segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DVD: Sombras da Noite

O clã Collins: menos divertido do que parece. 

Não sei se a imprensa se confundiu, mas antes de Tim Burton começar as filmagens de Dark Shadows houve quem pensasse que seu filme pós Alice (2009) seria uma nova adaptação da Família Adams. Eu até entendo a confusão, já que há algumas semelhanças entre os dois projetos - já que ambas contam histórias de famílias com um pezinho no sinistro. A série Dark Shadows tornou-se cult ao ser exibida de meados de 1966 até o início de 1971, chamando atenção do público por inserir personagens como vampiros, lobisomens, bruxas e fantasmas em sua narrativa. Dito isso nem precisa dizer o que atraiu Tim Burton num projeto desses, pois ele se juntou a outros dois fãs da série (Johny Depp e Michelle Pfeiffer) para contar a história de Barnabas Collins (Depp) um cobiçado rapaz do século XVIII, cujo a família endinheirada é contra o seu namoro com uma bela serviçal chamada Angelique (Eva Green). Apesar de apaixonado, Barnabas prefere ouvir seus pais e terminar o caso com a empregada. Ele só não contava que ela era uma bruxa capaz de amaldiçoá-lo quando é trocada por outra. Sendo assim, Angelique elimina as pessoas que Barnabas ama e o transforma em vampiro para que sofra por toda a eternidade. Para completar sua vingança, Angelique convoca a população local para que se livre daquele ser das trevas e ele acaba enterrado vivo. Nesse início promissor, Burton exibe o melhor de sua verve criativa, de forma que a intensidade das cenas relembra os melhores momentos de Sweeney Todd (2007) num apelo romanticamente gótico e envolvente. Quando alguns escavadores descobrem por acaso o caixão em que Barnabas foi sepultado o filme parece buscar outro rumo. Torna-se mais cômico com as andanças de um vampiro que hibernou por duzentos anos e despertou em meio às ousadias da década de 1970, ainda assim ele precisa saciar sua sede de sangue antes de procurar os descendentes da família Collins. Ele ruma para a decadente mansão Collins onde encontra a atual matriarca da família, Elizabeth (Pfeiffer) ao lado da filha Carolyn (Chloë Grace Moretz brincando de ser Lolita), do irmão viúvo, Roger (Johny Lee Miller), do sobrinho assombrado pelo fantasma da mãe, David (Gulliver McGrath) que é acompanhado por um psiquiatra (Helena Bonhan Carter) e por uma babá (Bella Heathcote) recém contratada que é muito parecida com a amada falecida de Barnabas. Quando explora  a presença de um vampiro em uma época diferente de sua origem o filme consegue fazer algumas gracinhas, o problema é quando precisa contar uma história e o roteiro se mostra mais frouxo do que deveria. Quando Barnabas tenta recuperar o prestígio de sua família decadente o que mais interessa são os seus encontros com a bruxa Angelique que se tornou a pessoa mais influente daquela região através dos séculos. Pena que a coisa vai se arrastando, numa mistura pouco eficiente de humor e horror, onde os coadjuvantes são muito mal desenvolvidos. O interesse de Barnabas pela babá de David não empolga e o roteiro começa a piorar tudo quando perto do final fica com uma pressa descontrolada de dar uma conclusão aos personagens (infelizmente a de Carolyn é a mais mal resolvida). Mal resolvido, Sombras da Noite entrega menos do que promete, o que chega a ser triste para um filme com visual certo e um dos elencos mais bacanas do ano em personagens que poderiam render muito mais. Mesmo assim, Depp deve ser indicado ao Globo de Ouro de ator de comédia mais uma vez. 

Sombras da Noite (Dark Shadows/EUA-2012) de Tim Burton com Johny Depp, Michelle Pfeiffer, Eva Green, Helena Bonhan Carter, Jackie Earle Haley, Chloë Grace Moretz e Johny Lee Miller. ☻☻ 

domingo, 28 de outubro de 2012

CATÁLOGO: O Livro de Cabeceira

McGregor: O livro favorito de Nagiko. 

Antes de se tornar um galã em Hollywood, Ewan McGregor chamou a atenção em filmes independentes europeus e, na grande maioria deles, adorava aparecer sem roupa. Em nenhum deles seu despudor foi mais utilizado do que neste O Livro de Cabeceira, um dos filmes de maior erotismo da década de 1990. Dirigido por Peter Greenaway quem busca um filme repleto de sacanagem e vulgaridade irá se decepcionar, mas quem busca uma produção diferente poderá ficar hipnotizado pela história apresentada pelo diretor. O diretor galês desperta amor ou ódio em quem assiste aos seus filmes. Portanto, comentar qualquer obra dele pode se tornar uma tarefa árdua. Suas obras sempre dividem opiniões e, apesar da maioria do público ter acesso às suas obras cinematográficas, ele também costuma criar espetáculos teatrais estilizados a partir da projeção de imagens, este trabalho com projeção pode ser conferido até em algumas cenas deste que é um dos seus filmes mais ousados e coerentes, mesmo tendo como ponto de partida uma ideia bem simples. Ambientado na década de 1970 o filme conta a história de Nagiko (Vivian Wu), uma garota que desde os quatro anos recebe como presente do pai os votos de feliz aniversário escritos em seu rosto. O afeto pelo pai e a descoberta de uma sexualidade dúbia em torno do patriarca, marcarão para sempre a  identidade de Nagiko pautada na escrita como expressão de sexualidade. Não bastasse isso, a personagem cresce e enfrenta uma série situações pessoais complicadas: um casamento fracassado, um incêndio, um amante calígrafo que utiliza sua pele como páginas de um romance...  é neste momento, mergulhada na atmosfera da relação de dominador (a pena) e o dominado (o papel) que Nagiko percebe que ela deve ser a "pena" da relação. É neste momento que ela cria sua história de vingança ao conhecer Jerome (McGregor) que se tornará seu amante e isca para o plano de vingança contra um editor que acredita ter prejudicado sua família. Há quem se escandalize com o romance tórrido entre Jerome e Nagiko e nem se dê conta da proposta interessantíssima proposta por Greenaway sobre a relação entre a escritora e sua obra. A protagonista envia ao editor sua obra dividida em 13 capítulos, cada um deles escrito engenhosamente sobre a pele de 13 homens em partes que fazem referência aos seus títulos (nem vou dizer onde está escrito o entitulado Livro dos Segredos). O editor fica fascinado pela história e pela forma como se apresenta de forma interativa ao leitor -  mas a autora não contava com o ciúme que sentiria de sua obra, especialmente com a escrita em seu amante (que acaba por evidenciar que ela expõe de si mais do que estava preparada a fazer, e isso poderá ter consequências trágicas para todos). Talvez por investir em cenas de nudez e sexo (emolduradas por uma fotografia avermelhada desbotada), Greenaway tenha optado por uma baixa voltagem nanarrativa. Neste processo a intensidade dos personagens é comprometida, de forma que nunca se rendem plenamente às possibilidades em vista, sendo assim, aparecem muitas vezes como objetos de narrativa e não sujeitos das ações apresentadas (mas talvez a ideia fosse essa mesmo, afinal as pessoas são transformadas em... livros!). Com cenas de grande plasticidade e o uso (quase revolucionário para época) de mostrar a tela partida para expressar diferentes olhares sobre a mesma cena, O Livro de Cabeceira (nem vou explorar o  quanto há de romantismo nesse título) exibe um Greenaway quase tão expectador quanto nós. 

O Livro de Cabeceira (The Pillow Book/França-Reino Unido/1996) de Peter Greenaway com Vivian Wu, Ewan McGregor, Ken Ogata, Yoshi Oida. ☻☻☻

CATÁLOGO: Cova Rasa


Ewan, Kerry e Eccleston: nas entranhas dos personagens. 

Acho interessante que o britânico Danny Boyle tenha um Oscar de direção (por Quem Quer Ser um Milionário/2008) e Quentin Tarantino não. O engraçado é que quando Boyle surgiu no cenário cinematográfico os rotuladores de plantão críticos logo o apontaram como o a versão européia de QT (assim como houve com Guy Rithchie e seu Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes/1998), tudo isso por conta da forma como o diretor tratava a violência com um humor negro que transbordava frescor em Cova Rasa. O filme conta a história de três amigos, a médica Juliet (Kerry Fox), o jornalista Alex (Ewan McGregor) e o contador David (Christopher Eccleston). Mais do que compartilharem o senso de humor maldoso, o trio divide um apartamento e acha uma boa ideia encontrar mais alguém para dividir o aluguel. Depois de espinafrar uma dezena de candidatos com as perguntas bizarras, Juliet conhece Hugo (Keith Allen) e ele é aceito pelos outros amigos como novo parceiro de aluguel. O problema é que não demora para Hugo ser encontrado morto na cama com uma mala cheia de dinheiro. Depois de alguma hesitação, o trio resolve sumir com o corpo e ficar com a grana. Parece que você já viu uma centena de filmes com esse tema, mas nenhum deles tem o desenvolvimento oferecido por Boyle. Mais do que investir numa violência crua que se aproxima cada vez mais dos protagonistas, o roteiro mergulha nas entranhas de seus personagens e revela o que se escondia debaixo de todas aquelas piadinhas maldosas. É interessante perceber, como a profissão de cada um é fundamental para a continuidade da história por vias sempre originais e imprevisíveis. Seja com a sabedoria médica de Juliet (uma ironia com a romântica Julieta de Shakespeare?) ou jornalística de Alex para resolver o problema de fazer o corpo não ser reconhecido, ou o processo de perturbação de David ao se deparar com o lado mais sombrio de si e de seus amigos. É o tipo de filme que não pode contar muito para não estragar as surpresas que aparecem pelo caminho, mas posso destacar a eficiência do elenco em trabalhar as mudanças em seus personagens. Embora Ewan McGregor tenha se tornado o mais famoso do trio, numa atuação que evocava diretamente um jovem Malcolm McDowell (seu personagem tem até o mesmo nome do Malcolm de Laranja Mecânica/1971) - e engatado carreira em Hollywood, seu personagem é o menos elaborado do roteiro (sua serventia é maior quando o texto insinua a formação de um triângulo amoroso que nunca se concretiza). Kerry Fox (que está longe de ser uma beldade) alcança melhor resultado trabalhando uma sensualidade sutil na personagem, ao ponto que é totalmente plausível que seus dois amigos sintam-se atraídos por ela. Já Christopher Eccleston tem a tarefa mais complicada, e a cumpre magnificamente bem. Na pele do cara certinho e subestimado, ele antecipa os atos de seus amigos como se fossem fatores de alguma conta elaborada - o problema é quando suas emoções acabam interferindo em seus julgamentos. Visto hoje eu não consigo identificar no filme toda essa relação com o universo tarantinesco, pelo contrário, acho que os outros filmes lançados por Boyle o valorizam ainda mais como um cartão de apresentação  pulsante e original. Aparecem aqui temas que retornariam em seus filmes seguintes, a mais evidente é o que as pessoas fariam por dinheiro (que aparece no desfecho de sua obra-prima Trainspotting/1996, no oscarizado Quem Quer Ser um Milionário/2008 e até no infantil Caiu do Céu/2004), a ideia da construção dos papéis num universo à parte  (A Praia/2000 , Sunshine/2007 e até 127 Horas/2010) e o trabalho com a atmosfera de horror (Extermínio/2002). Além disso, vale notar seu trabalho irônico com as imagens (a escada que parece uma espiral Hitchcockiana com um grande olho acima que observa tudo, os programas de televisão assistidos pelo grupo, a trilha sonora edificante, o brinquedo que ri, as mensagens no caixa eletrônico...). Se existe algum problema no filme são as cenas de violência crua que são inseridas de forma a quase quebrar o ritmo dos acontecimentos, mas isso não impediu o sucesso mundial da estreia de Boyle e a coroação com o prêmio BAFTA de Melhor Filme Britânico de 1994. Nascia um pequeno clássico dos anos 1990. 

