sexta-feira, 31 de outubro de 2014

NACAPA: Peanuts

Peanuts: esperando a estreia do filme em 2015. 

A capa de outubro dispensa apresentações, afinal, são velhos conhecidos de muita gente! Charlie Brown, Snoopy e seus amigos foram publicados pelo cartunista Charles M. Schultz pela primeira vez em 02 de outubro de 1950, sendo editado até 12 de fevereiro de 2000. Sendo considerada uma das séries mais famosas do mundo dos quadrinhos, Peanuts (apelido em inglês do melancólico Charlie Brown, também conhecido como Minduim) foi publicado em mais de 2600 jornais, em 75 países e traduzido para 40 línguas diferentes, alcançando cerca de 355 milhões de fãs. Além dos quadrinhos, os personagens geraram linhas de brinquedos, desenhos para a TV, além de alguns filmes para home vídeo. O primeiro, É Natal Charlie Brown (1965) tornou-se um famoso curta-metragem sobre o espírito natalino. Depois foram lançados outros cinco filmes com a turma, sendo o último lançado em 1980 com o nome  "Boa Viagem, Charlie Brown", todos podem ser encontrados em DVD. Mesmo com o falecimento de seu criador em 12 de fevereiro de 2000, os personagens continuam sendo famosos o suficiente para ter seu primeiro filme para a telon em breve! Snoopy & Charlie Brown - O Filme será uma animação em 3D que chegará às telas em 2015 para defender o legado da turminha! 

Snoopy e Minduim: estreia na telona. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Na Tela: Era Uma Vez em Nova York

Marion e Phoenix: romantismo frustrado. 

É estranho ver Era Uma Vez em Nova York ser lançado tão distante do tempo em que os estúdios divulgam suas melhores produções para o Oscar. Exibido no Festival de Cannes, o longa é o filme mais ambicioso (e o mais diferente) da carreira de James Gray. Analisando sua filmografia iremos nos deparar com produções urbanas com um gosto queda por personagens que não são exatamente modelos de conduta. Aqui ele repete sua parceria com Joaquin Phoenix, mas investe num filme de época, mais precisamente do ano de 1921. Em busca do sonho americano, Ewa Cybulska (Marion Cotillard) chega aos Estados Unidos em busca de melhor oportunidade de vida com a irmã, Magda (Angela Sarafyan). Logo que chegam as duas tem problemas com a imigração. Enquanto consideram que Magda está doente, Ewa é acusada de ter praticado atos despudorados com os homens da tripulação do navio em que embarcou. Com medo de ser deportada para a terra natal, pede ajuda para o desconhecido Bruno Weiss (Joaquin Phoenix). Afastada da irmã, Ewa fica  sob a proteção dele, sob a condição de agradar os fregueses de sua casa de mulheres. Quando entra em cena o primo de Bruno, o mágico Emil (Jeremy Renner), forma-se um triângulo amoroso perigoso. James Gray conta uma história de amor diferente, onde Ewa nunca desfruta de cenas de amor com seus dois admiradores - e os dois vivem brigando por conta dela. Existe um impasse na personagem, que enfrenta sentimentos opostos por Bruno (gratidão/raiva) e Emil (esperança/desconfiança), assim como pela terra em que acreditava lhe trazer oportunidades - mas que a direciona para algo bem menos digno do que imaginava.  Gray conduz uma história difícil como se fosse fácil, afinal, a dinâmica da narrativa é pautada exclusivamente nas relações de seus personagens. Se Renner cria um personagem pouco interessante (embora bem nutrido de referenciais românticos) e Phoenix dá vida a um tipo estranho fascinante, o centro das atenções ainda é Marion Cotillard. A francesa cria uma personagem difícil, de emoções densas e interiorizadas, oferecendo cenas em que seu olhar triste vale mais do que a cena de catarse que nunca chega para Ewa. Gray faz um filme que bebe no realismo revelando um romantismo frustrado que nunca se cumpre, assim como as expectativas de Ewa, rejeitada pelos seus parentes em solo americano, perseguida por policiais, deitando com diferentes homens que não lhe oferecem nada além de alguns trocados. Tudo soa como golpes em um sonho que morre aos poucos. Bem produzido em seus tons de marrom e dourado, Era Uma Vez em Nova York revela-se um conto de fadas com cara de tragédia e, por isso  mesmo, mostra que James Gray merece reconhecimento como um dos melhores jovens diretores americanos. Lançado em maio nos EUA, não se surpreenda se o filme reaparecer na temporada de ouro que se aproxima.

Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant/EUA-2014) de James Gray com Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner e Jicky Schnee. ☻☻☻☻

domingo, 26 de outubro de 2014

Pódio: Ryan Gosling

George e Ryan Thomas Gosling
Depois de ser constante na telona, Ryan Gosling ficou dois anos longe da telona e ao lado da esposa, Eva Mendes (que conheceu nas filmagens de O Lugar Onde Tudo Termina/2012). Esse ano nasceu a primeira filha do casal enquanto o ator ainda divulgava sua controversa estreia na direção (Lost River/2014). O ator começou a carreira no Clube do Mickey na década de 1980 e migrou para o cinema em 2000, ganhando cada vez mais prestígio com suas participações em filmes independentes e alguns sucessos de grandes estúdios (como Diário de Uma Paixão/2004 e Amor a Toda Prova/2011). Longe das telas, a Marvel e a DC Comics tentam convencê-lo a vestir a capa de um super-herói (se bem que eu adoraria vê-lo de Lex Luthor), mas o ator está do jeito que gosta voltando  às telas no ano que vem no novo filme de Terrence Mallick. Enquanto isso, lembro das minhas três atuações favoritas do ator:

Bronze: o doidinho.
A Garota Ideal (2007) 

Depois de sua indicação ao Oscar pelo dramático Half Nelson/2006, Ryan pegou mais leve nessa dramédia simpática sobre Lars, um rapaz solitário que descobre seu par ideal na internet. O problema é que trata-se de uma boneca da silicone!! Preocupada, a família do moço procura uma psicóloga que sugere que todos participem daquela fantasia como uma espécie de tratamento. Aos poucos, conhecemos um pouco mais das contidas emoções de Lars - que o guiaram até aquele relacionamento inusitado. O diretor Craig Gillespie cria um belo filme sobre tolerância, solidariedade e, o mais importante, sem pieguices. Pelo papel, Gosling ganhou o prêmio Satellite de Melhor Ator. 

Prata: o romântico perdido.
Namorados Para Sempre (2010)
Ao lado de Michelle Williams, Ryanh Gosling formou um dos casais mais expressivos do cinema nos últimos anos. A história de amor de Dean (Gosling) e Cindy (Williams) é contada através de um fato corriqueiro que desencadeia uma crise permeada por flashbacks que contrapõe presente e passado, impregnando de novos sentidos fatos que poderiam, ser vistos apenas como corriqueiros. Derek Cianfrance constrói um filme de deixar o coração apertado ao mostrar o nascimento e morte de um amor que tenta resisistir à passagem do tempo, suas rotinas e conflitos. Simplesmente emocionante. Michelle foi indicada ao Oscar e Ryan ao Globo de Ouro.

Ouro: o psicótico galã.
Drive (2011)
O fato é que o filme do dinamarquês Nicholas Winding Refn tem uma força esquisita que não sei explicar qual é. Talvez seja o visual retrô, ou o clima imprevisível que sempre caminha aprisionando uma violência explosiva da trajetória do dublê e motorista de bandidos (vivido por Ryan Gosling). Quando sua vida parece se ajeitar, a doce Irene (Carey Mulligan) cruza seu caminho com o filho - para pouco depois o encrencado marido (Oscar Isaac) dar as caras e meter todos na mira de bandidos. Num cenário agressivo, com pequenos toques singelos, Drive é um estiloso soco no rosto, onde a expressão quase de plástico de seu protagonista serve à perfeição das explosões imprevisíveis do caminho de uma espécie de faroeste urbano.

DVD: O Lugar Onde Tudo Termina

Ryan e Eva: tragédia determinista.

