quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

MELHORES DO CINEMA EM 2015

FILME
Birdman
Da primeira vez achei tudo muito estranho, exageradamente elétrico, nervoso demais, ousado até a medula em sua simulação de plano sequência e exercícios metalinguísticos. Assisti uma, duas, três, quatro... sempre que vejo considero o filme ainda mais genial! 
Outros favoritos (sentido horário)

DIREÇÃO

✰ Alejandro González Iñárritu (BIRDMAN) 
Foi um ano concorrido na categoria, mas Alejandro fez um trabalho impressionante em Birdman, afinal, o diretor mexicano se reinventou, se afastando dos dramas pesadões e fazendo uma das comédias mais elaboradas de todos os tempos. Por criar uma tensão crescente e arrancar excelentes atuações do elenco, foi o diretor do ano.
Outros favoritos (sentido anti-horário) 
Damien Chazelle (Whiplash)✶Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?)✶Jeremy Saulnier (Blue Ruin)✶ Miroslav Slaboshpitsky (A Gangue)✶J.C. Chandor (O Ano Mais Violento)

ATRIZ COADJUVANTE
✰ Julianne Moore (Mapas para as Estrelas )
David Cronenberg resolveu fazer uma comédia cáustica em seu último trabalho e conseguiu uma aliada de peso: Julianne Moore - ela  já nos comoveu muitas vezes, mas desta vez ela causa risos nervosos na pele de uma atriz decadente infantilizada que faz rir e assusta ao mesmo tempo. 
Outros favoritos (sentido anti-horário) 
Jessica Chastain (O Ano Mais Violento)✶Alicia Vikander (Ex-Machina)✶Tilda Swinton (O Expresso do Amanhã)✶Suzanne Clément (Mommy)✶Emma Stone (Birdman)

ATOR COADJUVANTE
✰ J.K. Simmons (Whiplash)
J.K. Simmons já estava acostumado a ser coadjuvante, mas bastou lhe dar um professor nada ortodoxo nas mãos para ele provar o que era capaz de fazer com todo som e fúria que tem dentro de si. Sua atuação é um dos elementos principais para Whiplash ser o filme surpreendente que é. 
Outros favoritos (sentido anti-horário) 
Michael Fassbender (Frank)✶Alfred Molina (O Amor é Estranho)✶Idris Elba (Beasts of no Nation)✶Oscar Isaac (Ex-Machina)✶Channing Tatum (Foxcatcher)

MELHOR ATRIZ
✰ Camila Márdila & Regina Casé (Que Horas Ela Volta?)✰ 
Acho que elas foram as donas das atuações mais comentadas do ano, a relação entre mãe e filha deu muito o que falar no aclamado filme de Anna Muylaert. E como separar a química perfeita entre as duas atrizes? Impossível.
Outros favoritos (sentido anti-horário) 
Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite)✶Anne Dorval (Mommy)✶Julianne Moore (Para Sempre Alice)✶Charlotte Rampling (45 Anos)

MELHOR ATOR
✰ Michael Keaton (Birdman)✰ 
Admito que sempre achei Michael Keaton um ator apenas razoável, mas se ele fosse transformado em um pássaro no último ano, ele seria a Phoenix! Ressurgido das cinzas como o ator que sonha ser levado a sério ao protagonizar uma peça difícil, Keaton emociona e faz rir, mantendo a tensão de um sujeito a beira do colapso. 
Outros favoritos (sentido horário) 
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)✶David Oyelowo (Selma)✶Oscar Isaac (O Ano Mais Violento)✶Ian McKellen (Sr. Holmes)✶Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)

MELHOR ROTEIRO
✰ Divertida Mente✰ 
Fico imaginando como foi complicado tornar compreensível uma história como a de Divertida Mente. Transformar sentimentos em personagens, emoções e identidade em aspectos concretos da narrativa. Some amigos imaginários, os conflitos do crescimento e a importância em saber lidar com a tristeza para crescer. Tornar elementos tão abstratos em algo compreensível faz de  Divertida Mente um dos melhores filmes de todos os tempos. 
Outros favoritos (sentido horário) 
O Ano Mais Violento✶Acima das Nuvens✶Birdman✶Que Horas Ela Volta?✶Ex-Machina

ELENCO

✰ BIRDMAN✰ 
É sempre interessante ver um filme onde todos seguem o mesmo ritmo e em Birdman isso é fundamental, dada a experiência de simular um plano sequência durante toda a narrativa. Com um elenco respeitável, o filme impressiona em vários momentos. 
Outros favoritos (sentido horário) 
A Teoria de Tudo✶O Ano Mais Violento✶O Expresso do Amanhã✶Foxcatcher ✶O Jogo da Imitação

Sei que você deve concordar com alguns e discordar de outros, mas esses são apenas os meus favoritos! Quais são os seus?
 Faça sua lista! 
Os meus favoritos de 2015 foram a CAPA do blog durante o mês de dezembro!


FELIZ ANO NOVO! 
NOS VEMOS EM 2016!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

PL►Y: Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso

A família Cooper: enfrentando um dia difícil. 

 Faz tempo que não via uma comédia familiar tão divertida como Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso, baseado no livro de Judith Viorst. A história acompanha uma família num dia daqueles onde tudo dá errado, sendo assim, o importante é entrar no espírito da coisa e aproveitar esse filme de uma piada só dirigida por Miguel Arteta. O cineasta é famoso entre o cinema indie e costuma temperar suas histórias com certa melancolia (o melhor exemplo foi Por Um Sentido na Vida/2002, o primeiro filme em que se percebeu que era plausível que Jennifer Aniston fosse indicada ao Oscar), talvez por isso ele tenha sido escolhido para dar forma à essa adaptação feita pelos estúdios Disney. Afinal, nas entrelinhas está toda a insegurança infanto-juvenil e sua capacidade hormonal superlativa para lidar com as emoções. O menino Alexandre (Ed Oxenbould) percebe que ninguém leva a sério seus desastres cotidianos. Com a festa de aniversário ameaçada por uma outra (muito mais elaborada de um colega da escola), Alexandre resolve desejar, pouco depois da meia-noite do fatídico dia, que todos de sua família saibam como é sobreviver a um dia como o que dá nome ao filme. O efeito do pedido poderia ser mínimo, se não fosse o dia que o pai desempregado (Steve Carrell, ótimo)  tivesse a chance de arrumar um emprego, se a mãe (Jennifer Garner) não tivesse um evento importantíssimo para dar conta, se o irmão mais velho (Dylan Minnette) não fosse fazer o teste de direção (pouco antes do baile de formatura, para o qual convidou a garota dos seus sonhos) e se a irmã (Kerris Dorsey) não fosse a protagonista da versão de Peter Pan no teatro da escola. Seguindo uma espécie de maldição Murphyana, tudo vai dar errado durante o dia, Alexandre sentirá alguma culpa, mas ninguém irá acreditar nos efeitos de sua "praga", bem... deveriam! O desafio do filme é manter o ritmo e fazer rir quando tudo parece ficar um tanto previsível, mas o elenco inspirado e o diretor conseguem fazer um trabalho realmente divertido - e até surpreendente perante os estragos que podem acontecer realizar e até rende uma mensagem otimista no final.  Apesar de às vezes abusar das doses de açúcar Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso é um programa para toda a família assistir, sem restrições, sentada no sofá com um balde enorme de pipoca. 

 Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso (Alexander and the terrible, horribel, no good, very bad day/EUA-2015) de Miguel Arteta com Steve Carrell, Jennifer Garner, Ed Oxenbould, Dylan Minnette, Kerris Dorsey e Mekai Curtis. ☻☻☻ 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

PL►Y: Descompensada

Amy e Bill: os opostos se atraem?

