domingo, 24 de junho de 2018

Na Tela: A Morte de Stalin

Buscemi e seus concorrentes: Ianucci ataca novamente.  

Armando Ianucci se tornou um especialista em sátiras políticas, mas nada que se compare à maioria das piadas rasteiras que invadem o Facebook. Para Ianucci, quando se trata de política, nada é sagrado, basta ver o que ele fez em Conversa Truncada (2009), onde mostra trocas de interesses políticos entre britânicos e americanos. Seu humor incomum lhe valeu uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado (já que o texto era inspirado num programa criado pelo próprio diretor), mas se muita gente estranhou seu estilo, a coisa mudou nos últimos anos, depois que ele criou a premiada série VEEP em 2012. Nas desventuras de uma vice-presidente americana que planeja formas de assumir a presidência (isso te lembra alguma coisa?), o humor de Ianucci se tornou mais popular, especialmente depois do resultado das eleições americanas. Se contarmos o filme de retrospectiva feito para TV em 2004 (carinhosamente chamada de 2004: The Stupid Version), este é o seu terceiro longa. Só que desta vez, o cineasta escocês mexe num verdadeiro vespeiro ao fazer graça com o que o título anuncia. Só que A Morte de Stalin recebeu elogios da crítica, principalmente pela forma como consegue alternar cenas assustadoras com o humor típico do diretor, assim, constrói uma obra inspirada em fatos reais, mas que consegue especificar onde está a dura realidade e a ficção no decorrer da narrativa. Durante o filme,  fica clara a devoção da população ao líder russo, assim como o medo que muitos tinham dele, também estão lá os poderosos que estavam em seu redor (mais preocupados em permanecerem na alta cúpula soviética do que propriamente com a população). O que se vê é um jogo de manobras políticas para ocupar o espaço deixado com a morte de Stalin,  ou seja, durante boa parte da história o que vemos é um grupo de homens e seus planos para ampliar o poder que possuem, ou pelo menos, mantê-lo (e perdê-lo pode significar a morte). Neste jogo vale tudo, silenciar o filho rebelde do falecido (Rupert Friend, numa atuação divertida) ou bajular a filha dele (Andrea Riseborough), criar uma confusão com os civis que gostariam de ir ao funeral, ameaçar uma pianista (Olga Kurylenko) que escreveu a última carta lida por Stalin, desconsiderar uma lista de execuções, lançar outra lista de execuções, salvar amigos, matar outros... Ianucci criou um roteiro bem mais complexo e sério (é verdade, acreditem) do que em suas obras anteriores, sempre destacando o quanto o poder pode cegar as pessoas - o que não depende de ideologias políticas, o cego é cegro e pronto (quer melhor exemplo do que Molotov vivido por Michael Palin?). O elenco é uma atração à parte, tendo Steve Buscemi como um escorregadio Nikita Krushchev, Jeffrey Tambor como um hesitante Georgy Malenkov e um inacreditável Simon Russell Beale como o esperto (mas nem tanto) Lavrenti Beria - para quem viu este senhor como o afetado Ferdinand Lyle da finada série Penny Dreadful fica até difícil reconhecê-lo. Com timing perfeito, ótima reconstituição de época e edição precisa, o filme sublima a mistura de política com um humor improvável, semelhante ao de uma câmera escondida. A Morte de Stalin não vai agradar todo mundo (e o que agrada?), mas quem perceber a crítica política presente ali, irá aproveitar muito mais - e antes que critiquem Ianucci por fazer graça com a esquerda, vale lembrar que em seu currículo ele já deixou claro que para ele nada é sagrado (seja direita, esquerda, centro, cima, em baixo, diagonal...). 

A Morte de Stalin (The Death of Stalin / França - Reino Unido - Bélgica - Canadá / 2017) de Armando Ianucci, com Steve Buscemi, Simon Russell Beale, Jeffrey Tambor, Andrea Riseborough, Rupert Friend, Michael Palin, Jason Isaacs, Olga Kurylenko e Paddy Considine.
 

sábado, 23 de junho de 2018

PL►Y: Desafiando a Arte

Nicole e Jason: infância marcada por pegadinhas.

