segunda-feira, 30 de agosto de 2010

DVD: Avatar


Zoe e Sam: oito minutos a mais de projeção.

Falando em Sam Worthington, soube que semana passada o maior sucesso da carreira do moço voltou às telonas? Pois é, Avatar voltou aos cinemas americanos com oito minutos a mais em sua já longa metragem... fico pensando se depois da bilheteria estratosférica do filme de James Cameron, sua disponibilidade em DVDs, locadoras, Bluerays e o escambal as pessoas ainda estão dispostas a rever um filme que foi lançado no ano passado. Talvez essa iniciativa seja uma espécie de compensação pelo filme ter perdido o Oscar para Guerra ao Terror. Será que esses tais oito minutos fazem tanta diferença no filme de Cameron? Será que eles são capazes de mostrar que o roteiro do filme é melhor do que todo mundo percebia? Bem, que o filme de Cameron é um espetáculo visual arrebatador todo mundo sabe, mas o roteiro... parece que o melhor roteiro que caiu nas mãos do cara foi o de Exterminador do Futuro 2, é sério. As analogias apocalípticas em meados da década de 1990 estavam reunidas no filme com uma maestria rara nos filmes do gênero. Algo tão bom que superou até a primeira parte da saga Terminator - e tão boa que até hoje ninguém a superou na própria série sobre as agruras de de John Connor. Mas voltando a Avatar, Cameron ficou mais de uma década sem filmar depois dos recordes de Titanic e quando voltou foi com uma aventura juvenil com efeitos em 3D. Não quero tirar os méritos do filme, mas não considero que enquanto história Avatar acrescente muita coisa, já vimos seu plot até na Pocahontas da Disney, sem falar que a história do oficial americano que é capaz de libertar uma civilização estrangeira  alienígena tem muitas conotações que caem como uma luva nas aspirações do Tio Sam em sua cruzada pela democraci em culturas alheias. Algo que me incomoda profundamente. Tudo é pretexto para efeitos especiais e num elenco de brucutus (Sam Worthington, Stephen Lang, Giovanni Ribisi...) as mulheres roubam a cena. Sigourney Weaver tem bons momentos num conflito ético entre ciência e ética, mas nem sempre consegue evitar algumas coisas ridículas do roteiro, impecável mesmo está Zoe Saldana, como a princesa na'avi que se apaixona pelo protagonista que se infiltra na população nativa do país. Pena que tantos efeitos especiais colocaram sob suspeita seus dons artísticos e ela teve que se contentar apenas com elogios e uma indicação ao prêmio da MTV. Acabeiu não falando muito da história do filme, mas você já deve saber. Porém, Realmente não sei o que os oito minutos adicionais podem fazer por Avatar, mas dificilmente o fará parecer tão adulto quanto Cameron ambicionava fazê-lo.

Avatar (EUA-2009) de James Cameron com Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Giovanni Ribisi e Stephen Lang. ☻☻

DVD: Fúria de Titãs

Sam Worthington: duras críticas por um roteiro ruim?

Recentemente chegou em DVD a nova versão de Fúria de Titãs, o qual, devo adimitir, eu assisti no cinema mais pelo tom nostálgico de sessão da tarde de minhas lembranças sobre o filme original de 1981. Convenhamos que apesar de todas as limitações da época, o filme de Desmond Davies era muito bem sucedido em lidar com a mitologia grega, especialmente com o mito de Perseu. O mesmo não se pode dizer dessa versão de  Louis Leterrier, que apesar dos efeitos visuais parece fazer um samba do grego doido. Aparentemente o pretexto de se fazer o filme era dar uma nova roupagem para os efeitos considerados toscos para os nossos dias, mas aí eles aproveitaram para mexer no roteiro, ou melhor, na própria mitologia grega! Um verdadeiro sacrilégio para quem admira uma das mitologias mais interessantes do mundo. Os efeitos do filme de Davies me incomodam bem menos do que algumas bobagens que inventaram nessa refilmagem, inclusive um deboche desnecessário com a coruja metálica da deusa Atena. Falando em deusa, deuses, semi-deuses, eles nunca apareceram tão sub-aproveitados numa tela de cinema. Até em Percy Jackson os deuses receberam mais respeito. Que Zeus nos perdoe, mas os efeitos de Davies, com todas as suas limitações davam um visual estranho ao filme de 1981 com algumas das figuras mais bizarras da mitologia. Nessa nova versão temos que nos contentar com  escorpiões gigantes e uma Medusa totalmente tosca. A refilmagem acabou inventando uma pendenga entre Zeus (Liam Neeson) e Hades (Ralph Fienes), um reina no céu e o outro no "inferno", o primeiro se alimenta da adoração de seus fiéis o segundo do medo, da raiva e outros sentimentos negativos. Sendo assim, ele faz a festa quando os mo os mortais  começam a desacreditar dos deuses do Olimpo. Para encarnar Perseu colocaram Sam Worthington - que foi muito criticado por sua atuação no piloto automático. Perseu terá que suar um bocado ao lado de uma trupe de homens corajosos para evitar que o Kraken (isso mesmo, mitologia nórdica na Grécia, rs) aceite a princesa Andrômeda (a bela Alexa Davalos) em sacrifício pela vaidade da sua mãe. Concordo que as cenas de ação são boas, mas o roteiro é de uma ruindade impressionante, afinal ninguém tem que ouvir Perseu dizendo que irá decidir o que fazer no "cara e coroa"! Enquanto sua comparsa vítima de uma maldição (Gemma Arterton) permanece limpa e asseada até o fim da sessão diante da suejeira total ao seu redor. Além disso, o filme desperdiça dois talentos em papéis travados, um é o dinamarquês Mads Mikelsen e o outro é Nicholas Hoult que depois de brilhar em A Single Man ao lado de Colin Firth não tem nada para fazer nesse filme. Apesar de alguns efeitos especiais bacanas o filme não possui nada de memorável como o original.