Algumas comediantes americanas me despertam um grande déjà vu quando remetem diretamente à referência que tenho do humor no sentido Dercy Gonçalves da coisa. Há muita gente que realmente acha graça em ver uma mulher de comportamento grosseiro, soltando palavrões, sendo um tanto... descompensada como o título promete. Obviamente que a Dercy que conhecemos era uma personagem, que extrapolava os padrões para fazer rir pelo excesso - e é justamente isso que vemos aqui. O mais engraçado é que décadas depois, o puritano público americano resolveu apreciar um comportamento - geralmente atribuído aos homens - na mulherada e, de vez em quando, elege uma nova musa do gênero. A bola da vez é Amy Schumer, uma loira balzaquiana com cara de menina alemã marrenta que prova cada vez mais ser capaz de fazer um caminhoneiro corar quando abre a boca, mas o humor de Amy valeu duas indicações ao Globo de Ouro para essa comédia dirigida por Judd Apatow (melhor filme de comédia/musical e melhor atriz de comédia).  No filme ela interpreta Amy (truque manjado para romper a barreira entre atriz e personagem), uma mulher que bebe mais do que devia, fuma maconha sempre que pode, fala palavrões e trabalha numa revista que cria matérias importantíssimas sobre a influência da ingestão de alho no sabor de um certo fluído masculino ou uma pesquisa sobre as cinco crianças mais feias com menos de seis anos. Eis que numa reunião de pauta ela prova detestar esportes e acaba tendo que fazer uma matéria sobre o médico cirurgião  mais procurado pelos atletas. Ele se chama Aaron (Bill Hader), tão responsável e correto quanto dedicado à profissão e causas humanitárias. O tipo de homem que Amy jamais se envolveria (e a lista dos que ela já se envolveu é bem extensa, mesmo namorando o musculoso Steven, vivido por John Cena). Ou seja, Amy não está nem aí... ainda que tenha laços familiares fortes com o pai (que a primeira cena apresenta como se fosse a causa para a dificuldade da personagem lidar com um relacionamento sério) e com a irmã, Kim (Brie Larson) - que é casada e feliz com o esposo e o enteado. O mundo propositalmente desregrado de Amy irá virar de cabeça para baixo quando ela tiver a primeira transa com Aaron e ele mostrar-se um verdadeiro cavalheiro. Nesse ponto, o filme mostra sua intenção de fazer humor do contraste de Amy com Aaron e alguns outros personagens que estão no seu caminho. Da chefe (Tilda Swinton, bem, diferente no papel de megera fashion e se divertindo bastante) ao estagiário (Ezra Miller), todo mundo perde a máscara e Amy começa a pensar no que seria melhor para sua vida. Isso gera um conflito na personagem, bem leve é verdade, mas o suficiente para ela ver que sua vida de mulher adulta precisa de alguns ajustes. Apatow cria mais uma comédia romântica desbocada e grosseira, que faz rir, mas também gera alguns diálogos desnecessários de tão constrangedores. Ou seja, é a típica comédia romântica com o grosseirão que precisa descobrir que está apaixonado, só que no  caso, o grosseirão é do sexo feminino. Embora não tenha me convencido como essa superestrela da comédia que todos dizem (como já disse, cresci ouvindo Dercy Gonçalves), Amy está muitíssimo bem acompanhada por Bill Hader (que me surpreendeu posando de galã nada convencional) e Brie Larson - uma jovem atriz que devemos ficar de olho. Apatow, depois de dois filmes que forma mal nas bilheterias, o cineasta voltou a fazer sucesso e prova, mais uma vez, ser um especilista nesse tipo de comédia romântica para o público masculino (afinal, é a mocinha que deve pedir desculpas no final).

Descompensada (Trainwreck/EUA-2015) de Judd Apatow com Amy Schumer, Bill Hader, Brie Larson, Tilda Swinton, Ezra Miller e Randall Park. ☻☻

PL►Y: Caminhos da Floresta

Meryl: enfim, bruxa!

Não há dúvidas de que Meryl Streep é uma verdadeira entidade do cinema. Aos 66 anos, a atriz possui três Oscars na estante (e coleciona dezenove indicações ao prêmio máximo do cinema americano). Se contar no Globo de Ouro (e suas divisões para drama, comédia e TV) a coisa impressiona mais ainda: vinte e nove indicações e oito prêmios na estante. Ainda assim, lembro quando em 2004 ela disse que, naquele ano, recebeu apenas propostas para viver bruxas no cinema. Meryl aceitou viver uma bruxa somente dez anos depois e - foi indicada ao Oscar de coadjuvante. Caminhos da Floresta é a adaptação de um musical da Broadway que brinca com os personagens dos contos de fada. A direção ficou por conta de Rob Marshall (de Chicago/2002), que realiza aqui o seu melhor trabalho em muito tempo. Para começar, ele aprendeu finalmente a filmar um musical longe do palco, perdeu a vontade de inventar desculpas para seu elenco soltar a voz e manteve seu senso de deboche e ironia. A trama começa quando um padeiro (o ótimo James Corden) e sua esposa (Emily Blunt) tem um encontro com a vizinha bruxa (Meryl Streep), que conta ter jogado uma maldição naquela família - o que impossibilita que o casal tenha filhos. No entanto, o feitiço pode ser quebrado se eles juntarem alguns objetos para uma noite específica que se aproxima - uma vaca branca feito leite, um sapatinho dourado, cabelos loiros feito os de espiga de milho e um capuz vermelho. Todo mundo sabe onde o casal irá encontrar esses objetos, além disso eles servem de pretexto para que Chapeuzinho Vermelho (a promissora Lilla Crawford), Lobo Mau (Johnny Depp), Cinderela (Anna Kendrick), Rapunzel (Mackenzie Mauzy) e dois príncipes (Chris Pine e Billy Magnussen)... apareçam na história de uma forma diferente do que vemos nos clássicos. Nas músicas bem humoradas e brincadeiras com os personagens o filme flui que é uma beleza até o momento em que achamos que todos viverão felizes para sempre e... não por acaso, a partir daí começa a dar tudo errado na vida dos personagens e o filme se torna mais sombrio e menos esperto. Aí lembramos, dos erros do passado do diretor Rob Marshall, que não tem habilidade em administrar a mudança de tom da narrativa. Uma série de dilemas começam a aparecer e comprometem a diversão com soluções apressadas para tudo que era um tanto subversivo. Aos poucos Caminhos da Floresta perde o ritmo e a magia, tornando-se uma obra irregular. Não por acaso, os maiores elogios foram para a veterana Meryl Streep, ela é a única que segura a bola de sua personagem quando o roteiro abandona todas as possibilidades que poderiam ser exploradas até o final da sessão.

Caminhos da Floresta (Into the Woods/ EUA-2014) de Rob Marshall com Emily Blunt, Anna Kendrick, Meryl Streep, James Cordem Johnny Depp e Chris Pine. ☻☻

domingo, 27 de dezembro de 2015

IPØD3: Electra (Love)

Três músicas para o vértice desaparecido do filme de Gaspar Noé:

3 "This is Love"/ PJ Harvey 
(Isso é Amor)

2 "No I in Threesome" / Interpol
(Sem "Eu" no Trio)

1 I Hate the Way You Love / The Kills
(Eu Odeio o Jeito que você Ama)  

PL►Y: Love

Aomy e Karl: A Lei de Murphy do amor. 

