domingo, 30 de março de 2014

NA CAPA: Mulheres de Hollywood

mulheres: a dura vida ao sol de Hollywood. 

No mês em que se comemora o dia internacional da mulher procurei uma lista que apresentasse as meninas de ouro de Hollywood, as que mais chamam atenção da mídia para seus projetos, atraem público e que se tornam as mais bem pagas por isso. Usei como base uma lista da Forbes que enumerava as dez atrizes mais bem pagas de Hollywood. Como minha lista não é apenas sobre quem é mais rica, fiz uma pequena alteração retirando a sem graça da Kristen Stewart (a terceira mais bem paga, arrecadando 22 milhões de verdinhas em 2013 ainda por conta dos lucros de Crepúsculo) e incluindo uma atriz muito mais influente ao final da lista. Em primeiro lugar ficou Anjelina Jolie por todos os motivos que você já deve conhecer (além do alvoroço por sua mastectomia, além de ter recebido um Oscar humanitário em 2014 e ser protagonista de Malévola, um dos longas mais aguardados do ano e ainda lançará seu segundo filme na direção - e que já está cotado para a temporada de ouro). Em segundo está Jennifer Lawrence, a queridinha de Hollywood que mal ganhou um Oscar entrou no páreo novamente, ela protagoniza duas franquias milionárias (Jogos Vorazes e X-Men, ambos com episódios para esse ano) e que pode pintar no Oscar novamente no ano que vem por Serena. Jennifer Aniston aparece na lista por ser querida do publico, chamar atenção para comédias idiotas e produções alternativas, receita que tem dado resultado em sua vida pós-Friends.  Em quarto lugar está Emma Stone, que apareceu pela primeira vez na lista da Forbes e que tem quatro filmes programados para esse ano, entre eles os novos filmes de três diretores consagrados (Cameron Crowe, Woody Allen e Alejandro González Iñarritu) e a nova aventura do Homem Aranha. Já Charlize Theron passou o ano trabalhando como produtora e filmando dois filmes: Um Milhão de Maneiras de Pegar uma Pistola (de Seth MacFarlane) e o suspense Dark Places que devem ser lançados até o fim do ano. Ano bem diferente teve Sandra Bullock, que foi indicada ao Oscar pela melhor atuação de sua carreira em Gravidade (que jamais seria feito sem ela), filme que levou sete Oscars para casa. Além disso, fez sucesso com a comédia As Bem Armadas. Bullock ainda é reconhecida como uma das mais queridas do cinema americano, não apenas pelo público mas por produtores e jornalistas. Natalie Portman ainda estava de férias depois do Oscar por Cisne Negro (2010), mas voltou às telas para conhecer o planeta natal do seu namorado em Thor- O Mundo Sombrio! A participação na franquia milionária foi o suficiente para ela aparecer entre as mais bem pagas do ano  (cachê de 14 milhões, o mesmo de Bullock). Em 2014 ela está nos dois novos filmes de Terrence Mallick (um deles com título: Knight of Cups) e o aguardado Jane Got a Gun  de Gavin O'Connor (e que estrela ao lado de Rodrigo Santoro). É até irônico ver Mila Kunis tão perto de Natalie, depois de dois filmes de sucesso (Ted e Oz), Kunis fez dois filmes sérios no ano passado  (Blood Ties com Clive Owen e Third Person com Liam Neeson) e para 2014 está na dramédia O Cara Mais Zangado do Brooklyn e empresta a voz para a animação Hell & Back (só para lembrar, ela continua sendo a voz a filha do desenho Family Guy). Depois de anos de vacas magras, Julia Roberts voltou aos holofotes com sua amarga personagem em Álbum de Família - que a indicou a todos os prêmios de coadjuvante da temporada por duelar de igual para igual com Meryl Streep. Para encerrar a lista de homenagem ao mês da mulher eu não poderia deixar Meryl Streep de fora. Goste ou não, a atriz recordista de indicações ao Oscar (18 indicações/ 3 vitórias) tornou-se uma espécie de instituição de Hollywood com seu apelo perante público, crítica e acadêmicos. Em 2014 ela está em três produções - e muitos já dizem que ela pode ser indicada novamente pelo papel de bruxa em Into the Woods de Rob Marshall.  

CATÁLOGO: Bubble

Alon, Daniella, Yousef e Ohad: um olhar jovem sobre Tel Aviv. 

Ainda que algumas pessoas considerem seu cinema repetitivo, o nova iorquino Eytan Fox tem uma assinatura muito própria. Em Bubble ele volta sua câmera mais uma vez para Israel, mais precisamente para Tel-Aviv, para mostrar como vive um grupo de jovens daquela localidade, especificamente os que curtem música eletrônica, cultura pop e os que tem amigos (ou são) gays. Apesar de estar na ativa desde a década de 1990, foi com Bubble que o diretor ganhou projeção mundial e conquistou mais fãs para o universo bastante particular de sua obra. Apesar de alguns críticos considerarem um filme artificial pela forma como retrata os jovens de Tel-Aviv como pessoas normais, o filme mostra como a vida de pessoas comuns é cortada inesperadamente pela violência - o que acontece em vários filmes americanos, brasileiros, franceses... afinal, a violência está em qualquer canto do mundo globalizado. O filme começa na fronteira entre Israel e a Palestina, onde um grupo de militares revistam os passageiros de um ônibus. Isso é um fato que é comum naquela paisagem seca e desolada. Poderia ser um dia como outro qualquer se uma mulher não desse a luz a um bebê morto. O triste episódio marca o encontro entre o soldado israelense Noam (Ohad Knoller) e o palestino Ashraf (Yousef Sweid). Noam está nos seus últimos dias de serviço na fronteira e Ashraf viajava com o cunhado xiita para os preparativos do casamento de sua irmã. A partir dali a câmera segue o cotidiano comum de Noam e seu trabalho numa loja de CDs, além de seu convívio de dividir o apartamento com, Lulu (Daniela Wircer) e  Yali (Alon Freidmann). Lulu vive seus dilemas de ter uma educação conservadora e ter vontade de transar com um editor de revista (Oded Leopold). Já Yali tenta encontrar o companheiro ideal enquanto trabalha num charmoso café no centro da cidade. O cotidiano dos personagens parece com o de muitos outros ao redor do mundo, não fosse pelo cenário e os comentários que demonstram que apesar da vida pacata existe sempre uma tensão no ar. Essa tensão fica mais evidente quando Ashraf se reencontra com Noam e os dois engatam um romance. Feliz com os rumos de sua vida, Ashraf arranja trabalho, passa a morar com o namorado e participar de eventos pacifistas na cidade. Os personagens falam de namoro, sexo e cultura pop de forma muito natural e isso os aproxima de jovens de qualquer lugar do mundo. Quando Ashraf começa a levantar desconfianças, o filme volta a lente para o outro lado daquele mesmo mundo, com atentados terroristas, homens bomba e preconceitos que servem apenas para atrapalhar a vida dos amigos. Eytan Fox pode passar a maior parte do tempo mostrando que seus personagens são pessoas comuns, pode desagradar alguns por demonstrar a intimidade de seus personagens homossexuais, mas não tem medo de fazer um corte brusco em sua narrativa, onde a dura realidade de preconceitos (raciais, sociais, religiosos, sexuais...) se cruzam e a saída escolhida por um dos seus personagens não é muito bonita de se ver. Apesar das boas intenções o desfecho me parece um bocado forçado, mas isso não estraga o efeito do filme. Talvez por isso o nome Bubble (bolha em inglês) funcione tão bem para o filme, já que esse é o apelido de Tel-Aviv e sua bolha de aparente bem estar - ou pelo menos a que vive os personagens - mas, cedo ou tarde, a fragilidade da bolha em suas nuances coloridas, compromete a sua própria existência e de quem vive dentro dela.

Bubble (Ha-Buah/Israel-2006) de Eytan Fox com Ohad Knoller, Yousef Sueid, Daniela Wircer, Alon Freidmann, Oded Leopold, Zohar Liba  e Yotam Ishay. ☻☻☻

sábado, 29 de março de 2014

PÓDIO: Cameron Crowe

Cameron Crowe no dia 13 de julho de 1957, na adolescência já era considerado um prodígio por sua colaboração com a revista Rolling Stone (para a qual escreve de vez em quando até hoje). Crowe começou sua carreira cinematográfica em Digam o que Quiserem (1989) que revelou John Cusack. Faz tempo que Crowe anda devendo um filme bacana como costumava fazer nos anos 1990, mas seu novo projeto com Bradley Cooper e Rachel McAdams (ainda sem título) parece que colocará sua carreira novamente nos eixos. Para aumentar a expectativa escolhi os três melhores filmes do diretor para esse pódio (ou seria os meus três favoritos?):

bronze: indicações ao Oscar
Jerry Maguire (1996)
Foi com esse filme que o diretor entrou no radar das premiações. Com a ajuda de Tom Cruise (que tornou-se seu amigo pessoal), o diretor conseguiu cinco indicações ao Oscar com a história do agente esportivo que vive um inferno astral depois que lança a proposta de manter uma relação mais humana com seus clientes, sem importar-se somente com o dinheiro. Abandonado por quase todo mundo (lhe sobra uma secretária carente e um jogador hiperativo), Jerry irá perceber que estabelecer intimidade com quem o cerca é mais difícil do que ele pensava. 

prata: romance grunge.
Vida de Solteiro (1992)
Vocês não fazem ideia de como gosto desse filme! O pior é que faz muito tempo que não o assisto e nunca encontrei o DVD. Vida de cinéfilo é dura! O filme mostrou um dos maiores trunfos da carreira do diretor: escolher um tema em voga e voltar a câmera para o outro lado. Em meio a ebulição da cena grunge de Seattle, o diretor volta sua lente para um grupo de amigos solteiros que buscam sua cara metade. Divertido, simpático, romântico e com excelente trilha sonora (Pearl Jam, Alice in Chains, Screaming Trees...) o filme acompanha um vocalista (Matt Dillon) e seus amigos (vividos por Bridget Fonda, Campbell Scott e Kyra Sedwick) na chuvosa cidade. 

