quarta-feira, 31 de julho de 2013

DVD: Anna Karenina

Keira e Aaron: excelência pela metade. 

Joe Wright é um diretor de muitas ideias, o curioso é que elas funcionam melhor num campo que costuma zelar pela mesmice: o filme de época. Quando resolve ser contemporâneo seu cinema costuma decepcionar, basta ver os tropeços em O Solista (2009) e Hannah (2011) que o levaram a buscar abrigo na obra clássica de Leon Tolstoy. Eu já perdi a conta de quantas versões Anna Karenina (contando as produções para a TV, acho que a de Wright é a sétima), diante de tanta concorrência, Wright precisava ter uma assinatura diferencial perante a consagrada obra sobre adultério na aristocracia russa do século XIX - ele consegue um resultado esteticamente exuberante. A grande ousadia do filme está nos momentos em que Wright filma num palco, com movimentos de cena bem marcados como uma coreografia e cenários que se constroem diante da câmera em movimentos belos e inquietantes. O problema é que o diretor parece se cansar da própria proposta e aos poucos transforma o filme numa obra cada vez mais convencional - especialmente depois que Anna cai de vez nos braços de seu amante. Anna (Keira Knightley, a musa  do diretor, mas uma escolha arriscada para o papel) é casada com Karenin (Jude Law, mais uma vez querendo ficar feio) e tem um filho pequeno. Numa viagem para ajudar o irmão Oblonsky (Matthew MacFadyen) na crise no casamento com Dolly (Kelly MacDonald) ela conhece uma Condessa (Olivia Williams) e o filho desta  que serve ao exército, Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). É visível que existe uma faísca entre os dois - que irá atrapalhar ainda mais as intenções casamenteiras da mãe do rapaz. É visível que Wright se esforça para condensar em pouco mais de duas horas a grande quantidade de personagens e subtramas que aparecem nas mais de 800 páginas da obra de Tolstoy. O resultado pode não ser perfeito, mas está longe se ser um desastre. É curiosa a forma como o diretor sobrepões os relacionamentos amorosos que aparecem na trama como se cada um deles refletisse uma perspectiva diferente sobre o mesmo tema, pena que não dispõe de tempo suficiente para desenvolvê-las como deveria. O trio principal consegue ser bastante eficiente. Jude Law tem seu melhor momento em muitos anos num sutil Karenin, seus dilemas diante dos sentimentos contraditórios da traição da esposa conseguem um retrato interessante na pele do ator. Aaron Johnson está completamente distante de seu famoso Kick Ass (2010) e prova mais uma vez que é um ator versátil merecedor de ser levado a sério na safra atual. Obviamente que  a maior estrela do filme é Keira Knightley, que retoma a sua parceira com Wright (que lhe garantiu sua primeira indicação ao Oscar pelo memorável Orgulho e Preconceito/2005 e quase chegou lá com Desejo e Reparação/2007), mas aqui as indicações aos prêmios ficaram só na vontade (apesar do filme ter ganho o Oscar de figurino e concorrido em outras três categorias). Em alguns momentos tive a impressão que a atriz se desconecta da personagem e parece apenas uma variação de outros personagens de época que já encarnou. Ainda assim, Knightley merece reconhecimento por abraçar as nuances menos nobres de sua personagem sem firulas. Muitos criticam que a obra  de Wright deixou a profundidade dos personagens em segundo plano, privilegiando a preocupação com os cenários e figurinos. Não é para tanto. É verdade que o filme busca um apelo pop que nunca se concretiza, mas não posso dizer que as interpretações do elenco não garantem nuances interessantes ao filme. Acho que o problema maior é o roteiro desigual do consagrado Tom Stoppard, já que a partir do momento em que Karenina assume seu affair proibido, a produção se torna um filme diferente do que vimos em sua primeira metade. Com menos energia na segunda metade, Joe Wright perdeu a chance de fazer outro filme inesquecível.

Anna Karenina (Reino Unido/2012) de Joe Wright com Keira Knightley, Aaron Taylor Johnson, Jude Law, Kelly MacDonald, Emily Watson e Mattheyw MacFadyen. ☻☻☻ 

DVD: Amor

Georges e Anne: quanto amor você suporta?

É público e notório que fiquei extremamente surpreso quando Amour de Michael Haneke foi indicado a cinco categorias no Oscar deste ano: Filme do ano, Diretor, Atriz (Emanuelle Riva), Roteiro Original e levou para casa o de filme estrangeiro (o filme foi indicado pela Áustria, pátria de Haneke). A carreira do filme começou muito bem com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mas isso não é uma novidade na carreira de Haneke. Com filmes do porte de Violência Gratuita (1997) e A Professora de Piano (2001) no currículo, o diretor ficou conhecido pela pouca fé na humanidade - o que está longe de ser um ponto positivo perante a Academia de Hollywood. Interessante é como a repercussão do filme levou muita gente aos cinemas esperando a história apaixonada de dois velhinhos e se depararam com um filme lento, de narrativa seca, poucos cortes, praticamente dois atores em cena o tempo inteiro num único cenário até o final de dar nó na garganta. Quem não estava acostumado à estética do diretor estranhou e achou que o filme era um grande produto de marketing, já quem conhece Haneke sabe que o longa é um primor de sutilezas entre a filmografia do diretor - mais até do que no seu consagrado longa anterior A Fita Branca (2009) - a começar pelos diálogos, que na maioria das vezes não significam nada diante das ações dos personagens defendidas pelas estupendas atuações do casal protagonista (que renderam inúmeros prêmios ao filme). Georges (Jean-Louis Trintgnant) e Anne (Emanuelle Riva) são veteranos professores de música e já passaram dos oitenta anos. Vivem sozinhos num casarão onde utilizam somente quatro cômodos e raramente recebem visitas - até mesmo as da filha do casal, Eva (Isabelle Huppert), acontecem raramente. Os dois vivem uma rotina onde um faz companhia para o outro sem grandes sobressaltos, até o momento em que Anne começa a ter atitudes estranhas. Logo será diagnosticada uma doença que irá mudar a vida do casal. Curioso é como Haneke se afasta dos clichês do gênero, Anne nunca posa de vítima e seu orgulho pessoal afeta bastante a forma como passa a lidar com as pessoas diante de sua nova condição, enquanto Georges sempre mostra-se prestativo, até mesmo com algumas atitudes ríspidas da esposa. Os dois se veem sozinho numa corrente de situações que sabem não ter retorno ou saída agradável e a situação se agrava cada vez mais até o final. Haneke desenvolve seus personagens com brilhantismo, sempre preparando o espectador para o que está por vir. Cada diálogo aparentemente inofensivo é o anúncio de um ato revelador ao final de cada cena, até o momento em que Georges está à beira da exaustão (é magnífica a cena em que Eva mostra-se desperta de sua letargia e o pai, já cansado, não consegue controlar as palavras diante dela). Trintgant e Anne tem belos momentos em cena e, às vezes, até com um humor inusitado (como a cena em que Anne perde todo o apreço por um CD que ganhou de presente). Haneke parece guiar o espectador ao limite do amor de seus personagens, onde ações podem soar tão libertadoras quanto covardes. Curiosamente é o auge desse paradoxo, que serve ao desfecho do filme, que perde-se a chance do filme ser surpreendente na filmografia do diretor. Ainda assim, cenas como a do pombo visitante mostra porque um cineasta como Michael Haneke é mais do que necessário no cinema atual. 

Amor (Amour/França-Alemanha-Áustria/2012) de Michael Haneke com Emanuelle Riva, Jean-Louis Trintgnant, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud. ☻☻☻☻

segunda-feira, 29 de julho de 2013

MOMENTO ROB GORDON: THE SMITHS NO CINEMA

Se não houvesse sido cancelado (por motivos pessoais) o Show do Morrissey no Brasil começariam amanhã em São Paulo. Como a passagem do ex-vocalista do The Smiths ficou só na vontade de reembolso, o Diáriw Cinéfilo resolveu curar a mágoa destacando cinco momentos em que a clássica banda dos anos 1980 contribuiu com a história do cinema:

5 - CURTINDO A VIDA ADOIDADO (1986)
A versão instrumental de Please, please, please, let me get what i want (feita pelo grupo The Dream Academy) caiu como uma luva num dos momentos mais tranquilos da jornada de Ferris Bueller pela cidade. O filme de John Hughes utiliza a suave melodia para fazer os personagens interagirem com as obras presentes num museu. Curiosamente, a música original foi lançada como B-side do single William, It was really nothing em 1984 e apareceu em algumas coletâneas do grupo. Curioso é que tornou-se uma das canções mais regravadas da banda, passando pelos instrumentos de Franz Ferdinand, The Decemberist, Ok Go, She & Him (versão que é o toque de celular de minha irmã) entre outras. 

4 - 500 DIAS COM ELA (2009)
Alguém é capaz de resistir a qualquer pessoa que cante os versos de There is a light that never goes out? A música que marcou uma paixão de minha adolescência serve para embalar o encontro do cultuado casal Tom (Joseph Gordon Levitt) e Summer (Zooey Deschanel) neste filme de Marc Webb. A música do elogiado álbum The Queen is Dead (1986) serve para aproximar o casal e deixar a cena do elevador ainda mais memorável. Não satisfeito, o longa ainda conta com a versão original de  Please, please, please, let me get what i want (e a versão ainda mais suave desta canção na voz de Zooey com a banda She & Him)

3 CLOSER (2004)
Eu nunca teria imaginado que The Smiths serviria para trilha de cena de pole dance, mas How Soon is Now? com suas guitarras distorcidas e sonoridade diferente do repertório da banda caiu como uma luva para a emblemática cena em que os personagens de Natalie Portman e Clive Owen se encontram numa boate de striptease e travam um dos melhores duelos verbais do texto de Patrick Marber. Também lançada originalmente como B-side do single William, It was really Nothing, o sucesso garantiu lugar entre as faixas do álbum Meat is Murder (1985), segundo álbum da banda. A faixa ficou famosa por sua longa extensão (a original tem quase sete minutos) e alguns críticos a consideram um dos maiores clássicos dos anos 1980. 