Love foi o filme polêmico mais famoso do ano - e começou sua carreira na mostra não competitiva do Festival de Cannes. O motivo: cenas de sexo explícito em 3D. Ainda acho engraçado como em pleno século XXI, com tudo que a internet possui, o sexo ainda ser a ferramente mais usada para polemizar um filme. Lars Von Trier fez isso com Anticristo/2009 e repetiu a dose (com menos brilhantismo) em Ninfomaníaca/2013, Michael Winterbottom teve sua cota de repercussão com 9 Canções/2004 e Catherine Breillat já domina o gênero há tempos em obras como Romance/1999 e Anatomia do Inferno/2004, porém, o público ainda fica em polvorosa quando um filme que se pretende sério utiliza cenas de eróticas em sua narrativa. Nem preciso dizer que os conservadores devem manter distância dessas produções, mas por outro lado, acho interessante os argumentos que alguns diretores usam para defender suas obras. Particularmente não tenho problemas com cenas de sexo explícito, admiro a coragem dos atores em se expor em cenas ousadas de intimidade e penso até até que ponto toda polêmica é o reflexo da consciência do que pensamos ser sexo, arte e cinema. Dito isso, seria redundante dizer que sem as cenas de sexo, Love seria um filme de amor bastante comum? Dirigido pelo inquieto Gaspar Noé (o mesmo do vertiginoso Irreversível/2002), Love é seu filme mais brando. A ideia do diretor é mostrar o amor sob a perspectiva do protagonista Murphy (Karl Glusman), que está casado com Omi (Klara Kristin), com quem tem uma filha, mas que percebe ainda ser apaixonado por Electra (Aomy Muyock) após o saber do desparecimento dela. A partir daí, Murphy questiona seu casamento e remexe nas memórias. Essa é a base do filme, mas para além do trabalho de edição, no uso de luzes (especialmente no contraste do preto e vermelho, as cores favoritas do diretor), não existe uma trama que sustente o filme em suas mais de duas horas de duração, afinal, lá pela metade já descobrimos que o casal colocou tudo a perder por não aguentarem as consequências de viver suas fantasias sexuais. Soa moralista? Pois é: SURPRESAAA! Apesar de adorar polêmicas e provocar vertigens no público, Gaspar Noé é moralista, hardcore, mas moralista (e não está nem aí se você disser isso para ele). Você vai perceber que o cara esconde motivações bem simples (e universais) em seus filmes, afinal, um filme tão "ousado", mostra o fim do romance por algo tão trivial como o ciúme. Noé decora sua história de amor com ópio, orgias, ménages, posições múltiplas e... uma ideia obsessiva de Murphy engravidar Omi. Noé tem a bondade de não encher o filme com aquela filosofice capenga que Trier usou em Ninfomaníaca e prefere utilizar sarcasmos como Lei de Murphy, o "bebê se chamar Gaspar se for menino", a galeria de arte chamada Noé, a relação de Electra com o pai e Murphy dizendo que todo filme deveria ter "sangue, lágrimas e esperma" para logo depois confessar (ironicamente) que seu filme favorito é 2001 de Stanley Kubrick... São brincadeirinhas que dão alguma graça ao filme, mas que não ajudam a manter o interesse em sua longa duração, talvez por isso o elenco (corajoso) se esforce, mas não consiga aprofundar muito os personagens. O problema de Love é o roteiro (talvez a ideia seja comunicar a história mais pelo uso do sexo, mas até elas cansam de vez em quando). Vários aspectos me fez lembrar de Irreversível durante a sessão, das cores utilizadas nas cenas, o efeito corrosivo do tempo sob o amor e, principalmente, a negação de uma segunda chance aos personagens - para Noé, os efeitos das escolhas são eternos, não tem jeito.  No fim da sessão temos a impressão que vimos uma triste história de amor como tantas outras sob a perspectiva das quatro paredes (e do espelho no teto).

Love (França/Bélgica-2015) de Gaspar Noé com Karl Glusman, Aomy Muyock e Klara Kristin. ☻☻

sábado, 26 de dezembro de 2015

DESTAQUES 2015 - SÉRIES DE TV

ATOR COADJUVANTE
Martin Wallström (Mr. Robot)
Sei que muitos irão render louros ao trabalho de Christian Slater no seriado, mas considero o jeito American Psycho impresso no ambicioso Tyrell Wellick um verdadeiro achado. Entre os outros lembrados estão Adam Driver que continua bem na pele de... Adam!!! Titus Burgess (pelas gargalhadas produzidas) e Richard Armitage que roubou a cena no derradeiro ano da série do canibal mais famoso da cultura pop. 

ATRIZ COADJUVANTE
Kerry Bishé (Halt And Catch Fire)
A elogiada série chegou por aqui junto com o canal AMC, inexplicavelmente ela fica de fora das grandes premiações, mas como posso esquecer a atuação de Kerry Bishé como a gênio da computação que se esconde na pele de uma dona de casa? Impossível. Outros destaques foram a despedida de January Jones na pele de Sally Draper, Billie Piper crescendo e aparecendo como a Noiva de Frankenstein, Helen McCrory seduzida pelo coisa ruim e Rutina Wesley como a melhor encarnação de Reba McClane que se tem notícia.

ATRIZ - COMÉDIA
Julia Louis Dreyfus (Veep)
Parece que enquanto não houver impeachment, Julia Louis Dreyfus terá lugar cativo no meu coração! Esse ano várias atrizes estrearam no páreo, Melanie Linskey como a dona de casa pensativa, Ellie Kemper como a garota desmiolada do Netflix e a veterana Lily Tomlin comemorando um grande ano na carreira. Completa a categoria Lena Dunhan pelo ano mais maduro de seu seriado.

ATOR - COMÉDIA
Jeffrey Tambor (Transparent)
Mesmo não sendo fã do seriado, como não admitir que Jeffrey Tambor arrebenta? Mas esse ano fiquei tentado entre a dupla Zissis e Duplass, ou mesmo pelas palhaçadas de Will Forte sozinho (por pouco tempo) no planeta. Completa a categoria o ganhador do ano passado, Thomas Middleditch que sofreu um bocado em 2015!

ATOR - DRAMA
Rami Malek (Mr. Robot)
Acho que foi a categoria mais difícil do ano, mas Rami Malek fez tudo o que podia (e não podia) para tornar seu personagem um sujeito estranho (até para si mesmo), sendo a surpresa do ano. No páreo, Jon Hamm se despedindo de Don Drapper, Charlie Cox honrando o legado do herói da Marvel, Lee Pace no papel de sua vida e Oscar Isaac provando que manda bem também na telinha!

ATRIZ - DRAMA
Tatiana Maslany (Orphan Black)
Se fosse por personagens bem encarnados durante o ano, Tatiana Maslany competiria com ela mesma. A moça dá aula de versatilidade na pele dos clones de Orphan Black. Felicity Huffman e Viola Davis comprovam a excelência em seriados bem diferentes sobre crimes (e castigos). A Eva Green brilhou mais uma vez como a estranha Vanessa. Também vale destacar Céline Sallete, que manteve a dignidade mesmo nos momentos mais irregulares da aguardada segunda temporada da série francesa. 

SÉRIE - COMÉDIA
Orange Is The New Black 
Vi todas as temporadas de Orange is the New Black em 2015 e me impressiona como a série fica cada vez melhor. Em 2015, a terceira temporada ficou sensacional! Girls também amadureceu bastante e conseguiu o seu melhor ano. Veep continua no páreo, assim como Silicon Valley. Estreante de respeito do ano foi Togetherness que trouxe o humor domiciliar de Mark Duplass para a telinha. 

SÉRIE - DRAMA
Mr. Robot
Podem falar que você já viu essa história antes, mas o fato é que Mr. Robot foi a série do ano por não ter medo de investir em tudo que tornasse a jornada do hacker Elliot Anderson cada vez mais estranha: edição, trilha, iluminação, locações, tudo colaborou para contar a história da queda da Evil Corp. Assim, a série roubou a cena da última temporada de Mad Men, da maturidade da Marvel com Demolidor, do clima deliciosamente retrô de Halt and Catch Fire e da temporada ainda mais encapetada de Penny Dreadful. 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

§8^) Fac Simile: Adam Driver

Adam Douglas Driver
Em meio às viagens de divulgação do novo filme de Star Wars, Adam Driver ainda encontra tempo para caminhar. Foi num desses momentos que nosso repórter imaginário encontrou o intérprete de Kylo Ren, forte candidato ao posto de maior vilão da nova fase da saga. Nessa caminhada, ao lado do ator de 32 anos, nosso repórter imaginário conseguiu fazer cinco perguntas nessa entrevista que nunca aconteceu: 

§8^) Como é fazer parte da família Star Wars com o peso de honrar o legado de Darth Vader?