Fúria de Titãs (Clash of Titans/EUA-2010) de Louis Leterrier com Sam Worthington, Liam Neeson e Ralph Fiennes.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DVD: Nine

Cruz, Daniel e Cotillard: Chicago na Itália!

O musical Nine chegou há algum tempo em DVD e causou nas locadoras o mesmo clima decepcionante de seu lançamento na telona. Nine foi um fracasso de bilheteria e naufragou em suas intenções oscarizáveis, a crítica classificou o longa de vulgar para baixo, motivos para reclamar dessa nova empreitada de Rob Marshall não faltam. Pra começar o cara ganhou vários prêmios por fazer todo mundo pensar que sua adaptação de Chicago era melhor do que O Pianista de Roman Polanski (que, ainda bem, levou o Oscar de direção que poderia ser hoje de Marshall) ou As Horas de Stephen Daldry nos idos de 2003. Se eu não engoli o abuso das desculpáveis cenas de palco de Chicago, o que dizer das cenas de palco nesse Nine? Afinal, o protagonista, o cineasta italiano Guido Continni  (o britânico Daniel Day Lewis) está em crise para fazer um filme e não uma peça teatral! Então por que cargas d'água ele só pensa em encenações num tablado? Além desse mistério ainda tem aquele gosto de sopa aguada que é fazer um filme baseado num musical que é baseado num filme - e não é qualquer filme, já que se trata do clássico Oito e Meio de Fellini. Entre o clima desengonçado das cenas faladas e as cenas musicais mete-se um bocado de coisa: o adultério de Guido, os problemas com a igreja, a crise criativa ao dirigir uma mega-produção... mas tudo incomodamente superficial. Outro fator que acabou indo contra o filme foi ter vários atores oscarizados no elenco, além de Day Lewis estão a espanhola Penélope Cruz (a amante), a australiana Nicole Kidman (a musa), a francesa Marion Cotillard (a  esposa traída), a inglesa Judi Dench (a amiga figurinista) e a (única) italiana Sophia Loren (a mãe). A produção ainda escalou Kate Hudson para encarnar uma repórter e Fergie (do Black Eyed Peas) que como atriz, apenas canta para termum apelo maior entre os jovens [sic]. Apesar de dois ou três números musicais interessantes (destaque para os de Penélope e Cotillard)  o filme é o atestado de incompetência de Marshall como autor! Afinal depois do fracasso Diário de uma Gueixa o diretor tenta se repetir e acaba vítima de sua próprias ambições, evidenciando que não consegue pensar numa tela quando cria, mas nas limitações de um palco.

Nine (Nine/EUA-2009) de Rob Marshall com Daniel Day Lewis, Penélope Cruz, Marion Cotillard e Nicole Kidman.

DVD: Educação


Mulligan: Minha favorita ao Oscar de atriz desse ano.

Desde que foi exibido em Sundance no ano passado (onde ganhou o prêmio do público), Educação da cineasta dinamarquesa Lone Scherfig foi aclamado como um dos melhores do ano e forte favorito ao Oscar de Melhor Atriz, no caso a quase desconhecida Carey Mulligan (a mais risonha das irmãs Bennet de Orgulho e Preconceito/2005). Realmente, a moça entrega um ótimo trabalho ao encarnar as angústias de uma jovem de 16 anos que enfrenta uma decisão complicada na década de 1960: ir para uma faculdade conceituada ou se casar com um homem mais velho (Peter Sarsgaard) que pode realizar todos os seus sonhos - boas roupas, boas festas, viagens para Paris. O título se refere a esta encruzilhada sobre a educação que recebemos na escola e na família e aquela que parece ser a mais prazerosa das vivências que podemos ter. Trata-se de uma história simples mas que já vimos e ouvimos diversas vezes, mas embalada com gosto por Scherfig (diretora adepta do DOGMA 95, pelo qual realizou o mais simpático de todos do movimento: Italiano para Principiantes/2000). Tudo no filme é muito bem cuidado, a fotografia, os figurinos, os créditos, os enquadramentos, as locações e as atuções. Mulligan consegue construir uma protagonista fascinante que consegue evitar nossoo julgamento por sua conduta - afinal, tudo indica que ela é seduzida por um homem pouco nobre e ainda ajuda a enganar seus pais. O filme evita a áurea de coitadinha que é tão comum em filmes do gênero e preocupa-se em mostrar Jenny como uma garota especial, inteligente e que tem o mundo inteiro pela frente, mas que aos poucos aprende que para atingir o que quer não há atalhos. Nesse ponto, um excelente contraponto é a presença da personagem de Rosamund Pike (outra irmã Bennet...) que apresenta um visual arrebatador, mas com conhecimentos que não ultrapassam futilidades consumistas (é hilariante a forma como ela debocha das universitárias de seu tempo). Houve quem considerasse o filme moralista, mas precisamos levar em conta que Educação é sobre um período específico, onde as adolescentes deveriam decidir entre ser independete ou tornar-se esposas, sendo assim Jenny fica entre os modelos femininos que vê, seja a amiga com visual de diva, a professora solitária ou a própria mãe (Cara Seymour) - que passa quase o filme todo em silêncio ao lado do marido (Alfred Mollina, que quase conseguiu uma vaguinha no Oscar de coadjuvante) saboreando a sedução de sua filha. Se existe algum problema no filme é o seu final, onde tudo soa muito apressado com soluções rápidas e pouco aproveitadas (a professora feita por Olivia Williams e a diretora interpretada por Emma Thompson poderiam ter maior destaque nessa parte), mas nada que prejudique muito essa adaptação de Nick Hornby (Alta Fidelidade; Um Grande Garoto) para a escrita autobiográfica da jornalista Lynn Barber. O filme concorreu a três Oscars: filme, atriz (Mulligan) e roteiro adaptado, mas não levou nenhum para casa. Mesmo assim, é melhor do que a metade dos outros candidatos ao Oscar desse ano.  

