domingo, 29 de junho de 2014

COMBO: EXPECTATIVA 2014 - PARTE 2

No início do ano realizei uma lista parecida com essa, mas três dos filmes presentes ali já estrearam. Faltam dois chegarem por aqui: a nova empreitada de Christopher Nolan (Interstellar com data de estreia para um longínquo 06 de julho) e o maior sucesso da carreira de Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste prometido para primeira semana de julho). Chegando à segunda metade do ano, não custa nada dizer quais são os outros filmes aguardados que devem chegar por aqui até dezembro. São eles:

5 - Filth (sem data de estreia no Brasil) Lançado no Reino Unido - e mundialmente em 2014 - essa adaptação de Jon S. Baird para o livro de Irvine Welsh (autor de Trainspotting) traz James McAvoy querendo se livrar (mais uma vez) da imagem de bom moço na pele de um policial  misantropo, bipolar viciado em cocaína e sexo. Às voltas com a investigação de um assassinato brutal (que o faz cruzar com personagens vividos por Jamie Bell, Jim Broadbent e Eddie Marsan) ele vê a chance de ser promovido e reconquistar a esposa e a filha. Quem conhece a obra de Welsh sabe o que esperar em cena (e o trailer é só um aperitivo).

4 - Gone Girl (estreia prevista para 02 de outubro) O filme deve receber o título de Garota Exemplar (mesmo título que o livro de Gillian Flynn recebeu por aqui). O motivo de estar na lista é a assinatura renomada de David Fincher (que nos deve um bom suspense há tempos). A história parece simples: Nick Dunne (Ben Affleck), um homem que tem a esposa (Rosamund Pike) desaparecida no dia do seu aniversário de casamento se descontrola e acaba se tornando o principal suspeito pelo desaparecimento. Agora ele precisa provar que é inocente, além de descobrir o que aconteceu realmente com ela. 

3 - Guardiões da Galáxia (estreia prevista para 1º de agosto) Muita gente não levou a sério quando a Marvel disse que faria a adaptação dessa HQ, mas agora tornou-se um dos filmes mais aguardados do ano. Ambientado numa realidade alternativa no século XXXI, Guardiões conta a história de um aventureiro (Chris Pratt depois do regime) que se junta a um grupo de seres renegados (realizados com base nas atuações de Vin Diesel, Zoe Saldana, Bradley Cooper e Dave Bautista) para proteger um objeto capaz de mudar os rumos do universo. O trailer deixou claro que o diretor James Gunn (Super/2010) anabolizou seu estilo gaiato com efeitos especiais de primeira

2 - Boyhood (estreia prevista para 30 de outubro) Mesmo entre os indies, Richard Linklater é um diretor diferente. Seus projetos sempre caminham para o lado oposto do aguardado, o que os fazem quase sempre incompreendidos pelo público. Linklater passou doze anos filmando as cenas que compõem Boyhood, uma odisseia pela infância e juventude de Mason (Ellar Coltrane) e o relacionamento com seus pais (Ethan Hawke e Patricia Arquette) enquanto amadurece. O registro dos atores através dos anos já vale a visita, mas quem assistiu garante ser uma das maiores experiências cinematográficas de todos os tempos. 

1 - Frank (sem data de estreia no Brasil) Lançado no Reino Unido em maio desse ano, Frank começou a chamar atenção também em festivais (como Sundance) - aumentando a expectativa para essa comédia inusitada baseada em fatos reais. Frank (Michael Fassbender) é o vocalista de uma banda de rock que precisa lidar com toda a rotina de shows, composições e relacionamento com os membros de sua banda. Detalhe: Frank também utiliza uma enorme cabeça de papel marchê o tempo inteiro. O filme conta ainda com Maggie Gyllenhaal, Domhnall Gleeson e Scott McNairy nesse pequeno manifesto à imagem pública das celebridades. 

CATÁLOGO: O Filho da Noiva

Rafael, Nino e Norma: humor para driblar o melodrama. 

Em tempos de Copa é perigoso até falar do cinema argentino (ainda mais se o filme em questão é o filme favorito do Messi!). O cinema dos nossos vizinhos é mais respeitado que o nosso, dentro e fora do país de origem, além do cinema argentino ser responsável pelos dois Oscar de filme estrangeiro concedidos à América Latina - o drama A História Oficial (1985) de Luiz Puenzo e o policial O Segredo dos Seus Olhos (2009) de Juan José Campanella. Entre um e outro estava O Filho da Noiva, dramédia dirigida pelo mesmo Campanella que concorreu ao Oscar em 2001. Embora não seja tão engenhoso quanto o filme de 2009, o diretor consegue lançar um olhar terno sobre os seus personagens e ainda trabalhar um pouco a história da identidade de seu país através deles (não por acaso escolheu o casal protagonista de A História Oficial para ser o casal idoso de seu filme). O protagonista é Rafael (vivido pelo onipresente Ricardo Darín), que administra o restaurante fundado pelos seus pais. Seus pais agora são idosos, embora o pai, Nino (Hector Altério) ainda seja bem articulado com o mundo à sua volta, sua esposa, Norma (Norma Aleandro) sofre de mal de Alzheimer e vive num asilo. Diante do drama de Norma, Nino considera que seria bom realizar um dos maiores desejos dela: casar-se na igreja - já que pelo seu passado comunista, Nino não considerava necessário render-se à convenção religiosa da esposa. Rafael considera a ideia do pai uma sandice (até por conta da memória da mãe), mas aos poucos ele começa a entender os motivos do pai. Com exceção do casamento nunca consumado religiosamente, Nino é bem resolvido com sua trajetória, já Rafael é um personagem bastante diferente. Sobrevivendo ao trabalho, a um divórcio e à guarda compartilhada da filha, o homem é puro estresse - o que compromete até o seu relacionamento com a atenciosa namorada Naty (Natália Verbeke). Às vezes até o próprio Darín se afoga nos exageros do personagem, comprometendo um pouco que o espectador compre a ideia do filme, mas aos poucos, a produção mostra-se mais espirituosa do que o esperado - sobretudo no curioso reflexo da relação de Nino & Norma sobre a relação de Rafael & Naty (que gera algumas das melhores cenas do filme). Apesar dos dramas dos personagens, o filme evita cair no melodramalhão com uso do humor (duas piadas são históricas: a da filha que pode ir para o México "estudar com Professor Girafales" e do padre que diz que "Deus não é preto, não é branco, não é homem nem mulher" e Rafael o interrompe dizendo "Não, padre, esse não é Deus... é Michael Jackson"). Também ajuda muito na simpatia do filme o personagem Juan Carlos (Eduardo Blanco), o amigo de infância de Rafael que tem seus dramas para contar, mas que ajudará o amigo a repensar seu desbocado "projeto de vida". No fim das contas, O Filho da Noiva é sobre aquele ponto onde você precisa tomar decisões que podem ser dolorosas, mas que precisam ser tomadas, afinal de contas, quem disse que pensar os próprios passos era tarefa fácil? Talvez esse seja o maior legado de Nino ao seu filho: enquanto se vive, sempre é tempo de agir!

O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia/Argentina-2001) de Juan José Campanella com Ricardo Darín, Hector Altério, Norma Aleandro, Natália Verbeke e Eduardo Blanco. ☻☻☻

DVD: Meu Passado me Condena

Miá e Fábio: sendo Miá e Fábio. 

Nada contra comédias que querem apenas fazer rir, o problema é quando elas não trazem nenhuma novidade. Fábio Porchat e Miá Mello protagonizam essa comédia romântica que pretende apenas fazer rir. Na história eles são os recém-casados Fábio e Miá, ele trabalha animando festas infantis ao lado do pai, ela é uma economista e juntos irão viajar num cruzeiro rumo à Europa. É evidente que com Fábio Porchat no alto dos créditos você imagina que irão acontecer várias trapalhadas, algumas são engraçadas, outras nem tanto, mas nada que comprometa o resultado final. Existem algumas coisas que irão tornar a lua de mel do casal mais perigosa do que deveria, uma delas é a mania de Fábio curtir tudo que está incluindo no pacote da viagem (mesmo que algumas coisas aconteçam ao mesmo tempo que outras), além de não gastar um centavo a mais com nada que não esteja incluído no pacote. Outro aspecto que compromete a paz dos pombinhos é a presença do casal formado  por antigos relacionamentos da dupla. O mauricinho Beto (Alejandro Claveaux) é tudo que Fábio não é (e nem quer ser), mas mesmo assim sua presença ameaça o moço (e alguns dados sobre a vida sexual dele só pioram as coisas). Por outro lado, Beto está casado com a ex-modelo e médica adepta de métodos alternativos Laura (Juliana Didone) - e Fábio nutriu por toda infância/adolescência uma paixão platônica por ela, mas agora ele precisa ser forte para não cair em tentação - já que ela considera que ele se tornou bem mais interessante do que suas expectativas. Esse "passado condenável" da dupla, serve de base para um plano estapafúrdio dos aparentemente simpáticos funcionários do cruzeiro, Suzana e Wilson (Inez Viana e Marcelo Valle), um casal divorciado que trabalha no navio e que não mede esforços para conseguir uns trocados explorando os passageiros inexperientes. Apesar de divertido e tentar driblar aquela cara de especial de fim de ano da Globo, o filme tropeça em algumas piadas (como a forçada confusão da madrinha de Miá pensando que Wilson é o esposo da afilhada, além da minguada Laura parecendo ameaça para a bem mais interessante Miá Mello) sobretudo na presença de um dos amigos mais inconvenientes da história do cinema: o hediondo Cabeça (Rafael Queiroga). Cabeça é uma ameaça maior ao relacionamento dos protagonistas do que seus ex-amores, afinal, que marmanjo dormiria na quarto do amigo em plena lua de mel dele? Sem falar, que recém-casado faria uma sandice dessas (exceto os que tem segundas e terceiras intenções, claro)? No fundo, Cabeça serve apenas para maximizar uma característica que deveria ser incômoda em Fábio: a imaturidade. Até Cabeça aparecer ele poderia ser considerado um sujeito brincalhão, mas era atencioso com a esposa apesar das inseguranças de todo mortal, mas era preciso patinar o clichê dos homens "mais imaturos que as mulheres". Quando Cabeça aparece, Fábio parece ter o cérebro atrofiado e se transforma em outra pessoa. Isso incomoda mais do que qualquer outra coisa no roteiro (mais até do que ser uma colagem de situações e não uma história propriamente dita). No entanto, essa empreitada baseada no programa de TV da dupla diverte sem maiores compromissos. 

