quinta-feira, 19 de outubro de 2017

NªTV: Mindhunter

Holt e Groof: nos labirintos de mentes criminosas. 

O agente John Douglas se tornou pioneiro no FBI por buscar compreender o perfil de assassinos perigosos num tempo onde rotulá-los como loucos já bastava. Nos anos 1970 ele foi o primeiro a tentar entender a lógica por trás dos serial-killers - isto quando eles nem tinham este nome. Para desenvolver seu trabalho, Douglas esteve frente a frente com alguns dos assassinos mais assustadores dos Estados Unidos amparado não apenas pela curiosidade mas pelo foco na ciência comportamental. Douglas fez história e sua experiência foi retratada no livro Mindhunter que inspira esta série produzida por David Fincher. Logo no primeiro episódio fica evidente o que chamou atenção de Fincher para o material, conhecido por seus trabalhos em filmes como Se7en (1995) e Clube da Luta (1999), já que compartilha com o investigador o interesse por mentes, digamos, complicadas. Em cartaz no Netflix desde o dia 13 de outubro, a série (de dez episódios) é um grande acerto ao surpreender por se distanciar da grande maioria dos programas sobre investigação, uma vez que o centro de sua narrativa não é a morte ou a violência, mas o processo em que mergulha seus personagens. Já nos primeiros episódios, o uso de anticlímax deixa claro que a ideia de perseguir "o vilão da semana" ou desvendar "o crime do dia" não é o objetivo por aqui. Valorizando os personagens e os diálogos, Mindhunter demonstra como os protagonistas buscam entender melhor como funciona a mente de um criminoso capaz das maiores atrocidades. Neste ponto, a escolha de Jonathan Groof para viver o agente Holden Ford é excepcional, já que o ator o faz crescer diante da câmera, nos surpreendendo com as qualidades e defeitos do personagem. Trata-se de um belo trabalho do ator que já fizera as séries Glee (2009-2015) e Looking (2014-2015), mas que aqui tem seu trabalho mais notável.  Durante a série, o que vemos é um personagem que começa sendo um negociador de reféns em crise com o que enfrenta em serviço, insatisfeito ele passa a treinar novos profissionais até perceber que entre sua teoria e a prática existe um enorme abismo. Colabora muito para essa mudança de paradigmas seu namoro com uma estudante de Sociologia, Debbie (Hannah Gross) que o faz pensar em aspectos diferentes do trabalho. Ao lado de Ford em suas descobertas está o agente mais experiente Bill Tench (Holt McCallany) e a psicóloga Wendy Carr (Anna Torv da cultuada série Fringe) - que se juntará á equipe como consultora do FBI. Claro que de vez em quando o trio terá problemas entre si, com os meandros do FBI, com autoridades variadas e dilemas próprias da pesquisa que desenvolvem. Um ponto crucial para o andamento da trama são os encontros com versões dos mais assustadores assassinos da história dos Estados Unidos, neste campo obscuro, o destaque fica com Cameron Britton que causa arrepios ao encarnar Edmund Kemper, figura importantíssima no trabalho dos agentes. Com seu jeito desprovido de emoção, fala pausada e postura insuportavelmente controlada, ele funciona de excelente contraponto aos olhos expressivos do agente Holden, cada vez mais confiante e cheio de si perante suas descobertas. Com ótimo roteiro, atuações sólidas e uma estética que remete diretamente a Zodíaco (2007), David Fincher (que além de produtor, dirige quatro episódios da série) conseguiu uma das melhores estreias do ano  - e já aguardo a segunda temporada ansiosamente (enquanto ela não vem, já comprei o livro de Mark Olshaker e John Douglas para conhecer um pouco mais do que vem pela frente).

Torv: foco no método científico. 

Mindhunter (EUA-2017) de Joe Penhall com Jonathan Groof, Holt McCallany, Anna Torv, Hannah Gross, Cameron Britton e Joseph Cross. ☻☻☻☻

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PL►Y: Sala Verde

Anton (à direita) e sua banda: show de desespero. 

