quinta-feira, 19 de outubro de 2017

NªTV: Mindhunter

Holt e Groof: nos labirintos de mentes criminosas. 

O agente John Douglas se tornou pioneiro no FBI por buscar compreender o perfil de assassinos perigosos num tempo onde rotulá-los como loucos já bastava. Nos anos 1970 ele foi o primeiro a tentar entender a lógica por trás dos serial-killers - isto quando eles nem tinham este nome. Para desenvolver seu trabalho, Douglas esteve frente a frente com alguns dos assassinos mais assustadores dos Estados Unidos amparado não apenas pela curiosidade mas pelo foco na ciência comportamental. Douglas fez história e sua experiência foi retratada no livro Mindhunter que inspira esta série produzida por David Fincher. Logo no primeiro episódio fica evidente o que chamou atenção de Fincher para o material, conhecido por seus trabalhos em filmes como Se7en (1995) e Clube da Luta (1999), já que compartilha com o investigador o interesse por mentes, digamos, complicadas. Em cartaz no Netflix desde o dia 13 de outubro, a série (de dez episódios) é um grande acerto ao surpreender por se distanciar da grande maioria dos programas sobre investigação, uma vez que o centro de sua narrativa não é a morte ou a violência, mas o processo em que mergulha seus personagens. Já nos primeiros episódios, o uso de anticlímax deixa claro que a ideia de perseguir "o vilão da semana" ou desvendar "o crime do dia" não é o objetivo por aqui. Valorizando os personagens e os diálogos, Mindhunter demonstra como os protagonistas buscam entender melhor como funciona a mente de um criminoso capaz das maiores atrocidades. Neste ponto, a escolha de Jonathan Groof para viver o agente Holden Ford é excepcional, já que o ator o faz crescer diante da câmera, nos surpreendendo com as qualidades e defeitos do personagem. Trata-se de um belo trabalho do ator que já fizera as séries Glee (2009-2015) e Looking (2014-2015), mas que aqui tem seu trabalho mais notável.  Durante a série, o que vemos é um personagem que começa sendo um negociador de reféns em crise com o que enfrenta em serviço, insatisfeito ele passa a treinar novos profissionais até perceber que entre sua teoria e a prática existe um enorme abismo. Colabora muito para essa mudança de paradigmas seu namoro com uma estudante de Sociologia, Debbie (Hannah Gross) que o faz pensar em aspectos diferentes do trabalho. Ao lado de Ford em suas descobertas está o agente mais experiente Bill Tench (Holt McCallany) e a psicóloga Wendy Carr (Anna Torv da cultuada série Fringe) - que se juntará á equipe como consultora do FBI. Claro que de vez em quando o trio terá problemas entre si, com os meandros do FBI, com autoridades variadas e dilemas próprias da pesquisa que desenvolvem. Um ponto crucial para o andamento da trama são os encontros com versões dos mais assustadores assassinos da história dos Estados Unidos, neste campo obscuro, o destaque fica com Cameron Britton que causa arrepios ao encarnar Edmund Kemper, figura importantíssima no trabalho dos agentes. Com seu jeito desprovido de emoção, fala pausada e postura insuportavelmente controlada, ele funciona de excelente contraponto aos olhos expressivos do agente Holden, cada vez mais confiante e cheio de si perante suas descobertas. Com ótimo roteiro, atuações sólidas e uma estética que remete diretamente a Zodíaco (2007), David Fincher (que além de produtor, dirige quatro episódios da série) conseguiu uma das melhores estreias do ano  - e já aguardo a segunda temporada ansiosamente (enquanto ela não vem, já comprei o livro de Mark Olshaker e John Douglas para conhecer um pouco mais do que vem pela frente).

Torv: foco no método científico. 

Mindhunter (EUA-2017) de Joe Penhall com Jonathan Groof, Holt McCallany, Anna Torv, Hannah Gross, Cameron Britton e Joseph Cross. ☻☻☻☻

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PL►Y: Sala Verde

Anton (à direita) e sua banda: show de desespero. 

Jeremy Saulnier fez um dos melhores filmes independentes que assisti nos últimos anos, Blue Ruin (2014), onde com um orçamento minúsculo e uma competência narrativa inquestionável, ele prendia o fôlego da plateia numa jornada de vingança das mais dolorosas. Sem rostos conhecidos ou malabarismos estéticos, Blue Ruin foi indicados a vários prêmios indies e levou o prêmio da crítica no Festival de Cannes em 2014. Acho que nem ele esperava que quando lançasse seu filme seguinte, ele já receberia tanta atenção da imprensa internacional - que aclamou e colocou Sala Verde em várias listas de melhores do ano passado. No filme Saulnier demonstra mais uma vez sua capacidade de criar uma obra de tensão absurda, mas, desta vez, se aventura mais pelo terror sanguinolento do que pelo drama. O roteiro conta a história de uma banda punk nada famosa, formada por um grupo de amigos que faz shows em lugares que não primam pelo pagamento. Nessa rotina de glamour zero, eles não tem dinheiro nem para a gasolina (e eles nem estão no Brasil). O grupo formado por Pat (o finado Anton Yelchin), Reece (Joe Cole), Sam (Alia Shawcat) e Tiger (Callum Turner) acabam aceitando a proposta de fazer um show num bar afastado da cidade, no meio de um bosque... no meio do nada. Eles chegam lá sabendo que é uma espécie de point para skinheads, mas pela grana que irão receber eles preferem correr o risco. Depois de perceber que ninguém ali é muito amistoso, eles acabam presenciando um assassinato e são proibidos de sair dali. Trancados numa sala a maior parte do tempo, eles buscam uma forma de escapar da enrascada que se meteram, mas... as coisas se complicam cada vez mais quando eles descobrem que ali não é apenas um espaço para shows. Sala Verde revela seus segredos aos poucos e deixa o público de cabelo em pé com as atrocidades que acontecem ali dentro - que surpreendem justamente pela forma como  Saulnier mantem seu hábito de revirar subgêneros do avesso com seu estilo cru. Aqui a trama de adolescentes perseguidos por um bando de loucos se torna ainda mais arrepiante pelo suspense asfixiante construído pelo diretor. É impressionante como ele mantem o ritmo claustrofóbico da narrativa entre ambientes fechados, armas, facas, extintores, cães famintos e cadarços vermelhos.  Sala Verde não tem medo de ser brutal ou desagradável e revela uma certa obsessão de seu diretor por títulos envolvendo cores (que pode ser identificada em seu novo projeto "Hold the Dark" previsto para o ano que vem). Sala Verde é simplesmente arrepiante, mas, assim como Blue Ruin, não conseguiu espaço nos cinemas brasileiros. 

Sala Verde (Green Room/EUA-2016) de Jeremy Saulnier com Anton Yelchin, Patrick Stewart, Imogene Poots, Macon Blair, Alia Shawcat, Callum Turner, Joe Cole e David W. Thomson. ☻☻

PL►Y: Mundo Ordinário

Selma e Joe: casal Rock'n Roll aposentado. 