O Lugar Onde Tudo Termina foi um dos filmes independentes mais falados de 2012. Afinal, na época, Ryan Gosling tinha seus projetos aguardados não apenas pelos fãs, mas pela crítica que o percebia como uma referência para produções que mereciam atenção. Ironicamente, sua presença no filme foi o que mais causou decepção. Não que o ator esteja mal em cena, pelo contrário, mas a expectativa gerada acabou quebrando as pernas do filme. Apesar de trabalhar pela segunda vez com o diretor Derek Cianfrance, do belamente triste Namorados Para Sempre (2010), o filme evoca outro filme do ator, o prestigiado Drive (2011). Para piorar as coisas, depois de O Lugar existiu Apenas Deus Perdoa (2013), filme com Ryan e dirigido por Nicholas Windig Refn, mesmo cineasta responsável por Drive. Tanto neste quanto em Drive e Apenas Deus Perdoa, Gosling interpreta personagens silenciosos, violentos e com traços de psicopatia. Ou seja, a coisa começou a ficar repetitiva. No entanto, apesar de todos os acontecimentos de O Lugar Onde Tudo Termina girarem em torno do motoqueiro vivido pelo ator, seu personagem aparece em cena somente na primeira parte do filme, já que Derek planeja abordar um encadeamento maior dos fatos a partir dos encontros entre os personagens. O tom de tragédia é constante, mas o que mais incomoda é a pretensão mesclada com o determinismo que aprisiona as intenções de um filme que poderia ser mais interessante do que sua conclusão permite. Luke (Gosling) é um motoqueiro que coloca sua vida em risco no Globo da Morte em apresentações num parque de diversões, eis que o parque volta para uma cidade onde se envolveu com a bela Romina (Eva Mendes, com quem o romance com o ator foi para a vida real). Não demora muito para que ele descubra que teve um filho com ela e que deve zelar pelos dois. Mas Romina prosseguiu a vida ao lado de outro homem, Kofi (Mahershala Ali) e o que Luke tem a oferecer não a satisfaz. No entanto, Luke quer dar ao seu filho o amparo que ele mesmo não recebeu do próprio pai e se junta a um amigo mecânico para assaltar bancos. Essa é a primeira parte do filme, que depois segue o policial Avery (Bradley Cooper) que cruzará o caminho de Luke e sua família. O encontro fará com que Avery enfrente seus próprios dilemas e descubra que entre seus amigos policiais existe um bocado de corrupção. A última parte é dedicada aos filhos desses dois homens, AJ (Emory Cohen) é o filho do policial e Jason (Dane DeHaan) é o rapaz em busca da identidade desconhecida do pai. Os dois tornam-se amigos, mas com um certo sadismo por parte de AJ que irá motivar uma nova jornada de violência na história. Cianfrance cria uma história interessante, mas que sofre com a rédea curta do esquematismo, há muitas ações que são mostradas como inevitáveis, como se a vida já estivesse escrita e coubesse a nós somente sofrê-la.  Essa sensação fica quase insuportável quando Jason, parece ter como única opção de vida tornar-se o mais próximo possível do pai. Desprezando seu bom relacionamento com o padrasto e a mãe, subitamente o rapaz sucumbe à marginalidade. Essa opção torna o filme um tanto previsível em sua estética de sarjeta e diminui as possibilidades de suas camadas defendidas por um ótimo elenco. O Lugar onde Tudo Termina é interessante, mas é menos do que gostaria, talvez pela pretensão de Cianfrance e sua visão surpreendentemente simplista dos personagens que tem em mãos. 

O Lugar Onde Tudo Termina (The Place Beyond the Pines/EUA-2012) de Derek Cianfrance com Ryan Gosling, Eva Mendes, Bradley Cooper, Dane DeHaan, Ben Mendelsohn e Emory Cohen. ☻☻☻

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

DVD: O Nosso Segredo

Ralph e Felicity: ótimos atores sem química. 

Felicity Jones é uma atriz que descobri quase que por acaso. O mais engraçado é que a cada novo trabalho me torno mais fã dessa jovem atriz inglesa de trinta anos (embora ela pareça ser mais jovem). Descobri Felicity em A Tempestade/2010 , mais uma versão sonolenta de uma obra shakesperiana que se achou modernosa, mas uma das poucas coisas que salvava era a atuação de Felicity. Depois especularam seu nome para as premiações com Loucamente Apaixonados/2011 e a coisa se repetiu com esse O Nosso Segredo (nome menos interessante que o original: "A Mulher Invisível"). Felicity vive a doce jovem atriz Nelly, moça humilde pela qual o renomado escritor Charles Dickens (vivido por Ralph Fiennes) nutre uma paixão instantânea assim que a vê numa montagem teatral em que divide o palco com ela. Nelly fazia parte de uma família modesta de atrizes que vivia de pequenos espetáculos e Dickens era casado com uma mulher que lhe deu vários filhos (todos homens). Todo mundo percebia a atração que o escritor, vários anos mais velho que Nelly, sentia por ela, mas o fato é que demorou bastante para que ele conseguisse convencê-la a envolver-se com ele. Afinal de contas, na sociedade de 1850 o escândalo era certo, assim como os prejuízos para as carreiras de ambos (mais ainda para a dele, cultuado já em seu tempo). O fato é que por mais que o casal Dickens tivesse um casamento de fachada, deveria perdurar até que a morte os separasse. Em seu segundo longa metragem na direção, Ralph Fiennes erra (como ator) por demorar para encontrar o tom certo para Dickens, ele aparece exagerado, histriônico, quase histérico em sua euforia que ao invés de contagiar, pode aborrecer a plateia. Como diretor ele erra na edição truncada. Felicity caminha para o lado oposto, revelando aos poucos as virtudes de sua personagem, que teme pela sua honra e não sabe se o que sente é medo da polêmica ou da atração que sente por um homem mais velho e casado. São personagens interessantes, sem dúvida, mas que padecem da falta de química entre seus protagonistas. O fato é que não existe entre Ralph e Felicity a faísca necessária para o público se envolver na história de amor que vivem na tela. Da mesma forma, a história de amor fica comprometida pela edição confusa desnecessária que mostra Nelly depois do relacionamento com Dickens para depois contar o que houve entre ela e o escritor. No final, o espectador percebe que deveria haver um segredo entre esse fato no passado da personagem, mas o resultado é tão confuso que ficou difícil de perceber que a tal mulher invisível era um mistério daquele tempo. Por conta dos tropeços da montagem picotada, a história demora muito para decolar, deixando tudo muito cheio de lacunas e mistérios que dramatizam a história, mas não recebem o merecido acabamento no roteiro. No fim das contas, fica a sensação de que vários bons atores coadjuvantes foram desperdiçados em personagens sem brilho (Kristin Scott Thomas, inclusive) e algumas belas cenas de Felicity (especialmente na cena em que sua personagem percebe que não há futuro ao lado de Dickens), mas o Oscar lembrou mesmo foi de indicar o figurino elaborado para a produção. Por enquanto Ralph Fiennes continua me convencendo mais como ator do que como diretor (e Felicity Jones tenta estar mais uma vez no páreo do próximo Oscar com The Theory of Everything, onde vive a esposa do físico Stephen Hawking... desejo-lhe sorte).

O Nosso Segredo (The Invisible Woman/Reino Unido-2013) de Ralph Fiennes com Felicity Jones, Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Tom Burke e Michael Marcus. ☻☻

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

DVD: O Lobo Atrás da Porta

Leandra e Milhem: encontro dos lobos.

O Lobo Atrás da Porta foi um dos filmes mais elogiados do ano, quase sendo o escolhido para defender o Brasil em uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro (perdendo a pré-indicação para Hoje Eu Quero Voltar Sozinho). Marcando a estreia do diretor Fernando Coimbra em longa metragem, torna-se notável o seu esmero em fugir de lugares comuns, evitando gracinhas e não tendo medo de ser desagradável nos momentos certos. Nota-se essa desenvoltura na escolha de locações que parecem construir outro Rio de Janeiro em nosso imaginário cinematográfico. Centrado em municípios da periferia, não há nada de cartão postal nas locações, sendo que quando aparece algo que se assemelhe a isso, é no momento em que a plateia já está com o coração na mão - e percebe de que já conhecemos aquela história, mas pelo viés do sensacionalismo - que não é o que vemos aqui. Coimbra opta por construir um quebra-cabeça humano, repleto de ilusões, decepções e atrocidades a partir do desaparecimento de uma garotinha na saída da escola. A partir do sumiço, começam as investigações que apontam para um sequestro. É a partir, principalmente dos depoimentos da mãe (Fabiúla Nascimento) e do pai (Milhem Cortaz) que tomamos conhecimentos dos suspeitos e o caminho que o filme pode seguir. Até então, nem o espectador sabe direito em qual gênero encaixar o filme. Suspense? Drama? Terror? O Lobo continua escondido até que através dos flashbacks milimetricamente encadeados, o espectador começa a ajustar o foco e perceber do que trata a história. É quando conhecemos a principal suspeita que o filme revela outras virtudes. É a atuação perfeita de Leandra Leal que serve para revelar os segredos que as entrelinhas do sequestro não conseguem esconder. Teria a mãe chorosa um amante vingativo? Ou é a esposa do tal amante que quer se vingar? E o pai, seria um sujeito confiável? Além do suspense que cresce entre silêncios e diálogos (às vezes torturantes), o que sustenta é o drama vivido pelos personagens, especialmente a de Leandra. Uma jovem que  apaixona-se pela pessoa errada e sofre consequências que nem imaginaria. Leandra Leal tem aqui outro grande momento, mostrando que sabe crescer diante das câmeras, numa personagem complexa que ganha nossa simpatia enquanto o diretor tece uma trama cheia de crueldades. Ao fim da sessão, vemos que não existe apenas um lobo na história, mas que apenas um deles é capaz de admitir o crime que cometeu e, ainda assim, contentar-se com uma satisfação que não pode ser compreendida por ninguém mais além de si. Coimbra realiza um filme perturbador, especialmente por humanizar alguém que poderíamos ver apenas como um monstro amoral. 

O Lobo Atrás da Porta (Brasil/2014) de Fernando Coimbra com Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiúla Nascimento, Juliano Cazarré e Tamara Taxman. ☻☻☻☻

domingo, 19 de outubro de 2014

§8^) Fac Simile: Hugh Jackman

Nosso repórter imaginário nem acreditou quando , andando por uma rádio australiana, encontrou com Hugh Jackman em uma rara entrevista em seu período de férias pós a última aventura dos X-Men na telona. Fac não perdeu a oportunidade e perguntou se poderia lhe fazer cinco perguntas nessa entrevista - que nunca aconteceu:

§8^) Quando o Wolverine se pesa ele desconta o peso do esqueleto de adamantium?

