quinta-feira, 30 de junho de 2011

CATÁLOGO: A Garota Ideal


Lars e a namorada: delírios e solidariedade em dramédia independente. 

Às vezes me surpreendo com os efeitos de atores certos sob uma boa direção num roteiro (que sem muito esforço) poderia ficar ridículo quando filmado. Este é o caso de A Garota Ideal, que aborda temas espinhosos com uma leveza impressionante. O filme é uma boa pedida para terminar o mês dos namorados que contou com a estreia de Namorados Para Sempre, também estrelado por Ryan Gosling. Pelo papel do problemático Lars, Ryan foi até indicado ao Globo de Ouro de melhor ator de comédia, foi mais do que merecido (e me atrevo a dizer que o rapaz tem aqui a sua melhor atuação). Ex-astro mirim do Clube do Mickey e alçado ao posto de queridinho das moçoilas com Diário de Uma Paixão (2004), o ator não tem pudores em se despir de vaidade para enfrentar personagens complexos e não necessariamente agradáveis. Neste filme dirigido por Graig Gillespie e com roteiro de Nancy Oliver (indicado ao Oscar), Gosling é Lars, um cara solitário de aproximadamente trinta anos que vive na garagem da casa do irmão (Paul Schneider). Apesar de trabalhar e freqüentar a igreja, Lars vive isolado do mundo, ao ponto de recusar os constantes convites da cunhada grávida (Emily Mortimer) para cafés da manhã ou jantares em família. Seus familiares começam a ficar preocupados com o seu isolamento, assim como os colegas de trabalho que notam a sua indiferença pelo interesse de Margo (Kelli Garner), a garota nova do trabalho. Quando as coisas parecem melhorar todos ficam surpresos quando Lars apresenta uma boneca como namorada - e de origem brasileira (!). A atitude de Lars é recebida com estranhamento por todos e só cresce conforme ele demonstra acreditar que a namorada é real com direito a ambições, problemas e pudores... dá para perceber que o roteiro segue por caminhos nunca óbvios na compreensão de seu protagonista. A namorada se apresenta como a forma de Lars se comunicar com o mundo, especialmente no que diz respeito a contar suas angústias a psicóloga (Patricia Clarkson) da boneca (é isso mesmo) e aos poucos descobrimos as dificuldades do personagem em lidar com sua trajetória familiar. Apesar da trama de cores estranhas o diretor soube criar um olhar extremamente solidário sobre seu personagem, nunca ridicularizando-o ou julgando sua postura (nem quando seu relacionamento com a boneca entra e crise e as discussões são inevitáveis) - e torna-se mais louvável o fato do filme nem arranhar a vulgaridade, mesmo com a boneca sendo uma autêntica sex doll (ou seja, uma boneca inflável melhorada). O resultado transpira humanidade numa história sobre solidão. Contribui muito para isso a atuação de todo elenco, mas dificilmente o filme teria fôlego sem o nome de  mais complexos de sua carreira, sua atuação cheia de camadas demonstra todas as transformações internas dGosling no alto dos créditos. O ator alcança momentos realmente comoventes num dos personagense Lars. Assim como os outros personagens do filme, vale acompanhar Lars nesta jornada para conseguir se comunicar com o mundo e com suas próprias dores.

A Garota Ideal (Lars and the real girl/EUA-2007) de Graig Gillespie com Ryan Gosling, Emily Mortmer, Paul Schneider, Patricia Clarkson e Kelli Garner. ☻☻☻☻

quarta-feira, 29 de junho de 2011

DVD: 2019 - O ano da extinção


Hawke e Dafoe: dando o sangue por uma ideia mal aproveitada.