Billie Joe Armstrong ganhou fama mundial nos anos 1990 quando o Greenday lançou o famigerado álbum Dookie (que até hoje já vendeu mais de vinte milhões de cópias) - e colocou no mapa das gravadoras o chamado "punk melódico". Formado em 1987, o Greenday deve ser a banda mais bem sucedida entre todas as outras do gênero e, embora a banda nunca tenha interrompido os seus trabalhos, Billie Joe leva uma vida pessoal paralela ao mundo de shows e badalações - já que é casado desde 1992 com a produtora Adrienne Nesser, com quem tem dois filhos. O vocalista deve ter pensado em tudo isso quando foi convidado para viver seu primeiro protagonista no cinema neste Mundo Ordinário, segundo filme do diretor Lee Kirk. Billie vive Perry, homem que vive um hiato na carreira junto à banda punk que lhe rendeu alguma fama e passa os dias numa confortável casa no subúrbio americano, ao lado da esposa (Selma Blair) e o casal de filhos. No entanto, diante do aniversário de quarenta anos, ele atravessa uma espécie de crise de meia idade, já que sente falta da banda punk da qual fazia parte, das festas e todas as loucuras que ficaram para trás. Sendo assim, ele aproveita o dia do seu aniversário para lembrar dos velhos tempos, mas... nem ele havia percebido que tinha mudado tanto nos últimos tempos. Com pouca experiência como ator,  fez e Um Domingo de Chuva (2014) e interpretou a si mesmo em Bem-Vindo aos 40 (2012), Billie se contenta fazer uma versão em si mesmo diante da câmera. É verdade que ele tem lá o seu carisma, o que lhe proporciona um ar natural durante o filme, mas ele não consegue construir um personagem, mesmo que tente criar um tipo com os óculos, alguns fios brancos e auxiliado por sua estrutura física (baixa estatura, pernas curtas, ombros estreitos, o que lhe confere um jeito sempre jovial para um quarentão - e ele tem 45 anos na vida real). BJ escorrega na entonação da voz, apela para caretas em várias cenas e deixa a impressão de que é o ator mediano de uma sitcom água com açúcar. Ele também não precisa fazer muito mais do que isso, já que o roteiro não se aprofunda muito em algumas situações complicadas da vida do personagem (como o relacionamento profissional com o irmão vivido por Chris Messina ou o encontro com uma ex-namorada encarnada por Judy Greer) e lhe rende algumas cenas um tanto sem sentido (a cena derradeira do violão da filha, por exemplo). Os fãs não precisam se desesperar ou ficar ofendidos, Mundo Ordinário é apenas a prova de que Billie Joe quer mesmo ter uma carreira de ator e com um roteiro melhor e um diretor mais experiente pode até lapidar sua atuação nos próximos trabalhos. Para o clima de diversão despretensiosa presente no filme, o rapaz até que não está mal... agora, mudando de assunto, já repararam como a Selma Blair está cada vez mais bonita?

Mundo Ordinário (Ordinary World/EUA-2016) de Lee Kirk com Billie Joe Armstrong, Selma Blair , Chris Messina, Judy Greer e John Doman. ☻☻

domingo, 15 de outubro de 2017

Combo: Adam Sandler Sério

É comum um comediante se aventurar pela seara dos dramas para provar que é um ator a ser levado a sério. Adam Sandler de vez em quando faz isso e são nestes momentos em que percebo que ele talvez tenha salvação. Quem acompanha o blog sabe que o ator está longe de ser um dos meus artistas favoritos (na verdade ele nem é cogitado pela isso), mas não posso ignorar que ele já fez alguns bons trabalhos tanto em comédias quanto em papéis mais dramáticos. Esta lista é para lembrar que Sandler não é mais um comediante, mas um ator:

05 Homens, Mulheres e Filhos (2014) Sempre tenho a impressão que pouca gente entendeu o filme de Jason Reitman - ou será que seu olhar crítico sobre a sociedade americana resultou assustadora demais ao mostrar um grupo de personagens que passam mais tempo ligados em computadores, celulares e tablets do que nas pessoas que estão ao seu redor? Neste cenário que dispensa comentários, Sandler é o marido acima de qualquer suspeita que começa a se envolver com outras mulheres via sites de relacionamento. Pode se dizer que ele não faz nada demais neste filme, mas é justamente sua economia que evidencia ainda mais os conflito do personagem. 

04 Tá Rindo do Quê? (2009) Eu sei, eu sei, o filme de Judd Apatow não é bem um filme sério, na verdade é justamente quando tenta ser que as pessoas começam a reclamar dele, no entanto, deu a Sandler o desafio corajoso de voltar-se para a sua própria persona pública e lidar com todas as críticas que já recebeu. Some isso ao fato dele encarnar um comediante que começa a pensar na vida quando precisa lidar com uma doença fatal e a morte que você terá uma ideia que Sandler não estava para brincadeiras. O problema foi que Apatow acreditou tanto no que tinha em mãos que esqueceu de cortar tudo o que estava sobrando. 

03 Os Meyerowitz (2017) De vez em quando dá uma vontade de rir quando a imprensa vê Sandler num filme mais sério, com diretor badalado e começa a dizer que ele ganhará um prêmio concorrido de atuação. Foi assim quando este novo filme de Noah Baumbach estreou no Festival de Cannes, sinceramente, nunca imaginei que o júri iria premiar o moço pelo seu trabalho como o filho de pendores artísticos de um escultor que vive uma vida um tanto perdida ao lado da família. Sandler está bem em cena e encaixa perfeitamente no universo do diretor, oscilando entre o introspectivo e o desespero com bastante habilidade. Talvez ele seja indicado ao Globo de Ouro de ator de comédia/musical e acredito que já ficará feliz. 

02 Reine Sobre Mim (2007) Contar uma história de traumas sobre a queda das Torres Gêmeas apenas seis anos depois da tragédia não é tarefa para qualquer um. Sandler topou a proposta e encarnou Charlie Fineman, um sujeito comum que se reencontra com seu ex-colega de quarto dos tempos de faculdade (papel de Don Cheadle). Só que Charlie agora é uma pessoa marcada pela dor por perder a família no famigerado ataque em Nova York. O diretor Mike Binder não tem pulso para evitar o melodrama durante a sessão, mas consegue criar uma história bastante deprimente que gira em torno de uma atuação coerente de Sandler fora de sua zona de conforto.  

01 Embriagado de Amor (2002) Para o azar de Sandler ele foi o protagonista do filme mais odiado de Paul Thomas Anderson (embora o cineasta tenha recebido o prêmio de direção em Cannes), mas eu não ficaria surpreso se até o Oscar houesse lembrado dele pela atuação do homem comum, um tanto excêntrico que vive protegido pelas irmãs enquanto coleciona milhas aéreas para dar a volta no mundo. Sua vida parece melhorar quando ele se apaixona (por Emily Watson) e desanda quando se mete num grande problema com o cartão de crédito num site obscuro da internet. Sandler consegue dar conta de um personagem complexo e foi indicado ao Globo de Ouro por seu papel (na categoria de melhor ator de comédia/musical).

PL►Y: Os Meyerowitz - Família não se Escolhe

Grace, Ben, Adam e Marvel: ajustando os laços familiares.  