Ouro: Oscar de roteiro original.
Quase Famosos (2000)
Apesar de achar o filme muito light para uma obra que se propõe a retratar a jornada de um adolescente com astros do rock na década de 1970, devo reconhecer que é o filme mais elaborado de Cameron Crowe. Trata-se de uma história criada a partir de sua experiência pessoal junto à Revista Rolling Stone, quando ainda adolescente recebeu a tarefa de escrever uma matéria para a publicação. Crowe alterou nomes e misturou alguns fatos num filme ágil, nostálgico e saboroso de assistir. Com personagens marcantes, como o jovem Will Miller (Patrick Fugit), sua mãe (Frances McDormand) e a groupie Penny Lane (Kate Hudson) - cuja atração parece inevitável - o filme é candidato à clássico. 

CATÁLOGO: Jerry Maguire

Jerry Maguire: a dificuldade de criar vínculos. 

Ontem reencontrei Jerry Maguire na TV por assinatura e fazia um bom tempo que eu não assistia ao filme de Cameron Crowe. O filme rendeu à Tom Cruise o Globo de Ouro de melhor ator de comédia e a segunda indicação ao Oscar de sua carreira (a primeira foi por Nascido em 4 de Julho/1989 e a última por Magnólia/1999), mas entrou para a história menos por seu sucesso nas bilheterias e mais por ter se tornado o corpo estranho no Oscar de 1997. Produzido por um grande estúdio (TriStar), o filme foi o único filme não independente indicado ao prêmio da Academia daquele ano (só para lembrar, quem ganhou foi O Paciente Inglês, que ainda estava no páreo com Fargo, Segredos e Mentiras e Shine). Aquele ano foi realmente marcante, já que invariavelmente uma ou outra produção independente consegue fazer barulho até a premiação e cravar uma indicação na categoria principal (esse ano foi Philomena, ano passado foi Indomável Sonhadora... isso entre nove indicados), mas naquele ano Hollywood estava dizendo para gastarem menos e investir mais na criatividade para contar uma história. Passado 17 anos de seu lançamento, Jerry Maguire ainda é um filme fácil de se assistir, afinal, Cameron Crowe consegue ser muito melhor quando se aproxima de um universo específico (mundo grunge, mundo dos esportes, Revista Rolling Stone...) e vira sua lente para quem está nos bastidores -  sempre que se distancia dessa fórmula a coisa desanda (o remake Vanilla Sky/2001, o horroroso ElizabethTown/2005,  o bobinho Compramos um Zoológico/2011). No entanto, apesar de Jerry Maguire continuar o mesmo, meu olhar sobre ele mudou bastante - e cheguei a conclusão de que, por mais bem intencionado que o personagem seja, trata-se de um sujeito muito estranho. Jerry (Cruise) é um agente de esportistas que acredita que as coisas podem ser mais humanas nesse mercado com fome de grana. Namorando uma mulher ambiciosa Avery (Kelly Preston, a senhora John Travolta) e disputando atletas com colegas ardilosos como Bob Sugar (Jay Mohr), Jerry entra em seu inferno astral quando escreve um manifesto sobre suas ideias "inovadoras" para esse famigerado mercado. Acaba demitido e sendo seguido somente pela doce Dorothy Boyd (a então revelação Renée Zellweger), mãe solteira e que sempre gostou de Jerry (ainda que não fosse notada por ele). Além da companhia de Dorothy, que torna-se sua secretária, o único atleta que permanece sobre seus cuidados é o agitado Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr., ganhador do Oscar de coadjuvante), que luta por um lugar ao sol do agressivo futebol americano enquanto a esposa (Regina King) espera seu segundo filho. É interessante como o texto (que concorreu ao Oscar de roteiro original) apresenta Jerry a partir de seu relacionamento com os outros. É verdade que ele é um sujeito de bom coração, que fala sem pensar muito o quanto parece um tolo de gestos largos e exagerados, no entanto, o roteiro deixa claro que toda essa necessidade de transformar o trabalho mais pessoal está relacionado com sua dificuldade em estabelecer intimidade com quem o cerca. Notar isso pode ter dado cabo do relacionamento com Avery e agora, parece comprometer o romance que se anuncia com Dorothy - mais motivado pelo filho  da moça (o filhote nerd Jonathan Lipnicki) do que por ela mesma. Se as coisas não são fáceis para os personagens (todos tem sua história triste para contar, destaque para o círculo de mulheres mal amadas...), Crowe sempre arranja espaço para gracinhas e investe pesado no alívio cômico promovido pelo personagem de Cuba Gooding Jr - ele aparece nu, debocha dos trejeitos de Jerry, dá conselhos amorosos ao protagonista, se mete em campanhas publicitárias estranhas e inventa bordões que fizeram sucesso na época (o maior deles foi "Show me the money"). O fato é que enquanto comédia, Jerry Maguire é um drama bem água com açúcar onde o maior acerto foi a escolha do elenco. Sem Cruise, o filme poderia ter feito algum sucesso, mas nunca ter cravado indicações a prêmios (só no Oscar foram cinco, sobrando até para a montagem tradicional), ainda mais se percebermos que Jerry pode ser considerado um sujeito bastante complicado para um filme de embalagem tão ensolarada. Talvez esse apelo indie numa produção de estúdio tenha feito a diferença num ano onde o cinema, que estava a margem de Hollywood, invadia as premiações. 

Jerry Maguire - A Grande Virada (Jerry Maguire - EUA/1996) de Cameron Crowe com Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renee Zellwegger, Bonnie Hunt, Jonathan Lipnicki, Kelly Preston, Jay Mohr e Jerry O'Connel. ☻☻☻

quinta-feira, 27 de março de 2014

Eu sou Você Amanhã!

Existem algumas jovens atrizes que nem precisam de programas de computador para saber quais serão os  efeitos do tempos sobre sua aparência. Ainda que décadas as separem, algumas veteranas são sua imagem e semelhança num futuro não tão distante. Uma espécie de "eu sou você amanhã" entre as estrelas do cinema de ontem e hoje pode ser bastante reveladora..

Leelee Sobieski será Helen Hunt 
Tem coisa mais óbvia do que comparar essas duas? Nascida em 1983, Leelee anda sumida do cinema desde 2012 - curiosamente o ano em que Helen Hunt saiu do ostracismo com As Sessões (filme que lhe valeu uma indicação ao Oscar). Feitas na mesma forma (apesar dos vinte anos de diferença), seria uma boa se Leelee tivesse um pouco da trajetória de Helen (que tem quatro Globos de Ouro pela série Mad About You na estante e um Oscar por sua atuação em Melhor É Impossível/1997).

Michelle Williams será Mia Farrow 
Mia Farrow pode ser lembrada hoje em dia como a ex-mulher barulhenta de Woody Allen, mas ela já teve seus dias de musa. Sua expressão de vulnerabilidade nas telas de cinema ficou famosa e  Michelle também é reconhecida por isso - e deve perceber outras semelhanças com a veterana (já que copiou até o corte de cabelo que a atriz usava). O efeito do tempo sobre o olhar, o sorriso e as maçãs do rosto que Michelle apresenta aos 33 anos  poderão ser semelhantes à face de Mia aos 69.  Na carreira, Michelle já conta três indicações ao Oscar enquanto Mia nunca foi indicada ao prêmio da Academia. Em comum, ambas tiveram casamentos com famosos de desfecho complicado... e Michelle nunca trabalhou com Woody Allen...

Mia Wasikowska será Isabelle Huppert
Sempre que assisto Mia num filme tenho a impressão que ela tenta copiar a francesa Isabelle em suas atuações. O jeito intimista (que parece sempre reprimir sentimentos que estão prestes a explodir) é bastante semelhante - ainda que os vários anos de experiência (Isabelle tem 61 anos) confira à francesa uma grande vantagem na capacidade de projetar emoções (e os vários prêmios - só em Cannes foram 3 - só confirmam isso). Fisicamente as duas são bastante parecidas (apesar dos 37 anos de diferença) e o gosto por filmes alternativos arriscados também (não vou me admirar se dia desses interpretarem uma mesma personagem em fases distintas). 

Renée Zellweger será Dianne Wiest
Sempre que via Renée (e ela tem aparecido pouco ultimamente, especialmente depois de uma plástica que mudou o formato de seu rosto arredondado) sempre a achei cada vez mais próxima de Diane Wiest. Renée tem um Oscar de coadjuvante na estante (Cold Mountain/2003) e outras duas indicações ao Oscar , já Wiest tem duas estatuetas (por Hannah e Suas Irmãs/1986 e Tiros Sobre a Broadway/1994) e mais uma indicação ao prêmio. Talvez por ver como seria aos 66 anos, Renée (aos 44 anos) tenha se submetido a um processo tão radical para mudar seu visual. Ainda assim, Renée ainda espera sua chance de voltas às telas e Wiest sempre é convidada para filmar. 

Cameron Diaz será Ellen Barkin
Chega até ser covardia comparar as duas, acho que um exame de DNA diria que são mãe e filha. Ellen Barkin também ficou famosa por participar de comédias, papéis sedutores e o total desprezo do Oscar para suas atuações sérias. A carreira de Cameron vai pelo mesmo caminho, mas (espero) que as intervenções cirúrgicas que Cameron venha a fazer façam menos estragos do que à Ellen. Cameron já completou 41 anos - e Ellen tenta driblar os efeitos do tempo aos 59 anos. 

