quarta-feira, 23 de maio de 2018

.Doc: Linklater - Sonho é Destino

Richard Linklater: moldando o cinema indie americano. 

Richard Linklater surgiu no cenário indie americano em meados dos anos 1980, mas foi a década seguinte que o elevou ao posto de porta-voz da famigerada Geração X na telona. Confesso que ele nunca esteve entre os meus diretores favoritos, sempre o considerei bastante irregular, no entanto, com o passar do tempo, meu olhar sobre seus filmes mudou consideravelmente e comecei a enxergar virtudes que antes me eram invisíveis, principalmente, quando percebi a forma como este texano percebe a narrativa cinematográfica de forma bastante pessoal. Richard Linklater - Sonho é Destino da dupla Louis Black e Karen Bernstein explora a carreira do diretor, levando em consideração sua forma particular de fazer cinema, seus sucessos, fracassos, projetos pessoais, ousadias e trabalhos feitos por encomenda. Com entrevistas de atores, produtores e parceiros de trabalho, o filme constrói um painel bastante rico deste senhor de 58 anos, mas que ainda se veste e conversa como um adolescente apaixonado por cinema. Diante da lente dos documentaristas ele parece tão sincero falando de seus sucessos quanto dos seus fracassos, com destaque especial pela ousada proposta do premiado Boyhood (2014) filme que ele produziu por doze anos, acompanhando a passagem do tempo por seu menino protagonista e o resto do elenco (com direito a Oscar de atriz coadjuvante para Patricia Arquette), além da trilogia Before, onde acompanha periodicamente o relacionamento de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) - foram estes filmes que já renderam a Linklater cinco indicações ao Oscar. Sua busca por uma narrativa realista e que retrate a vida como ela se apresenta (de forma que sua direção fica quase invisível) deve ser sua maior obsessão, curiosamente, quanto o diretor se afasta deste estilo, maior é o risco de fracassar (foi assim com as produções de época Newton Boys/1998 e Orson Welles e Eu/ 2008). Por outro lado, não deixa de ser curioso como perceberam nele o melhor nome para dirigir o sucesso Escola de Rock (2003) e o interessante Bernie (2011), ambas parcerias com Jack Black. Prova de que Linklater não pensa cinema como a maioria de seus colegas foi quando enveredou pela animação, deixando muita gente filosofando com Waking Life (2001) ou O Homem Duplo (2006). Em vários momentos ele deixa claro que no trabalho pensa mais em contar histórias do que o custo de produção ou o retorno de bilheteria, suas preocupações são outras perante a sua arte e o público. Richard Linklater - Sonho é Destino consegue sintetizar bem a carreira do diretor e nos ajuda a compreender sua forma bastante pessoal de contar histórias, nem sempre elas alcançam os objetivos desejados por ele, mas sempre seguem por caminhos que o cinema americano não considera seguro. Para quem curte o diretor, o filme é um programa obrigatório, para quem não curte, pode ser o primeiro passo para entender a obra de um dos autores que ajudaram a dar corpo e alma ao cinema indie americano contemporâneo. 

Linklater - Sonho é Destino (Richard Linklater - Dream is Destiny/EUA-2016) de Louis Black e Karen Bernstein com Richard Linklater, Ethan Hawke, Patricia Arquette, Jack Black, Ellar Coltrane e Matthew McConaughey. ☻☻☻☻

PL►Y: Toc Toc

Os transtornados: humor politicamente incorreto. 