2 - AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (2012)
Chega a enjoar quantas vezes a música Asleep é mencionada no filme de Stephen Chbosky. Sendo a música favorita de Charlie (Logan Lerman), o protagonista do filme, a música se destaca numa trilha que conta ainda com clássicos de David Bowie, New Order e até do musical The Rocky Horror Show. A melancólica canção foi lançada como B-side da clássica The Boy With A Thorn in His Side do álbum The Queen is Dead (1986) e tornou-se uma das raridade mais queridas da banda após ser lançada em coletâneas. 

1 - A FESTA NUNCA TERMINA (2002)
Um dos meus filmes favoritos de Michael Winterbotton retrata o cenário roqueiro do final da década de 1970 até os anos 1990 em Manchester, período em que  passou pelas cultuadas mãos do produtor Tony Wilson (Steve Coogan) bandas do porte de Joy Division, Happy Mondays e New Order. O que os Smiths tem a ver com isso? A banda é contemporânea do selo de Wilson (a Factory Records) e do badalado Hacienda Club e ganha destaque em um momento revelador em que Wilson, diante de Jesus Cristo, confessa seu maior pecado: não ter contratado o The Smiths! Senhor, tenha misericórdia! Ele não sabe o que faz!

DVD: O Planeta Solitário

Hani e Gael: contemplando o nada em belas paisagens. 

Nica (Hani Furstenberg) e Alex (Gael Garcia Bernal) formam um casal que resolve colocar a mochila nas costas e caminhar pela Cordilheira do Cáucaso na divisa da Europa com a Ásia. Eles contam com a companhia de um guia para a jornada e em meio às belas paisagens a câmera persegue a intimidade do casal em cenas triviais para aproximá-lo do público. Não acontece muita coisa até que lá pela metade do filme o trio é surpreendido por um grupo de homens armados e num reflexo inesperado, Alex coloca Nica como escudo para defendê-lo de um possível tiro. A cena poderia revelar algo mais sobre o casal aparentemente feliz, mas a diretora prefere sugerir uma crise com longos silêncios que parecem caminhar para mais uma hora de quase nada. A cena de defesa de Alex é a melhor cena de um filme que caminha para lugar algum. Eu poderia falar sobre os planos abertos, a miudeza do ser humano, a solidão consigo mesmo perante a natureza embriagante... mas a melhor crítica que li sobre o filme o comparava a um borrão de Rorschach, onde o espectador pode projetar nele o sentido que quiser. Isso pode fazer a glória dos intelectualóides, mas não afasta a obra do completo vazio. O Planeta Solitário é forte candidato ao filme mais sacal dos últimos anos. Exibido nos festivais de Cannes, Toronto e Sundance, dificilmente o filme receberia alguma atenção se não fosse estrelado pelo ídolo mexicano Gael Garcia Bernal. Pode se dizer que escalar o ator foi a grande esperteza da diretora Julia Loktev, já que Bernal é o tipo de ator que consegue estar bem até quando não tem nada para fazer em cena. A coisa deu tão certo que lembro de alguns críticos ensandecidos chegaram a cogitar indicações ao Oscar para o filme - sinceramente, não lembro da Academia ter criado a categoria melhor sonífero. Dificilmente os elogios irão além das paisagens exibidas ou os tons da fotografia bem cuidada, já que não existe muito mais do que isso em cena. As cenas soam improvisadas e os personagens nunca se definem, não sabemos quem são, de onde vem, o que fazem, sabemos apenas que vivem um relacionamento e que o clima de carinhos vai para o vinagre quando Alex age em nome da autopreservação. Há o ensaio de uma traição, nudez, um toque sexual aqui e outro ali e o filme termina tão oco quanto começou. Poucas vezes vi uma perda de tempo tão grande quanto isso, o incrível é que foi preciso três pessoas para escrever uma história que nem existe. Não tenho nada contra filmes contemplativos, mas O Planeta Solitário tem menos a contemplar do que um conjunto de cartões postais. Por desafiar a paciência do espectador, Julia Loktev foi até indicada a prêmios de direção por essa picaretagem que poderia ser a chance de explorar  a estranha sensação de sentir-se só ao lado de quem se ama. Acho que isso não é nem uma resenha, mas uma advertência.

O Planeta Solitário (The Loneliest Planet/EUA-Alemanha/2012) de Julia Loktev com Gael Garcia Bernal, Hani Furstenberg e Bidzina Gujabidze. #

sábado, 27 de julho de 2013

DVD: O Idiota do Meu Irmão

Rudd: idiotas são os outros. 

O Idiota do Meu Irmão é um daqueles filmes em que o nome só inspira desconfiança. Sorte que com alguns minutos de exibição o filme ganhou minha simpatia - especialmente pela atuação de Paul Rudd que consegue deixar claro que seu personagem não tem nada de idiota. Apesar de não considerar o personagem como tal eu entendo o motivo da produção tratá-lo de forma tão pejorativa. Ned (Rudd) é um sujeito desencanado que não se preocupa muito com o que a maioria das pessoas considera importante: dinheiro, carreira, status, ser popular... o cara só quer estar bem consigo mesmo. E daí se ele não tem grandes ambições? A impressão é que se ele tiver uma plantação de produtos orgânicos para vender na feira e prover o sustento ele já está feliz. Não vejo problema nisso, para falar a verdade "o problema" é o pacote formado por suas três irmãs que estão sempre projetando a felicidade em alguma coisa que não existe concretamente. Apesar do páreo ser duro o prêmio da mais chata vai para Miranda (Elizabeth Banks com cabelo esquisito), que está prestes a tornar-se entrevistadora da Vanity Fair mas é tão egocêntrica que não percebe quando alguém gosta dela. O segundo lugar vai para a submissa Liz (Emily Mortimer) que casou com um pedante documentarista (Steve Coogan) e que está tão ocupada tratando o filho de sete anos como um adulto em miniatura que nem percebe que está sendo traída. A medalha de bronze fica para Natalie (Zoey Deschannel) que ama a namorada lésbica (Rashida Jones), mas não se importa de flertar com um amigo pintor (Hugh Dancy). Ned terá que conviver com as três depois que é preso por vender maconha para um policial e ser liberto pelo bom comportamento. A vida do personagem muda quando volta para casa e vê que a namorada colocou outro homem dentro de casa - e para completar ela não permite que Ned visite o cachorro de estimação. Ned acaba indo morar com a mãe e voltando a conviver com as irmãs, mas não demora a perceber que existem algumas coisas que merecem ser resolvidas na vida das três. Pelas descobertas dele acabam acontecendo alguns esclarecimentos que são vistos como mal entendidos. Apesar de todo mundo achar que Ben é um "sem noção" ele é o único que parece saber conviver com as adversidades que aparecem em seu caminho - algo bem diferente do que faz suas irmãs que preferem culpá-lo pelos apuros que criam ao invés de enfrentá-los e assumir responsabilidades. É verdade que o roteiro está descaradamente do lado do irmão "injustiçado" pela vida, mas o filme garante alguns momentos que nos fazem pensar sobre o que é prioridade na vida de cada um. O filme poderia ter um final mais elaborado do que o xilique durante o jogo em família e a solução para a insatisfação de Ben com a família é resolvida de forma tão ligeira que não consegue nem fazer cócegas. Ainda assim, o filme é a prova de que Paul Rudd dá conta de um papel mais emocional (o de professor em As Vantagens de Ser Invisível/2012 também conta) do que os que tem enfrentado atualmente. Pode não ser um filme inesquecível, mas é melhor do que o título faz parecer, sendo uma despretensiosa dramédia para assistir num fim de tarde.  

O Idiota do Meu Irmão (Our Idiot Brother/EUA-2011) de Jesse Peretz com Paul Rudd, Elizabeth Banks, Emily Mortimer, Steve Coogan, Adam Scott, Zooey Deschannel e Rashida Jones. ☻☻☻

DVD: Nota de Rodapé

A nora, o filho e o pai: diferentes paradigmas em questão. 

A relação entre pais e filhos costuma gerar filmes memoráveis quanto é bem explorado. Nota de Rodapé é um desses casos. Dirigido por Joseph Cedar (que é nascido em Nova York e criado em Jerusalém desde os cinco anos de idade), o filme foi premiado na categoria de melhor roteiro em Cannes e depois foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro (além de ter recebido dez prêmios perante a Academia Israelense de Cinema). Todos os prêmios são merecidos. Cedar consegue construir uma narrativa interessante acerca do velado conflito entre pai e filho, utilizando várias vezes um recurso semelhante ao que dá título ao filme. O filme começa com o professor Uriel Shkolnik (Lior Ashkenazi) sendo homenageado pelos seus estudos. Uriel aproveita a oportunidade para homenagear seu pai no discurso, o também professor Eliezer Shkolnik (Shlomo Bar-Aba). Desde o início percebemos o desconforto de Eliezer com a homenagem, só depois descobrimos que sua carreira mergulhou numa espécie de limbo por um desses acasos maldoso do destino. Cedar utiliza digressões para explicar aspectos importantes na relação da dupla de professores. Enquanto Uriel tem suas pesquisas sobre os escritos do Talmude reconhecidas, Eliezer passou vinte anos fazendo pesquisas sobre os textos originais para que suas conclusões fossem esquecidas quando um outro pesquisador, Grossman (Micah Lewensohn), encontrou um texto antigo que comprovava tudo o que Eliezer descobrira explorando vários textos antigos que encontravam-se dispersos. Grossman consegue notoriedade pelo trabalho e Eliezer mergulha no ostracismo, esquecido pelos pesquisadores do Talmude. Com tudo isso, a única homenagem que recebeu foi ser mencionado em uma nota de rodapé no livro de um amigo. As coisas mudam quando após a homenagem recebida pelo filho, Eliezer recebe uma ligação dizendo que será homenageado pelo auspicioso Prêmio Israel por suas pesquisas. Por décadas, Eliezer esperou esse reconhecimento e o prêmio coloca mais uma vez seu nome em evidência, mas Uriel irá descobrir uma informação que poderá mudar o rumo da homenagem. É no desassossego de Uriel e na revanche de Eliezer que o filme se sustenta de forma vigorosa. A trama escrita por Cedar permite várias leituras, seja o que herdamos de nossos pais, o respeito que temos por eles, o reconhecimento que esperamos para agradar a nós mesmos e a eles, ou até aspectos culturais ainda mais complexos como o tradicional e o moderno, o novo e o velho, as quebras de paradigmas, tudo escrito com bastante clareza e com uma preocupação de transformar os personagens em carne e osso que faz toda a diferença. Os cortes são precisos, assim como as atuações, e apesar de tudo caminhar para um grande conflito familiar, a trilha sonora é encarregada de dar um tom cômico aos dilemas dos personagens - mesmo quando à certa altura o bonachão Uriel parece trocar de personalidade com o pai. Além disso, a simpatia que sentimos pelo injustiçado Eliezer aos poucos é ameaçada pelo seu jeito amargo de perceber a vida e a carreira do filho. O longa concorreu ao Oscar com o ótimo Bullhead (da Bélgica) e perdeu para A Separação (do Irã), mas teria mais chances se Cedar não optasse em deixar o desfecho da história por conta do espectador - o que não deixa de ser uma ironia, já que o filme dá mais valor às notas de rodapé que apresenta no caminho do que à conclusão do dilema que se instaura entre pai e filho. 

