quarta-feira, 25 de agosto de 2021

PL►Y: Synchronic

Jamie e Mackie: drogas viajantes no tempo e no espaço. 

A primeira vez que ouvi falar de Synchronic foi quando escolhi os melhores pôsteres de 2020. Desde então eu comecei a criar uma história para aquele cartaz na minha cabeça, misturando as referências das imagens e do nome. Vale dizer que não assisti ao trailer ou procurei qualquer matéria sobre o filme (o que considero um hábito bastante saudável se você não quer estragar as surpresas que um filme reserva). O mais interessante é que ao tentar assistir ao filme, sem maiores referências, com alguns minutos de filme eu me dei conta que o filme bolado na minha cabeça era muito melhor do que a produção que eu assistia. A ideia já começou a me deixar com o pé atrás quando vi que se tratava de mais uma trama sobre droga sintética "com poderes mágicos" - e em se tratando de um filme que se apresenta como ficção científica, fica claro que tudo é possível a partir daí. Há de se registrar que é uma escolha interessante fazer um filme em torno de dois paramédicos, Steve (Anthony Mackie) e Dennis (Jamie Dornan) que começam a perceber mortes cada vez mais estranhas em seus plantões. Não demora para que eles comecem a associar as mortes à uma nova droga que se torna cada vez mais popular, mas que não explica por si só o que está acontecendo. Afinal de contas, ninguém imagina (nem mesmo os usuários) que aquela substância provoca uma viagem diferente da concorrência, resta aos personagens e ao espectador descobrirem se são alucinações, simulações de realidade, mundos paralelos, viagens no tempo ou tudo misturado. Para dar mais dramaticidade dois fatos surgem na história: o desaparecimento da filha de Dennis e uma doença incurável em Steve. Sim, trata-se de um ponto de partida interessante, mas como eu já escrevi várias vezes por aqui, boas ideias não garantem um bom filme é preciso mais: criar uma história (e este detalhe é o ponto mais fraco do filme). Apesar das ideias diferentes, o filme tem uma dificuldade danada de costurar os elementos que possui e, por conta disso, acaba comprometendo o apego do espectador aos personagens (acho que todo mundo se importa mesmo é com o cachorro de Steve, que o roteiro deixa claro não estar muito preocupado com ele). Para piorar, Synchonic confia tanto no próprio taco que termina com jeito de que teria uma continuação. A dupla Justin Benson e Aaron Moorhead já fizeram outros filmes juntos e cada um já dirigiu um episódio da releitura recente de Além da Imaginação (em 2020), além de atualmente estarem à frente da aguardada série do Cavaleiro da Lua, mas em Synchronic a sensação que fica é que poderiam ficaram no meio do caminho. 

Synchronic (EUA/2019) de Justin Benson e Aaron Moorhead com Anthony Mackie, Jamie Dornan, Katie Aseltson, Ally Ioanides, Ramiz Monsef e Shane Brady. 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

4EVER: Charlie Watts

 
06 de fevereiro de 1941  24 de agosto de 2021

Filho de um  caminhoneiro e uma operária, Charles Robert Watts nasceu em Londres. Aos 21 anos se tornou baterista da primeira banda britânica de músicos brancos dedicado ao Blues, a juventude londrina estava fascinada pelo ritmo criado pelos afro-americanos e foi por conta deste trabalho que os jovens Mick, Keith e Brian convidaram o jovem virtuoso instrumentista para integrar a banda que formavam. Foi assim que Charlie Watts aceitou integrar uma das maiores bandas da história do rock. Como integrante dos Rolling Stones, ficou bastante famoso por sua personalidade discreta ao lado dos exuberantes Mick Jagger e Keith Richards, mas reza a lenda que Charlie sempre soube se impor e, não foram poucas as vezes, em que entrou em choque com as vaidades dos seus colegas de grupo. Charlie casou-se em 1964 com Shirley Ann Shepherd e tiveram uma filha logo depois. Charlie faleceu aos 80 anos. 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

PL►Y: Let Them All Talk

 
Lucas, Meryl, Dianne e Candice: viagem de improvisos. 