Jeremy Saulnier fez um dos melhores filmes independentes que assisti nos últimos anos, Blue Ruin (2014), onde com um orçamento minúsculo e uma competência narrativa inquestionável, ele prendia o fôlego da plateia numa jornada de vingança das mais dolorosas. Sem rostos conhecidos ou malabarismos estéticos, Blue Ruin foi indicados a vários prêmios indies e levou o prêmio da crítica no Festival de Cannes em 2014. Acho que nem ele esperava que quando lançasse seu filme seguinte, ele já receberia tanta atenção da imprensa internacional - que aclamou e colocou Sala Verde em várias listas de melhores do ano passado. No filme Saulnier demonstra mais uma vez sua capacidade de criar uma obra de tensão absurda, mas, desta vez, se aventura mais pelo terror sanguinolento do que pelo drama. O roteiro conta a história de uma banda punk nada famosa, formada por um grupo de amigos que faz shows em lugares que não primam pelo pagamento. Nessa rotina de glamour zero, eles não tem dinheiro nem para a gasolina (e eles nem estão no Brasil). O grupo formado por Pat (o finado Anton Yelchin), Reece (Joe Cole), Sam (Alia Shawcat) e Tiger (Callum Turner) acabam aceitando a proposta de fazer um show num bar afastado da cidade, no meio de um bosque... no meio do nada. Eles chegam lá sabendo que é uma espécie de point para skinheads, mas pela grana que irão receber eles preferem correr o risco. Depois de perceber que ninguém ali é muito amistoso, eles acabam presenciando um assassinato e são proibidos de sair dali. Trancados numa sala a maior parte do tempo, eles buscam uma forma de escapar da enrascada que se meteram, mas... as coisas se complicam cada vez mais quando eles descobrem que ali não é apenas um espaço para shows. Sala Verde revela seus segredos aos poucos e deixa o público de cabelo em pé com as atrocidades que acontecem ali dentro - que surpreendem justamente pela forma como  Saulnier mantem seu hábito de revirar subgêneros do avesso com seu estilo cru. Aqui a trama de adolescentes perseguidos por um bando de loucos se torna ainda mais arrepiante pelo suspense asfixiante construído pelo diretor. É impressionante como ele mantem o ritmo claustrofóbico da narrativa entre ambientes fechados, armas, facas, extintores, cães famintos e cadarços vermelhos.  Sala Verde não tem medo de ser brutal ou desagradável e revela uma certa obsessão de seu diretor por títulos envolvendo cores (que pode ser identificada em seu novo projeto "Hold the Dark" previsto para o ano que vem). Sala Verde é simplesmente arrepiante, mas, assim como Blue Ruin, não conseguiu espaço nos cinemas brasileiros. 

Sala Verde (Green Room/EUA-2016) de Jeremy Saulnier com Anton Yelchin, Patrick Stewart, Imogene Poots, Macon Blair, Alia Shawcat, Callum Turner, Joe Cole e David W. Thomson. ☻☻

PL►Y: Mundo Ordinário

Selma e Joe: casal Rock'n Roll aposentado. 