Na época em que o trailer de Daybreakers chegou aos cinemas muita gente ficou entusiasmada (eu, inclusive) com a mistura de ficção científica e filme de vampiro que se anunciava tendo no alto dos créditos Ethan Hawke e Willem Dafoe. A promessa de espantar a mesmice dos filmes do verão americano foi desanimando e culminou com o lançamento do filme direto em DVD em terras brasileiras. No entanto, nenhuma das produções vitimadas com este carma por aqui me fez lembrar, como este, de um benefício deste tipo de lançamento: avançar o filme e nos livrar das cenas que já começam a aborrecer. 2019 - O ano da extinção talvez até empolgue os fãs mais ardorosos de tramas vampirescas, mas o filme está longe de ter a competência que o trailer sugere. Dirigido pela dupla Michael e Pieter Sperig o filme tem a ideia bem sacada de contar a história de um mundo onde um vírus transformou a maioria da população em vampiro. Sendo assim, os humanos são caçados enquanto fonte alimentícia. Com o tempo, os poucos que sobraram são caçados e mantidos em instalações bizarras que lhes sugam o sangue enquanto consegue ser produzido. Como a escassez de sangue se anuncia os cientistas de caninos avantajados procuram uma fórmula sintética de sangue que possa suprir as necessidades dos dentuços -  já que a abstinência sanguínea acaba os transformando em monstrengos híbridos de humanos e morcegos. À procura deste suprimento revolucionário está Edward Dalton (Ethan Hawke), um vampiro hematólogo que tenta manter vivo o que ainda lhe resta de humanidade - e por isso mesmo se preocupa com a extinção humana prevista para 2019. Enquanto seus experimentos fracassam ele conhece um grupo de resistência liderado por um vampiro que conseguiu se curar chamado Elvis (Willem Dafoe) que auxiliado por uma humana vigorosa (a australiana Claudia Karvan, que merecia mais do que enfeitar o filme) tentam estudar a tal cura misteriosa. O filme vai bem até aí, depois vira um filme típico de perseguição com o grupo de resistência sendo caçado até o fim com todos os clichês do gênero. Para tapear o filme tropeça em draminhas familiares que aparecem pelo caminho - como a tentativa do magnata vilão (vivido por Sam Neil) transformar sua filha em imortal e os conflitos de Edward com seu irmão caçador de humanos (o acessório Michael Dorman. Como se não bastasse, o nível de sangue que já beirava o exagero em algumas cenas da primeira parte, na segunda chega  a sujar o carpete da sala! O filme funciona quando desenha um universo próprio (ainda que de visual descaradamente chupado de Blade com Wesley Snipes), mas lamentavelmente se perde em meio a arremates simplistas. Nem mesmo o toque de ironia na propagação da cura salva o filme do finalzinho sem graça que arranjaram para a trama. Hawke disse em entrevistas que o filme era uma alegoria sobre a relação do homem com a escassez dos recursos naturais (o que é verdade e até funciona no início) e completou que, apesar disso, era "arte menor, bobo e despretensioso". É bom saber que o cara não perdeu a auto-crítica.

2019 - O ano da extinção (Dabreakers/EUA-2009) de Michael e Pieter Sperig com Ethan Hawke, Willem Dafoe, Sam Neil, Claudia Karvan, Michael Dorman e Isabel Lucas.  ☻☻

terça-feira, 28 de junho de 2011

FILMED+: Estômago


Nonato e Íria: amor à primeira coxinha!