Eu li e ouvi tantas críticas decepcionadas com o último filme de Steven Soderbergh que confesso ter ficado curioso com Let Them All Talk, bem... para ser honesto, o que me chamou atenção foi o fato de ter três grandes atrizes que admiro no mesmo filme. Some o promissor Lucas Hedges e a proposta de improviso diante das câmeras do cineasta e acho que está mais do que justificado meu interesse pelo filme. A ideia é bem simples, uma escritora famosa (Meryl) é contemplada com um prêmio literário, mas para receber, precisa ir para a Inglaterra. Eis que sua antiga agente acabou de se aposentar e a nova (Gemma Chan) está doida para conquista-la e, sabendo do medo que a autora tem de avião, consegue que ela viage num transatlântico (com direito a acompanhantes) em troca de uma palestra. Fica evidente diante desta ideia que Steven traça somente algumas linhas para guiar sua história e o que a ideia traz de frescor para o filme, também torna o projeto bastante arriscado. Na pele de Alice, a multipremiada Meryl Streep parece não sair muito do lugar com seus dilemas e conflitos no processo criativo de seu novo livro (mas o próprio conceito da personagem parece deixar a atriz um tanto amarrada), no entanto, ela tem bons momentos quando comenta sobre seus livros e autores que admira (ou despreza), mas ainda assim, são os personagens que transitam ao seu redor que ficam com as partes mais interessantes da sessão, a começar por sua amiga Roberta (Candice Bergen, ótima!) que estranhamente aceita o convite da amiga para fugir dela por boa parte da viagem (o que acaba revelando ressentimentos que se tornam um verdadeiro obstáculo entre as duas). Já a compreensiva Susan (Dianne Wiest), tenta conciliar a amizade entre as duas, mas se vê cada vez mais interessada em um outro escritor que está a bordo. Outro que acompanha Alice nesta viagem é o sobrinho, Tyler (Lucas Hedges) que possui grande curiosidade sobre aquela amizade que atravessou meio século, pelo menos até ele se apaixonar pela agente de sua tia (que embarca meio que escondida naquela transatlântico). Avançando em conversas aqui e ali, uma alfinetada de um personagem e outro, o filme flui bem, mas perde a chance de ser uma experiência mais divertida ao optar pelo tom mais intimista. Entre segredos, piadinhas e poucos conflitos o filme se desenvolve sem maiores pretensões e destaca as instalações do luxuoso Queen Mary 2. É um filme leve e divertido, que se torna ainda melhor para quem é fã do elenco. 

Let Them All Talk (EUA-2020) de Steven Soderbergh com Meryl Streep, Candice Bergen, Dianne Wiest, Lucas Hedges, Gemma Chan e  David Siegel. 

PL►Y: Pequenos Vestígios

Rami, Jared e Denzel: donos do maior segredo do filme. 

