sábado, 19 de agosto de 2017

NªTV: Os Defensores

Jessica, Punho, Demolidor e Luke: aguardado encontro. 

Quando a série do Demolidor (2015) estreou na Netflix muita gente ficou surpresa ao investir num tom mais sombrio do que a Marvel oferecia aos fãs de seus heróis no cinema. Era o mundo do entretenimento pós-Vingadores (2011) e a Warner/DC Comics começava a repensar a abordagem de seus filmes, buscando uma unificação na telona enquanto as séries de TV da DC ainda investiam num tom visivelmente adolescente. Demolidor trouxe um clima mais pesado, dark e conquistou adultos e adolescentes com uma abordagem que deixava o filme protagonizado por Ben Affleck comendo poeira. Tão logo a série começou a fazer sucesso surgiram os rumores de que em breve o herói se reuniria a outros três para compor Os Defensores. Se Jessica Jones (2015) também conquistou público e crítica ao apresentar uma ex-heroína que ganhava a vida como uma detetive particular, Luke Cage (2016) começou a dividir opiniões sobre o fôlego dos heróis na internet. Algumas decisões equivocadas comprometeram a série e a situação só piorou quando Punho de Ferro (2017) se tornou o primeiro fracasso da série. Os fãs já estavam tensos quando Os Defensores fora anunciado para este ano, afinal, será que conseguiriam resgatar a enercia das primeiras séries? Pelo que se pode ver na Netflix desde ontem a resposta é sim. Defensores é um grande acerto e promete colocar nos trilhos um universo que antes parecia desgastado.  É verdade que os dois primeiros episódios penam para amarrar as pontas dos personagens, mas, tão logo os primeiros heróis se encontram a coisa começa a empolgar quando a série se torna uma consequência natural do que vimos nos outros programas. Sendo assim, o encontro de Demolidor (Charlie Cox), Jessica (Krysten Ritter), Luke (Mike Colter) e Punho de Ferro (Finn Jones) supera nossas melhores expectativas. Claro que existem os  manjados estranhamentos iniciais, já que a maioria deles estão acostumados a trabalhar por conta própria, na clandestinidade, ficando na mira da justiça e dos bandidos. No entanto, quando a ameaça do Tentáculo fica cada vez mais presente, o quarteto percebe que precisa juntar forças para derrotar o inimigo em comum. Assim, o advogado Matt Murdock está  hesitante em voltar a vestir o traje do Demolidor, assim como Cage e Jessica se reencontram depois de um tempo afastados e Danny Rand se torna alvo Tentáculo por ser o lendário Punho de Ferro. Além  dos heróis, outro destaque da série é o bom elenco de coadjuvantes, todos tem momentos estratégicos na trama e ajudam a costurar a trajetória de cada um dos protagonistas. As cenas de luta são bem coreografadas, os vilões realmente funcionam - contando com o retorno de Elektra (Elodie Yung) discutindo a relação na pancada com Demolidor e até Sigourney Weaver incrementando o time do mal. Outro fator que ajuda muito no ritmo da série é o fato de ter apenas oito episódios, o que cria um arco mais enxuto e aumenta a dinâmica dos episódios (algo que ficou claramente faltando ao longo dos 15 episódios de Luke Cage e intermináveis 13 capítulos de Punho de Ferro). Os Defensores funciona tão bem que consegue encerrar o que vimos no universo Marvel da Netflix até aqui ao mesmo tempo que injeta novo fôlego nos personagens. Animada, a Netflix já anunciou a terceira de Demolidor  e a segunda temporada de Jessica Jones e Luke Cage para o ano que vem, além da repaginada de Punho de Ferro para 2019 e a série solo do justiceiro que deve estrear até o fim deste ano.

Os Defensores (The Defenders/EUA-2017) de Douglas Petrie e Marco Ramirez com Charie Cox, Krysten Ritter, Mike Colter, Finn Jones, Sigourney Weaver, Elden Henson, Elodie Yung, Scott Glenn e Rosario Dawson. ☻☻☻☻

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: A Lenda de Tarzan

Alexander: cavalheiro descamisado. 

Estranhei bastante quando soube que estavam preparando mais uma versão de Tarzan para os cinemas  tendo como astro o sueco Alexander Skarsgaard. Nada contra o ator filho do grande ator Stelan Skarsgaard, mas ainda que ele tenha trabalhado em papéis impactantes na TV (True Blood e o recente Big Little Lies), ou mesmo no cinema (Melancolia/2011 e Diário de Uma Adolescente/2015), Alexander sempre me parece um ator muito comportado e controlado, o que não significa que seja ruim,  pelo contrário, é bastante esforçado, mas nunca parece sair da zona de conforto. No entanto, quando vi a concepção do novo filme eu entendi a escolha. Alexander tem um jeito que cai muito bem para encarnar um verdadeiro cavalheiro e ao começar mostrando a vida de Tarzan como um lorde, depois que está plenamente ajustado na vida em sociedade, a minha desconfiança se dissipou. O cineasta David Yates (que ficou famoso fazendo os episódios finais da série Harry Potter) ainda não demonstrou muita personalidade atrás das câmeras, mas parece ser uma escolha segura para que os estúdios invistam em uma produção de orçamento elevado e ganhando a atenção do público sem muita ousadia. Na trama, Tarzan já deixou a vida na selva africana e vive com a bela esposa Jane (Margot Robbie) em Londres. Agora ele é reconhecido pelo nome de batismo, John Clayton. O herói parece feliz em sua nova vida e não faz questão de visitar a terra onde ele cresceu... até que o Rei da Bélgica solicita sua ajuda para resolver alguns problemas diplomáticos no Congo. No início Clayton recusa a tarefa, mas é convencido por um americano, George Washington Williams (Samuel L. Jackson) e a esposa que está com saudade de suas origens. Chegando lá eles vão se deparar com um vilão (Christoph Waltz fazendo o de sempre) que instiga as disputas entre dois grupos de habitantes locais enquanto tenta atingir Tarzan em seu ponto mais fraco. A Lenda de Tarzan está longe de ser um filme surpreendente, mas prende a atenção por ser uma aventura bem realizada, que utiliza flashbacks  para contar a origem do seu protagonista e inova ao mostrar uma Jane bem mais esperta do que poderia ser "uma donzela em perigo". Os efeitos especiais que dão vida aos animais são convincentes e a própria pendenga entre Tarzan e sua família selvagem também me parece bem explorada durante a história. É um filme de aventura tradicional que tenta fazer diferente do que já foi visto dezenas de vezes - afinal, é um dos personagens mais tradicionais das histórias em quadrinhos (foi lançado em 1912). O melhor é que o filme não compromete a essência do personagem e conta com um elenco competente para dar conta do seu recado com frágil verniz anti-colonialista. 

A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan/Reino Unido - Canadá - EUA) de David Yates com Alexander Skarsgaard, Margot Robbie, Samuel L. Jackson e Christoph Waltz. ☻☻☻

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: Rei Arthur

Hunnam (ao centro): outro Rei Arthur?

