sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

PL►Y:First They Called My Father

Sareum: carisma em meio ao caos.

Se alguém que acompanhasse a carreira de Angelina Jolie no início dos anos 1990 ficasse inconsciente na virada do século e despertasse hoje, provavelmente não a reconheceria. A garota rebelde, de mal com pai (o ator Jon Voight), metida em comentários maldosos sobre o relacionamento com o irmão, namorada de Billy Bob Thornton - que andava com um frasco de sangue do amado pendurado no pescoço... - tudo isso ficou para trás. Angelina mudou muito depois que encontrou nas causas humanitárias uma razão para viver, isso afetou diretamente sua vida pessoal e até os seus filmes. Se você levar em consideração que a atriz já dirigiu quatro longas e três deles contam histórias em ambiente de guerra você irá compreender o que consome os pensamentos de Jolie a maior parte do tempo. Curiosamente, os maiores apoiadores da cineasta estão entre os votantes do Globo de Ouro, que indicaram Na Terra do Amor e Ódio (2011) ao prêmio de melhor filme em língua estrangeira (mesmo quando ninguém pareceu dar muita atenção para ele) e repetiram a dose recentemente com First They Killed My Father, produção que também tenta uma vaga na mesma categoria no Oscar. Baseado na história real de Loung Ung, o filme conta a sofrida história da menina que presenciou de perto as ações dos guerrilheiros do Khmer Vermelho no Camboja em meados dos anos 1970. Com a tomada do país pelo grupo, os habitantes foram levados para campos de trabalhos forçados no meio da floresta e sujeitos a todo tipo de atrocidades. Famílias foram separadas e o discurso  contra a propriedade e a individualidade chegava aos extremos de não considerar laços de afeição e apoio ao treino de crianças para uma revolução - que elas não faziam a mínima ideia do que se tratava. Sem dúvida é uma história que combina bastante com os ideais de Jolie e seu envolvimento com o Camboja, mas acompanhar o filme é uma tarefa árdua. Sob a ideia de gerar uma narrativa amparada pelo olhar da pequena Loung (Sareum Srey Moch), que não entende o que está acontecendo, o efeito é o mesmo para o espectador. Ainda que o filme tenha uma introdução com materiais coletados na imprensa da época, fica bastante confuso conhecer o período histórico que o Camboja atravessava naquele momento, assim como as motivações do Khmer Vermelho e a adesão por parte da população. Paira assim várias indagações (que podem ser vistas como insconsistências) quando assistimos ao filme. Com poucos diálogos, a diretora aposta em cenas fortes para impactar o espectador num registro próximo do documental, mas que se torna cansativo em cenas que se repetem sem muita elaboração. É verdade que existem construções cênicas interessantes (e a melhor delas deve ser a da fuga pelo campo minado), mas fica claro que o melhor ato do filme é o último e um miolo que  demonstra que Angelina ainda precisa aprender a contar uma história sem entediar o espectador. First They Killed My Father deixa claro como a atriz fica mais a vontade para contar histórias sobre pessoas em campos de guerra do que para criar dramas intimistas (ainda acho que foi À Beira Mar/2015 o maior motivo da separação de Jolie e Brad Pitt), no entanto, ela corre o risco de se tornar repetitiva. Até o momento seu melhor filme como diretora continua sendo Invencível (2014) - sobre um atleta que se torna prisioneiro de guerra. 

First They Killed My Father (EUA/Camboja - 2017) de Angelina Jolie com Sareum Srey Moch, Heng Dara, Sarun Nika, Run Malyna e Sveng Socheata. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PL►Y: Como Nossos Pais

Como Nossos Pais: deliciosas contradições. 

Um dos grandes sucessos de público e crítica do ano do cinema brasileiro foi Como Nossos Pais de Laís Bodanzky. Laís é uma ótima diretora e tem seus três filmes anteriores na lista de filmes mais interessantes do cinema de nosso país. Talvez alguns considerem que seu novo trabalho mereça entrar nesta lista também, mas eu considerei o seu trabalho menos envolvente. O filme gira em torno de Rosa (Maria Ribeiro) que desde a primeira cena, demonstra viver uma relação tensa com a família (menos com o irmão, vivido por um irreconhecível Cazé Peçanha). O marido (Paulo Vilhena) não é muito participativo na vida familiar, as filhas também não estão mais sob controle como antigamente e a mãe (Clarisse Abujamra) parece sempre disposta a atacar a filha (e vice-versa). As coisas pioram quando num embate entre as duas, a mãe revela que Rosa é filha de um homem com o qual ela se envolveu quando foi participar de um Congresso em Cuba e não do homem que a criou por trinta e oito anos. Se a vida de Rosa já estava complicada, agora ela se transforma em uma bomba prestes a explodir. Além dos problemas  em casa, ela enfrenta uma reviravolta em sua vida profissional e uma crise de identidade, já que o que sempre considerou ser certeza em sua construção como pessoa não parece tão certo assim. Embora o roteiro seja todo temperado com finas ironias, Como Nossos Pais não consegue sair do lugar comum de um emaranhado de clichês. Tudo no filme parece uma colagem de situações que você já assistiu em dezenas de outros filmes com desenvolvimento mais elaborado do que vemos aqui. Os conflitos de Rosa não estão ali para ser trabalhados, mas amontoados sobre a personagem que não sabe o que fazer. O mais interessante é que Rosa não tem pudores em ser uma chata, mais chata do que a prosa intelectual que perpasse algumas cenas sem qualquer sinal de naturalidade (mas talvez esta seja a intenção mesmo). Ter uma protagonista chata não é defeito, pelo contrário, pode ser a maior virtude do filme, já que ela sempre aponta nos outros as causas de suas insatisfações, mas não é capaz de perceber que ela também é responsável todas as responsabilidades que abraçou e que agora a sufocam. Assim, fica mais interessante como ela critica a postura de seu esposo (mas está doida para fazer o mesmo que ele e sair de casa por alguns dias ou traí-lo) ou sempre discute com a mãe (quando seu relacionamento com as filhas vai pelo mesmo caminho), além de cultuar um pai que vive num mundo paralelo (em atuação delirante de Jorge Mautner) quando critica o esposo, que salvo as devidas proporções, tenta viver do mesmo jeito (sendo tão escorregadio quanto o sogro, sendo que o sogro segue o caminho do delírio e o esposo nos discursos ensaiados na cartilha "marido compreensivo do século XXI"). São essas deliciosas contradições que tornam o filme dotado de um certo humor e avança na narrativa. Como Nossos Pais é um bom filme, mas com sabor de déjà vu.

Como Nossos Pais (Brasil/2017) de Laís Bodanzky com Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Jorge Mautner, Cazé Peçanha, Felipe Rocha e Herson Capri. ☻☻

PL►Y: Um Laço de Amor

Chris e Grace: qual o melhor caminho a seguir?