Não lembro de um filme recente me dar tanto trabalho para assistir quanto Pequenos Vestígios. Das cinco vezes que tentei assistir ao filme, confesso que dormia boa parte da sessão. Voltava e assistia. Dormia. Assim, fui levando o filme. Embora seja uma produção policial com inspiração noir, o maior mistério do filme é como três atores oscarizados deixaram se envolver por uma história tão insossa. Talvez no roteiro a trama fosse envolvente  e cheia de possibilidades, mas em sua transposição para a telona muita coisa deve ter se perdido. Reza a lenda que o texto vagava pelas gavetas de Hollywood desde os anos 1990 e somente no ano passado chegou aos cinemas, quer dizer, foi lançado para ser visto, já que com a pandemia, ele foi lançado diretor no streaming na maior parte do mundo. Talvez esta opção não tenha feito estrago à imagem de um filme estrelado por Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto que mereciam coisa melhor, porém, ainda assim, Jared Leto cravou indicações em duas premiações importantes (SAG e Globo de Ouro), o que é compreensível, já que no final das contas o seu personagem é mesmo o mais interessante. O filme é ambientado nos ano 1990 e conta a história de uma investigação em busca de um serial killer que ataca mulheres em lugares diferentes. Os crimes chamam atenção do policial veterano Joe Deacon (Denzel), mas está sob responsabilidade do detetive Jim Baxter (Rami). Enquanto o primeiro é capaz de driblar as regras e formalidades para "fazer justiça", o outro é tão certinho quanto ambicioso - e enquanto Joe é solitário (e carrega um terrível segredo), Derek é casado e com duas filhas adoráveis. Os crimes afetam cada um dos dois de formas distintas, mas o roteiro gosta de manter isso nas entrelinhas... pelo menos até aparecer o estranho Albert Sparma (Leto). Sparma brinca com a percepção das autoridades e não ajuda muito o fato do destino que é reservado ao outro suspeito pelos crimes. Diante dos rumos da investigação, Joe e Jim resolvem usar estratégias arriscadas para prender o suspeito. Debaixo de tantas pretensões e clichês, o filme se arrasta por duas horas e deixa que o espectador tire suas próprias conclusões, o curioso é que estas são construídas não apenas pela postura do suspeito (bem realizado por Jared), mas, também pelas posturas dos policiais que acabam metendo os pés pelas mãos ao longo do filme. Além da boa trilha sonora e da fotografia muito escura (será que isso ajudou a me dar sono?), chama atenção que o filme tenha recebido espaço na temporada de prêmios pelo desespero da Warner ter perdido as esperanças com Tenet (outro pastel de vento) e por não ter acreditado no potencial de Judas e o Messias Negro (o que corrigiram a tempo do Oscar). Sinceramente, não me envolveu e eu só fiquei pensando como seria se Jared e Rami trocassem seus papéis. Fica a ideia para o seu inconsciente. 

Pequenos Vestígios (The Little Things / EUA - 2020) de John Lee Hancock com Denzel Washington, Rami Malek, Jared Leto, Natalie Morales, Michael Hyatt, Chris Bauer, Terry Kinney e John Harlam Kim. 

domingo, 15 de agosto de 2021

PL►Y: Freaky - No Corpo de um Assassino

Vince e Kathryn: trocando de corpo.

Em sua aula magna sobre como misturar terror e comédia, Wes Craven já demonstrava que serial killers são muito mais interessantes em um filme de terror quando serve para fazer troça - o que se viu em toda franquia Pânico (que está prestes a lançar a sua quinta parte). O diretor Christopher Landon já demonstrou curtir esta lição em seus filmes anteriores, foi assim nos dois A Morte lhe dá Parabéns (2017 e 2018) e até no adorável (meu favorito) Como Sobreviver a Um Ataque Zumbi (2015). Se antes ele já brincou com zumbis e pessoas presas em um loop temporal, agora chegou a vez de brincar com a velha fórmula de "pessoas que trocam de corpo e geram muita confusão", a diferença aqui está nos litros de sangue que ficam pelo caminho. Aqui ele até começa a história numa cidadezinha que de vez em quando precisa lidar com um serial killer misterioso que tem preferência por adolescentes. A cena inicial já deixa claro que apesar das gracinhas, a sanguinolência brutal não será branda. Ninguém leva muito a sério aquele assassino e os jovens da cidade tentam seguir a vida normalmente naquele ambiente cheio de hostilidade que é a marca das escolas em filmes americanos. Se Millie (Kathryn Newton) está bem longe de ser a garota mais popular da escola, ela se tornará conhecida após ser atacada pelo assassino misterioso, mas... por uma mágica inexplicável (explicada de forma simples e eficiente logo depois), ela troca de corpo com o matador (vivido por Vince Vaughn). Se boa parte da graça é ver o gigante Vince Vaughn tentar imitar uma doce adolescente, a outra é ver Kathryn caprichando nas caras doentias e nas mudanças bruscas da personagem quando precisa fingir que ainda é uma menina inofensiva perseguida por um psicopata. São os dois atores que compensam os momentos pouco inspirados de um roteiro que de vez em quando tem tiradas interessantes, mas que terminam sem o aproveitamento que deveria na história. A ideia é composta de mortes cheias de crueldade e momentos como aquele em que Vaughn quase recebe um beijo do crush de Millie. Se você assistir sem maiores pretensões o filme pode ser bem legal. Se você deseja um novo clássico do terrir, melhor procurar outro filme. 