DVD: Segredos de Sangue

Mia, Nicole e Matthew: família esquisita. 

Segredos de Sangue era um dos filmes que mais aguardei em 2013, talvez por isso tenha deixado um gosto de decepção. Nem me refiro ao longa ter passado em branco nos cinemas brasileiros, ou de sua bilheteria mundial ter sido modesta, o fato é que a expectativa gerada pela estreia do cineasta Chan-Wook Park em Hollywood (do badalado Oldboy/2003) pode ter prejudicado ao filme. Não que ele seja ruim, mas deixa a impressão que tem mais forma do que conteúdo. O diretor não poupa a plateia de cenas belamente construídas, ainda que seja dentro de uma atmosfera vampírica (potencializada ainda mais pelo nome original: Stoker - sobrenome da família do filme e do autor de Drácula). No entanto, o roteiro do ator Wentworth Miller (da série Prison Break em sua estreia como roteirista) funciona somente quando prefere manter escondido o que há na mente dos protagonistas, conforme revela os segredos a coisa fica cada vez mais previsível e desinteressante. Tudo gira em torno de India (Mia Wasikowska) que ainda tenta lidar com a morte do pai (Dermott Mulroney, com aquela pança que cada vez mais imagino ser real). A adolescente era muito próxima, mas com a morte dele seu melhor amigo passa a ser o piano - e sua maior motivação é descobrir quem lhe manda sempre o mesmo modelo de sapato todos os anos como presente de aniversário. Seu relacionamento com a mãe, Evelyn (Nicole Kidman) é distante - e a coisa piora quando as duas recebem a visita do tio Charlie (Matthew Goode). Charlie ficou longe por muito tempo por conta de suas viagens pela Europa, talvez por isso soe tão atraente para as duas mulheres tão acostumadas ao universo limitado da sombria casa onde vivem. É visível que existe um elegante clima de sedução entre os personagens, já que Charlie representa para Evelyn um novo começo e para India o começo de sua vida como adulta. No entanto, a visita de tia Gin (a ótima Jackie Weaver) mostra uma preocupação com a presença do misterioso Charlie tão perto das duas - e ela serve para mostrar do que Charlie é capaz para manter seus segredos intactos. Conforme o diretor desenvolve a tensão nesse núcleo familiar a coisa funciona bem, mas quando dedica-se a mostrar o que Charlie quer tanto esconder... o filme decepciona, nem mesmo os indícios de que India possa ter mais em comum com o tio do que a mãe supõe parece interessante. O problema pode estar no excesso de estilização proposta pelo diretor, que nunca parece aproximar os dilemas dos personagens da plateia ou até mesmo do segredo que revela-se quase banal já que, debaixo de tanta elaboração cênica, o que era para ser um "trunfo" revela-se semelhante a um monte de filmes que já vimos. É verdade que existe algumas ousadias (a cena de India no chuveiro, o close em Evelyn prestes a perecer...), mas o arremate do filme é bem menos interessante do que as promessas de seu início. Na trama sobre perda da inocência, o conflito entre mãe e filha (e a concepção anacrônica das personagens colabora bastante para isso) é mais interessante do que India descobrindo os genes que tem em comum com o tio. Deveríamos nos contentar com  o visual de conto de fadas gótico? Acredito que não. Penso que Chan-Wook Park poderia fazer mais se desse mais atenção aos personagens (a cena final de India na beira da estrada ou Evelyn revelando seus sentimentos ruins com a maternidade soam abruptas e mal desenvolvidas) do que ao visual do filme. 

Segredos de Sangue (Stoker/EUA-Reino Unido/ 2013) de Chan-Wook Park com Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode e Jackie Weaver. ☻☻☻

segunda-feira, 24 de março de 2014

DVD: Querido companheiro

Keaton e Kline: gracinhas sem ousadia. 

Em mais de trinta anos de trabalho no cinema, começando como roteirista (O Império Contra-Ataca/1980 e Os caçadores da Arca Perdida/1981) e depois como diretor (de Corpos Ardentes/1981 passando pelo elogioado O Reencontro/1983 e o sucesso de O Guarda Costas/1992), nunca Lawrence Kasdam havia deixado de lançar um filme por tanto tempo. Nove anos separam esse aqui do hediondo O Apanhador de Sonhos (2003), que baseado na obra de Stephen King se tornou o pior filme do diretor. Graças aos deuses do cinema, não existe qualquer semelhança entre ele e Querido Companheiro. É como se Kasdam demorasse todo esse tempo para colocar sua carreira sob uma nova perspectiva, voltando o olhar para as situações mais simples, mas que são capazes de gerar mudanças na vida de pessoas comuns (tal e qual apresentou no ser melhor filme, O Reencontro). É verdade que apesar de contar com um elenco formado pelos premiados veterados  Kevin Kline, Diane Keaton, Diane Wiest e Richard Jenkins, o filme não tem medo de soar brando na forma em que conta sua história. A trama gira em torno do aparecimento e desaparecimento de um cachorro, numa família de vida bem confortável. A família Winter, chefiada por Beth (Diane) e o médico Joseph (Kline) parece perfeita. A filha Grace (Elizabeth Moss) está terminando o doutorado e tudo encontra-se naquele ponto cômodo em que se tudo permanecer como está, já está de bom tamanho. Mas será que está mesmo? Se num primeiro momento o cão encontrado serve para aproximar Grace de um veterinário indiano (Jay Ali), é justamente após a cerimônia de casamento deles que o cão irá se perder e forçar Beth e Joseph a discutirem a relação. Os Winters aproveitam a cerimônia para ficar um final de semana em sua propriedade nas montanhas, na ocasião, contam com a companhia de Penny (Dianne Wiest), irmã de Joseph, seu atual namorado Russell (Jenkins) - que pretende abrir um pub que tem como maior atração servir cerveja morna - e o filho de Penny, o também médico Bryan (Mark Duplass, que assina ao lado do irmão Jay a direção de filmes como Cyrus/2010 e Jeff e as Armações do Destino/2011). Depois que conhecemos um pouco mais esses personagens, Joseph sai para passear com o cachorro e o perde enquanto conversa no celular. Começa então a busca pelo bicho de estimação e o jorro de cobranças que deixaram Beth engasgada por tantos anos de casamento. Não espere muita profundidade ou muita sujeira na tela, Kasdam não perde a simpatia nesses momentos e consegue ser casto até quando apresenta o flerte entre o certinho Bryan com uma mulher de origem cigana (Ayelet Zurer). Com uma gracinha aqui e outra ali, apresentada por um elenco carismático, o filme é fácil de assistir (principalmente com as belas locações emolduradas por uma fotografia de cartão postal) mas ao final da sessão não deixa de parecer um pouco preguiçoso. Nada contra um programa leve e despretensioso para curtir quando não se tem mais nada a fazer, mas Kasdam não ousa um milímetro durante a sessão. No fim da sessão, parece mais um filme que investe num público que andava abandonado em Hollywood, os filmes para terceira idade. Assistindo a Querido Companheiro, temos a ideia exata dos mandamentos presentes na cartilha desse novo filão cinematográfico. É um filme bem feitinho, mas não deve ficar na memória por muito tempo.

Querido Companheiro (Darling Companion/EUA-2012) de Lawrence Kasdam com Dianne Keaton, Kevin Kline, Richard Jenkins, Dianne Wiest e Mark Duplass. ☻☻

DVD: Cores do Destino

Carruth e Amy: amor, larvas, porcos e esquizofrenia. 

Devo confessar que tenho uma queda por produções estranhas, mas de vez em quando encontro algumas que até eu duvido que consegui assistir, talvez por isso, fiquem martelando na minha cabeça por dias depois que acabo de assisti-las. Ontem assisti Cores do Destino, filme independente que chamou a atenção no ano passado desde que foi aclamado em Sundance, de onde saiu com o prêmio especial do júri pela "forma inventiva como utiliza som e imagem". Ainda que as plateias possam rejeitar a proposta do diretor Shane Carruth, há de se perceber que a mente do rapaz é bastante engenhosa na hora de construir quebra-cabeças dramáticos sobre tramas de ficção científica. Ele já havia realizado algo semelhante com Primer (2004) e aqui ele injeta doses cavalares de romance para narrar um experimento que beira o grotesco, mas tratada com uma plasticidade cênica e sonora que a torna uma bela experiência sensorial. No entanto, apesar dos nós que pode dar na mente do espectador, seu fio condutor é fácil de entender. Nas primeiras cenas nos deparamos com a criação de uma larva, cultivada a partir de uma planta. Quando essa larva é introduzida no ser humano, ela torna sua vítima submissa ao poder da sugestão, ela funciona como uma espécie de hipnose ou até amnésia. Ela é utilizada por um ladrão para fazer com que Kris (Amy Seimetz, ótima) lhe entregue todo o seu dinheiro. Depois, Kris tenta seguir a vida normalmente, mas não consegue devido aos efeitos daquilo em seu organismo. Quando descobre o que está acontecendo, ela busca uma cura através de um tratamento inusitado - realizado por um criador de porcos misterioso (Andrew Sensenig). Quando se considera curada, ela se envolve com Jeff (vivido pelo diretor Shane Carruth). Parece que a coisa ficará mais tranquila? Bem... aí a narrativa do filme se rende a uma rede de cenas fragmentadas, que podem ser vistas como analogias entre o casal e os animais criados pelo personagem misterioso... entre outras coisas. Kris continua ouvindo sons estranhos, tem sensações esquisitas e percepções que parecem além do seu corpo. É visível que Kris ainda padece dos efeitos da larva  e isso afeta a forma como segue sua vida e o relacionamento com o compreensivo Jeff. Não espere respostas, clareza ou sentidos explícitos na narrativa, Carruth nos submete à mesma percepção fragmentada da realidade vivenciada por sua protagonista. Ainda que o espectador possa compreender a essência da trama, torna-se um desafio acompanhar a narrativa e superar a suspeita de que na verdade não estamos entendendo muito bem o que está acontecendo. O fato é que o filme consegue ser tão instigante quanto confuso. A ideia de sobrepor os efeitos da larva no organismo com a chegada do amor na vida de Kris é interessante e traz uma aura esquizofrênica que motiva acompanhar, no entanto, não é todo dia (e nem é todo mundo) que está disposto a desbravar os paralelos propostos pelo roteiro. Porém, nada chama mais atenção que a coragem de Carruth, afinal, estamos diante de um diretor de 42 anos que dirigiu somente dois longas e que costuma fazer tudo em seus trabalhos: dirige, atua, escreve, produz, edita, fotografa... talvez por isso seu cinema tenha uma identidade tão forte (que me lembra muito o caminho que Darren Aronofsky teria seguido se continuasse na seara de seu longa de estreia, o famigerado Pi de 1998) ainda que distante do grande público (que não está acostumado a ter suas concepções alteradas a cada dez minutos de projeção). A boa notícia é que Shane não ficará nove anos sem instigar a audiência (entre Primer e Cores do Destino ele deu forma e abandonou um projeto, A Topiary I que não vingou), seu novo filme The Ocean Modern já está em produção e deve envolver "comércio de commodities, piratas e corsários...", resta esperar para ver se criará tanto barulho quanto as interpretações subjetivas provocadas por Cores do Destino.