Nota de Rodapé (Hearat Shulayin/Israel-2011) de Joseph Cedar com Lior Ashkenazi, Micah Lewensohn, Aliza Rosen e Alma Zach. ☻☻☻☻

sexta-feira, 26 de julho de 2013

KLÁSSIQO: Intriga Internacional

Grant e Eva: não sendo o que parecem. 

Recentemente comecei a rever vários filmes de Alfred Hitchcock. Lembro que fui apresentado à maioria deles pela minha irmã mais velha que sempre assistia aos seus suspenses quando passava na televisão, por um tempo acho que Hitch foi até o diretor favorito dela. Lembro que eu era bem novinho na época e na maioria das vezes eu não entendia toda a complexidade das tramas que eram apresentadas, não me preocupava com enquadramentos, planos, closes, atuações... sei apenas que eu gostava do que assistia. O último que revi foi Intriga Internacional que se tornou um dos longas mais populares do diretor, especialmente por conta das altas doses de humor. O filme gira em torno de Roger Thornbill (Cary Grant), um publicitário que é confundido com um agente secreto chamado George Kaplan e passa a ser perseguido por um grupo de misteriosos agentes. O filme com mais de duas horas de duração dá tempo de sobra para Hitchcock explorar reviravoltas e surpresas na trajetória do protagonista, surpresas que envolvem a CIA, microfilmes, guerra fria... Não deixa ser um elemento fantástico que o bem humorado Thornbill depois de ser embebedado, quase assassinado e preso por dirigir embriagado considere uma questão de honra descobrir quem é George Kaplan - afinal, somente descobrindo esse sujeito misterioso ficará provado que tudo não passa de um grande equívoco. As aventuras envolvem até a mãe dele, mas quem o ajuda mesmo é a misteriosa Eve Kendall (Eva Marie Saint), que seduz Roger e ainda diz ser o contato dele com o verdadeiro Kaplan. Se sobre os filmes de Hitchcock não se pode falar muita coisa para não estragar as surpresas, aqui a coisa se complica ainda mais, já que descobrimos os fatos junto com o protagonista. Considero que é neste filme que o cineasta criou suas maiores cenas de aventura, cenas como Roger sendo perseguido pelo avião pulverizador em meio ao deserto (alguns planos nesse cenário me lembraram muito a utilizada no desfecho de Se7en/1995 por David Fincher) e a descida pelo Monte Rushmore enquanto Roger e Eve são perseguidos pelos bandidos podem ser consideradas antológicas na história do cinema. Ao contrário dos outros filmes do diretor, aqui tudo é meticulosamente explicadinho e o humor até exaustivo serve para aproximar suas intenções ainda mais do público. Hitch pega leve no tom sombrio (que pode ser considerado somente nos momentos iniciais sobre a troca de identidade de Roger), mas ainda assim consegue crias sequências de ótimo suspense. Além dos méritos cinematográficos, rever o filme me fez perceber o motivo de sempre compararem George Clooney com Cary Grant! Longe de ser o meu longa favorito do diretor, aqui a ambição parece ser realizar um passatempo para o público e isso ele consegue com maestria. 

Intriga Internacional (North by Nothwest/EUA-1959) de Alfred Hitchcock com Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason e Martin Landau. ☻☻☻

quinta-feira, 25 de julho de 2013

DVD: Os Últimos Dias de Emma Blank

Hanneveld e a madame: personagens que Larv Von Trier pediu a Deus.

Quando assisti a comédia de humor negro Os Últimos Dias de Emma Blank do holandês Alex Van Warmerdan tive a impressão que era a comédia que Lars Von Trier queria fazer em toda sua carreira. O roteiro é provocador, tem aquele humor maldoso que o diretor tanto gosta e ainda tem o tom de farsa que ele costuma empregar em seus filmes do gênero (como o espinafrado O Grande Chefe/2006), talvez se Lars fosse o diretor, o filme tivesse menos buracos em sua estrutura. Entretanto, o holandês tem seus momentos de genialidade. Warmerdan (eu sei que o sobrenome tem uma sonoridade bizarra em português) concebeu a história de uma mulher que está prestes a morrer e isso serve de pretexto para que ela peça os maiores absurdos aos seus devotados empregados. Com o tempo percebemos que os empregados não são tão bem intencionados como parecia, assim como as coisas não são o que aparentam. O filme fica mais interessante quando descobrimos que todos estão desempenhando papéis naquela casa isolada, sendo o de Theo (vivido pelo próprio diretor) o mais interessante e que entrega o grande truque do filme. Theo é o cão da casa e, como todo bom animal de estimação, é o personagem mais devotado à sua dona. Emma Blank (em boa atuação de Marlis Heuer) é uma chata, aparentemente ela divide o mordomo Haneveld (Gene Bervoets) com a cozinheira Bella (Annet Malherbe), mas isso não isenta que ela exija que ele use um bigode e que Bella tenha que ouvir reclamações sobre a comida o tempo inteiro. Além disso, uma das empregadas é filha dela com o mordomo (?!). Enquanto o silencioso Theo é sempre expulso da casa, ou esquecem de levá-lo para defecar fora da casa, a jovem Gonnie (Eva van de Wijdeven) não suporta o jogo de interesses na casa e não se anima nem com as investidas do atencioso Meier (Gijs Naber). Conforme a narrativa avança, os personagens vão revelando um pouco de si até o momento em que os interesses de todos são comprometidos por uma revelação. A partir desse momento as regras do jogo mudam e tudo pode acontecer, pena que o diretor parece ter perdido a inspiração (ou então foi repreendido por algum produtor) e as soluções aparecem apressadas demais. Uns dez minutos a mais de filme teriam feito bastante diferença no desfecho dos personagens, uma vez que não fica muito claro qual a ligação que todos tinham com Emma. Ainda assim, o filme tem o mérito de sacudir as percepções do espectador como um bom quebra-cabeça e ainda tem o mérito de colocar Theo como o personagem favorito dos apreciadores do filme (que o chamam carinhosamente de Dogman). Pena que uma ideia tão interessante não tenha suas possibilidades exploradas como deveria - nesse momento que faz falta um diretor com a audácia de Lars Von Trier à frente de uma produção. Mesmo assim, o resultado é bastante interessante em sua proposta quase surreal. 

Os Últimos Dias de Emma Blank (De laatse dagen van Emma Blank/Holanda-2010) de Alex Van Warmerdan com Marlis Heuer, Gijs Naber, Gene Bervoerts, Eva van de Wijdeven, Annet Malherbe e Alex Van Warmerdan. ☻☻☻

terça-feira, 23 de julho de 2013

Ladies & Gentleman: Henry Cavill

Vale lembrar que Henry Cavill quase foi o escolhido para ser o Homem de Aço em Superman - O Retorno (2006) de Brian Singer. O britânico acabou perdendo o papel para Brandon Routh. Enquanto fazia os testes para o papel, Cavill tinha no currículo três papéis na televisão (em produções pouco lembradas), além de papéis de coadjuvante no cinema. Sua estreia foi aos dezenove anos em meio aos mafiosos de Laguna (2001). No ano seguinte estava ao lado de Jim Caviezel e Guy Pearce na adaptação do clássico O Conde de Monte Cristo (2002). No ano seguinte teve algum destaque no prestigiado I Capture the Castle, adaptado da obra de Dodie Smith e estrelado por Romola Garai e Bill Nighy. Quando soube que Singer não o havia selecionado para o papel do kryptoniano ele terminava as filmagens de Tristão e Isolda (2006) ao lado de James Franco. Nascido em Jersey no Reino Unido no ano de 1983, Henry William Dalgliesh Cavill começou a se interessar em ser ator ainda na escola em montagens shakesperianas (como de Sonho de Uma Noite de Verão) e de adaptações como do musical Grease, foi nessa época que chamou atenção de produtores que procuravam jovens atores nas escolas. Aos dezessete anos sua carreira de ator profissional começou a decolar. Se Singer não o escolheu, Cavill teve que se contentar a um papel pequeno em  outra adaptação de HQ, Stardust (2007) de Matthew Vaughn e uma versão moderninha de Chapeuzinho Vermelho (2007), onde encarnava o caçador. Nessa época o ator já ficava famoso nos bastidores como um "quase escohido", afinal, além de ter perdido o papel de Superman em 2006, o ator quase foi o Homem Morcego em Batman Begins (mas Christopher Nolan bateu o pé por Christian Bale e quase foi o 007 se os produtores não optassem pelo louro Daniel Craig na última hora). No fim das contas, a televisão mostrava-se como o veículo que lhe oferecia as melhores oportunidades. Foi assim que conseguiu o papel de Charles Brandon na série de sucesso The Tudors (2007-2010). Na pele do primeiro duque de Suffolk o ator  passou a ser reconhecido pelo público, ao ponto de tornar-se garoto propaganda do perfume London. Enquanto The Tudors era exibida, Henry foi convidado por Woody Allen para ser o homem que rouba o coração de Evan Rachel Wood de Larry David em Tudo Pode dar Certo (2009) e estrelar Renascido das Trevas (2009) de Joel Schumacher. Imagino a reação dele quando descobriu que Superman iria passar por outra repaginada e que ele fora o escolhido para encarnar o super-herói. Em entrevistas, o ator foi bastante elegante demonstrando não haver ressentimentos e que parecia algo que estava escrito para acontecer na hora certa. O anúncio chamou um pouco mais de atenção para sua interpretação de Teseus em Imortais (2011) dirigido pelo indiano Tarsem. Na pele do personagem mitológico, Cavill provava que dava conta de fazer um herói não apenas por conta de sua musculatura. Henry ainda conseguiu o papel principal em Fuga Implacável (2012) ao lado de Bruce Willis e Sigourney Weaver. O filme não foi bem de público ou crítica, mas Cavill parecia não esperar grande coisa do projeto. Com a repercussão de Homem de Aço (2013) dirigido por Zack Snyder, o ator já tem garantido uma franquia milionária no currículo (uma continuação de Superman, um encontro com Batman, filme da Liga da Justiça...), além disso o ator já foi selecionado por Guy Ritchie para ao lado de Armie Hammer estrelar uma adaptação da série O Homem da UNCLE, sem contar A Grande Muralha - filme que fará ao lado de Ziyi Zhang. Parece que o tempo de "quase" ficou para trás na hora certa...