A pequena Mary (McKenna Grace) começou a frequentar a escola aos sete anos após ser educada em casa durante parte da infância. Embora pareça entediada em sala de aula, a garota chama atenção por sua facilidade em fazer cálculos, tanto que a professora, senhorita Stevenson (Jenny Slate), começa a instigá-la cada vez mais antes de comunicar à diretora (Elizabeth Marvel) que a garota é um prodígio matemático. Elas comunicam ao responsável por Mary as suspeitas e sugerem que ela ingresse numa escola mais avançada. No entanto, o responsável (Chris Evans) é irredutível ao considerar que a menina precisa mesmo é continuar estudando numa escola comum para aprender coisas que não conheceria nos livros. Eis que a escola descobre que ele não é o pai da menina e começa um verdadeiro impasse familiar que revela tudo o que há por trás da história da pequena. Gifted, ou Um Laço de Amor, é o novo filme do diretor de (500) Dias com Ela/2009 depois que reformulou o Spider-Man com O Espetacular Homem-Aranha /2012. Gifted pode não ter o frescor da comédia romântica que o consagrou, mas ressalta sua habilidade em contar uma história de maneira muito agradável. Existe uma doçura na história de Mary que é, em parte, resultado de uma química irresistível entre o elenco, principalmente de Evans e a adorável  estreante McKenna Grace (repare os olhos da menina, parecem projetados para viver esse tipo de personagem). Existe realmente um laço entre os dois, assim como entre a vizinha Roberta (Octavia Spencer) - que nunca viu com bons olhos o ingresso da menina numa escola - e a presença da professora que não fazia a mínima ideia das consequências de seu zelo pela menina. Esta liga entre os atores é realmente notável. Outro ponto forte da história é a presença de Lindsay Duncan como a avó de Mary, a veterana que personifica o grande impasse do filme: vale mais deixar um prodígio ser criança ou somente pensar em seu futuro? Neste ponto existe a própria história da mãe da garota para contrabalançar num filme que parece trivial, mas toca em questões realmente delicadas. Embora a narrativa seja leve e bastante fluída, o filme aborda temas espinhosos como depressão, suicídio e rejeição, mas você quase mal se dá conta disso, prova de que o diretor Marc Webb faz um belo trabalho e consegue desenvolver personagens em relações familiares complicadas sabendo dosar equilibradamente drama e açúcar. É verdade que o filme tem uma derrapada estranha na decisão judicial que insere outra família na história (algo descaradamente manipulativo e desnecessário), mas nada que prejudique a simpatia que o filme desperta. Ainda que não tenha encontrado espaço nos cinemas brasileiros, o filme se tornou um dos sucessos surpresa de 2017, custando sete milhões de dólares  (uma ninharia para os padrões americanos) e arrecadando mais de quarenta milhões ao redor do mundo. Sucesso merecido.  

Um Laço de Amor (Gifted/EUA-2017) de Marc Webb com Chris Evans, McKenna Grace, Octavia Spencer, Jenny Slate, Lindsay Duncan e Elizabeth Marvel. ☻☻

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

INDICADOS SCREEN ACTORS GUILD - 2018


Muita gente não conseguiu esconder o desapontamento com as indicações do Globo de Ouro divulgadas no dia onze. Mal descobrimos os indicados da premiação dos correspondentes estrangeiros de Hollywood e o Sindicato dos Atores divulgou os seus favoritos do ano. A 24ª Edição do Screen Actors Guild Award vai ao ar no dia 21 de janeiro, quando as expectativas para o Oscar estarão chegando no auge. Sempre vale dar uma conferida nos indicados antes de fazer suas apostas, ao que parece, os indicados ao SAG estão bem mais próximos do que esperam ver no Oscar do próximo ano. As ausências mais sentidas ficara por conta de Mindhunter (mais uma vez), Armie Hammer (na categoria de ator coadjuvante por Me Chame Pelo seu Nome, aqui ele perdeu a vaga para Steve Carrell... não sei se o Oscar fará o mesmo), além do total esquecimento de The Post de Steven Spielberg (um dos mais lembrados nos Globos de Ouro, mas também a história é sobre jornalistas, não é?). A seguir todos os indicados:

CINEMA
Melhor Elenco
Doentes de Amor
Corra!
Lady Bird
Mudbound
Três Anúncios para um Crime

Melhor Ator
Timothée Chalamet, Me Chame Pelo Seu Nome
James Franco, O Artista do Desastre
Daniel Kaluuya, Corra!
Gary Oldman, O Destino de Uma Nação
Denzel Washington, Roman J. Israel, Esq. 

Melhor Atriz
Judi Dench, Victoria e Abdul
Sally Hawkins, A Forma Da Água
Frances McDormand, Três Anúncios para um Crime
Margot Robbie, Eu, Tonya
Saoirse Ronan, Lady Bird

Melhor Ator Coadjuvante
Steve Carell, A Guerra dos Sexos
Willem Dafoe,  Projeto Flórida 
Woody Harrelson, Três Anúncios para um Crime
Richard Jenkins, A Forma da Água
Sam Rockwell, Três Anúncios para um Crime

Melhor Atriz Coadjuvante
Mary J. Blige, Mudbound
Hong Chau, Pequena Grande Vida 
Holly Hunter, Doentes de Amor
Allison Janney, Eu, Tonya
Laurie Metcalf, Lady Bird – A Hora de Voar

Melhor Elenco de Dublês
Em Ritmo de Fuga
Dunkirk
Logan
Planeta dos Macacos: A Guerra
Mulher-Maravilha

TELEVISÃO
Melhor Ator em Comédia
Anthony Anderson, Black-ish
Aziz Ansari, Master of None
Larry David, Curb Your Enthusiasm
Sean Hayes, Will & Grace
William H. Macy, Shameless
Marc Maron, GLOW 

Melhor Atriz em Comédia
Uzo Aduba, Orange Is The New Black
Alison Brie, GLOW
Jane Fonda, Grace and Frankie
Julia Louis-Dreyfus, Veep
Lily Tomlin, Grace and Frankie

Melhor Elenco em Comédia
Black-ish (ABC)
Curb Your Enthusiasm (HBO)
GLOW (Netflix)
Orange Is The New Black (Netflix)
Veep (HBO)

Melhor Ator em Filme ou Minissérie
Benedict Cumberbatch, Sherlock: The Lying Detective
Jeff Daniels, Godless
Robert De Niro, Wizard of Lies
Geoffrey Rush, Genius
Alexander Skarsgard, Big Little Lies

Melhor Atriz em Filme ou Minissérie
Laura Dern, Big Little Lies
Nicole Kidman, Big Little Lies
Jessica Lange, Feud: Bette And Joan
Susan Sarandon, Feud: Bette and Joan
Reese Witherspoon, Big Little Lies 

Melhor Elenco em Drama
The Crown  (Netflix)
Game of Thrones (HBO)
The Handmaid’s Tale (HULU)
Stranger Things (Netflix)
This Is Us (NBC)

Melhor Ator em Drama
Jason Bateman, Ozark
Sterling K. Brown, This Is Us
Peter Dinklage, Game of Thrones
David Harbour, Stranger Things
Bob Odenkirk, Better Call Saul 

Melhor Atriz em Drama
Millie Bobby Brown, Stranger Things
Claire Foy, The Crown
Laura Linney, Ozark
Elisabeth Moss, The Handmaid’s Tale
Robin Wright, House of Cards

Melhor Elenco de Dublês para a TV
Game of Thrones (HBO)
GLOW (Netflix)
Homeland (Showtime)
Stranger Things (Netflix)
The Walking Dead  (AMC)

Na Tela: Extraordinário

Os Pullman: Jacob Tremblay voltou em ótima companhia. 