A Netflix provocou uma grande discussão no Festival de Cannes desse ano por conta de ter duas de suas produções originais entre os concorrentes à Palma de Ouro em Cannes. Houve tanta polêmica pelo fato de um dos seus filmes ganhar o mais prestigiado Festival do mundo que era inútil exaltar as qualidades dos filmes. Quando Okja entrou em cartaz na plataforma foi adorado por público e crítica, agora chegou a vez de The Meyerowitz Stories mostrar que pouco importa para a qualidade de um filme se ele é lançado na Netflix ou na sala de cinema. Dirigido por Noah Baumbach o filme repete vários aspectos da carreira do diretor que desde o sucesso de A Lula e A Baleia (2005) investe em analisar pessoas com pendores artísticos e que são, quase sempre, incompreendidos. Aqui ele reuniu um elenco invejável para formar a família de Harold Meyerowitz (Dustin Hoffman), artista plástico que se prepara para uma retrospectiva em sua carreira. Harold é atualmente casado com a riponga Maureen (Emma Thompson) e tem três filhos, o perdido Danny (Adam Sandler), a discretíssima Jean (Elizabeth Marvel) e o "meio irmão" Mathew (Ben Stiller). Não existe propriamente um fio condutor na história, mas um conjunto de situações que revelam aos poucos as relações daquela família. Assim descobrimos que Danny desistiu de ser músico (e encontra alguma realização com a filha aspirante a cineasta vivida por Grace Van Patten), que a relação de Mathew com o mundo ao seu redor não é das melhores (e as conversas com a esposa e o filho acontecem acidentadas através do celular), embora tenha tentado fazer tudo certinho na vida, além de Jean ser uma personagem bastante incomum (e Elizabeth Marvel a encarna de forma realmente surpreendente). Embora o trio de filhos tenha mais tempo em tela, tudo gira em torno do patriarca e seu relacionamento com os três e, neste ponto, foi uma sábia escolha ter Dustin Hoffman no papel, afinal, ele transita com leveza durante todas as situações do filme, seja um jantar, uma vernissage, uma troca de ternos e um problema de saúde. Por conta dele, nem mesmo os sustos que a família leva no meio do caminho torman o filme um dramalhão. Em termos de narrativa o diretor faz o de sempre, cria personagens curiosos, faz cortes bruscos (que às vezes acontecem no meio de uma palavra), faz gracinhas com os "muderninhos" e mantem o mesmo tom cômico despretensioso de quando começou a namorar Greta Gerwig (e sepultou de vez o pessimismo insuportável que lhe subiu a cabeça em Greenberg/2010). Assim, o resultado é tão interessante, quanto simpático! Bem distante do tom amargo do início de carreira do diretor. Para muita gente o destaque do filme é a atuação de Adam Sandler que de vez em quando mostra que tem salvação. No entanto, seu trabalho chama menos atenção do que a do grande Hoffman e de Marvel, que roubam a cena sempre que aparecem por perto. Desde Cannes os críticos apontam que o filme pode aparecer nas premiações do fim de ano, mas, sinceramente, acho que depois de tantos anos sendo esnobado, Baumbach não está nem aí para isso. Talvez por isso, seu estilo continue o mesmo. 

Os Meyerowitz - Família não se Escolhe (The Meyerowitz Stories: New and Selected/EUA-2017) de Noh Baumbach com Adam Sandler, Dustin Hoffman, Ben Stiller, Elizabeth Marvel, Emma Thompson, Grace Van Patten e Sigourney Weaver. ☻☻☻

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

FILMESD+: Blade Runner + Blade Runner 2049

Hauer e Ford: os replicantes como espelho da humanidade

Quando Ridley Scott lançou Blade Runner em 1982 ele não fez o sucesso esperado, sendo considerado até um fracasso de bilheteria. Adaptado da obra de Phillip K. Dick (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? lançado em 1968), Scott construiu um verdadeiro mundo banhado em atmosfera noir onde o caçador de replicantes Rick Deckard (Harrison Ford em atuação antológica) perseguia um grupo de andróides super desenvolvidos que fugiram do trabalho intergaláctico e voltaram para a Terra. Considerados rebeldes, o grupo liderado por Roy (Rutger Hauer) se recusava a passar toda a vida produtiva fazendo os serviços que a humanidade não queria fazer. Assim, nos deparamos com o drama existencial dos replicantes,  que com todo o potencial da inteligência artificial pereceriam em apenas quatro anos de existência. A partir dali, Blade Runner demonstrar que a criatura feita pelo homem enfrentava o mesmo dilema de caminhar sempre ao encontro da morte. Por isso mesmo, Roy e seus seguidores queriam estar face a face com o criador (do modelo Nexus 6 ) na esperança de que ele pudesse impedir o fim tão próximo, ou talvez, até lhes oferecer a imortalidade. Este aspecto tão humano da história é o que torna o filme interessante até hoje e alimenta diversas discussões filosóficas acaloradas. Para além da perseguição aos replicantes, Deckard se deparava com a atração que sentia por Rachel (Sean Young no papel de sua vida), que acredita ser humana, na verdade a sobrinha do criador dos replicantes, Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel). Rachel faz com que Deckard comece a questionar seu trabalho e perceba que os replicantes podem ter evoluído para além do que foram projetados. Scott faz algumas das cenas mais belas da ficção científica e cria personagens memoráveis, incluindo os replicantes mais inesquecíveis do cinema. Como esquecer a Pris de Daryl Hannah ou Zhora de Joanna Cassidy? Sem falar em Rachel, Roy e até mesmo Deckard que rendeu inúmeros boatos de que ele mesmo poderia ser um replicante. Scott sempre manteve vivo o desejo de fazer uma continuação, sobretudo depois que o filme se tornou cult com a ajuda das locadoras (nessas horas que cai a ficha que sou do século passado... e até a expressão cair a ficha não faz mais sentido algum), no entanto, não havia gostado de nenhum roteiro que tenha caído em suas mãos. Portanto, devemos agradecer à parceria do roteirista do filme original Hampton Fancher e Michael Green (que foi parceiro de Scott na repaginada de Alien) que escreveram a sequência mais aguardada das últimas três décadas - que ganha vida pelas lentes do canadense Dennis Villeneuve.

Joi e K: amor tecnológico de verdade?