Freaky - No Corpo de um Assassino (Freaky - EUA / 2020) de Christopher Landon com Vince Vaughn, Kathryn Newton, Celeste O'Connor, Katie Finneran, Nicholas Stargel e Alan Ruck. ☻☻

PL►Y: Irresistível

Steve e Rose: o ego é o que mais importa. 

Costumo dizer que a política mundial virou uma grande piada sem graça. Uma sucessão de encontros de megalomaníacos, egocêntricos, fake news, idolatrias e tudo mais que você possa imaginar em que o que menos importa são propostas políticas e a população. Num mundo em que eleitores buscam heróis e não políticos realmente comprometidos com a população, existem cada vez mais comédias voltadas para o quadro lamentável que estamos acompanhando. Se Adam McKay já se tornou uma referência no gênero com A Grande Aposta (2015) e Vice (2018), construindo para si uma identidade narrativa já reconhecível, chegou a vez de Jon Stewart tentar transpor seu estilo de sátiro político para a telona - o difícil é dispersar a ideia de que ele tenta imitar a eficiência de McKay o tempo inteiro (menos quando tropeça em piadas de baixaria que chegam a incomodar de tão deslocadas). Aqui ele conta uma desventura de Gary (Steve Carrell), um estrategista político que ficou marcado por aquela eleição surpreendente em 2016 nos Estados Unidos. O filme começa justamente neste período e deixa claro que já existia uma rixa entre o engravatado e a loura Faith (Rose Byrne) que só piorou com o resultado das urnas. Depois de penar naquela eleição, Gary ficou um tanto deprimido e passou a procurar um candidato que fosse capaz de fazê-lo se tornar novamente um profissional de respeito. É neste momento que ele encontra Jack Hasting (Chris Cooper), um veterano de guerra, descoberto em um vídeo da internet, que possui um discurso capaz de unir democratas e republicanos nas urnas. Sua humildade, obstinação e princípios parecem a mistura certa para Gary galgar uma carreira política que transcenda a disputa de uma prefeitura do interior. Garry tem planos ambiciosos para sua descoberta... mas Faith (e o nome não é por acaso), resolve aparecer por lá e ajudar o atual prefeito a se reeleger. Enquanto os dois candidatos tentam manter o nível da disputa, os dois apelam constantemente para a baixaria e a coisa sai um pouco dos trilhos - especialmente por Jack demonstrar cada vez mais seu desconforto em ter que fazer discursos políticos e levantar dinheiro para sua campanha. Existe um enorme contraste entre o casal protagonista com Jack, sua filha (Mackenzie Davis) e toda a população local, até que você se dá conta de que existe algo mais debaixo de toda aquele história. O roteiro também assinado por Jon Stewart é um tanto repetitivo e seus personagens batem sempre na mesma tecla a maior parte do tempo, mas a reviravolta perto do final tenta salvar tudo. A guinada é interessante, mas astuta demais para soar verossímil. Trata-se de uma crítica à política de um lado e do outro que acaba se preocupando com questões bem diferentes do bem-estar da população. Serve para passar o tempo e dar poucas risadas, além de trazer Carrell em um papel mais charmoso do que ele costuma encarnar, mas não chega a ser irresistível... 