Educação (An Education/Inglaterra - 2010) de Lone Scherfig com Carey Mulligan, Peter Saarsgaard, Alfred Mollina, Cara Seymour, Rosamund Pike, Olivia Williams e Dominic Cooper. ☻☻☻

domingo, 22 de agosto de 2010

Ladies & Gentlemen: Paul Giamatti

Pela minhas contas o americano Paul Giamatti já teria umas quatro indicações ao Oscar, mas não é bem assim que as coisas funcionam em Hollywood. Ele só tem uma e mesmo assim por um filme não está entre os três melhores de sua carreira. Filho de um professor conceituado da universidade de Yale, o ator nasceu em New Haven em 1967, tendo iniciado na carreira de ator na década de 1990. Quem der uma olhada no seu currículo verá que foi um período difícil, cheio de filmes sem importância ou pequenos papéis em filmes de sucesso (nesse caso tem Vida de solteiro/1992 ou O Casamento do Meu Melhor Amigo/1997). Depois de participações em filmes como O Show de Truman (1998), O Resgate do Soldado Ryan (1998), O Mundo de Andy (1999), ele percebeu que podia roubar a cena em Duets (2000) e Planeta dos Macacos (2001). As coisas só mudaram mesmo quando interpretou Harvey Pekar no metalinguístico American Splendor (2003) que por aqui recebeu o nome hediondo de Anti-Herói Americano [sic], sua atuação lhe valeu indicações a prêmios como o Globo de Ouro e o Independent Spirit. A consolidação de sua boa fase veio como o protagonista de Sideways (2004) de Alexander Payne, indicado ao Globo de Ouro, premiado no Independent Spirit e mais uma vez rejeitado no Oscar. A Academia resolveu consolá-lo com sua aguerrida atuação no fracote A Luta pela Esperança (2005), onde vivia o treinador de Russel Crowe.  Em 2006 participou do sucesso inesperado O Ilusionista e do fiasco A Dama na Água. Depois de algumas participações especiais foi o vilão de Mandando Bala (2008). Giamatti bem que merecia uma outra indicação ao Oscar por Almas à Venda (2009), pelo qual foi lembrado apenas num festival na Rússia - talvez porque seu tipo físico faz a Academia teimar em não reconhecer que trata-se de um dos atores mais interessantes de que Hollywood dispõe atualmente.

Com Hope Davis em American Splendor: Ponto de mutação.

FILMED+: Almas à Venda

David e Paul: lidando com as angústias da alma humana

Quando vc vê chegar nos cinemas da sua cidade o novo filme do Stallone ao lado de um filme nacional que parece um filme do Stallone, está na hora de procurar novas alternativas... foi assim que não hesitei em ver Almas à Venda quando estava há algumas horas de distância. Trata-se de um filme que pensei que só iria ver daqui há alguns anos quando desse a sorte de ver um DVD dando sopa por aí. O filme foi um dos mais elogiados do ano passado, mas acabou estreando no Brasil no mês passado após ser desprezado no Oscar e no Globo de Ouro. Pura maldade, acho que atualmente quando alguém cria um roteiro que flerta com o surreal, as pessoas o comparam à obra de Charlie Kauffman e o filme acaba sendo esquecido pelos seus méritos próprios. O mesmo aconteceu anos atrás quando Mais Estranho que A Ficção - recebeu elogios e ficou só nisso. Mas Almas à Venda já está na minha listinha de melhores lançamentos que pintaram por aqui nesse ano. Pra começar a diretora Sophie Bartes criou um roteiro mirabolante sobre as conotações que a alma tem em nossas vidas. Toda a culpa, angústia, divindade e identidade que atribuímos à ela pode ser vista no filme, ou melhor, no genial trabalho de Paul Giamatti, que interpreta ele mesmo nas incertezas de atuar no clássico Tio Vânia de Tchecov. É no meio dessa crise de composição de personagem que o ator resolve extrair a alma e se decepciona desde o início ao ver que ela se parece com um grão de bico. Desalmado, o efeito da extração em seu trabalho é desastroso e a coisa parece melhorar somente quando escolhe uma alma de poeta russo para atuar do jeito que quer. O problema é o bando de efeitos colaterais que começa a sentir - a ausência de sentimentos - para logo depois sofrer com uma alma de poeta -, a pele escamosa, a sensação de vazio... - resolvido a ter sua alma de volta as coisas complicam ao saber que ela foi roubada e enviada para Rússia. Além de Giamatti chama atenção a presença da "mula" Nina (a boa Dina Korzum, indicada em Sundance ao prêmio de atriz coadjuvante), responsável pelo transporte das almas para outros países. Entre piadas (uma atriz que quer a alma de Al Pacino, Robert Redford ou Sean Penn...) e momentos de pura reflexão (que sentido damos à nossa alma?) o filme demonstra inteligência e perspicácia em produzir uma narrativa fluente para um roteiro que poderia ser incompreensível. Sim, as referências à Charlie Kauffman estão ali, assim como as voltadas para o cinema de Sofia Coppola, Woody Allen ou à literatura russa. Longe de ser uma colagem, o filme ainda atraiu atores do porte de David Strathairn (indicado ao Oscar por Boa Noite, Boa Sorte - num papel bem diferente do que costuma fazer) e Emily Watson (depois de duas indicações ao Oscar aparece, mais uma vez, como coadjuvante de luxo). Curioso é que toda essa viagem criativa é inspirada num relato de sonho de Woody Allen, onde ele havia visto que sua alma era do tamanho de um grão de bico. Sophie Bartes escreveu o roteiro pensando em oferecer a Allen, mas imaginava que ele não aceitaria atuar em seu filme de estréia. Bartes antes havia dirigido um curta onde o protagonista queria comprar a felicidade. Essa menina deve frequentar uns shoppings bem estranhos - mas as salas de cinema devem passar filmes muito bons. 