Fazia tempo que queria ver este fime de Marcos Jorge que ganhou muitos elogios, prêmios e fãs em sua carreira nos cinemas. Minha dificuldade foi encontrá-lo num cinema na época em que foi lançado e logo depois penei para encontrá-lo numa locadora. Mas enfim, até que provem o contrário, sou brasileiro e não desito nunca. Sei que isso soa meio clichê e Marcos Jorge deve ter pensado a mesma coisa quando fazia um filme brasileiro que vai contra boa parte dos mandamentos da cartilha que rege as produções nacionais de hoje em dia. Sem humor rasteiro, violência estilizada ou carinhas globais (se bem que o casal principal logo foi contratado pela poderosa emissora) o filme conseguiu se impor entre produções com maciças campanhas marketeiras. Logo nos primeiros momentos sabemos exatamente o motivo do sucesso do filme que conta a história de Raimundo Nonato (o ótimo João Miguel que com este filme entrou de vez para a galeria de astros do cinema brasileiro), um nordestino que tem dois momentos distintos de sua vida contados pelo roteiro. Num deles chega na cidade sem emprego, sem casa e começa a prestar serviços num boteco após não ter dinheiro para pagar duas coxinhas que lhe mataram a fome. No outro momento está na cadeia lidando com prisioneiros mais ameaçadores que ele. O diretor não se preocupa em dizer qual desses momentos precede o outro e isso acaba não importando muito, já que a narrativa fluente nos envolve na escalada de sucessso do personagem. Raimundo é explorado em troca de um teto, mas prova que tem brilho próprio, especialmente quando o quesito é cozinha. Nonato com as coxinhas e pastéis faz do boteco um sucesso e de quebra ainda ganha as atenções da prostituta tarada por coxinhas Íria (Fabíula Nascimento que aqui ganhou o estrelato) que logo prestará seus serviços em troca de pratos cada vez mais saborosos. Nonato se envolve cada vez mais com Íria à medida que se torna um sucesso capaz de ser contratado por um restaurante de algum prestígio. Nesse restaurante aprimora sua culinária e faz planos de futuro com Íria, que insiste em recusar-lhe um beijo na boca por ser anti-ético. Enquanto tenta conquistar o coração da mulher num momento, enquanto presidiário, Nonato procura dominar o jogo de poder com seus parceiros de cela para conseguir a "cama de cima", ou melhor, o ponto mais alto entre  os companheiros que é ocupado pelo ameaçador Bujiú (o sempre confiável Babú Santana). Para essa ascenção terá que utilizar suas armas: a culinária e a imagem de nordestino ingênuo. Mario Jorge consegue contar sua história com notável habilidade e ao fim percebemos como ambos os momentos são complementares ao explorar a vida do protagonista, sendo que ambos os momentos tratam da mesma coisa: poder. Estômago trata de um bocado de ingredientes complicados: exclusão, hierarquias, poderes, crimes, ambições, crueldades, sabores e não desanda. Nunca é pesaroso ou cabeça como alguns cineastas brasileiros persistem em ser. Estômago não cheira a mofo, consegue ser atual sem ser tolo ou forçado (tenho algumas restrições somente aos palavrões que muitas vezes não funcionam caindo no exagero) e tem um roteiro brilhantemente construído e executado - que ousa fazer as escaladas de seu personagem, dentro e fora da cadeia convergir para o crime. Acredito que dificilmente o filme funcionária sem a dosagem precisa de João Miguel na transição do ingênuo Nonato num homem cada vez mais calculista. Junte isso ao arremate inusitado (de dar frio no estômago) e terá uma pérola do humor negro. 
   