Meu Passado me Condena (Brasil/2013) de Julia Rezende com Fábio Porchat, Miá Mello, Marcelo Valle, Rafael Queiroga, Inez Viana, Juliana Didone, Alejandro Claveaux, Elke Maravilha e Catarina Abdala. ☻☻☻

quinta-feira, 26 de junho de 2014

FILMED+: Rede de Intrigas

Faye Dunaway: prevendo o futuro da TV. 

A década de 1970 deve ser reconhecida pela excelente safra cinematográfica americana que proporcionou. Era a época em que diretores e roteiristas flertavam cada vez mais com uma postura mais crítica perante a sociedade, muitos bebiam na fonte do cinema autoral europeu e o resultado foi o nascimento de nomes que se tornariam grande influência para o cinema americano contemporâneo. Sidney Lumet estava na ativa desde a década de 1950, mas foi nos anos 1960 e 1970 que se tornou um dos nomes mais importantes da sétima arte. Falecido em 2011, o diretor é uma influência para vários cineastas que buscam um tom realista nutrido pela angústia de seus personagens. Rede de Intrigas é um dos seus filmes mais elaborados e concorreu a dez estatuetas no Oscar, mas ganhou apenas quatro (ator/Peter Finch, atriz/Faye Dunaway, atriz coadjuvante/Beatrice Straight e roteiro original/Paddy Chaiefsky). Visto hoje, o brilhante roteiro tem um sabor ainda mais especial, já que parece registrar o nascimento de uma nova forma de fazer televisão, que vive seu auge nos dias atuais. Tudo gira em torno de uma rede de TV fictícia (que apresentada entre os letreiros de redes como NBC e ABC parece mais uma junção de ambas) que padece com baixos índices de audiência. Neste universo quem é mais prejudicado (e cobrado) é o setor de jornalismo, que está com os dias de seu âncora contados na emissora. Howard Beale (Peter Finch, que pela assustadora sandice em cena levou o primeiro Oscar póstumo da história da Academia) aproveita seu penúltimo programa para anunciar nacionalmente que irá se suicidar ao vivo na semana seguinte. Poucos na própria emissora prestam atenção na declaração desesperada de quem já foi um ícone do telejornalismo. Diante disso, seu amigo e diretor do departamento, Max Schumacher (William Holden) tem que lidar com o afastamento imediato de Beale. Enquanto isso, uma editora faminta por números de audiência, Diana Christensen (Dunaway), procura projetos sensacionalistas capazes de alavancar a programação. Não demora muito para que ela perceba que os surtos constantes de Beale garantem números promissores perante os espectadores - e enquanto Max percebe que o amigo está à beira da loucura, Diana estimula Beale a se considerar um "profeta do apocalipse". O texto premiado de Paddy Chaiefsky mergulha cada vez mais na perda de todo e qualquer valor ético e moral na busca por audiência, se por um lado o público abraça as loucuras de Beale, por outro, Diana recebe carta branca para gerar programas tão estapafúrdios quanto videntes que preveem as notícias da próxima semana e ações terroristas reais filmadas para passar na televisão (num programa chamado "A Hora de Mao Tsé-Tung"). Assim, quanto mais a emissora aprofunda sua baixaria, mais números robustos ela tem entre anunciantes e espectadores. Nesse universo vale tudo, de ícones comunistas que viram produtores de TV loucos por dinheiro, passando por editoras novatas que se deitam com veteranos, plateias ensandecidas, terroristas que viram astros de TV além de um assassinato articulado em nome da audiência. Nessa máquina de fazer loucos, o caso de amor adúltero de Max acaba até perdendo o fôlego. Lumet parece nos colocar diante de um verdadeiro presságio do que a televisão se tornaria no futuro: um território onde tudo é válido pela audiência. É neste ponto em que a plateia descobre que nem tudo é válido, afinal enquanto Beale é um louco inofensivo ele pode dizer o que quiser, mas quando começa a revelar as verdades que não devem ser contadas em rede nacional... a coisa complica (repare o monólogo fenomenal de Ned Beatty sobre um tempo onde as nações não existem mais, apenas grandes empresas multinacionais). Ágil da primeira até a última cena, armado em diálogos cortantes com tempero documental e humor negro, Rede de Intrigas é mais do que uma provocação é uma ode ao tempo que estava por vir (o qual vivemos).  

Rede de Intrigas (Network/EUA-1976) de Sidney Lumet com Peter Finch, Faye Dunaway, William Holden, Robert Duvall, Ned Beatty e Wesley Add. ☻☻☻☻☻

§8^) Fac Simile: Tadanobu Asano

Tadanobu Satô
Ainda pouco conhecido no Brasil, o japonês Tadanobu Asano se tornou um dos atores orientais mais requisitados em Hollywood. Nascido em Yokohama no ano de 1973, o ator já realizou mais de 80 produções - na maioria filmes japoneses dirigidos por cineastas conterrâneos como Nagisa Oshima (com quem filmou o aclamado Tabu/2000). Figura constante nas premiações japonesas, Osano ganhou fama mundial quando encarnou o papel principal em O Guerreiro Genghis Khan (2007), que foi indicado ao Oscar e ainda lhe garantiu uma indicação até ao MTV Movie Awards (na categoria Melhor Luta). Foi quase por acaso que o nosso repórter imaginário encontrou com o ator e providenciou essa entrevista que nunca existiu:

§8^) Você ficou famoso no Japão por participar de filmes independentes como Ichi (2001) e Tabu (2000), como se sente a bordo de superproduções fracassadas como 47 Ronins (2013) e Battleship (2012)?

Asano: Bem... meu trabalho é atuar e quando estou diante de uma câmera faço o melhor que posso, o fato de ser fracasso ou sucesso não depende somente de mim, sem falar que sou apenas um coadjuvante nessas produções. Por enquanto os papéis que faço nos cinemas americanos são os menos desafiadores de minha carreira, por isso continuo filmando no Japão. 

§8^) Você deu alguma dica para a cantora Rihanna enquanto filmavam Battleship (2012)?

Asano: Não... ela nem tinha muito o que fazer em cena. Achei desnecessário, a encontrei mais nas sessões de lançamento do que no estúdio. Fiquei surpreso de ver como a voz dela é mais agradável do que aparenta nas músicas.

§8^) Gostei muito de sua atuação em O Guerreiro Genghis Khan, o que era mais difícil: fazer as cenas de ação ou cuidar daquele cabelão?

Asano: KKKKK... sem dúvida cuidar do cabelão. Eu tinha que tomar cuidado para que não ficasse parecido com o Capitão Caverna em algumas cenas. Sem falar que os gastos com xampu e condicionador eram maiores do que eu imaginava. As lutas eram coreografadas e às vezes ele atrapalhava bastante em alguns movimentos.  

§8^) Acha que os produtores de Thor (2011) assistiram ao filme antes de convocarem você para encarnar o guerreiro amigo do herói, Hogun? 

Asano: Acredito que sim. Fiquei com medo deles mudarem de ideia e chamarem o Ken Watanabe [risos] quando perceberam que eu tinha dificuldade em lidar com o inglês, mesmo tendo um avô americano, às vezes não entendia muito bem o que estava acontecendo. Na época também fiquei com medo de usar aquela cabeleira toda novamente. O Hogun dos quadrinhos tem o cabelo cumprido... sorte que os produtores deram uma repaginada no penteado.

§8^) Além de atuar você realiza trabalhos como DJ, desenha roupas, participa de editoriais de moda, lida com livros de arte...