Hugh: Não faço a mínima ideia. Ainda não parei para pensar nessas coisas. Mas de vez em quando eu me pergunto como o Superman, que é de aço, consegue cortar o cabelo ou cortar a unha!

§8^) Falando em unha, quando suas garras saem, não sente dor?

Hugh: Bem... no início doía um pouco, mas com o avanço dos efeitos especiais eu não preciso me dar a esse trabalho. 

§8^) Você vive tentando levar para o cinema seu musical premiado The Boy From Oz, mas nunca consegue. Acha que tem um pouco de preconceito por seu personagem ser gay?

Hugh: Pode ser. As pessoas ainda vão no cinema e me veem como Wolverine. Se eu levantar o tom ou me tornar um pouco mais agressivo eles já dizem "pronto, virou Wolverine!". Ouvi muito isso quando fiz Fonte da Vida (2006) e Suspeitos (2013), mas acho que se eu fizesse algo totalmente diferente metade das pessoas poderiam ficar chocadas esperando pelas garras aparecerem...

§8^) Você acabou de completar 46 anos, mas vive aparecendo sem camisa em seus filmes para mostrar que ainda está em forma. Já me disseram até que irá apresentar o Oscar novamente, mas sem camisa que é para levantar a audiência que anda caída. Sua esposa não ficará com ciúme? Vai me dizer que ela nunca soltou a Wolverina que tem dentro dela com o assédio?

Hugh: KKKKKKKKKK! Minha esposa tem um pouco de ciúmes, mas acho que é normal. Mas o casamento é mais do que eu ficar sem camisa por aí. Quanto ao Oscar, não está nos meus planos... até porque ele pediram para eu me depilar para o serviço e eu desisti... rs. 

§8^) Alguns personagens de X-Men já apareceram vividos por atores mais jovens, quem você gostaria que vivesse o Wolverine juvenil?

Hugh: Eu mesmo, oras! Eu nunca envelheço!

DVD: Os Suspeitos

Jake e Jackman: a verdade liberta no fim do labirinto? 

Recentemente em cartaz com o controverso O Homem Duplicado (2014), o canadense Denis Villeneuve comprovou que anda obcecado com a ideia da "verdade". Afinal, todo mundo queria saber o que havia por trás dos sósias vividos por Jake Gyllenhaal na trama inspirada no livro de José Saramago (e quando chegamos no final nos deparamos com apenas um nó gigantesco). Essa obsessão começou em seu quarto longa-metragem, o excepcional Incêndios (2010), que merecia o Oscar de filme estrangeiro a que foi indicado (e recentemente recebeu uma montagem teatral no Brasil estrelada por Marieta Severo) ao contar a história do casal de irmãos que buscam a identidade do filho perdido de sua mãe e acabam encontrando muito mais do que isso. Em Os Suspeitos (2014) o diretor até engana os fãs, fazendo-os pensar que contará uma história de suspense tradicional nos moldes de Hollywood, mas aos poucos mostra que seu interesse é criar um universo muito maior que as limitações do cinemão comercial. Um universo que se assume como um labirinto, onde as paredes que complicam o caminho são feitas de carne e osso, pessoas com suas suas subjetividades forjadas em dramas pessoais que lhes constituíram em qualidades e defeitos. Talvez por esse motivo eu prefira o título em inglês, que traduzido fielmente seria Prisioneiros, independente de ser cativeiros, celas ou percepções da realidade, todos os personagens estão presos às suas histórias. Por isso, a verdade do filme parece cada vez mais turva, os papéis de mocinhos e bandidos mudam de uma hora para outra numa busca pela saída do labirinto instituído pelo roteiro engenhoso de Aaron Guzilowski. A trama gira em torno do sumiço de duas meninas, filhas dos casais de amigos formado por Keller (Hugh Jackman) & Grace (Maria Bello) e  Nancy (Viola Davis) & Frank (Terrence Howard). As suspeitas recaem sobre o motorista de um trailer que rondava a vizinhança no dia do desaparecimento, que ao ser encontrado, parece inofensivo com seu histórico de problemas mentais. O suspeito Alex Jones (Paul Dano, em mais um dos papeis estranhos que adora fazer) ficou órfão ainda criança e foi criado pela tia (Melissa Leo). Embora seja um rapaz estranho, a polícia o considera inocente e o liberta para o desespero de Keller e do detetive encarregado do caso, Loki (Jake Gyllenhaal) - que percebe problemas à vista... Num encontro desastroso na saída da delegacia, Keller tem a certeza que que Alex é o culpado pelo desaparecimento da filha e, enquanto a esposa mergulha em tranquilizantes, Keller resolve fazer justiça com as próprias mãos. Neste ponto, Villeneuve coloca seu espectador num dilema moral diante das torturas a que Alex será submetido. Sem glamourizar a violência, Villeneuve mostra o processo de desumanização de um homem que começa o filme rezando o Pai Nosso (enquanto ensina o filho adolescente a atirar num animal) e transformado numa fera, Keller está tão cego na verdade que acredita para aliviar sua dor, que não percebe o quanto está fora de controle. Afinal, provas concretas de que a culpa é de Alex não existem. Paralelo a isso, as investigações se deparam com outros desaparecimentos de crianças que se acumularam ao longo dos anos, além de um padre que guarda um cadáver no porão e um homem estranho que rabisca labirintos compulsivamente. Conforme o filme avança as soluções parecem cada vez mais distantes e o que era para guiar à solução, mostra-se um conjunto de estranhezas, crimes e fusões de histórias aparentemente sem ligação. Villeneuve cria um filme complexo, cheio de elementos e analogias (perceba quantas vezes os personagens se deparam com buracos negros literais, separando o conhecido e o desconhecido) valoriza ainda mais pelo excelente elenco. Os Suspeitos só não é perfeito porque exagera um pouco no desfecho que é quase feliz. Trata-se de um trabalho complicado, mas que ilustra com perfeição as obsessões de seu diretor, afinal, a verdade pode não ser tão lógica e agradável como nós pensamos. 

Os Suspeitos (Prisioners/EUA-2013) de Denis Vileneuve com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Maria Belo, Paul Dano, Melissa Leo, Terrence Howard e Dylan Minnette. ☻☻☻☻

DVD: Queda Livre

Koffler e Riemelt: romance proibido. 

Alardeado como o Brokeback Mountain (2005) alemão, Queda Livre fez sucesso em festivais com sua temática de romance entre dois homens, mas ficou conhecido entre um público bastante restrito. A história dos dois policiais que se apaixonam e passam a se encontrar escondido não traz nenhuma novidade, mas ganha pontos pelo tratamento cuidadoso com os sentimentos dos personagens (que parece mais angústia do que amor em determinados momentos). O policial Marc Borgman (Hanno Kofler) é casado e sua esposa está prestes a dar à luz ao primeiro filho do casal quando ele reencontra um colega de academia que o assediou durante o treinamento. Se no passado Marc afastou de Kay (Max Riemelt) qualquer esperança, quando os dois se encontram anos depois, Marc começa a sentir que seus sentimentos mudaram perante as investidas do colega. Queda Livre capricha nos dramas de Marc, especialmente pela forma como mergulha numa relação diferente, mas que afeta diretamente seus deveres enquanto esposo e pai - sem contar o medo dos preconceitos que encontrará pelo caminho. Com relação aos preconceitos, Kay é o mais afetado, já que aos poucos seus colegas de profissão descobrem suas preferências e os desentendimentos no trabalho são constantes - e seu amante evita envolver-se, já que Marc percebe que poderá acontecer o mesmo com ele, com o agravante de destruir sua família. Entre os sentimentos e as mentiras que os camufla, o filme se desenvolve lentamente, até que o escândalo é inevitável. Apesar do nome em português, o cineasta Stephan Lacant conta sua história com o freio de mão puxado até o último ato. Queda Livre é um filme bem feito, tem duas ou três cenas ousadas, mas conduzidas com discrição o que o torna palatável para o público em geral, no entanto, está longe de ser brilhante. Embora alguns possam achar uma coisa "nova" os seus personagens fugirem dos estereótipos tradicionais (o que ressalta a atuação de seus protagonistas), o filme não chega a ser memorável. Trata-se de um filme bem realizado e com aquele final melancólico que conhecemos desde o início. Para quem curte romances proibidos o filme agrada, independente de se tratar de dois homens em cena. 

Queda Livre (Freier Fall/Alemanha-2013) de Stephan Lacant com Hanno Koffler, Max Riemelt, Attila Borlan, Katharina Schuttler e Oliver Bröcker. ☻☻☻

sábado, 18 de outubro de 2014

Na Tela: Será Que?

Radcliffe e Kazan: entre o moderno e o antiquado. 