Cores do Destino (Upstream Color/EUA-2013) de Shane Carruth com Amy Seimetz, Shane Carruth e Thiago Martins. ☻☻☻

quinta-feira, 20 de março de 2014

CATÁLOGO: Perdas e Danos

Binoche e Irons: amarga torridez. 

Nascido em 1932 e falecido em 1995, o cineasta francês Louis Malle dirigiu trinta filme durante a sua carreira. Adepto da abordagem de temas polêmicos que retratavam as angústias do século XX, o diretor era rejeitado por muitos dos seus conterrâneos do movimento nouvelle vague. No entanto, seu estilo próprio lhe permitiu dirigir sete filmes nos Estados Unidos (incluindo o deliciosamente experimental Tio Vânia em Nova York/1994 que retrata a obra de Tchekov a partir dos ensaios de uma peça - o longa se tornou seu último filme). Seu sexto filme americano, e penúltimo de sua carreira, foi lançado no mesmo ano da antológica cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto Selvagem/1992 e, (por acaso?) também tinha algumas cenas de sexo bastante ousadas para a época, ainda mais se levarmos em consideração que eram estreladas por um grisalho Jeremy Irons e uma jovem Juliette Binoche. Parece uma idiotice criar esse paralelo entre a obra de Malle e de Paul Verhoeven, mas o fato é que ambos utilizavam o sexo como um elemento determinante para a concepção de sua história e personagens. Se em Instinto um policial não consegue evitar sua atração por uma escritora bissexual suspeita de assassinato, em Perdas um político influente não consegue evitar sua atração pela misteriosa namorada do filho. Enquanto Verhoen utiliza elementos ardentes para realçar a atmosfera erótica de seu filme, Malle segue o caminho oposto. Perdas e Danos é seco, cru e quase gélido na elegância com que ata seus dois personagens perigosamente complementares num roteiro econômico e bastante revelador (cortesia do texto de David Gare baseado na obra de Josephine Hart). Quando conhecemos Stephen Fleming (Jeremy Irons) em seus dias de parlamentar inglês temos a certeza absoluta de que se trata de um sujeito exemplar, de hábitos regrados e uma segurança que inspira confiança em sua família, partidários e eleitores. Essa imagem é realçada ainda mais pela presença da esposa, Ingrid (Miranda Richardson, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e a imagem correta do filho Martyn (Rupert Graves). A coisa desanda quando Martyn apresenta ao pai sua namorada, a enigmática Anna Barton (Juliette Binoche). Desde o início se estabelece entre Stephen e Anna uma conexão incandescente debaixo do mundo de correções em que a família Fleming está imersa. Um olhar, um sorriso, um gesto aqui, outro ali e os  dois se tornam amantes, ainda que ambos saibam as consequências que isso possa ter na vida de ambos. Stephen encara Anna como uma compensação por todos os anos de conduta indefectível que apresentou até ali, ela torna-se uma espécie de obsessão para ele, enquanto Anna... bem... a personagem tem lá os seus lugares obscuros, especialmente os relacionados com um suicídio na família que ainda a preenche de culpa nos piores dias. Malle apresenta um enredo de poucos sujeitos, girando em torno especificamente de Anna e Stephen, mas que apresenta funções importantes para Ingrid e Martyn em momentos importantes da trama. Porém, o destaque fica mesmo por conta das cenas em que Irons e Binoche mergulham numa tórrida jornada autodestrutiva, cujas consequências serão trágicas para quem está ao redor. Malle faz um filme despudoradamente hipnótico, mas que deixa um gosto amargo quando termina do jeito que não é previsível, mas inevitável na dinâmica dos fatos que apresenta (especialmente se levarmos em consideração a antológica declaração que Anna faz a Stephen, de que "Pessoas sofridas são perigosas porque elas sabem que podem sobreviver"). Perdas e Danos, com sua edição precisa e ousadias prova que Malle sempre desejava criar filmes únicos em sua trajetória. 

Perdas e Danos (Damage/França-Reino Unido/1992) de Louis Malle com Jeremy Irons, Juliette Binoche, Rupert Graves e Peter Stormare. ☻☻☻☻

KLÁSSIQO: Adeus, Meninos

 
Fejto e Manesse: amizade em risco. 

Recentemente lançado em Blu-Ray no Brasil, eu não poderia deixar de comentar um dos filmes mais aclamados do diretor Louis Malle. Lembro que quando assisti o filme pela primeira vez o considerei superestimado. Lento e arrastado, o filme ainda deve ser um desafio para muitos cinéfilos que estão acostumados com o ritmo de narrativa mais ágil, no entanto o filme prende a atenção pelo tema que aborda e ficar na memória, sobretudo, pelo seu final. É justamente por conta desses dois fatores que o filme cresceu no meu conceito quando soube que se tratava de uma história real, mais do que isso, a história aconteceu com o próprio diretor que resolveu exorcizar um fantasma de seu passado ao revisitar o drama de infância mostrado em Adeus, Meninos. Dirigido, escrito, produzido e lançado por Malle em 1987, o filme ganhou o Leão de Ouro em Veneza pela temática provocadora que indaga ao espectador se um ato de crueldade seria menos cruel por ser praticado (acidentalmente?) por criança. Não precisa de muito esforço para perceber que o cineasta francês precisou de muita coragem para contar a história do menino judeu que se refugia num colégio interno carmelita na França durante a Segunda Guerra Mundial. Com o conflito instaurado, a França é dividida em nazistas e colaboracionistas (cidadãos franceses que ajudam os alemães) contra os opositores (que poderiam ser chamados de "resistência" quando atuavam clandestinamente) e cidadãos comuns. Nesse contexto, o menino Julien (Gaspard Manesse), filho de uma família rica, é enviado, junto com o irmão mais velho para o colégio interno onde as aulas são organizadas e ministradas por padres cristãos. Nesse quesito, o filme consegue retratar com perfeição a rotina do internato, com suas regras de conduta e a convivência entre os alunos dentro daquele universo bastante conservador, sufocante e, ao mesmo tempo, seguro. Não por acaso, o filme pode parecer tedioso ao espectador, já que somos apresentados à essa rotina de forma bastante realista e contida. O cotidiano da instituição recebe novos ares quando o diretor do local, Padre Jean (Philippe Morier-Genoud) aceita quatro novos alunos, sendo que um deles, Jean Bonnet (Raphael Fejto) chama a atenção de Julien. Jean tem a mesma idade de Julien, mas mostra-se tão inteligente quanto discriminado pelos colegas. Conforme os dois meninos se aproximam, Julien percebe que o menino guarda um segredo que poderá comprometer o universo quase paralelo que o internato se tornou durante os tempos de guerra, especialmente quando nazistas aparecem na instituição. A cena em que um simples olhar trai as intenções dos personagens é bastante marcante, ainda que tratada com a mesma desenvoltura introspectiva de toda a narrativa. Sem melodramas, é visível como o diretor evita o melodrama em nome de uma reconstituição "imparcial" de suas memórias de infância, no entanto, além da cena final (que torna o título bastante doloroso), existe uma belíssima cena de crianças brincando num bosque que me lembrou, salvo as devidas proporções, as intenções de Michael Haneke em A Fita Branca (2009) e até de O Menino do Pijama Listrado (2008). Louis Malle faz um filme difícil de assistir, mas bastante contundente nas questões que propõe ao espectador. Ou seja, nada como crescer e amadurecer seu olhar sobre uma obra de arte.  Vale lembrar que o filme foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro e de roteiro original. 

Adeus, Meninos (Au revoir les enfants/França-Alemanha/1987) de Louis Malle com Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Peter Fitz e Irène Jacob. ☻☻☻☻

segunda-feira, 17 de março de 2014

FILMED+: O Doce Amanhã

Ritmo de despedida: a obra-prima de Atom Egoyam. 