Almas à venda (Cold Souls/EUA-Rússia-2009) de Sophie Bartes, com Paul Giamatti, David Straithairn, Emily Watson, Dina Korzun e Lauren Ambrose. ☻☻☻☻☻

sábado, 21 de agosto de 2010

DVD: Lunar

Rockwell: esnobado no Oscar desse ano

Ano passado foi um ano muito bom para as ficções científicas, cada uma do seu jeito soube conquistar o público, seja aquele que gosta de produções espalhafatosas capazes de convencer sua qualidade sobre mais de dois bilhões de bilheterias (Avatar), filmes com idéias engenhosas (Distrito 9), reciclagens descaradas que ficam felizes de arrecadar alguns trocados (Pandorum e Substitutos) e uma destinada a ser cult por seu estilo intimista. Neste último caso se encaixa Lunar, o filme de estréia de Duncan Jones, o filho de David Bowie (foto, esq.), que mostra saber digerir muito bem as referências musicais de seu pai (mesmo sem estar na trilha eu consigo ouvir Space Odissey ao fundo de toda trama) e as cinematográficas que vislumbrou sobre um gênero que estava desgastado. O filme é simples, mas está longe de ser uma obra qualquer. Duncan demonstra muita habilidade em dominar um fime que se passa praticamente em um cenário e utilizando, praticamente, um único ator em cena. Sam Rockwell encarna o astronaura Sam Bell, que conta os dias para terminar seus dias de solidão numa estação lunar e voltar para casa e encontrar sua esposa e filha - com as quais se comunica por mensagens interplanetárias.  Como companhia o astronauta possui Gertz (voz de Kevin Sapcey, em sua melhor atuação nos últimos dez anos), um robô que controla a nave e que zela por sua segurança e sanidade (a idéia do robô se expressar pela carinha do Smile é umas das grandes sacadas do filme e o coloca como oposto ideal ao vilão HAL, da principal referência de Jones na feitura desse filme, 2001 de Kubrick). O problema todo é quando Sam sofre um acidente ao tentar resolver problemas na torre de comunicação e as coisas começam a complicar. Lunar é o tipo de filme que não se pode contar muito senão estraga, mas pode-se dizer que Sam enfrentará um dilema sobre sua identidade e ambições, já que encontra um outro (?) homem na Lua que o faz lidar com alguns segredos e medos. A solidão é um dos personagens do filme e o roteiro amplia isso ao mostrar de forma inusitada que o protagonista não pode contar nem com ele mesmo, quanto mais descobre a verdade, mais se deteriora rumo ao inevitável. Melancólico e claustófóbico  o filme tem como alma a atuação de Rockwell, que merecia uma indicação ao Oscar. Ela até poderia ter saído se os produtores tivessem lembrado de inscrever o fime na premiação da Academia - o que rendeu uma briga feia de Jones com a Sony Classics. Lunar acabou concorrendo a alguns prêmios no BAFTA e saindo direto em DVD no Brasil, espero que o filme encontre seu público, mesmo que seja na telinha. 

Lunar (Moon - EUA/Inglaterra/2009) de Duncan Jones com Sam Rockwell e Kevin Spacey. Cotação ☻☻☻☻ 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Combo: Brinquedos

Faz tempo que os brinquedos fascinam os roteiristas de Hollywood, mas nem sempre a coisa funciona. Se Toy Story fez sucesso, um outro tanto de produções decepcionaram. Entre produções mais e menos famosas eu destaquei essas:

05 Toys - A Revolta dos Brinquedos (1992) Robin Williams se achava o cara mais engraçado do mundo quando topou se meter nessa produção pretensiosa, sem graça e da qual ninguém gostou. A decepção só aumenta quando vemos que o diretor dessa presepada é Barry Levinson (de Rain Man e Bugsy). A trama é sobre um adulto (Robin, bancando uma espécie de adulto que não quer crescer, ou seja, um idiota) que resolve salvar a fábrica de brinquedos de seu pai das garras do seu tio malvado. Na empreitada ele conta com a ajuda da irmã (Joan Cusack) e a namorada (Robin Wright). Confesso que vi poucos minutos do filme, me sentia um idiota vendo um bando de adultos se comportando como se fossem brinquedos, acho que muita gente sentiu isso, já que o filme foi um grande fracasso. 
04 Pequenos Guerreiros (1998) Depois do primeiro Toy Story, não demorou muito para providenciarem uma espécie de versão em carne e osso, cheia de clichês no roteiro. Pequenos Guerreiros mostra uma guerra de bibelôs que são inimigos desde a fábrica. Enquanto Tommy Lee Jones e Cristina Ricci emprestam as vozes para os brinquedos, Kirsten Dunst é o nome mais famoso que vemos na tela. Apesar de ter feito algum sucesso nos cinemas a trama de cunho politicamente correto (oa monstrinhos são bonzinhos e os soldados são malvados) não ajuda muito tornando tudo muito previsível.  Mas como brincadeira dá até para passar o tempo.
03 Meu Herói de Brinquedo (1996) Você nem deve lembrar de TurboMan, o boneco de super-herói que fazia Arnold Schwarzennegger passar por apuros às vésperas de natal. O filme foi a última comédia que o fortão protagonizou e contava ainda com coadjuvantes do porte de Rita Wilson (A senhora Tom Hanks) e Jake Loyd (o moleque talentoso que mais tarde encarnou o menino Anakin Sywalker). Inofensivo, bobinho e de roteiro sem grandes surpresas, o filme não foi um sucesso. Quem diria que um herói de plástico derrotaria o parrudo Exterminador do Futuro? Mas sempre tem um estado nos EUA que precisa de governadores de apelo popular, não é?

02 Brinquedo Assassino (1988) Chucky entrou para o imaginário popular como aquele boneco de cara feia (mesmo quando fingia ser bonzinho) e roupa de Fofão. O brinquedo que todo mundo temia por ser a encarnação de um psicopata (?!) acabou virando um pastiche de si mesmo rendendo filmes cada vez mais risíveis até descambar para a paródia geral que deram ao boneco maligno uma noiva (dublada por Jennifer Tilly, quem diria) e até um filho. No fim das contas ele voltou a ser o que era: um alvo de brincadeiras!

01 Pinóquio (1940) O clássico da Disney imortalizou o boneco de madeira que queria ser menino. Além do nariz que crescia quando contava uma mentira, do grilo falante que funcionava como consciência do personagem e a fada madrinha capaz de realizar o maior desejo do brinquedo mais popular da literatura, o filme tem uma habilidade irresistível em conquistar o público. A prova do mérito da Disney foi comprovada nas outras aventuras do boneco na telona: uma com Martin Landau que era eficiente, mas sombria demais e outra (vexatória) com Roberto Benigni pós-A Vida é Bela, ambas não vingaram nas telas e no imaginário coletivo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Na tela: Toy Story 3


                            Toy Story 3: o drama de ser rejeitado em enésima potência

Teve gente que torceu o nariz para essa terceira aventura dos brinquedos da Pixar, consideraram muito sombrio e melancólico, como se as crianças não pudessem llidar com esse tipo de coisa. Desde o primeiro filme liderado pelo cowboy Woody (dublado por Tom Hanks) e o astronauta Buzz Lightyear (o melhor papel de Tim Allen) aprendemos que não há nada pior para um brinquedo do que ser esquecido. Bem, não só para os brinquedos. O primeiro filme (1995) já nos tocava porque nos fazia lembrar que crescer tem um preço, nele está incluído deixar nossos brinquedos, companheiros de fantasias, para trás. No segundo filme (1999) isso foi fortalecido na figura da vaqueira Jessie (Joan Cusack),  que abandonada por sua dona gerou um dos momentos mais tocantes da Pixar até então. O terceiro filme demorou bastante para ser feito, o roteiro foi mais revirado do que qualquer outro do estúdio e quando vemos o longa na tela podemos perceber o motivo. Como arrematar a idéia original da série sem escorregar na pieguice ou no dramalhão? Percebemos que o estúdio descobriu como. Andy não é mais um moleque que tem a atenção disputada por seus brinquedos, prestes para ir à faculdade vive o dilema de traçar o destino de seus brinquedos. Ele opta por guardá-los no sotão, mas por um descuído acabam indo para uma creche. Bem recebidos por outros brinquedos, especialmente por um urso rosa com cheiro de morango, eles logo descobrirão que brincar com aquelas crianças é muito cansativo e perigoso. O filme investe num clima de suspense que faz a tal creche parecer uma prisão e o tal urso rosa parece ser 'Made in Dogville' - quem viu o filme de Lars Von Trier vai entender. Sem medo de investir um pouco mais no drama o destino dos brinquedos parece ficar cada vez pior quando vão parar num lixão - que é metafóricamente retratado de forma brilhante como o inferno para aqueles personagens. Mas o filme ainda tem aquele humor inteligente da Pixar, como o trauma de Ken em ser um "brinquedo de menina" ou Buzz de galã espanhol. Até o final feliz já estamos sentindo saudade dos personagens que de plástico ou não, vão fazer mais falta do que muito astro de Hollywood.

Toy Story 3 (Toy Story 3/EUA-2010) de Lee Unkrich com vozes de Tom Hanks, Tim Allen e Joan Cusack. Estreou em 18/06/2010. Cotação: ☻☻☻☻