Lembro que cresci assistindo a um desenho na TV sobre o Rei Arthur, era um anime que passava na finada TV Corcovado (eu sei, você agora se deu conta de como sou velho) e aqueles episódios serviram de referência sobre o herói para toda uma geração de meninos. Parece que realmente existiu em líder nomeado Arthur na Grã-Bretanha no final do século V e início do Século VI, mas muito do que sabemos sobre ele foi composto pelo folclore construído em torno de seus feitos. A popularidade do Rei Arthur cresceu muito na Literatura Medieval graças ao escritor francês Chrétien de Troyes, ja que foi ele que tornou ainda mais conhecido o amigo Lancelot, o romance com Lady Guinevere, os fieis Cavaleiros da Távola Redonda, além de Merlin e a bruxa Morgana. O personagem é tão marcante para a literatura europeia que já rendeu além de animações para a TV várias produções cinematográficas. Destas, três habitam minha memória, a melhor é Excalibur (1981) de John Boorman, mas existe também uma (des)animação da Disney (A Espada Era a Lei/1963) e uma versão com Clive Owen, Rei Arthur (2004) de Antoine Fuqua que pretendia contar a história real por trás da lenda. Curiosamente a versão mais recente não tem pretensão de seguir os contos clássicos, a realidade ou até o bom senso. Rei Arthur - A Lenda da Espada com a bilheteria fraca, o filme levantou debates sobre o desgaste do personagem, mas trata-se de um debate que não contempla o maior problema aqui: a qualidade do filme. Dirigido por Guy Ritchie, ele faz para o estúdio o mesmo que já fizera com outro personagem britânico clássico, Sherlock Holmes (2009), aqui ele também reinventa o personagem para o público do século XXI, no entanto, a repaginada deixa a Távola Redonda um tanto quadrada. Se no início o filme parece promissor ao destacar a tirania do tio Vertigern (Jude Law que parece estar adorando envelhecer) e a magia daquele universo, basta o Rei Arthur crescer para a história começar a desandar. Nada contra Charlie Hunnam, pelo contrário, eu até considero uma boa escolha para o papel, o problema é que o roteiro ingrato reserva ao personagem mais uma história de herói que precisa amadurecer com perseguições, treino e ajustes com o passado. A trama segue sem inovar na cartilha do super-herói, reservando a criatividade somente para alterações descabidas na história clássica. Merlin nem aparece, Morgana também não. Tire do filme também sua amada Guinevere e o leal Lancelot, acrescente um mestre de Kung-Fu e a mágica Excalibur num misto de espada do He-Man e dos Thundercats. O filme investe pesado nas cenas de ação, mas o desenvolvimento da história é confuso ao investir na atração e repulsa de Arthur com sua espada - e o estilo de Ritchie não ajuda. Aqui sua marca de idas e vindas temporais durante os diálogos são utilizadas em momentos cruciais da história, investindo num ritmo frenético desnecessário que só prejudica o desenvolvimento da história. Ao final a sensação é que não vimos o Rei Arthur, poderiam ter inventado qualquer outro nome para o personagem, seria algo mais digno do que esta propaganda um tanto enganosa. As cenas de ação mirabolantes podem até prender atenção, mas não custava ter um roteiro melhor - sugiro que da próxima vez assistam ao desenho animado de minha infância e percebam todos os bons elementos que as histórias do Rei Arthur tem a oferecer. 

Rei Arthur - A Lenda da Espada (King Arthur - Legend of Sword/EUA-2017) de Guy Ritchie com Cahrlie Hunnam, Jude Law, Adam Gillen, Eric Bana, Djimon Hounson e Neil Maskell. ☻☻

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: O Agente da U.N.C.L.E.

Armie e Henry: não, eles não são modelos...

Sou daqueles fãs que já perceberam que aquele Guy Ritchie esperto que dirigiu Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch (2000) não existe mais. Hoje sei que ele foi totalmente absorvido pelo mainstream, uma espécie de efeito colateral de seu casamento e divórcio com Madonna, enfim, Freud explica. O fato é que desde que alcançou bilheterias milionárias com Sherlock Holmes (2009), o diretor se tornou um nome à frente de criar novos formatos para personagens famosos. Com Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras (2011) ocupando o posto de meu filme menos favorito de sua carreira (isso mesmo, atrás até mesmo de Destino Insólito/2002) eu não tive nenhuma empolgação de assistir sua versão cinematográfica para O Agente da U.N.C.L.E. até recentemente. O fato de algumas fotos promocionais do filme parecerem saídas de um catálogo de moda (incluindo a que ilustra essa singela postagem) também despertavam a minha desconfiança.  Na verdade eu tentei assistir ao filme outras três vezes, mas eu sempre dormia logo no início, só que ontem eu me obriguei a ver tudo até o final e depois que me acostumei com a atmosfera do filme o assisti sem problemas. O fato é que ele demora um pouco para engrenar entre as brincadeirinhas com o mundo da espionagem e a edição não ajuda muito ao repetir cacoetes de Ritchie em meio às várias reviravoltas da história. Baseado na famosa série dos anos 1960 sobre o período da Guerra Fria, o filme conta uma missão de Napoleon Solo (Henry Cavill um britânico sofrendo para disfarçar o sotaque na pele de um americano) onde ele tem que resgatar Gaby (Alicia Vikander), a filha de um cientista que vive disfarçada na Alemanha Oriental, só que ele é perseguido por um agente russo durante a missão. Solo não faz ideia que na segunda parte da missão ele terá que trabalhar ao lado do próprio agente russo, o temperamental Illya Kuriakin (Armie Hammer), para ajudar Gaby a encontrar o seu pai (que também desperta o interesse de espiões nazistas). Aos poucos o trio de personagens se afinam e a narrativa flui melhor quando descobrimos um pouco mais sobre a personalidade dos três - e o trio de atores charmosos conseguem dar conta de suas identidades escorregadias. No entanto, nem sempre alguma cenas alcançam suas intenções com a edição "estilosa" que nem sempre faz muito sentido, a sorte de Ritchie é contar com um elenco que consegue fazer algumas gracinhas com um roteiro não muito divertido (incluindo Hugh Grant em um papel que não lhe exige muito e Elizabeth Debicki que tem presença marcante). Curiosamente, embora tenha surpresas a cada quinze minutos e várias cenas de ação O Agente da UNCLE não chega a ser um filme empolgante, mas tenta manter alguma elegância enquanto se equilibra entre a seriedade e a gaiatice (mas eu só consigo imaginar o resultado se Ritchie não estivesse sob a coleira de um estúdio doido por uma franquia milionária). 

O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E./ Reino Unido-EUA/2015) de Guy Ritchie com Henry Cavill, Armie Hammer, Alicia Vikander, Hufh Grant, Elizabeth Debicki e Jared Harris. ☻☻☻

terça-feira, 15 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: Planeta dos Macacos - A Guerra

César (ao centro) e seus seguidores: jornada de respeito. 

Foi a primeira vez que vi a nova saga de Planeta dos Macacos no cinema e fiquei realmente impressionado com a quantidade de crianças de dez, onze anos no cinema. Lembrei do meu sobrinho, que era uma criança ao ver Planeta dos Macacos - A Origem (2011) e ficou fascinado com a figura de César, o chimpanzé que foi alvo de experiências e se torna super inteligente ao conviver com os humanos (e ajudou muito que estes fossem a família formada por James Franco e John Lithgow). Depois ele passou por maus bocados, a se ver novamente em um laboratório para depois liderar uma rebelião para libertar sua espécie. A cruzada do personagem prosseguiu em Planeta dos Macacos - O Confronto (2014) onde a tensão entre homens e macacos crescia, assim como havia divergências dentro do próprio grupo de César sobre a forma como seria a convivência entre os símios e a humanidade. Agora com Planeta dos Macacos - A Guerra acompanhamos apreensivos o desfecho da jornada do personagem. Durante os três filmes nós vimos a construção de um verdadeiro líder, da construção de seus ideais, de seus conflitos, conquistas e derrotas, por isso mesmo torcer para César nos parece tão natural, afinal, ainda que seja uma chipanzé, ele agrega uma humanidade irresistível. Obviamente que a atuação por captura de movimento de Andy Serkis foi definitiva para o sucesso do personagem (e se o Oscar lhe render uma estatueta especial pelo conjunto do seu trabalho estaria mais do que justificado). Outro destaque do filme é a direção de Matt Reeves, que pegou o bastão do diretor Rupert Wyatt (responsável pelo primeiro filme) no segundo filme e não hesitou em aprofundar ainda mais as possibilidades de mudar totalmente a perspectiva de um clássico do cinema. Não podemos esquecer que este terceiro filme termina tento ligação com o primeiro de toda a série, o antológico O Planeta dos Macacos (1968) onde o olhar de toda a narrativa era do astronauta vivido por Charlton Heston. Depois que Tim Burton se perdeu em seu confuso remake com Mark Wahlberg em 2001, foi preciso dez anos para colocar as ideias nos eixos e colocar a perspectiva na gênese daquele mundo, afinal, como os macacos dominaram nosso mundo. Entre as duas pontas que se ligam agora, o que salta aos olhos é a relação entre opressor e oprimido, como quem chega ao poder faz de tudo para permanecer ali, mesmo que isso signifique o genocídio de quem ameaça sua posição de comando. Por isso mesmo, Reeves investe numa narrativa clássica dos filmes de guerra - e o ato inicial é arrebatador ao conjugar ação e drama como os melhores do gênero para depois mostrar os prisioneiros vivendo em condições precárias após perderem tudo o que tinham, tudo comandado por um coronel militar (Woody Harrelson) que está tão certo de suas convicções que não consegue perceber o quão absurdas são suas ideias. É louvável que um filme desta magnitude consiga contar sua história, fazer sucesso de bilheteria e ainda fazer uma analogia tão vigorosa com o mundo em que vivemos. Planeta dos Macacos - A Guerra é o desfecho de uma repaginada que deu certo, justamente por se inspirar em uma obra clássica para criar algo novo e surpreendente. O segredo talvez esteja em algo que alguns filmes direcionados ao grande público tem deixado de lado em nome do espetáculo: construir um personagem realmente interessante em um conflito bem desenvolvido. Ave, César!