Asano: ... sempre me dediquei a muitas coisas porque considerava atuar muito chato, mas agora eu mudei de ideia. Mas continuo fazendo as outras coisas feito hobby. 

Johnny Sakamoto
§8^) Por ser multimídia chegaram a dizer que você era uma mistura de Johny Depp com Ryuchi Sakamoto ...

Asano: ... é uma mistura interessante e... um pouco estranha [risos].

(algumas informações foram extraídas da entrevista concedida à CNN)

quarta-feira, 25 de junho de 2014

CATÁLOGO: O Guerreiro Genghis Khan

Khan: as primeiras conquistas. 

Certo dia conversava com um amigo professor de História sobre a minha dificuldade em apreciar os grandes épicos. O motivo da conversa era a saga literária Game of Thones e minha dificuldade em curtir o seriado (que ele nem assiste). Lembro que eu dizia que os épicos sempre me incomodavam por deixarem os personagens em segundo plano em favor da estética, das cenas de batalha, dos figurinos, da sanguinolência... sei que não são todos que cometem esse erro, mas a grande maioria que costuma calcular o sucesso somente na bilheteria. Portanto, fiquei surpreso com esse filme realizado numa parceira entre Rússia, Alemanha, Cazaquistão e Mongólia. Dirigido pelo russo Sergei Bodrov, o filme concorreu ao Oscar de filme estrangeiro em 2008 - e talvez até merecesse mais o prêmio do que o ganhador daquele ano, o austrúaco Os Falsários/2007. Desde o início Bodrov faz um caminho que aponta para o contrário do que afirmei nas primeiras linhas da postagem. Começando a contar a história do conquistador mongol Genghis Khan a partir de sua infância, mais precisamente quando escolhe, ou melhor, é escolhido pela sua pequena futura esposa, é visível que o autor preocupa-se com a construção do homem por trás da lenda. Ambientado na segunda metade do século XII, a reconstituição de época é bem cuidada, assim como as locações bem escolhidas para representar, com maestria, o período conturbado em que viveu o personagem. Genghis Khan ainda era conhecido como Temudjin no período contado pelo filme, período muito complicado na vida do personagem histórico, mas que serve para mostrar de onde surgiu a força que o tornaria tão conhecido. Temudjin vê o pai ser assassinado, lida com perseguições à sua família e é tomado como escravo várias vezes. Vivido pelo japonês Tadanobu Asano (o Hogun, parceiro de Thor nos filmes), o personagem parece banhado de uma retidão e generosidade incomuns, sorte que tinha uma parceira fiel em sua esposa, Börte (Khulan Chuluun) - eles sempre se protegiam num mundo que parece destituído de leis. Assim, Temudjin precisa lutar pela sua sobrevivência desde cedo, seja ao lado da família, da esposa ou de aliados até que é comprado pelo imperador chinês como exemplo de como os mongóis deviam ser humilhados tratados. Diante de tantas dificuldades, Temudjin torna-se um estrategista brilhante, ao ponto de ser sempre uma ameaça aos líderes da época, inclusive seu outrora aliado Jamukha (Honglei Sun) com quem disputará a liderança dos mongóis e se tornará figura importante na construção de um império. Para além dos fatores históricos e culturais (ressaltando a amplitude dos "laços familiares" na vida dos grupos), Sergei Bodrov capricha no desenho heroico de seu protagonista e de sua esposa, embalado por cenas de batalha assustadoramente vigorosas e belos enquadramentos em várias cenas a longa duração (126 minutos) não incomoda.  Concebido para ser o capítulo inicial de uma trilogia, apesar dos diálogos simples, o filme cumpre o seu papel de contar a história do personagem antes que ficasse conhecido por suas maiores conquistas. 

O Guerreiro Genghis Khan (Mongol: The Rise of Genghis Khan/Rússia-Alemanha-Cazaquistão- Mongólia/2007) de Sergei Bodrov com Tadanobu Osano, Khulan Chuluun e Honglei Sun. ☻☻☻☻

segunda-feira, 23 de junho de 2014

NªTV: Penny Dreadful

Malcolm, Dorian Grey, Vanessa, Victor e Ethan: medos reais e imaginários. 

Nenhuma série que estreou em 2014 me conquistou tanto quanto Penny Deadful. O fato é que o canal Showtime estava atento ao apelo das séries de horror perante a audiência e resolveu se aplicar na produção da sua cria. Ambientado em 1893, a produção ainda dá um toque especial, com ar de versão gótica de Downton Abbey. O título faz referência aos livros de bolso que contavam histórias de horror que mesclavam histórias sobre personagens reais (como Jack - o Estripador) e histórias sobre fantasmas, vampiros e outros seres sobrenaturais, portanto a trama abre espaço para seres que emanam muito da realidade e da fantasia de um mundo em grande transformação às portas do século XX - onde o real e o imaginário pareciam ter uma linha tênue (e invisível) de separação. À produção coube o desafio de mexer num caldeirão onde sobram referências macabras e, ainda assim, tornar a experiência agradável ao espectador. Sendo assim, a produção é puro deleite para os fãs do gênero, mas não só para esses, especialmente pela habilidade como a produção conduz a trama dividida nos oito capítulos da temporada. Exibido no Brasil pela HBO, os dois primeiros episódios contaram com a direção arrojada de J.A. Bayona (cineasta espanhol responsável pelo sucesso O Impossível/2012) e, ao que tudo indica, os próximos episódios contarão com o mesmo domínio cênico de uma história repleta de elementos malditos. A história acontece ao redor de Malcolm Murray (Timothy Dalton), pai de Mina, uma jovem que foi sequestrada por uma criatura da noite. Malcolm busca sua filha com a ajuda de Vanessa Yves (a excepcional Eva Green), amiga da filha desaparecida e que precisa lidar com sua mediunidade à flor da pele. Em sua jornada pelos mistérios da trama, eles contam ainda com a ajuda de um pistoleiro americano chamado Ethan Chandler (Josh Hartnett, ator com sede de ressurreição) e do jovem Victor Frankenstein (Harry Treadaway). Além disso, vivem cruzando o caminho do misterioso Dorian Grey (Reeve Carney) - jovem com queda para a pornografia e a devassidão. Tempere um grupo desses com enigmas que ecoam desde o Egito Antigo, vampiros e demônios (pessoais ou não) cruzando a cada esquina - numa mescla irresistível de realismo e fantasia. Criado pelo astuto John Logan (roteirista indicado três vezes ao Oscar  e responsável pelo melhor James Bond de todos os tempos, Operação Skyfall/2012), o seriado tem potencial para se tornar uma das mais cultuadas dos próximos anos, Além do texto o elenco é uma atração a parte, é comovente a forma como a série mostrou Victor trazendo um homem de volta à vida com auxílio dos raios (e ótima atuação de Alex Price como a criatura), além de ser arrepiante quando o mal mostra-se à espreita. Nesse quesito, Eva Green (atriz francesa revelada por Bertolucci em Os Sonhadores/2003 e musa de Cassino Royale/2006) está arrasadora na pele (e sobretudo nos olhos) de Vanessa Ives, tão sexy quanto assustadora e sempre mais esperta que os personagens que estão ao seu redor (sejam vivos ou os mortos). Não se surpreenda se quiser assistir aos episódios mais de uma vez, de atmosfera intoxicante tem esse efeito. Graças a Deus que a segunda temporada já está mais do que confirmada! 

Eva Green: uma Bondgirl assombrosa!

Penny Deadful (EUA-Irlanda-Reino Unido/2014) de John Logan com Eva Green, Timothy Dalton, Josh Hartnett, Harry Treadaway e Reeve Carney. ☻☻☻☻☻

Na Tela: A Culpa é das Estrelas

Hazel e Gus: atores mais que certeiros. 