Adam É muito doido! O cinema tinha me proporcionado papéis pequenos, de destaque só em filmes independentes. Essa projeção eu nunca havia alcançado, fico satisfeito com o fato de algumas pessoas considerarem que já faço parte de algumas cenas antológicas da saga, mas sei que terei muito o que fazer para Kylo Ren chegar ao nível de Vader... acho que em O Despertar da Força ele dá apenas uma pequena mostra do que fará no futuro.

§8^) E ouviu alguma maldade com relação à sua escolha para o papel? 

Adam Ah, muita coisa! Teve gente dizendo que tinham sorte de eu aparecer com o rosto coberto por quase todo o filme, que cobriram minhas orelhas para evitar risadas... esse tipo de idiotice de quem não tem o que fazer! Mas não estou nem aí, nunca desejei mais um rostinho padronizado. Gosto dele assim, meio desajeitado, diferente e único, assim que me reconheço e construo a minha identidade. 

§8^) Já escutei muita gente que assiste Girls dizendo como pode alguém com um corpo tão bonito ter um rosto tão assim... 

Adam kkkkk escuto isso o tempo todo! O mais engraçado é que as pessoas desenvolveram um certo fetiche por mim, pedem para tirar fotos comigo e de repente pedem para eu tirar a camisa... e me refiro a homens e mulheres! Acho que Girls me ajudou muito nisso! Adam era para parecer em poucos capítulos, mas explorei ao máximo essa coisa meio homem-objeto que ele tinha. Depois fui ganhando espaço e já cheguei na quinta temporada, fui indicado a prêmios, recebi convites para filmar com Spielberg, Noah Baumbach, os Coens, Star Wars... rola até um ciuminho... mas manter esse corpinho e esse rostinho não é fácil...

§8^) Falando em prêmios, você ganhou o prêmio de melhor ator em Veneza com Corações Famintos em 2014, mas o filme encontra problemas para sair do circuito de Festivais... acha que sua presença em Star Wars pode ajudar o filme a sair desse limbo?

Adam Corações Famintos é um filme muito especial para mim, quem viu gosta bastante... ainda que o considere incômodo. Acho que isso dificulta a distribuição do filme. Sabe como é, como artistas, nós queremos fazer a plateia pensar em coisas nem sempre agradáveis e nem todos gostam. É bacana fazer um seriado como Girls, uma superprodução como Star Wars, mas infelizmente nem todas as produções recebem a mesma projeção. Nisso perde não apenas a arte, mas o próprio público que perde a oportunidade de ver obras com vozes únicas pelos simples fato de não ter passado num cinema por perto. 

§8^) Você pensava em se tornar famoso enquanto servia a Marinha dos Estados Unidos?

Adam Não mesmo... a vida é muito engraçada! Eu só não fui ao Iraque por conta de uma lesão praticando mountain bike! Se eu fosse, acho que as chances de eu estar falando com você seriam mínimas! Quando fui para Juilliard School [renomada escola de artes americana] estudar Drama, eu pensava apenas em atuar, o resto foi consequência. Mas, talvez eu houvesse me tornado cantor! Quando eu era menino, eu cantava no coral da igreja e era muito elogiado! Segui esse caminho até a adolescência... aí mudou tudo! Agora sou apenas um Jedi seduzido pelo lado sombrio da força, afinal, me ofereceram o sabre de luz mais f*da do universo!! Todo mundo quer um sabre de luz cruzado agora! O mundo tem muita inveja, não é mesmo? kkkk

NaTela: Star Wars - Episódio VII: O Despertar da Força

Kylo Ren encontra seus inimigos: Obrigado, JJ Abrams!

Sou desses que recebeu com muita satisfação o fato de JJ Abrams assumir a terceira fase de Star Wars nas telas - e curti mais ainda quando ele jogou no lixo as sinopses desenvolvidas por George Lucas para os episódios VII, VIII e IX da saga. Com todo o respeito que George Lucas merece por gerar o universo Star Wars na década de 1970, devemos admitir que o que ele fez nos últimos três filmes da saga (que narravam a transformação de Anakin Skywalker/Darth Vader)  foi de uma ruindade digna do lado sombrio da força (um verdadeiro teste de lealdade aos fãs da série). Depois que a Disney comprou a LucasFilms, eu não imaginava que respiraria tão aliviado! Sob o pretexto da própria cronologia da saga, Abrams ignora boa parte do que foi realizado na trilogia mais recente do universo, utilizando referências da produção dos filmes originais. Ao contrário do que Lucas fez nos filme mais recentes, JJ preferiu utilizar locações reais, maquetes e cenários concretos, espantando o artificialismo das cenas. Além disso, o mais importante está lá: o esforço em emular a mesma magia da trilogia original. Por isso, Abrams mantém o foco do episódio VII na busca por Luke Skywalker, mas apresenta novos personagens que respeitam os signos do universo da trilogia original. Mais de trinta anos se passaram naquele universo e a chamada Primeira Ordem pretende recuperar os ideais que moviam o Império sombrio de Darth Vader e seus companheiros. A saga de Luke, Leia e Han Solo é visto quase como uma mitologia pelos mais jovens, mas serve de base para o movimento de resistência que pretende evitar a ascensão do mal mais uma vez. Assim, com Luke desaparecido, o roteiro reserva lugares especiais para Princesa Leia (Carrie Fisher, vivendo a princesa madura de forma bastante coerente) e Han Solo (Harrison Ford, ainda dominando o personagem com maestria) que tem uma grande pendenga familiar para resolver... afinal, pendenga familiar é o grande motor de toda a saga - e você perceberá que a árvore genealógica da família Sywalker cresceu e vê o legado (dos dois lados) da força para preservar. Embora a história comece com o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac, bom como sempre, mas num personagem que merece ser ampliado no futuro) e seu robô (já cultuado) BB-8, a narrativa centra-se cada vez mais na jovem Rey (Daisy Ridley) e no stormtrooper desertor Finn (John Boyega, que poderia ser menos cômico) que cruzam o caminho de Solo e Chewbacca (o mesmo Peter Mayhew) enquanto tentam levar BB-8 para a Resistência  e fugir da primeira ordem liderada pelo líder supremo Snoke (Andy Serkis). Snoke tem ao seu lado Kylo Ren (Adam Driver, excepcional) um rapaz que possui laços mais do que ideológicos com Darth Vader e que, após treinamento Jedi, bandeou-se para o lado obscuro da força. Essa é a base para que Abrams nos provoque um deslumbramento nostálgico com cenas de ação espertas, efeitos especiais perfeitos e muita atenção aos detalhes (as máquinas gastas, os figurinos, a direção de arte vintage), mas sem perder de vista a dimensão humana do que está em jogo (sem falar nos discursos que remetem diretamente aos discursos de ódio que encontram na internet território fértil nos dias atuais). Existem partes que já soam clássicas, a maioria protagonizada por Kylo Ren (a cena em que tenta extrair informações de Rey, seu duelo com a mocinha ou o seu encontro com um dos personagens clássicos da série), o que demonstra potencial para o moço se tornar um vilão de respeito - assim com Rey é seu oposto. Com a cena final prometendo mais um Jedi a caminho desejamos que Episódio VIII (previsto para 2017) estreie o mais rápido possível - especialmente com as expectativas que este deixa no ar. A Força despertou tão vigorosa como deveria!