Planeta dos Macacos - A Guerra (War for the Planet of the Apes/EUA-2017) de Matt Reeves com Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Toby Kebbel, Amiah Miller e Aleks Paunovic. ☻☻☻☻

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: O Lar das Crianças Peculiares

Crianças Peculiares: belo livro em adaptação decepcionante. 

Não foram poucos os leram O Orfanato para Crianças Peculiares da Senhorita Peregrine do escritor Ransom Riggs e imaginaram que Tim Burton faria um filme perfeito com aquele material. Afinal, elementos que consagraram o cineasta já estavam todos presentes ali: fantasia, melancolia, personagens estranhos gerando um clima de conto de fadas gótico estranhamente ilustrado com fotografias esquisitas. Portanto, antes que estreasse, o filme já estava com a expectativa nas alturas com o trailer divulgado onde tudo parecia ser uma mistura de X-Men com Harry Potter. Mas o livro tão interessante resultou num filme insosso. A obra de Ranson consegue se sustentar belamente (no que acabou virando uma coleção de livros infanto-juvenis) por haver ali uma analogia sobre o holocausto. Em vários momentos fica claro que o tal orfanato era um refúgio para crianças que seriam procuradas e mortas por serem diferentes durante o período da Segunda Guerra Mundial., uma clara analogia ao extermínio de quem não se enquadrava nos padrões "arianos". Embora o mundo acredite que o orfanato foi destruído num bombardeio, ele sempre se reconstrói numa espécie de mundo paralelo graças a um loop temporal que a Srta. Peregrine realiza justamente no momento em tudo explodiria. Trata-se de uma fantasia que mexe com um dos momentos mais tristes da história da humanidade, mas que Riggs faz de forma bastante lúdica. Afinal, quem não gostaria de voltar no tempo e evitar todo o sofrimento provocado naquele período? Infelizmente o filme mal toca nessa questão e prefere gastar seu tempo sendo mais uma aventura de fantasia com personagens excêntricos.  O orfanato e seus habitantes são descobertos graças à curiosidade de Jake (Asa Butterfield), que pretende investigar um pouco mais as estranhas histórias de infância que seu avô (Terence Stamp) sempre lhe contava. Quando ele encontra a casa mantida pela Srta Peregrine (Eva Green, a atual musa de Burton) só nos resta acompanhar a apresentação dos personagens diante da ameaça de um vilão (Samuel L. Jackson) que precisa se alimentar dos peculiares para se tornar ainda mais poderoso. De alguma forma, Burton não consegue costurar os momentos presentes no roteiro e o resultado soa tão episódico quanto Sombras da Noite/2012 - outra adaptação que lhe cairia como uma luva, só que também não funcionou. Embora o visual siga a cartilha Burton de qualidade, a narrativa não empolga e segue irregular até o desfecho. Quanto aos atores, Eva Green (cada vez mais bruxesca) e Samuel L. Jackson tem bons momentos. Judi Dench entra muda e sai calada e as crianças fazem o que podem com o pouco que o roteiro lhes oferece no desenvolvimento de personagens tão interessantes. Vale destacar que o protagonista Asa Butterfield segue em sua dura peregrinação de ser um ex-ator infantil em crescimento diante da câmera. O rapaz (que completou vinte anos em abril) parece cada vez mais inseguro, bem diferente de suas atuações  (lembre dele em A Invenção de Hugo Cabret/ e você terá uma ideia do que digo) - como parâmetro basta ver o que o desconhecido Finlay MacMillan faz ao colocar muito mais substância no sisudo Enoch com menor tempo em cena. O Lar das Crianças Peculiares não foi o sucesso esperado e dificilmente irá render continuações, mas o pior de tudo é ver a criatividade de Tim Burton ficar estagnada mais uma vez com um material tão interessante para trabalhar.

Eva Green: (novamente) deliciosamente bruxesca.

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children/Reino Unido - Bélgica - EUA) de Tim Burton com Asa Butterfield, Eva Green, Samuel L. Jackson, Allison Janney, Finlay MacMillan, Chris O'Dowd, Judi Dench e Terence Stamp. ☻☻

CATÁLOGO: Os Sonhadores

Pitt, Eva e Louis: o triângulo amoroso de Bertolucci. 

Fazia tempo que um filme do diretor italiano Bernardo Bertolucci não chamava tanta atenção da mídia. Desde que O Pequeno Buda (1993) encerrou sua grandiloquente trilogia oriental com críticas mornas, o diretor voltou para a Europa em busca de produções mais modestas e intimistas. Beleza Roubada (1996) e O Assédio (1998) mostrava que ele voltava às suas origens na busca de personagens que buscavam a si mesmos - tendo o desejo como um poderoso verniz de suas narrativas. Em Os Sonhadores (2003) ele vai mais longe no erotismo e deixa a impressão de que sua intenção era revisitar o seu clássico O Último Tango em Paris (1972) com um elenco jovem e, não por acaso, as tramas de ambos os filmes se passa isolada num apartamento em um período bastante libertário. Ambientado em 1968, Os Sonhadores é baseado no livro de Gilbert Adair e conta a história de dois irmãos e um amigo que se conhecem em meio às manifestações estudantis de Paris. Os protestos ficaram famosos por motivarem debates sobre reformas educacionais na França e instigarem trabalhadores a realizarem uma greve geral que marcou a história política da França. Em meio aos protestos havia também um discurso de liberação sexual que era considerado bastante avançado para época. Os protestos tem papel importante no filme de Bertolucci, já que são eles que aparecem no início fazendo com que o estudante americano Matthew (Michael Pitt) conheça os irmãos franceses Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrell). O amigo é acolhido pela família dos irmãos e sua presença se torna constante na casa, especialmente quando os pais do casal (vividos por Anna Chancellor e Robin Reuncci) viajam e os três constroem um mundo a parte. Bertolucci cria então um triângulo amoroso incomum, afinal, existe uma atração sexual explícita entre os três personagens, tornando Matthew cada vez mais um objeto do desejo de ambos. Em alguns momentos o filme deseja ser uma homenagem aos clássicos do cinema (sob o pretexto de uma brincadeira estabelecida pelos três personagens vários trechos de obras consagradas aparecem durante o filme), assim, parece que Bertolucci glamourizar essa atração no início para depois a envolver num cenário cada vez mais caótico - repare como o apartamento se deteriora aos poucos, tornando-se mais sujo e desorganizado. No entanto, tudo parece um tanto frouxo na história, tornando a narrativa irregular enquanto esgarça aquela relação ao limite - e, ironicamente, o que os salva é justamente quando a realidade invade o ambiente em que se isolaram. O que mais impressiona durante o filme é a desenvoltura do elenco em ficar sem roupa diante de câmera - o que foi suficiente para transformar Eva Green em símbolo sexual instantâneo, o que não foi suficiente para que aparecessem papeis marcantes em sua carreira (ela apareceu como a melhor Bondgirl de todas em Cassino Royale/2006 para depois ter o papel de sua vida na série Penny Dreadful/2014-2016). Michael Pitt também se destaca e mostrou que deixava de ser um adolescente estranho para se tornar um ator de verdade, já Garrell tem o mesmo ar blasé de sempre (seja com ou sem cueca). No fim das contas, Os Sonhadores é um filme sobre perda da inocência ambientado numa época em que ocorreu exatamente isso ao redor do mundo.

