domingo, 19 de novembro de 2017

Na Tela: Liga da Justiça

A Liga: tentando colocar o universo DC nos eixos. 

Depois de uma produção bastante conturbada finalmente chegou aos cinemas um dos filmes mais esperados de todos os tempos. Faz tempo que os fãs sonhavam com um filme da Liga da Justiça reunindo os maiores heróis da DC Comics e, conforme o tempo demonstrou, lidar com tanta expectativa está longe de ser algo fácil - e diante dos novos parâmetros demarcados pela Marvel nos cinemas a coisa piorou bastante. Depois que os filmes de Homem de Ferro & Cia se mostraram interligados, a Warner (detentora dos direitos da DC nos cinemas) sentiu a pressão de fazer o mesmo com os heróis que tinha em mãos. O efeito foi sentido na continuação de Homem de Aço (2013), que foi mexido o suficiente para abrigar Batman e se tornar o controverso Batman Vs. Superman (2016). O filme de Zach Snyder foi o ponto de partida para a construção de um universo unificado da DC nos cinemas, no entanto, o gosto de que essa ideia foi feita às pressas era indisfarçável. De início a Warner não tinha a mínima intenção de criar algo assim, preferindo contratar diretores com visões particulares sobre os personagens e deixar que as produções seguissem de forma independente. Com o sucesso de Vingadores (2012) eles perceberam que talvez pudessem repensar a estratégia (embora ainda não houvessem amadurecido o suficiente o universo que queriam construir). Se as interferências eram vivíveis no confronto do Homem-Morcego com o Superman, a coisa ficou muito pior com Esquadrão Suicida (2016) que deixou de ser o filme sombrio que se anunciava para se tornar uma espécie de quebra-cabeça de ideias mal trabalha. Mulher-Maravilha (2017) também sofreu intervenções, mas Patti Jenkins foi esperta o suficiente para criar uma unidade no filme que se tornou sucesso de público e crítica, se tornando o filme mais bem sucedido deste universo até o momento. Ao que parece, Liga da Justiça também foi mexido, principalmente depois que Zach Snyder precisou se afastar da produção devido à uma tragédia familiar. O destino abriu espaço para as intervenções de Joss Whedon, diretor de... Os Vingadores na produção - e outros problemas surgiram. Dizem que Whedon mexeu em 20% do filme e enfrentou também sua cota de desafios: inserir mais humor (e aposto que consegui identificar cada cena gerada por Whedon), cortar Darkside, cortar Lex Luthor, cortar namorada de Flash, cortar, cortar, cortar (incluindo o bigode involuntário do Superman Henry Cavill protegido em causa contratual de outro filme). Portanto, quando você for ao cinema, fique sabendo que o filme é bem diferente de como ele foi pensado, mas, ainda assim, ele funciona,. Não é uma obra-prima, mas funciona. 


Depois de Batman Vs. Superman ficou claro que o mundo estava prestes a viver ameaças bem diferentes do que Batman (Ben Affleck) estava acostumado a enfrentar. Pela primeira vez, o herói sem super-poderes se deparava com um universo habitado por alienígenas e deuses. Era de se esperar que a ameça agora parecesse mais um demônio do que um vilão humano. A ameaça agora é encarnada por Lobo da Estepe (voz de Ciarán Hinds), que procura as três caixas maternas para transformar o mundo em seu reino. Seguido pelos parademônios (derrotados transformados em criaturas sombrias que se alimentam de medo), Batman e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) precisam encontrar aliados para derrotar este inimigo. Cabe a eles convencerem Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher) a formarem um grupo que tem grandes chances de falhar em seu desafio. Como todo filme de equipe, os personagens precisam de tempo para aceitar a proposta, existem algumas picuinhas, alfinetadas... mas os heróis logo se entendem e (o mais importante) funcionam como time. A boa dinâmica entre os atores é um dos grandes pontos positivos do filme - o que nos faz até esquecer como a concepção de Aquaman é confusa e que nem todas as piadas do Flash são dignas de riso. É visível o desafio que Chris Terrio (oscarizado pelo roteiro de Argo/2012) enfrentou para costurar a história e seus vários personagens, precisando ainda dar conta do retorno de um dos membros fundadores da Liga,  o Superman (Henry Cavill). Quem acompanha histórias em quadrinhos ficará bravo em como o filme faz algumas promessas e as deixa pelo meio do caminho, mas a maioria do público irá gostar de ver os heróis juntos na tela e ficará empolgada com as cenas de ação. Porém, isso não quer dizer que Lobo da Estepe não seja um dos pontos fracos do filme (mas para os demônios talvez o poder pelo poder já satisfaça, sem maiores problematizações) e que exista muita coisa para ser resolvida em duas horas de exibição (lembro quando a Warner achou o filme muito longo e mandou cortar, cortar, cortar...). No fim das contas o filme é puro entretenimento despretensioso. Você ainda percebe a insegurança do estúdio em bancar suas escolhas, mas, não há problema em ser sombrio ou não ter piadas a cada cinco minutos, o problema é não bancar as ideias que resolveram colocar em prática. Sorte que Liga da Justiça é a prova que mesmo em meio ao caos, os heróis podem salvar o filme - principalmente com os atores certos no lugar exato.  Gal Gadot está cada vez melhor como Mulher Maravilha e até Ben Affleck surpreende como Batman. Embora tenha aqui uma versão menos soturna, Affleck está cada vez mais convincente como Bruce Wayne e seu alter-ego das trevas (o que só me faz lamentar que não veremos suas ideias para The Batman na telona em breve). Algo me diz que Liga da Justiça 2 será ainda melhor.  