O maior desafio de fazer um filme baseado no sucesso de John Green, A Culpa é das Estrelas é fraquejar na direção e deixar que o sentimentalismo mais rasteiro tome conta da narrativa. Em todo o livro você pode sentir o esforço do autor para não cair nas armadilhas de contar a história de amor de dois jovens que sobrevivem ao câncer pelo viés mais manipulador. Com esse desafio pela frente, o diretor Josh Boone mostra-se bastante eficiente. Boone dirigiu anteriormente Ligados pelo Amor (2012), filme que permanece inédito por aqui, mas que já apresentava a habilidade do diretor em lidar com clichês de forma pouco óbvia. Aqui, ele conta com a ajuda de dois bons jovens atores de Hollywood, a protagonista Hazel Grace ficou a cargo de Shailene Woodley (que confirma aqui toda a atenção que merecia em Os Descendentes/2011) e seu par, Augustus Waters é personificado com luminosidade solar por Ansel Egort. Hazel é uma adolescente de 16  anos com câncer de tireoide e metástase pulmonar em estágio avançado, motivo pelo qual carrega um balão de oxigênio para todo lugar. Ela tem total consciência do que o destino lhe reserva e, por isso mesmo, não vê com bons olhos o tom edificante das reuniões de um grupo de apoio que os pais a inscreveram. É no grupo que conhece Augustus, e tudo o que Hazel tem de realismo, Augustus tem de otimismo. Gus perdeu uma perna para um osteossarcoma que está em remissão, e por isso mesmo, tem as expectativas em alta, especialmente no relacionamento com Hazel - mas as diferenças do ponto de vista sobre a vida aparecem logo no início e comprometem os interesses do rapaz. A primeira cena onde ambos se confrontam mostra que as perspectivas de ambos serão complementares no relacionamento que ganha forma na química adorável que nasce com os dois atores. Boone evita o sentimentalismo com as fartas doses de humor negro do livro e ainda tem um poder de corte certeiro na adaptação do livro para a telona (girando em torno de Hazel, muitos elementos sobre Gus ficaram de fora como os comentários de sua ex-namorada, sua irmã e sobrinhos, a série de livros que ele admira, os jogos de video game...), o que pode chatear os fãs mais xiitas, na tela não faz muita diferença, já que Ansel constrói um mocinho iresistível em seu otimismo (mas que pode ser um doloroso processo de negação). Boone ainda conta com um naipe de coadjuvantes respeitáveis como Laura Dern (ótima como a mãe de Hazel) e Willem Dafoe (confortável como o escritor ídolo de Hazel), além dos pouco conhecidos Sam Trammel (o pai de Hazel) e Nat Wolff (como Isaac, o amigo mais popular do casal protagonista), além da embalagem na medida certa para se comunicar com os adolescentes  - diálogos por SMS, trilha pop agridoce (com artistas que gosto bastante como Birdy, The Radio Dept e M83), fotografia límpida, games... -, afinal é o público fundamental para o sucesso do livro. Como dá para perceber, a versão para a tela de A Culpa das Estrelas é um acerto, uma vez que não foge dos conflitos de seus personagens e de expor o inevitável destino de seus protagonistas. Vale ressaltar que Shailene e Ansel  trabalharam juntos no recente Divergente (2014), mas é aqui encontram o material necessário para que suas estrelas brilhem mais (e merecidamente) em Hollywood.

A Culpa é das Estrelas (The Fault in our Stars/EUA-2014) de Josh Boone com Shailene Woodley, Ansel Egort, Laura Dern, Willem Dafoe, Sam Trammel e Nat Wolff. ☻☻☻

domingo, 22 de junho de 2014

CATÁLOGO: Love Field

Michelle: melhor atriz no Festival de Berlim em 1992

Michelle Pfeiffer é uma dessas atrizes lindas que concorrem ao Oscar e nunca ganham. No final dos anos 1980 e durante a década de 1990 a loura esteve no auge, concorrendo três vezes ao Oscar e perdendo todas elas. Talvez cansada de tudo isso, fez uma pausa de cinco anos na carreira, precisamente de 2002 até 2007. Durante esse tempo se dedicou à família e se afastou dos holofotes. Quando retornou realizou filmes celebrados como as versões para a telona de Hairspray (2007), Chéri (2009) e Sombras da Noite (2012). Mas quem acompanhou o auge da atriz percebe que a carreira perdeu fôlego - ainda que sua beleza e talento permaneçam intactos. A última vez que a Academia se rendeu ao seu trabalho foi com Love Field (que no Brasil recebeu o subtítulo capenga de As Barreiras do Amor), obra que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz em Berlim em 1992 (mesmo ano que ela imortalizou a Mulher-Gato nas telonas pelas mãos de Tim Burton). Dirigido por Jonathan Kaplan e escrito por Don Roos (que depois estreou na direção com O Oposto do Sexo em 1998), a história se passa em 1963, um ano bem específico da  história americana. Ambientado nos dias em que os EUA tentavam digerir o assassinato de John Kennedy, o filme retrata o interesse da dona de casa Lurene Hallett (Pfeiffer) em presenciar o funeral do presidente. Fã de Jaqueline Kennedy (da qual curiosamente copia as roupas e o corte de cabelo - apesar de platinado como a Marilyn dos pesadelos de Jackie), a jornada de Lurene serve para que ela conheça uma realidade bem diferente do que a televisão e os jornais divulgavam, já que ela cruza o caminho do misterioso Paul Cater (Dennys Haysbert) e sua filha. O que era para ser uma carona, acaba virando um jogo de desconfianças para Lurene, gerando um mal entendido que irá dificultar o caminho dos três personagens. Enquanto Lurene descobre que seu país ainda tinha que melhorar muito para superar a tensão racial existente, a pátria chora por uma das personalidades políticas mais carismáticas do século XX. Nos poucos dias em que convive com Paul e a filha, Lurene passa da mulher deslumbrada com o american way of life para uma pessoa consciente do mundo que estava fora das paredes da comodidade de seu lar, ao ponto de Lurene questionar seu próprio relacionamento com o esposo autoritário e até agressivo. As relações e conflitos de Love Field podem até apontar para um romance inevitável entre Lurene e Paul, na representação de dois mundos que se encontram quase por acaso, mas a intenção é mais do que essa. Trata-se de um retrato de um mundo que estava em transformação, onde o assassinato do presidente da maior potência inatingível do mundo demonstrava que debaixo de todo o discurso se escondiam intenções e discursos muito presentes nas relações. Nesse ponto, a transição dos personagens é fundamental, seja da frágil Lurene em alguém que toma consciência dos discursos que a cerca ou de Paul que permite-se confiar novamente em alguém. Kaplan pode até exagerar em alguns momentos cômicos ou até sensacionalistas de seu filme, mas Michelle e Dennis Haysbert estão sempre ali dispostos a equilibrar o que vemos na tela. Diante do mundo de som e fúria que se revela com o fim das expectativas da era Kennedy, torna-se antológica a cena em que Lurene percebe que debaixo de todo aquele aparato governamental e patriota, Jaqueline era apenas uma mulher de carne e osso, vulnerável como todos os mortais (incluindo o próprio John).

Love Field - As Barreiras do Amor (Love Field - EUA/1992) de Jonathan Kaplan com Michelle Pfeiffer, Dennis Haysbert, Brian Kerwin e Beth Grant. ☻☻☻☻

sábado, 21 de junho de 2014

DVD: Animais

Flertar com elementos de fantasia numa trama realista não é fácil, tanto que quando um diretor consegue essa difícil proeza ele é facilmente exaltado pela crítica e, às vezes, até pelo público. O espanhol Marçal Forés chamou atenção em festivais com sua estreia em longa metragem neste Animais, filme bastante interessante sobre alguns dilemas da adolescência - sobre a ótica de um jovem que tem num urso de pelúcia como seu melhor amigo. Parece ridículo? Talvez nos primeiros minutos você perceba que o diretor sabe trocar, com bastante habilidade, o ridículo pela estranheza. Especialmente se você conseguir perceber alguns elementos que podem parecer familiares, mas nunca combinados de maneira tão coerente. Pol (Oriol Pla) é um adolescente que vive com o irmão mais velho, Llorenç (Javier Beltrán), mas que tem como melhor amigo Deerhoof, um uso de pelúcia que fala em inglês. Pol passa a maior parte do tempo trocando confidências com Deerhoof - que toca bateria nas investidas musicais do rapaz. Llorenç conhece esse histórico do irmão e fica bastante incomodado com isso. Pol também tem um casal de amigos, Laia (Roser Tapias) e Mark (Dimitri Leonidas), mas para nenhum deles é capaz de dizer as coisas que diz para Deerhoof. O bicho de pelúcia é um confidente bastante fiel do protagonista. Não é difícil perceber que Deerhoof e sua voz desiludida (que lembra a do ursinho de Inteligência Artificial/2001) representam a inocência de Pol, a necessidade do jovem guardar seus segredos para que o mundo não se torne uma ameaça a partir do que deseja. No entanto, existe um certo desequilíbrio quando um lobo rouba Deerhoof e o destrincha num bosque para que depois Pol o encontre e o costure - ou que mais tarde Llorenç o enterre no quintal, para depois Pol resgatá-lo (para que depois tenha coragem de crescer e abandonar o fiel companheiro num ato que parece até uma covardia). Some isso à presença de dois novos personagens: Clara (Maria Rodriguez) e Ikari (Augustus Prew). Clara irá desaparecer da cidade e Ikari irá forçar um pouco as barreiras de segurança que Pol criou em volta de si. É no flerte constante entre o realismo e o fantástico que conhecemos as angústias dos personagens, especialmente no que se refere à sexualidade. É em meio a esses caminhos a serem percorridos que Deerhoof faz falta, num reflexo de que as ilusões eram mais seguras, ao mesmo tempo que simbolizam um distanciamento quase mórbido da realidade. Forés orna seu filme com trilha sonora deliciosamente crua e seres que vivem entre o inofensivo e o selvagem - o que serve também para os seus personagens adolescentes retratados como universos em expansão que se chocam ou complementam. O filme tem uma narrativa hipnótica que define a fantasia dentro da realidade dos seus personagens e lembra filmes como Donnie Darko (2001), Elefante (2003) e o brasileiro Os Famosos e Os Duendes da Morte (2009), sendo desse as referências que mais me impressionaram (a ponte como uma fronteira entre a vida e a morte, a menina que parece um fantasma, a sexualidade sufocada do protagonista). Ainda assim, Animais é um filme de identidade bem marcada para traduzir a juventude e suas referências no árduo processo de chegar à vida adulta.  