Depois de desafiar seus fãs dos tempos de Harry Potter em cenas de terror (A Mulher de Preto/2012 e o inédito por aqui O Pacto/2014), homossexualismo (Versos de Um Crime/2013) e humor maluco  (Diário de Um Jovem Médico/2013-2014), Daniel Radcliffe resolveu relaxar em uma comédia romântica. É verdade que apesar de todo clima moderninho, o inofensivo Será Quê? não será lembrado dias depois que for assistido - mas serve para mostrar que Daniel cresceu como ator e mostra-se versátil para transitar em vários gêneros. Desde que aposentou a varinha do bruxinho mais famoso do mundo, a crítica reconhece que ele cresceu muito como ator, já que mostra-se cada vez mais confiante e disposto a vencer seus pudores. Radcliffe dedica todos os elogios que recebe ao teatro, onde acredita ter lapidado sua atuação e aprendido a ter mais consciência de corpo e voz. Será Quê? é o filme mais leve de sua vida pós-Potter, as meninas podem até gostar do filme, mas os garotos terão que fazer um grande esforço para não roncar. Daniel vive Wallace, jovem britânico que pensa na vida sentado no telhado de casa após o término de um namoro de vários anos (o que remete à beira do abismo). Eis que uma noite resolve ir na festa de Allan (Adam Driver), seu melhor amigo, e cruza o caminho de Chantry (Zoe Kazan) - uma menina esperta que trabalha com animação (detalhe que tenta incrementar a trama com uma fadinha que vive voando pelas cenas, mas que é uma ideia solta e mal aproveitada). Obviamente que os dois vão se apaixonar, embora, o casalzinho fique cheio de pudores porque a garota é comprometida com Ben (Rafe Spall) que mostra-se cada vez mais distante da namorada. O filme tem algumas gracinhas e tudo é adocicado demais no decorrer da trama, todos são muito bobinhos e agem como se fossem mais jovens do que realmente são, ou seja, os relacionamentos são sérios, enquanto quem os vive não o é (conforme a cartilha tradicional do gênero). Parece implicância, mas, com exceção de Wallace, os personagens podem ser até simpáticos, mas são são muito artificiais, talvez por isso seja tão difícil engolir a cena em que Chantry mostra-se ofendida (?!) quando Wallace declara seu amor por ela (mesmo que ela esteja doida para cair nos braços dele). Apesar de alguns palavrões e uma cena (quase) picante na praia, o filme do diretor Michael Dowse é menos do que imagina, sendo bastante pudico. Existe um tom até antiquado no que poderia ser um triângulo amoroso eficiente se os personagens não fossem tão unidimensionais. Não me admiro que Daniel Radcliffe tenha escolhido o roteiro para dar um afago em suas fãs que cresceram vendo o mocinho crescer na telona, Wallace é o personagem mais desenvolvido na trama... mas será que isso basta para que você torça por ele em mais de hora e meia de projeção?

Será Quê? (What if ? / Irlanda - Canadá/2013) de Michael Dowse com Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Adam Driver, Rafe Spall e Megan Park. ☻☻

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

NªTV: Gotham

Gotham: cidade corrompida à procura de um herói.

Depois que a Marvel lançou a série Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D - que aprofunda alguns personagens coadjuvantes de seus heróis no cinema, a DC Comics correu para lançar o seriado Gotham sobre a lendária cidade de Batman servindo de pano de fundo para a trajetória do policial James Gordon - antes de virar o Comissário Gordon (vivido nos filmes recentes por Gary Oldman). Obviamente que trabalhar o embrião da cidade que precisa de um justiceiro mascarado pede para que a gênese dos vilões clássicos dos quadrinhos seja trabalhada. Gotham parte de uma premissa irresistível para os fãs do Homem-Morcego e seu criador, Bruno Heller (das séries Roma e The Mentalist), sabe disso - tanto que evita o tom juvenil de outras séries baseadas no universo da DC... mas tem o grande desafio de criar um ambiente coerente para o aparecimento de Batman. Pra começar parece até covardia que no meio de tantos vilões (na polícia inclusive), James tenha uma dura trajetória pela frente na pele de  Ben McKenzie (o astro da série The O.C.). McKenzie consegue injetar em seu personagem um equilíbrio eficaz entre testosterona e caráter num ambiente cada vezm mais sórdido - onde vilões antológicos ganham seus primeiros contornos a partir da morte dos pais de Bruce Wayne (que formavam o casal mais respeitado e influente da cidade). Outro desafio da série é criar os traços no pequeno Bruce (ainda um garoto vivido por David Mazouz) para que possamos visualizar nele o futuro herói da cidade - e ainda existem outras crianças importantes na história como Celina Kyle (Camren Bicondova, que não por acaso é uma versão adolescente de Michelle Pfeiffer) e Ivy (Clare Foley) que tem seu pai assassinado pela polícia. No entanto, o maior interesse da série está nos vilões crescidos, como o mafioso Falcone (Mark Vincent) que tenta dominar o crime na cidade. Com Edward Nigma (Cory Michael Smith) longe de ser o Charada e Harvey Dent (Nicholas D'Agosto) sem pensar em ter Duas Caras, o foco recai sobre um dos vilões mais subestimados desse universo depois que Christopher Nolan repaginou o mundo de Batman, trata-se de Pinguim. Distante do jeito cômico em que foi concebido, Pinguim oferece ao ator Robin Lord Taylor o desafio de ser primeiro grande vilão da temporada. Transformado num psicopata de visual emo, Oswald Cobblepot só não tem mais ódio ao apelido que o tornará famoso  do que pelo braço direito de Falcone, a traiçoeira Fish Mooney (Jada Pinkett-Smith, a belíssima esposa do Will num personagem criado especialmente para a série) que encomendou sua morte. Diante de tantos artifícios, a série tropeça quando Bruno Heller impõe a perigosa rotina de ter um crime para resolver a cada episódio, o que é mostrado nem sempre de forma empolgante. Quando aborda os personagens que a plateia quer ver a série funciona melhor, mas quando tem crimes praticados por desconhecidos o que vemos é uma versão pobre de tantos outros seriados investigativos. Com seus três primeiros episódios exibidos pela Warner nas noites de segunda (no exterior a série é um projeto da FOX), a série já mostrou que pode ser uma das melhores da temporada se impor sua personalidade própria ao apresentar o ambiente que forja a gênese de Batman e seus inimigos. Se o caos se anuncia na trama do seriado, enquanto programa ele pode aparecer de outra forma se não conseguir controlar sua necessidade de ser convencional. Assim, Gotham pode seguir dois caminhos distintos: enriquecer ainda mais o universo de Batman ou empobrecê-lo com subterfúgios inúteis (como criar uma Barbara Gordon problemática ou um Alfred severo demais), sendo assim, é bom saber que a primeira temporada estendida de 16 para  22 episódios (graças ao sucesso de audiência) oferece a Heller mais tempo para colocar alguns pontos no eixo do programa. 

Gotham (EUA-2014) de Bruno Heller com Ben McKenzie, Donal Logue, Jada Pinkett Smith, Robin Lord Taylor, Erin Richard, Camren Bicondova, Sean Pertwee e David Mazouz. ☻☻☻

DVD: Malévola

Jolie: estado de graça em clássica vilã da Disney.

Consagrado como um dos maiores sucessos do ano, Malévola comprova o poder de fogo de Angelina Jolie perante o público. Parece óbvio, mas uma atriz ser valorizada nas bilheterias é algo mais complicado do que parece (Nicole Kidman que o diga!), basta perceber quanto os salários das atrizes é menor do que dos atores. Ainda que Jolie seja a atriz mais bem paga do cinema, seu salário ainda é inferior ao maior de Hollywood (que é Robert Downey Jr. que por conta da popularidade de Homem de Ferro chega a receber 50 milhões para dar as caras num filme da Marvel). Talvez cansada desse mercado machista, Jolie vive declarando que irá se aposentar da carreira de atriz (e por isso a expectativa pelo seu novo filme como diretora, o drama Invencível,  está nas alturas). Nem parece, mas a imagem de Jolie ficou afastada quatro anos das telas (tempo suficiente para se recuperar do mico O Turista/2010 e cuidar da saúde). O fato é que a esposa de Brad Pitt precisou apenas catapultar a versão moderna de A Bela Adormecida (1959) para o topo das bilheterias - e nos lembrar do valor que possui em Hollywood. Ao encarnar uma das vilãs mais populares da Disney os críticos foram unânimes em declarar que sua atuação é melhor do que o filme precisava - e isso fez diferença na perspectiva de quem comprou o ingresso. Malévola, conta a história nas entrelinhas da clássica história de Charles Perrault, mostrando a maldição da princesa Aurora (a sempre confiável Elle Fanning) pela ótica da vilã. Todo mundo sabe que Malévola amaldiçoa a princesa ainda bebê para que, quando crescida, ela espete o dedo numa roca de fiar e adormeça até receber um beijo do verdadeiro amor. Mas a história de concentra nas motivações de Malévola para realizar tal feitiço - e está longe de ser o fato de não ser convidada para uma festa. Sendo assim, a personagem é apresentada como uma espécie de entidade protetora da natureza que tem sua confiança traída pelo futuro rei Stefan (quando crescido será vivido por Sharlto Copley), o que irá acarretar a história que todos nós crescemos ouvindo. Se existe um problema no filme é obedecer a cartilha de tornar bonzinho clássicos da vilania cinematográfica - a mesma cartilha que repaginou Hannibal Lecter e Darth Vader no cinema contando a "história antes da história". A vantagem é que Angelina Jolie aparece em estado de graça na personagem! Seus olhares, sorrisos e gestos evocam diretamente a personagem que guardamos na lembrança (e a atriz ainda prova estar se divertindo um bocado). No entanto, não podemos esquecer que Malévola é fruto da nova onda hollywoodiana de modernizar clássicos infantis, nesse quesito, torna-se o mais caprichado dentre as releituras com uma história redonda, simples e eficaz - ainda que tenha que lidar com o peso de fazer um ser chamado Malévola ser digna de confiança e atos nobres. Quanto à estreia na direção de Robert Stromberg (profissinal de efeitos especiais), ele sabe que tem melhorar um bocado, por isso fez questão de escolher bons atores para os papéis principais, no entanto, o melhor ingrediente do filme ainda é sua atriz principal.