Billie Joe Armstrong ganhou fama mundial nos anos 1990 quando o Greenday lançou o famigerado álbum Dookie (que até hoje já vendeu mais de vinte milhões de cópias) - e colocou no mapa das gravadoras o chamado "punk melódico". Formado em 1987, o Greenday deve ser a banda mais bem sucedida entre todas as outras do gênero e, embora a banda nunca tenha interrompido os seus trabalhos, Billie Joe leva uma vida pessoal paralela ao mundo de shows e badalações - já que é casado desde 1992 com a produtora Adrienne Nesser, com quem tem dois filhos. O vocalista deve ter pensado em tudo isso quando foi convidado para viver seu primeiro protagonista no cinema neste Mundo Ordinário, segundo filme do diretor Lee Kirk. Billie vive Perry, homem que vive um hiato na carreira junto à banda punk que lhe rendeu alguma fama e passa os dias numa confortável casa no subúrbio americano, ao lado da esposa (Selma Blair) e o casal de filhos. No entanto, diante do aniversário de quarenta anos, ele atravessa uma espécie de crise de meia idade, já que sente falta da banda punk da qual fazia parte, das festas e todas as loucuras que ficaram para trás. Sendo assim, ele aproveita o dia do seu aniversário para lembrar dos velhos tempos, mas... nem ele havia percebido que tinha mudado tanto nos últimos tempos. Com pouca experiência como ator,  fez e Um Domingo de Chuva (2014) e interpretou a si mesmo em Bem-Vindo aos 40 (2012), Billie se contenta fazer uma versão em si mesmo diante da câmera. É verdade que ele tem lá o seu carisma, o que lhe proporciona um ar natural durante o filme, mas ele não consegue construir um personagem, mesmo que tente criar um tipo com os óculos, alguns fios brancos e auxiliado por sua estrutura física (baixa estatura, pernas curtas, ombros estreitos, o que lhe confere um jeito sempre jovial para um quarentão - e ele tem 45 anos na vida real). BJ escorrega na entonação da voz, apela para caretas em várias cenas e deixa a impressão de que é o ator mediano de uma sitcom água com açúcar. Ele também não precisa fazer muito mais do que isso, já que o roteiro não se aprofunda muito em algumas situações complicadas da vida do personagem (como o relacionamento profissional com o irmão vivido por Chris Messina ou o encontro com uma ex-namorada encarnada por Judy Greer) e lhe rende algumas cenas um tanto sem sentido (a cena derradeira do violão da filha, por exemplo). Os fãs não precisam se desesperar ou ficar ofendidos, Mundo Ordinário é apenas a prova de que Billie Joe quer mesmo ter uma carreira de ator e com um roteiro melhor e um diretor mais experiente pode até lapidar sua atuação nos próximos trabalhos. Para o clima de diversão despretensiosa presente no filme, o rapaz até que não está mal... agora, mudando de assunto, já repararam como a Selma Blair está cada vez mais bonita?

Mundo Ordinário (Ordinary World/EUA-2016) de Lee Kirk com Billie Joe Armstrong, Selma Blair , Chris Messina, Judy Greer e John Doman. ☻☻

domingo, 15 de outubro de 2017

Combo: Adam Sandler Sério

É comum um comediante se aventurar pela seara dos dramas para provar que é um ator a ser levado a sério. Adam Sandler de vez em quando faz isso e são nestes momentos em que percebo que ele talvez tenha salvação. Quem acompanha o blog sabe que o ator está longe de ser um dos meus artistas favoritos (na verdade ele nem é cogitado pela isso), mas não posso ignorar que ele já fez alguns bons trabalhos tanto em comédias quanto em papéis mais dramáticos. Esta lista é para lembrar que Sandler não é mais um comediante, mas um ator:

05 Homens, Mulheres e Filhos (2014) Sempre tenho a impressão que pouca gente entendeu o filme de Jason Reitman - ou será que seu olhar crítico sobre a sociedade americana resultou assustadora demais ao mostrar um grupo de personagens que passam mais tempo ligados em computadores, celulares e tablets do que nas pessoas que estão ao seu redor? Neste cenário que dispensa comentários, Sandler é o marido acima de qualquer suspeita que começa a se envolver com outras mulheres via sites de relacionamento. Pode se dizer que ele não faz nada demais neste filme, mas é justamente sua economia que evidencia ainda mais os conflito do personagem. 

04 Tá Rindo do Quê? (2009) Eu sei, eu sei, o filme de Judd Apatow não é bem um filme sério, na verdade é justamente quando tenta ser que as pessoas começam a reclamar dele, no entanto, deu a Sandler o desafio corajoso de voltar-se para a sua própria persona pública e lidar com todas as críticas que já recebeu. Some isso ao fato dele encarnar um comediante que começa a pensar na vida quando precisa lidar com uma doença fatal e a morte que você terá uma ideia que Sandler não estava para brincadeiras. O problema foi que Apatow acreditou tanto no que tinha em mãos que esqueceu de cortar tudo o que estava sobrando. 

