Nunca mais.

Tomcat (Kater/Áustria-2016) de Händl Klaus com Lukas Turtur, Phillip Hochmair, Cornelius Meister, Manuel Rubey e Maria Grün. ☻☻☻

terça-feira, 19 de setembro de 2017

PL►Y: Free Fire

Hammer, Brie, Cillian, Sam e Smiley: brincando de resta um. 

Em 1978 um grupo de pessoas se encontram num galpão abandonado para negociar armas com um contrabandista. Cada um desconfia do outro e ninguém parece ser de confiança mesmo, até que por conta de um desentendimento a troca de tiros começa e... segue assim até o final. Resta saber quem irá sobreviver no meio da artilharia que guarda algumas surpresas (que só deixa tudo ainda mais absurdo). Esta é a história de Free Fire, novo longa de Ben Wheatley (do arrepiante Kill List/2011 e do interessante High Rise/2016). Posso dizer que Wheatley merece cada vez mais atenção do público, por mais qu ainda seja um ilustre desconhecido. Aqui existe muito do cinema que fez de Guy Ritchie um diretor conhecido mundialmente por seus filmes de personagens malandros e diálogos espertos, no entanto, vale lembrar, que Ritchie deve muito ao cinema que consagrou Tarantino na década anterior. Hoje nem Ritchie ou Tarantino se dedicam aos tipos urbanos que aparecem em Free Fire e por isso mesmo, ele me pareceu tão divertido e acima da média. Desde a primeira cena podemos perceber que existe uma tensão no ar, seja quando o grupo formado por Chris (Cillian Murphy), Stevo (Sam Riley), Frank (Michael Smiley) e Bernie (Enzo Cilenti) encontra com o elegante Ord (Armie Hammer) ou quando desconfiam que Justine (Brie Larson), a única mulher do grupo, pode ser na verdade uma agente do FBI disfarçada. Chegando no lugar marcado, o encontro com Vernon (Sharlto Copley e sua voz peculiar) todo mundo sabe que a coisa irá por água abaixo, só não imaginamos que seja por conta de uma espécie de... honra familiar envolvendo Stevo. Produzido por Martin Scorsese, Wheatley não parece interessado em levar a situação a sério, sempre contrabalançando o tiroteio com diálogos bem humorados e uma ação constante. É preciso dizer que ele não gasta muito tempo apresentando os personagens, deixando somente que o espectador conheça o básico de cada um deles, e, ainda ssim, escolha alguém para torcer no meio de tantos marginais. Pela energia que se vê na tela, Free Fire ganhou o prêmio do público no Festival de Toronto no ano passado e concorreu ao prêmio de Mellhor Diretor no British Independent Film Award - que também reconheceu o trabalho da diretora de elenco Shaheen Baig pelo ótimo elenco que conseguiu reunir nesta despretensiosa obra. Free Fire pode não ser revolucionário (e nem pretende ser), mas diverte com sua ação quase cartunesca com personagens carismáticos - e bem que merecia ter entrado em cartaz em nossos cinemas antes de ser lançado diretamente em streaming

Free Fire - O Tiroteio (Free Fire / Reino Unido - França / 2016) de Ben Wheatley com Cillian Murphy, Brie Larson, Armie Hammer, Sam Riley, Sharlto Copley, Michael Smiley, Enzo Cilenti, Babou Ceesay, Noah Taylor, Jack Reynor e Patrick Bergin. ☻☻☻ 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

10+:Stephen King

O sucesso de It: A Coisa me fez lembrar a quantidade absurda de produções inspiradas nas obras de Stephen King (e como ele não para de escrever, provavelmente muitas outras ainda devem estrear). É verdade que em sua grande maioria o resultado é uma porcaria (inclusive um que King se aventurou a dirigir, o ridículo Comboio do Terror/1986), no entanto, diretores renomados, atores competentes e roteiristas inspirados conseguiram honrar a obra de Stephen em filmes que foram sucessos de público e crítica, alguns foram até oscarizados, outros se tornaram cult ou inspiraram séries de TV. A seguir meus dez filmes favoritos baseados nas obras do mestre do terror:

#10 A Hora da Zona Morta (1983) de David Cronenberg
Pouca gente lembra deste filme que conta com ótima atuação de Christopher Walken como um sujeito que usa uma parte específica do cérebro mais do que a maioria dos mortais e, por isso mesmo,  consegue ver o futuro... além de incomodar os planos de um político temeroso.