Eu tinha o pé atrás com a adaptação para o cinema do sucesso literário Extraordinário de R. J. Palacio. No livro eu já considerava que as doses generosas de açúcar ficavam no limite e quando anunciaram que os pais do protagonista seriam vividos por Julia Roberts e Owen Wilvon o sinal de alerta soou com força. Por sorte, escolheram Stephen Chbosky para dirigir o filme. Chbosky também é escritor e foi responsável por levar seu próprio livro mais famoso para a telona, As Vantagens de Ser Invisível (2014), em que já demonstrava mão boa para abordar os dramas de seus personagens sem cair na pieguice ou no melodrama. Em Extraordinário esta habilidade faz toda a diferença,  já que (mesmo com final deliberadamente apelativo) somente alguém muito insensível não irá se envolver com a história do pequeno August Pullman. Colabora muito também que o responsável por viver o menino seja Jacob Tremblay, que já fez bonito em O Quarto de Jack (2015) e aqui tem a chance de destruir qualquer desconfiança de quem suspeitava que ele fosse apenas uma fofura. Jacob é um ator com A maiúsculo. Quem já ouviu falar do livro, sabe que aborda a entrada na escola de um garoto que nasceu com o rosto marcado pelo encontro raro dos genes recessivos raros de seus pais. Assim, ele teve que sofrer várias cirurgias plásticas para conseguir escutar, respirar, se alimentar... mesmo depois de tantas cirurgias sua aparência ainda causa estranhamento (e o trabalho de maquiagem não prejudica em nada o brilho no olhar de Jacob, a doçura de seu sorriso ou a tristeza que lhe visita de vez em quando). Sua entrada na escola ocorre quando sua mãe atenciosa (Julia Roberts) percebe que não dá mais para ensiná-lo em casa e, mesmo diante dos temores da família, o menino precisa começar a frequentar uma escola para adquirir novos conhecimentos. Se você for ver o filme achando que ele é um manifesto contra o bullying provavelmente irá considerá-lo fraco e até infantil, mas se você quiser ver uma obra interessante sobre conviver com a diferença o filme não desaponta. O que mais considerei interessante na narrativa é a forma de Chbosky não se concentrar apenas em August, mas também em quem está ao seu redor, dando destaque para sua irmã (a ótima Izabela Vidovic) - que tem uma complexa relação com o irmão, já que deseja protegê-lo ao mesmo tempo que se ressente de ter crescido em segundo plano desde o nascimento do irmão caçula -, assim como a melhor amiga dela e o adorável Jack Will (Noah Jupe). A opção de mostrar o olhar dos personagens sobre a presença de August em suas vidas torna o filme muito mais rico e interessante, facilitando o apelo junto ao público infanto-juvenil (que lotava a sala de cinema em que assisti) e criar uma rede de relações e conflitos que funcionam muito bem dentro da proposta do filme e do livro. Quanto aos mais velhos irão adorar as citações à Guerra nas Estrelas num filme de narrativa bem cuidada e com atores bastante comprometidos com a história que desejam contar (além do elenco mirim ser irresistível!). Extraordinário é um belo filme que merece ser assistido, principalmente por nos lembrar que vivemos num mundo longe de ser perfeito, mas que merece ser desafiado a mudar (desde pequeno). 

Extraordinário (Wonder/EUA-2017) de Stephen Chbosky com Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Mandy Pantinkin, Noah Jupe, Bryce Gheisar, Danielle Rose Russell e Sonia Braga (numa pontinha). ☻☻

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

INDICADOS AO GLOBO DE OURO 2018

Globo de Ouro 2018: categorias acirradas. 

Hoje de manhã foram anunciados os indicados ao Globo de Ouro nas categorias de cinema e TV. Entre os favoritos do ano da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood apareceram algumas surpresas, especialmente com as indicações de Todo o Dinheiro do Mundo, um dos filmes de pós-produção mais atribulada do ano que conseguiu até uma indicação a melhor diretor (que ninguém esperava e gerou a ausência de alguns favoritos da categoria como Greta Gerwig). Na parte dos indicados televisivos, a maior surpresa foi a completa esnobada de Mindhunter que não recebeu indicação alguma, sendo uma das produções mais elogiadas de 2017. A seguir todos os indicados que podem receber o prêmio no dia 07 de janeiro de 2018:

CINEMA

Melhor filme dramático
"Me chame pelo seu nome"
"The post"
"A forma da água"
"Três anúncios para um crime"

Melhor ator em filme dramático
Timothée Chalamet, "Me chame pelo seu nome"
Daniel Day Lewis, "Trama fantasma"
Tom Hanks, "The post: A guerra secreta"
Gary Oldman, "O destino de uma nação"
Denzel Washington, "Roman J. Israel, Esq."

Melhor atriz de filme dramático
Jessica Chastain, "A grande jogada"
Sally Hawkins, "A forma da água"
Frances McDormand, "Três anúncios para um crime"
Meryl Streep, "The post: A guerra secreta"
Michelle Williams, "Todo o dinheiro do mundo"

Melhor diretor
Guillermo del Toro, "A forma da água"
Martin McDonagh, "Três anúncios para um crime"
Ridley Scott, "Todo o dinheiro do mundo"
Steven Spielberg, "The Post"

Melhor filme de comédia ou musical
"O artista do desastre"
"O rei do show"
"I, Tonya"
"Lady Bird"

Melhor atriz em filme de comédia ou musical
Judi Dench, "Victoria e Abdul: o confidente da rainha"
Helen Mirren, "The Leisure Seeker"
Margot Robbie, "I, Tonya"
Saoirse Ronan, "Lady Bird"
Emma Stone, "A guerra dos sexos"

Melhor ator em filme de comédia ou musical
Steve Carell, "A guerra dos sexos"
Ansel Elgort, "Em ritmo de fuga"
James Franco, "O artista do desastre"
Hugh Jackman, "O rei do show"
Daniel Kaluuya, "Corra!"