Tudo Pode dar Certo: Cavill (e Evan) num dos filmes mais divertidos de Woody Allen.

Na Tela: Homem de Aço

Cavill: entre o humano e o alienígena. 

As histórias em quadrinhos se tornaram a maior mina de ouro da indústria hollywoodiana atualmente. A coisa ficou ainda maior com os sucessos da Marvel e obviamente que sua rival não poderia ficar para trás. O problema é que enquanto a Marvel bolou a estratégia de apresentar seus personagens em vários filmes antes de apresentar o seu verdadeiro arrasa quarteirão (Os Vingadores/2012), a DC Comics tinha que se contentar com o sucesso de Christopher Nolan capitaneando Batman. O sinal vermelho soou quando se deram conta que o contrato de Nolan só iria até a terceira aventura do Homem Morcego - lembrando que a última aventura do Superman não agradou nem aos fãs mais fervorosos. Dirigido por Brian Singer (que reformulou a forma de filmar quadrinhos com o primeiro X-Men/2000), Superman - O Retorno (2006) era bem produzido mas a trama beirava o desastre. Nada contra Brandon Hoult homenageando Christopher Reeve, mas o resultado foi um exercício de ventriloquismo mal sucedido. Se Singer foi tão bem sucedido em levar Professor Xavier e seus alunos para o cinema, o mesmo não se podia dizer do que armou para o habitante mais famoso de Krypton. Além de ter arranjado uma Lois Lane que não convencia como renomada jornalista (Kate Bosworth convencerá como mulher só quando não tiver medo de deixar de ser adolescente), ainda deu um filho para ela criar... o resto você já sabe. O filme não agradou, mas deram uma segunda chance para Singer, a continuação de seu Superman chegou a ter o roteiro escrito e algumas cenas rodadas, mas com o sucesso arrasador de O Cavaleiro das Trevas (2008), a Warner mandou refazer tudo para que não amargasse outra decepção. Como a coisa não decolou, o projeto foi engavetado e chamaram Nolan para capitanear a repaginada. Esperto, Nolan resolveu assinar somente a produção, chamando para a direção alguém que parece se especializar em adaptações de HQ: Zack Snyder. É visível que Nolan tinha Watchmen (2009) na cabeça quando confiou nos dotes do diretor para reformular as aventuras de Superman no cinema. Ciente da diferença que um elenco faz (podem reclamar de seus filmes, mas ele está sempre atento a nomes que só precisam de um empurrão para estourar: Ty Burrel, Gerard Butler, Michael Fassbender, Malin Ackerman, Oscar Isaac...), a vontade de dar uma nova cara para o herói sacrificou Brandon Routh e colocou no lugar o britânico Henry Cavill, dando-lhe um par de talento incontestável  e com quatro indicações ao Oscar (Amy Adams), depois juntou nomes de veteranos com prestígio (Kevin Costner, Laurence Fishburne, Russell Crowe e Diane Lane) e ousou deixar o maior inimigo do Homem de Aço de fora. Nada de Lex Luthor, o algoz da vez é o sanguinário General Zodd (o sempre ótimo Michael Shannon) e seu exército de banidos. 

Shannon: outro doido no currículo?

Com isso em mãos, o roteiro só teve que se preocupar em apresentar o herói, articulando o fim de Krypton à loucura de Zodd - que é banido na zona fantasma pouco depois que o filho de Jor-El (Crowe) e Lara (a belíssima Antje Traue) é enviado para um planeta distante "habitado, aparentemente, por vida inteligente". Embora tenha feito pequenas alterações na origem do herói, a essência permanece a mesma. Kal-El é criado como Clark por Martha (Diane) e Johnatan Kent (Costner) e a descoberta de seus poderes é mostrada paralelamente a Clark Kent (Henry Cavill) vagando pelo mundo ajudando pessoas a se livrar de apuros. Nem vou citar os elementos religiosos que o roteiro capitaneado por David S. Goyer quer atribuir ao personagem (afinal, ao ser enviado para Terra, Jor-El anuncia que ele será cultuado como um deus e seus atos heroicos são conhecidos quando ele tem 33 anos!), mas o plot funciona direitinho entre o conflito de revelar seus poderes e levar uma vida normal. Curiosamente, todos confiam tanto na história que estão que nem se incomodam em fazer Lois Lane ter contato com o herói antes que ele desenvolva uma identidade secreta. Se existe um alvo de reclamação no filme é a ação ininterrupta, especialmente quando Zodd descobre o paradeiro do filho de Jor-El e ruma para a Terra com segundas e até terceiras intenções. Snyder capricha no som ensurdecedor de cada pancada, de cada efeito especial que planeja fazer de nosso planeta uma colônia de Krypton. No entanto, eu percebi que apesar de todo o espetáculo (que é o gênero do filme no fim das contas) o diretor sempre deixa claro a marca de cada personagem, especialmente de seu protagonista e a missão que ele escolheu para si. Talvez por confiar na história (Clark/Kal-El ter que aceitar quem é, seja exibindo no peito o símbolo da esperança ou o S de super) e em seus atores (que estão bem e garantem nossa identificação com tudo que está acontecendo), O filme exacerba todas a possibilidades de um filme de super-herói. No fim, Homem de Aço cumpre seu papel de fazer bonito nas férias e o mais complicado: pavimentar o caminho de novos heróis da DC Comics no cinema. Com o sucesso do filme e uma sequência anunciada, já falam de um encontro de Superman com Batman e o aguardado filme da Liga da Justiça para 2017. Os fãs não tem do que reclamar perante a era de heróis que se anuncia. 

Adams, Kent e a vilã Faora-Ul: adivinha quem está de TPM...

O Homem de Aço (Man of Steel/EUA-2013) de Zack Snyder com Henry Cavill, Amy Admas, Russell Crowe, Michael Shannon, Diane Lane, Laurence Fishburne, Christopher Meloni, Ayelet Zurer e Antje Traue. ☻☻☻☻

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DVD: A Cabana

Martin e Viktor: mais do mesmo?

Em primeiro lugar esse filme não tem nenhuma relação com aquele best seller de anos atrás chamado A Cabana. Dito isso, ainda que façam sucesso perante a crítica, filmes como A Cabana começam a me chatear um bocado, uma vez que, infelizmente, o que acaba salvando o filme é uma surpresa que se tornou gasta no início do século XXI. O diretor Hans Weingartner até que consegue fazer um cinema engajado sem parecer óbvio - como podemos conferir em seu maior sucesso (o anterior Edukators/2004 com Daniel Brühl, que chegou a concorrer à Palma de Ouro em Cannes), mas aqui ele arrasta o filme até não poder mais até o ponto em que propõe uma guinada para prender a atenção da plateia. O problema é aguentar o segundo ato até a narrativa chegar onde deve. O início é bastante promissor quando conhecemos Martin (Peter Schneider) deixando uma instituição psiquiátrica. O rapaz era considerado um matemático promissor, talentoso e com um futuro genial até que surta de uma hora para outra. É louvável como o diretor retrata o estigma que cai sobre o rapaz quando ele resolve construir sua vida. Apesar de viver um momento estável, com acompanhamento psiquiátrico e medicamentos cumpridos a risca, David precisa lidar com os preconceitos para ser aceito como o profissional competente de outrora. Sua ruína começa quando não consegue o seu emprego de volta e as contas começam a acumular. Não é preciso ser um gênio para perceber que uma crise se anuncia. Paralelo a isso conhecemos Viktor (Timur Massold), um menino que depois que a mãe morreu de overdose está prestes a conhecer David quando ambos virarem sem teto. Mas as ruas são perigosas demais para os dois - que ganham o sustento juntando e vendendo lixo para a reciclagem - assim, acabam indo morar num bosque, na tal cabana do título. As coisas começam a mudar quando os dois amigos conhecem Lena (Eleonoire Weisgerber), com quem David planeja ir para Portugal e viver junto a um grupo de pessoas que vivem em cabanas numa espécie de protesto ao consumismo e senso de propriedade próprio do sistema capitalista. Parece que eu contei demais, desculpe, mas o filme para mim começa mesmo nesse ponto, quando Viktor desaparece e David tem suas atitudes dignas de suspeita. Essa parte da narrativa serve para mostrar que nem tudo era o que parecia até ali. Apesar da competência do diretor em conduzir essa parte do filme, não existe muitas novidade em seu desfecho, talvez apenas o fato de ser mais triste do que a maioria dos outros que armam essa surpresa desde que um certo filme fez sucesso em 1999 (o qual não posso nem mencionar para não estragar a graça do filme). O mais engraçado é que o filme tem mais relação com o diretor do que parece, já que Hans estudou Neurociência na Universidade de Viena e trabalhou no departamento neurocirúrgico do hospital universitário Charité, em Berlim. Depois ele mudou radicalmente e foi fazer pós-graduação em cinema. Esse filme parece uma homenagem à outra carreira do diretor. 