O melhor de tudo desta sequência é a sensação de que sua história sempre esteve presente nas entrelinhas do primeiro filme, parecendo ter sido uma sequência planejada desde sempre. Aqui acompanhamos a história de K (Ryan Gosling), um Blade Runner que atua trinta anos após o desaparecimento de Deckard no primeiro filme. Ele é o responsável por investigar o paradeiro do veterano caçador e de Rachel, mas acaba descobrindo um segredo que pode mudar totalmente os rumos na produção de replicantes - que já estão ainda mais aprimorados e ainda existem outras tecnologias que garantem até um romance na vida de K, desta vez ainda mais fadado ao fracasso que o de Deckard e Rachel. Agora quem comanda a indústria de replicantes é o estanho  Niander Wallace (Jared Leto), que comprou a Tyrell Corporation e inovou ainda mais a tecnologia que encontrou. No entanto, ele quer algo ainda mais ambicioso, algo que acredita já ter sido desenvolvido por Tyrrell anteriormente, mas que se perdeu num desastre digital que apagou todos os dados eletrônicos em escala mundial. Dennis Villeneuve amplia todo o universo do filme de 1982 numa verdadeira homenagem à obra de Phillip K. Dick (reparou que o nome do protagonista vem do nome do meio do autor?) e de Scott. A amplia com tecnologias que tem nomes de sentimentos, hologramas ultra realistas e a sensação de que a humanidade parece mais perdida do que antes. Cria duas novas musas para este universo, Joi (Ana de Armas) e  Luv (Sylvia Hoecks), mostra que Dave Bautista pode ser mais do que mais um fortão engraçado em uma participação pungente e complexifica o trabalho de K ao máximo. Neste ponto, Ryan Gosling merece todos os elogios, já que torna seu personagem realmente comovente. Há de ressaltar ainda toda a estética do filme e parabenizar a coragem de Villeneuve em fazer um filme que contrasta ousadamente longos silêncios com sons ameaçadores, chegando a investir numa trilha que remete à clássica sonoridade composta por Vangelis, mas que se funde com os barulhos de naves, motores e explosões. A cena dos hologramas silenciosos no Cassino, com sonoridades fragmentadas alcança um efeito magnífico no encontro de Deckard com K. É brilhante ao evocar um mundo que não existe mais. É Nostálgico! Arrebatador! Mas ainda assim  nos damos conta de que o filme ainda tem mais a oferecer e Villeneuve provoca arrepios ao criar um (quase) reencontro dos mais lindos da história do cinema - para destruí-lo logo em seguida. Talvez neste universo não exista mais espaço para o amor, independente de quem esteja envolvido... ma, pensando bem, a última cena é exatamente o oposto disso! Blade Runner 2049 é a sequência que esperamos por mais de trinta anos e amplia ainda mais a crise de identidade de pessoas que não estão certas se são humanas e replicantes que não sabem se são humanos. Criadores e criaturas se misturam mais uma vez na telona e o resultado é a melhor ficção científica do ano - e com louvor!

Sean Young: guardando o maior segredo da Tyrell Corporation. 

Blade Runner (EUA - Hong Kong - Reino Unido /1982) de Ridley Scott com Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Daryl Hannah, Joanna Cassidy, Joe Turkell e Edward James Olmos. ☻☻☻

Blade Runner - 2049 (EUA - Reino Unido - Canadá / 2017) de Dennis Villeneuve com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoecks, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Edward James Olmos e Jared Leto. ☻☻☻☻☻

PL►Y: Nossas Noites

Fonda e Redford: reencontro apóes 28 anos. 

Jane Fonda e Robert Redford já fizeram vários filmes juntos e fazem parte de uma geração que revolucionou a forma como Hollywood fazia filmes. Influenciados pelo cinema europeu, ajudaram a politizar o que antes era apenas entretenimento e abordar temas polêmicos ao lado de cineastas que estavam dispostos a fazer a plateia perceber que o mundo era bem mais complexo do que se via nas telas. Redford nunca parou de fazer filmes (seja como ator, diretor ou produtor) e ainda ajudou a alavancar uma outra revolução no cinema americano ao instituir o Festival de Sundance que evidencia até hoje o trabalho de centenas de cineastas interessantes que viviam à margem da indústria do entretenimento. Já Jane Fonda escolheu dar uma longa pausa (quinze anos) na carreira para se dedicar ao casamento e a família, o que gerou algumas críticas - já que era um símbolo de politização e feminismo, quanto a isso, ela foi categórica de que a liberdade lhe dava o direito de escolher o que considerava melhor para ela dentro de todas as opções que tinha. Em 2005 ela voltou a filmar, privilegiando o trabalho em comédias inofensivas, tão inofensivas quanto este Nossas Noites, produzido por Redford e dirigido pelo indiano Ritesh Batra. Batra ficou conhecido pelo seu trabalho no ótimo Lunchbox (2013), mas aqui, ao adaptar o romance de Kent Haruf ele opta misturar água com açúcar e fazer um filme que se assiste com facilidade, mas que dificilmente ficará na memória por muito tempo. O interessante é que o livro apresenta grande sensibilidade ao abordar temas delicados como envelhecimento, solidão, sexo na terceira idade e morte, mas aqui tudo é apresentado de forma um tanto diluída, sem que os aspectos mais incômodos da história recebam destaque. Resta então curtir Jane e Robert juntos em cena com o carisma intacto depois de tantos anos dedicados ao cinema. Jane é Addie, viúva que mora sozinha desde que o filho cresceu e foi viver a própria vida e Redford é Louis, professor aposentado, igualmente viúvo e que tem uma filha que não mora por perto. Com dificuldade de dormir à noite, Addie convida Louis para dormir em sua casa, mas logo esclarece que não se trata de sexo, apenas de ter companhia para conversar. Ele fica desconfiado, mas acaba aceitando o convite, o que gera alguns comentários maldosos pela cidade e  um relacionamento que se intensifica cada vez mais, especialmente quando chega Jamie (Iain Armitage, que atualmente está em tudo), o irresistível neto de Addie, para passar um tempo na casa da avó. O filme funciona quando  o casal maduro tenta encaixar um na vida do outro e as lembranças do passado também dão ao filme um ar nostálgico que funciona, mesmo que não aprofundando as várias questões sinalizadas apenas levemente - na clara intenção de tornar o filme sempre agradável de ver. No entanto, eu adoraria ver um desenvolvimento mais elaborado dos dois personagens cheios de história para contar... mas esta não é a ideia do filme. As antigas fãs da Jane Fonda vão estranhar o final e a maioria das pessoas irá apenas ficar revoltada no que mais parece uma propaganda de telefonia celular, mas o filme alcança um resultado bem simpático. Pelo menos a exibição do filme no Festival de Veneza deste ano rendeu uma justa homenagem às carreiras de Jane e Redford ao lhes conceder um Leão de Ouro honorário pelo conjunto da carreira. Eles merecem.

Nossas Noites (Our Souls at Night/EUA-2017) de Ritesh Batra com Jane Fonda, Robert Redford, Mathias Shoenaerts, Iain Armitage e Judy Greer. ☻☻☻

PL►Y: Amores Canibais

Suki e Momoa: pós-apocalipse canibal. 