#09 O Aprendiz (1998) de Bryan Singer 
Antes de enveredar pelo universo dos X-Men, Singer se aliou a Magneto Ian McKellen para contar a história de um velhinho pacato que tem seu passado descoberto por um jovem vizinho (o finado Brad Renfro) - só que o rapaz sente-se cada vez mais atraído pelo lado sombrio do ex-oficial nazista. 

#08 O Nevoeiro (2007) de Frank Darabonts
O filme ficou famoso pelo final (que eu adoro) ainda mais perturbador que o do livro. A história é ambientada dentro do mercado de uma cidadezinha assombrada por um denso nevoeiro que esconde um segredo assustador (tão assustador quanto a histeria de alguns personagens). 

#07 Eclipse Total (1995) de Taylor Hackford
Kathy Bates é sempre lembrada como uma excelente atriz, especialmente quando se trata de dar vida às personagens mais complexas do escritor. Ela é Dolores Claiborne, que acusada de assassinato, enfrentará o passado obscuro e os ressentimentos da própria filha (Jennifer Jason Leigh)

#06 Conta Comigo (1986) de Rob Reiner
Este deve ser o filme mais terno baseado na obra de King. Inspirado num conto sobre um grupo de amigos que pretende ver um corpo morto no bosque de uma cidadezinha, o longa de Rob Reiner transpira nostalgia e tem fãs fieis até hoje. O resultado foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado.  

#05 Louca Obsessão (1990) de Rob Reiner 
Kathy Bates ganhou o Oscar de melhor atriz pelo seu trabalho como a desequilibrada Annie Wilkes, mulher que vive solitária até encontrar o seu escritor favorito (James Caan), que acaba de sofrer um acidente. Este é o início de uma relação complicada que parece tirada de um pesadelo de King. 

Esta versão de Kubrick é uma grande provocação, já que ele alterou vários pontos do livro. Ainda assim, a história do escritor que vai para um  hotel com a família e passa a ser assombrado pelo passado macabro do lugar é considerado um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. 

Aqui o público já sabia que nem só de terror vivia as adaptações de King. Baseado em um dos seus textos mais sensíveis, a trama conta a história do encantador John Coffey (Michael Clarke Duncan), condenado à morte que possui um poder miraculoso. O resultado concorreu a quatro Oscars. 

Sissy Spacek (indicada ao Oscar) entrou para a memória cinéfila por sua espetacular atuação como a menina de educação repressora que é perseguida e humilhada por seus colegas na escola... sendo assim, uma das primeiras vítimas de bullying do cinema, perde as estribeiras no baile de formatura.  

#01 Um Sonho de Liberdade (1994) de Frank Darabonts 
Frank Darabonts deve ser lembrado como o melhor tradutor das obras de Stephen King para o cinema! Basta ver que ele aparece três vezes nesta lista com filmes muito bons - e este é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Nele, conhecemos a história de amizade entre dois prisioneiros e o desfecho surpreendente de quem teve paciência para conseguir o que muitos consideravam impossível. Indicado a sete Oscars o filme (inexplicavelmente) não levou nenhuma estatueta para casa, mas conquista  fãs até hoje. 

Na Tela: It - A Coisa

Bill: palhaço do mal. 