Star Wars - Episódio VII: O Despertar da Força (Star Wars - Episode VII: The Force Awakens/EUA-2015) de JJ Abrams com Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver, Harrison Ford, Carrie Fisher, Andy Serkis, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson, Lupita N'Yongo, Max von Sydow, Peter Mayhew e Gwendoline Christie. ☻☻☻☻

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

SAGA STAR WARS - Episódios I, II, III, IV, V e VI

Chewie, Luke, Kenobi e Solo: nasce um clássico. 

No passado numa galáxia não muito distante, um ser, fascinado pelas aventuras de Flash Gordon, queria levar as aventuras do herói para a tela grande. No entanto, ele tinha menos de trinta anos, alguns curtas e dois longa-metragens no currículo - nenhum com sucesso de bilheteria que garantisse que ele daria conta de tamanha empreitada. Sem o direito para levar o herói para as telas ele resolveu criar seu próprio univers - uma mescla de referências dos filmes de aventura que apreciava tanto. Na galáxia dos anos 1970, esse ser resolveu misturar aventuras espaciais, heróis do deserto,  filmes de samurai, faroestes, pilotos de aviação, robôs divertidos, jovens preocupados com seu lugar no mundo e uma trilha sonora que ecoa os grandes épicos de Hollywood. Era assim que George Lucas criou sua maior obra: Guerra nas Estrelas. Star Wars estreou em 1977 e nem imaginava se chamar Uma Nova Esperança, começava como a quarta parte de uma saga intergaláctica que ninguém imaginava que daria certo, afinal, o cinema blockbuster hollywodiano ainda mal tinha tomado forma. Considerado um "faroeste de ficção científica" e estrelado por desconhecidos, o estúdio estava tão certo do fiasco que nem se importaram de deixar em nome de George Lucas todos os diretos de qualquer produto relacionado à sua criação. Ao estrear, Guerra nas Estrelas conquistou uma legião de fãs, custando 11 milhões de dólares e arrecadando mais de 460 milhões ao redor do mundo - somente na época de seu lançamento. A saga começava apresentando nosso protagonista, Luke Skywalker (Mark Hamill no papel de sua vida), um jovem virtuoso que após a morte dos tios que o educaram se junta a um cavalheiro Jedi chamado, Ben "Obi Wan" Kenobi (Alec Guiness, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), dois robôs, um piloto arrogante, Han Solo (um antológico Harrison Ford), e seu parceiro wookie, Chewbacca (Peter Mayhew) para resgatar uma princesa (Carrie Fisher) que era prisioneira de um dos maiores vilões da galáxia, Darth Vader (David Prowse com voz de James Earl Jones) - que fazia mais do que impressionar com a voz e o figurino sombrio. Tudo poderia dar errado, não fosse o tom certo entre a solenidade e a diversão impressa pelo criador. Enquanto apresentava seu universo ao público, formado por mundos fantásticos permeados pela luta do bem contra o mal, a plateia nem se dava conta que o roteiro construía seu mais poderoso sub-texto, que se revelaria somente no filme seguinte. Enquanto assistíamos aos voos na velocidade da luz, os sabres de luz, a vocação de Luke para se tornar um cavaleiro Jedi, George Lucas contruía um universo cinematográfico cheio de possibilidades, mas o melhor ainda estava por vir (e vale lembrar que o filme concorreu a onze estatuetas no Oscar  - incluindo filme, direção e roteiro - mas levou somente seis para a casa, todos em categorias técnicas). 

Vader e Luke: SPOILER! SPOILER! SPOILER!

Três anos depois do culto à Star Wars, George Lucas aprofundou as temáticas de sua obra, compondo uma trilogia. O Império Contra-Ataca amplia as relações apresentadas no filme anterior e revela um segredo que gerou um dos momentos mais dramáticos da história do cinema e é considerado o melhor filme da saga. Lucas preferiu somente assinar o roteiro e a produção do longa, entregando a direção para Irvin Kershner, que fez um trabalho excepcional na direção, especialmente por conduzir uma trama mais sombria e pessimista do que a apresentada no filme anterior. Enquanto Luke Skywalker começa a descobrir o seu destino, o flerte entre a Princesa Leia e Han Solo se intensifica, ainda que Luke desperte algum ciúme. Conforme o título anuncia, depois dos ataques sofridos nos filme anterior, o Império está pronto para revidar - enquanto Skywalker prossegue seu treinamento Jedi com o mestre Yoda (feito e interpretado pelo hoje diretor Frank Oz, que moldou Yoda com base em seu próprio rosto). Crescente em sua tensão, Lucas contou com dois colaboradores importantes no miolo de sua saga: o veterano Leigh Brackett e o novato Lawrence Kasdan intensificaram o romance, a dramaticidade e o tom cômico da interação entre os robôs C3PO e R2D2, tendo Kershner para criar a atmosfera perfeita para o ápice do anúncio da paternidade em um dos maiores SPOILERs da história do cinema. Ao final da sessão, a plateia segurava o coração na mão e aguardava ansiosa pelo capítulo seguinte e os estragos que o lado sombrio da força ainda era capaz de fazer. Lançado em 1983, o episódio VI - O Retorno de Jedi, marca a luta dos rebeldes em mais uma tentativa de derrotar o Império do mal. No entanto, nossos heróis precisam resgatar Han Solo que está sob os cuidados do nojento Jabba the Hutt. Com Richard Marquand na direção, o início é uma exibição plena de monstrinhos intergalácticos e referências às antigas matinês cultuadas por George Lucas. Das cenas de ação um tanto cômicas, passando pelo biquini futurista de Princesa Leia, o filme muda o tom logo depois, mostrando Luke Skywalker mais introspectivo e ainda lidando com o segredo de suas origens - ao ponto de se entregar à Vader enquanto seus amigos lutam ao lado dos fofinhos Ewooks (um claro apelo às crianças depois do clima pesadão do filme anterior). Ainda que funcional, essa pegada mais leve faz o filme pagar um preço ainda mais alto de ter que lidar com um desfecho que já era esperado por todos. Talvez por isso, muitos o considerem o menos interessante da trilogia original, ainda assim, é bastante coerente às ideias já apresentadas por George Lucas. Lembro até hoje que ao assistir o primeiro filme da saga eu perguntava para todos os adultos onde estavam os três primeiros episódios da história, eu achava estranho que sempre me diziam que eles não existiam. Vinte e dois anos separam o primeiro Star Wars de seu capítulo inicial, talvez por ter esperado por tanto tempo, Star Wars - Episódio I: A Ameaça Fantasma tenha decepcionado tanta gente (eu, inclusive).

Anakin: a origem de Darth Vader.