Gadot e Affleck: heróis convincentes. 

Liga da Justiça (Justice League/EUA-2017) de Zach Snyder de Ben Affleck, Gal Gadot, Henry Cavill, Ezra Miller, Amy Adams, Ray Fisher, Diane Lane, Jason Momoa, Jeremy Irons, Connie Nielsen e J.K. Simmons. ☻☻

PL►Y: Byzantium

Gemma: vampira perseguida por séculos. 

Lembro de ter ficado bastante curioso quando descobri sobre a produção deste filme, estrelado por Saoirse Ronan e Gemma Arterton e dirigido por Neil Jordan. O filme marcava o retorno do cineasta ao território vampiresco que lhe rendeu o maior sucesso comercial de sua carreira (Entrevista com o Vampiro/1994), pena que o resultado de Byzantium seja tão irregular. O filme retrata uma dupla de vampiras que são mãe (Gemma) e filha (Ronan) que vivem na Inglaterra se escondendo de uns sujeitos estranhos que querem acabar com as duas. A mãe se chama Clara e se prostitui pelas ruas para manter o sustento de Eleanor, sua filha adolescente. As duas, de vez em quando, enfrentam conflitos vivendo no anonimato e tendo seus perseguidores cada vez mais próximos. As personagens tem a sorte de encontrar com o bondoso Noel (Daniel Mays), solitário herdeiro de um antigo hotel chamado Byzantium e que abrigará as duas. No entanto, não espere profundidade no relacionamento amoroso que se instaura entre Noel e Clara, tão pouco um desenvolvimento minimamente interessante do hotel - que em breve se tornará um bordel. O problema do filme é que nada recebe qualquer profundidade e a atuação de Gemma Arterton cheia de caras e bocas também não ajuda. Sua performance como mãe zelosa é tão rasa que fica até difícil torcer por ela, parecendo apenas mais uma mãe chata de adolescente. A coisa também não melhora quando o filme se enrola nas cenas de flashback que contam como as duas personagens se tornaram vampiras. A origem da história acontece no século XIX e envolve dois cavalheiros (Sam Rilley e Johnny Lee Miller) que disputavam o coração de Clara. Nada disso chega a ser envolvente, a história entre passado e presente se desenvolve de forma desengonçada e a melhor parte fica por conta da vampira adolescente vivida por Saoirse Ronan, afinal ela vive uma pessoa com centenas de anos presa ao corpo de uma adolescente com direito até a um romance com o esquisito Frank (Caleb Landry Jones), que desde o início percebemos que será problemático. Sendo assim, só metade do filme funciona - e aquela parte próxima do final (que se torna uma grande gritaria) pode causar risos involuntários em sua necessidade de ser uma cena de ação eficiente. Byzantium é um filme que destoa da obra de Neil Jordan, o motivo deve ser o fato de ter sido feito por encomenda pelo estúdio ter os direitos da peça de Moira Buffini. O filme não funciona por apelar para o exagero e o melodrama a cada cinco minutos, deixando a impressão que se houvesse apostado no tom intimista o resultado talvez fizesse jus a história de duas mulheres que atravessaram séculos perseguidas por desrespeitarem as regras de um grupo visivelmente dominado por homens.