03 Os Meyerowitz (2017) De vez em quando dá uma vontade de rir quando a imprensa vê Sandler num filme mais sério, com diretor badalado e começa a dizer que ele ganhará um prêmio concorrido de atuação. Foi assim quando este novo filme de Noah Baumbach estreou no Festival de Cannes, sinceramente, nunca imaginei que o júri iria premiar o moço pelo seu trabalho como o filho de pendores artísticos de um escultor que vive uma vida um tanto perdida ao lado da família. Sandler está bem em cena e encaixa perfeitamente no universo do diretor, oscilando entre o introspectivo e o desespero com bastante habilidade. Talvez ele seja indicado ao Globo de Ouro de ator de comédia/musical e acredito que já ficará feliz. 

02 Reine Sobre Mim (2007) Contar uma história de traumas sobre a queda das Torres Gêmeas apenas seis anos depois da tragédia não é tarefa para qualquer um. Sandler topou a proposta e encarnou Charlie Fineman, um sujeito comum que se reencontra com seu ex-colega de quarto dos tempos de faculdade (papel de Don Cheadle). Só que Charlie agora é uma pessoa marcada pela dor por perder a família no famigerado ataque em Nova York. O diretor Mike Binder não tem pulso para evitar o melodrama durante a sessão, mas consegue criar uma história bastante deprimente que gira em torno de uma atuação coerente de Sandler fora de sua zona de conforto.  

01 Embriagado de Amor (2002) Para o azar de Sandler ele foi o protagonista do filme mais odiado de Paul Thomas Anderson (embora o cineasta tenha recebido o prêmio de direção em Cannes), mas eu não ficaria surpreso se até o Oscar houesse lembrado dele pela atuação do homem comum, um tanto excêntrico que vive protegido pelas irmãs enquanto coleciona milhas aéreas para dar a volta no mundo. Sua vida parece melhorar quando ele se apaixona (por Emily Watson) e desanda quando se mete num grande problema com o cartão de crédito num site obscuro da internet. Sandler consegue dar conta de um personagem complexo e foi indicado ao Globo de Ouro por seu papel (na categoria de melhor ator de comédia/musical).

PL►Y: Os Meyerowitz - Família não se Escolhe

Grace, Ben, Adam e Marvel: ajustando os laços familiares.  