Melhor atriz coadjuvante
Mary J. Blige, "Mudbound"
Hong Chou, "Pequena grande vila"
Allison Janney, "I, Tonya"
Laurie Metcalf, "Lady Bird: É hora de voar"
Octavia Spencer, "A forma da água"

Melhor ator coadjuvante
Willem Dafoe, "Projeto Flórida"
Armie Hammer, "Me chame pelo seu nome"
Richard Jenkins, "A forma da água"
Christopher Plummer, "Todo o dinheiro do mundo"
Sam Rockwell, "Três anúncios para um crime"

Melhor animação
"O Poderoso Chefinho"
"The Breadwinner"
"Viva: A vida é uma festa"
"O touro Ferdinando"
"Com amor, Van Gogh"

Melhor canção original
"Home", "O touro Ferdinando"
"River", "Mudbound"
"Viva: a vida é uma festa"
"The star", "The star"
"This is me", "O rei do show"

Melhor trilha sonora
Carter Burwell, "Três anúncios para um crime"
Alexander Desplat, "A forma da água"
Johnny Greenwood, "Trama fantasma"
John Williams, "The post: a guerra secreta"

Melhor filme estrangeiro
"Uma mulher fantástica" (Chile)
"First they killed my father" (Camboja)
"In the fade" (Alemanha)
"Loveless" (Rússia)
"The square" (Suécia)

Melhor roteiro
"A forma da água"
"Lady Bird"
"The Post: a guerra secreta"
"Três anúncios para um crime"
"A grande jogada"

TELEVISÃO

Melhor série dramática
"The Crown"
"Game of thrones"
"The handmaid's tale"
"Stranger things"
"This is us"

Melhor série de comédia ou musical
"Blackish"
"The Marvelous Mrs. Maisel"
"Master of None"
"Smilf"
"Will & Grace"

Melhor minissérie ou telefilme
"Fargo"
"The sinner"
"Top of the lake: China Girl"

Melhor atriz em série dramática
Caotriona Balfe, "Outlander"
Claire Foy, "The crown"
Maggie Gylenhaal, "The deuce"
Katherine Langford, "13 reasons why"
Elisabeth Moss, "Handmaid's tale"

Melhor ator em série dramática
Jason Bateman, "Ozark"
Sterling K. Brown, "This is us"
Freddie Highmore, "The good doctor"
Bob Odenkirk, "Better call Saul"
Liev Schreiber, "Ray Donovan"

Melhor ator em série de comédia ou musical
Anthony Anderson, "Black-ish"
Aziz Ansari, "Master of none"
Kevin Bacon, "I love Dick"
William H. Macy, "Shameless"
Eric McCormack, "Will and Grace"

Melhor atriz em série de comédia ou musical
Pamela Adlon, "Better things"
Alison Brie, "Glow"
Rachel Brosnahan, "The Marvelous Mrs. Maisel"
Issa Rae, "Insecure"
Frankie Shaw, "Smilf"

Melhor ator em minissérie ou telefilme
Jude Law, "Young Pope"
Kyle Maclachlan, "Twin Peaks"
Ewan McGregor, "Fargo"
Geoffrey Rush, "Genius"

Melhor atriz em minissérie ou telefilme
Jessica Biel, "The sinner"

Melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou telefilme
Anne Dowd, "Handmaid's tale"
Chrissie Metz, "This is us"

Melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou telefilme
David Harbour, "Stranger things"
Christian Slater, "Mr. Robot"
David Thewlis, "Fargo"

domingo, 10 de dezembro de 2017

PL►Y: Bingo - O Rei das Manhãs

Brichta: palhaço hardcore.

Acho que o público ficou surpreso quando indicaram Bingo - O Rei das Manhãs para concorrer a uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2018. É importante saber que para além das qualidades do filme (que fez sucesso de público por aqui) existem alguns fatores que pesam ainda mais nesta escolha estratégica. O primeiro é que trata-se da estreia como cineasta de Daniel Rezende, editor que já foi indicado ao Oscar pela montagem sensacional de Cidade de Deus/2002 e já participou da produção de vários filmes internacionais dirigidos por Walter Salles (Diários de Motocicleta/2004 entre outros), Fernando Meirelles (além do hit de 2002, também foi responsável de Ensaio sobre a Cegueira/2008), José Padilha (o remake de Robocop/2014) e tem no currículo até um ganhador da Palma de Ouro em Cannes que concorreu ao Oscar de melhor filme (o último grande filme de Terrence Mallick: A Árvore da Vida/2011), ou seja, o rapaz tem apelo de sobra para sensibilizar o voto da Academia. Por outro lado, o personagem que inspira o filme, o palhaço Bozo foi líder de audiência por décadas nos Estados Unidos, o que já cria uma referência para os gringos da época que o filme retrata, também colabora para esta empatia a presença de um personagem americano - mas este é achincalhado no filme, o que aponta para o maior desafio de Bingo: será que os votantes mais puritanos da Academia vão entender o humor do filme? Afinal, muita gente ainda fica chocada em descobrir que o primeiro homem que interpretou o famoso palhaço no Brasil tinha carreira em filmes de pornochanchadas, fumava, bebia e cheirava antes e depois de entrar no palco e interagir com crianças (isso sem falar no seu envolvimento  orgias e mulherada em geral - incluindo uma famosa deliciosamente interpretada por Emanuelle Araújo que, diferente dos outros personagens não teve o nome trocado no roteiro). Talvez os mais sensíveis não curtam o filme, mas todo o resto vai gostar de ver Vladimir Brichta dando o sangue (literalmente) por Augusto Mendes, um ator ambicioso cuja carreira nunca decolou até quebrar as regras do formato e perder as estribeiras num programa infantil. Neste ponto vem o que o filme tem mais interessante, quem cresceu nos anos 1980 vai identificar como naqueles anos o politicamente correto simplesmente não existia e, pela audiência, mesmo num programa infantil valia tudo - até colocar o clássico "Serão Extra" de Doutor Silvana & Cia para fazer as crianças dançarem (o que sinaliza bem como a cultura pop era, digamos, surpreendente). Como diretor, Daniel Rezende realiza uma estreia promissora, que mistura humor, drama e não tem medo de ficar pesado quando o roteiro pede. Em sua empreitada conta com um ator principal inspirado, que consegue retratar bem o desequilíbrio do personagem em  sua inegável ambição sabotada pelo próprio apetite pela autodestruição. Vale destacar ainda o grupo de coadjuvantes de respeito (destaque para Leandra Leal na pele da diretora do programa, que para os que conhecem a trajetória do verdadeiro Bozo tupiniquim imagina o que irá acontecer), o colorido,  a montagem esperta (e não poderia ser diferente) e a trilha sonora animada. A reconstituição faz Bingo funcionar como uma viagem no tempo - e nos faz perceber como o mundo ficou bem mais chato no século XXI. 