Camille (Jason Butler Harner) e Caleb Fang (Kathryn Hahn) são artistas que ficaram famosos com uma carreira controversa. Especialistas em criar situações em público para provocar a reação das pessoas, o trabalho do casal divide opiniões. Para alguns eles são gênios que transcendem os limites da arte (seja o palco, a tela ou uma exposição), para outros, são dois picaretas que vivem fazendo pegadinhas com inocentes nas ruas. Por algum tempo a obra dos Fang contou com a participação de dois coadjuvantes de peso, seus próprios filhos, que ficaram conhecidos como criança A e criança B nas apresentações que realizaram. As crianças ajudaram bastante nas provocações realizadas ao público - como o dia em que cantaram em uma praça que todos os pais deveriam morrer ou na antológica apresentação de Romeu e Julieta que chocou parte da plateia. Só que o tempo passou, a criança A cresceu e se tornou atriz e a criança B se tornou um escritor. Interpretados respectivamente por Nicole Kidman e Jason Bateman, Annie e Baxter querem manter distância deste passado, que de vez em quando lhes bate a porta através de comentários e entrevistas. Por acaso, os dois atravessam momentos difíceis em suas carreiras, faz tempo que Annie não lança um filme importante e o segundo livro de Baxter também não repetiu o sucesso do primeiro. Os irmãos também estavam distantes, até que um acidente com Baxter os reaproxima e... a visita dos pais é inevitável. Vividos agora por Christopher Walken e Maryann Plunkett, Caleb e Camille tentam evitar a lavagem de roupa suja na companhia dos filhos, mas ainda querem convencê-los a participar de novos trabalhos, mas... um golpe do destino acontece e Annie e Baxter não conseguem acreditar que seja verdade, afinal, a especialidade dos seus pais é pregar peça nas pessoas.  Como podem perceber, Desafiando a Arte tem um ponto de partida interessante ao lidar com as mágoas e ressentimentos de uma família de artistas, tem como pano de fundo uma discussão sobre um tipo de humor que se tornou muito comum nos anos 1990, mas a direção de Jason Bateman (este é o segundo filme dirigido pelo ator) não faz questão de aprofundar as questões interessantes que aponta. Embora consiga deixar o espectador com a mesma desconfiança dos personagens (o que cria algum suspense durante o filme), Bateman tenta construir uma comédia sofisticada, com pendores dramáticos, mas anda em círculos a maior parte do tempo. É um filme com bom elenco, atuações dedicadas e que demonstra que o diretor tem sensibilidade para fazer mais do que provocar risadas, mas erra a mão no ritmo e no exagero de melancolia, o que torna o filme menos interessante do que deveria. Desafiando a Arte passou em branco nos cinemas americanos em 2016 e mesmo tendo Nicole Kidman no elenco, não conquistou o interesse dos distribuidores por aqui, mas, apesar de suas imperfeições, pode render discussões interessantes para quem assisti-lo - só não espere um grande filme. 

Desafiando a Arte (Family Fang/EUA-2016) de Jason Bateman com Nicole Kidman, Jason Bateman, Christopher Walken, Maryann Plunkett, Kathryn Hann e Jason Butler Harner. 

Na Tela: Gringo

David, Charlize e Joel: comédia truncada. 