Fiquei decepcionado com o segundo filme da cineasta Ana Lily Amirpour, afinal, depois de assistir sua estreia com o sensacional Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014), um filme sobre vampiros com alma de filme iraniano, você só consegue só imaginava qual seria o passo seguinte da jovem cineasta que se apropriava do mundo pop e elementos clássicos do terror para criar um filme que envolvia justamente por sua originalidade. Infelizmente, com Amores Canibais a diretora se perde em referências que tornam o resultado apenas confuso. Ambientado num mundo pós-apocalíptico, nós conhecemos Arlen (Suki Waterhouse), garota que resolve se aventurar pelo deserto mesmo sabendo dos perigos que ele esconde. Ela termina perseguida e vendo partes de seu corpo servir de refeição para uma comunidade de canibais que vivem no meio do deserto. Fica difícil escrever mais sobre a história a partir deste ponto, já que qualquer comentário pode deixa-lo desinteressante, já que não existe propriamente uma história, personagens bem delineados, diálogos elaborados ou situações surpreendentes, o que vemos é um conjunto de ideias que mais parecem um esboço de um roteiro. O resultado é disperso e um tanto frouxo em conjunto. No futuro distópico imaginado por Amirpour, a humanidade vive em pequenos aglomerados de gente, que nutrem uma cultura bastante específica. Enquanto os canibais preferem cultivar musculaturas impressionantes e tratar a "comida" como se fosse apenas  estoques de carne, do outro lado existe um grupo de curte música eletrônica e consome drogas para não "deixar o sonho morrer" (e eu considero uma grande ironia que o líder deste povo seja Keanu Reeves, o enviado de Matrix e que deveria escolher entre  aquela pílula azul ou a vermelha).  Lá pelo meio do caminho, o personagem de Jason Momoa ganha destaque atrás de uma garotinha e precisa da ajuda de Arlen para recuperá-la. É praticamente isso. Sobrevivendo às chocantes cenas iniciais, você irá perceber que Lily investe em cores fortes, luzes piscantes e pontua a trama com música pop, mas nada consegue ser atmosférico ou envolvente como em seu filme de estreia. Ao final da sessão, você fica pensando sobre o que era tudo aquilo afinal, talvez a ideia era de que no futuro o homem acabará devorando seus semelhantes sem muita cerimonia, pena que faltou um roteiro bem construído para  contar a história que a diretora tinha em mente. Lily tem talento para filmar, mas aqui fica a impressão que ela deveria ter cogitado pedir ajuda para escrever colocar suas ideias em ordem. Ainda assim, o Festival de Veneza percebeu os méritos do filme e o colocou no páreo da disputa do Leão de Ouro no ano passado, mas o filme acabou levando para casa um prêmio especial do júri por sua ousadia estética. 

Amores Canibais (The Bad Batch/EUA-2016) de Ana Lily Amirpour com Suki Waterhouse, Jason Momoa, Jayda Fink, Giovanni Ribisi e Jim Carrey. 

domingo, 8 de outubro de 2017

10+: Nicole Kidman

Nicole Mary Kidman
Depois de anos de pé frio nas bilheterias, parece que a carreira de Nicole Kidman finalmente encontrou outro grande momento. A atriz foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante deste ano por sua performance em Lion/2016, produziu e estrelou a série de sucesso Big Little Lies da HBO (que recentemente lhe valeu dois prêmios Emmy, como produtora e atriz), além de ter aparecido no Festival de Cannes com quatro produções (o segundo ano da série Top of The Lake de Jane Campion, o recente O Estranho que Amamos de Sofia Coppola, a adaptação de How to talk to Girls at Parties  de John Cameron Mitchell e o soturno The Killing of a Sacred Deer do grego Yorgos Lanthimos). O ano ainda promete gratas surpresas para a atriz com a proximidade das premiações. Essa lista é para lembrar dos meus dez filmes favoritos dos 34 anos de carreira da estrela que completou inacreditáveis cinquenta anos em junho.

Poucas pessoas curtem esta obra de humor negro, principalmente porque Nicole tem a complicada tarefa de interpretar a irmã megera que pode destruir a festa de casamento da irmã. Margot entra fácil na lista dos personagens mais antipáticos do cinema e, por isso mesmo, merece toda consideração. 

Nicole já desanimava com os fracassos de bilheteria quando produziu esta adaptação da premiada peça sobre um casal em luto pela morte do filho. Nic surpreendeu ao escolher Mitchell para dirigir e a parceria rendeu sua terceira indicação ao Oscar - depois de anos sendo esnobada. 

#08 "Retrato de Uma Mulher" (1996) de Jane Campion 
Ainda mais conhecida como esposa de Tom Cruise, Nicole surpreendeu ao ser escolhida para  protagonizar este drama baseado no livro de Henry James. Sua atuação como Isabel Archer, mulher presa a um casamento infeliz é na medida certa, sutil, dolorosa e alcança momentos esmagadores.

Os filmes de casa mal assombrada nunca mais foram os mesmos depois que este terror elegante e surpreendente viraram o gênero do avesso (literalmente). Nicole está impecável e foi  indicada ao Globo de Ouro de atriz dramática e marcando o ponto de virada de sua carreira.

O sucesso do romance entre uma bela cortesã e um escritor no famoso cabaret francês ressuscitou o interesse de Hollywood pelos musicais e fez Nicole atuar, dançar, cantar, brilhar e ser indicada pela primeira vez ao Oscar (além de levar o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia/musical).

Ela está irreconhecível na pele da saborosamente vulgar Charlotte, loura incendiária que deixa Zac Efron apaixonado, mas namora um presidiário barra-pesada. Nicole foi lembrada como coadjuvante no Globo de Ouro e SAG, mas as cenas polêmicas (e uma hilária) lhe custaram a presença no Oscar. 

90% da humanidade odeia este filme, mas eu estou nos 10% que percebe as qualidades da narrativa hipnótica sobre a viúva que acredita que o esposo reencarnou em um menino. Trama complicada que segue por caminhos diferentes e rende uma atuação magistral de Nic (indicada ao Globo de Ouro).  

Embora a vida ainda lhe rendesse alguns anos de filmes bobos, aqui as pessoas perceberam que Nicole podia ser levada a sério. Na pele da ambiciosa (e estranha) garota do tempo Suzanne Stone ela é cômica e assustadora ao mesmo tempo (o ganhou o Globo de Ouro de Atriz de Comédia). 

A atuação da atriz na pele de Virginia Woolf é magnífica (assim como todo o filme) e nem ligo se dizem que é por conta do nariz postiço! Nicole mereceu todos os prêmios pelo trabalho comovente que fez, incluindo o Oscar - que a colocou entre as atrizes mais respeitadas do século XXI.

O que fazer depois de ganhar o Oscar? Que tal um filme sem cenário de um dinamarquês que adora ver protagonistas comerem o pão que o diabo amassou? Nicole vive a forasteira Grace numa cidade de estranhos habitantes onde quem mostra os dentes por último, mostra melhor (e adivinha quem faz isso?).

Na Tela: O Estranho que Amamos

As mulheres de Sofia: sufocando o desejo. 