Os Sonhadores (The Dreamers / Reino Unido-França-Itália / 2003) de Bernardo Bertolucci com Eva Green, Michael Pitt, Louis Garrell e Anna Chancellor. ☻☻

10+ Orphan Black

Tatiana Maslany: talento aclamado. 

E chegou ao fim a saga das clones de Orphan Black (o último capítulo da série está disponível na Netflix desde o último domingo) e embora não tivesse um roteiro brilhante (que às vezes se embolava ou ridicularizava com vícios da ficção científica) ou tivesse se tornado um grande sucesso de audiência, a série canadense serviu para colocar a atriz Tatiana Maslany na história da TV. A atriz foi responsável por dar vida a mais de uma dezena de personagens que compartilhavam o mesmo DNA devido a experiências de uma sombria corporação. Embora tenha sido indicada ao Globo de Ouro somente uma vez pela série (em 2013), Tatiana fez bonito no Emmy duas vezes (perdendo em 2015 e ganhando em 2016) e levou o Critic's Choice Awards para casa por dois anos seguidos (em 2013 e 2014, sendo indicada também em 2016). Estes foram apenas alguns dos prêmios recebidos por dar vida à Sarah, Rachel, Cosima, Alison, Helena, MK... e várias outras personagens durante os cinco anos da série. Maslany compensou qualquer deslize das cinco temporadas (sendo a primeira e a quarta as melhores). Curiosamente, o clímax da trama foi na penúltima, deixando a quinta somente para amarrar algumas pontas, ressuscitar personagens, matar outros e exagerar na sanguinolência. Agora os órfãos somos nós e para celebrar a despedida da série, preparei esta  singela lista das minhas favoritas do clone club

#10 Tony/Antoinette
Tony ficou famoso como a clone transexual do programa, apareceu somente em um capítulo e não estava nem um pouco preocupado com suas origens. Ele serviu para testar a versatilidade da protagonista, mas pecou pelo visual  (com direito a cabelão e questionável cavanhaque). A abordagem esquisita da atração que ele provocou no irmão gay de Sarah, Felix (Jordan Gavaris) também ficou meio desengonçada, mas pelo menos sua aparição está entre os momentos mais marcantes do programa - embora merecesse ser mais explorada durante a série.

#09 Katja Obinger
Katja dava a impressão que seria uma exterminadora das clones quando apareceu logo no início, mas , para a surpresa do público, ela logo se despediu no segundo episódio - e percebemos que a saga das personagens seria bem mais complicada. Pelo menos Katja serviu para mostrar que existiam várias possibilidades para o programa seguir e que Tatiana Maslany não brincaria em serviço quando o assunto era inventar sotaques e expressões específicas para cada personagem.

#08 MK
Hacker inteligentíssima e de passado obscuro, MK revelou boa parte dos segredos sobre a corporação responsável pela sua criação. Fazendo vídeos protegida pela máscara de ovelha (homenagem à Dolly) e aparecendo de vez em quando sem revelar muito de si, MK sempre foi uma personagem que preferiu à penumbra e talvez por isso, tenha se tornado uma das criações mais melancólicas do programa. A sua última cena no programa deve ser uma das mais violentas da série. 

#07 Beth Childs
A policial Beth Childs foi nosso primeiro grande incentivo para acompanhar a série, afinal, foi a identidade dela que a problemática Sarah Manning roubou naquela estação de trem. Beth é a porta de entrada para o universo da série e aos poucos os autores revelaram um pouco mais de sua vida e o uso do flashbacks serviram para demonstrar sua complexidade, especialmente por ela nunca ter digerido bem o fato de ser um experimento científico. Seu complicado relacionamento com o bonitão Paul (Dylan Bruce) só conferiu ainda mais profundidade à personagem  (e confusão para Sarah) e tristeza ao seu desfecho. 

06 Sarah Manning 
Sarah era a grande protagonista da série. No primeiro ano ela brilhou ao ter que se esforçar para encaixar na vida complicada de Beth Childs, se envolveu com o marido dela (Dylan Bruce), teve que ganhar a confiança do parceiro dela (Kevin Hanchard) e depois se envolveu numa espiral de descobertas e situações malucas onde ela era o alvo, especialmente por ter um defeito de "fabricação": fertilidade.  Aos poucos Sarah perdeu em desenvolvimento em comparação às outras clones, tornando-se o arquétipo da heroína que faria de tudo para proteger a filha e suas irmãs (e sofreu um bocado). 

05 Cosima Niehaus
Cientista brilhante interessada em saber tudo o que estava por trás de sua origem, Cosima ganhou facilmente os nossos corações para logo depois demonstrar que um mal congênito de todas as clones poderia lhe custar a própria vida. Cosima ainda foi responsável por explicar todos os conceitos mirabolantes que a trama envolvia e ainda tinha tempo para ter um relacionamento conturbado com Delphine (Eveline Brochu). Sorte que seu melhor amigo, Scott (Josh Vokey) sempre estava por perto para dar uma ajudinha em suas descobertas.

04 Helena 
Por algum tempo, pensamos que Helena seria a vilã da série. Sua função inicial era caçar as clones como se fossem aberrações. No entanto, bastou entendermos que a personagem era fruto de uma rígida educação opressora para percebemos que debaixo de toda aquela cabeleira, não havia apenas uma mente desmiolada, mas uma alma torturada. A complexidade da irmã gêmea perdida de Sarah a transformou na sestra mais surpreendente do programa. Helena era capaz de ser cômica, assustadora, sinistra e muito violenta numa mesma cena e, para complicar, ainda se envolveu com devotos de uma comunidade bem esquisita. 

#03 Krystal Goderitch
Quando as clones estavam mergulhadas em tramas sérias ou sombrias demais, os roteiristas inventaram a esteticista Krystal na terceira temporada. Embora nunca tenha entrado para o grupo de personagens principais do programa, ela tinha um jeito especial de ser alheia a tudo que a cercava, criando suas próprias teorias sobre os acontecimentos estranhos que surgiam ao seu redor - e de vez em quando até acertava. A personagem serviu como excelente forma de Tatiana Maslany mostrar que podia ser leve e engraçada - sem fazer muito esforço. Pena que a loura aparecia pouco na série. 

02 Rachel Duncan 
A gêmea clone má quase conseguiu dominar a lista. O fato é que Rachel Duncan foi a vilã ardilosa que a série sempre prometeu para os fãs. Rachel foi criada pelos cientistas responsáveis pelas experiências com clonagem humana do programa e nunca aceitou muito bem que fosse apenas uma cópia. Sua vontade de ser especial era tão forte que não só infernizou a vida das sestras como de todos os outros personagens. Herdeira do sinistro Instituto DYΛD, ela faria de tudo para aprimorar seus experimentos e ter ainda mais poder. Uma vilã de respeito!

#01 Alison Hendrix 
Alison era casada, feliz e tinha dois lindos filhos adotivos. Sua obsessão por perfeição e levar uma vida certinha fazia com que parecesse uma personagem que saiu de Desperate Housewives - especialmente quando tudo virou do avesso. Alison poderia ser a personagem mais normal da série, mas aos poucos demonstrou que debaixo de sua casca de dona de casa perfeita, existia uma pessoa capaz de cometer os maiores absurdos no conforto do subúrbio canadense. Ela se tornou um dos tipos mais complexos do programa e a mais divertida com suas desventuras com o fofucho esposo Donnie (o adorável Kristian Bruun), mesmo que eu não tenha curtido sua guinada nos últimos episódios, ela ainda é minha criação favorita do programa! Só espero que o cinema reserve personagens deste quilate para o talento de Tatiana Maslany em breve!

sábado, 12 de agosto de 2017

PL►Y: Christine

Rebecca: atuação digna de Oscar. 