Cova Rasa (Shallow Grave/Reino Unido - 1994) de Danny Boyle com Christopher Eccleston, Ewan McGregor, Kerry Fox, Keith Allen e Gary Lewis. ☻☻☻☻

terça-feira, 23 de outubro de 2012

APOSTAS PARA O OSCAR 2013 - CAPÍTULO III


Django Livre 
Depois de reformular os filmes sobre o Holocausto, parece que Quentin Tarantino quer fazer o mesmo com os filmes de faroeste: Django (Jamie Foxx), um escravo liberto que é forma improvável parceria com um caçador de recompensas chamado King Schultz (Christopher Waltz). Depois de caçar assassinos, Django contará com a ajuda de King para libertar sua esposa (Kerry Washington) que foi vendida há muitos anos para outros proprietários. Só que pelo caminho irão encontrar o poderoso Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um agricultor que treina escravos para lutar e que promete atrapalhar os planos da dupla. O que esperar do filme? Ora, qualquer coisa! Já que Tarantino não se leva a sério e parece estar disposto a por as mãos em seu primeiro Oscar de direção depois da esnobada por Bastardos Inglórios (2009).

Beasts of Southern Wild 
Apesar do nome, o cineasta estreante Behn Zeitlin nasceu em Nova York e tornou-se o responsável por um dos filmes mais comoventes do ano. Não é comum um filme americano que retrata a pobreza do país fazer sucesso, mas este aqui conta com o apelo irresistível de sua atriz principal: a promissora Quvenzhané Wallis. Com apenas cinco anos ela se tornou a alma do filme na pele da pequena Hushpuppy, uma menina de seis anos que vive numa comunidade miserável. Com a doença do pai (Dwight Henry) ela corre o risco de ficar órfã e os dois ainda terão que lidar com as dificuldades trazidas por uma tempestade.  Uma história forte de amor entre pai e filha que ganhou quatro prêmios em Cannes e o Prêmio Especial do Júri em Sundance. O filme foi lançado em outubro nos EUA e já rendeu mais de dez vezes o seu orçamento.

Ruby Sparks
Já em cartaz no Brasil o filme promete ter o mesmo destino do anterior de sua dupla de diretores (Pequena Miss Sunshine/2006)! Johnathan Dayton & Valerie Ferris continuam com o dom de contar histórias despretensiosas com toques de excentricidade com maestria. Calvin (Paul Dano) é um escritor que sofre um bloqueio criativo e em meio aos problemas que enfrenta ele resolve criar a história de uma personagem que poderia se apaixonar por ele. Assim nasce Ruby Sparks (Zoe Kazan, namorada de Dano na vida real) que... ganha vida e começa a conviver com ele em carne e osso. Nunca subestime o poder de uma comédia romântica que aborda temas sérios como solidão e controlar a quem se ama com muita imaginação (no caso, a imaginação de Zoe Kazan que escreveu o roteiro).

Anna Karenina 
Depois dos tropeços com O Solista (2009) e Hannah (2011), Joe Wright retorna aos filmes de época com sua musa Keira Knightley, afinal, é nesse estilo que ele consegue ser mais moderno e original (e isso não é sarcasmo). Depois de Jane Austen e Ian McEwan o diretor encara seu autor mais ambicioso:  Leon Tolstói - e sua história clássica de Anna Karenina (Keira Knightley com fome de Oscar), aristocrata na Rússia do século XIX, casada com Alexei Karenin (Jude Law) e que tem a vida transformada pelo adultério vivido com Conde Vronsky (Aaron Johnson). A pergunta é se um filme de duas horas dá conta de todos os conflitos de um livro extremamente denso (e looongo) - isso sem falar do risco de tropeçar na própria pretensão. No elenco ainda estão Matthew MacFadyen, Kelly MacDonald, Olivia Williams e Emily Watson. 

Mud
Ainda não entendi como O Abrigo (2011) passou em branco no Oscar desse ano. Seja como for, ele tem a chance de se redimir com o diretor Jeff Nicols neste ano com seu terceiro filme: Mud. O personagem do título é vivido de forma inspirada por Matthew McConaughey (que soma três atuações importantes neste ano com este aqui, Killer Joe e Paperboy - todos com chance de render indicações ao galã), aqui ele vive num barco junto à uma ilha se escondendo da justiça quando encontra dois adolescentes. No início todos se tratam com desconfiança, mas depois passam a agir como se Mud fosse o irmão mais velho da dupla - tanto que eles o ajudam a fugir da polícia e escapar com sua amada (vivida por Reese Whiterspoon). Elogiadíssimo em Cannes (onde foi um dos favoritos à Palma de Ouro) o filme mescla aventura e romantismo naquele clima tão comum em clássicos dos anos 1980.

domingo, 21 de outubro de 2012

DVD: Quadrilogia Alien


Sigourney Weaver: nasce o legado de Ellen Ripley

Sempre que vejo Alien: O Oitavo Passageiro (1979) tenho a impressão que Ridley Scott não tinha a mínima ideia de que iniciava o seu maior legado cinematográfico. No currículo o diretor inglês tinha apenas alguns trabalhos para a televisão e uma experiência anterior no cinema (Os Duelistas/1977), apesar de ter se reinventado nos últimos anos à frente de épicos, Alien demonstrou que o diretor ficava bastante à vontade ao dirigir uma ficção científica (tanto que voltou ao gênero em 1982 com o cultuado Blade Runner). Alien tornou-se uma referência para o gênero ao mesclar a narrativa sci-fi com o horror e gerou diversos clones menos inspirados que beberam, principalmente, seu visual industrial apocalíptico. O primeiro é considerado por muitos o melhor da saga ao apresentar a missão da tripulação da nave espacial Nostromo que investiga uma misteriosa transmissão espacial. A tal transmissão leva a tripulação para um planeta desconhecido onde existe uma forma de vida desconhecida que utiliza seres humanos como hospedeiros. Além do clima constante de horror impressiona a criação de um monstrengo cujo o sangue é ácido e a apresentação de uma das maiores heroínas do cinema, a Tenente Ripley - vivida por uma quase desconhecida Sigourney Weaver. Scott já apresenta aqui o seu gosto por personagens femininas vigorosas! No entanto, o filme não alcançaria o sucesso sem o clima certeiramente claustrofóbico impresso pelo diretor - que não se contenta em mostrar como o monstrengo tenta dizimar os outros sete passageiros da nave. Além disso, o longa apresenta aspectos que se tornariam marcas da série, como um andróide problemático (vivido aqui por Ian Holm ) e a excepcional direção de arte (indicada ao Oscar), sem falar nos mistérios (como a nave alienígena caída no planeta misterioso) que só ficam claros quando assistimos Prometheus (2012) - que apresenta uma história anterior a este clássico da ficção científica. O final eletrizante deixava o caminho em aberto para uma sequência que deveria honrar o faturamento de mais de quinze vezes o valor do orçamento (hoje, modestos onze milhões de dólares) e o Oscar de efeitos especiais.

Aliens: sequência anabolizada. 

Alien fez tanto sucesso que uma sequência parecia inevitável, no entanto ela demorou sete anos para ser realizada. O problema? O principal era a preocupação de fazer uma continuação que honrasse o legado do primeiro filme. Nos anos que separam os dois proliferaram filmes que bebiam no sucesso do longa de Ridley Scott, todas produções inferiores e com uma pegada trash mais que acentuada. O efeito interferiu o próprio lançamento da continuação oficial, já que até um Alien 2 já existia. A solução? Chamar a sequência de Aliens. A presença do S já deixava os fãs salivando com a expectativa de ter mais de um monstro no segundo filme. Dito e feito. A Tenente Ripley volta para essa aventura com ainda mais destaque na trama onde a simbologia de salvar a espécie humana fica ainda mais forte - já que ela precisa salvar uma garotinha que sobreviveu ao ataque dos Aliens à uma colônia terráquea em outro planeta. De início Ripley fica desorientada ao se ver acordada 57 anos depois do primeiro filme e pior ainda, às voltas com interesses nada nobres de uma empresa sobre os seus inimigos do espaço. Neste filme os produtores entenderam que deveriam mostrar mais monstros e ainda capricharam no confronto de Ripley com uma espécie de rainha Alien responsável pela reprodução da espécie. O responsável por essa visão mais ambiciosa dentro da franquia é James Cameron, que substituiu Ridley Scott na direção e estava disposto a mostrar que sabia lidar com cenas de ação mais elaboradas do que as apresentadas em Piranhas 2 (1981) e até em O Exteminador do Futuro (1984). Tenho a impressão que o roteiro foi ainda mais trabalhado que o anterior e o resultado foi sucesso de bilheteria e uma indicação ao Oscar de atriz para Sigourney Weaver. O filme concorreu ainda a outras seis categorias técnicas, levando para a casa a de Melhor Som e Melhores Efeitos Especiais. Seis anos depois Sigourney voltaria ao papel da Tenente Ellen Ripley, em Alien3 a personagem vai parar numa colônia penal chamada Florina 161 (e tem que raspar a cabeça por conta dos piolhos abundantes no local e para criar uma imagem ainda mais forte para a saga). Depois de tantos diretores hesitarem em assumir a franquia a tarefa ficou para o diretor de video clipes David Fincher - que teve vários problemas com a produção. 