 A primeira trilogia tem uma força considerável ainda hoje e quando Lucas retomou sua saga não exibiu o mesmo brilho de antes. O problema talvez seja que o diretor perdeu o pique de décadas atrás e entregou uma trama que complica demais uma história que não tem muito para contar, assim, a saída foi apelar para os efeitos especiais, mas o filme tem outros problemas. O maior deles seja apresentar o jovem Anakin Skywalker (vivido pequeno por Jake Lloyd e mais velho por Hayden Christensen) numa trama que mistura Federação de Comércio, bloqueio a Naboo, votos do senado galáctico, Siths que só podem existir em pares... pois é, Star Wars virou aula de economia política intergaláctica! Diálogos sem graça e atores perdidos deixaram um gosto estranho na memória de vários fãs. O foco que deveria ser a descoberta de um promissor Jedi, o jovem Anakin (que se transformaria no temido Darth Vader), se perde num roteiro que, pasme, apresenta mal o personagem - eu sempre tenho a impressão que tudo o que realmente interessa está completamente diluído numa história sem graça, perdendo tempo com criaturas do porte de Jar Jar Binks (uma das piores criações digitais do cinema). George Lucas teria perdido a mão? Provavelmente. Diante de todos os problemas, Lucas convocou Jonathan Hales (que antes assinou o roteiro de filmes pouco conhecidos e... O Escorpião Rei/2002) para ajudar no texto... e os fãs tremeram. Era público e notório a paranoia de Lucas ter controle absoluto da nova trilogia, mas o nível de cobrança sobre Episódio II: Ataque dos Clones era gigantesco. O filme aprofundaria o romance proibido entre Anakin e a Rainha Padmé (Natalie Portman) anunciado no filme anterior. Ewan McGregor volta ao batente como um jovem Obi-Wan Kenobi e junto com Anakin precisa proteger a rainha das ameaças separatistas e algumas revelações aparecem! Uma delas é a arrogância de Anakin, que já aparece tentado para o lado negro da força. Com mais assunto que o filme anterior, Lucas recebeu menos reclamações, mas sua falta de habilidade na condução dos atores ficou ainda mais notório, rendendo críticas à inexpressividade de Portman e, especialmente, Christensen em meio a mais conspirações políticas: o romance não decola. Quando Episódio III - A Vingança dos Sith estreou em 2005, era visível como o diretor estava exausto (pontuada por sua declaração de que tudo acabaria aqui, que não existia outras histórias para filmar). Fazer os três longas seguidos, aguentando reclamações e bilheterias abaixo da expectativa tornaram o terceiro filme ainda mais bem vindo. Novamente sozinho no roteiro, Lucas teve a ingrata tarefa de transformar seu herói num dos maiores vilões do cinema em um curto espaço de tempo. Como Hayden Christensen também não apresenta habilidade como ator para tanto, você imagina onde está o maior problema do filme. Sorte que Lucas corta as piadinhas, investe num tom mais sombrio e, finalmente, se dedica a fazer o que era para ser feito desde a primeira parte: mostrar a transformação de Anakin em Darth Vader. A sensação é que os outros dois filmes eram uma grande (e complicada) enrolação para chegar até o final de A Vingança dos Sith. Ao fim dessa nova trilogia desengonçada, a maior conclusão era que George Lucas envelheceu mal e o que era para ser uma aventura sobre a ascensão de um dos maiores vilões do cinema, tornou-se três filmes chatos e pretensiosos sobre tudo que a saga original não era. Talvez o resultado fosse melhor se os três filmes fossem condensados em um só, mas o velho Lucas tinha outros interesses em mente (e agora você entende porque os roteiros escritos por ele foram para o lixo quando geraram a novíssima trilogia capitaneada por JJ Abrams, mas isso é assunto para o próximo post).  

Star Wars - Episódio I: A Ameaça Fantasma (Star Wars - Episode I - The Phanton Menace / EUA - 1999) de George Lucas com Ewan McGregor, Liam Neeson, Samuel L. Jackson, Natalie Portman e Jake Lloyd. ☻ (CATÁLOGO)

Star Wars - Episódio II:  Ataque dos Clones (Star Wars - Episode II - Atack of the Clones / EUA - 2002) de George Lucas com Hayden Christensen, Natalie Portman, Ewan McGregor e Samuel L. Jackson ☻ (CATÁLOGO)

Star Wars - Episódio III:  A Vingança dos Sith (Star Wars - Episode III - Revenge of the Sith / EUA - 2005) de George Lucas com Hayden Christensen, Natalie Portman, Ewan McGregor e Christopher Lee. ☻☻ (CATÁLOGO)

Star Wars - Episódio IV:  Uma Nova Esperança (Star Wars / EUA - 1977) de George Lucas com Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fischer, Alex Guiness e Peter Cushing. ☻☻☻☻ (KLÁSSIQO)

Star Wars - Episódio V:  O Império Contra Ataca (Star Wars - Episode V: The Empire Strikes Back / EUA - 1980) de Irwin Kershner com Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Peter Mayhew e Anthony Daniels. ☻☻☻☻☻ (FILME D+)

Star Wars - Episódio VI:  O Retorno de Jedi (Star Wars - Episode VI: The Return of the Jedi / EUA - 1983) de Richard Marquand com Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Peter Mayhew e Kenny Baker. ☻☻☻ (KLÁSSIQO)

domingo, 20 de dezembro de 2015

.Doc: Iris

Iris Apfel: um ícone americano. 

O documentário que acompanha alguns dias na vida da fashionista Iris Apfel já aparece nas listas de melhores documentários do ano e, mesmo que você não se interesse por moda, o longa do veterano Albert Maysles (falecido em março desse ano aos 88 anos) pode ser bastante interessante. Aos 87 anos, Iris continua trabalhando sem parar, mantendo o posto de ícone, sempre presente em entrevistas, editoriais e exposições, ela ainda é chamada pela denominação que a tornou famosa ("o raro pássaro da moda"). Nascida no bairro Queens em Nova York, filha de um empresário do ramo de vidros e espelhos e uma dona de boutique, Iris cresceu numa família judia e estudou História da Arte na Universidade de Nova York, além de ter frequentado a escola de arte da faculdade de Winsconsin. Em 1948 ela se casou com Carl Apfel e juntos começaram a trabalhar com decoração de interiores. Por conta do trabalho viajaram o mundo todo em busca de objetos, tecidos e roupas artesanais. Respeitada na carreira, Iris apresenta um senso estético e história incomum (mesmo para a indústria da moda) participando de vários cursos para alunos de arte e moda pelo mundo. Dona de um estilo inconfundível, ela revela um pouco de sua personalidade para a câmera de Maysles que tenta decifrar um pouco sobre essa senhora instigante. Com muita simpatia e humor sutil, Iris reforça a todo instante o contraste entre sua personalidade discreta, as roupas multicoloridas e os assessórios exuberantes que utiliza a todo instante. Percebe-se uma identidade fashion bem construída, que valoriza o uso das cores e peças grandes e arrojadas, combinadas para que criem um todo coerente, como uma composição artística. Iris procura peças novas em feiras e brechós, se desfaz de peças raras de sua coleção (porque está precisando de mais dinheiro), ensina a jovens estilistas em formação que o mais importante é ter senso histórico perante o mundo (onde, segundo ela, tudo está relacionado, política, economia, moda, cultura...), critica quem se acha estiloso e se veste igual a todo mundo, assim como estilistas que não costuram, mas "pegam peças velhas e trocam apenas um botão para a nova coleção". Sempre acompanhada do esposo Carl (que tem estilo discreto, mas que também se aventura a escolher peças diferentes para um senhor prestes a completar cem anos nas filmagens). Iris, é um mergulho numa personalidade mundial única, que desfaz certo desdém que existe pelo mundo da moda por considerá-lo fútil e banal. Iris Apfel ressalta a moda como elemento cultural, histórico e artístico, além de elemento importante na construção da identidade de milhares de pessoas ao redor do mundo - além disso, deixa claro que ter estilo tem pouco a ver com ser bonita e seguir os padrões da moda. Com discursos e frases bem construídas, Iris ainda é um exemplo para toda uma legião de admiradores e, mesmo o experiente cineasta, prefere apenas segui-la a tentar explicar a origem de toda a mítica que há em torno dela. 

Iris (EUA-2015) de Albert Maysles, com Iris Apfel e Carl Apfel. ☻☻☻

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

10+ MELHORES FILMES DE 2015

Não poderia faltar a tradicional lista dos filmes favoritos que assisti em 2015! Para evitar confusões, fiz uma delimitação dos filmes usando como base a segunda quinzena de dezembro - senão a lista não ficaria pronta nunca (e não se preocupe, Star Wars estará na próxima - afinal, a sua maior repercussão virá daqui para a frente e eu, infelizmente, ainda não assisti!). Segue a lista dos que ficarão na minha memória por muito tempo (em ordem alfabética)... 

de Alejandro González Iñárritu

de Jeremy Saulnier

de Pete Docter e Ronnie Del

de Alex Garland

de Lenny Abrahamson

de Ana Lily Amirpour

de J.C. Chandor

de Joon Ho-Bong

de Anna Muylaert

de Damien Chazelle

Breve: Rainha da Terra

Waterston e Moss: duas amigas lavando a roupa suja no campo. 