Irresistível (Irresistible/EUA - 2020) de Jon Stewart com Steve Carrell, Rose Byrne, Chris Cooper, Mackenzie Davis, Brent Sexton, Natasha Lyonne e Topher Grace. 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

4EVER: Tarcísio Meira

 

05 de agosto de 1935 ✰ 12 de agosto de 2021

Atrevo-me a dizer que Tarcísio Meira foi o maior galã da dramaturgia brasileira. Tarcísio Pereira de Magalhães Sobrinho em São Paulo, o menino que queria ser diplomata marcou a história cultural brasileira com performances marcantes no teatro, no cinema e na televisão. Embora fosse rotulado como galã, o ator sempre buscou papéis fortes que desafiassem este arquétipo. Entre comédias, mocinhos e vilões, Tarcísio colecionou trabalhos importantes na televisão como o João de (Irmãos Coragem/1970), Capitão Rodrigo (O Tempo e o Vento/1985), Renato Villar (Roda de Fogo/985), Giuseppe Berdinazzi (Rei do Gado/1996) e uma infinidade de outros trabalhos que se juntam aos cinematográficos Aprígio (O Beijo no Asfalto/1981), Marcelo (Eu/1987) e Boca de Ouro (1990). Tarcísio foi casado 59 anos com a atriz Glória Menezes e formaram um dos casais mais famosos do Brasil. Após um período morando em um sítio em São Paulo, os dois foram diagnosticados com Covid-19, infelizmente Tarcísio faleceu em decorrência de complicações com a doença e Glória segue em tratamento. 

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

4EVER: Paulo José

 
20 de março de 1937✰ 11 de agosto de 2021

Paulo José Gomes de Souza nasceu na cidade de Lavras no Rio Grande do Sul. Ele começou a fazer teatro em 1955, fazendo parte do Teatro Equipe. Nos palcos realizou trabalhos importantes como A Mandrágora de Maquiavel e Tartufo de Moliére. Após o reconhecimento no teatro, Paulo foi atuar em projetos para a televisão, participou de clássicos como Véu de Noiva (1969), Gabriela (1975) e Casarão (1976) e, mais recentemente marcou a audiência com o perdido Orestes na novela Por Amor (1997), período em que já enfrentava as consequências do mal de Parkinson (do qual foi diagnosticado cinco anos antes). No cinema, o ator também era assíduo desde sua estreia em O Padre e a Moça (1966), lançado no mesmo ano do clássico Todas as Mulheres do Mundo  de Domingos de Oliveira. Ele também teve papéis marcantes nas telonas com Macunaíma (1969), O Rei da Noite (1975), Eles não Usam black-tie (1981), Benjamin (2004) e O Palhaço (2011). Paulo participou de 51 filmes ao longo de sua carreira, tendo sua última aparição na homenagem documental Todos os Paulos do Mundo (2018). O ator faleceu no Rio de Janeiro em decorrência de uma pneumonia.

sábado, 7 de agosto de 2021

§8^) Fac Simile: David Dastmalchian

Entre todos atores e atrizes do novo Esquadrão Suicida, nosso repórter imaginário estava obstinado em conseguir uma entrevista com o intérprete daquele que foi considerado por muito tempo o pior vilão dos quadrinhos por muito tempo: o Homem-Bolinha! Nesta entrevista imaginário, o ator conta como foi a experiência de ressignificar o personagem na cultura pop e sua experiência em filmes de heróis. 

§8^) Em primeiro lugar quero dizer que sempre te achei um ator interessante, mas depois de ver você como Homem-Bolinha, cara... eu virei seu fã de verdade!

Dastmalchian Fala sério, você não lembrava de mim tanto assim...

§8^) Claro que lembrava, eu reparo você desde que você era aquele garçom estranho de A Caixa (2009)

Dastmalchian Caramba! Você me acompanha faz tempo! Tipos estranhos  são bastante recorrentes na minha carreira [risos]

§8^) Sim, mas podemos dizer que ser convidado para fazer Homem-Bolinha foi uma espécie de promoção para você nos filmes de heróis, não é?

Dastmalchian Sim, minha última experiência com o mundo dos heróis foi na Marvel como aquele amigo do Homem-Formiga, mas que ficou famoso mesmo no segundo filme falando de Baba Yaga. As pessoas até me param na rua dizendo "Babayaga! Babayaga! Me dá um autógrafo!". Com a DC eu fiz um dos seguidores do Coringa em O Cavaleiro das Trevas (2008), agora fui promovido e resolveram me dar super poderes. Um poder que não é levado a sério, mas já é alguma coisa...