Pol: reconstruindo a inocência em risco. 

Animais (Animals/Espanha-2012) de Marças Forés com Oriol Plá, Roser Tapias, Javier Beltrán, Dimitri Leonidas, Martin Freeman e Augustus Prew. ☻☻☻☻

DVD: A Vida Secreta de Walter Mitty

Ben e Wiig: quando a fantasia não funciona. 

A Vida Secreta de Walter Mitty é o tipo de filme que é sabotado por suas próprias expectativas. Fico pensando em como o diretor Ben Stiller ficou feliz quando Robert Downey Jr. foi indicado ao Oscar pelo seu filme anterior (Trovão Tropical/2008) e ele sentiu aquele gostinho de quero mais. Stiller demorou cinco anos elaborando seu novo filme inspirado na obra de James Thurber (1894-1961), renomado humorista e cartunista americano que era um dos colaboradores mais célebres da revista The New Yorker. As expectativas se acumulavam quando o elenco somava os nomes de Sean Penn, Kristen Wiig e Shirley MacLayne. Falava-se de prêmios, bilheterias astronômicas e a data de estreia foi na cereja da temporada de prêmios (25 de dezembro de 2013), mas quando foram publicadas as primeiras resenhas tinha-se a impressão que as opiniões sobre o filme eram bem divididas - com uma tendência a tornar o filme naquela obra em que todos resolvem falar mal na temporada. O problema é que Stiller fez um filme de narrativa bastante frágil. Desde o início percebe-se as boas intenções do diretor (misturada com um bocado de pretensão) ao contar a história do homem comum do título, que teve o auge de sua carreira trabalhando na prestigiada revista Life, cuidando dos negativos da publicação. Mitty ainda era conhecido como o maior contato do fotojornalista Sean O'Connell (Sean Penn), cujas fotos servem de inspiração (e "viagens") para Walter, que considera nunca ter conhecido ou feito algo interessante. Mitty tem o interesse amoroso por uma colega de trabalho, Cheryl (Kristen Wiig), tem contato com a mãe zelosa (Shirley MacLaine), uma irmã chata (Kathryn Hann) e sua vida poderia continuar presa à rotina inerte de todos os dias se a revista em que trabalha não fosse vendia para um grupo que irá enxugar a folha de pagamento enquanto a torna online. Essa mudança é encarnada pelo desagradável Ted Hendricks (Adam Scott), sujeitinho torpe de barba espessa (postiça e pavorosa) e que resolve pegar no pé de Walter - especialmente depois que ele perde um negativo que serviria para criar a foto que refletiria a "Quintessência" da revista - capturada pelas lentes de Sean. Visto dessa forma, o filme seria uma dramédia bastante comum, especialmente pelos elementos que misturam o cinemão hollywoodiano com uma linguagem que flerta com o cinema indie. Talvez o maior tropeço de Stiller seja lidar com as cenas de fantasia inspiradas na mente de seu protagonista, afinal, diante dos seus desejos abafados pela realidade, resta-lhe a fantasia como consolo. No entanto, a imaginação de Mitty é sempre inserida de forma exagerada no filme e o desequilíbrio com o restante do filme beira o constrangedor. São raras as vezes que a ideia funciona como deveria, uma delas é quando Mitty corre a frente de edições da Life e uma delas traz o seu rosto na capa, ou quando Cheryl canta Space Oddity para inspirá-lo a tomar decisões, fora isso, as cenas soam exageradas e um tanto desconectadas do resto do filme. Cenas como a de Mitty e Ted brigando feito dois super heróis pelas ruas da cidade soam apenas exageradas e isso prejudica bastante a comunicação da história que Stiller quer contar (tanto que desaparecem lá pela metade da sessão com o pretexto que Mitty "vive as fantasias"). É evidente que a trama é sobre um sujeito que precisa se arriscar, correr atrás dos seus sonhos e ser feliz, mas se falta sutileza no uso de suas fantasias, por outro, falta ânimo no lado realista da história. Apesar do bom elenco, ele não é capaz de fazer milagre com os diálogos pobres do roteiro, nem de garantir que as reviravoltas desinteressantes funcionem. Se A Vida Secreta de Walter Mitty tem boas intenções, bons atores, bons efeitos especiais, belas paisagens, ótima fotografia onde está o erro? Talvez no diretor. Ben Stiller é um ator e diretor eficiente quando lida com um humor bastante diferente do que vemos aqui. Quando vai para o escracho de Zoolander (2001) e Trovão Tropical (2008) ele se supera, mas ele ainda não consegue gerar uma comédia mais sofisticada e sentimental. Ou seja, Ben Stiller funciona quando é Ben Stiller e não quando tenta ser outra pessoa atrás de uma câmera. 

A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secret Life of Walter Mitty/EUA-2013) de Ben Stiller com Ben Stiller, Sean Penn, Kristen Wiig, Adam Scott e Shirley MacLayne.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

KLÁSSIQO: Janela Indiscreta

Stewart e Kelly: os favoritos de Hitchcock.

Eu tinha até vergonha quando contava que nunca vi Janela Indiscreta, um dos maiores clássicos de Alfred Hitchcock. Mais do que um clássico, o filme tornou-se uma referência no gênero - gerando refilmagens, ensaios fotográficos e filmes que se inspiraram nele (como Dublê de Corpo/1984 de Brian DePalma). O fato é que filme bom não tem idade e, como já disse outras vezes aqui no blog, os filmes de Hitch sempre me surpreendem pela modernidade com que são realizados. Existem alguns planos de Janela Indiscreta que beiram o inacreditável se pensarmos que foi realizado há 60 anos! Além disso, o  desenho dos personagens são sempre mais instigantes do que imaginamos - especialmente se levarmos em consideração o relacionamento moderninho que existe entre o casal principal vivido por James Stewart e Grace Kelly (o casal favorito do diretor). James é Jeff, um fotógrafo que encontra-se em repouso em seu apartamento, confinado à uma cadeira de rodas. Para passar o tempo, ele vive espiando o cotidiano de seus vizinhos como um autêntico voyeur. O hábito de Jeff é criticado por sua empregada (Thelma Ritter) e pela namorada, Lisa Fremont (Grace Kelly) que não veem com bons olhos seu interesse pela vida alheia. Essa curiosidade pela intimidade dos outros incomoda ainda mais a bela Lisa, que ainda tenta convencer o seu amado a avançar no relacionamento que existe entre eles. Em algumas cenas, Jeff demonstra se considerar superior ao estilo de vida de Lisa, que escreve em revistas de moda e frequenta festas badaladas - o que a irrita algumas vezes. Para além das discussões que seu mau hábito gera, Jeff começa a desconfiar que um dos moradores do prédio em frente à sua janela assassinou a esposa. Juntando evidências visuais enquanto se recupera da perna ele não tem dúvidas de que algo de sinistro aconteceu em uma determinada noite. Embora conte com a ajuda do amigo detetive Thomas (Wendell Corey), tudo também pode ser fruto de sua imaginação - ainda que Lisa, aos poucos, comece a ter as mesmas desconfianças e resolva ajudá-lo a descobrir a verdade, colocando a vida de todos em risco. Hitchcock é um mestre de orquestrar atmosferas de suspense que crescem gradativamente e aqui a novidade é o cuidado em que explora o cotidiano de uma dezena de personagens que não possuem diálogos, mas movimentos explorados pelo expectador através dos olhos de Jeff. Existe uma bela coreografia entre as cenas que mesclam o cotidiano dos personagens, o que consegue manter nosso interesse em suas existências aparentemente triviais (destaque para a Miss Lonelyhearts de Judith Evelyn, que vive no limite da solidão todos os dias). Além de todas as qualidades técnicas, reguladas pelo famoso perfeccionismo do diretor, o filme ainda tem uma Grace Kelly que beira uma miragem de tão linda. Percebe-se em sua primeira cena como a atriz precisou apenas de seis anos para se tornar uma lenda em Hollywood. Aqui ela está em sua segunda parceria com Hitch e honra as protagonistas impecáveis do diretor como se fosse uma espécie de deusa em celulóide (e, a cada cena, percebemos porque o diretor ficou tão desapontado quando a musa largou a carreira de atriz para se casar com o príncipe de Mônaco), dizem que na intimidade ele sempre dizia que a tornaria a maior estrela de seu tempo (e as cenas em que ela aparece só comprova essa devoção do cineasta). 

Janela Indiscreta (Rear Window/EUA-1954) de Alfred Hitchcock com James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter, Wndell Corey e Raymund Burr. ☻☻☻☻

quarta-feira, 18 de junho de 2014

MOMENTO ROB GORDON: Sósias da Copa

Para não dizerque nem mencionei uma única linha sobre a Copa (não curto muito futebol, o que torna muito difícil criar uma lista de filmes sobre o assunto) resolvi fazer um ranking de algo que se tornou comum em vários sites da internet. Basta colocar no GOOGLE "sósias da copa" para ter uma enxurrada de pessoas que se parecem com outras. Como a mania de Rob Gordon é fazer rankings de cinco, descrevo aqui os sósias cinematográficos favoritos da temporada futebolística!