Fazia tempo que um filme baseado na obra de Stephen King não dava tanto o que falar quanto It: A Coisa, ironicamente o filme entrou em cartaz praticamente ao mesmo tempo que outra versão de uma obra do autor que vai muito mal nas bilheterias (o fiasco A Torre Negra), o que faz lembrar que somente a assinatura ilustre do escritor não garante sucesso. Já vai para quatro décadas que as obras do escritor chegam aos cinemas e o sucesso de It não deixa de ser uma comemoração para a ligação de King com o cinema. Houve uma versão anterior lançada no formato de mini-série em 1990 e marcou época para aqueles que foram às locadoras acompanhar as diabruras de um palhaço macabro que azucrinava um grupo de pessias nos anos 1960.  A nova versão foi sabiamente transposta para os anos 1980 e deixou tudo com clima da série Stranger Things, o que ajuda o filme a dialogar muito bem com o público atual (lembrando que a série bebe diretamente na fonte de King), além de aumentar o charme da ambientação com pôsteres na parede, trilha sonora e uma ingenuidade desbocada que se perdeu no tempo. O diretor argentino Andy Muschietti (de Mama/2013) demonstra total domínio narrativo para equilibrar cenas de horror e humor, conduzindo muito bem o grupo de jovens atores - que causa identificação na plateia e gera torcida empolgada durante todo o filme. O ponto de partida é o desaparecimento do irmão caçula de Bill (o ótimo Bill Denbrough de Destino Especial/2016) que junto com um grupo de amigos (incluindo Finn Wolfhard e Stranger Things) conhecido Clube dos Perdedores irá tentar encontrá-lo. As poucos o grupo de amigos cresce em número e passa a contar até com uma menina, a adoravelmente mal falada Beverly (Sophia Lillis). A apresentação dos sete personagens forma o primeiro ato da história, que também explora os problemas adolescentes que cada um deles possuem, o que ganha maior importância quando passam a ser assombrados pelo estranho palhaço Pennywise (em arrepilante atuação de Bill Skarsgaard), que está por trás do desaparecimento de crianças há tempos e que se alimenta do medo de suas vítimas. Com várias cenas de arrepiar (usando toda a cartilha do gênero, efeitos especiais nojentos, sangue, monstros, casa assombrada, garoto psicopata, trilha sonora arrepiante...), o filme não economiza nos sustos (alguns bem elaborados), mas consegue manter o tom de aventura sem esquecer de aprofundar seus heróis juvenis. Tocando em questões de abuso, bullying e preconceitos sem parecer forçado ou didático, o filme mostra-se um grande acerto ao ter um  olhar terno sobre seus heróis cheios de boas intenções. Com a bilheteria astronômica arrecadada ao redor do mundo, crescem os boatos de uma segunda parte, onde será abordada a outra fase da história onde os personagens aparecem crescidos. Sem a leveza da infância no próximo filme, provavelmente resultado será ainda mais sombrio, resta saber se o público irá se envolver da mesma forma com a nova aventura. Até lá, It: A Coisa promete fazer ainda mais sucesso, afinal, foi feito sob medida para isso. 

O Clube dos Perdedores: jeito de Stranger Things. 

It: A Coisa (It / EUA-Canadá) de Andy Muschietti com Bill Denbrough, Sophia Lillis, Bill Skarsgaard, Jack Dylan Grazer, Wyat Oleff, Finn Wolfhard, Jeremy Ray Taylor e Chosen Jacobs. ☻☻

domingo, 17 de setembro de 2017

PL►Y: Tracks

O pequeno camelo, Mia e Adam: dias de deserto. 