A Cabana (Hier Unten/Alemanha-2011) de Hans Weingartner com Peter Schneider, Timur Massold, Eleonoire Weisgerber. ☻☻

quinta-feira, 18 de julho de 2013

DVD: O Lado Bom da Vida

Jennifer e Cooper: comédia romântica psiquiátrica. 

Apesar dos elogios conquistados com O Vencedor (2010), que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar de diretor, eu ainda considero que David O. Russell sente-se infinitamente mais a vontade conduzindo comédias. Afinal, o mundo o conheceu com Ben Stiller em busca de suas origens em Procurando Encrenca (1996), para depois elogiar sua paródia sobre a Guerra do Golfo em Três Reis (1999) e depois enrolar-se no existencialismo pretensioso de I Love Huckabees (2004). Vendo seu recente O Lado Bom da Vida, fica ainda mais evidente que O Vencedor foi uma digressão em sua carreira. Afinal, é praticamente o que vimos em Huckabees passado a limpo. Vale lembrar que o filme fez bonito na última temporada de ouro, culminando com oito indicações ao Oscar (convertendo a estatueta de Melhor Atriz para a queridinha Jennifer Lawrence). Há quem torça o nariz para o filme adaptado do livro de Matthew Quick, mas para quem busca uma comédia romântica que tenha alguma substância irá gostar do resultado. Bradley Cooper foi indicado a todos os prêmios por sua atuação como o homem bipolar que sai da clínica psiquiátrica por iniciativa de sua mãe (Jacki Weaver, indicada ao Oscar de coadjuvante). Na pele de Pat Solitano, para Cooper basta a primeira cena para convencer como um sujeito que irá encontrar dificuldades para reconstruir a vida. Ele vai morar com os pais e de vez em quase sempre perturba a rotina da casa, o que é um verdadeiro desastre para o seu pai (Robert DeNiro, indicado ao Oscar de ator coadjuvante depois de um longo jejum) com suspeita de Transtorno Obsessivo Compulsivo. É quando tenta reaproximar-se da esposa que ele conhece a jovem viúva Tiffany (Lawrence), que perdeu o marido e viveu uma fase de, digamos "instabilidade sexual", em seu período de luto.  O curioso é que ao invés do filme usar a  cartilha do casal que briga por conta de seus defeitos até o final feliz, o casal se justamente pelo que vemos como os tais defeitos. Sabemos que há uma química entre os dois personagens, mas a trama usa Tiffany como uma aliada às tentativas de aproximação de Pat com a esposa - a qual ele deve manter distância. Se Cooper surpreendeu (não a mim, que curto o trabalho dele desde a participação na série Nip/Tuck) pela angústia do personagem, Lawrence teve a chance de encarnar uma personagem mais cômica do que estamos acostumados. Celebrada como uma das melhores atrizes de sua geração, Lawrence tem momentos bastante diversificados a explorar na história: lágrimas, sensualidade, crueldade e reboladinhas (inesquecíveis). Russell emoldura a história simpática com gosto - enfatizando a loucura que cada um guarda dentro em si, porém, acho que o diretor poderia ter desacelerado um pouquinho o ritmo do filme. Os diálogos e os cortes são rápidos demais, sem que a plateia possa degustar o pleno sabor do que está vendo - especialmente as atuações que valeram o prêmio do Sindicato dos Atores ao longa - mas eu até entendo, do jeito que é o filme já tem duas horas de duração. O lado bom da vida com seus personagens tentando lidar com as dicotomias da vida em todo seu som e fúria (bem representada pelo mashup que o casal apresenta num concurso de dança, talvez o momento mais brilhante do filme) consegue ser uma boa oportunidade de olhar para como nós lidamos não só com o mundo mas com nós mesmos. 

O Lado Bom da Vida (Silver Linning Playbook/EUA-2012) de David O. Russell com Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert DeNiro, Jacki Weaver, Chris Tucker e Julia Stiles. 

DVD: Kill List

Neil e Smiley: matadores enfrentam o desconhecido.

Filminho sinistro esse dirigido pelo ainda desconhecido Ben Whitley, mas a julgar pelos elogios que vem colhendo em seus trabalhos você irá ouvir falar dele rapidinho. O roteiro escrito pelo próprio diretor e sua parceira constante, Amy Jump, revela a história aos poucos, sempre surpreendendo o espectador quando ele começa  a se acomodar à trama. De primeira estranhamos quando ao invés do título a tela tem cravada um estranho símbolo. Parece uma espécie de símbolo pagão embalado pela trilha sonora opressora. Mas o filme começa bem iluminado, claro até demais, e temos a impressão que estamos diante de mais um desses personagens injustiçados pelo sistema - que vive do seguro desemprego e da paciência da esposa. Jay (Neil Maskell) é apresentado como um sujeito emasculado, como se o desemprego o tornasse um sujeito sem direito de se impor quando as reclamações da esposa (MyAnna Buring) se  excedem. Tratado como um peso morto dentro da própria casa ainda é fácil simpatizar com o personagem após oito meses de desemprego. A esposa tomou as rédeas da casa e cuida do filho e de todo o resto, enquanto Jay não sabe muito bem o seu lugar no mundo. O desconforto daquele lar é evidente e quando o casal recebe um amigo com a namorada para jantar, sabemos que o clima vai esquentar. Nem as alfinetadas da esposa ou as esquivadas do marido conseguem assustar mais do que quando a tal namorada do amigo, Fiona (Emma Fryer) vai ao banheiro e crava o mesmo símbolo misterioso do início atrás do espelho no banheiro do casal. A partir dali sabemos que a família de Jay está correndo algum risco. Essa certeza só aumenta quando descobrimos que Jay é convidado pelo amigo, Gal (Michael Smiley), a voltar para o ofício de matador de aluguel. Um serviço que promete saldar as dívidas de Jay e ainda fazer o sangue correr novamente em suas veias. A dupla aceita o serviço e sabem tanto quanto a plateia sobre os motivos das encomendas. O roteiro nunca deixa claro qual o motivo dos serviços que devem prestar, nem para quem. Apenas temos a impressão que se meteram com pessoas muito mal intencionadas - e que desfazer o combinado sairá caro. Fica claro que Whitley é um diretor de pulso firme, capaz de manter o tom da trivialidade do início, o mergulho numa atmosfera violentamente tensa e, quando eles mesmos se assustam com o que veem, o filme se transforma num filme de terror arrepiante. Houve quem comparasse o filme com A Bruxa de Blair (1999), mas é um exagero. Kill List é um filme de muitos climas e desvenda as várias camadas do aparentemente passivo Jay numa trama assustadora até a tragédia anunciada desde o início. Deixando a plateia atônita em sua cena final, Kill List deve assombrar minha memória por um bom tempo. 

Kill List (Reino Unido/2011) de Ben Whitley com Neil Maskell, Michael Emiley, Emma Fryer e MyAnna Buring. ☻☻

quarta-feira, 17 de julho de 2013

DVD: Para Maiores

Liev e Naomi: torturando psicologicamente o filho único. 

Em tempos de crise, Hollywood resolveu anabolizar roteiros questionáveis com elencos chamativos, foi assim com As Idas e Vindas do Amor (2010), Noite de Ano Novo (2011), O Que Esperar Quando se Está Esperando (2012) e este Para Maiores (2012). Mais uma vez o título em português merecia um processo por propaganda enganosa, afinal é difícil entender porque consideraram que somente os maiores querem ver e achar graça das histórias que compõem o filme - histórias que parecem escritas por adolescentes babões. A ideia poderia ser até interessante, se os roteiristas não resolvessem desperdiçar a chance de levar às últimas consequências a ideia de um longa que não tivesse censura. O que une os filminhos que compõem o longa é uma trama mal construída sobre adolescentes que procuram filmes proibidos na internet. Não vou nem perder o meu tempo com o trio de adolescentes que são responsáveis por essa parte, já que todos eles não são dignos de atenção, mas posso dizer que os dois melhores momentos são as duas primeiras historinhas. Afinal de contas, não é todo dia que podemos ver Kate Winslet e Hugh Jackman bancando o par romântico. Quando assisti ao filminho, percebi nitidamente a assinatura dos irmãos Farrelly na história da mulher bonita e inteligente que irá se encontrar com um bom partido e descobre que ele tem uma anomalia genética - que colocou os testículos no lugar do pomo de Adão. Parece um pedaço de um filme que não convenceu produtores para os caras que já fizeram O Amor é Cego (2001) e Quem Vai Ficar com Mary (1998), mas o pedaço que vemos consegue ter um resultado eficiente mais pelo fato de somente Winslet perceber o que está pendurado no pescoço de Jackman do que pelas nojeiras do caminho. Parece um episódio de Além da Imaginação se o programa fosse cômico. O melhor da sessão é mesmo o de Naomi Watts ao lado de seu esposo Liev Schreiber defendendo a educação domiciliar do filho. A dupla não apenas zela pelo nível intelectual do rebento como também percebem o quanto a convivência com os colegas ajudam a  forjar o caráter de um aluno. Sendo assim, encarnam os colegas do filho, sem pudores: praticam bullying, o rejeitam em festinhas, paqueram o rebento (os dois) entre outras coisas que conseguem levar ao limite uma crítica tanto a quem acredita que educar no lar é uma saída viável quanto aos pais que se recusam a crescer. O filminho consegue ser engraçado e incomodar - o que eu acho ótimo. Depois o filme vira uma baixaria geral com Ipod em formato de mulher nua, um casal que precisa lidar com um estranho fetiche, um trio de homens que parecem que nunca ter visto uma garota menstruar, super-heróis em namoricos, uma dupla torturadora de personagens de conto de fadas (com o duende mais boca suja da história), um casal que eleva os joguinhos de submissão a outro nível, um gato tarado pelo dono e culmina no filme proibido do treinador negro que precisa fazer o time negro acreditar que pode jogar basquete melhor que um time de brancos. Irregular como a maioria dos filmes de episódios, o filme desperdiça a chance de fazer um humor incômodo para juntar cenas que já vimos em várias outras comédias escatológicas ao longos dos anos. Sendo pouco original e não muito engraçado (ou até provocador) em sua duração, Para Maiores não cumpre o seu papel. 