§8^) O diretor James Gunn disse que pesquisou qual era o vilão mais ridículo dos quadrinhos para colocar no filme e encontrou o Homem Bolinha (cujo poder é lançar bolinhas coloridas em seus oponentes) e criou para si o desafio de reformular o personagem... foi um desafio para você também?

Dastmalchian Sim! Acho que é meu personagem de maior destaque num filme deste porte. O James disse que iria mudar o personagem para sempre. Lhe deu complexidade, traumas, melancolia, uma dose de loucura, mas também momentos muito especiais como o momento em que lembra sua história, ou manifesta o efeito colateral de seu poder, ou quando ele dança e acho linda a cena em que ele se vê como um super-herói e... melhor parar por aqui. Eu adoraria viver o personagem de novo.

§8^) Acho que ele se tornará muito querido depois do filme. Você não achou arriscado viver um personagem tão ridicularizado?

Dastmalchian Bastante [risos], mas eu não tinha muito a perder. Eu confiei no conceito que o James queria fazer e o resto foi só deixar vir. Eu queria dar esta camada humana para ele. Um tom estranho misturado com infantil. Ele foi criado em outra era dos quadrinhos, mais ingênua e inocente até. Era um vilão do Batman lá nos anos sessenta... era bem diferente de hoje. Quando falei para meus filhos qual era meu superpoder eles acharam o máximo! 
 
§8^) É verdade que ser ator não estava nos seus planos?

Dastmalchian Até a faculdade eu queria ser jogador de futebol. Mas acabei fazendo algumas peças na universidade e disseram que eu era bom. Também trabalhei em circo, já fui pescador [risos], mas acabei seguindo por outros caminhos... mas ainda acho que se eu fosse jogador faria sucesso mais rápido. As bolinhas me perseguem [risos] 

§8^) Eu fiquei surpreso em saber que você nasceu na Pensilvânia, com este nome eu imaginei que houvesse outra origem...

Dastmalchian Sim, a origem é irlandesa, mas poderia ser de outro planeta, não seria legal? Mas é quase a mesma coisa... [risos].

David como Bolinha: fazendo história.

Na Tela: O Esquadrão Suicida (2021)

 
O elenco: delirante, sangrento e imperdível!