Estômago (Brasil/2007) de Marcos Jorge com João Miguel, Fabíula Nascimento, Babú Santana, Carlo Briani e Paulo Miklos. ☻☻☻☻☻

CATÁLOGO: Os Outros

Kidman e seus herdeiros: metáforas sobre a luz do conhecimento?

Diante do olhar carinhoso de Alejandro Amenábar da relação entre religião e conhecimento não custa nada revisitar o seu maior sucesso nos cinemas, o suspense Os Outros. O filme é um pleno acerto na cinematografia do cineasta chileno e marcou seu primeiro trabalho hollywoodiano. Quem conhecia o cineasta de obras anteriores como Tesis (1996) e Abra os Olhos (1996) sabia de sua habilidade em manipular a percepção da platéia, capturando a atenção e virando-a do avesso nas desventuras de seus personagens. Sua mão para as narrativas de mistério funciona tanto que por conta dela foi parar numa produção do astro Tom Cruise para sua então esposa Nicole Kidman. Cruise estava fascinado com Abra os Olhos (e dizem que por sua estrela, Penélope Cruz, também) e achou que poderia dar conta de uma versão americana. Sabiamente Amenábar rejeitou a proposta de dirigir a versão e pediu em troca a produção de seu novo filme. Abra os Olhos virou o desastre Vanilla Sky (2001), já o filme de Amenábar foi um sucesso mundial e rendeu à Nicole indicações à prêmios de prestígio como o Globo de Ouro de melhor atriz dramática (e junto com Moulin Rouge, no mesmo ano, mostrou que a australiana estava prestes a atingir o topo da pirâmide cinematográfica). Em Os Outros, Kidman está excelente como Grace, a mulher que vive num casarão com os filhos em meio ao fim da Segunda Guerra Mundial. Ali espera pelo retorno de seu esposo que está no front (Christopher Eccleston) e zela por seus herdeiros, o medroso Nicholas (James Bentley) e a questionadora Anne (Alakina Mann), ambos possuem uma doença rara que não permite que sejam expostos à luz. Este é o fio condutor do filme, mas ele é muito mais do que isso. Logo a família terá companhia na casa, um trio de empregados soturnos (que inclui a excelente Fionnula Flanagan) que diz conhecer há muito tempo a história do casarão. Não vai demorar muito para que estes personagens percebam que não estão sozinhos ali. Portas abrindo sozinhas, passos pela casa e a insistência de Anne em dizer que existem outros seres ali só irão servir para aumentar o estresse de Grace. Entre sustos e revelações acompanhamos a jornada da protagonista em manter sua fé e as coisas em ordem. Esse clima de casa mal assombrada poderia ser apenas mais um filme de terror da safra pós-Sexto Sentido (1999), mas além da elegância com que Amenábar conduz sua trama ele adiciona dois detalhes que proporcionam uma leitura mais rebuscada do que se imagina. Um detalhe é a fé de Grace no catolicismo o outro é o fato da luz ser uma ameaça para as gerações futuras. Não entendeu? Amenábar disse em entrevistas que seu filme é uma metáfora sobre o Iluminismo, a ideia de que o saber é uma luz que ilumina a existência da humanidade e sua percepção do mundo. Grace é tão católica que não percebe que sua vida seguiu por caminhos que sua religião não explica, portanto ainda acredita em milagres e recomeços. Não é por acaso que Anne questiona a religião imposta por sua mãe ao mesmo tempo  que consegue enxergar o que os outros são incapazes de ver. Nesse universo do avesso, a mãe zelosa é mais ameaçadora do que se imagina, os empregados sabem mais do que dizem e o pai (sempre aguardado como salvador da estrutura familiar) está mais perdido do que os demais. Elenco mais do que eficiente emoldurado pela inacreditável fotografia de Javier Aguirresarobe completam a receita. Menos do que propagar o kardecismo ou aproveitar o sucesso do estilo de M. Night Shyamalan, Amenábar está preocupado com as ideias e não com o sangue (que não aparece na tela). Tanto que após a surpresa final (que segue logo após a belíssima cena da oração declamada por Kidman) Grace ainda é capaz de se esforçar para manter tudo como está, seja com luz ou a treva que oculta da plateia até o inevitável encontro com a verdade. Pelo menos com a nossa verdade, a dos outros. 