Byzantium (Reino Unido - Estados Unidos - Irlanda / 2012) de Neil Jordan com Gemma Arterton, Saoirse Ronan, Sam Reily, Caleb Landry Jones, Johnny Lee Miller, Warren Brown, Daniel Mays, Tom Hollander e  Maria Doyle Kennedy. ☻☻

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PL►Y: Animais Fantásticos e Onde Habitam

Scamander (Eddie Redmayne) e seus amigos: de volta ao mundo de Harry Potter. 

Com o fim da saga Harry Potter não foram apenas os fãs que ficaram tristes, o estúdio também - já que aposentou uma de suas franquias mais famosas e rentáveis. Entre 2001 e 2011 foram lançados os  oito filmes do famoso bruxinho e ao longo do tempo a história amadureceu, acompanhando o crescimento de seu público. Não por coincidência, em 2001 foi lançado o livro Animais Fantásticos e Onde Habitam pela mesma J.K. Rowling sob o pseudônimo de Newt Sacamander. O livro era leitura obrigatória dos alunos de Hogwarts (e a capa da primeira edição vinha até com o selo de propriedade de Harry Potter e anotações no pé de página como se fosse realmente um livro escolar). Se tratava de um guia sobre animais que habitavam aquele universo, ou seja, não havia trama para um filme ao longo de suas páginas. Eis que no ano passado, os fãs foram brindados com a adaptação deste livro, com roteiro da própria escritora e direção de David Yates (o mesmo responsável pelos últimos filmes da saga Potter) utilizando referências daquele livro. O protagonista da história é o próprio Newt Scamander (vivido por Eddie Redmayne), amante das criaturas mágicas e ex-aluno de Hogwarts - sendo expulso por colocar em risco a vida de várias pessoas devido a um acidente. Newt cresceu e teve como profissão viajar o mundo para procurar, estudar e escrever sobre os animais que dão título ao seu guia. A história do filme se passa na década de 1920, numa visita de Newt à Nova York antes de voltar para a Inglaterra e a fuga de uma de suas criaturas marca o início da história. Ambientado 70 anos antes da saga dos livros que o precederam, o roteiro tem a bela ideia de mostrar o universo bruxo dos Estados Unidos, com suas gírias (na Terra do Tio Sam os trouxas são chamados de Nãomaj) e leis próprias (como a de um bruxo não poder casar com um trouxa), além disso mescla a tensão gerada pela presença de uma criatura que assombra a cidade e o efeito sobre um grupo de conservadores que denunciam a presença de bruxos na sociedade (não por acaso este grupo vem da Nova Salém), este cenário faz com que Scamander precise ser o mais discreto e rápido possível a encontrar as criaturas que escaparam de sua maleta. Com a ambientação correta (valorizada pelo bom trabalho de figurino), Rowling também se beneficia de colocar personagens interessantes em torno do protagonista e, curiosamente, os mocinhos são bem mais interessantes que os vilões. Em sua missão, Scamander contará com o forte candidato à trouxa favorito do universo de Rowling, afinal, o padeiro Jacob (Dan Fogler) é bastante simpático e se apaixona por uma das irmãs bruxas - Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol) - que ajudam a formar um grupo de heróis bastante eficiente. Se os efeitos especiais impressionam, os vilões mereciam um pouco mais de atenção. A concepção dos personagens de Ezra Miller e Collin Firth é mais confusa do que intrigante, deixando Samantha Morton com a tarefa de arregalar os olhos e ser a mais assustadora sem precisar utilizar mágica para isso. O filme tem a vantagem de manter o tom dos últimos filmes baseados no universo da escritora, mantendo a atmosfera sombria e bom humor sem exageros. Animais Fantásticos e Onde Habitam funciona bem durante a sua duração, sendo um bom passatempo e um acerto que deve render continuações para saciar a saudades dos fãs e do estúdio. 

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them / Reino Unido - Estados Unidos / 2016) de David Yates com Eddie Remayne, Colin Farrell, Dan Fogler, Katherine Waterston, Alison Sudol, Ezra Miller, Samantha Morton, Carmen Ejogo, Dan Hedaya e Jon Voight. ☻☻☻

Na Tela: Bom Comportamento

Pattinson: ator de respeito!