Confesso que preciso de uma motivação extra para ver filmes de pessoas que resolvem se perder por aí em contato com a natureza e suas adversidades. Nunca entendo muito bem o que se passa na cabeça de quem faz uma coisa dessas - talvez se eu procurasse os livros que viraram filmes sobre estes personagens eu entendesse melhor. Recentemente procurando um filme para assistir na Netflix me deparei com Tracks, filme que deu azar de ser lançado no mesmo ano que Livre/2014 estrelado por Reese Witherspoon (que foi indicada ao Oscar) e carrega uma história real bastante parecida. Afinal, os dois tem protagonistas femininas louras que pretendem caminhar muito enquanto expiam seus problemas pessoais. Tracks foi baseado na história de Robyn Nelson, uma jovem que resolveu atravessar o deserto australiano até encontrar o mar. Foram vários dias andando no sol escaldante diante de um cenário árido com a companhia somente de sua cadela de estimação e quatro camelos. Dirigido por John Curran e escrito por Marion Nelson, o filme não faz questão de aliviar a ansiedade da plateia, esticando a peregrinação por quase duas horas de paisagens desérticas e uma protagonista que não faz questão de ser simpática com as pessoas que encontra pelo caminho. Vivida por Mia Wasikowska, Robyn oscila entre a força e a fragilidade, mas não está interessada em ser uma heroína ou representante de causa alguma, no meio do caminho nem ela mesmo sabe direito de onde surgiu a ideia da jornada que propôs a si mesma. Como era de se esperar, ela encontra vários desafios pelo caminho, incluindo a incompreensão de um acampamento que não permite animais ou um grupo de aborígenes que a rejeita por conta das fotos que foram tiradas de uma cerimonia secreta. Sorte que no meio do caminho ela também encontra personagens que ajudam sua caminhada, uma pessoa que lhe ensina o que precisa saber sobre camelos, um guia que a ajuda a livrar-se de turistas inconvenientes (e ainda ganhar uns trocados) e um fotógrafo que que cai de amores por ela (cortesia de Adam Driver) - mesmo que ela não esteja preparada para que gostem dela. É preciso um bocado de paciência para acompanhar o filme, mas neste aspecto valeu a pena a minha motivação extra para assisti-lo: os bichos. Primeiramente, desde o documentário Camelos Também Choram/2003, eu não via um filme que oferecesse destaque aos camelos (e posso dizer que diversas vezes eles roubam a cena), por outro lado, a cadela de estimação de Robyn também consegue ser bastante expressiva na história, tendo um dos momentos mais tristes (e reveladores) da trama. No fim das contas, são eles que revelam os aspectos mais interessantes sobre a protagonista e nos ajudam a acompanhar Robyn em sua árdua jornada pelo deserto de si mesma. Obiviamente que você pode encontrar várias lições no filme, mas eu não quero escrever sobre isso, prefiro ressaltar como a direção de Curran nos colocar lado a lado com a personagem, nos oferecendo uma experiência sensorial bastante incomum. 

Tracks (Australia/2013) de John Curran com Mia Wasikowska, Adam Driver, Philip Dodd, Fiona Press e Rainer Brock. ☻☻

PL►Y: Absolutely Fabulous - O Filme

Saunders e Lumley: musas politicamente incorretas. 

A série Abstolutely Fabulous foi lançada em 1992 e seu tom politicamente incorreto logo conquistou uma legião de fãs ao redor do mundo. As peripécias de Edina Monsoon (Jennifer Saunders) e sua melhor amiga, Patsy Stone (Joanna Lumley) renderam de início três temporadas em que abusaram do álcool, drogas, figurinos espalhafatosos e alfinetadas ao mundo do entretenimento. Era como se Beavis e Butt-head ganhassem uma encarnação como duas mulheres maduras britânicas desbocadas que gostariam de levar sua vida de excesso até o túmulo. A série rendeu mais duas temporadas, até ser cancelada e retomada em 2001, quando rendeu mais três anos de  risada. Ao todo foram 39 episódios que fizeram a glória dos fãs. Ano passado as duas comediantes se juntaram para mais uma aventura, Absolutely Fabulous - O Filme era um dos filmes britânicos mais esperados do ano passado, mas agradou somente as fãs da série, talvez por conta de parecer um episódio estendido da dupla (o que não chega a ser ruim, mas que não funciona como deveria na tela grande). O roteiro é uma mistura de  desastres pessoais de Edina, que vê o seu trabalho de relações públicas irem de mal a pior. A salvação parece estar na chance de ter Kate Moss (tinha que ser!) como sua cliente, mas ela acaba sendo acusada de tentar matar a cultuada ex top-model. No meio da confusão em que Edina se mete, sobra para Patsy se fingir de homem e se casar com a mulher mais rica do mundo. Nada faz muito sentido na história e alguns dos momentos mais engraçados nascem daí mesmo (a própria Patsy se passando por homem continua maquiada, com unhas pintadas... mas com o acréscimo de um bigodinho vexaminoso). Existe uma penca de participações especiais, principalmente de celebridades europeias (a Spice Girl Emma Bunton, Jerry Hall, Gwendoline Chritie, Jean Paul Gaultier, Lulu, Lilly Cole, Stella McCartney...) que nem sempre são aproveitadas como deveriam deixando a graça mesmo por conta de Edina e Patsy (que sempre foi a minha favorita e a cena do encontro dela com Jon Hamm é uma das melhores coisas do filme). É verdade que o filme conta com coadjuvantes da série, como a filha aguada de Edina (Julia Sawalha) e a secretária espalhafatosa Bubble (Jane Horrocks), mas também procura dialogar com o público mais jovem escalando Chris Colfer (da série Glee) e Indeyarna Donaldson-Holness para ser a neta crescida de Edina. No entanto, o resultado não  parece muito diferente das comédias de linguagem televisiva da Globo Filmes (talvez pela própria diretora Mandy Fletcher ter seu currículo basicamente na TV), a diferença é que o tom politicamente incorreto das indestrutíveis amigas soa como um sopro de ar fresco em meio a tantas comédias mansinhas que tem por aí. 