Os Outros (The Others / EUA-Espanha-França-Itália / 2001) de Alejandro Amenábar com Nicole Kidman, Fionnula Flanagan, Alakina Mann, Christopher Eccleston e James Bentley. ☻☻☻

segunda-feira, 27 de junho de 2011

DVD: Alexandria


Weisz: Tentando salvar o conhecimento do perigo religioso.

Depois do merecido Oscar de filme estrangeiro por Mar Adentro (2004), Alejandro Amenábar resolveu investir no seu filme mais ambicioso, então batizado de Agora (na verdade é Ágora, aquele espaço grego onde ocorriam os debates sobre temas político-filosóficos, mas como o filme é falado em inglês o acento desapareceu). As expectativas se empilhavam desde a escalação de Rachel Weisz (recém premiada por seu papel em O Jardineiro Fiel/2005) para viver a filósofa, matemática e astrônoma Hipátia (370-415 d.C.), famosa por lecionar e zelar pela biblioteca de Alexandria em meio ao conflito entre pagãos e cristãos em ascenção. A produção caprichou no visual, nos figurinos, na fotografia e quem conhecia o trabalho de Amenábar, sabia que ele era capaz de fazer sua obra-prima. A coisa começou a complicar quando o filme foi exibido em Cannes e percberam que havia grandes ideias no roteiro, mas sua execução tinha problemas. Isso sem falar que o filme é um dos raros casos onde os cristãos são mostrados como perseguidores e não como perseguidos - o que alimentou polêmicas intermináveis que acabaram prejudicando a distribuição do filme. Levando em consideração a influência do catolicismo em nosso país, podemos imaginar por que o filme foi lançado direto em DVD. Uma pena, já que um dos maiores acertos do filme são os planos abertos, grandiloquentes com o visual de encher os olhos numa reprodução do que seria a cidade de Alexandria no século V. Por maior que seja a sua TV e por melhor que seja a imagem do seu DVD ou Blu-Ray a coisa não se compara à telona. Vamos ao filme. Amenábar tenta manter seu foco durante a sessão, mostrando a relação de Hipátia (Weisz) com o conhecimento, com seus alunos e escravos. Entre estes merece destaque o futuro prefeito Orestes (o bom Oscar Isaac) que demonstra interesse amoroso por ela e Davus (Max Minghella), o escravo que está sempre atento às necessidades de sua senhora. Davus também é apaixonado por Hipátia, mas esta ciente que manter uma relação com ela é impossível diante das rígidas relações de classe existentes (além de que Hipátia já se considerava "casada com o conhecimento"). Nesta primeira parte também somos apresentados aos primeiros conflitos entre cristãos e pagãos. Fala-se da forma como os seguidores do cristianismo se expandem de forma agressiva após deixarem de ser perseguidos pelo governo. Nas aulas de Hipátia já se percebe que o clima está esquentando e por mais que ela tente apaziguar os conflitos tudo tende a piorar nas brigas que aparecem nas ruas. A crescente tensão mudará a vida deste triângulo amoroso para sempre. Quem conhece um pouco de História imagina o que vai acontecer com os personagens, com a tomada de Alexandria pelos cristãos liderados por Cirilo (Sami Samir) acarretando a destruição da histórica Biblioteca de Alexandria. É neste ponto que o filme avança no tempo e chega em sua segunda parte. Enquanto Hipátia tenta descobrir se a terra é o centro do universo ou não, os cristãos agora pretendem acabar com os judeus e os poucos pagãos que restaram (Hipátia, inclusive). Não dá para escrever mais do que isso senão estraga - ainda mais que é nos meados desta parte que o roteiro dá sinais de cansaço, se tornando cada vez mais unidimensional (como se tudo pudesse ser sintetizado em Cristãos são malvados! Pagãos são do bem!). Amenábar confiou tanto no seu roteiro que acabou caindo na pior armadilha de ter uma boa trama nas mãos: não se esforçar para prender a atenção do espectador. Da metade em diante, o filme perde o ritmo deixando  tudo nas costas de Rachel Weisz. Sorte que a atriz é mais forte do que até seus fãs imaginavam. Ela está excepcional como Hipátia, exalando segurança e delicadeza em momentos como o que afirma que não pode acreditar num conhecimento que não pode questionado. Além da distribuição capenga que o filme recebeu sua atuação foi outra parte sacrificada pelas polêmicas da temática do filme, afinal, dá para acreditar que ela não foi sequer indicada aos prêmios que Sandra Bullock ganhou por Um Sonho Possível (2009)? No fim das contas Alexandria promete mais do que cumpre - uma pena, já que conta a história de uma das raras filósofas de prestígio histórico -, mas ainda sim causa um benéfico desconforto, especialmente na triste cena final onde Davus prova seu amor por Hipátia da forma mais dolorosa. Algo mais do que esperado num filme marcado pela sempre hedionda (e cada vez mais presente) intolerância religiosa.