Os últimos meses foram tão corridos, que eu deixei de escrever sobre os filmes exibidos no Festival do Rio 2015. Por conta disso, resolvi escrever quando chegassem ao circuito comercial, mas como alguns amigos sempre me perguntam sobre o que vi, vou adiantar a postagem deles conforme termino os textos. Um dos que vi foi novo filme de Alex Ross Perry, que dividiu opiniões. A ideia é interessantíssima, mas seu desenvolvimento deixa a sensação que poderia ir mais longe. Sua fonte de inspiração é visivelmente o terror psicológico muito comum na década de 1960 e 1970 no cinema americano. Da fotografia granulada, passando pela fonte dos créditos e a trilha sonora, Rainha da Terra quer parecer propositalmente datado. Essa estética lhe confere certo charme e facilita ao espectador desavisado entrar no clima da obra do diretor que adora temperar suas histórias com toques freudianos. Desde a primeira cena vemos que Catherine (Elisabeth Moss) está enfrentando um momento ruim. Com a maquiagem borrada, ela reage de forma descontrolada ao fim do seu relacionamento amoroso com James (Kentucker Audley). Para piorar, ela ainda não digeriu muito bem a morte do seu pai, um artista com o qual trabalhou durante anos, ou seja, Catherine, precisa encarar sua vida sozinha pela primeira vez. Nessa jornada pessoal complicada, ela conta com a amiga de longa data Virginia (Katherine Waterston) que a convida para uma espécie de retiro numa casa de campo. Além da depressão de Catherine, existe uma certa tensão entre as duas, que torna os diálogos cortantes quando alguns ressentimentos vem à tona, ajuda nos desentendimentos entre as duas a presença de Rich (Patrick Fugit), namorado de Virginia com o qual não se entende muito bem. Alex Ross Perry opta por deixar tudo meio no ar, sem esmiuçar explicações ao espectador, que aos poucos percebe as qualidades e defeitos dos seus personagens e o que da personalidade de um, incomoda no outro (mas eu teria dispensado as cenas de flashback que ressaltam como Catherine era dependente dos seus relacionamentos e enfatizado mais o retrato de uma amizade que anda em descompasso). Elisabeth Moss realiza um bom trabalho na desconstrução de uma personagem que torna-se cada vez mais estranha, mas o roteiro poderia ter ajudado lhe oferecendo mais cenas como a da festa, do passeio de barco ou da discussão com Rich (que só reforçam que o diretor/roteirista tinha uma ótima ideia em mãos, mas que não sabia muito bem o que fazer com ela). Katherine Waterston, que chamou atenção ano passado em Vício Inerente/2014, tem participação discreta mas interessante como a melhor amiga desencanada da protagonista. Rainha da Terra poderia ser ter se tornado um grande filme se o diretor não tivesse ficado amedrontado com a evolução do seu texto, a dicotomia entre os personagens funciona bem, deixando a trama cheia de possibilidades, mas o diretor apenas exibe suas ideias, não conseguindo concluir suas intenções, sendo assim, o resultado é apenas curioso.

Rainha da Terra (Queen of Earth/EUA-2015) de Alex Ross Perry com Elisabeth Moss, Katherine Waterston e Patrick Fugit. ☻☻☻

§8^) Fac Simile: Jason Segel

Jason Jordan Segel
O repórter imaginário estava num pub quando reconheceu aquele baterista, era o ator Jason Segel  numa banda de amigos. Nosso intrépido perguntador conseguiu essa entrevista (que nunca aconteceu):


§8^) Fiquei muito feliz com sua indicação ao Independent Spirit de melhor ator por O Final da Turnê, você em algum momento teve medo de aceitar um papel tão complicado como David Foster Wallace? 

Jason Eu não diria que tive medo, mas fiquei assustado por confiarem um papel desses para mim. Acho que David não se achava complicado, o mundo que fazia ele parecer complicado. Eu apenas tive que captar a essência dele! E eu já captei a essência de personagens bem menos interessantes... 

§8^) Certa vez você disse que ficaria "Sarado feito Ryan Reynolds", como vai essa transição?

Jason Dá um trabalho do %*#@$§ fazer isso! Descobri que nosso corpo é uma coisa muito ingrata! É uma verdadeira covardia você fazer uma hora de esteira e perder dois gramas!!! Em contrapartida, você toma uma bola de sorvete e engorda dez quilos! Já desenvolvi até alergia às barras de cereal! Acho que o corpo está sempre de brincadeira com a gente... pena que nem sempre a brincadeira é engraçada!

§8^) Você apareceu bem mais magro em Sex Tape, ao lado de Cameron Diaz...

Jason Nem me lembre... eu me achava parecido com um zumbi naquela época... os quilos que perdi eu ganhei em anos de envelhecimento. Parecia o meu avô... e eu só tinha trinta e três anos naquela época!!

§8^) O engraçado é que sempre pensei que você tinha um bom relacionamento com o seu corpo, afinal você vivia se mostrando nos filmes...

Jason Pois é, aí eu descobri que os diretores me colocavam sem roupa porque achavam aquilo engraçado... é um daqueles momentos em que a vida muda para sempre de repente... tipo quando você descobre que Papai Noel não existe ou que as coisas que você compra com o Cartão de Crédito você tem que pagar em dinheiro no mês seguinte...

§8^) Mas a internet está cheia de pessoas que vivem colocando você nas listas dos homens mais sexys de Holywood...

Jason O mundo é cheio de pessoas muito generosas, não é mesmo? Todo dia eu olho para Michelle (Williams, esposa de Jason) e digo que ela é uma das melhores pessoas do mundo! 

Na Tela: O Fim da Turnê

Segel e Jesse: cinco dias de entrevista. 