Malévola (Maleficent/EUA-2014) de Robert Stromberg com Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Sam Riley, Juno Temple, Imelda Staunton, Lesley Manville e Brenton Thwaites. ☻☻☻

sábado, 11 de outubro de 2014

FILMED+: Adeus, Lenin!

A Família: enfrentando a queda do muro de Berlim. 

A Alemanha durante muito tempo foi um retrato perfeito do período da guerra fria. No lado Ocidental, o capitalismo seguia seu rumo enquanto no lado oriental as pessoas abraçavam a causa comunista. É verdade que havia uma tensão representada pelo muro de Berlin e pelas pessoas que queriam atravessar de um lado para o outro. É nesse período que vive a camarada, comunista roxa Srª Kerner (Katrin Zab) que enquanto cria seus filhos, o atencioso Alex (o ótimo Daniel Brühl) e a maluquete Ariane (Maria Simon), leciona numa escola na Alemanha Oriental. Seu passatempo favorito é escrever cartas ao governo reclamando de pequenas irregularidades que presencia no seu cotidiano. No entanto, a vida do lado esquerdo do muro não é fácil com a mão pesada do Estado - que levou até o Sr. Kerner a ir para o outro lado e não voltar mais. Protestos juvenis são constantes e a repressão às vozes dissonantes costuma ser agressiva. Durante um desses embates, a Srª Kerner vê seu filho sendo agredido e o abalo emocional é tão forte que fica em coma por alguns meses. É durante o período em que está inconsciente que o muro de Berlin será derrubado e seu país viverá transformações as quais nunca imaginou. Imersos numa nova realidade que inclui variedades de produtos, franquias multinacionais, Coca-Cola, maior liberdade, pornografia e empregos privados (Ariane começa até a trabalhar num fast food e namorar o gerente)! Enquanto o mundo recebe outras configurações, Srª Kerner acorda, mas o médico diz para Alex que outro abalo emocional poderia ser fatal. Certo de que sua mãe não suportaria as mudanças de seu país, avesso ao socialismo que ela era fiel, Alex arma uma estrutura extraordinária para que ela pense que nada mudou. Para essa tarefa produz programas de TV (com a ajuda do amigo impagável Denis, vivido por Florian Lukas), inventa produtos que não são mais produzidos e pede a ajuda de todos os amigos e vizinhos para que façam a sua mãe pensar que nada mudou. O problema é quando um anúncio da Coca-Cola aparece ao fundo de sua janela, ou quando a senhora vê a estátua de Lênin sendo removida, ou ela querendo fazer uma visita à casa de campo, ou repara o fluxo de carros de sua janela... essas armações engenhosas de Alex fazem de Adeus, Lenin! um dos filmes mais fascinantes de todos os tempos. É verdade que tudo não passa de uma grande mentira que um filho conta para a mãe, embora seja por um motivo nobre, Alex sabe que no fundo também mente para si mesmo e quem o ajuda é porque também enfrenta dificuldades em lidar com todas aquelas mudanças. Becker em momento algum torna seus personagens em sujeitos sórdidos, pelo contrário, são de uma humanidade palpável (valorizada ainda mais pelo elenco espetacular). No fim das contas, o filme revela-se uma grande fantasia, o desejo de como a dualidade entre comunismo e capitalismo poderia ter tomado um outro caminho, aquele que todos os sonhadores militantes imaginavam ser possível. Adeus, Lenin! consegue dar forma ao sonho utópico que desmoronou junto com o muro, mas seu foco maior é na bela história de amor entre mãe e filho. Esse olhar especial - e de dentro de um dos fatos históricos mais importantes do século XX - desperta tanta simpatia que o longa acabou ficando de fora dos finalistas ao Oscar de filme estrangeiro (Hollywood se renderia a uma história alemã sobre comunismo? Jamais, melhor escolher outro filme sobre o holocausto...). Divertido, inteligente e sensível, a obra-prima de Wolfgang Becker (diretor nascido em Herner, na Alemanha Ocidental em 1954, formado em História, com especialização em História alemã e norte-americana) merece ser visto várias vezes com o mesmo sabor de novidade. 

Adeus, Lênin! (Good Bye Lenin!/Alamanha-2003) de Wolfgang Becker com Daniel Brühl, Katrin Zab, Chulpan Khamatova, Maria Simon, Florian Lukas e Alexander Beyer. ☻☻☻☻☻

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

DVD: Rush: No Limite da Emoção

Brühl e Hemsworth: rivalidade Hunt/Lauda no auge da Fórmula 1. 

Não me surpreendi quando o último filme de Ron Howard não alcançou o sucesso esperado nas bilheterias brasileiras (nos EUA lucrou quase cinco vezes o valor de seu orçamento), afinal de contas, o universo da Fórmula 1 rende causa cada vez menos fascínio em nosso país. Rush é bem feito, mas merece atenção por contar uma das rivalidade mais famosas da história da competição, a rixa entre o britânico James Hunt (Chris Hemsworth) e o austríaco Nick Lauda (Daniel Brühl). Enquanto Hunt era farrista, agressivo e mulherengo, Lauda era concentrado, correto e esforçado para provar o seu valor. Essas personalidades opostas influencia na conquista de patrocínios e apelo perante a mídia para cada um dos esportistas, no entanto, enquanto Hunt tem problemas com o seu temperamento (seja na vida profissional ou amorosa, já que casa-se quase que repentinamente com uma bela modelo - vivida por Olivia Wilde), Lauda tem os olhos voltados para a carreira e para a esposa. Tratados como dois lados de uma mesma moeda, Howard demonstra aqui a mesma desenvoltura em viajar na atmosfera de um tempo e espaço bastante específico, assim como aconteceu no excepcional Frost/Nixon (2008). Hunt/Lauda tem a mesma reconstituição de época envolvente, narrativa tensa e ótima caracterização dos seus atores principais (sobretudo Daniel Brühl que foi indicado ao Globo de Ouro de coadjuvante e merecia ter sido lembrado no Oscar), afinal, ainda que capriche nas cenas de corrida, o filme precisa ser apreciado como um retrato de um período em que a Fórmula 1 estava no auge de sua popularidade, justamente no período em que seus praticantes entravam na pista sem a certeza de que conseguiriam terminar o circuito, afinal, os limites dos veículos eram testados a todo instante, colocando em risco a vida dos corredores. Foi numa das pistas mais perigosas do mundo que Lauda sofreu um acidente que ficaria marcado na história das corridas. Nesse ponto, cabe destacar que Lauda colaborou com a escrita de Peter Morgan para o filme, talvez por isso seu personagem tenha ficado tão rico de nuances - por mais que o texto tente aparentar os reflexos de uma educação europeia rígida em sua formação.  Ainda que a atuação de Brühl seja mais interessante, Chris Hemsworth demonstra mais uma vez que pode interpretar papéis diferentes de Thor na telona. Embora o roteiro tenha algumas cenas que parecem criadas especialmente para o cinema (e você vai descobrir quais são), Ron Howard consegue construir um filme que vale a pena ser conferido, independente de você curtir Fórmula 1 ou não (vale lembtrar que Rush concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme dramático de 2013). 

Rush - No Limite da Emoção (EUA-Alemanha/2013) de Ron Howard com Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde e David Calder. ☻☻

CATÁLOGO: Zodíaco

Downey e Jake: Fincher muda o foco. 