Alexandria (Agora/ Espanha - 2009) de Alejandro Amenábar com Rachel Weisz, Jason Isaacs, Max Minghella, Sami Samir e Rupert Evans. ☻☻☻

domingo, 19 de junho de 2011

CATÁLOGO: O Segredo de Brokeback Mountain


Ledger e Jake: amor proibido em segredo e sem frescuras.

Acho que a esta altura não precisa dizer que O Segredo de Brokeback Mountain foi vítima de uma das derrotas mais escandalosas da história do Oscar. Todo mundo que viu a cerimônia de 2006 imaginava que a Academia iria premiar o filme centrado no relacionamento entre dois cowboys gays, mas aí preferiu a churumela racista de Crash. A cara de descontentamento e escárnio de Jack Nicholson ao anunciar a derrota do filme de Ang Lee, faz parte dos momentos antológicos da premiação. Ao menos Ang Lee levou o de direção, que somado aos prêmios de trilha-sonora e roteiro adaptado, tornaram a cerimônia menos amarga. Além do óbvio preconceito da Academia, o que deve ter pesado contra Lee foi centrar-se nas emoções nunca ditas, o que muitos podem encarar como frieza (esse fato vitimou até sua obra-prima em solo americano, Tempestade de Gelo/1997 que passou em branco no Oscar). Seja como for, Brokeback Mountain é um filme que está longe de ser voltado para o público gay. Afinal, trata de um sentimento universal: amor. Sendo que acontecendo entre duas pessoas do mesmo sexo. Este fator serve para tornar o que sente Ennis Del Mar (Heath Ledger, indicado ao Oscar de ator) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal, indicado ao Oscar de coadjuvante) em proibido, e por consequência, em segredo. Os dois se conhecem enquanto cuidam de ovelhas num rigoroso inverno nos cafundós gélidos de Wyoming e entre as reservas de Del Mar e o jeito extrovertido de Twist começa a rolar algo diferente entre os dois. Obviamente que em 1963 eles sabiam que o que acontecia não seria bem aceito. Uma série de acontecimentos irá afastá-los e fazer com que a vida siga os rumos estabelecidos pela sociedade. Twist começa a participar de rodeios e conhece a bela rica Lurren (uma ótima Anne Hathaway, que devia aprender que se sai muito melhor em papéis mais complexos como estes, do que os que vive se metendo) com quem se casa e tem um filho. Del Mar volta para casa e se casa com a namorada Alma (Michelle Williams, surpreendente e indicada ao Oscar de coadjuvante), com quem tem duas filhas. Quatro anos depois do affair os dois cowboys irão se encontrar e realizar encontros esporádicos (por décadas) enquanto seus casamentos se deterioram em meio às aparências. O roteiro de Diana Ossana e Larry McMurth é um primor ao se debruçar sobre o conto de Annie Proulx e aprofunda os personagens os tornando cada vez mais complexos, seja pela agressividade nutrida pelas frustrações (e desejo pelo toque masculino) de Ennis, o comportamento fugitivo de Jack que não consegue se impor como homem da casa, o perfil "masculino" de Lurren ou a decepção estampada de Alma ao ver o esposo beijando outro homem em seu quintal. Todos tem seus momentos no filme e os méritos de Lee está em ser capaz de alinhar as atuações com perfeição. Eu poderia ficar escrevendo horas sobre os signos que aparecem no filme sobre os papéis sociais de homens e mulheres, os conflitos de gênero vividos pelos personagens, as emoções reprimidas (especialidade de Lee),  o preconceito sempre implícito nos olhares ou revelações expressas em sorrisos, mas isso colocaria em risco o impacto de quem ainda não assisitiu ao filme. O taiwanês Ang Lee sempre foi competente em suas produções, seja em sua terra natal (que lhe renderam duas indicações ao Oscar de filme estrangeiro na década de 1990) ou nos EUA quando foi importado com ajuda de Emma Tompson (para dirigir a obra de Jane Austen,  Razão e Sensibilidade/1995, outro filme sobre amores impossíveis). A coisa foi ladeira abaixo quando aceitou dirigir o fiasco  Hulk (2003) com Eric Bana. Nada como manter a classe num filme sobre cowboys homossexuais para salvar uma carreira. Claro que o Leão de Ouro em Veneza, os Globos de Ouro e BAFTA de filme e direção ajudaram muito também. Só se esperava que o Oscar tivesse a mesma percepção de todos que fizeram o filme ser bem sucedido: trata-se sobre tudo de um filme sobre amor proibido - que por acaso é protagonizado por dois homens.   