Em 2015 Jason Segel deixou definitivamente de ser um "comediante" para ser um "ator". Os comediantes sabem o que isso tem de verdadeiro e um tanto pejorativo, afinal, comediantes sempre geram desconfiança (e muita curiosidade) quando são escolhidos para viver papéis dramáticos. É verdade que o grandão (1,93 metro) já havia demonstrado capacidade de gerar mais do que risadas em alguns de seus filmes, mas o que vemos em O Fim da Turnê é um momento importante de sua carreira, um verdadeiro divisor de águas, já que o ator desaparece completamente na pele do complexo escritor David Foster Wallace. A sua interpretação de um dos maiores gênios da recente literatura americana é sutil o bastante para ampliar nossa percepção sobre um autor que se suicidou aos 46 anos, em 2008, o fato o tornou um mito e uma espécie de enigma. Eu ouvi falar de David Foster Wallace quando sua obra-prima The Infinite Jest foi lançada em 2013 aqui no Brasil sob o título de Graça Infinita. Lançado originalmente em 1998, o livro com 1.139 páginas, foi rapidamente considerado uma das maiores obras da língua inglesa com sua história sobre um futuro onde um programa de televisão hipnotiza seus espectadores. O livro foi escrito enquanto David tentava exorcizar seu passado depressivo, alimentado por álcool e instituições psiquiátricas. Tendo isso em vista, O Final da Turnê torna-se ainda mais interessante, já que retrata a entrevista feita por David Lipsky (Jesse Eisenberg), também escritor (Lipsky lançou seu primeiro livro no mesmo ano que Graça Infinita) e jornalista da revista Rolling Stone. A entrevista foi realizada no período em que David terminava sua turnê de divulgação do livro - que já era um sucesso de crítica - e o filme é baseado no livro lançado por Lipsky sobre os cinco dias de convivência para uma entrevista que nunca foi publicada. O filme começa quando Lipsky é informado sobre o suicídio de Wallace e a narrativa caminha pautada em suas memórias. Com tantos elogios, David Foster Wallace (Jason Segel) surge como a antítese do que imaginamos, inteligente e sem traço de arrogância, aparece como um sujeito comum que não sente-se seduzido pelas ilusões de fama e o culto da mídia e reclama de não poder lecionar tão bem quanto poderia. Wallace não vê conflitos em sua infância ou vida familiar e pretende preservar quem o cerca da publicação da entrevista e, nesse ponto, ao mesmo tempo que Lipsky lhe parece tão próximo e íntimo como um amigo, ao mesmo tempo surge como uma ameaça para a bolha de estabilidade que criou em torno de si mesmo. Por outro lado, Lipsky não consegue esconder sua admiração por Wallace e o desejo de ter parte daquele reconhecimento como autor. É interessante como o diretor Jason Ponsoldt (de O Maravilhoso Agora/2013 e Smashed/2012) não tem receio de centrar sua narrativa nas conversas dos dois sujeitos, refletindo a admiração e as reservas que nascem entre os dois (além de reafirmar o interesse do cineasta por personagens que enfrentam o limite). Das ambições de Lipsky à serenidade de Wallace, sempre paira sobre eles o fantasma do suicídio, o que nutre o filme de uma melancolia de outro mundo, que ressignifica cada palavra, gesto ou olhar do personagem, por isso mesmo, Jason Segel está de parabéns por preencher o personagem com uma alma quase transparente, que revela-se aos poucos e se despede de nós com algumas das cenas mais emocionantes que já vi no cinema recente. O Fim da Turnê deve aparecer somente entre os indicados aos prêmios do cinema independente (o Independent Spirit indicou Segel e o roteiro), mas merece um lugar de destaque na minha memória.

David Foster Wallace in memorian.

O Fim da Turnê (The End of The Tour/EUA-2015) de Jason Ponsoldt com Jason Segel, Jesse Eisenberg, Mammie Gummer, Joan Cusack e Anna Chlumsky. ☻☻☻☻

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

NaTela: Sicario - Terra de Ninguém

Emily Blunt (à frente): no subterrâneo das drogas. 

O canadense Denis Villeneuve é um dos cineastas em ascensão no momento e, uma de suas maiores características, é não tornar-se repetitivo. Depois da visão um tanto épica de Incêndios (2010), passando pela barbárie de Os Suspeitos (2013) e os enigmas de O Homem Duplicado (2013), ele decepcionou alguns de seus admiradores com o resultado de Sicario, um filme de combate ao tráfico de drogas só que com alguns pontos bastante diferentes. Para começar ele tem a coragem de colocar Emily Blunt no alto dos créditos para deixá-la quase de lado o filme inteiro. Ela interpreta a agente do FBI Kate Macer, esperta e durona, depois de uma ação bem sucedida onde encontra corpos não identificados numa casa ela é convidada a participar de uma ação ofensiva da CIA para destruir um cartel de drogas na fornteira com o México. No entanto, as coisas não são como ela imagina, afinal, ela não faz a mínima ideia do que está acontecendo enquanto acompanha o agente Matt Graver (Josh Brolin) e seu parceiro Alejandro (Benicio Del Toro). A maior parte do tempo ela acompanha a dupla colocando sua vida em risco, sem saber o que estão de fato procurando. Villeneuve faz da ausência de conhecimento uma ferramenta narrativa perigosa para sua plateia, que deve deixar se envolver pelo fluxo enigmático da ação para saber o que irá acontecer ao final (tal e qual sua heroína). Particularmente, não gostei muito do resultado. Existem umas quatro cenas que impressionam (a descoberta dos corpos, a cena na fronteira do México, a dos famigerados túneis clandestinos e o encontro esperado desde o início), mas o roteiro é bastante inconsistente, transbordando canastrice aos homens que cruzam o caminho de Kate. Chega a dar pena de Emily Blunt, uma boa atriz, mas que aqui parece desperdiçada, faltando uma cena de destaque para sua personagem (a sua última cena é legalzinha, mas não tem a grandiloquência necessária para fechar o filme como deveria). Embora Villeneuve demonstre maestria na construção das imagens, construindo ângulos e planos envolventes, o roteiro do estreante Taylor Sheridan parece querer dar um passo maior do que a perna, deixando vários pontos pelo caminho e deixando o resultado um tanto simplista. Não fosse as belas (e perturbadoras) imagens compostas por Villeneuve e seu trio de atores principais, Sicario teria recebido menos destaque durante o ano e deixaria mais claro que é um dos maiores desperdícios de 2015. 

Sicario - Terra de Ninguém (Sicario/EUA-2015) de Denis Villeneuve com Emily Blunt, Josh Brolin, Benicio Del Toro e Victor Garber. ☻☻

NaTela: O Presente

Hall, Joel e Jason: visita do passado. 

Nascido em 1974 na cidade de Blacktown na Austrália, Joel Edgerton atua nas telonas desde 1996, mas recebeu papéis de destaque em produções renomadas a partir do seu trabalho no ótimo Reino Animal (2010). Depois de trabalhar com diretores importantes, o ator se aventura atrás das câmeras com o suspense O Presente, em cartaz no Brasil desde o dia 03 de dezembro. Se o debut de Edgerton não chega a ser mirabolante, ele merece elogios por manter o pé no chão e conduzir uma trama envolvente sem cair no ridículo, dando-se ao luxo de tornar o perfil de seus personagens mais complexo do que costumamos ver nesse tipo de filme e ainda terminar a sessão com uma enorme interrogação na cabeça do espectador. A trama começa com um casal recém chegado à casa nova, Robyn (Rebecca Hall) e Simon (Jason Bateman) acabam de comprar uma bela residência na terra natal de Simon. Ele tenta galgar promoções no trabalho e ela tenta manter suas atividades profissionais por internet e telefone, mas planejam se estabelecer e aumentar a família assim que possível. Tudo parece repleto de possibilidades para o casal, até que um antigo conhecido da escola cruza o caminho de Simon. Gordon (o próprio Joel Edgerton), mais conhecido como Gordo, encontra com o casal numa loja e demonstra-se simpático, presenteando o casal sempre que possível e aparecendo mais do que o esperado na nova residência do amigo. Gordo é sempre atencioso, presente, prestativo... até que Simon começa a ficar desconfiado de tanta dedicação. O filme evolui aos poucos - e, se torna Gordon um sujeito esquisito, Simon começa a perder sua pose de mocinho sempre que aparece mais agressivo do que deveria. Não tem jeito, existe um mistério entre os dois velhos conhecidos que irá gerar insegurança em Robyn e alguns desdobramentos surpreendentes. Há de se elogiar a forma como o diretor estreante conduz as atuações, sempre no tom correto, deixando o melhor para o final. Destaque para Bateman e o próprio Edgerton que criam sujeitos ambíguos na medida certa, evitando que os segredos se tornem banais. Há de se destacar que o cineasta também assina o roteiro, parecendo ter se inspirado naqueles suspenses domésticos bastante comuns na década de 1990 (e que fizeram a glória de Curtis Hanson em início de carreira), somado a um certo traço de Caché (2005) de Michael Haneke, onde o estranhamento recai sobre o próprio protagonista. Pela coerência com que conduz sua história, Joel Edgerton promete outras incursões em sua nova (e promissora) carreira (e o fato da bilheteria ter rendido mais de dez vezes o seu orçamento irá ajudar bastante no currículo).  

O Presente (The Gift/EUA-2015) de Joel Edgerton com Jason Bateman, Rebecca Hall, Joel Edgerton, Allison Tolman e Tim Griffin. ☻☻☻