Com estrelas badaladas no elenco, Gringo - Vivo ou Morto (alguém poderia me explicar este título?) era um dos filmes mais aguardados do ano, mas decepcionou com críticas medianas e uma bilheteria modesta. Sorte que o filme não é um desastre e até funciona se for visto como uma comédia despretensiosa, mas que erra ao querer dar um passo maior que a perna - e se atrapalha pelo meio do caminho. Assim que o filme começa, Harold (David Oyelowo)  liga desesperado para o amigo chefe Richard (Joel Edgerton), ele comunica que foi sequestrado no México e será libertado mediante o pagamento de cinco milhões de dólares. Logo o roteiro retrocede e descobrimos como isto foi acontecer.  Logo descobrimos que existe algo de muito estranho na empresa em que ele trabalha, - e boa parte desta estranheza vem do comportamento de Richard e sua amante, Elaine (Charlize Theron). A desconfiança piora quando o trio vai para o México e entre conversas de portas fechadas e diálogos em código, Harold tem a certeza de que está prestes a se dar mal, muito mal - e para piorar, ele cria um plano que sai pela culatra. Entre traficantes, um casal de namorados que cruzam o caminho do protagonista o tempo todo (Harry Treadaway e Amanda Seyfried - que devia estar precisando muito do dinheiro para aceitar um papel tão inexpressivo), gerentes de hotel oportunistas, a esposa de Harold (Thandie Newton) e o irmão de Richard (Sharlto Copley), o foco recai sobre a resolução do sequestro de Harold sem a ajuda da polícia. A ideia é resolvida de forma completamente descompromissada, numa espécie de comédia de erros que deixa várias pontas soltas pelo meio do caminho. A melhor parte fica por conta de Harold, que defendido com o talento de Oyelowo se torna bastante convincente como o bom sujeito que tentou ser esperto e acabou numa sucessão de acontecimentos que lhe saem do controle. O problema está na dificuldade do roteiro lidar com os acontecimentos envolvendo os personagens de Edgerton, Thandie e, especialmente Charlize. Os três ficam perdidos na história, sendo Charlize a maior prejudicada. Sua personagem cheia de pose pode até garantir algum charme na história, mas o roteiro não faz a mínima ideia do que fazer com ela - tanto que existem várias cenas que levam a personagem do nada a lugar algum (exemplos são a cena da carta, o jantar com o empresário, o encontro no apartamento de  Richard e a lista segue...). Assinado por Nash Edgerton (irmão do Joel), que faz aqui o seu segundo longa, o filme evidencia sua falta de habilidade em lidar com uma trama cheia de personagens e subtramas, sorte que o filme tem energia, humor e um bom elenco para manter o interesse na confusão que se anuncia desde o segundo ato. Pena que tão logo o filme termina, você lembra de vários pontos que deveriam ser mais trabalhados ao longo das quase duas horas de projeção.  

Gringo: Vivo ou Morto (Gringo / EUA - Austrália) de Nash Edgerton com David Oyelowo, Joel Edgerton, Charlize Theron, Amanda Seyfried e Thandie Newton. ☻☻

sexta-feira, 22 de junho de 2018

10+: Toni Collette

Toni Collette
Nascida em Sidney no ano de 1972, a australiana Antonia Collett ingressou na escola de teatro na adolescência e surpreendeu seus pais ao escolher seguir a carreira de atriz.  A atriz do aclamado terror Hereditário é conhecida por sua simpatia em entrevistas e versatilidade diante da câmera. Camaleônica, ela já fez de tudo, comédias, dramas, musicais, filmes de época, romances, remakes, indies e terror (gênero que ela não gosta de assistir, mas que já marca a sua carreira há tempos). Ela nem esperava que o sucesso chegaria aos 22 anos em O Casamento de Muriel (1994), seu segundo filme - que lhe garantiu prêmios, visibilidade internacional e o posto de uma de minhas atrizes favoritas.  Com um Globo de Ouro na estante (pela série United States of Tara, que preferi deixar de fora da lista para destacar seus trabalhos apenas no cinema) e uma indicação ao Oscar, a atriz tem uma carreira cheia de bons trabalhos. Destaco aqui as que considero suas melhores atuações (e que não canso de ver em alguma reprise por aí). 

#10 "Emma" (1996) de Douglas McGrath
Você nem deve lembrar dela nesta adaptação da obra de Jane Austen, mas eu lembro com muito carinho! Ela acabava de se tornar famosa e interpretou Harriet, a amiga humilhada da protagonista que ganha uma sensibilidade notável com Toni. Este foi um dos quatro longas que ela lançou em 1996. 

#09 "Velvet Goldmine" (1998) de Todd Haynes
Ela apareceu completamente diferente na pele de Mandy Slade, a esposa do roqueiro Bryan Slade neste musical inspirado no glam rock dos anos 1970. Se Slade é inspirado em David Bowie, Toni é a primeira esposa do camaleão, Angela Bowie (a Angie em pessoa) em fases distintas de sua vida. 

#08 "Já Estou com Saudades" (2015) de Catherine Hardwicke
Não sou muito fã deste filme, mas a atuação de Toni - e sua química como a amiga de Drew Barrymore - o torna acima da média. Ela vive Milly, mulher bem-sucedida e muito ocupada que descobre uma grave doença e precisa de todo o apoio para sobreviver. A plateia costuma chorar.

