quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PL►Y: O Estado das Coisas

Ben e Austin: a insustentável satisfação pela comparação.  

Brad Sloan (Ben Stiller) é um homem que está próximo de completar cinquenta anos. Brad tem sua própria empresa e uma casa confortável onde vive com a esposa, Melanie (Jenna Fischer) e o filho, Troy (Austin Abrams) que está prestes a ir para a faculdade. Embora pareça ter tudo para ser feliz, Brad não está satisfeito, já que vive comparando sua vida com a dos amigos que considera ter vidas melhores que a dele - ou porque lançam livros de sucesso, porque casaram com mulheres mais jovens e ricas, por trabalharem em uma grande corporação e ter seus próprios jatinhos ou porque são milionários e vivem dando festas à beira da piscina (ou se aposentaram e foram morar na beira da praia com duas namoradas sempre sorridentes). Brad acompanha  a vida dos amigos pelas redes sociais ou, pior, pela mídia quando suas vidas maravilhosas chamam atenção da imprensa. Brad é realmente um sujeito estranho, invejoso mesmo. Só que na maioria das vezes ele nem percebe e se julga apenas injustiçado diante do que tudo o que conquistou na vida. Começamos a gostar dele só quando o filho está prestes a fazer suas entrevistas para a universidade. O rapaz pretende cursar música e a primeira opção de sua lista é Harvard. O pai não poderia ficar mais  feliz. Quando Brad parte com o filho para a entrevista ele sente a necessidade constante de mostrar para o filho que ele é um sujeito legal, mas nem precisava o filho desencanado está bem longe de ficar questionando o estado das coisas como seu pai. Outras vezes, Brad demonstra ser inseguro ou chato com suas inúmeras recomendações para o filho, mas também preocupado com o futuro do filho, ao ponto de engolir o orgulho e ligar para um dos seus amigos e pedir ajuda -  mas aí o problema será imaginar que seu filho se tornará famoso e esquecerá dele e sua "mediocridade". Escrito e dirigido por Mike White, O Estado das Coisas não é um filme que se assiste caindo na gargalhada ou uma obra que se torna comovente diante da catarse do protagonista, funciona como uma reflexão da forma como muitas pessoas se relacionam no mundo de hoje. Contaminado pela ideia de que as pessoas estão competindo o tempo todo uma com as outras, provavelmente Brad nunca irá encontrar a satisfação pensando nas conquistas alheias, já que a satisfação é algo muito subjetivo e está relacionada ao valor que atribuímos ao que conquistamos, mas isso ele ainda não aprendeu. No decorrer do filme a pouca simpatia que temos pelo personagem se enfraquece, restando apenas a esperança de que ele passe a pensar que sua vida é única e cabe apenas a ele mesmo vivê-la. Não é o tipo de filme que as pessoas vão curtir muito, mas se conseguir fazer algumas pensarem nestas questões, acho que o diretor ficará bastante satisfeito. 

O Estado das Coisas (Brad's Status/EUA-2017) de Mike White com Ben Stiller, Jenna Fischer, Austin Abrams, Michael Sheen, Jemaine Clement, Luke Wilson e Mike White. ☻☻☻

PL►Y: Fuga Para a Liberdade

Julian e Sam: cômica caçada humana. 

Em 2017 o diretor Taika Waititi tornou-se conhecido pelo grande público ao dirigir em Hollywood pela primeira vez. Ainda que tenha conquistado uma indicação ao Oscar em 2004 (pelo curta Two Cars, One Night), para alguns ele já era conhecido por dirigir comédias peculiares em sua terra natal. Depois de Thor: Ragnarok/2017 , ainda que muitos não tenham curtido o humor transbordante  e o visual multicolorido da repaginada no Deus do Trovão, os próximos filmes do cineasta prometem chamar mais atenção do público e da mídia. Embora tenha feito algumas participações como ator em filmes americanos, conheci o trabalho de Taika no impagável O Que Fazemos nas Sombras (2014). logo quis conhecer um pouco mais de seus outros filmes. Lembro que ele estava lançando este Hunter for Wilderpeople e recebia resenhas elogiosas da imprensa pela história de Rick Baker (Julian Dennison), uma criança considerada problemática (já participou de furtos, roubos de carro e outras infrações...) que é encaminhada para viver com seus novos pais adotivos. Bella (Rima de Wiata) e Hector (Sam Neil) vivem reclusos perto de uma floresta. Bella está disposta a dar ao menino todo o carinho e atenção que ele precisa, independente de todas as histórias que já ouviu sobre ele. Já Hector é mais sisudo e distante, mas aceita a decisão da esposa de aumentar a família. Quando um golpe do destino muda os rumos desta família, Rick  foge de casa com seu cão (chamado Tupac) e Hector parte em sua busca. Não demora muito para que os dois sejam procurados pelas autoridades locais e todo tipo de história sensacionalista se propague sobre os dois - especialmente com a ajuda da assistente de proteção à infância vivida por Tioreore Nagatai-Melbourne (que também participou de Thor:Ragnarok), que é a vilã do filme. O filme tem traços de aventura infanto-juvenil e se torna irresistível pelo humor que perpassa toda a história, mesmo nos momentos em que se torna mais dramática. Tem o maior clima de comédias de aventura dos anos 1980, uma época em que o politicamente correto não atrapalhava o andamento da história e que Taika teria feito bilheterias milionárias. Além do roteiro esperto (baseado na obra de Barry Crump), o longa também se beneficia muito do elenco, sobretudo do menino Julian Dennison que é um verdadeiro achado (sua narrativa em off garante ótimos momentos e deve aparecer na nova aventura de Deadpool no cinema) além que Sam Neil, o veterano também está ótimo em cena e deixa a impressão que Hollywood nunca soube muito bem o que fazer com ele - mesmo que ele tivesse versatilidade para fazer muita coisa boa. embora tenha recebido um nome genérico por aqui (Fuga para a Liberdade?! Come on!), Hunter for Wilderpeople tem um frescor irresistível e promete boas risadas para quem se aventurar ao lado de Rick Baker e seu pai que, ironicamente, estava doido para se livrar dele. 