Lembro do principal motivo que me levou a assistir a O Doce Amanhã pela primeira vez: foi um comentário da crítica de cinema Ana Maria Bahiana onde ela dizia que era o seu filme favorito de 1997 - isso em pleno ano em que Titanic eclipsava produções como Los Angeles - Cidade Proibida (de Curtis Hanson), Jackie Brown (de Quentin Tarantino) e Boogie Nigths (de Paul Thomas Anderson). O filme foi ignorado no Globo de Ouro, mas o Oscar lembrou dele nas categorias de melhor roteiro adaptado (do romance de Russell Banks) e direção para Atom Egoyam. Egoyam (que nasceu no Egito e foi criado no Canadá) já havia chamado atenção pelo seu trabalho curioso em Exótica (1994), mas quando exibiu O Doce Amanhã em Cannes a plateia agradeceu a bela surpresa que havia reservado. Lento e belíssimo, o filme é uma dolorosa história sobre uma cidade no interior gélido do Canadá que perde quase todas as suas crianças de uma só vez - e a forma como o sofrimento e o oportunismo se cruzam pelo meio do caminho. Num dia comum, um acidente com o ônibus escolar irá modificar a vida daqueles habitantes para sempre. Egoyam trata a situação sem firulas, sem melodramas, com a velocidade crua que somente um pesadelo pode ter. Mas enquanto tentam lidar com o luto, os moradores recebem a visita do advogado Mitchell Stephens (Ian Holm). Stephens quer aproveitar a tragédia para tentar convencer os pais a processar a companhia de ônibus, sob a argumentação de que a companhia sabia que o ônibus não era seguro o suficiente para realizar o trabalho. Enquanto conhece os pais que perderam os filhos, o advogado tenta lidar (por telefone) com a filha adolescente que é viciada em drogas. Stephens é apenas uma amosta de como Egoyam constrói um cenário humano interessantíssimo, repleto de culpas, pecados e perdão (temas que acentuam o teor religioso da trama) especialmente em torno de uma sobrevivente do acidente, a jovem Nicole (Sarah Polley). Nicole pode mudar a forma como lidam com a situação a partir do seu testemunho sobre as ações da motorista do ônibus no momento do acidente, Dolores (Gabrielle Rose). Focalizando personagens como o pai viúvo que hesita diante das intenções do advogado, a mulher adúltera que pensa em mudar de vida diante da tragédia, a adolescente que mantém um relacionamento incestuoso com o pai, Atom cria um filme sobre uma cidade que encontra-se morta em seus personagens que tentam sobreviver. Além da belíssima trilha sonora e da fotografia que valoriza o tom gélido do lugar, O Doce Amanhã ainda estabelece paralelos com o conto O Flautista de Hamelin - aquele em que para se vingar de uma cidade, um flautista leva todas as crianças para longe dali - com um efeito poético inesquecível. ainda que pouco lembrado, O Doce Amanhã é um desses filmes que descobrimos aos poucos os seus méritos e, depois de muito tempo, ainda habita a nossa lembrança com seus personagens e situações. Deve ser um dos filmes mais tristes que já assisti, mas é também um dos mais bonitos. O considero a obra-prima de Atom Egoyam.  

O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter/Canadá-1997) de Atom Egoyam com Ian Holm, Sarah Polley, Gabrielle Rose, Bruce Greenwood e Tom McCamus. ☻☻☻☻☻ 

DVD: Histórias que Contamos

Michael e Sarah Polley: reverenciando a história da família.

Sarah Polley é uma atriz canadense que já trabalhou em vários filmes queridos pela crítica (entre eles Exótica/1994 e O Doce Amanhã/1997, ambos de Atom Egoyam, Vamos Nessa/1999 de Doug Liman e Minha Vida sem Mim/2003 de Isabel Coixet), mas apesar de todo o respeito conquistado diante das câmeras é atrás delas que Sarah parece mais confortável. Foi em seu segundo longa metragem que abordou as dores do esquecimento em Longe Dela (2006) e conseguiu arrancar uma performance memorável de Julie Christie (indicada ao Oscar de Melhor Atriz), além de conseguir para si uma indicação ao careca dourado de roteiro adaptado. Chega a ser impressionante que enquanto lançava a crise no casamento de Entre o Amor e a Paixão (2011), ela terminava de lapidar esse documentário que explora uma temática bastante pessoal. Num primeiro momento, tem-se a impressão que a diretora reuniu a família para falar sobre sua mãe, Diane. No início existe grande hesitação de todos os envolvidos, o pai (intrigado com as câmeras presentes no estúdio onde ele grava a narração do filme), os dois irmãos (Mark e John), as duas irmãs (Suzy e Joanna), os amigos da família... Sarah tem dificuldades de dar forma ao que ela não gostaria que fosse apenas uma jornada egocêntrica em sua intimidade. As cenas aleatórias dão a impressão de que a ideia da cineasta ainda procura uma forma - e quando a encontra toda a desconfiança da plateia é quebrada. O que vemos através das entrevistas é a forma como todos nos apresentam a matriarca Diane. Uma atriz de uma energia contagiante, que contaminava toda a família, mas existem pistas de que existe um segredo que todos evitam revisitar num primeiro momento. A constituição da família Polley é exposta para o público com todas as suas alegrias, tristezas, elos, aspirações e tropeços. Do dia em que Diane conhece Michael Polley numa peça de teatro, a chegada dos filhos, a crise no relacionamento, além das tentativas de Diane ser reconhecida como atriz (e a forma como as dores de ter perdido a guarda dos filhos do primeiro casamento - John e Suzy) marcará seus atos futuros. É como se aos poucos a diretora construísse uma grande colagem sobre aqueles personagens que giram sobre a órbita de sua mãe, até o momento em que revela o motivo de todo esse cruzamento de narrativas: a suspeita de que Sarah não seria filha de Michael Polley. É visível como esse fato é doloroso para a família, sobretudo para a forma como a vivenciam - é Mark que consegue expressar de forma mais tocante as angústias de sua mãe, ainda que não a isente de reprovações. Mais emocionante que a jornada da diretora em busca do pai biológico, são as cenas onde os personagens precisam se deparar com uma dolorosa verdade, que no fundo, não parece fazer tanta diferença assim. Sarah cria um filme sensacional, onde revela que um documentário pode ser única e somente o cruzamento de versões sobre o passado, mas isso não impede que seja rico e crie impressões universais de como uma família forja a construção da identidade de seus sujeitos. Além disso, o encadeamento das entrevistas mostra-se fundamental para que conheçamos Diane como um ser humano e não um ser mítico, além disso tem a memorável cena final (a primeira gravada para o documentário) onde Michael Polley confronta as intenções (in)conscientes da filha. Ele reage de forma deliciosamente humana aos sentimentos que passaram na cabeça da diretora durante toda a feitura do filme. Histórias que Contamos é um documentário simples sobre pessoas comuns, mas realizado no capricho com cenas reais entremeadas com atores representando os personagens quando jovens. Sem os moralismos e ressentimentos que costumam aparecer nesse tipo de fime, Sarah Polley realizou outro grande trabalho, que prima, sobretudo, pela sinceridade. 

Histórias que Contamos (Stories We Tell/Candá-2012) de Sarah Polley com Michael Polley, Sarah Polley, John Buchan, Suzy Buchan, Mark Polley, Joanna Polley, Harry Gulkin e Anne Tait. ☻☻☻☻

domingo, 16 de março de 2014

Combo: As Mulheres de Lars Von Trier

Agora que a segunda parte de seu famigerado Ninfomaníaca chega aos cinemas brasileiros, parece que os mais desinformados perceberam que a obra de Lars Von Trier nunca quis ser um filme pornográfico. O dinamarquês é considerado por alguns como um gênio e outros o veem como um verdadeiro picareta (que utiliza a polêmica para vender seus filmes difíceis de digerir e que falam sempre da mesma coisa). Independente de sua opinião sobre ele, Trier vai de encontro com aquilo que Hollywood ainda hesita em reconhecer (e que Cate Blanchett deflagrou ao receber o Oscar desse ano): filmes que giram em torno de personagens femininas. É verdade que a maioria das atrizes que trabalharam com o cineasta tiveram suas crises, mas parece que ele finalmente encontrou sua maior musa! Mas qual das mulheres que comeram o pão que Lars Von Trier amassou você prefere?

5 Dançando no Escuro (2000) À operária imigrante Selma (Björk, premiada em Cannes) sofre de uma doença degenerativa na visão que em breve irá vitimar seu filho também. Para evitar isso, a personagem junta suas economias para curá-lo, só que ela acaba roubada e sendo presa quando resolve pegar o dinheiro de volta. Pegue agora todo esse drama e transforme em um musical de denúncia social.  O que era para ser uma crítica ao capitalismo foi visto como um filme antiamericanista (e o diretor alimentou ainda mais isso em entrevistas). Apesar dos prêmios (incluindo a Palma de Ouro em Cannes) e a indicação ao Oscar de Melhor Canção (para a triste I've Seen It All, uma das estranhas músicas cantadas no filme), Björk disse que Trier era um pornógrafo emocional e que jamais trabalharia com ele novamente (na verdade ela nunca mais atuou no cinema). 

4 Melancolia (2011) Mesmo após os comentários infelizes do diretor no Festival de Cannes (onde o filme foi exibido pela primeira vez), a atuação de Kirsten Dunst lhe garantiu o prêmio de melhor atriz no Festival pela noiva deprimida que mostra-se conformada com o fim do mundo que se aproxima. Falando sobre a colisão de um planeta gêmeo (que dá nome ao filme) com a Terra, Trier desenvolve com maestria a relação dicotômica de das irmãs Justine (Dunst) e Claire (Charlote Gainsburg) com o fim que se anuncia. Enquanto uma se desespera diante do fim de todas as possibilidades que a vida lhe prometia, Justine vê no apocalipse uma espécie de cura. O ponto alto de Melancolia é a narrativa solene, quase operística, que o cineasta propõe ao espectador. 