Para Maiores (Movie 43/EUA-2012) de Elizabeth Banks, Peter & Bob Farrelly e outros com Kate Winslet, Hugh Jackman, Naomi Watts, Liev Schreiber, Halle Berry, Terrence Howard, Richard Gere, Kate Bosworth, Chloe Grace Moretz e Christopher Mintz-Plasse.  

DVD: Amor Impossível

Blunt e McGregor: amor por um ideal (surreal).

Fazia tempo que o diretor sueco Lasse Hallström não fazia um filme tão correto e tão fácil de gostar. Muita gente se surpreendeu quando Amor Impossível (péssimo título em português) recebeu indicações aos prêmios de melhor comédia no Globo de Ouro de 2013, assim como melhor ator (Ewan McGregor) e atriz (Emily Blunt) de comédia. Com boa vontade o filme pode até ser visto como uma comédia de costumes, mas é evidente que o filme tende mais para o drama, ainda que partindo de um ponto inusitado: a criação do salmão no Iemen. Sei também que os fãs mais antigos do diretor (que sentem saudades dos tempos em que conseguia ser comovente como poucos em tramas aparentemente triviais como Minha Vida de Cachorro/1985 e Gilbert Grape/1993) não irão considerar o filme um retorno aos bons tempos, mas devem concordar que o longa é mais interessante que seu trabalho anterior (Querido John/2010). Apesar dos toques inusitados que o argumento reserva, o filme é bastante simples e sua narrativa também, mas é auxiliada por um ótimo quarteto de atores - além dos protagonistas celebrados, o filme conta com uma inspirada Kristin Scott Thomas e o egípcio Amr Waked na pele do xeque visionário que quer implantar a criação de Salmão em sua comunidade. A trama baseada no livro de Paul Torday parte do encontro da advogada Harrier (Blunt) que representa o xeque na Inglaterra e Alfred Jones (McGregor), uma autoridade na criação de peixes no Reino Unido. Ele é sondado por ela para auxiliar o xeque a implementar a pesca do Salmão em sua terra natal, mas desde o início ele deixa claro que o projeto beira o impossível e para dar resultado seria algo caro demais. Para dar corpo à vida amorosa do casal envolvido no projeto, ela tem um namoro com um soldado (Tom Mison) que vai para o Afeganistão e Alfred tem um casamento preso às formalidades. O filme é conduzido em tom leve e fácil de acompanhar, mas penso o que um diretor mais ácido teria feito com os toques políticos da trama. É verdade que existe algumas gracinhas alfinetadas por Kristin Scott Thomas na pele da assessora de imprensa do primeiro ministro que vê no projeto uma fonte inesgotável de boa publicidade para a escaldada relação entre os dois países envolvidos. Quem leu diz que o livro tinha parte de sua graça na burocratização dessas relações, na troca de e-mails, ofícios e memorandos, que aqui até aparece em alguns poucos momentos, mas tanto Hallström quando o roteirista (o premiado Simon Beaufoy de Quem quer ser um Milionário/2008) não querem fazer um novo In The Loop (2009), mas construir um filminho redondinho, bem feitinho e sem maiores polêmicas. Houve quem gostasse do clima bucólico da sessão, mas houve quem percebesse que apesar dos esforços de Blunt e McGregor o romance de ambos é um pouco forçado - e o título em português só ressalta isso. Na verdade o amor sugerido pelo roteiro é mais pelos idealistas do que pelo afeto modesto de Alfred por Harriet.

Amor Impossível (Salmon Fishing in the Iemen/Reino Unido-2011) de Lasse Hallström com Ewan McGregor, Emily Blunt, Amr Waked, Kristin Scott Thomas, Tom Mison e Rachael Stirling. ☻☻    

terça-feira, 16 de julho de 2013

FILMED+: A Solidão dos Números Primos


Mattia e Alice: sentimento crescente  que atravessa os anos.

Poucas coisas conseguem ser tão gratificantes quanto assistir a um filme que você nunca ouviu falar e ficar fascinado com a forma como ele pode te envolver. Essa foi a minha relação com este A Solidão dos Números Primos, um filme italiano de 2010 que foi indicado ao prêmio máximo do Festival de Veneza (de onde saiu com o troféu de melhor atriz) e teve grande repercussão entre público, crítica e premiações italianas. Lamentável é que, com um pouco de empenho dos distribuidores, o filme poderia ter se tornado um grande sucesso mundial - especialmente pelo empenho do diretor Saverio Constanzo em levar para as telas o sucesso editorial de Paolo Giordano. Vale registrar que a impressão é que não se trata de um livro fácil de ser traduzido em imagens, uma vez que aborda mais de duas décadas na vida de dois personagens bastante introspectivos: Alice e Mattia. Através do filme os acompanhamos dos oito até seus trinta e dois anos, numa história que é perpassada pela alegria de encontrar um ao outro (mas sem muitas outras, até porque até certo ponto nem Mattia se dá conta disso). Um dos maiores trunfos do filme é tratar a linguagem de um drama como se estivesse montando um suspense. Se no início a plateia estranha a narrativa quebrada que apresenta as três fases da vida dos personagens que acompanharemos (infância, adolescência e fase adulta) em fragmentos por quase todo o filme. São nesses fragmentos que ficamos instigados sobre a irmã de Mattia, Michella, que só aparece quando o personagem tem oito anos. Da mesma forma queremos saber como a menina popular e admirada , que era Alice, se torna a menina insegura e perseguida pelas colegas da escola. Constanzo e a editora Francesca Calvelli tiveram um enorme trabalho para tornar essas fases complementares na narrativa - de forma que, quando unidas, a plateia tivesse a exata medida de como se construiu Mattia e Alice em suas fases adultas. Constanzo pode até receber críticas pelas cenas em que sua mão parece um tanto pesada para lidar com as tristezas dos dois personagens na adolescência, mas ele tem a desculpa das mudanças hormonais tornarem tudo superlativo para essa faixa etária. É na adolescência que os dois se conhecem e que Alice (Martina Albano) tem uma sensação de que trata-se de amor à primeira vista quando vê aquele menino nos corredores da escola. Novo na escola, Mattia (Tommaso Neri) recebe logo o rótulo de garoto estranho por sua fama em automutilar-se, mas diante da tristeza que o menino expressa em seu olhar vazio, sabemos que existe alguma relação com a irmã... é nesse momento, ainda que com bastante reserva e distância por parte dele, que percebemos o quanto aqueles dois personagens são complementares e necessários à vida um do outro, ainda que eles não se deem conta. É na adolescência que entra em cena outra personagem importante Viola Bai (Aurora Ruffino), a garota popular da escola cujo casamento anos depois servirá para um dos momentos mais catárticos entre Mattia e Alice (agora vividos pelo cara de galã Luca Marinelli  e a premiada Alba Rohrwacher). Luca e Alba estão ótimos como os dois personagens, sempre buscando um ajuste, uma forma de que possam expressar como são complementares um ao outro, mas esse ápice da catarse parece sempre adiada (de brinde ainda reencontramos a sumida Isabella Rossellini como a mãe de Mattia).  É interessante como o roteiro explora momentos de festa com eventos decisivos para os personagens. Existem três festas na narrativa e debaixo da alegria alheia, existe sempre um momento especial para os dois amigos, estando juntos ou separados, lidarem com seus dilemas pessoais. Em cada um desses momentos cresce a tensão da narrativa em patamares até surpreendentes para o espectador. Quando avançamos  mais oito anos na vida de ambos, Alice e Mattia se tornam pouco mais do que a sombra do que eram da última vez que se encontraram. Doloroso, romântico e belamente executado, A Solidão dos Números Primos é um desses filmes raros que conseguem traduzir sentimentos difíceis em uma bela história de amor e amizade. 
Alice e Mattia na adolescência: enfrentando fantasmas pessoais. 