A ideia é bem simples: um grupo de personagens com Transtorno Obsessivo Compulsivo se encontram no que acreditam ser a sala de espera do psiquiatra para o qual foram encaminhados. Acontece que o doutor nunca chega e eles precisam conviver por um longo período tentando conciliar suas particularidades enquanto se incomodam uns com os outros. Neste grupo de pessoas estão o taxista obcecado por cálculos (Paco León), a senhora (Rossy de Palma, uma das primeiras musas de Almodóvar) que não consegue parar de verificar coisas (e se "alivia" com sucessivos sinais da cruz durante o dia), há também o homem com síndrome de Tourette (Oscar Martínez) que, sem motivo aparente, esbraveja palavrões para quem está perto, existe a jovem (Nuria Herrero) que repete palavras contra sua vontade, a mulher (Alejandra Jiménez) com obsessão por limpeza e o rapaz (Adrián Lastra) com temor de pisar em linhas. O atrito entre os personagens pode gerar tantas risadas quanto incômodos na plateia, mas trata-se de um texto teatral de sucesso do francês Laurent Baffie,  que tem como maior objetivo fazer rir. O filme não explora a complexidade do TOC, não se preocupa em ser politicamente correto ou se render a maiores explicações sobre o transtorno, quando elas aparecem costumam ser bem simplistas, porém, consegue dar conta de criar situações divertidas sobre o tema. Em alguns momentos fica difícil driblar o aspecto teatral, mas o diretor Vicente Villanueva faz o que pode com a edição, com o uso de tomadas externas e movimentos de câmera para tornar a narrativa mais dinâmica, ironicamente este esforço pode se tornar um pouco cansativo durante a sessão, principalmente pelo número de personagens que falam quase o tempo todo em cena. Diante da cadência do filme os destaques ficam por conta de Paco León e Alejandra Jiménez, que não perdem o ritmo durante a sessão, além da menção honrosa para Rossy, que se tornou uma atriz de mais nuances do que se imaginava de sua figura extravagante nos primeiros filmes que realizou. Toc Toc é uma comédia despretensiosa que pode surpreender a plateia que entrar no clima e perceber que qualquer um tem suas manias, mesmo que não sejam transtornos diagnosticados. 

Toc Toc (Espanha-2017) de Vicente Villanueva com Paco León, Alejandra Jimenéz, Rossy de Palma, Oscar Martínez, Nuria Herrero, Adrián Lastra e Inma Cuevas. ☻☻☻

terça-feira, 22 de maio de 2018

PL►Y: Fahrenheit 451

Os Michaels: bombeiros incendiários. 

O livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury foi lançado em 1951 e provocou arrepios por ser uma ficção científica que apresentava um futuro distópico onde livros são queimados há tanto tempo que os responsáveis pelo serviço nem se perguntam mais o motivo desta ação. Vistos como ameaça por confundir a cabeça da humanidade frente às ideias divergentes, destruir livros de toda espécie seria a melhor medida para manter a paz e a harmonia entre as pessoas. O livro chamou tanta atenção que recebeu uma clássica versão para o cinema pelas mãos de François Truffaut em 1966 com Oskar Werner, Cyrill Cusack e Julie Christie no elenco. O tempo aumentou a aura de cult do filme e o sedimentou como uma dessas obras de qualidades indiscutíveis. Demorou para que alguém tivesse coragem de fazer uma nova versão para a obra. Produzido pelo astro ascendente Michael B. Jordan e dirigido por Ramin Bahrani (99 Casas/2014), o filme não tem a mínima intenção de rivalizar com um clássico de 52 anos de idade e... nem poderia. As reflexões que o filme original deixavam latentes durante a narrativa, aqui aparecem exploradas apenas superficialmente em situações que se resolvem facilmente, sem que o espectador tenha muito tempo para pensar sobre o que está vendo, o efeito é de que tudo foi reduzido a um cinema espetaculoso um tanto desengonçado. Feito para HBO, o filme tem Michael B. Jordan como o bombeiro Guy Montag, que aos poucos começa a questionar as sucessivas apreensões e destruição de livros ao longo de sua carreira de bombeiro. Ele é o discípulo mais próximo de Capitão Beatty (Michael Shannon), responsável pelas apreensões e detenções dos chamados Enguias (pessoas que escondem e traficam livros para que não sejam destruídos), mas um conjunto de fatos irá fazê-lo questionar o motivo dos livros serem tão ameaçadores. O mais interessante desta adaptação é como eles atualizam algumas questões presentes no livro e no filme, levando em consideração a internet e o embate de discursos fluídos que tomaram conta do mundo pós-moderno e a recente "pós-verdade". O texto faz clara alusão à censura e o discurso de que ela serve para o bem das pessoas que não sabem lidar com as informações que chegam até elas, mesmo que isso custe o atrofiamento intelectual da sociedade. Sim, trata-se de um discurso bastante atual e assustador, mas o problema é que ao privilegiar as cenas de ação, o filme deixa de lado o que a história tem de mais interessante - seja sobre o protagonista que precisa ler escondido, já que um sistema operacional lhe faz companhia (ou seria vigia) o tempo inteiro - ou o capitão que mantem pequenos pedaços de papel e uma caneta para escrever as reflexões que aparecem em sua mente nas noites solitárias em casa. Com a maior parte das cenas feitas à noite, as cenas são muito escuras (talvez para ampliar o efeito da poluição visual dos prédios que funcionam como grandes telas de notícias com smiles, caverinhas, corações e mensagens subindo como se fosse a tela de uma rede social), visualmente o filme também se torna cansativo e não consegue explorar muito o universo que tem em mãos. Fahrenheit 451 não serve para muito mais do que assistir e esquecer, se você não tem acesso ao filme de Truffaut, melhor ficar com o livro que ganhou uma nova edição recentemente. 