Embora a imprensa alardeasse que Robert Pattinson poderia levar o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por seu trabalho em Bom Comportamento, não percebi grande surpresa da mídia ou do público diante da afirmativa. O motivo é bem simples, nos últimos anos o galã juvenil da saga Crepúsculo (terminada em 2012) realmente se tornou um ator a ser respeitado. Sua receita foi ousada, já que se afastou de todos os papéis que remetessem ao papel que o tornou famoso. Fugindo de comédias românticas como quem foge da cruz, Pattinson trabalhou em produções indies com diretores conhecidos por trabalhos radicais. Na guinada de sua carreira, as parcerias com o canadense David Cronenberg foram primordiais, já que Cosmópolis/2012 e Mapas Para as Estrelas/2014 foram importantes para mostrar às fãs adolescentes que o caminho do moço era outro. Depois dos elogios já conquistados por The Rover (2014) e Z- A Cidade Perdida (2017), Pattinson encara desta vez o desafio de encarnar outro personagem marcante neste drama marginal dos irmãos Safdie. Benny e Josh Safdie estão em ascensão no cinema americano e parte disso é por conta dos elogios recebidos por Amor, Drogas e Nova York/2014 (um verdadeiro exercício de paciência sobre a jornada autodestrutiva de uma jovem autodestrutiva). A dupla apresenta um estilo realista com muitos, planos fechados e cenas bastante cruas, sem compromisso com a glamourização da história. Mergulhar num universo assim rendeu uma atuação marcante para Pattinson na pele de Connie Nikas, um ladrão que tem o dia mais agitado de sua vida após assaltar um banco. Para Connie e o irmão, Nick (Benny Safdie) tudo começa a dar errado já na fuga (antes mesmo dos créditos apareceram), rendendo a prisão de Nick - um rapaz que visivelmente tem comprometimentos mentais. A partir daí, Nick precisa conseguir o dinheiro para pagar a fiança do irmão, mas uma sucessão de acontecimentos imprevisíveis comprometem seu objetivo - seja envolvendo sua namorada (Jennifer Jason Leigh) ou os desconhecidos que atravessam o seu caminho (destaque para Buddy Duress, que se transforma no seu parceiro involuntário). Os irmãos diretores demonstram maior segurança na condução da história, mantendo sempre um ritmo urgente e um trabalho interessante com cores e sombras durante a desesperada jornada do protagonista. O roteiro também é bastante convincente na sucessão de complicações em que o personagem se mete, mas de nada serviria se não contasse com a segurança de Pattinson ao encarnar um personagem complicado. Embora Connie esteja mais preocupado em libertar o irmão do que com qualquer outra coisa, seu personagem tem tantas atitudes equivocadas que surpreende como Pattinson desaparece no personagem, ao ponto de eu não conseguir cogitar melhor escolha para o papel. Connie está no extremo oposto de tudo que o seu vampiro romântico representava para o cinema no início da década, de forma que até a polêmica cena em que seduz uma adolescente de 16 anos parece uma provocação de como o astro cresceu e não é mais o ídolo juvenil de outrora (pois é, ele já tem 31 anos). Mudar a carreira de forma tão radical em cinco anos não é tarefa para qualquer um. 

Bom Comportamento (Good Time/EUA-2017) de Benny e Josh Safdie com Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster e Barkhad Abdi. ☻☻☻☻

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

APOSTAS PARA O OSCAR 2018-CAPÍTULO III

"Mudbound" de Dee Rees
Dois homens retornam para casa na zona rural do Mississipi após a Segunda Guerra Mundial e precisam lidar com o racismo sufocante da região. Esta é a história do elogiado drama da cineasta Dee Rees, que já se consagrou em vários festivais e se prepara para chegar ao Oscar! O que pode atrapalhar sua campanha é o fato de ser produzido pela Netflix e a Academia ainda tem o pé atrás com filmes produzidos diretamente para o serviço de streaming

"The Post" de Steven Spielberg 
Todo filme assinado por Steven Spielberg tem fortes chances de aparecer no Oscar - embora os últimos tenham saído de mãos abanando. Desta vez o diretor aborda os bastidores de dois grandes jornais americanos que tiveram acesso a documentos do pentágono sobre o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã, Spielberg pode fazer bonito perante a Academia mais uma vez. O elenco também conta com Tom Hanks, Meryl Streep, Sarah Paulson, Carrie Coon e Matthew Rhys .