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain/EUA-2005) de Ang Lee com Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams e Anne Hathaway. ☻☻☻☻

Na Tela: Namorados para Sempre

Williams e Gosling: Vivendo do passado.

Deve haver milhares de filmes sobre separações, mas o filme de Derek Cianfrance não se contenta em ser apenas isso, Namorados para Sempre é um filme sobre o fim do amor. Não, ainda não é só isso, trata-se de um filme de quando se encontra o amor e a tentativa de manter-se junto a ele, quando este deixou de sê-lo. Não consigo lembrar de um filme que trabalhe com este momento específico da vida de um casal com tamanha perspicácia do que o de Cianfrance. O título em português foi feito sob medida para pegar os casais desesperados por um filme romântico às vésperas do dia dos namorados, mas quem é ligado em cinema, já sabia que era uma pegadinha (seu lançamento por aqui foi em 10 de junho, nos EUA foi em novembro do ano passado... mas quem é cinéfilo de carteirinha já ouvia falar do filme desde que causou comoção em Cannes2010 sob o título original de Blue Valentine, por inspiração de um álbum das antigas de Tom Waits. Ou seja, nada de pipoca). Para quem esperava uma sessão amena antes da pizza o efeito deve ter sido de uma bomba atômica. Para quem já sabia o que estava por vir, era conseguir sentir o filme com a isenção quase impossível de mais de um ano de críticas positivas. Eu me enquadrei neste segundo grupo. O diretor não se preocupa em fazer um filme bonito visualmente, na maioria das vezes os enquadramentos estão no ponto cego de seus atores (quando a câmera parece estar escondida pronta para captar as emoções no ponto em que estão mais vulneráveis), a fotografia não se preocupa em embelezar, a edição é sem frescuras, as cenas de sexo não são propriamente bonitas... a impressão é que o cara confia tanto na história que concebeu que isso basta para seduzir o expectador. Não é bem assim, Cianfrance se apropria bastante de elementos da linguagem documental para retratar a união e separação de um casal (não exatamente nesta ordem) e este estilo cai como uma luva para retratar um casal que reproduz na tela o sentimento de um bando de gente ao redor do mundo que percebeu que o relacionamento já era, ou como diria minha mãe "caminha em uma perna só". No início, o filme nos insere no cotidiano de um jovem casal, Cindy (Michelle Williams, indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar de Atriz) e Dean (Ryan Gosling, indicado ao Globo de Ouro) que possui uma filha (a eficiente Faith Wladyka) e estão às voltas com o desaparecimento da cadela de estimação. Este é o ponto inicial de um mal dia em que para levantar o astral, Dean irá tentar recomeçar marcando uma noite em um motel que fez parte da história de ambos. Poderia ser só isso, mas o roteiro retrocede no tempo em momentos estratégicos e mostra como se iniciou o relacionamento entre os dois: Cindy tendo problemas com o então namorado (sob o nome que em português parece uma piada: Bobby Ontario) enquanto almeja uma vaga numa faculdade de medicina & Dean trabalhando em  uma companhia de mudanças (e por conta disso acaba a conhecendo num abrigo para idosos). O filme constrói sua narrativa assim, pegando um momento específico do presente e localizando no passado referências sobre ele.  A ideia funciona com muita eficiência, aumentando a dramaticidade da situação atual do casal, ao mesmo tempo que alimenta o romantismo do passado. Estas idas e vindas irá convergir passado e presente, tornando tudo ainda mais melancólico. Cianfrance demonstra habilidade em lidar com uma estrutura narrativa perigosa, mas além da precisão cirúrgica na edição, usou outros truques como filmar com seus atores em ordem cronológica (o que é raríssimo de acontecer) e fazer com que seus atores convivessem juntos numa casa por algum tempo antes das filmagens. Claro que o efeito do filme é ampliado ainda mais pelas atuações de Gosling e Williams, esta até com mais méritos que seu parceiro. Fico realmente impressionado com a delicadeza que Williams interpreta sua personagem, de sua transição de adolescente para adulta responsável por carregar a família nas costas. Jamais eu poderia imaginar que aquela loira bochechuda chatinha do seriado Dawson's Creek iria se tornar uma das atrizes mais interessantes de Hollywood. Mesmo depois de sua indicação ao Oscar de coadjuvante por Brokeback Mountain (2005) eu imaginei que tudo seria fogo de palha. Ciafrance teve grande discernimento em esperar pela atriz (pouco antes da filmagem, falecia Heath Ledger com quem Michelle foi casada), ela está perfeita sintetizando em um olhar que nada do que fizer será capaz de salvar seu casamento. É esta certeza triste que anuncia o título em inglês e que Dean quer evitar a cada cena do casal que desmorona diante da câmera. E nem adianta reservar(metafóricamente) o quarto futurista do tal motel, os melhores momentos ficaram mesmo no passado.

Namorados Para Sempre (Blue Valentine/EUA-2010) de Derek Cianfrance, com Michelle Williams, Ryan Gosling, Faith Wladyka, John Dooman e Mike Vogel. ☻☻☻☻    

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CATÁLOGO: Por trás das Câmeras

O'Hara & Cia: Dignos (mesmo) de Oscar.