05 Andrea Pirlo (Itália) x Chuck Norris (Braddock)
Se assistiu algum jogo da Itália e teve a impressão que Chuck Norris havia se tornado jogador, você não foi o único. Andrea Pirlo e o astro aposentado dos filmes de ação são pessoas diferentes (pelo menos até que provem o contrário). 

04 David Luiz (Brasil) e Side Show Bob (Springfield)
Seria maldade dizer que o motivo da comparação é a cabeleira entre dos dois, vale ressaltar que acho até o nariz e os lábios do jogador paulista parecidos com do personagem vilanesco dos Simpsons. 

03 Valdivia (Chile) x Fernanda Torres (Brasil) 
Fernandinha já foi comparada com a cantora Alanis Morrissete, mas acredito que até Fernanda Montenegro sentiu calafrios quando viu a semelhança da filha com o jogador nascido na Venezuela. Gêmeos?

02 Karim Benzema (França) e Shia Labeouf (Made in USA)
Sinceramente, em algumas fotos não sei distinguir quem é um ou outro. O fato é que o jogador de origem Argelina parece uma espécie de clone (ou vice-versa) do ator que ficou famoso com as aventuras de Transformers no cinema. 

01 Júlio César (Brasil) x Buzz Lightyear (Toy Story)
Desculpe a obviedade, mas a Pixar deve estar sofrendo um processo por direitos de imagem do goleiro brasileiro, já que Buzz é simplesmente sua versão em desenho animado. 

DVD: Ninfomaníaca - Volume 1

Martin e Shia: pretensiosamente tedioso. 

Na estreia de Ninfomaníaca, a atriz Charlotte Gainsbourg disse que na primeira vez em que o diretor Lars von Trier comentou sobre o filme, ela acreditou que era apenas uma piada provocadora. Somente depois, quando recebeu o roteiro que percebeu que o diretor estava falando sério. Conforme a produção ganhava forma o filme recebia mais destaque na mídia. Cada aquisição do elenco, cada comentário do diretor sobre cenas picantes, sua extensa duração (cinco horas dividida em dois capítulos) ou pôster provocador era como um petisco do que estava por vir. Lançado nos cinemas os curiosos foram assistir, mas entre eles quem era fã de Lars tinha altas expectativas, afinal de conta o sexo já foi elemento de algumas obras anteriores do diretor, seja no sofrido Ondas do Destino (1996), no brilhante Dogville (2003) e, principalmente, no horror Anticristo (2009). Era esperado que o diretor subvertesse o que o público esperava e criasse outra obra surpreendente. No entanto, devo registrar que me decepcionei bastante com o filme (o que não deixa de ser surpreendente, já que curto o trabalho do cineasta). Trier sempre foi uma bom diretor de atores e um roteirista de mão cheia, mas aqui ele não faz a mínima ideia do que fazer com sua história. Apesar de ser um dos seus filmes mais bem cuidados (existem vários detalhes que tendem a tornar o resultado mais pop, como a trilha sonora e a fotografia belíssima), mas a história de Joe é simplesmente tediosa. Nesse volume 1, conhecemos a infância e a adolescência da personagem, conhecemos a influência de sua amiga B no desenvolvimento de sua sexualidade, a distância afetiva de sua mãe (uma silenciosa Connie Nielsen), a admiração que tem pelo pai (Christian Slater) e o nascimento de sua paixão por Jerome (Shia Labeouf), seu primeiro homem - o qual encontrará diversas vezes na narrativa. O filme é isso. É verdade que para tornar tudo mais "dinâmico", o diretor opta por colocar Joe mais velha (vivida por Charlotte Gainsbourg, atriz que tornou-se a favorita do diretor) contando suas desventuras a um desconhecido (Stellan Skarsgard, o ator favorito de Lars). Ela não entra em detalhes sobre seus parceiros, afinal, eles estão ali apenas para cenas de sexo sem muita importância - afinal, diante da tediosa vida de Joe a única graça que existe no mundo é transar. Existem momentos cômicos, como aqueles em que ela se confunde com as ligações de seus vários parceiros ou quando faz considerações sobre o comportamento deles. Existem outros agradavelmente estranhos (como a visita de Uma Thurman à casa da amante do esposo), outros comoventes (os últimos dias do pai de Joe) e até românticos (como o segundo reencontro de Joe com Jerome), mas Lars tem uma dificuldade gigantesca de criar sua personagem. Vivida quando jovem pela novata Stacy Martin, Joe está longe de ser uma personagem interessante, parece apenas entediada em meio aos bons coadjuvantes em cena. Talvez essa seja a intenção de Lars, criar uma personagem oca que evite que caia em moralismos ou simples pornografia, mas percebe-se uma tendência de criar uma aura erudita à trama, o que é duro de engolir. O roteiro tenta fazer analogias do comportamento de Joe com o ato de pescar, com Fibonacci, com a música e outras coisas numa fragilidade que mostra-se um tanto patética. Tropeçando em sua própria pretensão, tudo que a história poderia ter de dramática, cômica e até eroticamente interessante fica pela metade do caminho, parecendo uma versão piorada de Romance (1999) de Catherine Breilat e menos interessante que 9 Canções (2004) de Michael Winterbotton, ambos polêmicos, explícitos e irregulares, mas que chegavam mais perto de suas ambições do que a frágil obra de Trier. Parece que o filme tenta ser a versão feminina do bem sucedido Shame (2011), mas não funciona. O último ato até promete que as coisas podem melhorar no segundo volume, mas ainda acho que as ideias de Ninfomaníaca - volume 1 caberiam em um curta de vinte minutos. 

Ninfomaníaca - Volume 1 (Nynphomaniac: Vol.I/Dinamarca, Alemanha, Bélgica, França, Reino Unido - 2014) de Lars Von Trier com Charlotte Gainsbourg, Satacy Martin, Shia Labeouf, Stellan Skarsgaard e Uma Thurman.

terça-feira, 17 de junho de 2014

DVD: Sem Perdão

Colin e Noomi: sede de amor e vingança.

O diretor dinamarquês Niels Arden Oplev pode se gabar de ter deixado David Fincher para trás, pelo menos no que diz respeito à adaptação da série Millenium para a telona. Foi Oplev que dirigiu a versão sueca para a primeira parte da trilogia de Stieg Larsson sobre a relação entre a cyberpunk Lisbeth Salander e o jornalista Michael Nyqvist.  Era visível que a versão de Oplev bebia diretamente nos primeiros filmes de Fincher com seu tom sombrio alimentando um suspense crescente. Não por acaso, quando Hollywood inventou de fazer sua própria versão de Milleniium para a telona, convidaram o próprio Fincher, mas no fim das contas, é o filme de Oplev que mostrou-se mais eficiente e coerente com a história. Muito dos méritos do cineasta é devido à escalação da vigorosa Noomi Rapace para o papel de Lisbeth. Apesar da versão americana ter rendido uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Rooney Mara, é Noomi que se tornou referência mundial da personagem de visual punk. Tudo isso torna ainda mais justo que, quando convidado para dirigir uma produção americana, Niels convide Noomi para ser sua protagonista. Apesar de tornar a personagem Beatrice marcante, a atriz é coadjuvante nesta trama de vingança um tanto truncada protagonizada por Colin Farrell. Farrell é o misterioso Victor, que vive metido nas ações de uma gangue de criminosos. O espectador ficará perdido no início sem saber exatamente o que está acontecendo em meio aos tiros e perseguições do início, mas a intenção do diretor é essa mesmo. Eis que um dia Victor fica instigado com a vizinha que o observa no prédio da frente e os dois acabam se encontrando. Ela se chama Beatrice e sofre com as várias cicatrizes deixadas por um acidente de carro. Por conta das cicatrizes a moça realizou várias cirurgias para desfazer o estrago em sua aparência, mas as marcas psicológicas são ainda mais profundas. Beatrice sabe de um segredo de Victor e o utiliza para chantageá-lo, pedindo em troca de seu silêncio que Victor assassine o homem que provocou o acidente. Noomi dá conta do lado mais obscuro de sua personagem, enquanto Collin consegue manter o caráter de seu personagem em suspenso durante boa parte da sessão. No entanto, a dureza dos personagens com sede de vingança, dilui-se que o carinho que um passa a nutrir pelo outro. O mais interessante do filme é que enquanto pensamos que a trama irá manter a tensão da relação entre os dois, num caso de reflxos da vingança de um sobre a do outro, a coisa descamba para um romance entre os dois personagens. Romance esse que poderá ser capaz de curar as cicatrizes do casal, mas que não combina em nada com a doses cavalares de violência sádica que o filme exibe. Sem Perdão torna-se quase "sem noção" nos caminhos que segue, dependendo basicamente de sua dupla de atores para manter a credibilidade na overdose de reviravoltas que  nem sempre funcionam como deveriam - já que o espectador mal digere uma novidade, esta se desmonta no caminho de uma outra. Quando tudo fica esclarecido, fica a impressão que o diretor complicou demais uma trama simples de romance e vingança, se fosse mais enxuto, o resultado poderia ser mais harmônico e benevolente à atuação de seu elenco competente- que inclui até a diva Isabelle Huppert na pele da doidivana mãe de Beatrice. 