sábado, 14 de agosto de 2010

DVD: Preciosa


Gabourey: uma vida preciosa na sarjeta

Falando em Oscar e em Sandra Bullock recentemente vi Preciosa de Lee Daniels, lembro que um amigo do mestrado disse que tinha visto o filme e que achou tudo aquilo muito caricatural, mas que era interessante a proposta do filme. Acho que ele tem alguma razão, mas até que ponto podemos negar as caricaturas num retrato da realidade? Pra começar me chama a atenção como o filme tem o maior jeitão de filme da década de 1980, a trilha, as roupas e até a proposta me lembra os primórdios do cinema independente americano, tudo muito sujo, tudo muito espontâneo e pouco lapidado antes que se industrializasse com o auxílio da Miramax. Lee Daniels nem tenta disfarçar que sua maior inspiração é A Cor Púrpura (o meu filme favorito de Steven Spielberg), inspiração que brota da própria obra que deu origem à Preciosa, o livro em forma de poema da escritora Saphire. O vínculo do filme com  A Cor Púrpura não para por aí, além de uma personagem mencionar que púrpura é sua cor favorita, a produtora do filme é Oprah Winfrey que foi alçada ao estrelato por sua atuação no papel coadjuvante de Sophia na obra spielbergiana.   Além dessas semelhanças, as obras são protagonizadas por jovens negras que comem o pão que o diabo amassou, com direito a filhos doados sem o seu consentimento, doses de incesto e maus tratos. No entanto, se fizermos um ranking, a rechonchuda Preciosa ganha em desgraças da esguia Cecile. Preciosa é pobre, negra, obesa, tem um filho com síndrome de down que mora com a sua avó, está grávida do esposo de sua mãe pela segunda vez e a senhora em questão é uma das maiores megeras do cinema (cortesia de Mo'Nique, que ganhou mais de trinta prêmios pelo papel incluindo o Oscar e o Globo de Ouro). As coisas vão muito mal na vida de Preciosa, que aos 16 anos já pode ver um futuro pouco promissor. A coisa só melhora quando tem a chance de entrar para um programa para jovens com problemas de aprendizagem e com a ajuda de uma professora (a bela Paula Patton) redescobre sua auto-estima. Apesar dos maiores louros do filme terem ficado com a ex-rapper e comediante Mo'Nique (afinal, ninguém esperava que pudesse suportar tamanha carga dramática nas costas) a alma do filme é Gabourey Sidibe, que desde o Festival de Cannes do ano passado chamou a atenção. A jovem foi indicada ao Oscar de atriz, mas teve uma tarefa árdua para provar que tinha pouca coisa em comum (só o físico) com a personagem, sua atuação é comovente e de uma precisão de veterana - especialmente nas cenas que duela com Mo'Nique. Parte desse mérito é de Lee Daniels, que deu espaço de sobra para suas atrizes (que ainda conta com uma surpreendente Maryah Carey no papel de uma assistente social) construirem seus personagens em suas forças e mazelas. Pela tarefa se tornou o segundo diretor negro a ser indicado ao Oscar de direção (o outro foi John Singleton, por Os donos da rua,  num longínquo 1991). Preciosa é um choque para nos fazer pensar que muitas pessoas precisam apenas de uma chance para se sentirem especiais e mudarem o rumo de uma vida que parece destinada ao fundo do poço. Parece auto-ajuda? Pode até ser, mas com muita sinceridade. Falando em sinceridade, Bullock merecia mesmo o Oscar de atriz? 

Preciosa (Precious/EUA-2009) de Lee Daniels, com Gabourey Sidibe, ´Mo'Nique, Paula Patton, Maryah Carey e Lenny Kravitz.  Cotação: ☻☻☻

DVD: ILHA DO MEDO

DiCaprio: Dois sucessos, dois homens entre a realidade e a imaginação.

Nunca pensei que um dia Leonardo DiCaprio estaria em dois dos melhores filmes de um ano, talvez só nos idos tempos de Gilbert Grape (1993), que lhe deu sua primeira indicação ao Oscar na categoria de coadjuvante. Mas depois ele foi tragado pela fama e teve que se tornar galã de mais caras e bocas do que propriamente atuações marcantes. Sorte que o cara andou se metendo com Martin Scorsese e começou a mostrar que podia ser levado a sério. A primeira vez é sempre mais difícil e ele acabou deixando a desejar rechonchudo num duelo com Daniel Day Lewis em Gangues de Nova York (2002), da segunda vez fui um daqueles que o consideraram jovem demais para ser Howard Hughes em O Aviador (2004), mas a Academia fingiu não ligar, lhe deu uma indicação e... só. A coisa não ficou muito melhor no oscarizado Os Infiltrados (2006), já que os atores tinham pouco a fazer num jogo de gato e rato onde as ironias do roteiro eram as protagonistas, mas DiCaprio estava correto ao ponto de ser indicado ao Oscar por sua atuação em outro filme: Diamante de Sangue  de Edward Zwick, lançado no mesmo ano. Em 2010, a parceria com Scorsese chegou ao quarto elemento: Ilha do Medo. Um nome pouco apropriado para o original Shutter Island. De cunho psicológico o filme foi adiado no lançamento previsto para o ano passado e acabou chegando aos cinemas em março desse ano, se tornando o filme de maior bilheteria da carreira de Scorsese. Foi justo? Foi, está certo que o filme está longe de ser genial como Taxi Driver ou Touro Indomável, mas Scorsese consegue construir um clima claustrofóbico com maestria e com um tempero de paranóia que só a época de caça às bruxas comunistas é capaz de ter. Baseado no livro de Denis Lehanne (que tem um verdadeiro fetiche por tramas com crianças maltratadas) o filme se passa numa ilha sanatório, onde dois agentes federais (DiCaprio e Mark Rufallo) vão investigar a fuga de uma paciente (Emily Mortimer) reponsável pelo assassinato dos filhos. Não bastasse se passar num sanatório, o filme tem um clima estranho, onde todo mundo parece estar escondendo alguma coisa, dos loucos aos médicos (Ben Kingsley e Max Von Sydow). Enquanto a paranóia cresce nós tentamos juntar os pedaços para saber o que o protagonista nervozinho está realmente fazendo ali. Seria uma armadilha por suas ligações com comunistas? Estaria ali em busca do incendiário (Elias Koteas) que matou sua esposa (Michelle Williams)? Se contar mais estraga. Mas podemos dizer que o cara vive sonhando com a esposa morta e com seus fantasmas da Segunda Guerra Mundial, o que somado ao seu nível de estresse não torna nosso herói muito confiável. Scorsese capricha no elenco que lhe retribui com atuações precisas (ainda podemos ver Patricia Clarkson e Jakie Earle Haley em magníficas participações), sem falar na estupenda trilha sonora compilada por Robie Robertson que nos coloca no clima logo no início. No entanto, apesar das ousadias muita coisa fica postiça no filme, especialmente a surpresa. Falta sutileza ao final que faz tudo parecer uma pegadinha, uma pegadinha classuda - afinal falamos de Scorsese - mas ainda assim uma pegadinha. Sorte que é nesse momento que DiCaprio tem seus melhores momentos na projeção, mantendo a dignidade do personagem no momento onde o filme fica mais cambaleante. Quando vi o filme no cinema temi por DiCaprio nas semelhanças que o filme poderia ter com A Origem - e ao ver o filme de Nolan notei que existem grandes semelhanças entre as tramas, mas as diferenças parecem ter servido para o ator seguir por outro caminho, o da introspecção. Veremos qual deles o levará às premiações no ano que vem. Se Sandra Bullock levou o Oscar depois de dois sucessos num ano de vacas magras, quem sabe o currículo de DiCaprio ajuda no ano que vem?