É verdade que existe uma quantidade enorme de equívocos na primeira aventura do Esquadrão Suicida (2016) no cinema. É verdade também que a maioria deles está ligada à Warner querer mudar um filme que estava pronto para fabricar uma espécie de filme-do-Deadpool da DC e faturar milhões. Some isso à expectativa dos fãs que viram o trailer de uma produção que não chegou às telas e a catástrofe está armada. Somente depois de quebrar muito a cara que a Warner finalmente se dá conta de como organizar o universo da DC nos cinemas. É engraçado que no meio de toda esta reformulação ela tenha convidado James Gunn para capitanear a nova aventura de Superman e ele disse que não estava interessado, mas que tinha vontade de fazer um filme para o Esquadrão Suicida. Mais engraçado ainda é imaginar que Gunn foi responsável pelo sucesso arrebatador dos dois filmes dos Guardiões da Galáxia, outra produção dedicada a personagens deslocados e que estão longe de ter perfis heroicos tradicionais. Do sucesso absoluto o diretor caiu em desgraça quando desencavaram em seu perfil de redes sociais piadas de muito mal gosto e ele foi cancelado e mandado embora pela Marvel (já sob a tutela da Disney). Gunn comeu o pão que a internet amassou e imaginou que jamais encontraria trabalho novamente. Eis que provando não ser mais aquele sujeito com humor duvidoso - e com apoio de atores e fãs - ele conseguiu tocar o novo Esquadrão do jeito que queria. É até fácil entender o interesse de Gunn por personagens que não são propriamente os mocinhos da história, mas que possuem a capacidade de se redimir e ter atos de verdadeira compaixão (e sua maior experiência com heróis mais tradicionais foi de forma um tanto torta no indie sem grana Super/2010). Seu Esquadrão Suicida não chega a ser uma sequência do anterior, mas sabe como encaixar informações aqui e ali, que de certa forma estabelecem uma ligação entre um filme e outro, sobretudo através dos seus personagens, além disso, tem a sabedoria de contar de forma bastante enxuta a origem da ideia que batiza o filme. A agente governamental Amanda Waller (Viola Davis, maravilhosa, como sempre) está de volta recrutando um novo grupo de bandidos para fazer um serviço sujo em troca da redução de suas penas. No entanto, sabendo com quem está lidando, ela lhes implanta um sensor que, caso desobedeçam suas ordens, suas cabeças explodem (literalmente). Mais uma vez ela conta com Rick Flag (Joel Kinnaman) para liderar um grupo que conta novamente com Arlequina (Margot Robbie em seu terceiro filme como a personagem e totalmente desvencilhada do Coringa de Jared Leto) e Capitão Bumerangue (Jay Courtenay) ao lado de um bando de vilões que, na maioria das vezes prima pelo ridículo (reza a lenda que James Gunn pesquisou na internet sobre os alguns dos vilões mais ridículos para fazer parte do filme), assim temos o OCD (Nathan Fillion) cuja habilidade é soltar os braços e distribuir bordoadas em oponentes atônitos pelo tom surreal do que está acontecendo, a Doninha (Sean Gunn) que é realmente o que o nome indica, assim como o Tubarão Rei (com voz de Sylvester Stallone) e por aí vai... o mais legal é que no meio destes personagens nunca levados a sério, o roteiro resolveu redimir aquele que é considerado o mais ridículo de todos os vilões: o Homem Bolinha (David Dastmalchian) - cujo poder é lançar bolinhas coloridas e que jamais será visto do mesmo jeito novamente. Claro que o filme também reserva espaço para personagens mais sérios, como o Sanguinário (ótimo trabalho de Idris Elba), Caça Ratos2 (a desconhecida Daniela Melchior que deve ser a grande surpresa do filme) e o Pacificador (John Cena) - que salvo as devidas proporções não deixa de ser uma alegoria sobre as pessoas que se consideram tão bem intencionadas que acham que podem fazer qualquer coisa por uma causa que considera boa (no caso dele, a "paz" que só ele enxerga daquele jeito). Misture tudo isso na missão em um país que acaba de sofrer um golpe militar na América Latina, coloque guerrilheiros (liderados por Alice Braga), um cientista maluco chamado Pensador (Peter Capaldi) envolvido com um projeto secreto mais maluco ainda... agora, tempere com a criatividade subversiva de Gunn e você ainda terá uma ideia ainda muito branda do que temos aqui. O novo Esquadrão Suicida é mais esperto e diferente de todos os filmes que a DC ousou fazer até aqui.  É delirante, sangrento e divertidíssimo! O melhor é como diante de um enredo caótico, o roteiro consegue inserir camadas impensáveis nos personagens que tem em mãos. Claro que as cenas de ação são mirabolantes. Óbvio que você nunca sabe direito quem é o vilão da história. Evidente que queremos uma sequência neste mesmo naipe. Além de ser notório que se o primeiro e malfadado filme ganhou um Oscar (maquiagens e penteados, lembram?), este aqui merece pelo menos uns três. Ah claro, SPOILER! Vale ressaltar que no meio de tantos personagens no esquadrão, só quatro sobrevivem!! Façam suas apostas...

O Esquadrão Suicida (Suicide Squad / EUA - 2021) de James Gunn com Idris Elba, Margot Robbie, Viola Davis, Joel Kinnaman, John Cena, Daniela Melchior, David Dastmalchian, Pete Davidson, Jai Courtney, Alice Braga, Nathan Fillion, Michael Hooker, Flula Borg e Peter Capaldi. ☻☻☻