3 Ondas do Destino (1996) Quem colocou as mulheres do cineasta no radar das premiações foi Emily Watson na pele de Bess McNeill. Bess estava feliz da vida com o casamento, até o dia em que seu esposo (vivido pelo muso de Trier, Stellan Skarsgaard) sofre um acidente e a coisa se complica. Impossibilitado de manter relações sexuais com a esposa, Jan convence a mulher a realizar uma difícil jornada em busca de novos parceiros. O fator religioso aqui já se mostra bastante presente na obra do cineasta, já que ela acredita que seu sacrifício irá curar o esposo. Pela excepcional performance, Emily tornou-se a primeira (e única) indicada  ao Oscar de atriz por um filme do polêmico cineasta.  

2 Anticristo (2009) Foi neste filme que Lars Von Trier encontrou sua alma gêmea no cinema. Charlotte Gainsburg foi eleita a melhor atriz em Cannes pela sua personagem atormentada pela morte do filho. De nada adianta ela fugir para uma cabana no meio do mato com o esposo (Willem Dafoe) para esquecer os problemas, afinal, todos eles estão todos dentro de sua cabeça. Trier cria um filme de terror com altas doses de erotismo, onde  a psicologia é o alvo num num universo onde o homem é tratado como ameaça pela natureza. Animais falantes, barulhos de sementes caindo, corvos e segredos fazem o casal ter a discussão de relação mais radical que já se viu numa tela. Aqui existem alguns elementos que retornam em Ninfomaníaca, incluindo a (corajosa) atriz que virou musa do dinamarquês. 

1 Dogville (2003) Nicole Kidman merece o topo da lista por sua personificação da personagem a que Lars elaborou uma trilogia somente para ela. Grace é a protagonista misteriosa de Dogville, cidadezinha americana no meio do nada, cujos personagens se lambuzam nas mazelas da Grande Depressão. Mais do que uma intrusa num grupo de pessoas, Grace é usada para uma espécie de "experiência social" - e acaba sendo escravizada e sofrendo abusos físicos e psicológicos. Mas na cidade do cão chamado Moisés, quem ri por último, ri (pelo menos) mais alto. Grace ainda apareceu em Manderlay (2005) uma fazenda que ainda tinha escravos (mas lá ela tinha a cara de Bryce Dallas Howard). Trier ainda fala de lançar a última parte da trilogia que desbrava as mazelas americanas: Wasington (assim mesmo, sem "h"). Os fãs aguardam a conclusão da saga sem cenário. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

CATÁLOGO: Reencarnação

Bright e Kidman: amor impossível.

O diretor inglês Johnatan Glazer colheu elogios quando exibiu seu novo longa no Festival de Veneza (o terror Under The Skin protagonizado por Scarlett Johansson), mas ele ainda encontra dificuldades em sua distribuição  - o que não impediu que ele concorresse a quatro prêmios (incluindo  melhor diretor e atriz)  no British Independent Film Awards no ano passado. No entanto, sempre existem aqueles que consideram o trabalho do diretor pretensioso e vazio. Devo dizer que não pertenço a esse grupo. Glazer foi responsável por alguns dos clipes mais interessantes da década de 1990 (incluindo o clássico "Rabbit in your headlight" do Unkle) e foi para o cinema disposto a contar histórias de um jeito ousadamente estiloso, apresentando um capricho incomum entre os cineastas independentes ingleses. Em 2014 faz exatos dez anos que ele lançou Reencarnação, drama intimista estrelado por Nicole Kidman (que foi indicada ao Globo de Ouro pelo papel). O título em português motivou uma campanha que vendia o filme quase como um filme de terror, quando a ideia do diretor era fornecer ao espectador uma espécie de enigma. Nicole vive Anna, que após dez anos da morte do esposo ainda tenta reconstruir a vida. Depois de anos de hesitação, ela aceita o pedido de casamento de Joseph (Danny Huston), agradecendo sua paciência e compreensão em esperar por ela. Eis que surge em cena o moleque de dez anos (vivido pelo soturno Cameron Bright) que além de ter o mesmo nome do falecido, Sean, ainda diz ser a reencarnação do próprio. O que poderia ser uma brincadeira de mal gosto, começa a incomodar Anna e seus familiares, já que o garoto persiste na afirmação devidamente abastecido de informações íntimas da vida do casal. Glazer dá conta da história através de longos silêncios e ritmo lento, que permite ao espectador preencher as lacunas de dúvidas e indagações. Menos interessado em discursos religiosos e mais em mostrar o impacto do menino na vida dos personagens, o diretor busca mostrar o que se passa na cabeça dos personagens (com a ajuda de belos zooms), especialmente de Anna (existem várias cenas em que podemos ver a tempestade sentimental da personagem, destaque para a cena dela caminhando entre a multidão e a antológica cena na orquestra, onde apenas vemos o rosto da personagem sendo corroído por dúvidas). Há quem fique frustrado com o desfecho do filme, ou até mesmo com a inibida forma como Glazer apresenta a possibilidade de um romance improvável entre Anna e o pequeno Sean, no entanto, o filme funciona de forma bastante elegante com a fotografia cheia de marrom, sombras e dourado embalada por uma trilha sonora que lembra tristes canções de ninar. Cada cena, em seus movimentos próprios, cria uma narrativa envolvente que mescla drama e suspense com maestria numa história onde o passado inibe que o futuro aconteça. Além de contar com a impecável atuação de Nicole, o filme ainda se beneficia de um bom grupo de coadjuvantes que inclui Lauren Bacall (como a matriarca da bem nascida família de Anna), Alison Elliott, Peter Stormare e uma surpreendente Anne Heche na pele da dona de um segredo perigoso. Apesar do fracasso de bilheteria nos EUA, o filme fez sucesso nos cinemas brasileiros e colheu elogios pelo conteúdo provocador tratado de forma tão envolvente. 

Reencarnação (Birth/EUA - Reino Unido - Alemanha/2004) de Johnatan Glazer com Nicole Kidman, Danny Huston, Cameron Bright, Lauren Bacall, Anne Heche, Peter Stormare e Alison Elliot. ☻☻☻

segunda-feira, 10 de março de 2014

DVD: Só Deus Perdoa

Gosling: mãos para destruição e não para diversão...

Ao assistir ao primeiro filme da trilogia Pusher (1996) tive a impressão de que havia uma vontade do dinamarquês Nicholas Winding Refn ser uma versão hardcore de Quentin Tarantino. Com menos humor e citações cinéfilas, sobrava espaço para cenas de violência elaborada e a criação de cenas tensas ao extremo. Sorte que quando o diretor realizou o sucesso Drive (2011) essa impressão não existia mais. Observamos um diretor pleno na construção de sua identidade, usando referências da década de 1980 (os créditos iniciais, a trilha, a jaqueta cool do protagonista...) para criar a narrativa de um dublê de cinema que dirige carros para criminosos nas horas vagas - papel defendido por Ryan Gosling. Refn e Gosling ficaram tão satisfeitos com a elogiada parceria que engataram um segundo filme juntos: Só Deus Perdoa. Eu já fiquei assustado quando um bando de marmanjos entusiastas aclamavam o primeiro poster da produção, onde o rosto do ator aparecia cheio de hematomas. Com as críticas que o filme recebeu (e a demora na estreia por aqui) hesitei em acreditar que a dupla criou um fiasco. Assistindo ao filme, aquela impressão de que Refn queria ser Tarantino voltou ainda mais forte, pena que não seja tão hábil com uma caneta na mão. Refn demonstra uma dificuldade danada em construir uma história que preste dentro das referências que escolheu aqui. A violência estilizada beira o humor involuntário (ou o pastelão) e as referências ao cinema oriental me remeteram a uma espécie de Kill Bill (2003) pobre, que se leva mais a sério do que deveria. Outra referência na história é a tragédia clássica de Édipo Rei, mas faltou ao diretor a humildade de perceber que não tinha uma história pronta, apenas o esboço de uma história sobre vingança. Refn parece implorar para que Ryan Gosling atue como uma estátua, com poucos momentos em que podemos perceber o talento do moço na pele de Julian (e a lembrança  fresca de Drive faz sua atuação soar como uma paródia de si mesmo). Julian é o administrador de uma casa de Muay Thai em Bancoc, na Tailândia. Apesar do ator chamar atenção para a produção, os minutos iniciais são dedicados ao irmão dele, Billy (Tom Burke) e sua jornada em busca de uma adolescente para estuprar e matar. Billy acaba assassinado pelo pai de sua vítima a mando de um policial  (Vithaya Pansringarm) que vive com uma espada de samurai presa às costas. Ciente da conduta do irmão, Julian acaba desistindo de vingar a morte do mano, mas a mãe dele não fica nada satisfeita com isso e busca a vingança por meios próprios. A narrativa parece fazer questão de nos fazer não se envolver com os personagens, mas Kristin Scott Thomas consegue chamar atenção como a estranha mãe de Julian. Bastante diferente dos tipos elegantes que estamos acostumados a vê-la, Kristin constrói uma espécie de poderosa chefona brega de tendências incestuosas, graças à ela que o filme consegue ter alguma graça. - já que o policial vilão acaba gerando risadas sempre que está pronto para usar sua espada. Já o pobre Julian serve apenas para o diretor exercitar seu fetiche pelas mãos do personagem - que parecem destinadas somente à violência (que renderá a cena conclusiva mais bizarra dos últimos tempos). Só Deus Perdoa tem a ambição de ser um filme estiloso sobre vingança, mas o estilo acaba ficando restrito ao uso da iluminação e da trilha sonora. As cenas arrastadas e simbólicas não conseguem disfarçar a preguiça de construir uma história que prestasse, o que torna o filme uma experiência frustrante para quem esperava que Nicholas Winding Refn havia alcançado o domínio de seu estilo próprio. Só Deus Perdoa mostra que ele é capaz de recair num velho mosaico disforme de referências, mas só uma nova obra irá dizer se Refn é digno de perdão. 