Fuga para a Liberdade (Hunter for Wilderpeople/ Nova Zelândia - 2016) de Taika Waititi com Julian Dennison, Sam Neil, Rima de Wiata, Tioreore Nagatai-Melbourne,Troy Kingi e Stan Walker. ☻☻☻☻

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

4EVER: Dolores O'Riordan

06 de setembro de 1971 ✰ 15 de janeiro de 2017

Dolores Mary Eileen O'Riordan nasceu na cidade de Limerick na Irlanda e ficou famosa mundialmente à frente da banda The Cranberries que iniciou seus trabalhos em 1989. Dolores e a banda ficaram famosos em 1993 quando canções do álbum de estreia começaram a tocar nas rádios universitárias. Canções como Linger e Dreams logo estavam em rádios de todo o mundo e se tornaram hits, chamando atenção pela sonoridade alternativa embalando a voz potente de sua vocalista. O álbum seguinte manteve o sucesso da banda e criou até mesmo um hino, Zombie, sobre os horrores dos conflitos vivenciados pela Irlanda nos anos 1970 e 1980. Embora se dedicasse mais à carreira solo nos últimos anos, Dolores conseguia conciliar a carreira com a família. Mãe de dois meninos e uma menina, Dolores se tornou uma das personalidades mais queridas da Irlanda e faleceu inesperadamente, de causa ainda não divulgada enquanto se preparava para uma sessão de gravação. À frente do Cranberries a artista vendeu mais de 40 milhões de álbuns. 

10+: Tom Hanks

O americano Thomas Jeffrey Hanks nasceu na cidade de Concord na Califórnia em 1956. Começando sua carreira no cinema nos anos 1980 ele se tornou bastante conhecido por inúmeras comédias de sucesso. Seu ponto de mudança aconteceu em 1988 quando sua atuação em Quero ser Grande lhe rendeu um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. O prêmio serviu de ponto de mutação em sua carreira, lhe rendendo convites para filmes mais dramáticos e de maior prestígio. Desde então, Tom Hanks se tornou um dos rostos mais conhecidos do cinema americano, com dois Oscars na estante e outros 78 prêmios acumulados ao longo da carreira. Reconhecido como ator, roteirista, produtor e diretor, Hanks coleciona sucessos de público e crítica e se tornou um desses astros que o cinema quase não produz mais. Neste 10+ eu relembro os meus trabalhos favoritos deste renomado artista:

#10 - "Apollo 13" de Ron Howard (1995)
Hanks interpreta o astronauta Jim Lowell, dono da célebre frase "Houston, We have a problem!" neste longa indicado a nove Oscars. 


#09 - "Sintonia de Amor" de Nora Ephron (1993)
Hanks e Meg Ryan era o casal favorito das comédias românticas nos anos 1990 - aqui eles se apaixonam à distância pelas ondas do rádio... 

O primeiro navio de carga americano sequestrado em 200 anos rende um filme eletrizante e Hanks tem seu melhor papel em tempos. 

#07 - "Quero Ser Grande" de Penny Marshall (1988)
Um brinquedo mágico transforma um menino de treze anos em adulto. O resultado rendeu à Hanks sua primeira indicação ao Oscar. 

No corredor da morte, Hanks encontra um condenado com poderes miraculosos. O público foi às lágrimas neste conto de Stephen King. 