Ilha do Medo (Shutter Island) de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio, Mark Rufallo, Michelle Williams e Ben Kingsley. Cotação:☻☻☻

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

FILMED+: Amnésia

Pearce e Moss: Dois perdidos num espelho sujo

Ainda lembro a primeira vez que vi Amnésia de Christopher Nolan e tive a impressão de que não iria entender nada até o fim da projeção. Por sorte eu entendi tudo e além de ver um bom filme, ainda aumentei a minha auto-estima (rs)! Muita gente considera este filme como o primeiro do diretor, mas na verdade ele possui um anterior (Falling, do qual só ouvi falar recentemente por possuir a semente de A Origem. O roteiro é inspirado num conto nunca publicado de Johnatan Nolan (irmão de Chris e parceiro constante) e o resultado na tela é mais pulsante do que a mídia impressa poderia supor. Ao acompanharmos o protagonista que não sofre de amnésia, mas de um distúrbio que impede que registre informações recentes por muito tempo, o diretor busca, através da edição, reproduzir no expectador o mesmo efeito. Muita gente pode ficar tonta, alguns podem não entender muito bem o que se passa, principalmente quando se percebe que ao fim das contas o filme não é só de trás para frente, mas possui cenas de seu desfecho (ou seria início) entremeada em em cenas em preto e branco. A narrativa dispõe ainda de artifícios interessantes para compensar a angústia de seu personagem principal (vivido pelo australiano Guy Pearce), como a utilização de tatuagens e fotografias para substituir a sua memória. Pena que em sua busca pelo assassino de sua esposa, estes elementos sejam menos confiáveis do que ele julga ser - e a presença de dois personagens intrigantes (uma mulher vivida por Carrie Anne Moss e um bigodudo interpretado por Joe Pantoliano) e que inspiram pouca confiança. O filme deixa claro que as intenções de Nolan é transcender fazer filmes apenas para serem assistidos, mas proporcionar aos seus fãs experiências únicas dentro de uma sala escura, aspecto que manteve intacto em seus filmes seguintes, mesmo nos de sucesso modesto (como o seguinte Insonia com al Pacino) ou blockbusters (como Batman - O Cavaleiro das Trevas). Depois de Amnésia outros filmes se aventuraram pela forma invertida de contar histórias, como o pesadelesco Irreversível de Caspar Noè e O Amor em Cinco Tempos de François Ozon, mas nenhum deles alcançou a mesma repercussão.

Amnésia (Memento, EUA-2000) de Christopher Nolan com Guy Pearce, Carrie Anne Moss, Joe Pantoliano e Jorja Fox. Disponível em DVD. Cotação: ☻☻☻☻☻

domingo, 8 de agosto de 2010

A Mulher Gato Marion Cotillard

Quem fuxica a Internet já deve ter se deparado com as montagens que apontam que Marion Cotillard é a Mulher Gato na terceira parte de Batman a ser dirigida por Christopher Nolan. Se levarmos em consideração o que vemos nos posters que alguns fãs espalham pela internet e que Chistopher Nolan adora uma patota, ela tem fortes chances. Basta ver A Origem, que acumula uma quantidade considerável de atores que trabalham mais uma vez com o diretor. Assim como Cillian Murphy é o Espantalho de Batman Begins, Ken Watanabe também deu as caras na primeira aventura do Homem Morcego como o vilão treinador do herói. Já o veterano, Michael Caine além de ter espaço garantido como o mordomo Alfred nas aventura do Homem Morcego, esteve ao lado do Batman Christian Bale em pessoa em O Grande Truque, que Nolan fez entre os filmes do herói. Se ainda levarmos em consideração as mulheres que trabalharam com Nolan recentemente, a francesa Marion é a mais cotada para o posto da vilã favorita da DC Comics e ter um Oscar na estante não deve atrapalhar! Apenas eu ou mais alguém achou a música de Edith Piaf em A Origem uma homenagem ao papel que consagrou a atriz? Se for mesmo, Marion deve ser a musa do cineasta - o que amplia ainda mais as suas chances. Faz tempo que uma francesa não causa tanto rebuliço em Hollywood, quando ganhou o Oscar de atriz pela cinebiografia de Piaf, Marion era praticamente desconhecida e depois de colecionar prêmios esteve em produções ambiciosas como Inimigos Públicos ao lado de Johny Depp e em Nine ao lado de Daniel Day Lewis. Se o sucesso dos filmes não foi o esperado, o crédito de Marion continuou intacto com atuações respeitáveis. Sua participação em A Origem é pequena, mas crucial! Poucas atrizes conseguiriam alternar vulnerabilidade e agressividade com tanta força. Agora o legado de Michelle Pfeiffer será respeitado!