Pena que sem encontrar espaço nas salas brasileiras, este filme seja lançado somente em streaming por aqui. Mesmo que seja bem realizado e traga uma atuação precisa da inglesa Rebecca Hall é fácil entender o motivo de Christine ter perdido espaço nas premiações: o filme é facilmente um dos filmes mais depressivos do ano passado. O novaiorquino Roberto Campos consegue fazer um retrato bastante metódico, contido e perturbador da história de Christine Chubbuck, jornalista que trabalhava em um noticiário local da Flórida e que se suicidou ao vivo numa transmissão em 15 de julho de 1974. O roteiro de estreia de Craig Shilowich (assistente de produção do ótimo Rio Congelado/2008) tenta evitar as respostas fáceis sobre o que levou a sua personagem real ao seu ato e, com a preciosa ajuda de Rebecca, o filme consegue montar uma rede de relações e sensações que teriam motivado a jornalista a querer acabar com a própria vida. Desde o início não fica claro qual foi a situação desagradável que a personagem atravessou antes de decidir se mudar para a Flórida, também existe um pequeno problema de saúde em sua vida, o relacionamento com a mãe é sempre tenso, mas o que parece consumir Cristine de forma ainda mais intensa é sua relação com o trabalho. Desde a primeira cena percebemos um descompasso da pessoa que Christine ambicionava fazer e o que realmente fazia Ela tinha seus próprios ideais no trato com as notícias e o choque com o editor Michael (o também dramaturgo Tracy Letts, que anda se especializando em criar tipos antipáticos) era inevitável quando ele começou a notar o interesse do público em histórias de sangue e violência, sendo assim, começava a lógica de que para elevar a audiência o noticiário local não deveria temer se tornar uma carnificina. É visível o desconforto de Christine com a situação, some isso ao relacionamento discretamente platônico com o âncora local (Michael C. Hall) e a promessa de ir trabalhar em outro lugar e você terá uma ideia de como as expectativas e frustrações agiram sobre a jornalista. O filme trabalha dentro de um mecanismo bastante lento, mas que serve para que o espectador acompanhe aos poucos o desgaste que todo aquele universo provocou na protagonista - e a atuação introspectiva e profundamente emocional de Rebecca Hall chega a ser arrepiante. Hall sempre foi uma atriz interessante, mas este é provavelmente seu trabalho mais complexo e ela alcança cada detalhe que o roteiro lhe exige. Christine é mostrada de forma complexa, se equilibrando entre uma personalidade forte de inteligência notável, mas que ao mesmo tempo escondia uma fragilidade que lhe tomava aos poucos silenciosamente - tanto que quem estava ao seu redor não notaria o desfecho trágico (e irônico) que sua carreira teria. O impacto da situação inspirou o clássico Rede de Intrigas (1976) poucos anos depois. Curiosamente, ano passado também foi lançado Kate Plays Christine (2016), documentário sobre o trabalho da atriz Kate Lyn Sheil tentando reconstruir os conflitos da personagem, ou seja, mais de quarenta anos depois do primeiro suicídio ao vivo da televisão, Christine Chubbuck permanece um enigma dos mais perturbadores.

Christine (EUA/Reino Unido - 2016) de Roberto Campos com Rebecca Hall, Tracy Letts, Michael C. Hall, Maria Dizzia, Timothy Simons e Morgan Spector. ☻☻☻☻

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

§8^) Fac Simile: Patrick Dempsey

Patrick Galen Dempsey
Esperando o pedido em uma Starbucks de Nova York, nosso repórter imaginário não acreditou ao ver que Patrick Dempsey estava na mesa ao lado. Diante da espera, nosso repórter pediu para o ator de 51 anos responder a cinco perguntas nesta entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Como se sente sendo um ator veterano com toda uma nova geração de fãs?

Patrick É algo realmente estranho, porque minha carreira se divide em duas fases distintas. Em uma eu era um adolescente magricelo e que toda essa história de ser símbolo sexual estava fora de questão nos anos 1980. Na década seguinte eu era adulto e minha carreira ficou um tanto ociosa. Sempre  trabalhei, mas ninguém dava muita bola para o que eu fazia. De repente... lembraram que eu existia e me olhavam de um jeito completamente diferente.

§8^) Por que acha que isso aconteceu?

Patrick Ajudou muito o fato de ter conseguido o papel do Dr. Derek Shepherd em Grey's Anatomy (2005), mas a repercussão foi muito maior do que eu esperava. Mas isso começou pouco antes disso, quando fiz o detetive de Pânico 3 (2000) as pessoas olhavam para mim tipo: "Você me parece tão familiar... ei! Você não era aquele rapaz que fazia comédias bobas nos anos 1980"? Sei que alguns dos meus filmes são clássicos adolescentes, mas nada se compara ao que aconteceu depois dos quarenta!

§8^) As pessoas não queriam te matar depois que você saiu de Grey's Anatomy?

Patrick Sou muito grato à série. Graças a ela eu tive uma segunda chance em Hollywood. Recebi convites para novos filmes e a agenda ficou cheia novamente, só que é algo estranho quando as pessoas olham para você e só percebem um personagem. Houve uma época em que eu não era mais o Patrick, era o Dr. Derek Shepherd. Eu participei de dez anos do programa, foram 244 episódios, achei que já estava na hora de me despedir. Claro que depois disso eu tive que redobrar o número de guarda-costas e sempre verifico se alguma entrega faz tic-tac.

§8^) Você virou tão galã que susbtituiu Hugh Grant em O Bebê de Bridget Jones/2016 e ainda virou algo melhor do que o Príncipe Encantado de Encantada/2007, falando nisso a continuação sai ou não sai?

Patrick Acho que sim. Agora sobre ser galã é uma coisa muito doida né? Eu sempre me olho no espelho e me acho um cara super normal. 

§8^) Tá bom. Eu finjo que acredito... mas o que mudou em você para que as mulheres ficassem doidas atrás de você?

Patrick Acho que principalmente a passagem do tempo. Amadureci, apareceram algumas rugas. Cabelos brancos...

§8^) Uma rinoplastia...

Patrick Hehehe

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A TRILOGIA DE BRIDGET JONES

Colin, Renée e Hugh: O triângulo de "O Diário de Bridget Jones". 

Só recentemente eu assisti O Bebê de Bridget Jones/2016 e não resisti em fazer uma retrospectiva de um dos raros casos em que uma comédia romântica gera uma trilogia de fãs fiéis. Confesso que li "O Diário de Bridget Jones" de Helen Fielding para espairecer enquanto estava na faculdade e dei boas gargalhadas com as desventuras da inglesa acima do peso, cheia de inseguranças que dividia seu humilde coração entre um advogado bem conceituado chamado Mark Darcy (e o nome em comum com o personagem de Orgulho e Preconceito não é mera coincidência) e um canastrão irresistível chamado Daniel Cleaver. O livro vendeu feito água  e uma versão para o cinema era algo quase obrigatório. Assim que começaram os primeiros rumores sobre as filmagens vieram os testes para protagonista e, surpreendentemente, a texana Renée Zellweger desbancou inglesas consagradas como Kate Winslet e Helena Bonhan-Carter que estavam no páreo. Naquela época Renée começava a chamar atenção em Hollywood, fizera um belo trabalho ao lado de Tom Cruise (Jerry Maguire/1996) e de Meryl Streep (Um Amor Verdadeiro/1998) - e o Globo de Ouro de atriz de comédia pelo ácido Enfermeira Betty/2000 estava fresquinho quando foi eleita para ser a cultuada Bridget. Renée teve que ganhar peso, ensaiar o sotaque britânico e todo o resto parece que aconteceu naturalmente, já que a atriz tinha o timing cômico perfeito para a personagem.  Dirigido por Sharon Maguire, a atriz tirou de letra a personagem ao lado de Colin Firth (Darcy) e Hugh Grant (um Cleaver mais envolvente que no livro). O filme fez enorme sucesso ao apresentar uma protagonista fora dos padrões (afinal, a balança era sempre um problema) e com piadinhas que brincavam com eterno duelo entre ficar com o cara certo e ser tentada pelo cara errado. A obsessão por calorias, as inseguranças e trapalhadas estavam todas lá, a única coisa que perdeu espaço no filme foram os amigos de Bridget, Tom (James Callis), Jude (Shirley Henderson) e Sharon (Sally Phillips) apareciam pouco, já que o roteiro preferiu explorar mais a relação da personagem com sua família (formada por Jim Broadbent como pai e Gemma Jones na pele da mãe) e seus pretendentes. Só que pouca gente se importou, já que o filme foi indicado ao Globo de Ouro de melhor Comédia e Renée lembrada na categoria de melhor atriz cômica e até o Oscar considerou sua performance uma das cindo melhores daquele ano. Com tanto sucesso e irresistível simpatia, ver o segundo livro da personagem ganhar as telas era questão de tempo. 