Alien³: confronto de corpo no corpo. 

O problema principal do terceiro episódio é o roteiro, que parece ainda pior por Fincher querer  um filme mais contemplativo - e isso incomodou quem procurava a agitação presente no filme anterior. A história é mais simples e os personagens penam para não cair no estereótipo mais comum dos prisioneiros cinematográficos. Muitos também reclamaram das cenas muito escuras (onde se predominava os tons negros e vermelhos, como se a intenção fosse transformar aquele planeta prisão num inferno sideral). Sorte que Sigourney Weaver continua impregnando sua personagem com a mesma dignidade dos filmes anteriores e irá sofrer um bocado quando se der conta de que ela trouxe seu maior inimigo para aquele lugar. Fincher opta por um suspense mais sutil e deixa a tensão correr solta nos minutos finais com a presença de monstrengos ainda mais habilidosos do que nos filmes anteriores. No entanto, não é difícil perceber que o filme tem um ritmo irregular. O motivo para isso deve ser o não acordo entre o diretor e os produtores. No fim das contas o conflito na decisão pelo corte final afetou o andamento do filme, tanto que Fincher nem gosta de lembrar desse trabalho. Ainda assim, o final impressiona e parece sepultar qualquer possibilidade de haver outra continuação. Apesar das críticas o filme arrecadou mais do que o anterior (159 milhões de dólares pelo mundo), mas o orçamento estourado de 63 milhões já havia desagradado os produtores (o anterior custou 18 milhões e arrecadado 131 milhões, portanto, foi mais lucrativo). Alien3 rendeu mais uma indicação de efeitos especiais para a franquia. Ainda não sei dizer se achei uma boa ideia fazerem Alien: A Ressurreição (1997) que ressuscita a Tenente Ripley 200 anos depois de sua morte. Também não sei quem teve a ideia de entregar a direção do filme para o francês Jean Pierre Jeunet. Sem experiência no gênero, ao invés de tentar valorizar o roteiro mais fraco da franquia, Jeunet prefere fazer do filme um verdadeiro museu de horrores decorado com muita geleca. Nunca antes num filme da série se viu tanta coisa gosmenta! O filme parte da ideia de clonar Ripley (Weaver, mais uma vez), mas ela volta diferente, já que seu DNA acaba misturado ao do monstrengo inimigo. Os interesses que já apareciam no segundo filme aqui se consolidam e colocam a Terra em perigo e para deter a destruição da humanidade, Ripley conta com a ajuda de um bando de piratas espaciais mal treinados e uma andróide chamada Analee (Winona Ryder). As novidades do filme? As cenas são mais claras e os Aliens aparecem nadando pela primeira vez, mas é pouco para segurar a trama. O filme foi o mais caro da franquia (75 milhões) e faturou pouco mais do dobro disso (161 milhões), o resultado? Os produtores não gostaram e começaram a usar o personagem em filmes de terror mais baratos - assim nasceu Alien Vs Predador 1 (2004) e 2 (2007), os quais me recuso a comentar nessa retrospectiva. Sorte que Ridley Scott em Prometheus (2012) parece disposto a colocar as coisas nos trilhos mais uma vez. 


Alien - O 8ºPassageiro (EUA-Reino Unido - 1979) de Ridley Scott com Sigourney Weaver, Tom Skerritt, Veronica Cartwrigth, Harry Dean Stanton, Ian Holm e Bolaji Dadejo. ☻☻☻☻

Aliens (EUA-Reino Unido/1986) de James Cameron com Sigourney Weaver, Paul Reiser, Bill Paxton e Michael Biehn. ☻☻☻☻

Alien³ (EUA-1992) de David Fincher com Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Lance Henriksen, Pete Postlethwaite e Paul McGann ☻☻☻

Alien - A Ressurreição (EUA-1997) de Jean Pierre Jeunet com Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman e Dan Hedaya. ☻☻

FILMED+: Prometheus

Green, Rapace e Fassbender: A humanidade como efeito colateral. 

Prometheus foi um dos mais filmes mais aguardados do ano e fiquei muito aborrecido por não conseguir assistí-lo no cinema. Quando tive tempo, o filme era exibido num horário inviável. Mas ainda bem que Deus inventou o DVD e o filme já pode ser visto quantas vezes eu quiser! Isso serve de dica para aqueles que vão ficar com alguns questionamento em mente quando o filme acabar - e ao contrário do que muitos pensam isso não é algo ruim, mas algo extremamente bom que mantém o filme vivo em nossas mentes por um longo tempo. O retorno de Ridley Scott à ficção científica resultou num de seus melhores trabalhos em muito tempo, vale lembrar que Ridley tem no currículo o clássico Blade Runner/1982 e Alien - O 8º Passageiro/1979 que inaugurou uma nova forma de ficção científica mesclada ao terror e, do qual, Prometheus é uma prequência - contando a história antes da saga da Tenente Ripley (Sigourney Weaver). O roteiro de Prometheus tem tantas camadas que quando assistimos temos a grata sensação de que a história sempre esteve ali, mas precisava de uma voz competente para contá-la - e o melhor é que o filme não decepciona tanto no quesito de adicionar novas simbologias da franquia Alien quanto criar cenas de ação que os espectadores de hoje tanto prezam. Houve quem criticasse o filme por não oferecer respostas para as questões que apresenta, mas se apresentasse repostas elas provavelmente seriam erradas e limitadoras à leitura do espectador, acho que quem afirma esse tipo de coisa não entendeu aquela cena inicial que já responde a pergunta principal da protagonista antes mesmo que ela a construa. No início de Alien - O 8ºPassageiro ouvimos um pouco da história da nave Prometheus, uma expedição que acabou na morte de quase toda a sua tripulação. O filme conta a história dessa expedição espacial, que foi motivada por dois cientistas Elizabeth Shaw (a sueca Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) que descobrem em uma caverna o que poderia ser um convite para a humanidade conhecer o seu criador. Interessado na ideia, o misterioso dono da Weyland Corporation (vivido por um Guy Pearce envelhecido após participar de uma campanha viral de divulgação do filme) banca uma expedição até uma lua distante com uma estranha caverna com ar semelhante ao da Terra. Para lá Shaw e Holloway lideram um grupo de pesquisadores que irão procurar pistas sobre o criador da humanidade e irão se deparar com situações estranhas que apontam para experiências que podem exterminar a própria vida na Terra. Como dá para perceber, ambição é o que não falta ao texto que busca responder a origem da humanidade enquanto caminha para o lado oposto. Ridley Scott não é bobo e sabe que para dar conta de uma história dessas precisa de um elenco vigoroso para não deixar tudo descambar para o suspense barato, por isso escolheu Noomi para ser uma autêntica herdeira de Ripley na franquia - e a moça, que até então não me convencia, alcança a melhor atuação de sua carreira. Além dela, o filme conta com Charlize Theron numa participação especial que vive nos cantos envolta de mistério, além de Michael Fassbender em outra excelente atuação na pele de David. Acho que o personagem dele é o mais rico da trama, um andróide (figura sempre presente na franquia Alien) que tem referências explícitas que vão de Peter O'Toole de Lawrence de Arábia/1962  aos replicantes enigmáticos de Blade Runner e o robô vilão HAL de 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968). Além de referências cinematográficas o filme ainda tem um embasamento filosófico que o diferencia de todos os outros do gênero. Prestando atenção você poderá encontrar Assim Falou Zaratrusta de Nietszche e especialmente Eram os Deuses Astronautas? de Erich Von Daniken, isso sem falar no próprio mito grego de Prometeu que roubou o fogo dos deuses e foi condenado ao sacrifício eterno (ou seja, é a história de desafiar o criador e suas consequências, parece moralista mas é mais científico do que parece). Difícil imaginar outro filme que conseguisse contar essa história com tanta segurança e ainda servir de ponto de partida para um universo cinematográfico consagrado há mais de três décadas. Acima de tudo, Prometheus parece querer colocar a franquia Alien de volta aos trilhos depois de um quarto episódio que deixou a desejar e dois filmes que quase estragaram a mitologia de série nos confrontos do monstrengo com Predador (numa das misturas mais indigestas que Hollywood já cometeu). A bilheteria de três vezes o seu orçamento ao redor do mundo provou que as ideias lançadas por Scott tem fôlego para uma nova saga espacial e se uma sequência chegar à metade da eficiência apresentada neste filme eu já ficarei satisfeito. 

David: referências filosóficas e cinéfilas. 

Prometheus (EUA-Reino Unido/2012) de Ridley Scott com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce, Sean Harris e Patrick Wilson. ☻☻☻☻☻

sábado, 20 de outubro de 2012

DVD: Zona do Crime

Miguel: perdido num condomínio que confunde justiça com vingança. 