"Breathe" de Andy Serkis
Dramas envolvendo pessoas com deficiência sempre chamam atenção da Academia, por conta disso, Andrew Garfield pode ser indicado novamente ao prêmio de melhor ator pelo papel de Robin Cavendish, que vítima de pólio fugiu com sua amada (vivida por Claire Foy) para viver idilicamente por algum tempo. O filme marca a estreia na direção de Andy Serkis e conta com uma história real de superação para comover o púbico e os votantes da Academia. 

"Three Billboards Outside Ebbing, Missouri" de Martin McDonagh
Frances McDormand tem um Oscar de melhor atriz na estante e outras três indicações na categoria de coadjuvante. O diretor McDonagh tem um Oscar de curta-metragem e uma indicação ao prêmio de roteiro. Juntando os dois o resultado é a história de uma mulher que desafia as autoridades para desvendar a morte da filha - tudo temperado com o humor negro do diretor e da atriz que fez escola nos filmes dos irmãos Coen. 

"The Florida Project" de Sean Baker 
O diretor de Tangerine/2015 explora o cotidiano dos humildes moradores de um hotel nos arredores do parque da Disney na Flórida. Neste mundo às margens da fantasia, a dureza é aliviada pelas fantasias de uma menina (Brooklynn Prince) que vive com a mãe naquele lugar e divide as brincadeiras com outras crianças da região. Aclamado pelos contrastes que revela, o único rosto famoso do elenco é Willem Dafoe numa atuação inesquecível. 

Na Tela: Terra Selvagem

Jeremy e Elizabeth: ótimas atuações. 

Taylor Sheridan começou a carreira como ator em programas de televisão (você deve lembrar dele na série Sons of Anarchy) e engatou uma bem sucedida carreira como roteirista com o elogiado Sicario (2015) de Denis Villeneuve. Neste ano, Taylor foi lembrado no Oscar de Roteiro Original pelo seu belo trabalho em A Qualquer Custo (2016), filme que vira do avesso as convenções do faroeste para a plateia do século XXI. Sheridan ficou tão animado com os rumos de sua carreira que resolveu dirigir seu primeiro filme autoral (vale lembrar que ele dirigiu o terror Vile/2011, mas foi um típico trabalho encomendado para um estúdio, bem longe do seu estilo atual). Terra Selvagem recebeu o prêmio da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, além de vários elogios ao estrear nos Estados Unidos, chegando a ser cotado para o Oscar2018. A trama aborda as investigações em torno do assassinato de uma jovem nativa americana no estado de Wyoming, mais precisamente nas proximidades do Rio Wind, famoso por atravessar uma reserva indígena da região. Ao encontrarem o corpo descalço na neve, as autoridades locais suspeitam que seja um caso de estupro seguido de morte. Começa então a investigação que se torna uma questão pessoal para o guarda florestal Cory Lambert (Jeremy Renner), que passa a ajudar uma novata agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen) a desvendar o caso. Mais uma vez Sheridan vira do avesso as convenções de um gênero, não fazendo questão de emular suspense sobre quem foi o agressor, ou embaralhar as investigações, preferindo seguir pontos específicos demarcados por suspeitas que aparecem desde o início - e ainda assim, descobrir o que aconteceu pode ser surpreendente. O maior interesse de Sheridan é na construção dos personagens, especialmente de Cory que é assombrado por uma tragédia familiar do passado e rende o melhor momento de Renner em muito tempo. Já Elizabeth Olsen tem a tarefa de ser o alter-ego da plateia naquela terra desconhecida, com suas peculiaridades e um volume de testosterona bastante elevado - realmente não é por acaso o fato do filme contar um agente do FBI do sexo feminino e jovem, melhor ainda é perceber que a atriz dá conta de mais uma forte personagem feminina com desenvoltura. Outro destaque do elenco é Jon Bernthal,  que desfaz em poucos segundos qualquer imagem que você possa ter construído do personagem antes dele aparecer na história.  Sheridan desenvolve o filme sem pressa, aproveitando a sensação melancólica das paisagens cobertas de neve e usa um discreto verniz de como a natureza pode ser ameaçadora. É verdade que lhe falta um pouco de traquejo na direção, especialmente em guiar o processo de edição, mas ele tem bastante segurança em lidar com algumas cenas bastante complicadas, especialmente aquelas em que conta com a dinâmica entre vários atores para construir tensão. Ao final da sessão tudo fica mais doloroso quando descobrimos que todo ano, dezenas de jovens nativo- americanas desaparecem sem deixar vestígios nas reservas americanas. São estes desaparecimentos que fazem de Terra Selvagem um filme inspirado em fatos reais - e ainda mais assustador. 