A Solidão dos Números Primos (La solitudine dei numeri primi/Itália-França-Alemanha/2010) de Saverio Costanzo com Alba Rohrwacher, Luca Marinelli, Martina Albano, Tommaso Neri, Aurora Ruffino e Isabella Rossellini. ☻☻☻☻☻

domingo, 14 de julho de 2013

4EVER: Cory Monteith

(11 de maio de 1982 / 13 de julho de 2013)

O canadense Cory Allan Michael Monteith, ficou famoso como o jogador Finn Hudson na série Glee. Antes de ser reconhecido pela série musical o ator havia realizado pequenas participações em filmes e conseguido papéis em vários programas de TV (Kyle XY, Stargate Atlantis, Supernatural...). Com o sucesso na televisão os papéis no cinema voltaram a aparecer como em Monte Carlo  (2011) e Sisters & Brothers (2011), além de ter três filmes a lançar em 2013. Aos 31 anos, o ator ainda era um dos destaques do quarto ano da série Glee. Seu corpo foi encontrado na noite de ontem num hotel do Canadá e a causa da morte ainda não foi encontrada. Suspeita-se de overdose, já que a primeira internação do ator numa clínica de rehabilitação foi aos 19 anos e a última foi em abril de 2013. 

sábado, 13 de julho de 2013

Combo: Roqueiros no Cinema

Neste ano achei muito óbvio fazer uma lista sobre filmes que retratam o mundo do rock no dia mundial do rock! Resolvi então fazer uma listinha sobre alguns artistas do rock que gostam de posar de atores de vez em quando, sei que um bando de gente ficou de fora (Iggy Pop, P.J. Harvey, Mick Jagger, Nick Cave, Beatles, Elvis Presley, Rita Lee, Dave Matthews, Jack White, Gavin Rossdale, Tom Waits...), mas o que seria das listas se alguns nomes não ficassem de fora? Estabeleci alguns critérios sobre a transição de um rockstar para um moviestar e os filmes que sobreviveram foram os seguintes:


05 U-571: A Batalha do Atlântico (2000) Considerar Jon Bon Jovi um roqueiro é quase um favor às minhas amigas da escola - que ficavam babando em qualquer fotinho do então cabeludo que saia em revistas adolescentes. A música do cara sempre foi a maior farofa e fazia tempo que ele tentava um lugar no cinema. Seus trabalhos como ator começaram em 1990 com  uma pontinha em Jovens Demais Para Morrer de 1990 (que lhe rendeu até uma indicação ao Oscar de canção pela famigerada Blaze of Glory). Apesar de seus filmes nunca fazerem muito sucesso, seu melhor momento é como o marinheiro neste filme sobre um dos momentos mais perigosos da marinha americana na Segunda Guerra Mundial. Como amigo do protagonista (Matthew McConaghey) o rapaz está bem convincente, algo difícil de conseguir hoje em dia com implantes capilares, plásticas e botox como vimos no tolo Noite de Ano Novo (2011).

04 Jogos Vorazes (2012) O motivo do quase cinquentão Lenny Kravitz aparecer em penúltimo é por ser o que tem a carreira mais recente no cinema - mas o único da lista que já garantiu vaga em uma franquia milionária de Hollywood! Os elogios que recebeu por suas performances como o enfermeiro de Preciosa (2009) e como o zeloso preparador de Jogos Vorazes, garantem novos projetos para o moço. Curioso é que quando o assunto é cinema, Kravitz tem performances bem mais discretas do que a vista em seus clipes e shows, o cara é esperto, sabe que quando o assunto é a telona menos é mais! Com dois filmes agendados para serem lançados esse ano, a carreira é promissora - e em pensar que tudo começou emprestando a voz para a primeira animação dos Rugrats - Os Anjinhos (1998) e bancando ele mesmo em Zoolander (2001). Agora que sua música ficou sem graça o cinema parece ser a melhor saída.

03 O Pequeno Buda (1993) Famoso por sua canção Wicked Game nos anos 1990, Chris Isaak tem aquela pose e sonoridade de rockstar das antigas, mas consegue ser lembrado pelos amigos quando precisam de um ator capaz de encarnar um sujeito simpático e comum (o que é mais difícil do que parece), assim ele atuou em quase vinte produções! Do policial de O Silêncio dos Inocentes (1991) passando pelo músico de The Wonders (1996), Chris colaborou com diretores famosos como Johnatan Demme (duas vezes), David Lynch, John Waters e Bernardo Bertolucci - que confiou em seus dotes para ser o pai do menino que era a encarnação de um mestre budista neste filme que não agradou muito, mas Isaak nem ligou e hoje empresta a voz peculiar para animações televisivas.

2 O Povo Contra Larry Flynt (1996) Se fosse menos louca, Courtney Love saberia aproveitar o momento em que Hollywood percebia que ela era uma boa atriz em estado bruto. O primeiro a notar isso foi Milos Forman que a escalou para viver a Srª Larry Flynt (Woody Harrelson) nessa polêmica cinebiografia do criador da revista erótica Hustler. Os produtores quase enlouqueceram quando Love ganhou o papel, mas na tela a rainha grunge  mostrou que dava conta do recado, -chegando a ser pré-indicada ao Oscar. Forman a escalou novamente para O Mundo de Andy (1999), onde ela fez um papel bem diferente da junkie Althea. Courtney teve seu momento estrela, vestindo grifes famosas, indo  a eventos, recebendo propostas de filmes variados e... tudo desmoronou. Hoje, ela soma quinze atuações no currículo, plásticas desastrosas,  toneladas de substâncias ilícitas no organismo e muitos ressentimentos com os produtores de cinema que se esqueceram dela (por que seria?).

1 O Homem que Caiu na Terra (1976) O camaleão David Bowie já havia realizado alguns trabalhos pequenos como ator quando foi convidado para protagonizar essa ficção científica meio cômica sobre um alienígena andrógino que aparece em  nosso planeta para buscar água, mas começa a se envolver no ramo empresarial e sendo objeto de desejo de uma terráquea. O filme não foi um sucesso, mas se tornou cult como boa parte das produções em que Bowie apareceu: Fome de Viver (1983), Furyo (1983), Labirinto (1986), A Última Tentação de Cristo (1988), Twin Peaks (1992), Basquiat (1996). Sua última grande participação no cinema foi como o mago Tesla em O Grande Truque (2006) de Christopher Nolan e anda cotado para ser o tio de Hannibal Lecter na próxima temporada da série baseada no personagem. O ator Bowie já soma quase 40 produções em seu currículo. 

DVD: Bem vindo aos 40

Não resisti: o elenco na capa da Vanity Fair
me pareceu mais interessante que qualquer foto do
filme presente na internet.
Sei que muita gente irá dizer que estou redondamente enganado, mas o cineasta Judd Apatow quer mostrar que está amadurecendo. Com isso, a bilheteria de seus filmes pode até diminuir, mas o cineasta que apareceu como o papa das comédias românticas masculinas em  O Virgem de 40 Anos (2005) está ficando cada vez mais preocupado em parecer sério. Obviamente que seu cinema nunca terá a pretensão de desvendar os meandros psicológicos de seus personagens como Ingmar Bergman, mas nem precisa, o diretor percebeu que pode usar seu humor para abordar conflitos um pouco mais sentimentais desde o seu incompreendido Funny People/2009 (que como se não bastasse ter Adam Sandler no elenco, ainda contou por aqui com o obstáculo do título hediondo: Tá rindo do Quê? ). Se este ousava abordar os conflitos de um comediante que estava com os dias contados, aqui ele conta a história de um casal e seus tropeços quando se anuncia os 40 anos. Claro que Bem Vindo aos 40 tem aqueles momentos de humor abobalhado que pode comprometer as reais intenções do diretor, principalmente quando fica claro que ele nunca quer parecer sério (cenas assim são como as da flatulência na cama, os autoexame de Rudd com um espelho sobre a mesa e as várias cenas onde o banheiro parece um refúgio), mas considerei detalhes até pequenos perante o esforço de Apatow em criar uma narrativa mais complexa com vários personagens em seus momentos de reflexão sobre os anos que passam sem que nos demos conta.  Pete (Paul Rudd) é sócio de uma gravadora que contrata artistas veteranos que não vendem mais como antes, talvez pela nostalgia só ele ainda não entendeu isso. Na vida familiar as coisas até que estavam bem com a esposa Debbie (Leslie Mann, esposa de Apatow) apesar das constantes rusgas entre as filhas Sadie e Charlotte (Maude e Iris, as eficientes filhas de Apatow e Leslie Mann). Pete tem mais problema mesmo é em sustentar o pai (Albert Brooks), que nunca consegue lembrar o nome dos trigêmeos que teve recentemente com a segunda esposa. Já Debbie administra uma loja de roupas que atrai fregueses por conta da beleza de sua vendedora Desi (Megan Fox, que depois de tantas críticas está ganhando crédito em papéis pequenos em comédias e, modéstia a parte, está convencendo bem), Debbie ainda tenta uma reaproximação com o pai (John Lithgow) que deixou a família quando ela tinha apenas oito anos. O filme mostra sucessivos problemas cotidianos que o casal enfrenta com bastante senso de humor, seja por conta de Sadie ser uma típica adolescente que não vive sem facebook ou netflix ou uma gravidez inesperada de Debbie. Às vezes o filme alcança momentos brilhantes como o check-up feito pelo casal ou as tentativas de cumprir a promessa de que ele não comerá cupcakes se ela largar o cigarro. Em outros momentos o filme exagera nas bobagens (como as palhaçadas perante o serviço de quarto num retiro amoroso), mas, fazer o quê,  são elas que garantem o interesse dos fãs mais antigos de Apatow. Conforme os conflitos aparecem, Debbie e Pete começam a questionar até se deveriam ter se casado, as brigas se tornam mais comuns do que os carinhos e... é quando a roupa suja é lavada na festa de quatro décadas de vida de Pete. É importante destacar que as angústias do personagem recebem um momento incomum de catarse nesse (ao som da espetacular canção Dull Tool de Fiona Apple que ficou de fora do Oscar inexplicavelmente), sendo interrompido por um motorista marrento. É incrível como a cena simples funciona para colocar o universo do casal novamente nos eixos e deixar a sensação que Apatow debaixo de tanta abobrinha que passa pela cabeça (ajudada ainda por uma penca de amigos comediantes como Jason Segel, Melissa McCarthy, Chris O'Dowd, Lena Dunham...), trata-se de um romântico incorrigível (especialmente depois de terminar o filme com Ryan Adams cantando Lucky Now). Além disso, não deixa de ser curioso que Paul Rudd (aos 44 anos) tenha conquistado um lugar em Hollywood bem distante do galãzinho que ensaiava ser em sua estreia em Patricinhas de Berverly Hills (1995), assim como Leslie Mann (aos 41 anos) parece fazer questão de ficar distante do rótulo de nova Meg Ryan que lhe atribuíram quando apareceu toda adocicada como namorada de Matthew Broderick em O Pentelho (1996) - que foi a primeira produção de Apatow para o cinema.

Leslie e Rudd: o peso de quatro décadas na relação. 