Em setenta anos de Festival de Cannes, Sofia Coppola foi a segunda mulher a receber o prêmio de melhor direção, curiosamente, este é o filme em que menos se sente o estilo da filha de Francis Ford Coppola. Tentarei explicar melhor: o estilo está lá, mas diferente da linguagem pop que vimos em todas as outras obras da diretora, sua narrativa está mais seca, concisa e, embora sua sensibilidade introspectiva esteja presente, ela aparece mais sombria do que nunca, mostrando um outro lado de quem já fez até As Virgens Suicidas (1999) ter lá suas cores. O filme é uma nova versão do livro de Thomas Culliman, que já foi levado às telas em 1971 pelo diretor Don Siegel e estrelado por Clint Eastwood (no papel que aqui é de Colin Farrell). No entanto, seria um equívoco dizer que se trata de uma refilmagem, já que os dois filmes são bastante diferentes, especialmente pela ótica feminina lançada por Sofia no decorrer da história. Na verdade é até mais do que uma segunda adaptação, mas uma releitura da trama que se passa durante a Guerra Civil Americana. A história gira em torno da chegada de um homem ferido  (Colin Farrell) em um internato para moças no estado da Virginia. A instituição é dirigida pela Senhorita Martha (Nicole Kidman) que tenta educar as cinco alunas que não puderam ir para casa durante a guerra ao lado da professora Edwina (Kirsten Dunst), ambas ficam bastante alteradas com a chegada do hóspede indesejado na casa. Sofia consegue emanar daquela presença uma sutil oscilação entre ameaça e desejo, seja no primeiro ato quando o homem está preso à cama ou no segundo, onde demonstra ser vigoroso até com a perna ferida. No entanto, Sofia deixa claro que são as mulheres que estão no comando daquela situação, mas é algo muito maior do que a possibilidade de entregá-lo para as tropas a qualquer momento, afinal, até a adolescente Alicia (Elle Fanning) percebe o quanto o Cabo McBurney está objetificado pelo desejo das mulheres daquela casa. Sofia até brinca com essa situação quando as personagens promovem um jantar onde os risinhos e os vestidos demonstram que todas querem chamar atenção daquele homem, seja lá qual for o motivo. Obviamente que ele irá aproveitar o flerte com aquelas mulheres e então, uma série de acontecimentos abalarão os fundamentos daquelas relações. A partir deste momento, Sofia utiliza um tom mais sombrio e embora o desfecho seja um tanto corrido, não deixa de ser bastante coerente com as intenções da diretora. Mesmo com muita gente considerando o filme lento (como se isso fosse um defeito e não uma opção narrativa), trata-se de um filme interessante principalmente pela forma como a diretora explora o desejo reprimido das personagens e suas consequências, sobretudo no embate discreto entre a silenciosa Edwina (em ótimo momento de Kirsten Dunst em seu terceiro filme com Sofia) e a dominadora Martha (que pode realmente ser a vilã da história) e uma mistura de ciúme, inveja e frustração. Além disso, não posso deixar de notar que a história se passa dentro de uma escola e a última lição seja realmente dar fim ao desejo de forma diabólica. Infelizmente, o filme teve seus méritos abalados pela lembrança da primeira versão do livro e por conta de uma polêmica envolvendo a ausência da única personagem negra da história. - que somada à predileção de Sofia por protagonistas louras, a cineasta teve que se explicar muito durante o lançamento do filme em sua terra natal. Deixando estas discussões de lado, será que eles realmente entenderam as intenções de Sofia ao fazer sua releitura tão pessoal do livro de Culliman? 

O Estranho que Amamos (The Beguiled/EUA-2017) de Sofia Coppola com Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Colin Farrell, Ellen Page e Oona Laurence. ☻☻☻☻

sábado, 7 de outubro de 2017

PL►Y: Jogo Perigoso

Gugino e Greenwood: malditas algemas. 

Depois de alguns anos sem chamar atenção nos cinemas, parece que Stephen King voltou a ter espaço e, o melhor de tudo, parece que o público estava com saudades das tramas elaboradas do famoso escritor de terror e suspense. Com It: A Coisa (2017) faturando milhões ao redor do mundo (enquanto A Torre Negra fracassa mundialmente) a Netflix lança Jogo Perigoso, filme baseado em um livro pouco ambicioso do autor, mas que consegue gerar um filme eficiente, mesmo com alguns tropeços no caminho. O ponto de partida é bem simples: um casal resolve ir para a casa afastada da cidade para curtir alguns dias somente na companhia um do outro. Desde o início sabe-se que tem apenas um cachorro abandonado nas redondezas quando o casal sobe para o quarto e o esposo propõe uma brincadeira sexual diferente ao algemar a esposa na cama. Ele só não imaginava que alguns imprevistos fazem o que poderia ser a realização de uma fantasia num momento fatal na vida dos dois. A consequência é que a esposa ficará algemada na cama procurando uma maneira de se soltar enquanto começa a ter alucinações com o esposo, com ela mesma e até com manchas dolorosas de sua vida familiar. Para dar conta da história temos dois bons atores em um momento realmente inspirado! Bruce Greenwood está mais do que convincente como Gerald, o homem mais velho que ainda tenta satisfazer a esposa mais jovem (seja com fantasias ou pílulas azuis arriscadas para sua idade) e revela que debaixo de toda a cortesia havia fantasias mais soturnas do que ela poderia imaginar. Carla Gugino está ótima como Jessie, a esposa que escondia alguns segredos do passado que vem à tona quando o marido revela seus desejos ocultos. Não bastasse os dois terem que dar conta de seus personagens, eles ainda precisam convencer como uma outra versão dos mesmos personagens presentes nas alucinações de Jessie mediante o desespero da enrascada em que se meteu.  Curiosamente, quando o diretor Mike Flanagan mistura temas difíceis como abuso sexual, fetiches, incesto com o instinto de sobrevivência da protagonista o filme funciona muito bem, mesmo naquele momento em que deseja revirar o estômago da plateia (e consegue) ele consegue não parecer gratuito ou apelativo. O ritmo da narrativa também funciona que é uma beleza, quando Carla e Bruce estão juntos em cena, existe uma dinâmica impressionante entre os dois (ou seria quatro?) cheia de referências às outras obras do escritor. No entanto, o roteiro escorrega quando insiste em manter uma subtrama envolvendo um tal Homem do Luar que aparece durante as noites para aterrorizar Jessie. O que poderia ser só mais uma metafora da história, se complica ainda mais no desfecho que não faz muito sentido justamente por se explicar demais. Era melhor ter deixado essa parte de fora e investido mais nas emoções subterrâneas daquele casamento, só isso já daria conta dos horrores que provocam arrepios. 

Jogo Perigoso (Gerald's Game/EUA-2017) de Mike Flanagan com Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas e Carel Struycken. ☻☻ 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

4EVER: Tom Petty

20 de outubro de 1950  02 de outubro de 2017
Thomas Earl Petty nasceu na cidade de Gainesville em Los Angeles no ano de 1950 e o interesse pela música começou quando ele conheceu Elvis Presley em 1961 na Flórida. A partir dali a vontade de ter uma banda de rock só aumentou quando viu os Beatles tocarem na TV - sem falar que Petty teve aulas de guitarra com Don Felder, um dos fundadores do Eagles. Quem não concordava muito com a carreira promissora era o pai de Tom, que não gostava de ver o filho interessado por artes. A carreira de Petty começou em 1969, a partir dali foi membro fundador de várias bandas, sendo a mais conhecida a tom Petty and The Heartbreakers. Seu maior sucesso foi Free Falling, música lançada em 1989 no álbum Full Moon Over. Petty também tinha um envolvimento bem próximo com o cinema, não apenas por canções escolhidas para trilhas sonoras, já que ele contou com a antológica participação da estrela Kim Basinger no clipe de Mary Janes's Last Dance (1993), compôs todas as músicas do filme Nosso Tipo de Mulher (1996) de Edward Burns e atuou em dois filmes - a comédia Paixão Eterna (1987) e o espinafrado O Mensageiro (1997) de Kevin Costner. Petty faleceu aos 66 anos em decorrência de uma parada cardiorespiratória  enquanto estava em sua casa. 