Bingo - O Rei das Manhãs (Brasil - 2017) de Daniel Rezende, com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lúcia Torre, Cauã Martins, Augusto Madeira, Soren Hellerup, Tainá Muller, Domingos Montagner e Pedro Bial. ☻☻☻☻

4EVER: Eva Todor

09 de novembro de 1919 ✰ 10 de dezembro de 2017

Só a história de Eva Fodor Folding já renderia um belo filme. Nascida em Budapeste na Hungria, Eva Todor veio com os pais para o Brasil em 1929. Filha de judeus húngaros envolvidos com o mundo artístico, aos onze anos ela começou a carreira de bailarina. Em 1934 foi aceita numa companhia de teatro e em 1950 montou sua própria companhia teatral, chamada "Eva e seus Artistas". Na década de 1940 ela se naturalizou brasileira. Mesmo famosa por seus trabalhos cômicos, Eva também se aventurou por papeis dramáticos e colheu elogios se tornando uma unanimidade entre o público  e a crítica de nosso pais. Em 80 anos de carreira, a atriz realizou mais de 30 trabalhos na televisão,  inúmeras peças teatrais e cinco produções cinematográficas. Seu trabalho mais conhecido no cinema foi na comédia Os Dois Ladrões (1960) ao lado de Oscarito e seu último trabalho na tela grande foi no sucesso Meu Nome não é Johnny (2008). Eva andava afastada do trabalho em decorrência do mal de Parkinson que a deixou reclusa sob os cuidados da família nos últimos anos. Com a saúde debilitada, a atriz faleceu aos 98 anos no Rio de Janeiro, em consequência de uma pneumonia. 

PL►Y: Dormindo com as Outras Pessoas

Brie e Jason: comédia de baixaria romântica. 

Exibido em alguns festivais de cinema independente, a comédia Dormindo com Outras Pessoas surpreendeu muita gente que esperava mais uma comédia romântica tradicional do típico casal que briga o filme inteiro para depois descobrir que se ama no final (e se o filme fosse eterno, você veria que eles continuariam brigando até um não aguentar mais a cara, a voz, o cheiro e tudo mais do outro). A surpresa ficou por conta do casal não brigar, mas das baixarias que os personagens falam todo o tempo. Perdi a conta de quantas piadinhas de conotação sexual foram ditas durante o filme, o ruim é que se uma vez ou outra a vulgaridade pode até provocar alguns risos na plateia, com o tempo começa a cansar. Para além deste ponto cansativo, a diretora Leslye Hadland consegue alguns pontos na construção de sua história ao abordar um reencontro de um casal que transou na época da faculdade (quase que acidentalmente, já que ela estava interessada em outro) e que se encontram vários anos depois. Jake (Jason Sudeikis) e Lainey (Alison Brie) nem eram amigos quando tiveram sua primeira noite de amor no campus, mas era impossível não perceber que havia algo em comum entre os dois. Como a vida não é perfeita, seguem cada um para o seu lado. Ele se torna o tipo de homem que não namora, mas coleciona parceiras sexuais. Ela está presa num relacionamento há tempos com um médico casado (Adam Scott) que compromete seu namoro com um rapaz cheio de si (Adam Brody). Como a vida amorosa dos dois não está nada bem, eles acabam se encontrando num grupo de ajuda para viciados em sexo e  se tornam bons amigos. Obviamente que todo mundo percebe que existe ainda uma fagulha entre os dois - e entre uma conversa aqui, uma abobrinha ali, os dois começam a questionar a forma como lidam com relacionamentos. É verdade que o filme tem alguns momentos bem esquisitos (como a cena em que Laney sensualiza com um grupo de crianças dançando numa festa infantil), tem algumas situações são subaproveitadas (o namoro de Jake com Amanda Peet é bem mais explorado do que de Lainey com Marc Blucas), mas debaixo de tudo até que existe uma história interessante, ao ponto de eu perceber a influência que Harry & Sally (clássico de 1989) no que vemos aqui. O problema é que se a aura "politicamente incorreta" era bem dosada no filme de Meg Ryan, aqui ela foge um pouco do controle, mas se no passado Meg simulava um orgasmo numa mesa de restaurante, aqui, Jake usa uma garrafa para ensinar à amiga como, digamos, aliviar a tensão quando está solitária. Sinal dos tempos. 

Dormindo com as Outras Pessoas (Sleeping with other People/EUA-2015) de Leslye Headland com Jason Sudeikis, Alison Brie, Amanda Peet, Adam Brody, Adam Scott, Natascha Lyonne e Katherine Waterston. ☻☻

PL►Y: Encontro Marcado

Bérénice e Anton: a tudo o que poderia ter sido. 

Anton Yelchin faleceu em junho do ano passado aos 27 anos num acidente dentro de sua própria garagem. Nascido em Leningrado na Rússia, Anton foi para os Estados Unidos ainda pequeno e começou na carreira de ator ainda menino em um episódio da série Plantão Médico quando tinha apenas onze anos de idade. No ano seguinte já protagonizava filmes para o cinema, chamando atenção como o menino que roubava a cena de Anthony Hopkins em Lembranças de um Verão (2001). Antes de falecer, Yelchin estava na melhor fase de sua carreira, aparecendo em quatro filme, uma rotina que o fazia despontar como uma das grandes apostas de Hollywood. Muitos de seus filmes recentes começaram a chegar no Brasil após sua morte precoce, como é o caso deste Encontro Marcado, que chega via Netflix. Esqueça que tentem vender o filme como uma comédia romântica, na verdade é um romance, só que com alguma gracinhas que não chegam a render risadas. O filme conta a história do jovem escritor Brian Bloom (Yelchin) - que decora a parede a casa com todas as cartas de rejeição editorial que já recebeu. Meio desanimado com os rumos da vida, sua vida muda quando ele encontra Arielle (Bérénice Marlohe), ex-modelo francesa que responde positivamente às investidas do rapaz, gerando novos encontros que alinham cada vez mais a sintonia entre os dois. Apesar do diretor investir num clima que brinca com os filmes noir neste início de romance, a surpresa vem mesmo quando o rapaz descobre que Arielle é casada e tem dois filhos, mas como mantém um relacionamento aberto com o esposo, não vê problema algum em se encontrar com o rapaz. Brian estranha a postura de Arielle, mas depois começa a se acostumar com a ideia de se tornar namorado de uma mulher comprometida. O problema é quando ele começa a ter outros planos para sua vida ao lado da francesa. Em sua primeira experiência como cinema, o diretor e produtor televisivo Victor Levin cria uma narrativa um tanto irregular, que necessita de todo o carisma de seus protagonistas para decolar, mas alguns exageros acabam comprometendo a fluidez da trama. Por vezes Brian é antiquado demais e a conflito derradeiro entre o casal tem uma resolução apressada demais. Embora o desenvolvimento da história pareça um pouco impessoal e distante, o arremate da história foi o que mais me surpreendeu, já que  consegue evocar diretamente a melancolia de alguns romances e seus significados tão particulares. Não sei se colabora para este meu olhar a imagem jovial de um ator que nos deixou tão cedo, de certa forma, Encontro Marcado deixa o sabor de tudo o que poderia ter sido e não foi. 