Conhece aquela frase do escritor Walter Lippman: "Quando todos pensam a mesma coisa é porque ninguém está pensando", existem vários filmes sobre isso, especialmente com um grupo de pessoas que passa a viver numa comunidade com regras próprias. Geralmente são filmes que mostram que a coisa costuma não caminhar para o bom caminho, assim vimos A Vila (2004), Dogville (2003), Manderlay (2005) e até A Praia (2000). Cada um funcionava dentro de uma simbologia sócio-política, mas veio do México o filme que escancara as relações sugeridas nos filmes citados com a ordem mundial que acabou recebendo o prêmio internacional da crítica no Festival de Toronto/2007. Zona do Crime é ambientado quase que totalmente num condomínio fechado chamado La Zona, nele os moradores sentem-se seguros com as câmeras e a ação dos seguranças. Eis que um dia, um acidente acaba promovendo a entrada de três delinquentes naquele condomínio. Os três invadem uma casa e depois de ficar na escuridão, ouvimos tiros e depois  contam quatro cadáveres: a senhora que teve a casa invadida, dois dos invasores adolescentes e um segurança. Preocupados com o fato, os moradores estabelecem uma espécie de pacto para que resolvam a situação mantendo a imprensa e a polícia fora do ocorrido. Além disso, todos querem encontrar o terceiro rapaz que invadiu o condomínio e que ainda se encontra escondido entre as residências do local. O roteiro assinado por Laura Santullo e o diretor Rodrigo Plá (que concorreu ao prêmio Goya de melhor roteiro) consegue ser assustador mantendo a tensão sempre crescente entre os moradores, de forma que qualquer comportamento divergente sofre represálias - como o morador que chamou a polícia e tem sua linha telefônica cortada. Da mesma forma é impossível não se incomodar com um grupo de pessoas estabelecendo leis próprias que proíbem até uma viúva de ver o corpo do marido segurança morto ou de fornecer informações à polícia. Ainda aparecem na trama os adolescentes que se divertem com a possibilidade de encontrar o invasor foragido e fazer "justiça com as próprias mãos". O filme explicita bem como a lógica da maioria é capaz de borrar as fronteiras entre justiça e vingança, por isso o filme fica melhor quando mostra os moradores com um pouquinho mais de consciência se enfraquecendo perante a truculência dos vizinhos e, especialmente, quando o jovem Alejandro (Daniel Tovar) passa a ajudar o jovem de 16 anos, chamado Miguel (Alan Chávez), que deu o azar de acompanhar os dois amigos naquela infração. La Zona mostra-se uma prisão sem saída para o adolescente e sua única chance de escapar depende da honestidade de um policial que percebe que existe algo de muito estranho nos moradores daquele condomínio. O maior pecado de Daniel Plá está no determinismo de sua trama, parece que todas aquelas falas dos moradores mais intolerantes ganham força conforme o filme caminha para o final e tudo se torna previsível quando chega ao último ato. A revolta do espectador é certa, mas ela pode perder fôlego com os toques melodramáticos que tomam conta do roteiro quando o mal já está feito. O mais interessante do filme não está nas denúncias mais óbvias que exercita (como as falas sobre corrupção policial), mas na forma simétrica como apresenta os moradores bem de vida do condomínio não percebendo a semelhança com aqueles três delinquentes. "Eles controem a própria cidade e querem ter leis próprias também", diz um morador do condomínio - o irônico é que ele se refere aos moradores da favela que fica ao lado de La Zona e não aos próprios vizinhos. 

Zona do Crime (La Zona/Espanha-México/2007) de Rodrigo Plá com Daniel Giménez Cacho, Daniel Tovar, Maribel Verdú, Mario Zaragoza, Blanca Guerra e Andrés Montiel. ☻☻☻

DVD: Bróder

Macu e Jaiminho: amigos até a última cena. 

Acho que nenhum filme escolhido pelo Ministério da Cultura a concorrer a uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro gerou tanta polêmica quanto o filme biográfico do ex-presidente Lula. Um dos motivos para reclamarem era que o Brasil contava com uma boa safra de filmes naquele ano e um dos mais elogiados foi esse Bróder a que só assisti recentemente. O filme de Jeferson De tem algumas virtudes, mas perde força por investir em alguns lugares comuns que acabam tornando a história dos três amigos de infância moradores de uma favela paulistana menos interessante do que deveria ser. As primeiras cenas com o personagem Macu (Caio Blat) são bastante interessantes pela proposta de mostrá-lo no escuro numa conversa tensa no celular para depois revelá-lo aos poucos. As boas ideias continuam quando o mostram andando pela favela num plano sequência que revela mais do que a maior parte das cenas do filme. Enquanto apresenta seus personagens o filme prende o interesse, seja na tensão de saber que aquele rapaz gente boa está metido numa encrenca, seja pela visita do astro de futebol Jaiminho (Jonathan Haagensen) que aguarda sua convocação para a seleção enquanto visita a madrinha (Cássia Kiss) na comunidade em que cresceu ou nos conflitos do certinho Pibe (Silvio Guindane) que casou com a ex-namorada de Macu e foi embora daquela  realidade. Existem outros personagens interessantes na trama, especialmente o núcleo familiar de Macu, mas o filme faz questão de mostrar que aquele dia comum onde se comemora o aniversário do protagonista com uma feijoada tenta abafar uma violência que se anuncia cada vez mais. É a opção de mostrar que mesmo no dia mais comum a violência pode aparecer e estragar tudo que Jeferson De arrasta cenas como o do jogo de sinuca, o almoço, a pelada no campinho de futebol, o passeio de carrão pela cidade ao som de Racionais enquanto descobrimos o plano em que o protagonista se meteu e carregou junto os seus amigos. Embora o filme tenha bons momentos, as partes em que tenta captar o cotidiano da vida na comunidade podem cansar. Podem até parecer autênticas, mas esse tipo de cena não me impressionam como narrativa, pelo contrário, faz tudo parecer mais do mesmo, mais um favela movie. A diferença é que Jeferson De prefere abafar a violência até a cena final onde o protagonista deve fazer a escolha mais difícil de sua vida. Até lá, ele embaralha os caminhos do trio de amigos num roteiro que precisa mostrá-los como pessoas comuns e reais. Quando para de reproduzir cenas "realistas" e resolve construir "cenas de cinema" (como o belo diálogo de Cássia Kiss com a filha que descobre-se grávida) o filme acerta em cheio, pena que nem sempre isso acontece. Bróder está longe de ser uma obra-prima, mas se beneficia da vontade de ser menos sensacionalista que a maioria dos filmes que compartilham a vida na favela com ele.

Bróder (Brasil/2009) de Jeferson De com Caio Blat,  Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cássia Kiss, Aílton Graça e Zezé Motta. ☻☻☻

DVD: O Grande Ano

Wilson, Martin e Black: transformando hobby em competição. 

O que esperar de um filme estrelado por Owen Wilson, Jack Black e o veterano Steve Martin? No mínimo umas boas risadas! Não é bem isso que vemos em O Grande Ano. Os risos até aparecem, mas são amarelados e com um longo espaço entre um e outro. Antes de qualquer outro comentário tenho que reconhecer que o produtor do filme teve muita coragem em acreditar que o público iria se interessar por um filme um grupo de observadores de pássaros que vivem brigando entre si  numa competição anual para saber quem observou mais pássaros durante o ano (?!). O objetivo de todos é tirar do topo do ranking o campeão Kenny Bostick (vivido por Owen Wilson - será que eles sabiam como esse nome de personagem soaria engraçado no Brasil?) - e o filme dedica vários momentos em histórias lendárias deste observador altamente competitivo e dedicado, tão dedicado que se interessa mais por uma ave de pata rosa do que pela esposa (Rosamund Pike) que está doida para engravidar. No caminho de Bostick estão dois sujeitos que são pouco conhecidos no ramo, um deles é o gorducho Brad Harris (Black) e o empresário Stu Preissler (Martin). Os dois acabam ficando amigos e enfrentam os dramas de esconder um do outro que estão competindo para o evento "Grande Ano". Se Kenny tem seus problemas com a patroa, Brad e Stu também tem a vida pessoal apresentada em doses homeopáticas e de forma nunca consistente. Brad flerta com a observadora Ellie (Rashida Jones) e ainda tem contas a ajustar com o pai (Bryan Dennehy) com a ajuda da mãe (Dianne Wiest). Enquanto isso, Stu aproveita o fato de ter um casamento bem resolvido e mal aproveita o fato de se tornar avô enquanto sua carreira profissional começa a sofrer descrédito devido sua fixação por aves raras. Até para quem não gosta de pássaros o filme pode ser atraente, mas o diretor David Frankel (de O Diabo Veste Prada/2006) nunca se esforça muito para fazer com que o filme seja mais do que um bando de marmanjos procurando passarinhos. Existe certa preguiça na condução do filme, talvez por acreditar no talento de seu trio de atores (o incrível é que o melhor em cena é Jack Black numa atuação mais contida e humana do que os outros dois que caem no exagero facilmente). A preguiça é tanta que fica transparente que cada episódio avesturesco dos observadores trata de um capítulo de livro - e é mesmo, já que o filme é adaptado do livro homônimo de Mark Obmascik. No fim das contas é um filme que se assiste mais pelas paisagens e pelas aves na bela fotografia do que pela história em si - que no final ainda cai naquela balela americana dos sacrifícios realizados para ficar em primeiro lugar. Prefiro ficar com a fala de um personagem que lá pelas tantas revela o motivo de minha implicância com a trama: "somente os americanos para transformar um passatempo em competição". Esse sabe das coisas...