Sua quarta indicação ao Oscar foi pela atuação como o obstinado Capitão Miller, responsável pela missão do título. 

# 04 - "O Terminal" de Steven Spielberg (2004)
Baseado em fatos reais, a história do imigrante que vive no aeroporto é um dos trabalhos mais interessantes de Hanks - e ninguém deu bola. 

#03 -  "Náufrago" de Robert Zemeckis (2000)
Segunda parceria de Zemeckis com Hanks lhe rendeu sua quinta e última indicação ao Oscar até hoje. O ator impressiona  a cada cena. 

# 02 - "Forrest Gump" de Robert Zemeckis (1994)
Filme delicioso de assistir (embora seja bem diferente do livro)! Hanks viaja no tempo e leva seu segundo Oscar de ator, um ano depois de...

#01 - "Filadélfia" de Jonathan Demme (1993)
O filme foi um marco em Hollywood e permanece cada vez mais atual. Hanks ganhou seu primeiro Oscar de melhor ator por seu trabalho notável como o advogado soropositivo Andrew Beckett.  

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

PL►Y: Sully - O Herói do Rio Hudson

Hanks: baseado em um personagem real. 

Tom Hanks é um dos atores mais prestigiados do cinema americano, no entanto, nos últimos anos ele tem sido criticado pela condução de sua carreira nos últimos tempos. Obviamente que Hanks recebe propostas dos diretores mais renomados e roteiros de todo tipo de gente, mas ele prefere conduzir a carreira dentro de uma zona de conforto quando parte do público gostaria de vê-lo em trabalhos diferenciados, assim, ele mantem distância da maioria do cinema independente e jovens diretores. Este ano o ator está cotado para o Oscar por The Post de Steven Spielberg, mas nos últimos anos também esteve por Capitão Phillips (2013), Ponte de Espiões (2015) e este Sully (2016), todos são filmes bem conduzidos e com histórias interessantes, mas que assistimos e vemos Hanks fazer o que se acostumou a fazer nos últimos anos, não se arrisca, não surpreende e continua na mesma esperando que o Oscar lhe conceda mais uma indicação. Sully - O Herói do Rio Hudson é um belo exemplo disso. Dirigido por Clint Eastwood, o filme conta a história real de Chris Sullenberger, um piloto de avião que fez uma manobra muito arriscada para salvar um voo que estava destinado ao desastre. Diante de um incidente grave, Sully resolveu arriscar e pousar sobre o Rio Hudson numa manobra inexplicável que conseguiu salvar todos os passageiros, mas não se preocupe, isto não é um SPOILER, já que o filme prefere abordar as consequências da decisão do piloto. Após o incidente houve um processo de sindicância que contestou a decisão do piloto e de herói ele passou a ser considerado um irresponsável que poderia ter gerado dezenas de mortes por puro capricho de seu ego. O filme gira em torno deste processo, misturando a tensão do piloto que começa a duvidar sobre o que deveria ter feito naquele dia. Sua vida pessoal, o assédio da mídia e sua conduta sobre suspeita se misturam em um roteiro tenso que se torna o grande trunfo do filme. As idas e vindas da trama não prejudicam em nada a compreensão da história, ao contrário, a enriquece apresentando diversas camadas sobre o episódio. Hanks e o elenco de apoio não decepciona, assim como os efeitos especiais que são extremamente realistas e convincentes. Se afastando de se tornar mais um filme catástrofe,o filme se tornou sucesso de público e crítica, mas não encontrou tanta repercussão nas premiações e chegou no Oscar somente com uma indicação à Melhor Edição de Som. No entanto, ainda é o melhor filme de entretenimento dirigido pelo experiente diretor.

Sully - O Herói do Rio Hudson (EUA-2016) de Clint Eastwood com Tom Hanks, Aaron Eckhart,  Laura Linney, Mike O'Malley, Anna Gunn e Holt McCallany. ☻☻☻☻

PL►Y: Mr. Roosevelt

Nöel: estrela promissora. 