#07 "Pequena Miss Sunshine" (2006) de Valerie Faris e J. Dayton 
Outro papel muito querido de Toni foi neste filme ganhador de dois Oscars, em que ela vive a mãe de uma família que faz de tudo para não ir ladeira abaixo - mas este lado mais dramático serve de pano de fundo quando a filha adorável que resolve participar de um concurso de beleza infantil. 

A atriz tem uma participação pequena marcante neste premiado filme. Ela vive Kitty, a vizinha de Laura Brown (Julianne Moore), e que após uma conversa simples acarreta uma das maiores revelações do filme. Em poucos minutos a personagem se torna fundamental para a trama. 

Toni vive a mãe de Nicholas Hoult quando ele era apenas um menino nesta comédia sobre o egocêntrico Will (Hugh Grant), marmanjo que aprende que ele está longe de ser uma ilha. A atriz é Fiona, a riponga deprimida que não vê com bons olhos a amizade do filho com este mal exemplo...  

#04 "Em Seu Lugar" (2005) de Curtis Hanson 
Rose (Toni) e Maggie (Cameron Diaz) são duas irmãs completamente diferentes - e com um relacionamento desastroso! Esta dramédia merecia ter feito mais sucesso quando foi lançada, Toni e Cameron estão ótimas em cena e o roteiro trata assuntos sérios com uma leveza inspiradora. 

#03 "O Sexto Sentido" (1999) de M. Night Shyamalan
Pelo filme ela foi lembrada em várias premiações, incluindo o Oscar - que a indicou a melhor atriz coadjuvante como a mãe do menino que vê gente morta. É a primeira e única indicação de Toni ao Oscar até agora - e tem um dos momentos mais marcantes de sua carreira (a antológica cena do carro).

#02 "O Casamento de Muriel" (1994) de P.J. Hogan
Clássico do cinema australiano (acho que vi umas sete vezes... mas já perdi a conta) - esta deliciosa comédia embalada pelas canções do Abba, conta a história de Muriel (Toni), garota com problemas de auto-estima que muda de vida ao  reencontrar uma velha amiga (Rachel Griffith) e... veja o filme!

#01 "Hereditário" (2018) de Ari Aster 
A crítica especializada é unânime em dizer que esta é a melhor atuação dela. No papel da mulher que descobre segredos de família que podem destruir tudo o que ela mais ama, a atriz transita por várias emoções e mistura horror com drama familiar. Será que o Oscar lembrará dela novamente? Esperamos que sim!

Na Tela: Hereditário

Wolff, Byrne, Toni e Milly: segredos de família.

Ouvi alguns críticos dizendo que passaram mal diante de Hereditário, longa de estreia de Ari Aster sobre uma família cheia de segredos revelados após o enterro da vovó. Durante o funeral não existem lágrimas, apenas o discurso um tanto ressentido de Annie (Toni Collette, num trabalho espetacular), a filha da falecida que já deixa claro que a mãe não era uma pessoa fácil. A serenidade de Steve (Gabriel Byrne) não revela incômodo com a perda da sogra, o filho adolescente, Peter (Alex Wolff, o irmão melhor ator de Natt Wolff do recente Death Note/2017) está zero comovido com o falecimento, restando apenas à caçula, Charlie (Milly Shapiro) lamentar a perda. Não demora muito para perceber que Charlie é uma menina estranha. Com conversas e gosto um tanto mórbido, ela ainda tem a mania de fazer um barulho que irá marcar os ouvidos de quem se aventurar pelo filme. Há algo de sombrio no ar desde que a casa é apresentada como uma das miniaturas criadas por Annie (Toni Collette), como se todos fossem pequenos diante de algo muito maior e frágeis perante o que irá devastá-los para sempre. Annie mal se recupera de uma perda e outra tragédia acontece, mas dessa vez existe muito choro e o abalo definitivo na relação entre mãe e filho, restando a Steve a desconfortável tarefa de tentar manter algum equilíbrio naquela casa. Diálogos ásperos surgem alimentados por revelações e ressentimentos que só pioram quando o passado da vovó começa a se revelar no roteiro (do próprio diretor) que mistura drama familiar com horror sobrenatural (e Aster ainda alimenta o folclore  em torno do filme afirmando que se inspirou em sua família para criar a história). O cineasta alcança um resultado que cresce gradativamente em angústia, mas não vale revelar muito sob o risco de de estragar a experiência. O tom é pausado, a atmosfera é de pesadelo e a fotografia faz questão de sublimar cada susto desconfortável que o filme constrói - especialmente com a ajuda de Toni Collette que está magnífica em cena. Ela constrói uma mulher cada vez mais desesperada com o peso de pagar pelas dívidas da mãe - o pior é que a dívida inclui toda a família. Alex Wolff também está bastante convincente e o veterano Gabriel Byrne está discreto, mas na medida para alguém que descobre ter se metido numa relação familiar complicada, mas o outro grande destaque do filme fica mesmo por conta de Milly Shapiro que cria uma menina arrepiante sem precisar fazer muita coisa em cena. Se você ficar desconfortável no meio do filme, você nem imagina o que acontece no final imprevisível, onde o drama cede lugar ao horror de sua estranheza sinistra - que rende comparações do filme aos clássicos O Exorcista (1973), O Bebê de Rosemary (1968) e o recente A Bruxa (2016). Ari Aster demonstra talento de veterano, especialmente lapidado nos seus curtas que chegaram a gerar polêmica por conta de explorar histórias familiares estranhas, mesmo sem apelar para o sobrenatural. O diabólico Hereditário já é considerado o melhor terror do ano, lugar que antes era ocupado por Um Lugar Silencioso e que ainda pode ser ocupado por Mandy (longa de Panos Cosmatos a ser lançado no segundo semestre). Como podemos perceber, 2018 confirma que os filmes de terror voltaram a ficar interessantes (e a campanha para Toni Collette concorrer ao Oscar está grande). 