Fahrenheit 451 (EUA-2018) de Ramin Bahrani com Michael B. Jordan, Michael Shannon, Dylan Taylor, Sofia Boutella, Raoul Bhaneja e Cindy Katz. ☻☻

PL►Y: Em Pedaços

Diane Kruger: premiada em Cannes. 

Embora faça filmes regularmente desde 2001, coube à Diane Kruger o desconfortável papel de enfeite na maioria de seus filmes. A coisa parecia mudar um pouco quando ela foi indicada ao prêmio do Sindicato de Atores (SAG Awards) em 2010 por seu bom trabalho como a estrela do cinema alemão Bridget Von Hammersmark em Bastados Inglórios de Quentin Tarantino. Infelizmente, o que poderia ter sido um divisor de águas em sua carreira, manteve sua carreira no mesmo ritmo, sem papéis desafiadores. Espero que a situação da atriz mude após ela levar para a acasa o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes do ano passado por Em Pedaços. O novo filme do diretor Fatih Akin era um dos favoritos a concorrer uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro deste ano, mas acabou ficando de fora, mesmo levando o Globo de Ouro na mesma categoria (e Diane aparecer toda modesta ao lado do diretor para receber o prêmio). Akin tem vários filmes no currículo e, em sua maioria, explora a tensão entre turcos e alemães em suas histórias (foi assim em seus filmes mais conhecidos até agora,  os densos Contra a Parede/2004, Do Outro Lado/2007 e mesmo na comédia Soul Kitchen/2009 isso aparecia). Em Pedaços atualiza um pouco mais esta tensão, resgatando um fantasma antigo da Alemanha que se fortalece cada vez mais no século XXI: o nazismo. Em Pedaços gira em torno de Katja (Kruger), mulher casada com um ex-presidiário (Numan Acar), condenado por tráfico de drogas, mas que reconstruiu sua vida ao lado da esposa e do filho, Rocco (Rafael Santana). Tudo muda na vida da personagem, quando uma bomba explode em frente ao trabalho do esposo. Entre as vítimas, seu marido e filho faleceram instantaneamente. Começa então a jornada de Katja por justiça, no entanto, Akin não segue os caminhos convencionais de um filme de tribunal para construir a história. Desde o início a intolerância e o preconceito aparecem na abordagem do caso e se intensifica ainda mais com a identificação do casa suspeito pelo atentado. Pesa ainda na narrativa o fato de Katja usar drogas variadas e as cenas de tribunal utilizarem descrições bastante cruas e realistas sobre o que aconteceu com seus familiares na hora da explosão. São nestes momentos que Diane Kruger cataliza todas estas sensações numa atuação complexa, que envolve o público, mesmo longe de ser a típica mocinha que aparece neste tipo de filme. Também ajuda a prender a atenção o elenco de apoio desconhecido, mas que impressiona. Fatih Akin cria aqui seu filme mais enxuto, sem exageros de qualquer espécie, alcançando um resultado seco e impactante, seja quando surge o veredicto e o terceiro ato segue desesperado rumo ao desejo de vingança. Durante a narrativa não existe alívio para os personagens ou a plateia, seguindo o tom de uma verdadeira tragédia (e não por acaso o filme parte para a Grécia em sua parte final). Em Pedaços é um doloroso filme sobre perda, mas também sobre sacrifício e barbárie num mundo que se encaixa cada vez mais no que o título anuncia. 

Em Pedaços (Aus dem Nichts/2017) de Fatih Akin com Diane Kruger, Numan Acar, Denis Moschitto, Johannes Krisch, Ulrich Tukur e Ulrich Brandhoff. ☻☻☻☻

segunda-feira, 21 de maio de 2018

KLÁSSIQO: Mississipi em Chamas

Dafoe e Hackman: dois agentes no calor do Mississipi. 