Absolutely Fabulous - O Filmes (Absolutely Fabulous - The Movie / EUA-Reino Unido / 2016) de Mandie Fletcher. ☻☻

sábado, 16 de setembro de 2017

Na Tela: Ao Cair da noite

Famílias reunidas: suspense pós-apocalíptico. 

O cineasta Trey Edward Shults ganhou o mundo quando sua estreia recebeu elogios no Festival de Cannes, com o drama familiar Krisha  (2015) o rapaz se tornou figura conhecida em festivais do cinema independente e ainda levou para a casa o cobiçado John Cassavetes Awards no Independent Spirit Awards concedido ao melhor filme com baixíssimo orçamento daquele ano. Quem viu Krisha percebeu seu talento para criar uma narrativa onde os fatos falam mais do que os diálogos e a narrativa imagética criava mais tensão do que qualquer outro elemento em cena. Seus closes e movimentos de câmera foram capazes de fazer um dia de Ação de Graças fadado ao fracasso ganhar forma de um filme de horror, mesmo sendo um drama. Não por acaso que o filme seguinte do jovem diretor é um suspense que, alguns tentaram vender como um filme de terror (e gerou alguma insatisfação no público), mas na verdade é um filme que fala muito sobre o imaginário mundial atualmente e suas paranoias. Houve quem ficasse se perguntando o que de tão terrível acontece durante a noite durante a trama, mas posso garantir que não é algo tão terrível quanto as atitudes que Paul (Joel Edgerton) é capaz de fazer para manter a segurança de sua família. Shults não explica muito bem como seus personagens foram parar naquela situação, mas basta usar a cabeça para imaginar que tudo se passa num período pós-apocalíptico onde há pouca comida, água escassa e um perigo eminente de contaminação quando anoitece. Logo no início Paul precisa lidar com a contaminação do sogro. Ao lado da esposa, Sarah (Carmen Ejogo) e o filho adolescente, Travis (Kelvin Harrison Jr.) ele precisa tomar uma atitude drástica. Enquanto a família (e o cachorro de estimação) ainda enfrenta o luto , eles percebem que a casa foi invadida. Assim eles conhecem Will (Christopher Abbott) outro sobrevivente que pensou ter encontrado um casa vazia e que poderia ter suprimentos para sua família. Deste ponto em diante a rotina da família muda, embora permaneçam as regras que precisam ser respeitadas para que continuem seguros e sem risco de contaminação. No entanto, por mais que exista um clima amistoso na casa, Paul sempre ensina ao filho que ele não pode confiar em ninguém que não seja da família. Logo a fragilidade daquelas relações irá se revelar e, acredite, os desdobramentos serão mais assustadores do que os pesadelos que assombram Travis. Shults faz um filme que parece extremamente simples, com um único cenário isolado da civilização e bons atores (destaque para Edgerton e Abbott em duelo constante), mas o melhor desta produção modesta (custou três milhões e arrecadou três vezes este valor nas bilheterias americanas) são as  suas ideias, especialmente a de que os outros não são pessoas iguais a você, mas ameaças iminentes - o que torna o filme numa dolorosa alegoria bastante necessária sobre os tempos estranhos em que vivemos. Ignore os sustos presentes nos sonhos ruins de Travis e se concentre na essência do filme, que garanto que você irá notar que os pesadelos já estão acontecendo. 

Ao Cair da Noite (It Comes at Night/EUA-2017) de Trey Edward Shults com Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr. e Riley Keough. ☻☻☻☻