Hereditário (Hereditary/EUA-2018) de Ari Aster com Toni Collette, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd, Morgan Lund e Jake Brown. ☻☻

quinta-feira, 21 de junho de 2018

PL►Y: Outside In

Eddie e Jay: atuações memoráveis. 

Lynn Shelton é uma das diretoras independentes mais ativas do cinema americano. Além de fazer cinema, ela também é convidada para trabalhos em várias séries (já dirigiu episódios para New Girl, Mad Men, Master of None, GLOW, Love, Shameless...), arrisco que seu maior talento é a capacidade de gerar atuações bastante espontâneas do seu elenco. Ainda que alguns possam considerar a sua obra irregular (nem sempre seus filmes alcançam o resultado desejado na tela), Lynn é uma cineasta que merece atenção. Basta ver o que ela faz neste Outside In, que surpreende pela habilidade com que se distancia do humor presente na maioria dos filmes da diretora e constrói um drama envolvente sobre dois personagens em momentos bem diferentes de suas vidas. Chris (Jay Duplass, em sua melhor atuação) é um rapaz que está em condicional após vinte anos na prisão. Ao invés de entregar logo a história do personagem, o filme prefere dar pistas sobre com ele, assim surge um desentendimento com a família aqui, uma lembrança ali, um visitante indesejado... o fato é que desde a primeira cena em que aparece sabemos que o rapaz é inofensivo e parece bem mais deslocado do que ameaçador. Existe um desconforto palpável, uma verdadeira inadequação no retorno à cidade onde cresceu e nem ele sabe explicar direito - some isso à dificuldade para arranjar emprego, o relacionamento fragilizado com o irmão (Ben Schwartz) e a desconfortável inércia em que se sua vida se encontra e você entenderá sua aproximação cada vez maior com Carol (a sempre ótima Edie Falco). Carol foi professora de Christopher e se correspondeu com ele durante os anos em que ficou na prisão. Por quase vinte anos, ela foi a única pessoa que se correspondeu com ele e este fato construiu um laço vigoroso entre os dois... na verdade Chris está apaixonado por Carol, mas ela está presa a um casamento que já perdeu a graça faz tempo e tem uma filha adolescente (Kaitlyn Dever), que está cada vez mais distante. Jay e Edie realizam aqui um belíssimo trabalho em defesa de seus personagens, a cada instante o casal ressalta o que está em jogo na vida dos dois personagens, sem que precisem necessariamente expressar isso em diálogos. Edie Falco (que ficou mundialmente conhecida como Carmela, a esposa exemplar de mafioso em Família Soprano) está ótima em cada cena, revelando não apenas a vaidade esquecida de ser desejada (e este ainda é algumas décadas mais jovem que ela), mas especialmente, como ela pode ser mais determinada do que imaginava. Seu parceiro de cena, Jay Duplass (irmão do mais conhecido Mark Duplass) também está irresistível em cena, tornando fácil torcer para que tudo se acerte na vida deste homem de destino um tanto atrapalhado. Diante do trabalho dos atores, não há como esquecer o talento de Lynn  Shelton, utilizando a espontaneidade de sua direção para sensibilizar a plateia diante do romance de uma "aultera" e um "ex-presidiário", dois estigmas que são tratados com grande sensibilidade pelo roteiro. assinado por ela e Jay.  O único problema do filme está no desfecho, que destoa do anúncio de um arremate bem mais romântico para a história do casal,  no entanto, Shelton e Jay sempre penderam mais para o realismo do que para o romantismo em suas carreiras, mas nada impede que a mente do espectador crie novos encontros para Chris e Carol após o término deste ótimo filme em cartaz na Netflix.