Zodíaco é um divisor de águas na carreira de David Fincher, depois de criar filmes de estética irretocável, mas repletos de maneirismos (Se7en/1995 e Clube da Luta/2000 são os mais notórios), David resolveu revisitar suas lembranças de infância e abordar a caça a um dos serial killers mais famosos dos Estados Unidos, o conhecido assassino do Zodíaco. O resultado é o filme mais pessoal do cineasta, já que ele banhou as cenas no medo genuíno que sentia do criminoso. Muita gente estranhou quando a narrativa mais lenta e contemplativa impressa pelo diretor. Embora tenha cenas de violência explícita, o filme mostra que David Fincher buscava novas texturas em sua obra, privilegiando o desenho dos personagens e o foco em uma narrativa simples, sem invencionices visuais. O roteiro foca em três personagens importantes das investigações: o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.) e o inspetor David Toschi (Mark Ruffalo), que cada um a sua maneira teve a atenção voltada para o assassino. A câmera acompanha o trabalho dos personagens na busca pela identidade de Zodíaco e as informações às vezes convergem, em outras se repelem, fazendo com que o trio de protagonistas se encontre pelo caminho de forma nem sempre cordial. Os crimes atribuídos ao serial killer começaram em dezembro de 1968 e seguiram até meados da década de 1970, num total de aproximadamente 37 vítimas, sendo que (conforme o filme deixa claro) não existe certeza sobre esse número ou autoria do crime - já que conforme a mídia cobria os crimes, vários lunáticos se identificavam como o assassino. Fincher utiliza vários atores no papel do criminoso para que o expectador não construa uma imagem sobre ele, no entanto, ainda que a imagem dele seja desconhecida, o diretor consegue criar uma atmosferas hipnoticamente sufocante de suspense. Seja na cena à beira da estrada, do porão ou qualquer outra em que sugere a presença do assassino, o filme mostra que não precisa de truques falsos para envolver a plateia. No entanto, o filme obteve baixa bilheteria por não apresentar uma solução para os crimes (afinal dizem que Zodíaco continua anônimo e na ativa, mesmo com suas misteriosas cartas cessadas há mais de 30 anos), mas o expectador esperto irá perceber que o foco do diretor é outro: a obsessão dos homens que buscam por ele. É visível a mudança que o mar de crimes, suspeitas e pistas variadas gera em Robert, David e Paul. Todos colocam suas vidas em risco com as investigações e Paul Avery mostra-se o mais transtornado com o universo em que mergulha - e a atuação de Robert Downey Jr. é memorável, merecendo ser lembrada aos que acham que o ator estreou no cinema com Homem de Ferro!!! Desde Zodíaco, Fincher aprendeu a concentrar sua força narrativa nos personagens e o resultado pode se ver em filmes que podem até ser menos estilosos, mas são  maduramente inquietos. 

Zodíaco (Zodiac/EUA-2007) de David Fincher com Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr, Mark Ruffalo, Brian Cox, Anthony Edwards e Chloë Sevigny. ☻☻☻ 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ladies & Gentlemen: Rosamund Pike

Filha única de um cantor de ópera (Julian Pike) e uma violinista clássica (Caroline Friend), Rosamund Mary Elizabeth Pike nasceu em 28 de janeiro de 1979 em Londres, Inglaterra. Devido à carreira dos pais, ela cresceu viajando pela Europa, ao ponto de falar fluentemente alemão e francês. Ela ainda era uma estudante quando começou a atuar no National Youth Theatre, chamando atenção numa montagem de Romeu e Julieta. Ainda que sua carreira como atriz fosse promissora, ela se formou em Literatura Inglesa na renomada Universidade de Oxford. Em 1998 começou a trabalhar em produções para a televisão inglesa, sendo acolhida pelo cinema com 007 - Um Novo Dia Para Morrer (2002) no papel de Miranda Frost naquele que seria o filme de despedida de Pierce Brosnan na franquia. Depois atuou no drama israelense Terra Prometida (2004) do diretor Amos Gitai e no controverso O Libertino (2004) ao lado de Johnny Depp, no qual sua atuação lhe valeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no British Independent Film Awards. No ano seguinte, ela foi escalada para viver a romântica Jane Bennet em Orgulho e Preconceito (2005). Embora os holofotes estivesse sobre Keira Knightley, Rosamund chamou atenção como a mais doce das irmãs Bennet, era questão de tempo para que Hollywood lhe desse atenção. A atriz apareceu em seguida no sci-fi Doom (2005) e fez par romântico com Ryan Gosling no suspense Um Crime de Mestre (2005). Atuou em filmes pequenos como Fugitive Pieces (2007) do canadense Jeremy Podeswa e na produção para TV The Tower (2008). Ela reencontrou com Carey Mulligan (que interpretara uma das irmãs Bennet) no elogiado Educação (2009) no papel da deslumbrada amiga Helen, depois ela atuou em outra produção para a televisão (Freefall/2009) e ao lado de Bruce Willis na ficção científica Substitutos (2009). No entanto, embora tivesse acesso às superproduções, são as produções mais alternativas que valorizaram mais seu currículo, caso de Minha Versão do Amor (2010), onde vive o grande amor de Barney (Paul Giamatti). Ela ainda atuou na comédia de suspense Burning Palms (2010) e fez uma pequena participação em Revolução em Dagenham (2010). Depois, Rosamund investiu em comédias (O Retorno de Johnny English/2011, O Grande Ano/2011 e Heróis de Ressaca/2013 com Simon Pegg), filmes de ação (Fúria de Titãs II /2012 e Jack Reacher /2012) e um suspense (The Devil You Know/2013). No entanto, sempre deixou a impressão que era melhor atriz do que os papéis que ofereciam para ela. Em 2014, Pike tem quatro filmes lançados: reatou a parceira com Simon Pegg  em Hector à Procura da Felicidade, além de estrelar duas dramédias O que Faremos no Feriado (ao lado de David Tennant e Billy Connolly) e Uma Longa Queda - baseado no livro de Nick Hornby. Porém, o grande divisor de águas de sua carreira será Garota Exemplar (2014) de David Fincher. Vivendo a mulher desaparecida a que o título se refere (em todas as suas neuroses), Rosamund Pike já é uma das atrizes mais cotadas para a temporada de ouro por virar do avesso toda a imagem de perfeição que sua beleza clássica evoca.

Orgulho e Preconceito: Pike e suas irmãs Bennet

Na Tela: Garota Exemplar

Rosamund e Ben: o casamento segundo o surrealismo Fincheriano.

Podem dizer o que quiser, o fato é que Garota Exemplar é um filme surreal. Acredito que quem acreditar que a proposta do filme é ser realista irá achar apenas defeitos no filme, seja pelos seus momentos mais absurdos ou mirabolantes. O fato é que o novo filme de David Fincher funciona melhor quando percebemos como o diretor abraça tudo que a trama pode ter de mais absurdo, ampliando as percepções da plateia em tudo que a trama do livro de Gillian Flynn (que também assina o roteiro) possui de superlativo quanto à vida no casamento, a influência da mídia e o poder do discurso sobre a mente do espectador.  O filme retrata as investigações acerca do desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike, já cotada para o Oscar), a escritora de poucos livros, rica, filha de escritores que criaram a cultuada série de livros infantis "Amy Exemplar". Amy conhece Nick Dunne (Ben Affleck), igualmente escritor, mas que teve de se contentar em dar aulas sobre redação criativa na cidade onde vive - mas ele gosta mesmo de frequentar o The Bar, um bar (oras!) em que administra junto com a irmã Margo (Carrie Coon). É no The Bar que Nick vai na fatídica manhã em que sua esposa desaparece. Quando ele retorna para casa existe sinais de que algo de ruim aconteceu e ele chama a polícia imediatamente. Encarregados do caso, a detetive Rhonda Boney (Kim Dickens, ótima) e  o oficial Jim Gilpin (Patrick Fugit) encontram alguns vestígios de que houve uma luta naquela casa e que Amy pode ter sido tão sequestrada quanto assassinada. Contar mais do que isso estragaria muito do meticuloso quebra-cabeça que Fincher oferece para a plateia. Resta revelar que acompanhamos a trajetória desastrosa de Nick em lidar com a mídia, que passa a crucificá-lo e apontá-lo como assassino da esposa, ao mesmo tempo que acompanhamos as anotações realizadas por Amy em seu diário. Durante boa parte da sessão, Amy e Nick disputam nossa credibilidade, ela sempre perfeita e ele mostrando-se cada vez mais falho. Fincher utiliza um ponto de partida simples para demonstrar como estamos vulneráveis às informações chegam até nós, exibindo as entranhas do mecanismo de produzir vilões, culpados e vítimas sem ressaltar o quanto a realidade é mais complexa e cheia de camadas de desejos e sentimentos de pessoas que lidam com papeis sociais e impressões constantemente. No entanto, perceber Garota Exemplar como uma alegoria sobre o papel da mídia seria simplificar as outras nuances que oferece ao público. Seja Amy presa à sua perfeição ou Nick aos seus defeitos, ambos se tornam vítimas dos estereótipos que aceitaram vestir, embora lidem com isso de forma distintas. Neste ponto, o casamento torna-se um verdadeiro campo de batalha quando as máscaras (que usaram um para seduzir o outro) começam a cair. Nesse ponto, o desfecho (que pode decepcionar a grande maioria que assiste ao filme como um suspense trivial) funciona como um espelho do casamento que tornou-se um refúgio seguro para o jogo de aparências, para a imagem de sucesso, da família perfeita, bela e feliz.  David Fincher trata a história com sua habilidade habitual em colocar surpresas pelo caminho com grande naturalidade e, mesmo quando tudo é mirabolante demais e o humor surge inevitável, o filme mantem seu tom sereno. Para cumprir essa tarefa mais complicada do que parece, o diretor escolheu um elenco preciso para viver os signos de sua história (basta lembrar que não importa o quanto Ben Affleck se esforce ele nunca convence os fãs de Batman!). Garota Exemplar, com seus traços que beiram o terror, é na verdade um romance às avessas que mistura Atração Fatal (1987) com O Reverso da Fortuna (1990) de uma forma tão engenhosa como as distorções da trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross.