Sem Perdão (Dead Man Down/EUA-2013) de Niels Arden Oplev com Colin Farrell, Noomi Rapace, Dominic Cooper, Terrence Howard e Isabelle Hupert. ☻☻☻

domingo, 15 de junho de 2014

A FAMÍLIA BATEMAN

Patrick é um típico yuppie (que na verdade é uma sigla para "jovem profissional urbano") da década de 1980. Curte música pop, artigos eletrônicos, cosméticos, ternos indefectíveis (Armani, de preferência), Nova York, drinques (além de prostitutas, serras elétricas, facas, arames...). Não sabemos muito a sua origem, somente que formou-se em Harvard em 1984. Ele poderia até ser Batman se sua psiquê não fosse tão comprometida, com traços de psicopatia e suspeitas de que seja um serial killer, Bateman ainda consegue ser um sujeito muito querido pelo escritor Bret Easton Ellis - que, além de Psicopata Americano (1991) menciona o sujeito em obras como As Regras da Atração (1987), Glamourama (1998) e Parque Lunar (2005). As pessoas não conhecem o paradeiro de Patrick atualmente, mas é capaz que ainda esteja ganhando alguns milhares de dólares em negociações sobre a extração de gás natural nos EUA.

O irmão caçula de Patrick tornou-se conhecido antes do mano, já que As Regras da Atração (1987) foi editado primeiro. É através dele que sabemos que a família Bateman não é endinheirada, tanto que o cobiçado rapaz precisa traficar drogas no campus universitário para pagar suas despesas. Sean não parece suspeitar das mazelas psicológicas do irmão, mas também tem sua cota de problemas para resolver, principalmente sobre suas dificuldades em manter um relacionamento sério e romper com a visão superficial que tem das relações humanas. Sean acabou abandonando a faculdade - e dizem que vive cruzando o mundo de um lugar para o outro atrás de repostas nunca encontradas sobre o seu lugar no mundo. Entre um paradeiro e outro passa o tempo com variadas parceiras sexuais. 

Justine Bateman
No lado mais tranquilo da família está Justine, que (por motivos óbvios) nega sua relação com Sean ou Patrick, mas o sobrenome denuncia o parentesco. Ela ficou famosa na década de 1980 quando encarnou Mallory Keaton no adorado seriado Caras e Caretas (1982-1989) ao lado de Michael J. Fox. Justine até fez alguns filmes para o cinema, mas é na televisão que costuma ser mais conhecida. Ela participou de vários programas de sucesso como Lois & Clark: As Novas Aventuras de Superman (1996), Californication (2008), Desperate Housewives (2012) e Modern Family (2013). Ano passado ela estrelou um thriller de ação ao lado de Ted Levine e Matthew Lillard chamado Deep Dark Canyon, sem previsão de estreia por aqui. 

Jason Bateman
O homem mais simpático e inofensivo da família é um dos atores mais presentes em comédias de Hollywood. Jason é o irmão favorito de Justine que incentivou bastante a carreira do moço. Jason ficou famoso com o papel no seriado Arrested Development (2003 - que retrata, curiosamente, uma família disfuncional) e conseguiu migrar para a telona sem grandes problemas. Depois do sucesso em filmes como Juno (2007), Quero Matar Meu Chefe (2011 - reparou os traços de psicopatia nesse título?) e Uma Ladra Sem Limites (2013), o ator acaba de lançar sua estreia como diretor em Bad Words (2003) onde encarna um adulto que consegue se inscrever num concurso de soletrar ao lado de várias crianças - isso não parece muito normal, o que só evidencia o parentesco de Jason e Justine com os outros Bateman dessa lista.

Nick Bateman 
O menos famoso da lista é Nick, um rapaz com pinta de galã que ganha a vida como modelo, mas que, na verdade é um vampiro que tem sua trajetória dissecada nos sete episódios da série The Originals (2011). Ele até tentou disfarçar seu parentesco com os outros Bateman dessa lista vivendo no Canadá desde que nasceu, mas não adianta. Com esses olhos e esses dentes pontudos, fica evidente que o problema nos genes dos Bateman é mais sério do que poderíamos imaginar! No entanto, é bom ficar atento a esse nome, já que o moço recebeu vários convites para filmes e programas de TV depois que a internet divulgou o efeito do Programa de Treinamento de Patrick Bateman na musculatura do rapaz...

CATÁLOGO: Regras da Atração

Beek: o dia em que o irmão do psicopata matou Dawson.

De 1998 até 2013, James Van Der Beek se tornou o rapaz sonho de consumo de muitas garotas (e garotos) que assistiam ao xaroposo seriado Dawson's Creek. Ele era o próprio Dawson, o bom rapaz do grupo que estava dividido entre o amor de duas garotas e era fã de Steven Spielberg. Como todo ator que começa a carreira encarnando um personagem icônico na TV, o sonho era ir para o cinema e ganhar  a vida fazendo filmes em Hollywood, mas como a maioria deles descobre pouco depois, isso é bem mais difícil do que parece. Faz mais de uma década que o seriado terminou e tirando uma participação aqui e outra ali em filmes de diferentes gêneros, James ainda encontra na TV seu porto seguro - e em dois títulos seus melhores momentos na tela grande. Um é Vansity Blues (1999) filme todo preparado para a transição do ator para a telona. A história sobre o  promissor jogador de futebol americano rendeu boa bilheteria (graças à febre do seriado na época) e até um prêmio no MTV Movie Awards de ator revelação para o moço. Com o fim do seriado e convites para o cinema rareando, Beek ousou escolher um daqueles papéis típicos para quem quer mudar a imagem: o protagonista de Regras da Atração - um dos polêmicos livros de Bret Easton Ellis, autor de obras distópicas como Glamourama (1998) e o famoso Psicopata Americano (1991), que virou filme em 2000. Regras da Atração é seu segundo livro (lançado em 1987) e já confirmava seu território na literatura americana com personagens jovens, fúteis e que passam o tempo em busca de drogas e sexo. Ou seja, tudo que James Van Der Beek precisava para dar uma guinada na carreira. Para completar, tinha o apoio de um diretor oscarizado pelo roteiro de um marco dos anos 1990: Roger Avary, que foi parceiro de Quentin Tarantino em seus primeiros textos (incluindo premiado Pulp Fiction/1994). Beek encarna, sem inibições, o jovem Sean Bateman, um universitário que ganha dinheiro traficando drogas para dentro do campus. Sean é um típico anti-herói, sabe que o que faz não é correto, mas acredita que precisa fazer para bancar a faculdade (que é de que mesmo, hein?). Os personagens não tem cenas em salas de aulas, mas em festas que servem para desenrolar os fatos importantes e quartos no dormitório. Bateman é uma das vértices de um triângulo amoroso que tem tudo para dar errado (como a primeira cena já deixa claro), afinal ele sente-se atraído por Lauren (Shannyn Sossamon), uma garota que sempre vê horripilantes fotos de doenças venéreas para manter-se virgem enquanto Jason (Ian Somerhalder) tenta seduzir Sean como se fosse uma donzela pervertida. O filme acompanha principalmente os desastres pessoais do trio, que nunca conseguem o que querem realmente. Para manter o interesse durante a sessão, Avary prefere utilizar recursos narrativos variados enquanto seus personagens ficam na superficialidade. Um recurso é o de retroceder cenas diante do espectador para que possamos entender como chegamos ao ponto de partida (afinal, essa é a grande proposta do filme, desde a primeira cena), ou então dividir a tela para que possamos acompanhar dois personagens até que se encontrem ou até, representar a realidade de um lado e as fantasias de outro. Isso é o de menos, a presença de sexo, drogas, masturbação e promiscuidade é que deve ter provocado um efeito interessante nas fãs de Dawson's Creek. James Van Der Beek não provoca toda a ojeriza que deveria no papel de Sean, pelo contrário, o faz um sujeito até simpático ao se afogar em seu próprio egocentrismo. Se Avary fosse um diretor melhor, sua atuação poderia ter sido até memorável. Mas não precisava tanto, Regras da Atração serve para James sepultar a imagem de bom moço (fique atento ao personagem Patrick sempre mencionado por Sean - trata-se de Patrick Bateman, seu irmão, o protagonista de Psicopata Americano. Só tem gente fina nessa família)!

Regras da Atração (Rules of Attraction/EUA-2002) de Roger Avary com James Van Der Beek, Ian Somerhalder, Shannyn Sossamon, Kip Pardue, Kate Bosworth, Jay Baruchel, Colin Bain, Jessica Biehl, Faye Dunaway e Eric Stoltz. ☻☻☻

DVD: Matador em Perigo

Grint, Nighy e Blunt: a nada mole vida de um matador. 