Terra Selvagem (Wind River / Reino Unido - Canadá - EUA / 2017) de Taylor Sheridan com Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Grahan Greene, Joe Bernthal, Gil Birmingham e Julia Jones. ☻☻☻☻

domingo, 12 de novembro de 2017

§8^) Fac Simile: Taika Waititi

Taika David Waititi
Taika Waititi é o diretor neozelandês mais falado dos últimos tempos. Com pai maori e mãe russa, o ator, diretor, produtor e roteirista foi indicado ao Oscar melhor curta-metragem em 2004 com One Car, One Night e ganhou o mundo com a comédia O Que Fazemos nas Sombras (2014). Depois de ver seus filmes entre os mais falados em sua terra natal e conquistar uma vaga entre os votantes do Oscar no ano passado, Taika ganhou um ponto de mutação em sua carreira ao aceitar dirigir Thor: Ragnarok (2017), que já se tornou a maior bilheteria de uma aventura solo do Deus do Trovão. Entre as entrevistas de divulgação do filme, nosso repórter imaginário conseguiu esta entrevista (que nunca aconteceu) com o cineasta. 

§8^) De onde a Marvel tirou a ideia de você dirigir um filme de super herói?

Taika Eu não faço a mínima ideia! Este povo é completamente maluco! Que tipo de pessoa colocaria um sujeito feito eu para dirigir um apocalipse tendo deuses como protagonistas? Vai entender o que se passa na cabeça dessa gente!

§8^) Não acha que eles ficaram animados com o resultado de "O Que Fazemos nas Sombras"?

Taika Pode ser... mas O que fazemos nas sombras era um documentário sobre vampiros europeus que se escondiam na Nova Zelândia! Quando eles me ligaram eu pensei que eles queriam refilmar Blade – O Caçador de Vampiros com Eddie Murphy no papel principal... #sqn! De repente eles disseram que era sobre Thor Ragnarok, que era o fim de Asgard, com a deusa da morte, muitas mortes e tragédias... eu apenas disse: ‘tem certeza que vocês ligaram para o cara certo? Eu faço comédias de baixo orçamento’ e eles disseram ‘por isso mesmo’. Eu continuei sem entender coisa alguma. 

§8^) Mas você fez um belo trabalho! Muitos consideram o melhor filme de Thor nos cinemas! É colorido, animado e tem aquele clima irresistível de Matinê! Ao ver o filme tive a impressão de que você estava brincando com suas action figures favoritas...

Taika Muito obrigado. Talvez a ideia fosse esta mesmo! Uma criança que tinha seus poucos bonequinhos e ganhou milhões para gastar numa grande brincadeira, sorte que ela é criativa o suficiente para sustentar o interesse de várias pessoas ao redor do mundo. Gostei deste papo de action figures... usarei esta analogia nas próximas entrevistas!

§8^) E qual seria sua action figure favorita do filme?

Taika A Hela! Dá para imaginar você ter a Cate Blanchett, com aqueles galhos pontudos na cabeça, disposta a destruir um mundo inteiro? Uau! É realmente de arrepiar! Mas eu gosto muito do cara de pedra, o Korg - tanto que eu mesmo o interpreto no filme! Ah, gosto muito do Loki também. O Thor eu passei a gostar mais depois que ele cortou o cabelo, se bem que foi aquela cabeleira que me inspirou a usar muito Led Zeppelin na trilha. Eu olhei aquilo e pensei: “Robert Plant! Imigrant Song! Vai ser irado!”, as pessoas pensam que era por conta da música que fala de deuses e tal... mas eu escolhi pelo título mesmo! Eu sou neozelandês, Cat e Chrissy australianos, Tony e Dri são ingleses... pura geografia!

§8^) E os boatos de que você gostaria de dirigir um filme da Viúva Negra?

Taika Sim! Eu adoraria! Tenho ideias muito legais para o filme, mas terei que convencer muita gente de que poderia fazer funcionar. O que é muito engraçado já que eles me convenceram de que eu seria capaz de fazer Ragnarok e eu agora quero convencê-los a fazer um filme de espiões! Seria algo como os filmes de James Bond de antigamente, que eram bem mais divertidos que os atuais... e com a vantagem da protagonista ser a Bondgirl! Não tem como dar errado!

Taika e seu fã clube