A Netflix provocou uma grande discussão no Festival de Cannes desse ano por conta de ter duas de suas produções originais entre os concorrentes à Palma de Ouro em Cannes. Houve tanta polêmica pelo fato de um dos seus filmes ganhar o mais prestigiado Festival do mundo que era inútil exaltar as qualidades dos filmes. Quando Okja entrou em cartaz na plataforma foi adorado por público e crítica, agora chegou a vez de The Meyerowitz Stories mostrar que pouco importa para a qualidade de um filme se ele é lançado na Netflix ou na sala de cinema. Dirigido por Noah Baumbach o filme repete vários aspectos da carreira do diretor que desde o sucesso de A Lula e A Baleia (2005) investe em analisar pessoas com pendores artísticos e que são, quase sempre, incompreendidos. Aqui ele reuniu um elenco invejável para formar a família de Harold Meyerowitz (Dustin Hoffman), artista plástico que se prepara para uma retrospectiva em sua carreira. Harold é atualmente casado com a riponga Maureen (Emma Thompson) e tem três filhos, o perdido Danny (Adam Sandler), a discretíssima Jean (Elizabeth Marvel) e o "meio irmão" Mathew (Ben Stiller). Não existe propriamente um fio condutor na história, mas um conjunto de situações que revelam aos poucos as relações daquela família. Assim descobrimos que Danny desistiu de ser músico (e encontra alguma realização com a filha aspirante a cineasta vivida por Grace Van Patten), que a relação de Mathew com o mundo ao seu redor não é das melhores (e as conversas com a esposa e o filho acontecem acidentadas através do celular), embora tenha tentado fazer tudo certinho na vida, além de Jean ser uma personagem bastante incomum (e Elizabeth Marvel a encarna de forma realmente surpreendente). Embora o trio de filhos tenha mais tempo em tela, tudo gira em torno do patriarca e seu relacionamento com os três e, neste ponto, foi uma sábia escolha ter Dustin Hoffman no papel, afinal, ele transita com leveza durante todas as situações do filme, seja um jantar, uma vernissage, uma troca de ternos e um problema de saúde. Por conta dele, nem mesmo os sustos que a família leva no meio do caminho torman o filme um dramalhão. Em termos de narrativa o diretor faz o de sempre, cria personagens curiosos, faz cortes bruscos (que às vezes acontecem no meio de uma palavra), faz gracinhas com os "muderninhos" e mantem o mesmo tom cômico despretensioso de quando começou a namorar Greta Gerwig (e sepultou de vez o pessimismo insuportável que lhe subiu a cabeça em Greenberg/2010). Assim, o resultado é tão interessante, quanto simpático! Bem distante do tom amargo do início de carreira do diretor. Para muita gente o destaque do filme é a atuação de Adam Sandler que de vez em quando mostra que tem salvação. No entanto, seu trabalho chama menos atenção do que a do grande Hoffman e de Marvel, que roubam a cena sempre que aparecem por perto. Desde Cannes os críticos apontam que o filme pode aparecer nas premiações do fim de ano, mas, sinceramente, acho que depois de tantos anos sendo esnobado, Baumbach não está nem aí para isso. Talvez por isso, seu estilo continue o mesmo. 

Os Meyerowitz - Família não se Escolhe (The Meyerowitz Stories: New and Selected/EUA-2017) de Noh Baumbach com Adam Sandler, Dustin Hoffman, Ben Stiller, Elizabeth Marvel, Emma Thompson, Grace Van Patten e Sigourney Weaver. ☻☻☻

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

FILMESD+: Blade Runner + Blade Runner 2049

Hauer e Ford: os replicantes como espelho da humanidade

Quando Ridley Scott lançou Blade Runner em 1982 ele não fez o sucesso esperado, sendo considerado até um fracasso de bilheteria. Adaptado da obra de Phillip K. Dick (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? lançado em 1968), Scott construiu um verdadeiro mundo banhado em atmosfera noir onde o caçador de replicantes Rick Deckard (Harrison Ford em atuação antológica) perseguia um grupo de andróides super desenvolvidos que fugiram do trabalho intergaláctico e voltaram para a Terra. Considerados rebeldes, o grupo liderado por Roy (Rutger Hauer) se recusava a passar toda a vida produtiva fazendo os serviços que a humanidade não queria fazer. Assim, nos deparamos com o drama existencial dos replicantes,  que com todo o potencial da inteligência artificial pereceriam em apenas quatro anos de existência. A partir dali, Blade Runner demonstrar que a criatura feita pelo homem enfrentava o mesmo dilema de caminhar sempre ao encontro da morte. Por isso mesmo, Roy e seus seguidores queriam estar face a face com o criador (do modelo Nexus 6 ) na esperança de que ele pudesse impedir o fim tão próximo, ou talvez, até lhes oferecer a imortalidade. Este aspecto tão humano da história é o que torna o filme interessante até hoje e alimenta diversas discussões filosóficas acaloradas. Para além da perseguição aos replicantes, Deckard se deparava com a atração que sentia por Rachel (Sean Young no papel de sua vida), que acredita ser humana, na verdade a sobrinha do criador dos replicantes, Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel). Rachel faz com que Deckard comece a questionar seu trabalho e perceba que os replicantes podem ter evoluído para além do que foram projetados. Scott faz algumas das cenas mais belas da ficção científica e cria personagens memoráveis, incluindo os replicantes mais inesquecíveis do cinema. Como esquecer a Pris de Daryl Hannah ou Zhora de Joanna Cassidy? Sem falar em Rachel, Roy e até mesmo Deckard que rendeu inúmeros boatos de que ele mesmo poderia ser um replicante. Scott sempre manteve vivo o desejo de fazer uma continuação, sobretudo depois que o filme se tornou cult com a ajuda das locadoras (nessas horas que cai a ficha que sou do século passado... e até a expressão cair a ficha não faz mais sentido algum), no entanto, não havia gostado de nenhum roteiro que tenha caído em suas mãos. Portanto, devemos agradecer à parceria do roteirista do filme original Hampton Fancher e Michael Green (que foi parceiro de Scott na repaginada de Alien) que escreveram a sequência mais aguardada das últimas três décadas - que ganha vida pelas lentes do canadense Dennis Villeneuve.