No Limite da Razão: "Like a Virgin" das detentas. 

Lá estava Renée Zellwegger ganhando peso novamente para viver a personagem depois do Oscar de coadjuvante pelo drama  Cold Mountain (2003). Ainda que a atriz estivesse no auge, se as inseguranças de Bridget já te cansavam no primeiro livro era melhor ficar bem longe do segundo - já que ele evitava mostrar grandes transformações na personagem e a mantinha na mesma vivendo novas trapalhadas e ainda enrolada em seu relacionamento com Darcy (e a incompatibilidade entre os dois era cada vez mais visível). Ela insegura, ele típico britânico certinho com dificuldade de expressar seus sentimentos. Sorte que quando a versão de Bridget Jones: No Limite da Razão chegou às telas, os produtores souberam melhorar a trama do livro, mantendo as partes mais divertidas e retirando boa parte de tudo que começava a ficar cansativo na personagem. Eles tiveram o bom senso de colocar a crise profissional da personagem no passado, lhe dando mais estabilidade (ainda que alguns micos perdurassem como uma maldição), mas mantinham o triângulo amoroso entre a ela Darcy e Cleaver.  Era uma versão 2.0 do que vimos no filme anterior, com a diferença que depois de um tempo juntos, Darcy e Jones começam a duvidar que foram feitos um para o outro - mas depois do que acontece na famigerada viagem à Tailândia, Bridget começa a suspeitar que Cleaver também não merece muita atenção. Entre crises de ciúme, uma temporada no presídio (com direito à cantar Like a Virgin junto com as detentas) e um banho de chuva o filme fez menos sucesso que o anterior, testou a devoção dos fãs e rendeu para Renée mais uma indicação ao Globo de Ouro. Quatorze anos depois do segundo livro a escritora Helen Fielding lançou Bridget Jones: Louca pelo Garoto, onde a personagem aparecia com 50 anos e viúva com dois filhos para criar. Parece deprimente demais? Parece que os produtores acharam o mesmo e resolveram colocar o livro de lado e inventar uma outra história para o terceiro filme: Bridget seria mãe. O roteiro teve tantas versões rejeitadas por Hugh Grant que ele todos acharam melhor ele pular fora do projeto, dando sinal verde para o estúdio fazer o que bem entendesse. Só que agora, Colin Firth tinha seu Oscar de Melhor Ator (por O Discurso do Rei/2010) e  Renée Zellwegger andava sumida depois das plásticas que mudaram seu rosto para sempre. Resgatar a personagem era a chance de sair do limbo após seis anos sem filmar. O Bebê de Bridget Jones  chegou às telas em 2016 e serviu para os fãs matarem a saudade da personagem. 

O Bebê de Bridget Jones: sai Cleaver e entra Dr. Shepherd.

Doze anos separam o segundo filme do terceiro e de lá para cá, não foi só o rosto de Renée que mudou. Com um mundo mergulhado em novas tecnologias e discursos de empoderamento feminino, fica visível que a produção passou por uma repaginada para dialogar com um novo tempo. Sendo assim, até a trilha sonora se rende à Ed Sheeran, festivais de música, aplicativos, passeatas e manifestações. A Europa não é mais a mesma e até a mãe de Bridget agora engrena numa carreira política precisando mudar o discurso conservador.  No entanto, essas alterações não são muito mais do que um verniz bem sutil diante da história, já que a personagem continua presa ao seu amor por Darcy e, com a morte de Cleaver, agora ela... tem outro pretendente! A diferença é que sai um calhorda e entra um personagem masculino adorável vivido por Patrick Dempsey (um dos galãs favoritos das mulheres maduras após ser o médico galã da série Grey's Anatomy). Ele vive um sujeito que criou um algoritmo capaz de encontrar o par perfeito de qualquer pessoa (e ficou milionário com isso). Eis que é deste triângulo que Bridget fica grávida e não sabe se é de Darcy ou Dempsey, ou melhor, Jack. Cria-se um imbróglio que nem o roteiro sabe lidar muito bem, mas que tenta colocar Bridget em um novo dilema: continuar investindo num relacionamento que não funcionou no passado ou tentar algo novo com um sujeito que pode lhe fazer feliz.  Pelo menos desta vez a personagem não está obcecada em perder peso, está levemente mais segura e torna-se até interessante ver Renée voltando às telas envelhecida após tanto tempo. Ainda que algumas intervenções estéticas se mostrem problemáticas no rosto da atriz, ela ainda tem carisma e sintonia com uma personagem que conquistou milhões de fãs pelo mundo e sua atuação livre de botox também tem um frescor muito bem vindo. Porém, eu gostaria o filme houvesse investido em uma trama mais simples e fizesse a personagem lidar com seu amadurecimento e não com o enorme clichê de não saber quem é o pai do próprio filho. Talvez se houver um quarto filme (o que eu acho bem difícil), a personagem possa manter o bom humor e ser levada a sério ao mesmo tempo. 

O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary/ EUA - Reino Unido - França - Irlanda / 2001) de Sharon Maguire com Renée Zellwegger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent, Gemma Jones e Shirley Henderson. ☻☻☻☻

Bridget Jones no Limite da Razão (Bridget Jones: the Edge of Reason/ EUA - Reino Unido - França - Irlanda / 2004) de Beeban Kidron com Renée Zellwegger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent, Gemma Jones, Neil Pearson e Patrick Baladi. ☻☻☻

O Bebê de Bridget Jones (Bridget Jones's Baby/ Irlanda - Reino Unido - França EUA / 2016) de Sharon Maguire com Renée Zellwegger, Colin Firth, Patrick Dempsey, Jim Broadbent, Gemma Jones, Sarah Solemani e Agni Scott. ☻☻☻

Na Tela: Em Ritmo de Fuga

Ansel, Jamie, Elza e Jon: personagens em fina sintonia. 

Antes de se tornar um filme cult de Nicolas Winding Refn, o livro Drive de James Sallis vivia sendo repaginado para ganhar as telas. Ao cair nas mãos do diretor dinamarquês (e do astro Ryan Gosling) o filme ganhou fãs ao contar a história de um piloto de fuga contratado por bandidos que se metia em encrencas variadas enquanto se apaixonava por uma garota frágil. Em Ritmo de Fuga poderia  ser uma das versões do livro de Sallis para a telona, ou então, seja mesmo uma versão mais palatável do violento filme de Refn escrita pelo diretor e roteirista Edgar Wright. No entanto, isso não diminui em nada a produção de Edgar Wright que ficou famoso por misturar humor e alguma aventura em seus filmes anteriores (incluindo Todo Mundo Quase Morto/2004 e Scott Pilgrim/2010). Aqui, o diretor conta a história de Baby (Ansel Elgort), um rapaz com carinha de anjo que é um dos motoristas mais habilidosos que já apareceram numa tela. Pena que ele tem a alma vendida para um bandidão (Kevin Spacey fazendo o tipo de  personagem que mais gosta) que o faz dirigir para bandidos pela cidade, assim Baby recebe um pequeno percentual dos roubos enquanto paga a dívida com o chefão. Porém, Baby quer outro rumo para a vida. Sempre com um fone de ouvido e cada vez mais apaixonado por uma garçonete adorável (Lily James) ele não vê a hora de quitar sua dívida, se livrar do submundo e viver em outro lugar. O mais interessante do filme é como Wright brinca com as expectativas da plateia, sempre trazendo surpresas quando menos esperamos. Curiosamente o filme parece que é feito em marchas, na primeira ele apresenta os personagens, na segunda ele meio que repete a primeira com alguns detalhes  a mais. Depois ele engata a ré e diminui o ritmo, deixando uma impressão quase irregular de seu roteiro, mas depois quando engata a terceira, a quarta e a quinta ele demonstra que seu filme tem muito mais a oferecer do que se espera dele (e que para chegar até ali precisava passar por todas as outras marchas). Em Ritmo de Fuga se beneficia de muitos elementos, seja da forma como as músicas ditam o ritmo das cenas de ação (perceba como até os tiros adquirem a cadência da trilha sonora), ou os diálogos espertos - como a advertência de que você não pode deixar Buddy (Jon Hann) de rosto vermelho ou Griff (Joe Bernthal) dizendo que se não o vermos mais é porque ele morreu e... - e mistura humor irônico, ação e romance. Além de Wright firmar o promissor Ansel Elgort como astro e criar algumas das cenas de ação mais empolgantes do ano, o filme ainda se beneficia da esperteza de revelar seus personagens aos poucos, seja o próprio protagonista (de personalidade bastante peculiar) ou os seus ilustres coadjuvantes (e todos estão bem, parecendo uma fauna de tipos que não fariam feio nos textos mais urbanos de Tarantino). Não se engane com o início do filme, Em Ritmo de Fuga é mais do que um filme de carros correndo, tiros e explosões, ele possui mais a oferecer e não me surpreenderia se a bilheteria robusta empolgasse os produtores a fazer uma sequência.  Ou duas... três...