sábado, 30 de setembro de 2017

N@ Capa: Diretores de Ouro e Sangue


A capa do mês de setembro foi dedicada a diretores consagrados que foram retratados por algum artista plástico que não encontrei o nome em lugar algum. As fotos podem ser encontradas na internet e agradeceria se alguém descobrisse quem foi que as criou. A coleção ainda contava com Woody Allen e Wes Craven, mas escolhi estas cinco por conta da particularidade como destaca o sangue em seus filmes e nos cartazes destes diretores renomados e dignos de culto entre os cinéfilos:


Quentin Jerome Tarantino
Diretor de 13 filmes
✰  Tennessee, 27/03/1963
Ator Favorito Christopher Waltz
Atriz Favorita Uma Thurman
Filmes mais premiados
# Pulp Fiction (1994)
# Bastardos Inglórios (2009)
# Django Livre (2012)
Adoro Jackie Brown (1997) 
Curte faroeste, cultura pop, artes marciais e tudo que você imaginar.




Steven Allan Spielberg
Diretor de 33 filmes
 ✰ Ohio - 18/12/1946
Ator Favorito Tom Hanks
Atriz Favorita Cate Capshaw
Filmes mais Premiados 
# E.T. (1981)
# Lista de Schindler (1992)
# Resgate do Soldado Ryan (1997)
Adoro A Cor Púrpura (1984)
Curte ficção científica, fantasias, dramas de guerra, aventuras e efeitos especiais. 




Francis Ford Coppolla
Diretor de 28 filmes
✰  Michigam - 07/04/1939
Ator Favorito Marlon Brando
Atriz Favorita Diane Lane
Filmes Mais Premiados
# Trilogia The Godfather
# A Conversação (1974)
# Apocalypse Now (1979)
Adoro Apocalypse Now (1979)
Curte filmes de máfia, devaneios e loucura.





Martin Charles Scorsese
Diretor de 39 filmes
✰  Nova York, 17/11/1942
Ator Favorito DiCaprio e DeNiro
Atriz Favorita Gene Tierney
Filmes Mais Premiados 
# Taxi Driver (1976)
Adoro Taxi Driver (1976)
Curte máfia, gangsteres, violência e mocinhos bandidos. 




Stanley Kubrick 
Diretor de 13 filmes
✰ Nova York, 26/07/1928
Faleceu em 07/03/1999
Ator Favorito Jack Nicholson
Atriz Favorita Nicole Kidman
Filmes Mais Premiados
# Spartacus (1960)
# 2001  (1969)
# Laranja Mecânica (1971)
Curtia ousadias, perfeccionismo e personagens obscuros. 

HIGH FI✌E: Setembro

Cinco filmes vistos no mês de setembro que merecem atenção:

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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

§8^) Fac Simile: Robert Pattinson

Robert Douglas Thomas Pattinson
Robert Pattinson se prepara para lançar seu mais novo filme, o denso Bom Comportamento (Good Time) dos irmãos Josh e Benny Safdie. O filme foi elogiado no Festival de Cannes deste ano e gerou até boatos de que Pattinson poderia levar para casa o prêmio de Melhor Ator (mas quem levou foi Joaquin Phoenix). Independente disto, Pattinson se tornou um bom exemplo de jovem ator que provou ter talento em papéis cada vez mais desafiadores. Em um raro dia de sossego em Los Angeles, nosso repórter conseguiu uma breve entrevista  com o ator, que nunca aconteceu:

§8^) É difícil ser um vampiro em Hollywood?

Robert Muito difícil! Especialmente se você quer fazer papeis diferentes. Complica também um pouco quando se é um jovem vampiro inglês e tem hábitos um pouco diferentes da maioria dos americanos. 

§8^) Mas você parece ter superado tudo isso, você já conseguiu trabalhar com vários diretores consagrados como David Cronenberg, Werner Herzog, David Michôd, James Gray... e em seus últimos filmes os elogios deixaram de ser raridade. Você ainda sente muito preconceito das pessoas por sua participação na saga Crepúsculo?

Robert Agora eu sinto bem menos! Mas tive que me esforçar muito. Acho que as coisas começaram a mudar quando fiz Cosmópolis (2012) com Cronenberg. As pessoas pareciam ter ficado num empasse ao me ver fazer um filme tão estranho. A partir dali escolhi papéis diferentes que poderiam me distanciar desse rótulo de galã adolescente. Sempre quis ser um ator levado a sério e não um rosto bonito, desde antes de participar de Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005). 

§8^) Curioso você dizer isso, até minha mãe ao ver Harry Potter não resistiu em dizer "que rapaz bonito... pena que morreu!"...

Robert Sério? Minha mãe disse a mesma coisa kkkk, agradeça à sua mãe por mim!

§8^) pode deixar... mas sua aparência foi um problema para você? Foi por isso que você resolveu ficar feio em alguns filmes? 

Robert Eu, feio?! Eu nunca fico feio! [risada] Brincadeira! Eu fico barbudo, sujo... e os diretores sempre falam: "Ainda não está bom, ele tem que ficar mais feio", mas chega uma hora que eles desistem kkkk. Eu nem me acho tão bonito assim, mas acho que o conjunto agrada muitas pessoas quando me veem. 

§8^) Inclusive a sua noiva (a rapper FKA Twigs). O que você achou quando as pessoas a atacaram com comentários racistas na internet?

Robert A internet é uma invenção maravilhosa, pena que revela o quanto a pessoas podem ser estúpidas. É assustador a quantidade de bobagens que escrevem sobre um monte de coisas por aí, mais assustador ainda é imaginar que aquelas porcarias sempre estiveram na cabeça das pessoas e elas evitavam dizer. Não sei para onde o mundo vai, mas não me parece seguir um caminho correto nos tempos que estamos vivendo. O que aquelas pessoas escreveram sobre FKA não mudam em nada o que ela é, apenas revelam como aquelas pessoas tem problemas para resolver dentro de si mesmas. 

§8^) Do que você tem mais medo, alho, água benta ou crucifixo?

Robert Difícil... mas eu tenho mais medo do rosto inexpressivo da Kristen Stewart!

PL►Y: Z - A Cidade Perdida

Pattinson e Charlie: exploradores obstinados.