Bale e Cotillard: vestidos a caráter

FILMED+: A ORIGEM


 A Origem deve ser o filme mais aguardado do ano, afinal de contas todo mundo ficou de boca aberta mesmo sem entender nada do que estava vendo no trailer criado pela equipe do cineasta Christopher Nolan. Vi o filme na sexta-feira no seu lançamento, na primeira sessão e até agora estou tentando digerir o que eu vi. Não que eu considere o filme difícil de ser entendido, de fato as várias camadas narrativas tornam a trama complexa, mas Nolan tem habilidade de sobra para lidar com essas coisas, afinal quem viu Amnésia - que ficou conhecido como o "filme de trás para frente" sabe do que o cara é capaz. Mas Inception foi produzido logo após o grande sucesso do cineasta: Batman - O Cavaleiro das Trevas que rompeu a barreira do bilhão na bilheteria mundial e rendeu críticas para a Academia Hollywoodiana que o esnobou na categoria principal. Diante desse quadro é possível que o filme de Nolan esteja entre os dez indicados do Oscar no ano que vem e a academia possa se redimir não só do que fez com seu Batman, mas com o próprio Amnésia que perdeu o Oscar de roteiro - por que nem Christopher e seu irmão Johnatan Nolan (que assinavam a escrita do filme) eram afiliados ao sindicato. Politicagens a parte, A Origem é um espetáculo visual e cinematográfico. Evidente que você irá identificar um mundo de referências na trama do filme: David Lynch, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, Matrix, 007, Quero Ser John Malkovich, 11 Homens e um Segredo... mas a graça de tudo é como Nolan manipula todas essas referências e nos oferece uma esperiência única por mais de duas horas na sala escura. Pode-se dizer que ele mescla nossa experiência ao ver o filme com a atividade de sonhar, ou que nos proporciona a mesma sensação de seus personagens, que confunde nossa cabeça propositalmente para não nos darmos conta dos problemas que seu roteiro pode ter, o fato é que o diretor sabe exatamente o que fazer para segurar a nossa atenção durante toda a projeção, aprisionar nosso fôlego até que o fim do filme chegue e não se tenha certeza que terminou. A crítica americana fingiu não entender o que viu ou apenas se acostumou aos filmes bobocas que assolam o ano de 2010? Eles que me desculpem, mas no universo de Nolan tudo me soa coerente e extremamente coeso. O filme pode ser visto como um filme pipoca bem elaborado, mas pode também ser encarado como uma grande analogia sobre nossa atividade de sonhar diante de uma tela de projeção - além das entrelinhas revelarem que Nolan não quer só entreter, mas nos fazer pensar acima de tudo.  

Joseph Gordon Levitt: Mais elegante que o Homem Aranha

A história se concentra num ladrão de sonhos, ou melhor um extrator (Leonardo DiCaprio), mas dessa vez ele recebe uma missão diferente: inserir uma idéia na mente de alguém, uma idéia capaz de dilulir o império empresarial milionário herdado por um rapaz (Cillian Murphy). Mas ele é incapaz de encarar essa missão sozinho, ainda mais com o grau de risco que assume (que o fará criar três camadas de sonho). Na equipe desse ladrão ainda está uma espécie de segurança pessoal (Joseph Gordon Levitt, que cria um dos personagens mais elegantes da história do cinema), um simulador (Tom Hardy, que promete fazer barulho nos próximos anos), uma arquiteta de sonhos inexperiente (Ellen Page), um químico capaz de dar-lhe o tempo necessário para a missão, além do empresário que encomendou a missão que é chamado nos posteres de "O Turista" (Ken Watanabe). Sem falar na involuntária sombra (Marion Cotillard, magnífica como sempre) carinhosamente chamada de Mal (engraçado que com o título nacional a coisa toda parece girar em torno da Origem de Mal) que coloca em risco as missões do extrator. Cada personagem tem sua função na narrativa e por vezes se revelam verdadeiros símbolos de nosso inconsciente coletivo - e nesse ponto as atuações precisas ajudam muito, além das pegadinhas que o diretor coloca em cena sobre os seus atores (a música de Piaf que os desperta do sonho, uma paródia de uma cena de Titanic, a bolsa de Gordon Levitt de 500 dias com ela, as ruas vazias de Extermínio na arquitetura dos sonhos de Cillian Murphy... ou seja, o cinema nos provoca essas inserções, tal como o protagonista almeja fazer). Nolan acerta mais uma vez e a trilha sonora de Hans Zimmer completa essa viagem que queremos repetir assim que acaba a sessão. No mínimo, espero que não só os efeitos especiais sejam lembrados no Oscar do ano que vem.

A Origem (Inception/EUA-2010) de Christopher Nolan com Leonardo Dicaprio, Joseph Gordon Levitt, Ellen Page, Marion Cotillard, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Ken Watanabe, Nicholas Haas e Tom Berenger. Estreou dia 06/08/2010. Cotação: ☻☻☻☻☻