Bem Vindo aos 40 (This is 40/EUA-2012) de Judd Apatow com Leslie Mann, Paul Rudd, Maude Apatow, Iris Apatow, Chris O'Dowd, Megan Fox, John Lithgow, Albert Brooks e Graham Parker. ☻☻☻

sexta-feira, 12 de julho de 2013

DVD: Os Crimes de Snowtown

James e John: intolerância, violência e loucura. 

Existe um tipo de filme que é um dos mais perigosos de se assistir: o filme feito para chocar. O último do gênero que assisti foi o australiano Os Crimes de Snowtown do estreante Justin Kurzel que chegou a ser premiado pelo júri em Cannes2011. Considero perigoso porque depois de assistí-lo, mesmo sem ter gostado do resultado final, ele habita seu cérebro por um loooongo tempo! Esse tipo de longa metragem tem cenas de violência (geralmente com abuso sexual ou assassinato a sangue frio), ritmo lento, a câmera treme, a fotografia é desprovida de cores quentes e se tudo for baseado numa história real a coisa fica ainda mais incômoda. Baseado em dois livros que desbravavam os crimes na cidade australiana de Snowtown, o filme consegue ser bastante cru no seu retrato de uma violência crescente  motivada por preconceitos e insatisfações pessoais. James (Lucas Pittaway) vive num subúrbio australiano com a mãe e os três irmãos. Ele e os irmãos mais novos ficam muito próximos de um vizinho que abusa sexualmente do trio. Quando a mãe descobre, cobra ações das autoridades locais que não fazem absolutamente nada para contra o que a comunidade considera uma ameaça para as crianças da região. As coisas mudam quando a família de James conhece o bonachão John Bunting (Daniel Henshal), que assume a figura paterna que faltava na família e que tem planos para se livrar do vizinho pedófilo, principalmente com a ajuda de James. Desde a primeira cena, John tem olhos sinistros que não conseguem disfarçar uma certa crueldade na forma como lida com as pessoas ao seu redor (o desconhecido Daniel Henshal merece elogios pela atuação arrepiante). Diante de uma comunidade que se reúne para compartilhar seus medos e inseguranças, John se nutre de um poder autogerado de que pode fazer vingança justiça com as próprias mãos. De início o pretexto é dar uma lição aos pedófilos das redondezas (com a ajuda de uma lista citada por um amigo travesti), depois a raiva de John é transferida para os homossexuais, para os drogados e outras pessoas que não simpatiza muito. O diretor Justin Kurzel exige estômago da plateia para aguentar cenas de mutilação de animais, estupro e tortura numa paranoia crescente de Bunting, que se tornou um dos serial killers mais procurados da Austrália na década de 1990. Apesar do drama pesado em torno dos personagens, a atmosfera opressora mantém o espectador conectado à trama que vai de um crime ao outro do bando de "justiceiros" liderados por  Bunting. No entanto, a estética narrativa do filme em gerar cenas quase soltas gera alguns episódios confusos, como a cena de Troy (que eu entendi ser o irmão mais velho de James) na banheira sem maiores desdobramentos ou o diagnóstico de esquizofrenia de James (que não é trabalhado no filme) e o último crime do grupo que não fica clara a motivação. Ainda assim, penso que esse último crime do grupo serve para deixar claro que a maior desculpa motivação não é senso de justiça ou abandono social que gerou a violência retratada no filme, mas a existência de uma mente doentia que vê na violência a única forma de se relacionar com o mundo.  

Os Crimes de Snowtown (Snowtown - Australia/2011) de Justin Kurzel com Daniel Henshal, Lucas Pittaway e Louise Harris. ☻☻

CATÁLOGO: 300

Butler: um espartano como manda o figurino. 

Em 2006 chegava a encher o saco a quantidade de pessoas que ficava falando sobre 300, adaptação para o cinema da célebre graphic novel de Frank Miller sobre o famoso exército de Esparta. No Brasil o burburinho foi ainda maior com Rodrigo Santoro na pele do vilão semideus andrógino Xerxes O filme foi o segundo longa dirigido por Zack Snyder, que aqui percebeu que poderia mostrar tudo o que era capaz  de fazer na construção de imagens com ajuda de computadores. Se em Madrugada dos Mortos (2002), alguns mais céticos ainda suspeitavam da capacidade do diretor contar uma história decente, aqui ele demonstrou que pode retratar personagens com a mesma intensidade das cenas de ação cuidadosamente elaboradas. O filme é bastante fiel à obra de Miller, isso já agrada os fãs, mas a atmosfera agressiva impressa pelo diretor caiu no gosto do público que transformou o filme num sucesso que terá sua sequência lançada em 2014 (e onde somente Santoro participará do elenco origina). O filme ficou famoso por atrair os marmanjos com suas cenas violentas e a mulherada por conta dos atores de musculatura incrementada digitalmente em trajes sumários. Não deixa de ser curioso que o filme conte com atores que ganharam destaque nos anos seguintes: Michael Fassbender, David Wenham, Dominic West, Lena Headey e, obviamente, Gerard Butler. O filme colocou Butler na categoria brucutu favorito da mulherada (tanto que apareceu em várias comédias românticas), coisa que não acontecia quando era visto como um canastrão irlandês. Butler encarna o rei Leônidas de Esparta com uma gana impressionante! É da construção dessa figura emblemática que nasce a força dos 300 espartanos contra o avanço do império sanguinolento de Xerxes, rei da Pérsia. O bando de Xerxes era mais numeroso, mas não contava com a coragem, honra e senso de sacrifício da tropa de Leônidas. O final todo mundo já sabe, afinal trata-se de um embate emblemático da história da humanidade. Snyder capricha nas cenas de batalha, num ritmo vertiginoso em que o espectador parece estar no meio dos personagens! Tem sangue a rodo, mas o diretor parece saber o momento certo para definir cada personagem dentro da trama. Até mesmo o modesto papel da Rainha vivida por Lena Headey tem seus momentos de grande força dramática. Além do cuidado com o desenho cru dos personagens, 300 tem um trabalho gráfico impressionante, que sofreu algumas críticas (desnecessárias) por suas semelhanças com os games. Esteticamente irretocável e de ação incessante, 300 estabeleceu uma espécie de novo gênero: o "neo-épico", uma espécie de reinvenção que o diretor também experimentava em seu filme anterior (com os "neo-zumbis"), o maior mérito de Zack é que mesmo com tantos elementos que poderiam deixar o filme ridículo, ele mantém a testosterona no topo num equilíbrio que é mais complicado do que aparenta. Prova disso é Rodrigo Santoro como Xerxes, gigantesco em suas ambiguidades, assim como todo o filme - que serviu para Snyder fazer das adaptações de HQs o seu território favorito. 

300 (EUA-2006) de Zack Snyder com Gerard Butler, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro, Dominic West e Lena Headey. ☻☻☻

CATÁLOGO: Madrugada dos Mortos

Polley (ao centro): arrastão zumbi em shopping center?

Aproveitando a chegada do Superman de Zack Snyder não custa nada lembrar do primeiro filme que o rapaz dirigiu. Estou falando de Madrugada dos Mortos, que somente no instante que resolvi escrever esse post me dei conta de que faz nove anos que foi lançado! De lá para cá, Snyder já dirigiu outros cinco filmes, o que serve para atestar que os estúdios e o público percebem méritos na sua forma de fazer cinema. Já em sua estreia Snyder padecia do que lhe serviria de rótulo até hoje (ser eficiente em levar para telas ideias de outras pessoas, seja HQs, livros ou remakes), uma vez que Madrugada dos Mortos é uma ideia original de George A. Romero que iniciou na década de 1960 sua famosa trilogia dos mortos (o clássico absoluto A noite dos Mortos-Vivos/1968, O despertar dos mortos (1978) e O dia dos mortos/1981) e não teria rendido essa refilmagem se Danny Boyle não houvesse utilizado sua prosa seca para o sucesso de Extermínio (2002). O estúdio precisava de alguém capaz de dar uma modernizada na trama e buscou no campo publicitário alguém que fosse capaz de remodelar uma ideia conhecida ao gosto da geração que cresceu com o ritmo de games e clipes, não por acaso o filme tem boa parte de seu tempo dedicado a um grupo de pessoas num shopping cercado de zumbis! No início existe até uma certa crítica social presente nessa ideia, com alfinetada no consumismo, na defesa da propriedade, o "ser e o ter" e blábláblá, mas depois tudo isso fica de lado para as cenas de ação. O filme começa com Ana (Sarah Polley), uma enfermeira que depois de uma noite de amor com seu esposo é atacada pela filha que parece estar com alguma doença misteriosa. Seu marido logo é infectado e ela precisa fugir, ao sair de casa ela percebe que uma espécie de praga zumbi inexplicável infectou os vizinhos. Ela acaba conhecendo outras pessoas que não foram contaminadas (papéis de Ving Rhames, Mekhi Phiffer e Inna Korobkina) e todos buscam refúgio em um shopping que se encontra no alto de uma colina. Lá encontram alguns seguranças autoritários (o mais bonzinho é vivido por Kevin Zegers) que atrapalham a convivência do grupo. O filme até investe em alguns dilemas morais entre os personagens, como a tentativa de salvar os que se infectam pelo caminho ou um vizinho a mercê dos zumbis, mas investe pesado mesmo é na sanguinolência e no visual de um bando desesperado de zumbis com fome de entranhas humanas. Com enquadramentos elaborados, algum senso de humor e suspense, Snyder transformou o filme num sucesso que ajudou a criar toda uma nova safra de filmes de mortos-vivos feitos sobre medida para uma geração que adora correria. Os fãs desse tipo de filme não tem do que reclamar, mas sinto que o filme perde parte do seu ritmo lá pela metade da sessão e demora para recuperá-lo. Seja como for, a bilheteria robusta garantiu um certo status ao seu diretor e ainda rende elogios pela estética que consegue imprimir em seus filmes inspirados em universos alheios.  

Madrugada dos Mortos (Dawn of The Dead/EUA-2004) de Zack Snyder com Sarah Polley, Ving Rahames, Jake Weber e Kevin Zegers