Só Deus Perdoa (Only God Forgives/Dinamarca-França/2013) de Nicholas Winding Refn com Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm e Tom Burke.

domingo, 9 de março de 2014

Pódio: Jared Leto

Bronze: vidas paralelas infinitas
Senhor Ninguém (Mr. Nobody/2009) 
Pouco divulgado e com dificuldades de ser lançado nos EUA até hoje, talvez esse filme dirigido pelo belga Jaco Van Dormael tenha chance de ser descoberto depois dos prêmios recebidos por Jared recentemente. O penúltimo filme de Leto é uma jornada surpreendente por realidades paralelas, onde num futuro distante, a narrativa do homem mais velho do mundo (Jared) entrelaça as várias possibilidades de seu passado. Bem construído, envolvente e poeticamente complexo, o filme merece um lugar entre os seus favoritos de todos os tempos.

Prata: o mundo é um pesadelo
Réquiem Para um Sonho (Requiem for a Dream/2000) 
Em seu segundo longa metragem, Darren Aronofsky mostra com quantas cenas se revira o estômago do espectador. Baseado na obra de Hubert Selby Jr, Réquiem é um dos maiores pesadelos já concebidos para o cinema. Denso, delirante e sem concessões, o filme mostra o mergulho de uma família no mundo das drogas, seja o filho (Jared Leto), a namorada dele (Jennifer Connely) ou a mãe (Ellen Burstyn). O filme provou que Jared podia ser um bom ator - ainda que as suas parceiras roubassem a maioria das cenas desagradáveis. O filme ainda marcou a atração de Jared por transformações físicas. 


Ouro: Oscar na estante. 
1º Clube de Compras Dallas (Dallas Buyer's Club/2013)
Acho que nem o ator acreditava que um dia levaria os maiores prêmios do cinema para a casa (incluindo o Globo de Ouro e o Oscar), talvez por conta da esnobação por seus trabalhos no cinema, Jared Leto tenha passado mais tempo na companhia de sua banda 30 Seconds o Mars. Agora, depois que a transexual soropositiva Rayon mudou a percepção de Hollywood sobre ele, Jared deve aparecer mais vezes no cinema. No entanto, depois de viver o contrabandista de remédios, não vejo que seus papéis serão mais comuns, pelo contrário, talvez sejam mais desafiadores! 

CATÁLOGO: Capítulo 27

Jared: 27 quilos a mais.

Perdi a conta de quantas vezes o crítico Rubens Ewald Filho repetiu que o maior problema do ator Jared Leto era ser "bonito demais". Esse mal é muito comum em atores com pinta de galã - é por isso que Brad Pitt tem hoje em sua estante um Oscar como produtor de 12 Anos de Escravidão/2013 e não como ator indicado ao prêmio três vezes. Jared teve mais sorte. Conheço Leto desde o seu trabalho na TV, especificamente quando acompanhei a ascensão de Claire Danes no seriado My So Called Life (que durou somente 19 episódios entre 1994 e 1995), onde ele interpretava o antológico garoto problema Jordan Catalano. Depois ele começou a fazer filmes, demonstrando grande atração para aqueles papéis que funcionavam como disfarce para sua estampa. Talvez o auge de sua transformação física tenha acontecido neste Capítulo 27 que, se não fosse pelo tema espinhoso, poderia ter feito mais sucesso nas premiações. O diretor estreante J.P. Schaefer demonstrou ter coragem para criar uma adaptação para o polêmico livro Let Me Take You Down (escrita por Jack Jones) que explora como funcionava a mente de Mark David Chapman, o fã que assassinou John Lennon na noite de 08 de dezembro de 1980. Nascido em 10 de maio de 1955, Chapman foi condenado à prisão perpétua e tornou-se uma das figuras mais odiadas da década de 1980 - o reflexo disso afetou a carreira do filme drasticamente. É verdade que o diretor bancou o espertinho ao escalar o esguio Jared para interpretar o personagem rechonchudo. Jared engordou bastante para dar conta do papel (e o filme explora vários ângulos de sua inédita pança que lhe causou alguns problemas de saúde na época), mas seria maldade restringir sua presença em cena aos quilos a mais. O ator consegue criar um personagem bastante estranho, da fala arrastada aos ataques de fúria, Jared mergulha com gosto nas ambiguidades do personagem que expressa sua loucura com algumas doses dissonantes de ternura. Fica claro que a mente de Chapman agia dentro de uma lógica própria, capaz de estabelecer relações entre o cineasta Roman Polanski, o louco Charles Mason e John Lennon numa agilidade assustadora. Seus pensamentos parecem moldados por uma leitura bastante particular da Bíblia e do clássico O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger (o próprio título do filme é uma referência ao livro, que termina a narrativa no capítulo 26) e Jared constrói um personagem inquieto, ainda que sua aparência pudesse parece inofensiva. A produção funciona muito bem em seu ritmo soturnamente lento que segue Chapman em suas visitas à casa de Lennon, nas noites solitárias e os diálogos desarticulados com quem atravessava seu caminho. Sabiamente, o filme não se preocupa em criar suspense para o desfecho que todo mundo conhece. Seu foco é mesmo mostrar o funcionamento da mente doentia de seu personagem que aparece sob um passado nebuloso e já condenado a um futuro ainda mais sombrio. Ainda que evite o sensacionalismo em sua narrativa, o maior problema do filme está na fragilidade de exibir a guinada insana de Chapman que o transforma um fã de Lennon em assassino do próprio ídolo, mas penso que nem Freud conseguiria traduzir isso em imagens cinematográficas. No entanto, é preciso um bocado de coragem para fazer um longa sobre os mecanismos mentais de um personagem tão odiado. O filme acompanha os personagem nos três dias antes do crime, não tenta inocentar o personagem, nem o faz parecer alguém digno de culto, mas o exibe como uma pessoa de graves desajustes mentais (do tipo que imagina que uma assinatura na capa de um álbum fosse mudar sua vida) num clima deprimente. Carregando o filme nas costas, Leto tem companhia de um bom elenco de apoio (com destaque para Lindsay Lohan como uma fã de Lennon que percebe que alguma coisa está fora do lugar na mente de Chapman). 

Capítulo 27 (Chapter 27/EUA-2007) de J.P. Schaeffer com Jared Leto, Linsay Lohan, Judah Friedlander. ☻☻☻

sábado, 8 de março de 2014

CATÁLOGO: Uma Equipe Muito Especial

Hanks e Geena: no auge. 

Tem filmes que conseguem me embriagar de nostalgia da década de 1990! Um delas é Uma Equipe Muito Especial de Penny Marshall. Apesar de ter mais trabalhos como atriz do que na direção, Penny conquistou algum reconhecimento depois de realizar Quero Ser Grande (1988) estrelado por Tom Hanks (que conseguiu sua primeira indicação ao Oscar pelo trabalho) e Tempo de Despertar (1990) que indicou Robert DeNiro ao Oscar de melhor ator e ainda concorreu aos prêmios de roteiro adaptado e melhor filme. Ou seja, na época, era uma das poucas diretoras que conseguiam se impor perante a Academia - nada mal para uma novaiorquina natural do Bronx. Em 1992 seu filme era um dos mais aguardados do ano, mas teve que se contentar somente com duas indicações ao Globo de Ouro (atriz de comédia/Geena Davis e Canção Original para This Used To Be My Plauyground de Madonna e Shep Pettibone). No entanto, Uma Equipe Muito Especial alcançou sucesso de bilheteria, com a história de um grupo de mulheres escaladas para jogar na liga nacional de baseball durante a 2ª Guerra Mundial - já que os homens estavam lutando na guerra. O filme de Marshall parte do relacionamento entre duas irmãs que são sondadas para participar dos jogos, uma é a craque Dottie (Geena Davis), a outra é a sempre ofuscada Kit (Lori Petty, uma promissora atriz dos anos 1990 que sumiu do mapa). As duas se juntam a uma equipe repleta de mulheres bem intencionadas, que vivem seus dramas enquanto tem que mostrar que são capazes de jogar tão bem quanto os marmanjos. O time feminino ainda conta com Madonna, Rosie O'Donnel e Anne Ramsey, todas sofrendo com as grosserias do astro do baseball em decadência Jimmy Dugan (Tom Hanks, bem divertido e diferente dos bons moços de seu currículo). O filme consegue ser bastante agradável, alguns vão dizer que exagera nas doses de açúcar em alguns momentos, mas o resultado consegue se equilibrar na difícil tarefa de fazer graça para não cair no dramalhão. No Brasil, filmes sobre o esporte costumam ter problemas, já que ele é pouco praticado por aqui e os diretores possuem grande dificuldade em tornar as partidas interessantes (basta lembrar que O Homem Que Mudou o Jogo/2011 evita as cenas em campo sob a desculpa de ser um filme sobre "algo maior"... sei...), mas isso não acontece aqui. Penny Marshall e o elenco conseguem emanar grande energia nas partidas - o que serve de contraponto para as intrigas nos bastidores que a liga feminina atravessava. Mesmo que explore pouco as coadjuvantes em cena (inclusive Madonna que recebe destaque no poster do filme), todas tem uma cena ou outra de algum destaque, mas o foco está mesmo nos dilemas de Dottie - seja nos conflitos com a irmã, na espera do esposo que está na guerra (vivido por Bill Pullman), ou a atração mal disfarçada que Dugan sente por ela enquanto discutem por boa parte do filme. Com a mensagem de toques feministas e a abordagem de um assunto pouco abordado nos cinemas (lembrei muito dos desafios e preconceitos que sofrem as mulheres que jogam futebol profissionalmente no Brasil), Uma Equipe Muito Especial ainda merece atenção pelo jeito aparentemente inofensivo que aborda questões que (apenas) julgamos terem sido superadas. Aproveitando o tom nostálgico do filme, não tem como não relembrar o período de ouro que atravessava o trio de atores no alto dos créditos. Nos anos 1990, Tom Hanks caminhava cada vez mais para o seu auge (nos dois anos seguintes estrelaria Filadélfia e Forrest Gump, que lhe tornaria o segundo ator na história a ganhar o Oscar de ator duas vezes consecutivas e ainda viria Apolo 13, a voz do cowboy Woody em Toy Story...) e Geena Davis estava na sua fase queridinha de Hollywood (o Oscar de atriz coadjuvante por O Turista Acidental/1988 estava na estante e havia acabado de saborear sua indicação por Thelma & Louise/1991 e os elogios por Herói por Acidente/1992). Completava o trio de estrelas a cantora Madonna, que ainda tentava um lugar ao sol no cinema (fez sucesso com Dicky Tracy/1990 - sua canção tema lhe rendeu o show mais memorável da história do Oscar - apareceu num filme de Woody Allen - Neblina e Sombras/1991 que eu detesto, mas falo disso depois - e o sucesso da canção Vogue a coroava de vez como a "Rainha do Pop"). Nos dias atuais de 2014, Tom pelejou para ter uma indicação ao Oscar e não conseguiu. Geena Davis está fora do mapa hollywoodiano há alguns anos e Madonna desistiu de ser atriz - e ambiciona ser cineasta (e teve que suar muito para vender dois milhões de cópias de seu último cd, MDNA). 