O Grande Ano (The Big Year/EUA-2011) de David Frankel com Jack Black, Steve Martin, Owen Wilson, Rashida Jones, Dianne Wiest, Rosamund Pike, Jim Parsons e Anjelica Huston. ☻☻

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

LADIES & GENTLEMEN: Joseph Gordon-Levitt

Joseph Leonard Gordon-Levitt nasceu em 17 de fevereiro de 1981 e ele começou na carreira de ator somente sete anos depois no filme televisivo Stranger in my Land. O menino fez vários papéis na TV incluindo no cultuado seriado Caras e Caretas (1988) e na refilmagem do seriado Dark Shadows em 1991 (que recentemente virou filme nas mãos de Tim Burton).  Seu primeiro papel no cinema foi (mínimo) em Beethoven - O Magnífico (1992), mas no mesmo ano recebeu um papel mais relevante como um dos meninos na primeira parte de Nada É Para Sempre de Robert Redford. As coisas começaram a melhorar na tela grande quando foi o filho de Demi Moore em A Jurada em 1996 - mesmo ano em que ganhou destaque na TV como o chefe alienígena disfarçado de adolescente do seriado 3rd Rock From the Sun.   O seriado durou até 2001 - enquanto aparecia nas telas como um dos candidatos a defunto de Halloween H20 (1998), no hit 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999) e no drama indie Maníaco (2001) onde interpretava um jovem desajustado. Apesar de ter emprestado a voz para o filme Planeta do Tesouro (2002) da Disney, foi uma pequena produção independente que deixou evidente que aquele promissor garotinho cresceu: Mistérios da Carne. O filme de Greg Araki parece mais feito para chocar do que para ganhar prêmios, mas na pele de um adolescente que se torna garoto de programa após sofrer abusos na infância rendeu ao ator o prêmio de melhor ator no Festival de Seattle. A repercussão de seu trabalho rendeu o convite para estrelar A Ponta de Um Crime (2005) de Rian Johnson que foi indicado a vários prêmios em Festivais de cinema independente e recebeu o prêmio especial do júri em Sundance com sua mistura de filme adolescente e investigação policial. O filme fez tanto sucesso que rendeu à Joseph o papel principal em outro suspense: O Vigia (2007). Nele interpretava um rapaz que tem problemas de memória e que se envolve com perigosos assaltantes. Além disso, o ator ganhou papéis de destaque em trabalhos de diretores  independentes badalados como Lee Daniels (Matadores de Aluguel/2005), Kimberly Peirce (Stop-Loss/2008) e Spike Lee (Milagre em Sta. Ana/2008). Se em 2009 ele esteve na pagação de mico de G.I. Joe - A Origem de Cobra, a coisa melhorou muito quando apareceu em (500) Dias com Ela de  Marc Webb. O filme foi considerado uma das melhores comédias românticas de todos os tempos e foi indicado a vários prêmios - incluindo o  Globo de Ouro de Melhor Filme e melhor ator de Comédia e entrou na lista dos 10 melhores filmes do ano pelo National Board of Review. Assim, os filmes de pequeno porte que estava prestes a lançar (Hesher/2010 e Elektra Luxx/2010) ganharam alguma publicidade, mas o ator estava prestes a aparecer cada vez mais em super-produções. Foi assim que entrou para a patota de Christopher Nolan como o invasor de sonhos mais elegante de todos os tempos em A Origem (2010). No ano seguinte ele interpretou um rapaz com câncer na dramédia 50%  - que lhe valeu a segunda indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical. Neste ano, Joseph Gordon-Levitt deu as caras em alguns dos filmes mais aguardados do ano: é o aspirante a Robin em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), retomou a parceria com o diretor Rian Johnson em  Looper, será o primogênito de Lincoln na cinebiografia a ser lançada por Spielberg e ainda arranjou espaço para ser o ciclista perseguido em Perigo por Encomenda de David Koepp. Para o ano que vem ele tem apenas um filme programado - depois de dirigir quatro curtas, o ator se aventura pela primeira vez na direção de um longa-metragem: Don Jon's Addiction conta com Scarlett Johansson e Julianne Moore na trama de um admirador de filmes pornôs que precisa aprender a ser menos egoísta (quem viu a participação de Joseph no Saturday Night Live pode considerar aquilo como uma espécie de ensaio). 

(500) Dias com Ela: rumo ao primeiro time de Hollywood.

CATÁLOGO: A Ponta de Um Crime

Brendan e Brain: aprendizes de detetives.

Se você curtiu a engenhosidade de Rian Johnson no recente Looper (2012) vale a pena garimpar nas locadoras A Ponta de Um Crime, um filme de investigação ambientado numa escola, sem policiais e com fidelidade absoluta ao gênero noir. No início eu estranhei aqueles adolescentes misteriosos envoltos na atmosfera silenciosa, mas quando você entende a proposta do filme dificilmente  o abandona no meio do caminho. O filme acompanha Brendan (Joseph Gordon Levitt), aluno de uma high school que recebe um estranho telefonema da ex-namorada, Emily (Emilie de Ravin) dois dias antes de encontrá-la morta num túnel de esgoto. Com a descoberta do corpo, as palavras de Emily recebem um novo significado que o direciona até o submundo das drogas de sua escola. Esqueça a pretensão de Brendan não querer envolver a polícia na investigação e achar que pode encontrar o assassino de sua amada por conta própria, isso faz parte desta brincadeira (que se leva a sério até demais). Como parceiro de investigação, Brendan conta apenas com Brain (um ótimo Matt O'Leary),  nerd que parece alheio ao que acontece na escola, mas sabe exatamente quem é quem naquele universo peculiar. Agindo como informante, Brian interpreta as últimas palavras de Emily na direção de alguns alunos que traficam drogas. É assim, depois de apanhar um bocado, que Brendan entrará em contato com Dode (Noah Segan) - atual namorado de Emily -, o projeto de brutamontes Tugger (Noah Fleiss) e o soturno The Pin (Lukass Haas, que já passou dos 30 anos mas ainda convence como adolescente) que controla o submundo do colegial. Todos são suspeitos e, aparentemente, todos tem motivos para se livrar de Emily, até que um segredo da garota vem à tona.  Como um bom filme noir, na maior parte do tempo o investigador tenta juntar as peças que tem em mãos e com isso alguns personagens estão ali só para confundir, outros perdem espaço no decorrer dos fatos e outros (que pareciam confiáveis) se tornam cada vez mais turvos. Seguindo a cartilha do gênero, Johnson deixa seus personagens sempre ambíguos tornando seus atos sempre inesperados (se não fosse assim aquele desfecho no cômodo escuro não teria um terço do peso apresentado) e capricha nas garotas fatais que cruzam o caminho do protagonista. Além da confusa Emily, ele vive cruzando a com a beldade Kara (Meagan Good) e com a escorregadia Laura (Nora Zehetner) que se mostra uma autêntica femme fatale com seu rosto meigo e olhos enormes. Ao misturar dois gêneros distintos (o filme teen com o noir), A Ponta de Um Crime soa inovador e surpreende ao construir um universo próprio onde a escola parece povoado somente por alunos - e quando aparece o vice-diretor da escola ele mais parece um delegado. Essas analogias entre as personas de um gênero e de outro são bem mais interessantes do que algumas obviedades que o diretor poderia ter abandonado durante o filme, a que mais me incomoda é a trilha sonora forçosamente jazzística (própria dos filmes policiais clássicos em que o filme se inspira), com a atmosfera construída pelo diretor nem precisava dela - ter investido numa trilha sonora mais original tornaria o longa ainda mais inovador dentro do gênero. No fim das contas, A Ponta de um Crime é um belo exercício narrativo e se torna memorável pelo conjunto de personagens interessantes que apresenta num roteiro bem escrito que se desenrola cuidadosamente.

A Ponta de Um Crime (Brick/Canadá-2005) de Brian Johnson com Joseph Gordon Levitt, Lukas Haas, Nora Zehetner, Matt O'Leary, Nohan Segan e Noah Fleiss. ☻☻☻☻  

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Na Tela: Looper - Assassinos do Futuro

Levitt: matador duro de matar.

Jospeh Gordon Levitt participou do primeiro filme de Rian Johnson, o noir colegial A Ponta de Um Crime (2005) e depois que Johnson chamou menos atenção do que deveria com Vigaristas (2008) o ator ajudou o amigo a produzir essa ficção científica que estava em várias listas de lançamentos mais aguardados de 2012. Looper trata de viagens no tempo com ideias que eu não lembro de terem sido utilizadas em outros do gênero. Obviamente que à primeira olhada Exterminador do Futuro (1984) é inevitável, mas o texto de Johnson amplia qualquer possibilidade quando nosso cérebro tenta se acomodar com o que vemos na tela. A história se passa em 2044, onde a viagem no tempo ainda não foi inventada, mas existem os chamados loopers, matadores que trabalham para a máfia do futuro. A coisa funciona mais ou menos assim: no futuro é muito complicado sumir com os corpos, então a máfia envia a vítima para 2044 de olhos vendados e um looper o executa e incinera o corpo sem que ninguém de falta dele. O protagonista da trama é Joe (Levitt), mas as coisas começam a complicar quando Seth (Paul Dano) recebe como vítima o Seth mais velho vindo do futuro. O velho Seth lhe conta que no futuro existe um tal Rainmaker, um novo líder do crime praticamente indestrutível e capaz das maiores atrocidades para fazer prevalecer o seu poder. É Rainmaker que ordena o extermínio dos loopers aposentados pelos próprios loopers do passado. Não vai demorar muito para que o próprio Joe tenha que dar cabo de sua versão mais velha - e assim como o amigo, fraqueje. Logo ele saberá que o velho Joe irá aproveitar sua viagem no tempo para eliminar a criança que crescerá e se tornará o temido Rainmaker. Ao contrário do que se pode pensar os dois Joes lutam por causas distintas (devido ao período de vida de cada um).  Esse é apenas o ponto de partida de um filme que promove várias surpresas e alguns dilemas morais de seus personagens, afinal, é justo eliminar uma criança pelo que ela se tornará no futuro? Não lembro de um diretor ter tanto cuidado em explicar o efeito que as alterações no presente causam na mente de um personagem enviado de volta ao passado (e o excelente diálogo entre Willis e Levitt deixa isso bastante evidente). Johnson mostra um futuro mais realista do que a maioria das produções futuristas e por isso mesmo, torna-se bastante crível. Além das cenas de ação e efeitos especiais usados com cautela, mas de forma eficiente, o filme conta com atuações dedicadas de Levitt - copiando expressões de Willis (confesso que estranhei aquelas lentes, sombrancelhas e lábios artificiais no ator)- e Willis assumindo o peso dos anos de forma despudorada. Para dar um jeito em tanta testosterona, Emily Blunt encarna uma mamãe durona de deixar a Sarah Connor de Linda Hamilton orgulhosa.  Bem editado e bem contado, o filme desenvolve a ação sem perder de vista as relações entre os personagens.  Looper consegue a proeza de injetar novo fôlego à uma ideia já desgastada (viagem no tempo), mesmo que apele um bocado ao mostrar o Rainmaker mirim como um personagem de filme de terror. 