Outside In (EUA/2018) de Lynn Shelton, com Edie Falco, Jay Duplass, Ben Schwartz, Kaitlyn Dever e Aaron Blakely. ☻☻☻☻

terça-feira, 19 de junho de 2018

MTV Movie & TV Awards - 2018


Chadwick Boseman: consagração do ano. 

Houve um tempo em que o MTV - Movie Awards andava cansado. Sua própria identidade irreverente estava um tanto perdida, sem a energia que se espera da premiação mais animada do cinema - e mais ainda, capaz de destacar artistas que ganhariam Oscars nos anos seguintes (Marisa Tomei, George Clooney, Sandra Bullock, souberam como usar a premiação sabiamente como termômetro de suas carreiras iniciantes na telona). Ano passado, a premiação inovou e foi reformulada para destacar produções do cinema e da televisão, aboliu categorias por gênero (não existe mais melhor ator ou atriz, apenas melhor atuação) e mesclou filmes e séries numa mesma categoria. Passado o estranhamento do primeiro ano, o MTV Movie & TV Awards mostra que o antigo Movie transcendeu o formato das premiações tradicionais e redefiniu o seu público, cada vez mais atento ao que se passa na telinha. O resultado foi visto ontem com apresentação de Tiffany Haddish (a revelação do filme Girls Trip, que estreia quando por aqui, alguém pode me dizer?) e consagrou o hit Pantera Negra como o mais premiado da noite! Entre heróis (não apenas da ficção) e séries de TV, ainda houve espaço para  aqueles momentos em que a premiação se cruza com o Oscar (caso das indicações de Saoirse Ronan e Timothée Chalamet) e revela que entende das coisas ao seu modo. A seguir todos os indicados, com os premiados em destaque:

Melhor Filme
Girls Trip

Melhor Performance em um Filme

Melhor Série de TV
13 Reasons Why
Game of Thrones
Grown-ish
Riverdale
Stranger Things

Melhor Performance em uma Série de TV
Millie Bobby Brown – Stranger Things
Darren Criss – O Assassinato de Gianni Versace
Katherine Langford – 13 Reasons Why
Issa Rae – Insecure
Maisie Williams – Game of Thrones

Melhor Herói
Emilia Clarke (Daenerys Targaryen) – Game of Thrones
Grant Gustin (Flash) – The Flash

Melhor Vilão
Michael B. Jordan (Killmonger) – Pantera Negra
Aubrey Plaza – Legion

Melhor Beijo
Gina Rodriguez e Justin Baldoni – Jane the Virgin
Nick Robinson e Keiynan Lonsdale – Com Amor, Simon
KJ Apa e Camila Mendes – Riverdale
Finn Wolfhard e Millie Bobby Brown – Stranger Things2

Performance Assustada
Talitha Bateman – Annabelle 2: A Criação do Mal
Noah Schnapp – Stranger Things2

Melhor Equipe
Jumanji: Bem-vindo à Selva
Stranger Things2

Melhor Performance de Comédia
Jack Black - Jumanji: Bem-vindo à Selva
Tiffany Haddish – Girls Trip
Dan Levy – Schitt’s Creek
Kate McKinnon – SNL
Amy Schumer – I Feel Pretty

Melhor Roubada de Cena
Tiffany Haddish – Girls Trip
Dacre Montgomery – Stranger Things2
Madelaine Petsch – Riverdale

Melhor Luta