Garota Exemplar (Gone Girl/EUA-2014) de David Fincher com Ben Affleck, Rosamund Pike, Kim Dickens, Carrie Coon, Patrick Fugit, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Missi Pyle e Sela Ward. ☻☻☻

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CATÁLOGO: Fome

Fassbender (sentado): 16 quilos a menos. 

Em 1981 um grupo de prisioneiros vinculados ao Exército Republicano Irlandês (o IRA) realizaram uma greve de fome em nome de serem reconhecidos como prisioneiros políticos. O termo lhes garantiria tratamento diferenciado perante outros presos, além de um olhar diferente da mídia e da população em geral. Conforme a introdução do filme deixa claro, a manifestação realizada dentro do presídio era acobertada pelos carcereiros e policiais, assim como outras medidas adotadas pelos prisioneiros (sujar as paredes com fezes, derramar urina por debaixo da porta, grudar comida na parede, não tomar banho...) tudo para que transformasse a situação insustentável dentro da prisão. No entanto, a situação tornava-se cada vez mais grave, seja pelas ações repressoras dos agentes penitenciários ou os discursos inflamados da então primeira ministra Margareth Thatcher que mostrava-se irredutível no tratamento dos membros do IRA como criminosos comuns. Fome utiliza até alguns trechos dos discursos de Tatcher para buscar um equilíbrio no olhar que o diretor Steve McQueen lança sobre essa história. Em seu filme de estreia, McQueen realiza uma obra sem concessões, sem tomar partido, apenas conta a sua história, sendo assim, a grande maioria das cenas é dsagradável de assistir, em diversos momentos, o odor das celas parece transpor a tela. O espectador torna-se infectado por aquela atmosfera, como se fosse uma testemunha de tudo o que acontece naquela espécie de mundo paralelo, onde ideologias se confrontam e tornam-se o único alento dos manifestantes ali presentes. A exploração sensorial da situação acaba chamando mais atenção do que os próprios personagens, pelo menos até que entra em cena o líder dos prisioneiros, Bobby Sands (Michael Fassbender, no papel que o revelou para o mundo). McQueen compõe o filme como se os atores passassem o bastão de um para o outro como foco da narrativa, começamos com o policial vivido por Stuart Grahan, depois presenciamos a rotina de dois jovens prisioneiros (Brian Milligan e Liam McMahom) até que a câmera revela Bobby numa cena brutal. McQueen compõe seu filme com muitos silêncios, poucos diálogos, imagens de violência física e simbólica, de forma que causa estranhamento quando no meio do caminho existe uma longa cena de câmera fixa, sem cortes de Bobby conversando com um padre sobre seus planos para a maior greve de fome que o presídio presenciou. Ciente de que ali o que importa são as ideologias dos personagens, vemos apenas seus perfis, quando a câmera exibe Bobby em close é para ele falar um pouco de si, do menino corredor que desde pequeno sabe reconhecer as motivações para sacrifícios. O longo diálogo é um divisor de águas na narrativa, já que dali em diante, Bobby Sands irá vivenciar uma greve de fome que levará seu corpo ao limite. Nesse ponto, podemos perceber porque Fassbender é ainda hoje o ator assinatura de Steve McQueen (um homônimo do ator que viveu de 1930 até 1980), já que poucos atores seriam capazes de se sujeitar à uma transformação física tão intensa e desagradável. Recentemente premiado por 12 Anos de Escravidão, McQueen pode ter sido absorvido pelo mainstream, mas sua voz grave na hora de contar histórias permanece única no cinema atual, sendo Fome um ótimo cartão de apresentação. 

Fome (Hunger/Reino Unido-Irlanda/2008) de Steve McQueen com Michael Fassbender, Stuart Grahan, Brian Milligan e Liam McMahom. ☻☻☻

domingo, 5 de outubro de 2014

DVD: 12 Anos de Escravidão

Fassbender, Lupita e Chiwetel: a coisificação do homem. 

Para nós brasileiros é difícil captar a importância de 12 Anos de Escravidão para a cinematografia americana, afinal, produzimos até novelas das seis sobre o tema. Nos EUA a abordagem da escravidão é coisa rara, podíamos perceber isso quando os críticos tentavam lembrar de outros longas para servir de parâmetro e a grande maioria lembrava das polêmicas de Manderlay (2005) e do satírico Django Livre (2012), além da cultuada série Raízes (1977). 12 Anos de Escravidão é o filme que faltava para abordar o tema no cinema hollywoodiano recente, principalmente porque o diretor inglês Steve McQueen não tem pudores em criar cenas cruéis para evidenciar como um homem pode coisificar o outro. O mais incrível é que ainda que a violência exposta do filme possa ser insuportável demais para os olhos assistirem, ela é apenas uma amostra minúscula do que a escravidão causou na história da humanidade. A partir da história de Solomon Northup, escravo liberto que foi sequestrado e vendido como escravo, Steve McQueen conta uma dolorosa história sobre a coisificação do homem. Transformado em propriedade, Solomon irá comer o pão que o diabo amassou e presenciar atrocidades por todo o seu caminho. Solomon é bastante culto, sabe ler, escrever, tocar violino, mas aprendeu que diante da vida a que estava subjugado, sabia que seus conhecimentos colocariam sua vida em risco. Vivido pelo inglês (filho de nigerianos) Chiwetel Ejiofor (que sempre foi ótimo, mas nunca recebeu o devido reconhecimento), Solomon é quem guia nossa jornada por uma parte da história americana que preferem que seja esquecida. Enganado e surrado logo no início do filme, Solomon é levado para longe de sua família e vive os primeiros anos nas propriedades dos Sr. Ford (Benedict Cumberbatch), que parece ser um bom homem, mas limitado pela percepção de seu tempo - o que impede que ajude Northup a sair daquela situação. Libertá-lo seria gerar prejuízo financeiro... por esse motivo prefere mandá-lo para a posse de Edwin Epps (Michael Fassbender, ator assinatura do diretor), um agricultor de algodão que não se contenta em ser vilão enquanto tenta lidar com suas contradições. É na fazenda de Epps que o filme torna-se mais rico, por acrescentar dois personagens fortes na narrativa. Fassbender (caprichando no sotaque sulista) se banha na crueldade de um homem que vê-se na encruzilhada de ser apaixonado por uma escrava, Patsey (Lupita N'Yongo, que nem precisa de muitas falas para provar que é um verdadeiro achado) enquanto é casado com uma branca. É evidente o efeito nocivo que esse desejo provoca em seus discurso de superioridade assegurada por Deus (acho que não é por acaso que escolheram o ator alemão para o papel), levando a crises violentas de ciúme (motivadas por um fazendeiro local que casou com uma negra amiga de Patsey) e uma eterna desconfiança de quem chega perto dela. Não bastasse ter que se deitar com o seu malfeitor, Patsey ainda come o pão que o escravocrata pisou nas mãos da Srª Epps (Sarah Paulson), de forma que a a escrava vê a morte como sua única chance de liberdade. Esse triângulo amoroso explosivo se desenvolve enquanto Solomon tenta conseguir ajuda para voltar a ter sua liberdade (vale lembrar que esse detalhe só ressalta o quanto todo negro era livre antes de ser escravizado, sacaram?). Como já vimos várias história do gênero, a novidade fica por conta da ausência de pudores do diretor  ao filmar as longas cenas de violência com uma veracidade absurda - com destaque para a trilha sonora modernosa que faz toda a diferença na criação da atmosfera agressiva do filme. 12 Anos de Escravidão ao resgatar um livro lançado em 1853 (e que nunca recebeu a devida atenção pelo seu valor histórico na Terra do Tio Sam) e mais importante do que os três Oscars que recebeu (Filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante para Lupita e outras seis indicações) é o fato do DVD e do livro receberem distribuição nas escolas e bibliotecas americanas no primeiro semestre desse ano. 

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave/EUA-Reino Unido/2013) de Steve McQueen com Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Sarah Paulson, Lupita N'Yongo, Michael Kenneth Williams, Brad Pitt e Scoot McNairy. ☻☻☻☻

DVD: Praia do Futuro

Moura e Schick: cenas tórridas. 