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver/EUA-Reino Unido -2017) de Edgar Wright com Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Hamm, Jamie Foxx, Elza González, CJ Jones e Sky Ferreira. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

PL►Y: 7 Homens e um Destino

Denzel e seu bando: remake da refilmagem para o século XXI. 

Não é surpresa para ninguém que Hollywood vive uma crise criativa faz tempo, por isso somos inundados com remakes, reboots e sequências infinitas de franquias consagradas. No entanto, precisamos reconhecer que é necessária uma boa dose de coragem para refazer um clássico do porte de Sete Homens e Um Destino. Lançado originalmente em 1960, o longa dirigido por John Sturges trazia atores do porte de Steve McQueen, James Coburn e Charles Bronson na história de um grupo de homens que se juntam para livrar uma pequena cidadezinha  no México de um asqueroso vilão e seus comparsas. O longa já era uma versão para Os Sete Samurais (1954) e fez um grande sucesso, se tornou cultuado até hoje e ainda foi indicado ao Oscar de melhor trilha sonora. Se a trama ainda tem apelo perante o público, restava juntar um grupo de astros de fazer com que até aqueles que não curtem faroeste sentir algum interesse.  Sendo assim, nada melhor do que colocar Denzel Washington para liderar o grupo, que ainda irá somar o queridinho do momento Chris Pratt, o sempre prestativo Ethan Hawke e o subestimado Vincent D'Onofrio (que aparece envelhecido e se divertindo bastante como um velho ranheta). O filme ainda traz a novidade de ser ambientado no oeste americano e investir na diversidade de seus personagens. Além do bando do título ser liderado por um negro e contar com um índio (Martin Sensmeier), um mexicano (Manuel Garcia-Rulfo) e um oriental (o coreano Byung-hun Lee), ainda oferece destaque a um personagem feminino na trama, a esposa (Haley Bennett, que lembra muito a Jennifer Lawrence) de um morador local que foi assassinado pelo sanguinário dono da cidade (Peter Sarsgaard em mais um vilão gélido para sua coleção). A primeira parte do filme é a apresentação do grupo tomando forma, já a segunda é a preparação para um tiroteio em ritmo frenético que prende a atenção do espectador ao selar o destino dos seus personagens. Nas duas partes o que faz funcionar é a química entre os atores, que conseguem criar personalidades diferentes para cada um deles mesmo com o pouco tempo de tela que cada um tem disponível.  O novo Sete Homens e um Destino pode até não ser digno de culto ou destinado à clássico, mas consegue entreter o público com uma narrativa eficiente e um elenco interessante - o que já é muita coisa diante de tantos equívocos que vemos ultimamente. 

7 Homens e Um Destino (The Magnificent Seven/EUA-2016) de Antoine Fuqua com Denzel Washington, Chris Pratt, Peter Sarsgaard, Ethan Hawke, Vincent D'Onofrio, Haley Bennett, Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo e Matt Bomer. 

domingo, 6 de agosto de 2017

PL►Y: O Que Está por Vir

Huppert e Scob: filha e mãe com a caixa de Pandora. 

Mia Hansen-Love ganhou o prêmio de melhor diretora  no Festival de Berlim por O Que Está Por Vir, filme estrelado por Isabelle Huppert que traz uma história que parece saída de uma novela de Manoel Carlos. Huppert interpreta Nathalie, uma professora de Filosofia que já lançou vários livros e que não demonstra ter muitas ilusões diante do mundo pós-moderno. No entanto, ironicamente, mesmo sabendo que as certezas já acabaram faz tempo, ela é humana o suficiente para se surpreender quando descobre que seu esposo a trocou por outra mulher. Existem outros fatos que afligem a protagonista, sua mãe (que já foi uma modelo de sucesso) está cada vez mais senil, os novos objetivos da editora também comprometem sua carreira de ensaísta filosófica e algum alento surge quando ela reencontra um ex-aluno, Fabien (Roman Kolinka) que serve para que eles conversem sobre ideias e livros em vários momentos do filme. Embora muitas pessoas vejan muitas camadas a serem exploradas nas cenas cotidianas da direção realista impressa pela diretora, O Que Está por Vir nunca avança muito nas ideias que apresenta. O que ocorre é apenas uma constante ruptura com o que se espera do filme, por vezes algum fato é deixado de lado para depois voltar à narrativa, mas na maioria das vezes tudo fica meio solto mesmo. É verdade que a vida é um tanto assim (e a ideia da obra é realmente causar a impressão de que está mostrando um recorte da vida daqueles personagens, como se ver um filme fosse um exercício de voyeurismo), no entanto, considero cada vez mais irritante que vários filmes que ambicionam fazer este registro drenam quase toda emoção dos personagens. Não há dúvidas de que Isabelle Huppert é uma grande atriz e capaz de fazer milagres com os roteiros que sempre defende com muita convicção, mas o filme é decepcionante. Você pode até enxergar no roteiro vários pontos assustadores do mundo atual, mas o que mais assusta é como a família de Nathalie não se importa com muita coisa - perto da última cena ela até diz isso para a filha após ser cobrada de uma atitude trivial que não realizou em determinado momento, simplesmente diz: "Como se vocês se importassem". No fundo em O Que Está por Vir ninguém se importa com muita coisa e a vida segue na mesma, entre mortes e nascimentos, entre encontros e separações, a edição relaxada cansa o espectador com Huppert andando de um lado para o outro o filme inteiro e o roteiro não hesita em sempre causar encontros entre os personagens. Meia dúzia de conversas sobre filosofia também não me convenceram do conteúdo elevado da história. Talvez não seja por acaso que a personagem que mais me chamou atenção no filme fosse a mãe de Nathalie vivida pela veterana Edith Scob (que atua desde os anos 1950), me identifiquei bastante com sua personagem que parece perder a razão diante de um mundo cada vez mais morto (ela mesma irá interpretar uma morta num trabalho que surgiu). O filme tem dois ou três momentos interessantes, mas fica por isso mesmo, o resto fica por conta do espectador preencher os diálogos e situações de significados relevantes subjetivos. Eu tentei e não consegui. 

O Que Está Por Vir (L'Avenir / França - Alemanha / 2016) de Mia Hansen-Love com Isabelle Huppert, Edith Scob, Roman Kolinka, André Marcon e Yves Heck. 

sábado, 5 de agosto de 2017

10+: Brendan Fraser

Brendan Fraser em Crash-No Limite
Pouca gente lembra mas antes de ser esquecido pelos estúdios Brendan Fraser fez um filme que ganhou três Oscars! Eu sei que você nem lembra que ele estava em Crash - No Limite/2004, mas ele interpretava o marido de Sandra Bullock (eu sei, você também não lembra dela no filme). O curioso foi que o filme premiado não trouxe novos projetos de prestígio ou desafiadores para o ator e ele acabou aparecendo cada vez menos na telona. Hoje ele atua em séries de TV e aguarda ser redescoberto pelos grandes diretores. Mas se você acha que Crash é o único filme oscarizado da carreira deste grande astro dos anos 1990 você está muito enganado. A seguir, as dez atuações mais marcantes do ator que já foi um dos mais cobiçados de Hollywood: 
  
#10 De Volta Para o Presente (1999) de Hugh Wilson
Fraser encontra Alicia Silverstone (outra perdida nos anos 1990).