Looper - Assassinos do Futuro (Looper/EUA-China/2012) de  Rian Johnson com Joseph Gordon Levitt, Bruce Willis, Emily Blunt, Jeff Daniels, Pierce Gagon, Paul Dano, Piper Perabo e Noah Segan. ☻☻☻☻

DVD: Sr. Ninguém

Leto: vidas paralelas de um senhor de 118 anos. 

Se o protagonista de Sr. Ninguém fosse um super-herói com certeza ele seria o Dr. Manhatan de Watchmen. Não que ele tenha a pele azul ou ande sem roupa por aí, mas pela forma como o diretor belga Jaco Van Dormael constrói sua história misturando diferentes possiblidades - que podem ser interpretadas dentro da teoria de que existem dimensões variadas pautadas nas escolhas do protagonista. Mesmo que o diretor não facilite a vida dos espectadores acostumados ao mais simples feijão com arroz, é possível acompanhar com grande interesse as inúmeras possibilidades exploradas sobre a trajetória de Nemo Nobody (Jared Leto) no roteiro que caminha para possibilidades infinitas. Podem considerar o filme pretensioso, mas toda a sua ousadia poderia resultar num tedioso exercício de exibicionismo se não houvesse um forte conceito por trás de tudo. Esse conceito é de que a vida nos oferece inúmeras possibilidades e são as nossas escolhas que ditam seu rumo. Dito assim parece óbvio, mas o desenvolvimento da história mostra o que há de complexo nessa premissa, envolvendo conceitos de físicos, cosmológicos, metafísicos e filosóficos - caminhando do universo em expansão pós Big Bang até o universo em contração do  Big Crunch. Todas as histórias giram em torno de uma entrevista sobre a vida do último mortal de nosso planeta, Nemo Nobody, que está com 116 anos. Em 2092 uma espécie de reality show irá desvendar esse sujeito misterioso que está impossibilitado de viver mais por não fazer reposição celular constantemente e não possuir um porco com células tronco capazes de prolongar sua existência. Ao ser entrevistado, Nemo (Leto com surpreendente expressividade debaixo de pesada maquiagem e até mais confortável do que quando está sem ela) conta sua vida a um repórter (Daniel Mays), mas suas lembranças começam desde antes de seu nascimento (quando por negligência dos anjos ele acaba nascendo com o dom de prever o futuro e suas diversas possibilidades). A história de Nemo se complexifica a partir do momento em que os pais se divorciam e pedem para que escolha com quem deseja ficar. É neste ponto que o filme dispara os primeiros destinos possíveis, ou então, como Nemo conduziu sua vida em cada mundo paralelo existente. Em cada vida Nemo possui uma amada diferente, a depressiva Elise (Sarah Polley), a negligenciada Jean (Lihn Dan Pham) e a favorita Anna (Diane Kruger). Será que essas histórias realmente aconteceram? Será que tudo é fruto da mente secular de Nemo? Será que Nemo não consegue distinguir o que aconteceu do que gostaria que acontecesse? É essa estranheza, devidamente amparada pelas cenas geradas pela criatividade de Dormael, que torna o filme tão interessante. Existe um bocado de momentos tristes e felizes na trajetória de Nemo e o filme consegue equilibrar seus inúmeros elementos com sabedoria, mesmo que em alguns momentos o espetáculo visual pareça que vai descambar para a gratuidade vazia. O filme só não é perfeito por conta de uma parte bem próxima do final onde explora uma realidade onde todos usam roupas xadrez. Ao criticar essa vida padronizada o filme parece ridicularizar sua premissa em explicações que acabam diminuindo o poder de sua narrativa multifacetada - mas até este ponto o filme nos proporciona um instigante jogo de cenas para pensarmos nas possibilidades que temos diante de nós todos os dias. Parece confuso? Bem, não se pode misturar ficção científica com romance, física quântica e filosofia sem quebrar alguns neurônios - tarefa essa que Sr. Ninguém executa com grande vigor. Aos 53 anos, Jaco Van Dormael tem apenas três longas metragens no currículo, mas já foi premiado em Cannes e no Festival de Veneza, sendo um nome para ficar de olho!

Sr. Ninguém (Mr. Nobody/Canadá-2009) de Jaco Van Dormael com Jared Leto, Diane Kruger, Sarah Polley, Rhys Ifans, Juno Temple, Toby Regbo e Linh Dan Pham. ☻☻☻☻

KLÁSSIQO: Memórias

Charlotte Rampling: musa complicada nesta pérola de Woody Allen.

Eu consigo entender o motivo pelo qual a maioria das pessoas que assistem aos filmes recentes de Woody Allen não conseguem vê-lo como o gênio que os fãs mais antigos enxergam nele. Então, se todo mundo critica sua obra mais recente (Para Roma com Amor/2012) é bom catar um filme mais antigo do diretor, um dos mais inventivos como esse Memórias de 1980. É impressionante como o filme ainda apresenta um frescor que o torna atemporal ao explorar como funciona a imaginação de um cineasta. Allen interpreta a si mesmo na pele do diretor Sandy Bates, que está prestes a enfrentar um festival de cinema dedicado à sua obra - justamente quando os produtores encrencam com sua obra mais recente em que pretende ser mais sério do que engraçado. O festival é um prato cheio para Allen fazer graça de todo tipo de gente que orbita em torno de sua obra, de cinéfilos que buscam significados em cada detalhe em cena ("o que você acha que significava aquele carro?" "Acho que significava o carro dele!" "AAh") ou fãs dedicados que lhe oferecem a própria esposa, passando por críticos que o consideram genial enquanto outros o veem apenas como mais um artista pretensioso. Enquanto enfrenta essas situações triviais o diretor dá entrevistas impagáveis que mais parecem uma espécie de espetáculo de stand up comedy (como o momento em que nega ser narcisista, já que se existe algum equivalente à ele na mitologia grega, essa equivalência seria com Zeus). Não bastasse toda essa exposição, ele ainda tenta dar um jeito em sua vida amorosa. Se suas memórias são dedicadas à ex-mulher/atriz problemática (a francesa Charlotte Rampling linda e em ótima atuação) ele tem um caso complicado com Isobel (Marie Christine Barrault) que acaba de deixar o marido tendo os filhos na bagagem (acho hilária a cena em que a filha caçula parece espinafrar o amante da mãe sem que ele entenda uma palavra), mas ainda encontra tempo para flertar com uma musicista (Jessica Harper) que acaba de conhecer. Allen conduz seu filme numa narrativa livre, com um fio condutor muito simples que deixa espaço para que sua imaginação viaje sem amarras, sendo assim a realidade se mescla com perfeição a situações imaginadas e memórias sem aviso prévio  - é nesta proposta que acompanha um grupo de admiradores de alienígenas nas redondezas do festival (o que dá origem aos diálogos interplanetários mais insanos da história). Ainda assim, o filme conta com uma cena dramática memorável (aquela em que Charlotte Rampling repete uma cena exaustivamente até acertar o tom, sem exagero, sua personagem é uma uma das melhores criações femininas do cineasta). A seriedade da fotografia em preto e branco serve de excelente contraponto ao humor surreal que o filme apresenta, especialmente em sua última cena onde os atores parecem comentar a própria obra do diretor (com os pais dele se indagando como o filho pode ganhar dinheiro com essa bobagem). O longa está para Allen assim como Oito e Meio (1963) está Felini ou All That Jazz (1979) está para Bob Fosse, a diferença é que mesmo com tanta inventividade narrativa o filme é bastante despretensioso - o que pode ter colaborado para ter recebido menos destaque do que os filmes citados onde os autores olham explicitamente para si.

Memórias (Stardust Memories/EUA-1980) de Woody Allen com Woody Allen, Charlotte Rampling, Marie Christine Barrault, Jessica Harper, Daniel Stern e John Rothman. ☻☻☻

domingo, 14 de outubro de 2012

DVD: A Criança da Meia-Noite

Challal e Lindon: meio pai e filho. 

A Criança da Meia-Noite é o tipo de filme que exemplifica bem o olhar diferenciado que o cinema francês tem sobre seus personagens. Fosse feito em Hollywood, seus personagens provavelmente protagonizariam um melodrama sobre um garoto de 14 anos que não pode ser exposto aos raios UV. Ele seria um coitado vitimizado e o médio que cuida dele seria quase santificado em sua obstinação em ajudar o garoto a lidar com isso. Como se trata de um filme francês, a doença genética do menino serve de pano de fundo para contar sua intensa relação com o médico que o trata desde bebê. Um relacionamento que não é muito fácil, já que a o rapazinho vive o conflito de  lidar com a constante ameaça dos tumores que seu corpo produz ao mesmo tempo em que seus hormônios estão em crescente ebulição. Esse sentimento contraditório que nasce da curta expectativa de vida e os planos para o futuro fazem com que o jovem Romain (Quentin Challal) seja um tanto rude com as pessoas que estão ao seu redor. Curiosamente, seu médico, David (Vincent Lindon) também não prima pela simpatia - especialmente quando convidado para trabalhar na OMS e terá de conviver com uma substituta (Emmanuele Devos) mais jovem e inexperiente no trabalho com crianças com doenças semelhantes à de Romain. O filme da cineasta francesa Delphine Gleize pode causar estranhamento por sua opção de explorar os drama pessoais de seu personagem ao invés de aprofundar o caráter científico da trama, mas ainda assim, promete manter o interesse pela forma com que escancara a relação paternal existente entre David e Romain. Momentos em que conversam timidamente sobre sexo ou fazer a barba fazem a diferença na trajetória de um garoto abandonado pelo pai assim que este descobriu a rara anomalia de seu herdeiro. Pena que este conforto encontrado em David está com os dias contados, já que ele recebeu uma proposta de trabalho irrecusável. Gleize compensa com grande sensibilidade alguns tropeços de sua narrativa, mesmo sabendo conduzir as emoções de seus personagens quando elas não se mostram muito admiráveis há situações que poderiam ser melhor aproveitadas. Dentro dessa proposta, Vincent Lindon tem um momento notável como o médico envolvido emocionalmente com o paciente enquanto tem episódios de pura arrogância com a mulher que deverá substituí-lo na árdua tarefa. O pequeno Challal pode não ser brilhante, mas dá conta das emoções de seu personagem em momentos sensíveis como a cena em que se expõe a luz solar num misto de suicídio e destemor. É nesta necessidade de assumir riscos que Gleizer constrói seus heróis de carne e osso. Ah, claro, se fosse em Hollywood a esposa de David seria uma megera e ele acabaria tendo um caso com a substituta (ainda bem que trata-se de um filme francês). 