Praia do Futuro deve ser o filme brasileiro mais polêmico do ano, menos por sua história tratada com sutileza pelo diretor Karim Aïnouz e mais pelas cenas tórridas estreladas pelo astro Wagner Moura e o alemão Clemens Schick. O fato de algumas salas exibidoras carimbarem nos ingressos que os espectadores foram avisados sobre as cenas protagonizadas pelas cenas de sexo gay renderam grande burburinho na mídia e gerou comentários sobre homofobia e anti-homofobia durante a trajetória do filme nas telas. O fato é que apesar de toda a confusão, Praia do Futuro tem uma história de amor bastante simples, se não fosse pelos preconceitos que evoca na plateia mais conservadora (ironicamente é o medo desse preconceito que move o protagonista a viver a vida em outro lugar). Wagner Moura interpreta com grande competência o protagonista Donato, um salva-vidas da célebre praia cearense que fica atormentado ao enfrentar a sua primeira tentativa de salvamento fracassado. O afogado em questão é o amigo do alemão Konrad (Schick), de quem Donato se aproxima por conta das providências a serem tomadas sobre o corpo. Os dois acabam tendo relações no carro de Donato e começam um relacionamento conturbado pelos pudores do salva-vidas assumir sua homossexualidade diante da família, especialmente do irmão caçula, Ayrton. Entre a vida que tem e a vida que gostaria de ter, Donato parte para a Alemanha e, embora pareça satisfeito com a vida ao lado do namorado, o contraste entre o ensolarado litoral nordestino e a beleza sisuda de Berlin é inevitável para o seu desgaste emocional. Esse desgaste é mostrado vagarosamente por Aïnouz, que pontua o filme com longos silêncios, cenas simples do cotidiano que parecem servir para mostrar o quanto Donato está deslocado diante de sua escolha - e Wagner Moura merece aplausos por seu destemor em encarnar um personagem totalmente diferente de seu icônico Capitão Nascimento de Tropa de Elite  (2007) seja em cenas de nudez ou de alcova com outro homem. As coisas complicam ainda mais com o passar do tempo  e a visita de Ayrton (agora adolescente vivido pelo elogiado Jesuíta Barbosa) que forçará o irmão a pensar mais uma vez nos rumos que pretende tomar. A Paria do Futuro pontua seus silêncios e tom arrastado com cenas de amor brutas entre seu casal protagonista e explora bastante os contrastes das escolhas de Donato. Apesar de se distanciar dos clichês com maestria, o diretor pesa demais a mão em alguns momentos, fazendo com que o filme perca um pouco em sua fluência e se torne longo demais. No entanto, acho interessante como o filme começa e termina com locações em praias completamente diferentes - é impossível não pensar que a que vemos no final é a do título, semelhante ao deserto emocional que aflige tantos donatos dentro de seus desejos proibidos. 

Praia do Futuro (Brasil-Alemanha/2014) de Karim Aïnouz com Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta Barbosa, Fred Lima e Emily Cox. ☻☻☻

sábado, 4 de outubro de 2014

Combo: Passagem do Tempo

Ao contrário do que muita gente pensa, Boyhood não é o primeiro filme a registrar cenas com seu elenco ao longo dos anos. O filme de Richard Linklater demorou doze anos para ser feito, registrando a passagem da infância à adolescência de seus protagonistas. Ao longo dos anos, outros filmes partiram da mesma premissa:

5 - Irmãs Jamais (2010) de Marco Bellochio deve ser o filme menos conhecido dessa lista. O filme italiano foi lançado há quatro anos, sendo o resultado de um projeto para especialização cinematográfica criado pelo diretor. Narrado em pequenos episódios filmados de 1999 até 2008 no cerne de uma família, o filme conta a história das filhas de Sara, mulher que busca a carreira de atriz e deixa as filhas aos cuidados de duas tias (que temperam o filme com humor). Alternando o registro documental com o ficcional, a fotografia escura pode incomodar, assim como a indefinição da narrativa, mas a ideia até que funciona.

4 - Todos os Dias (2012) é dirigido por Michael Winterbotton (que consegue misturar ficção e documentário com maestria em vários filmes) e conta a história de um casal entre 2007 e 2012. A história gira em torno dos anos em que Ian (John Simm) ficou preso e o ápice de seus dias como detento é receber a visita da esposa (Shirley Henderson) e dos filhos. Winterbotton conta com excelente química entre seu elenco para captar realisticamente a magia do cotidiano dessa família comum, ao qual o pai está bem distante. O filme diz o tempo todo que essa é a maior punição de Ian - perder o que a vida tem de mais belo e comum ao lado da família. 

 3 - Basquete Blues (1994) causou a maior comoção quando chegou aos cinemas, chegando a ser considerado forte ameaça a Forrest Gump e sua premiação na categoria de melhor filme no Oscar, mas o filme acabou indicado somente ao prêmio de edição (e acabou perdendo). O filme conta a história de dois garotos que pretendem passar de jogadores de basquete colegiais à profissionais. William Gates e Arthur Agee são seguidos pela câmera do diretor Steve James no que seria o projeto de um curta-metragem, mas a trajetória de ambos foi tão interessante que a filmagem durou cinco anos! Simplesmente emocionante. 

02 Harry Potter (2001-2010) Não tem como evitar lembrar que acompanhamos o crescimento de Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson por dez anos em que a saga do bruxinho mais popular do cinema esteve nos cinemas. Nos filmes da série as crianças inglesas cresceram debaixo da desconfiança de críticos que sempre reclamaram de suas atuações, mas hoje o trio já mostrou que tem potencial para carregar filmes fora da milionária franquia. A ideia da série sempre foi acompanhar o crescimento dos personagens, o filme seguiu o mesmo caminho e, se todos os filmes do bruxinho formam um único, esse filme merece estar nessa lista como todos os outros. 

1 - Anna dos Seis aos Dezoito (1993) o diretor russo Nikita Mikhalkov foi o primeiro a ficar conhecido por acompanhar a passagem do tempo através do crescimento de uma criança diante de uma câmera. O filme que acompanha o crescimento de sua filha Anna com pequenas filmagens anuais (e algumas perguntas ao longo dos anos) emocionou muita gente ao mostrar as mudanças das percepções de uma criança sobre o mundo ao seu redor - além de seu amadurecimento diante dos olhos do pai. Simplesmente fofo - e você pode fazer o mesmo em casa, só precisa ter talento (e paciência) para editar com genialidade!

BREVE: Boyhood

Mason: no início, aos cinco anos...

Outro filme aguardado presente no Festival do Rio 2014 é Boyhood (com estreia nacional prevista para dia 30 de outubro) que é saudado como mais do que um filme, mas um verdadeiro experimento cinematográfico. Embora o cinema de vez em quando crie documentários sobre pessoas comuns que crescem diante de uma filmagem, o diretor Richard Linklater teve a ideia de criar um filme de ficção com base na mesma premissa. Linklater trabalha no filme há doze anos. No entanto, somando todos os dias de filmagem, o filme consumiu 39 dias de filmagem, já que o diretor utilizava três ou quatro dias filmando por ano. No entanto, deve existir toneladas de material extra que ficou de fora do resultado final (e nem conte que caberão nos extras de um DVD). Em seus 163 minutos, seria pouco dizer que o diretor conta a história do menino Mason (Ellar Coltrane), quando na verdade, Boyhood é sobre o passar do tempo, as tristezas, alegrias e as lembranças que carregamos ou deixamos pelo meio do caminho. Parece cerebral demais? Pois tudo que Linklater quer é não ser cerebral, pelo contrário, seu filme poderia resultar numa espécie de releitura de Forrest Gump/1994 se a trama se apegasse demais aos fatos históricos ocorridos no período, no entanto, o diretor opta por deixar esses acontecimentos como detalhes - que assim como a onipresente música pop ou os livros de Harry Potter, servem para localizar o espectador no tempo e no espaço, tanto quanto o envelhecimento inevitável de seus atores diante da câmera. Da mesma forma, evita manobras como doenças terminais, falcatruas, crimes ou romances impossíveis que poderia desviar o foco diante de sua ideia principal. Mason vive com a mãe (Patricia Arquette) e a irmã (Lorelei Linklater), vendo o pai músico (vivido por Ethan Hawke) de vez em quando. Quando o filme começa, Mason tem cinco anos e pouca coisa para se preocupar. Com o passar do tempo precisa lidar com uma mudança de endereço, o novo casamento da mãe, o primeiro amor, o primeiro emprego, a independência financeira da matriarca, o gosto pela fotografia e termina com sua chegada à faculdade. Durante a narrativa não existem vilões, apenas alguns personagens pontuais que servem para que Mason aprenda a se impor como indivíduo no mundo. É uma experiência cinematográfica única, especialmente porque vemos como os próprios atores mirins crescem não apenas fisicamente, mas como interpretes diante da câmera. Da espontaneidade infantil passamos para o constrangimento adolescente e, conforme a narrativa avança, eles conseguem transmitir personalidade aos personagens (ainda que não saibamos, por exemplo, onde termina Ellar e começa Mason). Obviamente que a mídia clama que o filme marque presença nas premiações de fim de ano e ele tem chances, principalmente pela identificação inevitável de qualquer mortal com o menino que precisa tornar-se homem, ou de sua irmã que passa por processo semelhante - ou a mãe que também busca seu lugar no mundo (ainda que seja adulta). Linklater tem fortes chances de ser lembrado pelo seu esforço e determinação de conduzir seu processo de criação (que resulta bastante realista), mas acho que somente Patricia Arquette tem força para ser lembrada nas categorias das premiações. Sei que o filme de Linklater é mais do que qualquer estatueta dourada, mas ficaria muito feliz de ver Patricia celebrada como um dos nomes mais promissores dos anos 1990 - e que foi mais reconhecida na TV do que no cinema. Lidando com atores inexperientes a maior parte do tempo, ela serve como ótimo elemento para alinhavar as atuações dentro da proposta do diretor. Sua última cena é tão memoravelmente forte que instala um verdadeiro espectro na cabeça de Mason e da plateia. Boyhood tem uma ideia ambiciosa, mas funciona justamente pelo trato simples ao lidar com a magia do passar do tempo. O efeito é o mesmo que observar a areia de uma ampulheta projetada numa tela de cinema. 

No final (de beca): aos dezoito. 

Boyhood (EUA-2014) de Richard Linklater com Ellar Coltrane, Patricia Arquette e Lorelei Linklater. ☻☻☻☻