Madonna: raro sucesso no cinema. 

Uma Equipe Muito Especial (A League of Their Own/EUA-1992) de Penny Marshall com Geena Davis, Tom Hanks, Madonna, Lori Petty, Rosie O'Donnel, David Strathairn e Jon Lovitz. ☻☻☻☻

quarta-feira, 5 de março de 2014

CATÁLOGO: CopLand

Liotta, Stallone e DeNiro: um policial contra todos?

Recentemente muitos críticos elegeram como esporte favorito comparar o trabalho de David O. Russell em Trapaça com a obra de Martin Scorsese. O próprio David afirmou que seu último filme era uma homenagem ao diretor de Os Bons Companheiros (1990) e Taxi Driver (1976) e, como ele, não percebo que seja um demérito você se inspirar na obra de outras pessoas, afinal, seria difícil dizer quem nunca usou como referência algo que já viu ou leu em algum lugar (Quentin Tarantino que o diga). O fato é que nos idos de 1997, outro filme evidenciava a inspiração no universo de Scorsese, era CopLand, o subestimado segundo filme de James Mangold. Revê-lo recentemente me fez pensar como seria a carreira do diretor (de filmes variados como Johny & June/2005, Garota Interrompida/1999 e... Wolverine Imortal/2013 ) se CopLand houvesse recebido toda a atenção que ele esperava. O longa sobre uma localidade habitada sobretudo por policiais era esperado como uma das grandes promessas de 1997, mas fracassou nas bilheterias e até os críticos se dividiram. O maior problema talvez seja a presença (alardeadíssima) de Sylvester Stallone gordo e num personagem bem diferente do que o público estava acostumado a vê-lo. Tratava-se de um excelente veículo para o ator renovar sua carreira, que já demonstrava sinais de cansaço, o problema é que ninguém pareceu entender muito bem o seu desempenho. De fato, Stallone não era a melhor escolha para viver o xerife Freddy Heflin, mas seria maldade dizer que o ator está ruim em cena. Sylvester faz um personagem preso à inércia de quem está preso para sempre no posto de xerife por conta da surdez em um dos ouvidos, provocada por um acidente. Para piorar, Heflin trabalha num subúrbio de Nova Jersey que foi concebido para dar aos policiais e seus familiares uma vida tranquila. Ou seja, seu trabalho seria zelar pela paz de seus colegas de trabalho, o que influencia diretamente a forma como ele lida com alguns acontecimentos que fogem do modelo de conduta que espera-se da população local. O roteiro de Mangold é visivelmente ambicioso, ao construir um acontecimento, aparentemente trivial, que gera desdobramentos que podem ser surpreender seu protagonista apático. Logo no início, um promissor jovem policial conhecido como Superboy (Michael Rapaport) se envolve na morte de dois jovens negros. Em meio à confusão acredita-se que ele se suicidou ao atirar-se da ponte onde houve o ocorrido. Para tornar a cena do crime mais nebulosa, seu tio policicial, Ray Donlan (Harvey Keitel), conta com a ajuda dos amigos policiais Jack Rucker (Robert Patrick), Joey Randone (o hoje diretor Peter Berg) e Gary Figgis (Ray Liotta). No entanto, o caso chama atenção do corregedor Moe Tilden (Robert DeNiro) que suspeita do envolvimento de Donlan e sua turma em casos de corrupção. Resta a Moe, fazer Heflin despertar para o que está acontecendo, mas o xerife se divide entre a vontade de fazer o que é certo e a pressão do corporativismo entre os colegas de profissão - é justamente nessa guinada que acho que Stallone poderia injetar um pouco mais de vigor no personagem. Mangold conduz seu filme com mão firme, criando um emaranhado noir moderno de grande tensão que explode no final. As situações se tornam cada vez mais suspeitas e mostram que existe um poder paralelo dentro da própria polícia local. Além do clima que parece sugado dos grande filmes policiais da década de 1970, acredito que não foi por acaso que o diretor escalou atores de filmes de Scorsese para o filme (Liota protagonizou Os Bons Companheiros e, tanto Keitel como DeNiro participaram de uma dezena de filmes do diretor... só faltou o Joe Pesci), além disso as situações violentas e pouco louváveis envolvendo policiais de Nova York (território favorito de Scorsese) também evidenciam como Mangold digeriu bem as referências das quais se apropria. CopLand pode não ter sido o sucesso e nem ter transformado seu diretor num autor renomado em Hollywood (no máximo se tornou uma espécie de operário padrão que faz qualquer coisa), mas merece ser visto pelo diretor em início de carreira que hoje continua bom com atores, mas que perdeu sua ousadia.

CopLand (EUA-1997) de James Mangold com Sylvester, Harvey Keitel, Ray Liotta, Robert Patrick, Robert DeNiro, Annabella Sciorra, Noah Emmerich, Peter Berg e Cathy Moriaty. ☻☻☻☻

DVD: Cornouaille

Os pretendentes e Odile: simpática casa mal assombrada. 

Enquanto a maioria das pessoas gosta de aproveitar o carnaval em meio a festas, desfiles, blocos e celebrações eu prefiro me esconder. Costumo ir para a cidade natal de minha mãe, buscando refúgio numa localidade onde nem lembro que é carnaval. Nada contra quem curte a agitação ao lado de amigos e parentes, mas eu prefiro aproveitar esses dias para sossegar para o ano que se inicia, de fato, depois desse período festivo. Nesse carnaval assisti poucos filmes, mas houve um que se eu assistisse em qualquer outro dia ele teria me chamado menos atenção. Cornouaille é um desses filmes franceses que são introspectivos e sem muita ação, mas que pode cativar o público que se identificar com o clima nostálgico da personagem que precisa tomar decisões importantes para o rumo que sua vida. Odile (Vanessa Paradis) está enrolada no relacionamento com Fabrice (Johanatan Zaccaï, do filme Les Revenants/2004), um homem casado que, por mais gente boa que pareça, não sabe muito bem o que quer. Eis que Odile precisa fazer uma viagem para uma província litoranea da França para se desfazer de uma casa que herdou da tia falecida. Daí em diante, o filme dirigido e escrito pela veterana atriz Anne Le Ny (que apareceu recentemente no sucesso Intocáveis/2012) se transforma num simpático filme de fantasmas. A tarefa que seria bastante simples se torna complicada quando Odile precisa lidar com as lembranças que habitam a casa - o que passa pelo dia do falecimento de seu pai, pelas brincadeiras com os primos (que poderiam aparecer um pouco mais na história) e com os amigos de infância, um deles é o simpático Loïc (Samuel Le Bihan)  que acredita que foi dele o primeiro beijo da personagem. A certa altura um personagem diz que ela não sabe lidar com seus mortos e, portanto, não consegue se relacionar com os vivos. Essa parece ser a grande questão do filme. O roteiro trata de explorar como a personagem aos poucos começa a repensar sua forma de lidar com a vida (e a morte) e isso influencia na forma como age no mundo ao seu redor - e nesse processo a companhia de Loïc torna-se essencial (mesmo quando ela começa a suspeitar que ele é um fantasma e o roteiro consegue lidar de forma eficiente com a incerteza que paira sobre o mistério do personagem). Vale destacar ainda as conversas da personagem com o pai falecido e com os jovens vizinhos que cruzam seu caminho, que aproximam mais Odile das relações humanas. Outro ponto interessante da narrativa são os pesadelos de Odile, simples, mas reveladores, eles ajudam a pontuar momentos de mudança da personagem com alguma sutileza, especialmente quando ela suspeita de uma gravidez não planejada. Com belas paisagens e toques de humor, o filme não chega a ser inesquecível, mas serve para passar o tempo de forma eficiente e descompromissada. Não posso deixar de mencionar que Vanessa Paradis (famosa pela música Joe Le Taxi - que virou música de Angélica aqui no Brasil e por ter ficado casada por 14 anos com Johnny Depp) não está bonita no filme, mas consegue fazer de Odile uma personagem bastante palpável em suas angústias.  

Cornouaille (França/2012) de Anne Le Ny com Vanessa Paradis, Samuel Le Bihan, Johnatan Zaccaï e Martin Jobert. ☻☻☻