Não pense que o filme é sobre o ex-presidente dos EUA, Mr. Roosevelt passa longe da política! O título é o nome de um simpático gatinho que mal aparece no filme, mas desencadeia toda a história sobre a jovem aspirante à comediante que precisa resolver algumas pendengas de sua vida emocional. Conforme vemos no início,  Emily (Noël Wells) descobriu que conseguia fazer as pessoas rirem desde pequena e desde então resolveu ser comediante. Embora arranjar trabalho na área não seja tão fácil como imagina, ao menos ela teve um momento de glória quando um vídeo protagonizado por ela se tornou um sucesso na internet - e algumas pessoas até a reconhecem na rua por conta dele. Fora isso, ela enfrenta alguns problemas com a imagem que tem de si mesma e tem um verdadeiro dedo podre para arranjar namorados desde que ela terminou com Nick (Eric Kline). Eis que um dia Nick entra em contato para ela para comunicar os problemas de saúde com o gato de estimação que ela também deixou para trás e... o reencontro entre os dois é inevitável. Poderia ser uma chance do casal recomeçar se Nick não estivesse num relacionamento sério com Celeste (Britt Lower), que não apenas divide a casa com Nick como também adotou Mr. Roosevelt como seu gatinho de estimação. Ou seja, a crise de ciúme de Emily só tende a se intensificar com o tempo. Por peso na consciência, ciúmes e arrependimentos ela fica na casa com os dois por algum tempo e a tensão cresce de forma  inevitável. É verdade que Nick deixou suas ambições de ter uma banda de sucesso e agora vive uma vida mais estável, talvez por influência de Celeste procurar criar uma imagem perfeita para o casal - o que irrita ainda mais Emily. Aquela atmosfera funciona apenas como um espelho que reflete como  sua vida está cada vez mais bagunçada e tudo explode numa sucessão de conflitos bem humorados e confusões. Além de engraçado, Mr. Roosevelt chama atenção pela forma descontraída como Noël Wells dirige e atua num filme escrito por ela mesma. Ainda que seja uma  ilustre desconhecida por aqui, Noël já participou de vários programas de televisão, entre eles o Saturday Night Live (entre 2013 e 2014) e de episódios do eleogiado Master of None da Netflix. Existe um frescor irresistível na forma como ela conduz a jornada de sua personagem por tudo o que preferiu deixar para trás e faz lembrar uma versão mais light e divertida do que Lena Dunhan era ao fazer o mesmo processo com Mobília Mínima (2010), antes de ficar famosa e ganhar prêmios com a série Girls. Seria interessante que alguém se interessasse pelas ideias de Noël e também lhe desse a oportunidade de criar sua própria série de TV - e nos garantir a cota de risada semanal. 

Mr. Roosevelt (EUA-2017) de Noël Wells com Noël Wells, Eric Kline, Britt Lower, Daniella Pineda, Andre Hyland e Doug Benson. ☻☻☻

domingo, 14 de janeiro de 2018

PL►Y: Wilson

Woody e Laura: casal desastre. 

O roteirista Daniel Clowes tem uma longa carreira no mundo dos quadrinhos, sendo responsável por várias graphic novels que se tornaram cultuadas com o tempo. Clowes também costuma escrever o roteiro quando algum diretor se aventura a levar suas histórias para a telona, foi assim que conseguiu uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado pelo seu trabalho em Ghost World (2001), que tem fãs fieis até hoje. As histórias de Daniel costumam gerar em torno de pessoas comuns que não são muito bem ajustadas aos padrões e geralmente podem ser classificados como excêntricos ou esquisitos em histórias que capricham no humor negro. Com Wilson não poderia ser diferente. Dirigido por Craig Johnson (Irmãos Desastre/2014), Wilson também tem a vantagem de ter Woody Harrelson vivendo o antológico personagem, um senhor de meia-idade solitário, neurótico e dotado de uma honestidade irritante. Se no início o filme não consegue esconder sua alma de HQ, aos poucos a história encontra seu ritmo e o insere num verdadeiro melodrama familiar que segue por um caminho totalmente oposto do convencional. A começar pelo seu reencontro com um amigo de infância (que acaba sendo o último dia em que se verão pelo resto da vida) ou com a ex-mulher, que o abandonou para tentar a vida em Las Vegas. Não bastasse a desenvoltura de Harrelson no papel principal, o diretor ainda conseguiu escalar a ótima Laura Dern para interpretar sua ex-esposa (e ela parece uma versão do futuro de sua personagem em Ruth em Questão/1996 de Alexander Payne, o que deixa tudo ainda mais divertido). Não satisfeito, Wilson descobre que ela estava grávida e que o bebê foi dado para a adoção e o que poderia ser um dramalhão daqueles segue mais uma vez por caminhos inesperados. A química entre o casal de atores consagrados (cada um deles com duas indicações ao Oscar no currículo)  funciona que é uma beleza e deixa o filme ainda mais divertido. O roteiro de Clowes somado com a direção despojada de Craig criam uma atmosfera que subverte sempre o que se espera neste tipo de história, sem inventar demais e sempre exagerando no drama que ressalta ainda mais a graça das situações que vemos na tela. Wilson bem que poderia ter sido lembrado em algumas premiações pelo seu tom de comédia despretensiosa e tão desconjuntada quanto a vida de seu protagonista. 

Wilson (EUA-2017) de Craig Johnson com Woody Harrelson, Laura Dern, Judy Greer, Toussaint Morrison, Chryl Hines, Isabella Amara e Alec George. ☻☻☻