Joi e K: amor tecnológico de verdade?

O melhor de tudo desta sequência é a sensação de que sua história sempre esteve presente nas entrelinhas do primeiro filme, parecendo ter sido uma sequência planejada desde sempre. Aqui acompanhamos a história de K (Ryan Gosling), um Blade Runner que atua trinta anos após o desaparecimento de Deckard no primeiro filme. Ele é o responsável por investigar o paradeiro do veterano caçador e de Rachel, mas acaba descobrindo um segredo que pode mudar totalmente os rumos na produção de replicantes - que já estão ainda mais aprimorados e ainda existem outras tecnologias que garantem até um romance na vida de K, desta vez ainda mais fadado ao fracasso que o de Deckard e Rachel. Agora quem comanda a indústria de replicantes é o estanho  Niander Wallace (Jared Leto), que comprou a Tyrell Corporation e inovou ainda mais a tecnologia que encontrou. No entanto, ele quer algo ainda mais ambicioso, algo que acredita já ter sido desenvolvido por Tyrrell anteriormente, mas que se perdeu num desastre digital que apagou todos os dados eletrônicos em escala mundial. Dennis Villeneuve amplia todo o universo do filme de 1982 numa verdadeira homenagem à obra de Phillip K. Dick (reparou que o nome do protagonista vem do nome do meio do autor?) e de Scott. A amplia com tecnologias que tem nomes de sentimentos, hologramas ultra realistas e a sensação de que a humanidade parece mais perdida do que antes. Cria duas novas musas para este universo, Joi (Ana de Armas) e  Luv (Sylvia Hoecks), mostra que Dave Bautista pode ser mais do que mais um fortão engraçado em uma participação pungente e complexifica o trabalho de K ao máximo. Neste ponto, Ryan Gosling merece todos os elogios, já que torna seu personagem realmente comovente. Há de ressaltar ainda toda a estética do filme e parabenizar a coragem de Villeneuve em fazer um filme que contrasta ousadamente longos silêncios com sons ameaçadores, chegando a investir numa trilha que remete à clássica sonoridade composta por Vangelis, mas que se funde com os barulhos de naves, motores e explosões. A cena dos hologramas silenciosos no Cassino, com sonoridades fragmentadas alcança um efeito magnífico no encontro de Deckard com K. É brilhante ao evocar um mundo que não existe mais. É Nostálgico! Arrebatador! Mas ainda assim  nos damos conta de que o filme ainda tem mais a oferecer e Villeneuve provoca arrepios ao criar um (quase) reencontro dos mais lindos da história do cinema - para destruí-lo logo em seguida. Talvez neste universo não exista mais espaço para o amor, independente de quem esteja envolvido... ma, pensando bem, a última cena é exatamente o oposto disso! Blade Runner 2049 é a sequência que esperamos por mais de trinta anos e amplia ainda mais a crise de identidade de pessoas que não estão certas se são humanas e replicantes que não sabem se são humanos. Criadores e criaturas se misturam mais uma vez na telona e o resultado é a melhor ficção científica do ano - e com louvor!

Sean Young: guardando o maior segredo da Tyrell Corporation. 