James Gray é um diretor americano que chamou atenção já em seu filme de estreia, com Fuga para Odessa (1994) ele recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim e rendeu para Vanessa Redgrave o prêmio de melhor atriz no Festival. Nascia ali um diretor que marcaria seus filmes com uma mão firme para aprofundar os dramas de seus personagens e conduzir boas atuações. Mesmo diante dos elogios, ele só voltou ao batente seis anos depois com Caminho sem Volta (2000) onde provava que Mark Wahlberg poderia ser um ator levado a sério. Também iniciava ali sua parceria com Joaquin Phoenix que atuou em seus três filmes seguintes (o áspero Os Donos da Noite/2007, o aclamado  Amantes/2007 e o deprimente Era Uma Vez em Nova York/2013). Depois de três filmes indies aclamados, Gray partiu para o seu projeto mais ambicioso: a história do coronel britânico Percival Fawcett. Fawcett foi um famoso explorador e arqueólogo que desenvolveu uma verdadeira obsessão em descobrir uma civilização perdida no meio da selva Amazônica (na área conhecida hoje como Serra do Roncador no estado do Mato Grosso). A aventura lhe rendeu várias expedições para a América Latina e lhe custou anos de convivência com a família, constantes embates com os perigos da selva e provocações da sociedade que não entendia muito bem quais eram as suas reais intenções (Obsessões? Megalomania? Ambição?), cogitando que ele buscava o mito do Eldorado - que já havia fascinado vários exploradores europeus que encontraram apenas a própria morte.  Pela própria complexidade da produção (reconstituição de época, locações de difícil acesso e o pendor épico da história), Z: A Cidade Perdida teve uma produção conturbada, com constantes mudanças de elenco que culminaram na contratação de Charlie Hunnam na pele de Fawcett (o papel inicialmente seria vivido por Brad Pitt e depois por Benedict Cumberbatch) que ajudaram  a minar o interesse pelo filme. As confusões na produção devem ter sido realmente exaustivas, já que a produção está longe de ter a energia dos outros filmes de Gray. O que ajuda é o fato do cineasta amar a história do cinema, independente do gênero, assim, ele cria uma atmosfera daqueles clássicos de aventura na selva de antigamente (o que já causa um inevitável déjà vu). Marcado pelas idas e vindas de Fawcett, o que vemos é uma sucessão de conflitos do personagem com a sociedade britânica e com os perigos da selva, seja animais perigosos ou índios dispostos a flechar quem aparecesse para lhes tirar o sossego. É verdade que Fawcett é apresentado como um bom sujeito, ainda que sacrifique o tempo com a família (o que gera conflitos com o filho crescido vivido por Tom Holland, que depois passa a companhá-lo) e seja um tanto tirano com seus companheiros de jornada, mas ainda assim ele se enquadra no arquétipo dom "bom explorador" que era tão comum nos filmes hollywoodianos de temática semelhante - e que não compromete a figura história de Fawcett. Embora Charlie Hunnam tenha uma boa atuação, ele não consegue tirar o filme de sua zona de conforto, ainda que bem produzido esteticamente, ele consegue ser pouco envolvente do ponto de vista narrativo. Outro ponto que merece destaque é o fato do filme contar com Sienna Miller como a esposa de Fawcett, mas quem chama atenção entre os coadjuvantes é Robert Pattinson, que está ótimo na pele de Henry Costin, o fiel escudeiro de Fawcett e que, várias vezes, funciona como a voz da consciência do explorador. Realmente, o vampiro galã teen virou um ator de verdade! O mais curioso é que Lost City of Z é o filme mais ambicioso de James Gray, mas o resultado mostra-se o menos contundente também. 

Z - A Cidade Perdida (Lost City of Z/EUA-2017) de James Gray com Charlie Hunnam, Robert Pattinson, Sienna Miller, Tom Holland e Angus MacFadyen. ☻☻

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

.Doc: David Lynch - A Vida de Um Artista

Lynch: enfrentando os temores do passado. 

O primeiro filme que vi de David Lynch foi Coração Selvagem (1990) e tive a impressão de que não entendia nada do que estava acontecendo, mas não conseguia parar de assistir. A partir dali percebi que Lynch era um sujeito diferente. Infelizmente ele andava sumido até aparecem em Cannes neste ano para divulgar a terceira temporada da série Twin Peaks depois de um hiato de vinte e seis anos sem episódios. Lynch foi tão aplaudido quando exibiu os dois primeiros episódios da série que dava gosto de ver o seu sorriso. Desde o viajandão Império dos Sonhos (2006) que ele não lança um filme, no entanto, não parou de trabalhar. Dirigiu vídeos, curtas, clipes (para Moby, Interpol, Nine Inch Nails...), produziu algumas músicas e dedicou-se ainda mais às artes plásticas. Este documentário de Jon Nguyen destaca o envolvimento do artista com esta sua carreira paralela, ressaltando este seu gosto desde a infância quando a mãe deixava que ele desenhasse o que bem entendesse ao invés de pintar livros de gravuras. Se por um lado os fãs podem sentir falta de maiores comentários sobre seus filmes (e todo mundo sabe que Lynch não curte falar muito sobre seu cinema cheio de mistérios), por outro, poderão entender muito sobre o estilo peculiar do celebrado cineasta. Na entrevista que perpassa todo o filme, conhecemos a sua história de típico menino americano de um lar confortável ao lado da família no estado de Montana. Desta criação que surgiu o seu lado mais cavaleiro, educado de fala calma e inofensiva. No entanto, desde pequeno, Lynch precisou acompanhar sua família por várias cidades americanas e não há como não perceber o tom sombrio com que pinta Filadélfia ou alguns vizinhos cujas imagens o assombram até hoje (sobre um deles ele sequer consegue contar o que houve de tão chocante). As coisas não estavam muito bem com as pessoas que conhecia pelo caminho, mas  ao conhecer o pai pintor de um amigo que Lynch percebeu uma forma de extravasar seu olhar peculiar sobre o mundo. Foi através dos desenhos que o adolescente começou a construir sua identidade artística - e o gosto pelo que a maioria das pessoas consideraria sombrio, bizarro e até grotesco. Nos comentários de Lynch podemos perceber os pontos de onde nasceram vários traços de seus filmes, as estradas perdidas, as trocas de identidade, os mundos paralelos, os personagens pesadelescos, as narrativas sombrias com a presença do desconhecido sempre à espreita. É curioso como o filme fala pouco da atual vida particular do artista (no máximo percebemos que ele tem uma filha pequena, hoje com cinco anos). O filme concentra-se especialmente na vida de David ao lado dos pais e dos irmãos. Não deixa de ser tocante quando na adolescência ele percebe que a mãe está decepcionada pelos caminhos que seguiu, ou o pai chocado perante o que ele guarda em seu ateliê particular - com frutas em decomposição e outras coisas que estavam ali apenas para ser observadas em sua destruição. Ali, fica claro que Lynch não tem pudores em enfrentar o que causa medo na maioria das pessoas, ele enfrenta esses elementos e os transforma na matéria prima de seus trabalhos surrealistas. Nos seus primeiros curtas, percebe-se como a transição das telas de pintura para as telas de cinema ocorreu de forma bastante natural, tendo em sua cultuada estreia em Eraserhead (1977) como o retrato em movimento do seu mundo particular. O filme termina neste ponto e se você considera a obra de Lynch perturbadora é melhor nem assistir, mas se você quer conhecer um pouco mais da história por trás de suas referências, torna-se um programa imperdível. 

David Lynch: A Vida de Um Artista (David Lynch - The Art Life/EUA-Dinamarca/2016) de Jon Nguyen com David Lynch. ☻☻☻