Encontro Marcado (5 to 7 / EUA-2014) de Victor Lenvin com Anton Yelchin, Bérénice Marlohe,  Olivia Thirlby, Lambert Wilson, Glenn Close e Frank Langella.  

sábado, 9 de dezembro de 2017

10 + 10: Melhores Pôsteres de 2017

Como é tradição aqui no blog, nossa primeira lista de fim de ano é composta pelos melhores pôsteres da temporada. Sempre lembro de como um pôster é importante, já que muitas vezes é o nosso primeiro contato com o filme - e nos motiva a vê-lo ou não - em alguns casos, o pôster consegue ser até melhor do que o próprio filme, especialmente por brincar com a nossa imaginação que começa a construir expectativas sobre uma obra que nem foi lançada! Em 2017 resolvi fazer diferente, já que 2017 foi um ano tão atribulado, tão corrido, desesperado e tudo mais que você possa imaginar, eu resolvi não me estressar em ter que escolher apenas 10 dos melhores pôsteres do ano e resolvi eleger os vinte melhores (e, acredite, outros belos trabalhos ficaram de fora). Antes que me joguem pedras, a diferença entre eles é apenas decimal e ficou assim: 

Sim! Eu vi a animação cult em sua versão original. Sim! Eu não gostei da versão Hollywoodiana! Sim! Este belo pôster com um dos personagens me enganou de que o remake de "Ghost in the Shell" poderia ser um filme digno. 

Outra versão de um clássico aparece aqui em nossa lista! Se é preciso ter coragem para refilmar um anime cult japonês, acho que precisa de muito mais para refazer um sucesso da Disney em versão de carne e osso. Ao que o pôster deixava claro, Bill Condon estava realmente se esforçando. 

18 "Game Night" de John Francis Daley e Jonathan Goldstein
Dois amigos que se reencontram regularmente para jogar e... terminam tendo que resolver um misterioso assassinato. O filme só estreia por aqui em março do ano que vem, mas,  julgar pelo pôster, a experiência promete ser divertida!

17 "Worthless" de Rob Hawk
A ideia da personalidade fractada pela imagem de um espelho está longe de ser um recurso dramático original, mas não lembro de um pôster que conseguisse fazer isso de forma tão marcante, especialmente quando se tem a esquecida Tara Reid estampada. 

Não fosse pelo detalhe apelativo do Baby Goot esta versão alternativa do cartaz dos heróis mais divertidos da galáxia poderia ter conseguido algumas posições mais elevadas. A ideia de apresentar o elenco e seus personagens em fitas K-7 foi simplesmente sensacional!

15 "Every 40 Years" de Eric Goldrich e Benjamin Friedberg
Gostei muito da ideia da montagem em vinil da história de uma banda que resolve voltar após quarenta anos de aparecer nas paradas da Billboard.  O filme acompanha o retorno da banda Gunhill Road e só o pôster já me parece emocionante. 

14 "Ex Libris: New York Public Library" de Frederick Wiseman
Imaginem um documentário de três horas e meia sobre uma biblioteca. Agora imagine mostrar como este filme pode ser interessante para uma geração cada vez mais interessada em celulares e suas redes sociais. Agora olha este pôster. Dá para resistir?

13 "Human Flow" de Ai Weiwei
O controverso artista multimídia chinês resolveu fazer um filme de partir o coração sobre a crise de refugiados ao redor do mundo. O pôster  simples, que parece uma pintura, permite várias leituras e ilustra o documentário que já está em cartaz no Brasil. 

Ao ver o pôster, quem não teve a impressão de que o novo filme de Ana seria tão legal quanto seu filme de estreia (que também cravou seu pôster na lista de melhores em 2014). Quem assistiu os dois percebeu que não foi bem assim... mas o pôster é uma uma pérola pop (e me enganou direitinho). 

11 "A Forma de Água" de Guillermo Del Toro
Um dos fortes candidatos da próxima edição do Oscar tem um cartaz que ilustra bem as intenções dos seu diretor: criar um belo conto de fadas sobre o amor. O romance entre uma mulher muda  e uma criatura marinha já recebeu o prêmio de Melhor Filme no Festival de Veneza e promete muito mais. 

Um homem morre num acidente e passa a viver como fantasma na casa em que morava com a sua amada até que... este é um romance triste entre a vida e a morte - ideia tão simples quanto ousada (assim como ter no cartaz um ator ganhador do Oscar2017 - Casey Affleck - coberto por um lençol).

09 "Loveless" de Andrey Zvyaginstsev
Candidato da Rússia a uma vaga no Oscar de Filme Estrangeiro, Loveless é a triste história de um garoto que desaparece em meio as discussões dos pais pelo divórcio. Quem viu garante que o filme é de partir o coração - e a imagem do pôster exemplifica bem o motivo. 

O filme de Wright se tornou um dos queridinhos do ano com sua história de um motorista de assaltos doido para largar a vida bandida pelo seu amor. Até aí nenhuma novidade, mas o tem o ritmo de sua trilha sonora - e o pôster já deixava claro que o filme seria bem  cool - e digno de continuação.  

07 "Thelma" de Joachin Trier
A história de uma jovem universitária que em meio a colapsos nervosos descobre ter habilidades especiais é o candidato da Noruega ao posto de concorrente ao Oscar de Filme Estrangeiro - e a assinatura de Trier mostra que o filme é bem mais complexo do que você imagina. 

06 "Proud Mary" de Babak Najafi
O iraniano Najafi bebe na fonte dos filmes Blaxploitation para contar a história de uma personagem que é herdeira de um império do crime em Boston. No pôster, Taraji P. Henson encarna o papel de musa com um blackpower estilizado e, prova mais uma vez, que dá conta de ser uma estrela. 

05 "Lego: Ninjago - O Filme" de Charlie Bean, Paul Fisher e Bob Logan
Baseado em uma série Lego para TV, Ninjago não alcançou o sucesso esperado nos cinemas, mas isso não impede que essa capa de toque felino seja uma graça (e quem já tentou proteger brinquedos do gatinho sabe do que estou falando...)

04 "Eu, Tonya" de Craig Gillespie
Margot Robbie está cotada para o Oscar por seu trabalho como a ex-patinadora artística que viu a carreira ir para o ralo após um incidente violento. O saboroso cartaz francês do filme já mostra que a história de Tonya Harding estava longe de ser um primor de delicadeza. 

Shaymalan ressuscitou para o mundo do cinema com a história do sujeito com mais de uma dezena de identidades (e a ideia deu tão certo que renderá novos filmes interligados com outro sucesso do diretor). Os conflitos sofridos por seu protagonista aparecem neste pôster de estilo Hitchcockiano.  

02 "O Sacrifício do Servo Sagrado" de Yorgos Lanthimos
O filme ainda aguardava sua primeira exibição no Festival de Cannes quando começaram a divulgar este cartaz que me provoca arrepios. Dizem que o filme mais cruel do grego Lanthimos faz jus ao seu cartaz com duas camas de hospitais vazias e algo de sombrio padecendo sobre seu personagem. 

Também acho que a Marvel exagerou no humor da nova aventura do Deus do Trovão nos cinemas, mas o que poderíamos esperar de um filme de heróis assinado por Taika Waititi? Pelo menos o pôster com sua sobreposição de personagens, formas e cores vibrantes é uma verdadeira obra-prima! 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

NªTV: Dark

Louis: mistérios entre o passado, o presente e o futuro. 