Blade Runner (EUA - Hong Kong - Reino Unido /1982) de Ridley Scott com Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Daryl Hannah, Joanna Cassidy, Joe Turkell e Edward James Olmos. ☻☻☻

Blade Runner - 2049 (EUA - Reino Unido - Canadá / 2017) de Dennis Villeneuve com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoecks, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Edward James Olmos e Jared Leto. ☻☻☻☻☻

PL►Y: Nossas Noites

Fonda e Redford: reencontro apóes 28 anos. 

Jane Fonda e Robert Redford já fizeram vários filmes juntos e fazem parte de uma geração que revolucionou a forma como Hollywood fazia filmes. Influenciados pelo cinema europeu, ajudaram a politizar o que antes era apenas entretenimento e abordar temas polêmicos ao lado de cineastas que estavam dispostos a fazer a plateia perceber que o mundo era bem mais complexo do que se via nas telas. Redford nunca parou de fazer filmes (seja como ator, diretor ou produtor) e ainda ajudou a alavancar uma outra revolução no cinema americano ao instituir o Festival de Sundance que evidencia até hoje o trabalho de centenas de cineastas interessantes que viviam à margem da indústria do entretenimento. Já Jane Fonda escolheu dar uma longa pausa (quinze anos) na carreira para se dedicar ao casamento e a família, o que gerou algumas críticas - já que era um símbolo de politização e feminismo, quanto a isso, ela foi categórica de que a liberdade lhe dava o direito de escolher o que considerava melhor para ela dentro de todas as opções que tinha. Em 2005 ela voltou a filmar, privilegiando o trabalho em comédias inofensivas, tão inofensivas quanto este Nossas Noites, produzido por Redford e dirigido pelo indiano Ritesh Batra. Batra ficou conhecido pelo seu trabalho no ótimo Lunchbox (2013), mas aqui, ao adaptar o romance de Kent Haruf ele opta misturar água com açúcar e fazer um filme que se assiste com facilidade, mas que dificilmente ficará na memória por muito tempo. O interessante é que o livro apresenta grande sensibilidade ao abordar temas delicados como envelhecimento, solidão, sexo na terceira idade e morte, mas aqui tudo é apresentado de forma um tanto diluída, sem que os aspectos mais incômodos da história recebam destaque. Resta então curtir Jane e Robert juntos em cena com o carisma intacto depois de tantos anos dedicados ao cinema. Jane é Addie, viúva que mora sozinha desde que o filho cresceu e foi viver a própria vida e Redford é Louis, professor aposentado, igualmente viúvo e que tem uma filha que não mora por perto. Com dificuldade de dormir à noite, Addie convida Louis para dormir em sua casa, mas logo esclarece que não se trata de sexo, apenas de ter companhia para conversar. Ele fica desconfiado, mas acaba aceitando o convite, o que gera alguns comentários maldosos pela cidade e  um relacionamento que se intensifica cada vez mais, especialmente quando chega Jamie (Iain Armitage, que atualmente está em tudo), o irresistível neto de Addie, para passar um tempo na casa da avó. O filme funciona quando  o casal maduro tenta encaixar um na vida do outro e as lembranças do passado também dão ao filme um ar nostálgico que funciona, mesmo que não aprofundando as várias questões sinalizadas apenas levemente - na clara intenção de tornar o filme sempre agradável de ver. No entanto, eu adoraria ver um desenvolvimento mais elaborado dos dois personagens cheios de história para contar... mas esta não é a ideia do filme. As antigas fãs da Jane Fonda vão estranhar o final e a maioria das pessoas irá apenas ficar revoltada no que mais parece uma propaganda de telefonia celular, mas o filme alcança um resultado bem simpático. Pelo menos a exibição do filme no Festival de Veneza deste ano rendeu uma justa homenagem às carreiras de Jane e Redford ao lhes conceder um Leão de Ouro honorário pelo conjunto da carreira. Eles merecem.

Nossas Noites (Our Souls at Night/EUA-2017) de Ritesh Batra com Jane Fonda, Robert Redford, Mathias Shoenaerts, Iain Armitage e Judy Greer. ☻☻☻