Matador em Perigo é uma daquelas típicas comédias inglesas, cheia de humor negro e atores que sabem muito bem o que fazer em cena e, sabem que, o filme não fará muito sucesso fora do país de origem. É verdade que o título em português diminui bastante do potencial do filme, já que, sem pensar muito, eu lembro de uns dez filmes que poderiam ter recebido esse nome (filmes estrelados por Pierce Brosnan, George Clooney, Sylvester Stallone...). Quem não cair na tentação de abandoná-lo terá uma divertida surpresa. Estrelado por Bill Nighy, o veterano mais cool da terra da rainha, o filme consegue ter fôlego por boa parte da sessão, só perdendo pontos quando o diretor Johnatan Lynn  pesa a mão para que exista um casal romântico na trama. Nighy é Victor Maynard, uma verdadeira lenda entre os matadores de aluguel da Europa. Sua aparência é um enigma preservado por contatos telefônicos misteriosos para serviços que devem primar pela eficiência. Talvez por isso Maynard seja tão solitário e apegado à assepsia de seu lar. Seu único contato com o mundo exterior à casa de móveis plastificados é a mãe, a temperamental Louisa Maynard (Eileen Atkins), que mesmo paraplégica presa pela reputação do filho e a honra de uma longa genealogia de matadores profissionais. Esse dever ser o maior impasse da vida de Maynard, afinal, as habilidades familiares para o negócio devem terminar nele, já que não tem planos de se casar e ter filhos. Além disso, sempre existem comentários sobre a sua sexualidade - que pode ser reprimida ou simplesmente atrofiada devido à frieza que seu trabalho exige.  Mas o caminho de Maynard irá cruzar com o de duas pessoas que deverão resolver esse dilema. Uma delas é a bela vigarista Rose (Emily Blunt, que sempre considero mais a vontade quando atua em comédias), que acaba de aplicar um golpe utilizando um Rembrandt falsificado e cuja vítima (Rupert Everett) contrata os serviços de Maynard. Desde o início sabemos que o matador terá problemas para fazer o serviço, já que a garota é mais astuta e charmosa que o resto da humanidade, mas isso não é problema já que existem outros homens capazes de fazer o serviço, inclusive o segundo melhor matador do mundo, Hector Dixon (Martin Freeman). Eis que numa confusão que só faz sentido nas comédias, Rose será salva pelo jovem Tony (Rupert Grint), que junto com Maynard serão responsáveis por sua segurança. Enquanto Rose não faz nem ideia de quem Maynard seja, os três ficarão juntos, primeiro num hotel e depois na casa do próprio Maynard. Isso é puro pretexto para que o matador decida se prefere a companhia de Rose ou de Tony, que demonstra alguma habilidade e interesse para seguir a carreira do veterano matador (além de desenvoltura para ficar sem roupa em algumas cenas). Enquanto o roteiro brinca com as diferenças entre o trio e investe nas suspeitas da homossexualidade de Maynard (e nisso sua química com a ingenuidade de Rupert Grint ajuda bastante), o filme consegue ser bastante divertido, mas depois resolvem que o matador é hétero mesmo e tudo se torna convencional e previsível até o confronto final.  Apesar de divertido, o filme perde nessa guinada a chance de tornar seu personagem mais complexo e coerente dentro do roteiro, enfim, o transforma em mais uma cria do diretor Johnatan Lynn - diretor de Meu Primo Vinny (1992), Meu Vizinho Mafioso (2000) e Resistindo às Tentações (2003), filmes que flertam com a subversão, mas sempre tomam um caminho pelo que é mais seguro e agradável ao grande público. Nisso todos saem perdendo, uma vez que nunca há um passo além do que se espera.  O mais interessante é que trata-se de uma refilmagem de um longa francês de 1993 de Pierre Salvadori (chamado Cible Émouvante), mas o personagem parece ter sido escrito sob medida para Nighy, que merece destaque dentro do talentoso elenco britânico.

Matador em Perigo (Wild Target/Reino Unido - França/2009) de Johnathan Lynn com Bill Nighy, Emily Blunt, Rupert Grint, Rupert Everett, Martin Freeman e Eileen Atkins. ☻☻☻

quinta-feira, 12 de junho de 2014

CICLO DIA DOS NAMORADOS / 10+ Filmes Românticos que Você Não viu

Para terminar nosso Ciclo do Dia dos Namorados resolvi lembrar alguns dos meus filmes românticos favoritos citados no blog. Como eram muitos, resolvi escolher aqueles menos conhecidos e pouco convencionais. Além disso, para evitar confusões, os coloquei apenas em ordem alfabética e com palavras-chave para tentar definir o que lhe aguarda quando assisti-los com (ou sem) companhia. 
FELIZ DIA DOS NAMORADOS! 

(dupla... músicas... singelo)

(passado... livros... futuro)

(memórias... esquecimento... doidices)

(sozinha... chat... vizinho)

(suicida... perigo... circo)

(direita... sexo... esquerda)

(timidez... inibição... chocolate)

(escritor... protagonista... domínio)

(sereia...pescador...realidade)

(amigos... crescer... completar)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

CICLO DIA DOS NAMORADOS: Orgulho e Preconceito

Liz e Mark: casal icônico em ótima adaptação. 

Não deixa de haver um fundo de verdade naqueles que dizem (e repetem) que o diretor Joe Wright só funciona quando trabalha com Keira Knightley. Afinal, se formos comparar os filmes em que o diretor trabalhou com a atriz (Orgulho e Preconceito/2005, Desejo e Reparação/2007 e o controverso Anna Karenina/2012) com os outros que filmou sem ela (O Solista/2009 e Hannah/2011), parece até covardia. É possível dizer que Knightley é a musa do diretor, aquela estrela quase mítica que consegue motivar o que o talento dele tem de melhor. O mais curioso é que a parceria iniciada com Orgulho e Preconceito quase não aconteceu, já que Wright não concordava que a atriz devesse encarnar a jovem Elizabeth Bennet do cultuado livro de Jane Austen. Se formos lembrar as atuações da atriz antes dessa adaptação, a atitude de Wright está mais do que justificada. Considerada uma das mais promissoras de sua geração, Knightley passava mais tempo fazendo caras e bocas para filmes pipoca do que querendo ser levada a sério como atriz. No entanto, quando ela conseguiu o papel da mais determinada das irmãs Bennet, a moça resolveu mostrar que poderia ser levada a sério. Keira abraça todos os defeitos e virtudes de sua personagem, a temperando com romantismo e humor na medida certa - não parecendo uma heroína suspirante e nem a arrogante que não merece a torcida da plateia. Além disso, a produção conseguiu reunir um elenco invejável. Austen se concentra, mais uma vez, no núcleo da aristocracia rural inglesa na virada do século XIX para contar a história de uma família que precisa lidar com cinco filhas. Jane (Rosamund Pike), Elizabeth (Knightley), Mary (Talulah Riley), Kitty (Carey Mulligan) e Lydia (Jena Malone) vivem com relativo conforto junto aos pais (vividos pelos veteranos Donald Sutherland e Brenda Blethyn) um tanto liberais para a época, mas como não possuem irmãos, quem herdará as posses da família é um primo, William Collins (Tom Hollander). Assim, a senhora Bennet nem consegue disfarçar que gostaria muito que suas filhas casassem o mais rápido possível. Enquanto a doce Jane se apaixona pelo tímido rico Charles Bingley (Simon Woods), Elizabeth reluta em ver o casamento como uma solução para sua situação financeira, acreditando que deverá se casar somente se o amor verdadeiro aparecer em sua vida. Mas, como identificar o amor verdadeiro se ela é orgulhosa demais para isso? Ainda mais se levarmos em conta o controlado James Darcy (Matthew MacFadyen) atraído por ela e vice-versa. Se Liz considera impossível que exista amor entre eles, por outro lado, quando ele se declara, o maior problema passa a ser os preconceitos gerados por ele ser dono de metade da região. Orgulho e Preconceito é um filme que rompe com a ideia de que filme de época precisa ser pesaroso e solene (lição devidamente aprendida com Razão e Sensibilidade/1995). O maior mérito da direção de Joe Wright é imprimir uma narrativa moderna em uma história que, mesmo ambientada no passado, ainda se sustenta sobre sentimentos bastante atuais. Além disso, Liz e Darcy - um dos casais mais icônicos da literatura inglesa - recebe interpretação luminosa de Keira e Matthew. Feito na medida para agradar as plateias carentes de romantismo legítimo, o filme concorreu a quatro estatuetas no Oscar (direção de arte, trilha sonora, figurino e atriz para Keira). Os mais acostumados com os filmes americanos vão estranhar a última cena, mas em DVD temos a vantagem de ter a melosa cena final exibida nos EUA que leva as garotas às nuvens...

Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice/Inglaterra-2005) de Joe Wright com Keira Knightley, Matthew MacFadyen, Rosamund Pike, Tom Hollander e Donald Sutherland. ☻☻☻☻