A Criança da Meia-Noite (La permission de Minuit/França-2011) de Delphine Gleize com Vincent Lindon, Quentin Challal, Emmanuele Devos e Caroline Proust. ☻☻☻

APOSTAS PARA O OSCAR 2013 - CAPÍTULO II


Hyde Park on Hudson
Roger Michell é um diretor que já provou sua versatilidade em comédias românticas (Notting Hill/1999) e dramas (Vênus/2006 e Recomeçar/2003), mas a Academia nunca lhe deu o devido reconhecimento. Isso pode mudar com Hyde Park on Hudson onde visita um momento bastante íntimo do 32º Presidente americano, Franklin Roosevelt (vivido por Bill Murray). Trata-se de seu caso de amor com a prima Margareth Stuckley (Laura Linney) ambientado num fim de semana de 1939 quando o Rei e a Rainha do Reino Unido visitaram Nova York. Pela forma sentimental com que conduz a história o filme pode garantir uma vaga na categoria de coadjuvante - graças às performances de Olivia Williams como Eleanor Roosevelt e Olivia Colman como Rainha Elizabeth,. As duas atrizes inglesas subestimadas tem aqui a chance de entrarem de vez no primeiro time de Hollywood.  

Lincoln
Parece que presidentes americanos estão na moda - e se você é como eu e pensa que Steven Spielberg deixou o melhor de seu talento no passado, saiba que ele dedica seu próximo filme para nós! Só de ver Daniel Day Lewis transmutado no 16º presidente americano neste retrato de seus últimos quatro anos de vida (enquanto lutava na Guerra Civil e enfrentava inimigos de gabinete em seu projeto de libertação de escravos). A trama é inspirada no livro "Team of Rivals" de Doris Kearn Goodwin e tem impressionado com material que Spielberg tem divulgado na imprensa - não só pela qualidade da produção mas pelo elenco que ainda inclui Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones, Jackie Earle Haley Sally Field, Jared Harris e John Hawkes. Parece que Spielberg chegará com fome de estatuetas nessa temporada...

The Surrogate
Depois de sua ótima atuação indicada ao Oscar de coadjuvante em Inverno da Alma (2010), John Hawkes tem mais uma chance de fazer bonito nas premiações como protagonista deste filme independente. Em The Surrogate ele interpreta uma vítima de pólio que está prestes a morrer e contrata uma prostituta para que acabe com sua virgindade. Além de Hawkes o filme conta com uma atuação certeira da sumida Helen Hunt (que sempre sabe o que fazer quando uma produção  depende de sua química com um bom parceiro de cena). Com a aclamação do filme em Sundance este é um dos fortes candidatos à vaga indie na disputa ao Oscar do próximo ano. O filme é assinado pelo australiano Ben Lewin, que usou tintas autobiográficas no roteiro - ele contraiu poliomielite quando era criança e perdeu o movimento das pernas. 

Life of Pi
Faz um tempinho que a Academia parece ter esquecido o diretor taiwanês Ang Lee, neste ano o jejum pode ser quebrado com o primeiro filme em 3D produzido pelo diretor: Life of Pi. O filme baseado no famoso romance do canadense Yann Martel (e que rendeu uma polêmica danada por se inspirar até demais numa história do brasileiro Moacyr Scliar) conta a história de um jovem indiano  (Suraj Sharma) que após um naufrágio perde toda a família e sobrevive 227 dias em um bote salva-vidas somente na companhia de um tigre. Pense em todas as possibilidades metafóricas dessa experiência e você terá ideia do que se trata o filme. Aclamado por aliar força narrativa e efeitos especiais, não subestime o poder desta produção na temporada de ouro. 

The Paperboy
Desculpe amigos, eu ia comentar sobre o novo filme de Tarantino (Django Unchained) quando me lembrei deste filme assinado por Lee Daniels (Preciosa/2009) que é elogiado por algumas das atuações mais surpreendentes deste ano. Adaptado da obra de Pete Dexter o filme conta a história de dois jornalistas (Matthew McConaghey e David Oyelowo) que caem na história de uma loura profana (Nicole Kidman) que jura que seu amante (John Cusack) é acusado de um crime que não cometeu. Nessa jornada ela acaba ganhando o coração do jovem Jack (Zac Efron, elogiado!!!) numa trama narrada por Macy Grey!! Quer mais, misture tudo isso numa atmosfera noir virada do avesso e a habilidade de Daniels em extrair atuações vigorosas do elenco (dizem que Nicole saboreia sua personagem como se fosse um pêssego suculento e Cusack tem a atuação de sua vida num rato de homem). Desculpe Tarantino, vc fica para a próxima! 

DVD: Branca de Neve e o Caçador

Charlize: sofrendo por um espelho cego. 

Dá até para imaginar os produtores tramando: "Vamos adaptar Branca de Neve para um público mais juvenil" "Ah, eu também tive essa ideia! E agora?" "Simples, eu faço uma versão para meninas com Julia Roberts e você faz uma versão para meninos", assim nasceram, respectivamente "Espelho, Espelho Meu" e "Branca de Neve e o Caçador". Se o primeiro é leve, bem humorado, com ares de comédia romântica e figurino colorido, o outro é sombrio, repleto de violência e com figurino gótico. Em ambos o destaque é a performance da madrasta, sendo que Roberts opta por uma rainha malévola cool enquanto Charlize Theron aposta alto para se tornar uma das vilãs mais sombrias de 2012. No embate é Charlize que honra um dos maiores ícones vilanescos do cinema. Sem falar que a loura tem talento de sobra para compensar a sonolência de Kirsten Stewart que se beneficia mais da montagem do filme do que dos parcos talentos dramáticos que corre em suas veias. O conto dos irmãos Grimm recebe uma versão épica, voltada especialmente para aqueles que curtem cenas de ação mirabolantes temperada com doses de fantasia. A história começa de forma clássica, mas a coisa já muda no início quando um rei admirado por todos encontra uma prisioneira de um exército inimigo. Ela é Ravenna (Theron), que não mede esforços para reinar sozinha. Para garantir seu poder irrestrito ela mata o rei e prende a sua enteada Branca de Neve (Kristen Stewart), que cresceu com vontade de vingar o legado de seu pai. Quando o espelho mágico diz para a bruxa madrasta que Branca de Neve irá tomar o seu lugar, Ravena decida matá-la. Branca acaba fugindo do castelo e se refugiando na estranha Floresta Negra e a madrasta precisa contratar os serviços de um homem que sobreviveu à estranha floresta. O caçador Eric (Chris "Thor" Hemsworth) aceita a empreitada meio a contragosto sob a promessa de ter sua esposa ressuscitada pela rainha - que é chegada à uma magia negra.  Não precisa pensar muito para perceber que ele se meteu numa grande furada e acaba se aliando à sua caça. O interessante é como o filme arruma soluções para encaixar referências à história original, como o momento em que os sete anões aparecem na trama (desta vez interpretados por atores como Bob Hoskins e Ray Winstone diminuídos por efeitos de computador) como ladrões e o anúncio shakesperiano (que parece chupado de Macbeth) de que Branca de Neve é a mais bela do mundo não apenas por sua aparência mas pela inocência, caráter e força - sendo a única a poder destronar a rainha. Com visual caprichado e cenas de ação bem produzidas, o filme recebeu mais elogios e atenção do público do que a versão cômica da clássica história. As comparações são inevitáveis, mas não é novidade que a violência sempre leva mais pessoas ao cinema, mas é fato que este filme é mais bem cuidado e fluente que o Espelho Espelho Meu de Tarsen Singh. A verdade é que sempre que Theron está em cena, o filme sobe vários (de)graus no interesse da plateia e mostra que Kirsten Stewart está longe de ser o talento que Hollywood espera que ela seja (ela bem que poderia gastar algumas milhas num bom curso de interpretação). Quanto à Chris Hemsworth ele faz o trabalho direitinho, mas em alguns momentos ele fica claramente sobrando na história - esse é o preço de se transformar um personagem pequeno em protagonista. O estreante Rupert Sanders mostra-se um diretor eficiente e seria uma pena ele ser mais lembrado como o homem que terminou o namoro de Kristen com Robert Pattinson. Ao final da sessão o que fica é o enigma da beleza de Charlize que está cada vez mais linda - embora seu espelho no filme seja claramente cego. 

Branca de Neve e o Caçador (Snow Shite And the Huntsman/EUA-2012) de Rupert Sanders com Charlize Theron, Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Sam Claflin, Bob Hoskins, Ian McShane, Ray Winstone e Toby Jones. ☻☻☻

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

DVD: Espelho, Espelho Meu

Lily e Armie: conto de fada repaginado. 