#09 O Americano Tranquilo (2002) de Phillip Noyce
Brendan se esforça mas foi Michael Caine o indicado ao Oscar.

#08 Com Mérito (1994) de Alek Keshishian
Aluno de Harvard aprende sobre a vida com Joe Pesci sem-teto.

#07 Código de Honra (1992) de Robert Mandel
Guia de atores promissores: Fraser, O'Donnell, Damon, Affleck...

#06 Os Cabeça-de-Vento (1994) de Michael Lehmann
Ele, Buscemi e Sandler invadem rádio para tocarem a demo da banda. 

# 05 O Homem da Califórnia (1992) Les Mayfield  
Besteirol em que o ator ficou descamisado pela primeira vez. 

#04 Paixões na Floresta (1995) de Philip Ridley
Eu sei, você nunca viu este filme estranho. Fica a dica!

03 George - O Rei da Floresta (1997) de Sam Weisman
Variável de Tarzan que alegrou muita criança por aí. 

02 A Múmia (1999) de Stephen Sommers
Virou a trilogia que Fraser perdeu para Tom Cruise piorar!

Roteiro oscarizado e sua melhor atuação (ao lado de Ian McKellen). 

PL►Y: Uma Dupla Genial

Wolff e Brendan: estrela caída. 

Sou muito solidário aos casos de bons atores que subitamente caem no limbo de Hollywood, seja por péssimas escolhas profissionais (que logo se transformam em mares de dívidas) ou por problemas pessoais, sempre me entristece ver a derrocada de um astro. Brendan Fraser é um desses casos. Ator de sucesso na década de 1990, o ator viu sua estrela despencar no final da década passada e até agora não conseguiu se levantar. Analisando sua carreira, percebemos que sua maré de azar coincidiu justamente com o período em que deixou de ser um garotão e precisava convencer em papéis mais maduros. Prestes a completar cinquenta anos, Fraser encontrou refúgio nas séries de TV e talvez sua carreira tenha uma segunda chance nas telas em algum tempo. Enquanto as grandes produções não o redescobrem, ele participa de alguns filmes independentes em papéis que lhe garantem o pão de cada dia, mas que ficam bem longe do radar do público. Um destes filmes foi Uma Dupla Genial do diretor Billy Kent - que não ajuda em nada a ressurreição astral do ator. Fraser tem uma participação especial como o melhor amigo de um gênio de 14 anos que queria estudar em Harvard e termina em uma universidade pouco conhecida  - e acaba utilizando uma competição de perguntas e respostas para se vingar de um grupo de idiotas que o humilharam por não ter entrado para a cobiçada instituição. Fraser prova que não tem vaidades ao servir de escada para o adolescente Alex Wolff que vive o prodígio Eli Pettifog, pena que aos poucos, Wolff demonstra que não tem carisma suficiente para carregar o filme nas costas. Uma Dupla Genial (título que dá a ideia de que Fraser terá mais destaque na história, mas não se engane) começa promissor, sendo bastante simpático ao apresentar os dois personagens, mas depois de meia hora o filme já fica arrastado, sem saber explorar a tal competição de perguntas que fica cada vez mais repetitiva e desinteressante. Lá pela metade a impressão é que as ideias foram rareando e  roteiro começou a investir em algumas cenas bobas de jovens universitários perdendo a chance de se tornar um filme realmente original sobre a relação de Eli e Leo (Fraser) - o amigo adulto divorciado que foi para faculdade. Para tentar um gancho dramático o filme cria até o reencontro de Leo com a filha que não vê faz tempo, mas se o filme não sabia para onde ir com o que já tinha em mãos, ele acaba desandando de vez com o sentimentalismo mais rasteiro. Uma Dupla Genial (nome que vende a ideia equivocada de que Fraser teria grande destaque na trama) ainda deixa a estranha sensação de conhecermos exatamente o motivo do ator ter sido esquecido pelos estúdios: tendo que dar conta de um homem já vivido, Brendan o interpreta da mesma maneira com que fazia seus personagens adolescentes de décadas atrás. É verdade que a ausência de um diretor experiente atrapalha, mas Brendan nunca me pareceu tão perdido quanto um personagem. 

Uma Dupla Genial (Hair Brained/EUA-2013) de Billy Kent com Alex Wolff, Brendan Fraser, Parker Posey, Julia Garner, Toby Huss e Teddy Bergman. 

Na Tela: Um Instante de Amor

Marion e Alex: entre o amor real e o ideal. 

Eu ainda descubro quem inventa estes nomes genérico-bregas para filmes interessantes. Será que ele realmente pensa que alguém iria se interessar por uma obra condenada a carregar um título boboca feito este? Preferia muito mais que tivesse permanecido o nome em francês, sem nem precisar de tradução: Mal de Pierres já é sonoro e envolvente o suficiente para despertar a curiosidade de uma plateia. Coloque no cartaz a foto de Marion Cotillard e Louis Garrell (que nunca me convence, mas tem sua cota de admiradoras) e pronto, acredito que o filme receberia muito mais atenção nas poucas salas a que está destinado em nosso país. Mas, vamos lá... Um Instante de Amor é um filme de Nicole Garcia, atriz consagrada desde a década de 1960 e que desde os anos 1990 tem lançado obras como diretora com certa regularidade. O mais curioso é que seus filmes mais conhecidos como cineasta são obras em que consegue atuações marcantes de atrizes já consagradas, foi assim com Place Vendôme (1998) com Catherine Deneuve e com este Mal de Pierres estrelado por Cotillard. Trata-se de um drama romântico bem realizado e que, sem nos darmos conta, cria um mistério que só se revela no final. No entanto, a direção de Nicole é elegante o suficiente para evitar sensacionalismos e torna o desfecho convincente e até bonito (algo raro no gênero atualmente). O filme é sobre a jovem Gabrielle (Marion), que vive no interior da França na década de 1950 e sofre com a repressão dos seus pais. Na verdade, Gabrielle transborda desejo sexual por um romance que deve existir somente em seu imaginário - e a sociedade provinciana ao seu redor não ajuda muito. Depois dela se apaixonar por um homem casado, seus pais ficam preocupados e a acabam arranjando seu casamento com um homem rústico da região, José  (Alex Brendemühl). José é bastante diferente do tipo que Gabrielle se interessa, mas o relacionamento entre os dois se desenvolve de forma interessante. Entre acordos e fantasias o casamento de ambos sobrevive, até que as constantes dores de Gabrielle a leva até uma casa de tratamento e ela conhece o militar André Sauvage (Louis Garrell) e a sintonia entre os dois é inevitável. Impossível durante o filme não pensar sobre relação entre o amor real e o ideal, o desejo e a repressão, o concreto e o devaneio entre outros pontos que não vou mencionar para não estragar. O fato é que Nicole  Garcia realiza um belo filme com doses cavalares de sensualidade sem ser vulgar. Os ângulos escolhidos, as paisagens, a luz utilizada na fotografia compõem um todo bastante harmônico e coerente, além de contar com ótimas atuações (especialmente de Marion e o resiliente Alex, ambos em uma sintonia impressionante). Vi o filme sem esperar muito dele e realmente me surpreendeu, talvez seja por conta do olhar extremamente feminino que a diretora lançou sobre a história que nos faz entender os sentimentos mais conflitantes de Gabrielle se distanciando do mero capricho.  Não por acaso o filme foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e concorreu a oito prêmios no César deste ano (incluindo filme, direção, atriz e roteiro).  Quem gosta de romance irá apreciar bastante o resultado. 

Um Instante de Amor (Mal de Pierres / França-Bélgica-Canadá / 2016) de Nicole Garcia com Marion Cotillard, Alex Brendemühl, Louis Garrell e Brigitte Roüan ☻☻☻☻