No universo em expansão das séries de TV prender a atenção é algo cada vez mais importante, afinal, no meio de tanta concorrência, conseguir manter a expectativa para o capítulo seguinte é uma verdadeira proeza quando há tanta promessa de coisa interessante por aí. Infelizmente não tenho muito tempo para ver tantas séries e filmes quanto eu gostaria. Sendo assim, devo selecionar muito bem ao que pretendo acompanhar por algumas horas do meu dia. Por isso mesmo a série alemã Dark, produzida e exibida pela Netflix, já mereceria algum destaque por aqui. A série me chamou atenção quando li algumas comparações com Stranger Things, mas ainda as semelhanças ficam só no início da história. Além disso, ela é europeia, ou seja, não faz questão de ter personagens simpáticos e alívios cômicos para fisgar a audiência, pelo contrário, ela abraça a densidade de cada um deles. Em seus dez capítulos, Dark surpreende por sempre dar uma rasteira no espectador quando ele pensa que está entendendo o que está acontecendo - e cada vez que você consegue amarrar uma ponta, uma outra surge mais misteriosa e perturbadora e, somando todas essas pontas, a trama segue até o desfecho e a vontade de ver o que ela reserva para a próxima temporada. No entanto, a série sabe se desenvolver num ritmo preciso,  revelando seus segredos aos poucos, o que já faz o espectador ficar satisfeito na primeira temporada (que devorei em dois dias). A série acompanha os acontecimentos em uma pequena cidade alemã, cuja economia gira em torno de uma usina nuclear prestes a ser desativada. Logo de início vemos o suicídio de um personagem e uma carta misteriosa com data para ser lida por seus parentes. O roteiro gira especialmente em torno de quatro famílias que sustentam uma relação complicada entre os adultos da cidade - muitos deles cresceram juntos, nutrindo amores platônicos, guardando segredos e sobrevivendo a fantasmas, especialmente pelo histórico de crianças desaparecidas por ali. Existe uma suspeita de que o sumiço das crianças tenha relação com uma caverna no meio da floresta, mas quando um grupo de amigos adolescentes decidem desbravar o local, outra criança desaparece. Enquanto personagens somem, outros  mais misteriosos surgem e instigam ainda mais. A história começa em 2019 retrocede para 1986 e depois para 1953 de forma não linear, criando um panorama interessante sobre os acontecimentos fizeram a história daquele lugar e, assim, desbrava relações surpreendentes entre passado, presente e futuro. Dark conta com um elenco desconhecido, mas capaz de atuações sólidas embaladas por uma das melhores trilhas sonoras dos últimos tempos.  Voltada para o público mais adulto, o programa não tem medo de complicar sua história e, por vezes, não oferecer alívio para a plateia. Fica difícil falar sobre a história sem estragar a grata surpresa que é desbravar esta criação de Baran do Odar (diretor) e Jantje Friese (roteirista), mas posso contar que o fio condutor da história é a tentativa do jovem Jonas (Louis Hoffman) entender o que está por trás do suicídio do pai. Dali em diante sua relação com os mistérios da tal caverna se estreitam e ele aprende que tudo o que acontecer dali para frente terá grandes consequências na vida de todos ao redor. É verdade que o grande número de personagens pode confundir o espectador, especialmente pela forma como eles se misturam ao longo da trama, mas, até neste ponto, a série se beneficia de ser uma atração da Netflix. Sem a necessidade de esperar uma semana para ver o capítulo seguinte, ver todos os episódios em seguida é um deleite (especialmente a partir do terceiro), assim como não depender do horário de reprises para rever qualquer dúvida que apareça pelo meio do caminho. Ver Dark, com o perdão do trocadilho, é como caminhar no escuro e que delícia é a sensação de não fazer a mínima ideia do que poderá acontecer no minuto seguinte - quiçá na próxima temporada. 

Dark (Alemanha/2017 ) de Baran de Odar e Jantje Friese com Louis Hoffman, Maja Schöne, Ulrich Nielsen, Paul Radom, Deborah Kaufmann e Andreas Pietschmann.  

PL►Y: 50 Tons Mais Escuros

Jamie e Dakota: o menos robótico e a mais desinibida. 

Devo ter citado uma dezena de vezes aqui no blog o conselho que meu amigo Osmar sempre dizia quando trabalhamos juntos: "fuga de um best-seller feito o diabo foge da cruz". Talvez alguma vez tenhamos refletido sobre os filmes que são frutos destes livros que colecionam milhões de fãs ao redor do mundo, afinal, como centenas de adaptações já comprovaram, este tipo de produção costuma não ter muito compromisso com a arte cinematográfica (ou com o livro em si), mas com o fã e, nada mais complicado, do que criar uma obra diante da necessidade de conciliar a visão que milhões de pessoas tiveram sobre um determinado livro. É verdade que um diretor de pulso firme é capaz de fazer um bom trabalho de um livro de sucesso (assim como de qualquer outra coisa, como uma receita de bolo, por exemplo), mas geralmente é o estúdio que compra os direitos autorais e prefere contratar um operário que não dê muito trabalho para fazer o que se pede - e como já torrou alguns milhões com direitos autorais, contratar atores modestos também ajuda (até mesmo pelo motivo de  atores consagrados terem medo de se queimar com um material controverso, afinal, como já foi dito, lidar com fã de best-seller é um verdadeiro vespeiro). Não por acaso, sempre que vejo qualquer citação à 50 Tons de Cinza eu lembro de uma amiga, a Mercedes, que entre todos os suspiros, arrepios e outras coisitas que a trilogia de E.L. James provocava, Mercedes sempre dizia cair na gargalhada com os livros e que, no fundo, tudo era uma grande comédia. Já no primeiro filme dedicado ao romance da mocinha Anastasia Steele (Dakota Johnson) com o milionário Christian Grey (Jamie Dornan) eu me perguntava o que a mulherada achava de tão excitante naquele amontoado de clichês de uma típica história de Cinderela que encontra um príncipe mais hardcore - já que o moço é chegado em uma pegada sadomasoquista. Se no primeiro filme tudo era brega e superficial, no segundo tudo ficou ainda mais sem graça. Talvez a opção de trocar a diretora Sam Taylor-Johnson por James Foley tenha prejudicado filme, já que  a diretora pelo menos conseguia manter um olhar curioso sobre o mundo em que sua heroína se metia. Foley (um cara que já fez de tudo, clipes, filmes, séries... com sucesso ou não) disfarça sua direção mais do que convencional com uma pitada e outra de brinquedinhos sexuais, cenas de sexo com trilha cafona (tipo cena de novela, entende?) e um punhado de situações sempre subaproveitadas. Entre uma transa e outra, Anastasia (nome de princesa russa e sobrenome de autora de best-sellers românticos) e Christian Grey (que traduzindo seria um "cristão cinzento") conhecem o Médico e o Monstro, ou melhor, Jack Hyde (Jekyll e Hyde, sacaram?), precisam lidar com traumas de Grey, uma ex-namorada desequilibrada, a ascenção na carreira de Ana, a presença da Mrs. Robinson (Kim Basinger) - que ensinou ao Grey o valor de um chicotinho - e até um acidente aéreo... mas não se preocupe, tudo é resolvido rapidinho para ninguém ficar angustiado. Em quase duas horas de filme o esforço para ser completamente inútil é notável! No entanto, vale destacar que Dornan está menos robótico na pele do anti-herói romântico da história e Dakota está mais desinibida do que antes, faltou só um um roteiro que prestasse. Não existe tensão, romantismo ou tesão que resista a um texto tão fuleiro. Se Hollywood não consegue fazer nem um filme sobre sexo ser interessante, a coisa está realmente complicada por aquelas bandas. Eu até pensei que poderiam tentar melhorar a trilogia no último episódio e colocarem Catherine Breillat (dos polêmicos Romance/1999 e Anatomia do Inferno/2004) para colocar uma pimentinha no romance dos dois, mas no fundo, os tons de cinza são apenas de brincadeirinha e seguem desbotados para mais uma parte dirigida por James Foley. Dá para pelo menos colocar uma música que não seja R&B meloso no próximo filme? E evitar aquelas sincronias risíveis que aparecem neste aqui? Desde já, agradeço. 

Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker/EUA-China/2017) de James Foley com Dakota Johnson, Jamie Dornan, Marcia Gay Harden, Kim Basinger, Rita Ora e Eric Johnson. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

PL►Y: Ratos de Praia

Harris e seus amigos: estreia promissora. 

Frank (Harris Dickinson) é um adolescente que vive no Brooklyn com a mãe, a irmã caçula e o pai  preso à cama por tempo incerto. Frank costuma usar drogas e ir á praia com os amigos, ele também realiza pequenos furtos e, para passar o tempo, começou a frequentar um site gay de relacionamentos onde procura por homens mais velhos que se interessam por ele. A história de Frank poderia ser apenas mais um filme voltado para um público bem específico se não contasse com a direção incisiva da cineasta Eliza Hittman, que enxuga tudo que uma história destas pode ter de excesso e cria um filme tão sensível quanto doloroso de assistir. Outro destaque do filme é o jovem ator Harris Dickinson (que está indicado ao Independent Spirit de Melhor Ator e já está com outros três filmes para estrear em breve), o jovem dá conta de várias nuances complicadas de seu personagem. Não deixa de ser curioso que Frank sempre diga que ainda não sabe muito bem do que gosta, mas também parece manter o relacionamento com a namorada como uma espécie de obrigação para com a masculinidade padronizada que aprendeu. Basta ver que a aparência de Frank é bastante semelhante com a de seus colegas, o corpo esguio, a musculatura jovial, o cabelo curo, camiseta e bermuda larga. A linguagem corporal e oral de todos é bastante semelhante, como se a identidade de cada um se perdesse no grupo, mas é distante de seus companheiros que Frank revelas suas inseguranças, a sensação de que existe algo faltando e que sabe exatamente onde procurar, embora não saiba se quer realmente encontrar. A cada encontro com os colegas, a cada encontro com caras da internet ou discussões com a mãe (que parece estar no limite faz tempo),  parece que o personagem se revela enquanto alguns pedaços ficam pelo caminho. É verdade que existem duas cenas discretamente ousadas no filme, alguma nudez masculina, mas o que causa realmente impacto são os pensamentos do protagonista que podem ser vistos através dos olhos de Harris/Frank, especialmente quando depois de um golpe dos amigos ele volta à cena do crime como se fosse para pedir desculpas, não apenas para a vítima, mas para si mesmo. Ratos de Praia é um filme sobre a descoberta da sexualidade junto à construção da identidade e tudo o mais que elas podem deixar no caminho. 

Ratos de Praia (Beach Rats/EUA-2017) de Eliza Hittman com Harris Dickinson, Madeline Weinstein, Kate Hodge, Neal Huff e Harrison Sheehan. 

CATÁLOGO: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

Vlad, Ana e Laura: esqueça a pipoca. 

Existem filmes os quais eu imagino a pessoa indo assistir, comprando um saco de pipoca e... não fazendo a mínima ideia do que fazer com aquilo. Um destes casos é o romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias, que completou dez anos do seu lançamento no Festival de Cannes - de onde saiu com a Palma de Ouro de Melhor Filme (além do prêmio da Federação Internacional de Críticos e o prêmio Educacional do Festival), no entanto, é preciso estar num estado bastante equilibrado para assistir ao filme que é um desafio até para os mais experientes em dramas densos europeus. No Brasil a coisa complica mais ainda, já que o filme gira em torno de um tema polêmico: o aborto. Por isso mesmo, torna-se louvável a postura do diretor Cristian Mongiu que não toma partido de campanhas pró ou anti aborto, apenas conta sua história desagradável e deixa que o público tire suas próprias conclusões. O longa é filmado de forma quase documental, mesmo quando começa e a câmera parece ainda  procurar a história que quer contar, rodeada por universitárias que no ano de 1987 dividem um alojamento na Romênia. Somos apresentados a muitas jovens, mas a câmera parece mais interessada em Otilia (Anamaria Marinca), que divide o quarto com Gabi (Laura Vasiliu) e que poderiam estar em apenas mais um dia comum de suas vidas. Otilia vai comprar produtos de beleza com uma colega, conversa sobre dois gatinhos que apareceram no prédio, encontra com o namorado (Alexandru Potocean) - que a convida para o jantar de aniversário de sua mãe - e... Otilia vai se encontrar com  o soturno Domnu (Vlad Vianov). Não fica muito claro o que os dois planejam, apenas que Gabi também está envolvida. Domnu faz abortos clandestinos e sua história com as duas amigas já começa  complicada, já que algumas de suas exigências não foram atendidas, depois piora, já que algumas mentiras de Gabi deixam as duas em maus lençóis (literalmente). A cena em que os três personagens se encontram no quarto de hotel para realização do aborto está entre as mais frias que já apareceram numa telona, colabora muito para isso a atuação de Vlad Vianov que cria diálogos de pura tensão junto com as suas parceiras de cena. Ali, em poucos minutos, o espectador entra em contato com todos os horrores envolvidos naquele procedimento, todas as consequências que podem sofrer (prisão para os três, a morte do feto e de Gabi por uma hemorragia desenfreada), além de outras marcas psicológicas que aparecem pelo caminho. Aparecem desconfianças, suspeitas, desconforto e a relação de Otilia com o namorado e a amiga dificilmente será a mesma depois do pesadelo que atravessam. Não satisfeito, o filme tem ainda aquela jornada pela noite escura para se livrar do que promete ficar na mente do espectador por um bom tempo e, não duvido, que a última cena, com aquele nó na garganta, tenha acontecido com muita gente que deixou o pacote de pipoca intacto ao sair do cinema. 4 meses, 3 semanas e 2 dias é um filme realmente desagradável de assistir e, por isso mesmo,  com toda sua aspereza crua, torna-se bastante necessário. 

4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile/Romênia-Bélgica/2007) de Vlad Vianov com Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Vianov e Alexandru Potocean.