O inglês Alan Parker foi um dos diretores mais badalados dos anos 1980 e 1990. Em sua carreira ele foi indicado ao Oscar duas vezes, mas poderia ter sido indicado o triplo de vezes. Capaz de dirigir musicais cheios de energia e dramas densos repletos de melancolia, o diretor não filma desde 2003 (quando lançou o controverso A Vida de David Gale). Em uma entrevista, o cineasta afirmou não filmar mais porque percebeu que os "diretores não melhoram com o passar do tempo, eles apenas se repetem". Olhando a carreira de Parker, fica evidente sua preocupação em não se repetir, já que o diretor de The Commitments (1991) e Evita (1996) é o mesmo responsável por Asas da Liberdade (1984) ou O Expresso da Meia-Noite (1978), filme que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar de direção. Após enveredar pelo terror noir de Coração Satânico (1987), Parker realizou o filme que lhe rendeu a segunda indicação ao prêmio da Academia, o contundente Mississipi em Chamas (1988). O realismo do filme concorreu a sete estatuetas, mas levou apenas o de melhor fotografia. Obviamente que a repercussão da obra afetou seu desempenho entre os votantes, já que, até hoje, o filme incomoda e se tornou uma referência quando o assunto é a segregação racial nos Estados Unidos. O roteiro de Chris Gerolmo (que ficou de fora das indicações) é por si só explosivo ao enveredar pelas investigações sobre o desaparecimento de um rapaz negro no estado do Mississipi nos anos 1960. Se você já viu alguns filmes sobre o assunto, saberá que naquele tempo os estados sulistas formavam uma verdadeira panela de pressão, onde a luta pelos direitos civis dos afro-americanos incomodava muita gente. É neste ambiente que dois agentes do FBI aparecem para investigar o sumiço de militantes pelos direitos civis. O agente Ward (Willem Dafoe) logo capta a tensão entre os moradores e como eles sabem mais do que dizem, mas, por outro lado, seu parceiro, agente Anderson (Gene Hackman) naturaliza aquelas tensões raciais e tende a fazer vista grossa para os males da cidade em que se instalam. Intimidações e novos crimes acontecem, tornando as investigações quase insustentáveis e, aos poucos, o envolvimento das autoridades locais começam a se tornar indisfarçáveis junto aos desaparecimento e ações racistas. Tenso do início ao fim e ainda atual, o filme conta com uma marcante atuação de Hackman (indicado ao prêmio de melhor ator), que transmite a transição de seu personagem com um simples gesto) e Frances McDormand (indicada pela primeira vez ao Oscar, concorreu como atriz coadjuvante) provando que dava conta de voos longe do universo dos irmãos Coen. Beneficiado pelo seu olhar estrangeiro sobre uma dura realidade, a direção de Parker é visceral e demonstra que o veterano cineasta faz falta no cenário cinematográfico atual. Violento e amargo, Mississipi em Chamas é um clássico ainda perturbador. 

Mississipi em Chamas (Mississippi Burning/EUA-1988) de Alan Parker com Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand, Brad Dourif, Stephen Tobolowski e R. Lee Earney. ☻☻☻☻

Pódio: Rachel McAdams

Bronze: a aluna dissimulada.
3º Meninas Malvadas (2004)
A canadense nascida em 1978 já tinha alguns trabalhos na televisão e para o cinema em sua terra natal até migrar para Hollywood em 2002, mas ela ficou famosa mesmo foi dois anos depois como a ardilosa estudante Virgina George que é a vilã deste filme despretensioso e divertido sobre um grupo de meninas populares que criam uma verdadeira casta dentro de uma escola - e a popularidade delas é ameaçada por uma nova aluna. A estrela do filme era Lindsay Lohan, que se perdeu em seus próprios fantasmas, enquanto Rachel se tornava dada vez mais respeitada. 

Prata: a jornalista destemida. 
A atriz foi indicada pela primeira vez ao Oscar por seu trabalho como a jornalista Sacha Pfeiffer, que participa das investigações jornalísticas sobre casos de pedofilia nas igreja. Rachel concorreu como coadjuvante e o filme levou para casa os prêmios de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme. Embora eu não veja nada demais na produção, a atuação dela é um marco em sua busca por se tornar uma atriz séria. Madura em cena, ela capricha na seriedade da personagem e carimbou seu currículo para produções mais densas. Com isso ela nem amargou sua participação na horrorosa segunda temporada de True Detective também em 2015. 