Depois de investir em adaptações de games e histórias e quadrinhos, Hollywood tenta tornar rentável as versões modernas dos contos de fadas. Neste ano duas produções resolveram atacar  se inspirar no clássico Branca de Neve dos irmãos Grimm, um enveredou pelo campo da aventura (Branca de Neve e o Caçador), o outro preferiu seguir pelo caminho da comédia amalucada. Este Espelho, Espelho Meu investe num humor claramente voltada para crianças um pouco mais crescidas e deixa várias referências à história original que conferem algum  charme ao longa metragem do indiano Tarsem Singh. Tarsem já é famoso pela plasticidade de seus filmes, mas é constantemente criticado pela habilidade meio capenga em contar uma história. Aqui, como a essência da história é conhecida por todos, ele se sai melhor do que em seus outros trabalhos Made in Hollywood. Por conta da direção de arte e figurinos espalhafatosos, alguns exagerados chegam à chamá-lo de novo Tim Burton, mas por enquanto à marca de sua assinatura continua mais presa ao visual do que ao filme como um todo. O filme ganhou grande notoriedade desde que Julia Roberts topou fazer o papel da bruxa madrasta que trama contra a herdeira do trono de um reino onde as pessoas viviam cantando e dançando, mas agora vive um tempo de miséria - por conta de uma rainha que aumenta impostos para bancar festas. Além de ser a rainha de um reino falido, Julia investe aqui mais uma vez em uma atuação cool, cheia de piadinhas que podem ser vistas como referências às sua própria figura pública - afinal, ninguém colocaria a Linda Mulher (1990) de frente para um espelho perguntando se existe alguém mais bela do que ela por acaso. No filme, o motivo da Rainha querer se livrar de Branca de Neve (a filha de Phil Collins, Lily Collins) é que ela está de olho num príncipe (o cara de príncipe Armie Hammer) que anda visitando o reino depois de ser assaltado por um bando de anões. A história parece ler nas entrelinhas da história original de forma até coerente e engraçada - ao ponto de colocar Branca de Neve e os anões como uma espécie de Robin Hood das redondezas. Pode-se dizer que Lily (que chegou a dar entrevistas dizendo que não queria ser uma estrela de Hollywood, então querida... lamento informar, que está no caminho errado) cumpre bem o seu papel de fazer a heroína romântica um pouquinho mais destemida que o habitual - e sorte que seu parceiro Armie Hammer não tem pudores em parecer ridículo como nas cenas em que imita um cachorro apaixonado. No entanto, quem rouba a cena é Julia Roberts como uma rainha malévola, divertida e cheia de charme. Sem ela, provavelmente o visual espalhafatoso do filme não lhe garantiria o sucesso de bilheteria (rendeu o dobro do custo em arrecadação mundial, o que é muito num ano de colapso na arrecadação). Os figurinos são uma atração a parte (Julia chegou a dizer que algumas roupas eram tão pesadas que era impossível se mover), com destaque para uma rainha de séculos atrás com detalhes cortados a laser (sem falar nas roupas de baixo que parecem desenhadas por Jean Paul Gaultier). Tanta ousadia visual é cortesia de Eiko Ishioka (que chegou a trabalhar com Alexander McQueen) que deve concorrer a alguns prêmios de figurino na temporada de ouro. Outro aspecto interessante do filme é a forma como atribui novas identidades aos sete anões e a estratégia de usar pernas de pau camufladas por calças sanfonadas - gerando um efeito mais que interessante. Enquanto versão modernizada de um clássico a maior ambição do filme é alcançada: divertir. 

Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror/EUA-2012) de Tarsem Singh com Julia Roberts, Lily Collins, Armie Hammer, Nathan Lane e Sean Bean. ☻☻☻ 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CATÁLOGO: Viagem à Darjeeling


Os manos em Darjeeling: road movie familiar. 

Que tipo de diretor coloca seu ator favorito correndo atrás de um trem somente para perdê-lo e não participar do filme? O tipo Wes Anderson. Essa é a primeira piada auto-referencial que aparece em Viagem à Darjeeling, o quinto longa metragem do cineasta. Além do estilo próprio, o diretor ainda tem uma série de manias que os críticos sempre reparam. Um deles é a fixação com a figura paterna, que aqui ele parece deixar de lado para explorar mais a relação de três irmãos em busca da mãe que resolveu ser missionária na Índia. Mera ilusão, já que um dos motivos para procurarem a progenitora é encontrar uma justificativa para ela não ter aparecido no funeral do marido - isso sem falar que no caminho sempre retomam a velha temática de quem era o filho favorito. Lançado depois do criticado A Vida Marinha com Steve Sizou (2004), Darjeeling foi elogiado pela crítica, embora esteja longe de ser o melhor momento do cineasta. Embora tenha alguns momentos divertidos e interessantes, existem tantos outros em que o diretor parece perdido em ditar os rumos de seus personagens - que são apresentados com tanta empatia que até perdoamos esse deslize. Francis (Owen Wilson) sofreu um acidente e considera que o fato de ter sobrevivido foi uma espécie de oportunidade para melhorar seu relacionamento familiar. Em busca de uma espiritualidade que até então desconhecia, convida seus dois irmãos, Jack (Jason Schwartzman) e Peter (Adrien Brody) para uma viagem pela Índia. A jornada em busca de crescimento espiritual serve mesmo é para que se aproximem e compartilhem suas intimidades. É assim que Francis descobre que Peter tenta lidar com o fantasma da paternidade mesmo distante da esposa grávida e com o fato de Jack não conseguir lidar com o fim de seu namoro (conferindo sempre os recados da secretária eletrônica de sua ex). Obviamente que a Índia mostrada por Wes Anderson é mais fantasiosa do que realista, de forma que o primeiro terço do filme passa quase que exclusivamente de um trem colorido que atravessa paisagens áridas, nele os três irmãos se metem em confusões até serem expulsos. Depois quando a fraternidade está em frangalhos acabam se envolvendo no resgate de três meninos vítimas de um acidente e revivem um momento crucial de suas vidas. Depois entram em contato com um rito fúnebre num vilarejo até que se reencontrem com a mãe (Anjelica Huston) que está mais preocupada com um tigre que assombra a região do que em afagar os herdeiros.  Sei que para a maioria da humanidade o humor de Wes Anderson é no máximo esquisito, mas é interessante a forma como explora a personalidade de seus personagens, especialmente de Francis, que mesmo com as melhores intenções mostra-se um grande chato, impondo aos irmãos as condições que considera as ideais para que possam ser mais próximos. Entre os diálogos podemos perceber pérolas como "Se não fossemos irmãos, será que seríamos amigos?" ou "Será que ela [a mãe] quer nos ver?" que evidenciam que debaixo de todo estilo e cores impressas por Anderson podemos perceber mais uma alegoria sobre as relações familiares que tanto lhe fascinam. Embora não esteja entre os meus filmes favoritos de Wes, o cuidado com a trilha sonora (sempre impecável), figurinos e direção de arte trazem a marca identitária do diretor, mas, devo admitir, que aquela sequência final onde a vida de todos os personagens são apresentadas em vagões de trem é simplesmente genial - e supera qualquer irregularidade na narrativa. Na tela e em DVD o filme contou com a exibição prévia do curta Hotel Chevalier que é uma espécie de epílogo para a trama de Darjeeling - e que causou grande repercussão por contar com a participação de Natalie Portman sem roupa e cheia de hematomas. Provando que tem um fã clube devotado, o filme rendeu o dobro de seu custo na arrecadação mundial nas bilheterias.

Viagem à Darjeeling (The Darjeeling Limited/EUA-2007) de Wes Anderson com Owen Wilson, Jason Schwartzman, Adrien Brody, Anjelica Huston, Bill Murray, Amara Karan e Natalie Portman. ☻☻☻

terça-feira, 9 de outubro de 2012

DVD: O Exótico Hotel Marigold

O elenco de veteranos: garantindo o sucesso de comédia despretensiosa. 

Um elenco é capaz de salvar um filme do esquecimento? Tenho certeza que você deve lembrar de uma série de filmes que garantem um sonoro SIIIIM à esta pergunta. O Exótico Hotel Marigold é um dos mais recentes a entrar na lista ao reunir nomes de peso do cinema britânico. Só para ficar nos mais famosos, ele conta com Judy Dench, Maggie Smith, Tom Wilkinson e Bill Nighy. A direção é de John Madden, que desde o oscarizado  Shakespeare Apaixonado/ não tem agradava o público e a crítica, mas aqui, talvez pela despretensão, caiu nas graças de ambos com uma história simpática de um grupo de idosos que vão curtir uma estadia num hotel na Índia. O filme é baseado no livro de Deborah Moggach e é um dos raros casos em que se comete a ousadia de se concentrar num bando de personagens na terceira idade. Curiosamente o menos interessante é o personagem mais jovem da trama, vivendo o gerente do hotel em decadência, Dev Patel não consegue encontrar o tom do personagem sempre caindo no exagero da caricatura. No roteiro, cada personagem se destina ao hotel por algum motivo, seja uma cirurgia que fará na Índia, a recente viuvez, a vontade encontrar um marido marajá, reencontrar um amor do passado ou apenas curtir as férias num lugar exótico. A história é contada a partir do olhar de Evelyn (Judi Dench, num momento de rara leveza) que vê a estadia na Índia como um recomeço -  é ela que irá costurar as histórias com comentários no seu blog e sugestões aos outros hóspedes. Mas nem todos tem um olhar carinhoso com o país que visita, a amargurada Muriel (Maggie Smith) só perde em preconceitos para a intragável Jean (Penelope Wilton) que finge não perceber que as diferenças com o esposo Douglas (Bill Nighy) chegaram ao limite. Até existem tramas onde as diferenças culturais aparecem, mas não espere grande profundidade já que o filme não tem a mínima intenção de gerar polêmicas. Sua abordagem da sociedade dividida em castas é apresentada apenas superficialmente, assim como os conflitos envolvendo casamento arranjado e homossexualismo. Evidentemente que Madden quis fazer um filme para relaxar e não quis preocupar o público com causas sociais ou qualquer outro elemento que não fosse capaz de gerar algum sorriso no espectador. Diálogos e situações não são capazes de gerar gargalhadas, mas podem conquistar o público de diversas idades com o desempenho de seus atores veteranos. O que mais me assusta é que tudo é realizado com tanta vontade de agradar que a narrativa perde o fôlego lá pela metade - o que torna seus 124 minutos bastante cansativos, no entanto, o apelo do elenco pode compensar qualquer insatisfação (afinal não é todo dia que podemos conferir atores deste quilate numa mesma produção - e Peter O'Toole e Julie Christie quase entraram no elenco). O filme fez um inesperado sucesso rendendo mais de quatro vezes o seu custo nas bilheterias, pode até ser merecido, mas um pouco mais de ousadia não faria mal. 

O Exótico Hotel Marigold (The Best Exotic Marigold Hotel/Reino Unido-EUA-Emirados Árabes/2011) de John Madden com Judy Dench, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Dev Patel, Penelope Wilton e Bill Nighy. ☻☻