Ouro: a menina rica. 
1º Diário de uma Paixão (2004)
Toda regra tem sua exceção, portanto, no meio das execravelmente melosas adaptações dos livros de Nicholas Sparks existe esta pérola dirigida por Nick Cassavetes - que ajudou a colocar a Rachel no radar dos grandes produtores. O filme tinha tudo para dar errado ao contar a história da menina rica que se apaixona pelo rapaz pobre, mas funciona surpreendentemente bem ao escolher Rachel e Ryan Gosling (que engataram um romance na vida real) para viver o casal principal. Rachel está excepcional em cena e honra um papel que é vivido pela brilhante Gena Rowlands (mãe do diretor) na  outra fase da história. Um verdadeiro clássico romântico do século XXI. 

Na Tela: A Noite do Jogo

Os amigos: a noite das brincadeiras perigosas. 

Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) costumam se encontrar com os amigos regularmente para uma noite de jogos e colocar a conversa em dia. Os dois parecem se entender bem e o maior problema que enfrentam é a dificuldade para Annie engravidar - pelo menos até o irmão bem sucedido de Max, Brooks (Kyle Chandler) aparecer e o clima ficar mais tenso pela competição que existe entre os manos. Tão logo Brooks chega, ele convida o irmão e os amigos fiéis para participar jogar em seu casarão e apresenta uma nova brincadeira, bem mais realista, onde um deles será sequestrado e os outros terão que resgatá-lo antes que seja assassinado. Sendo assim, tão logo a brincadeira começa, os personagens seguem as pistas e... descobrem que nem tudo faz parte do jogo. A Noite do Jogo tem como maior qualidade inserir personagens típicos de uma comédia num tom de suspense. Parece fácil, mas manter este equilíbrio durante a sessão é bastante complicado, sorte que o filme consegue cumprir seu objetivo! Os diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein (que como diretores nunca fizeram nada demais, mas já escreveram Homem-Aranha: De Volta ao Lar/2017 e Tá Chovendo Hambúrguer2/2013), capricham na atmosfera de mistério, sempre deixando o espectador desconfiado sobre o que está assistindo (dando uma sensação bastante semelhante à vivida pelos próprios personagens). A fotografia é interessante, a trilha sonora com sintetizadores (que parece saída de Stranger Things) ajuda na atmosfera e até o uso de maquetes funciona bem nas transições de cena. O elenco também consegue ser bastante eficiente, sendo como o casal que namora desde a adolescência e parece enfrentar a primeira crise de ciúme (Lamorne Morris e Kylie Bunburry), o amigo idiota que só fala bobagem (Billy Magnussen, ator que tem a aparência perfeita para ser o Adam Warlock da Marvel) que não acerta nem a nacionalidade de sua nova parceira muito mais esperta que ele (a inglesa Sharon Horgan). Martin Freeman faz o de sempre (mas ninguém de incomoda com isso) e Rachel McAdams acerta em todas as cenas, com uma eficiência cômica que faz tempo que ela não explora em cena. Outro destaque do elenco é Jesse Plemons (aquele que parece o irmão menos famoso de Matt Damon), que encarna o estranho vizinho policial de Annie e Max e consegue ampliar um personagem com pouco tempo em cena de forma impressionante. Plemons é capaz de causar calafrios, mas a plateia quase implora para que ele apareça em cena mais uma vez. A Noite do Jogo parece a versão light de Vidas em Jogo (1997), aquele de David Fincher onde Sean Penn presenteia o irmão Michael Douglas com um jogo sinistro, mas aqui a ideia funciona até melhor. Está certo que o roteiro até repete algumas piadas (algumas funcionam da segunda vez, outras nem tanto), mas é esperto o suficiente para ser uma grata surpresa que merecia fazer bem mais sucesso entre dois lançamentos badalados de super-heróis em cartaz. Se você cruzar com o filme por aí, vale a pena assistir e participar do coro que pede por uma sequência. 

A Noite do Jogo (Night Game/EUA-2018) de John Francis Daley e Jonathan Goldstein com Jason Bateman, Rachel McAdams, Jesse Plemons, Kyle Chandler, Billy Magnussen, Lamorne Morris, Kylie Bunburry, Sharon Horgan, Danny Huston Michael C. Hall e Jeffrey Wright. ☻☻☻☻