Ainda não descobri motivos plausíveis para a dificuldade de ter contato com os filmes do diretor Christopher Guest no Brasil. Eles não entram em cartaz por aqui, são difíceis de encontrar em locadoras ou lojas que vendam DVD e o pior de tudo é que as comédias do esposo de Jamie Lee Curtis são mais engraçadas do que todos os filmes de Adam Sandler juntos (e os filmes de Sandler sempre entram em cartaz por aqui). Dia desses encontrei perdido na locadora seu último filme: Por trás das câmeras. Infelizmente o título em português não consegue ser tão esclarecedor quanto o título em inglês: For your consideration (ou em bom português "para sua consideração"), quem acompanhou a confusão em que Melissa Leo se meteu na prévia do Oscar deste ano sabe exatamente do que se trata. Leo sempre foi cotada como favorita ao Oscar de coadjuvante deste ano, mas nas semanas que antecederam a premiação a atriz sucumbiu ao desespero e saiu pagando anuncios em revistas com a frase "for your consideration" destinados aos votantes da Academia. O estúdio chiou com o marketing pessoal, já que Melissa passou por cima das regras de bom tom que pautam esta disputa. Ela deu uma de desintendida e acabou sendo mesmo premiada por sua performance em O Vencedor. Antes do caso de Leo, Guest já usava esse estresse e burburinho antes do Oscar como matéria prima deste divertido filme. Expert em contruir documentários de mentirinha (os ditos mockumentary) o diretor criou uma história em torno de uma produção independente de pequeno porte: Home for Purim . Onde acompanha uma família judia às voltas com a matriarca moribunda e os conflitos com o retorno da filha lésbica e do filho marinheiro. O filminho é um melodrama dos bons e nem seus atores estão acreditando muito no potencial do filme, até que dizem ter lido na internet que a atriz que interpreta a matriarca, Marilyn Hack (a ótima Catherine O'Hara) tem uma atuação digna do Oscar. Aos poucos o boato cresce chamando a atenção da mídia e rendendo prestígio para outros atores da produção, entre eles o veterano Victor Allan Miller (Harry Shearer) - que interpreta o marido de carregado sotaque sulista - e Callie Webb (a sempre eficiente Parker Posey) - uma comediante que busca credibilidade no papel da filha. Tanta repercussão garante aos astros presença em programas de TV, especulações, guerra de egos e boas gargalhadas para o público. O interessante é que Guest tem um olhar carinhoso sobre seus personagens cinematográficos que sonham com a consagração (isso inclui até Christopher Moynihan que interpreta o filho marinheiro ofuscado pelos demais, a produtora que nunca parece entender o que está acontecendo e os roteiristas que nunca recebem a atenção devida), mas Guest demonstra um pezinho atrás com o pessoal da TV que é mostrado de forma pouco generosa (com uma mãozinha e tanto de Jane Lynch como uma apresentadora pra lá de artificial). Não satisfeito com o que o vírus do Oscar provoca na produção (corações partidos, títulos alterados, um querendo roubar a cena do outro) o diretor ainda avacalha mais ainda quando as indicações se aproxima e vale tudo para sua estrela chamar atenção por outros motivos que não seja o talento (e O'Hara faz a festa em momentos de pura caricatura). Ao fim da sessão o diretor ainda mostra os rumos destes personagens que buscavam a fama e aprenderam que às vezes especulações são apenas especulações. Talvez o filme seja uma grande piada sobre as próprias expectativas do diretor, que vê suas comédias espertas serem desprezadas ano após ano pela Academia, pelo menos anos atrás lembraram da canção de A Might Wind (2003) que rendeu  um dos melhores números musicais da história do Oscar com a participação de O'Hara e Eugene Levy, que ao lado de Parker Posey completam a patota do cineasta.  

Por trás das câmeras (For your consideration/EUA-2006) de Christopher Guest com Catherine O'Hara, Parker Posey, Harry Shearer, Christopher Moynihan, Eugene Levy, Jane Lynch, Stephen Ranazzisi, Jennifer Coolidge. ☻☻☻

domingo, 12 de junho de 2011

CATÁLOGO: O Casamento de Rachel

Padrinhos e noivos: Hathaway em atuação de gente grande.

Anne Hathaway era uma dessas atrizes que estreiam às pencas em produções da Disney, em O Diário da Princesa (2001) demonstrou mais do que eficiência numa história infantil onde dividia a cena com o ícone Julie Andrews. Mas Anne cresceu e demonstrava que tinha condições de ser uma atriz dramática de grandes recursos, para isso ficou em anonimato enquanto enfrentava os testes para ser a esposa traída de Jack Twist (Jake Gyllenhall) em Brokeback Mountain (2005) de Ang Lee. No seu primeiro papel sério a moça já demonstrava que era capaz de fazer bonito em um papel mais denso do que as comédias amenas que lhe aguardavam. Se em O Diabo Veste Prada (2006) ela não precisava fazer muito mais do que tentar não ser esmagada por Meryl Streep, o passo seguinte de sua carreira foi mais do que coerente ao topar ser a protagonista auto-centrada de O Casamento de Rachel, filme que colocou Johnatan Demme (de O Silêncio dos Inocentes/1991 e Filadélfia/1993) novamente em foco após anos fazendo refilmagens por encomenda dos estúdios. Desde que o O Casamento de Rachel foi exibido em Veneza a crítica já celebrava a atuação de Anne como uma garota que dá um tempo em sua reabilitação para ir ao casamento da irmã, Rachel. Kym (Hathaway, indicada a todos os prêmios pelo papel) é uma personagem pouco simpática, menos pelo seu problema com a bebida, mas por não perceber que as pessoas ao seu lado também possuem problemas - principalmente relacionadas a um acidente provocado por ela e que deixou a família numa lacuna permanente. Por essa situação Kym acaba sendo a personificação da ferida que nunca cicatriza numa família que tenta manter o equilíbrio. Kym ainda é o total oposto de sua irmã, Rachel (Rosemarie Dewitt, em ótima atuação) que apesar de ser educada e gentil, sabe exatamente quais os botões apertar para fazer a imrã perceber que ao contrário do que pensa o mundo não gira em torno dela - especialmente no dia em que é mera coadjuvante de uma festa. Hathaway tem uma atuação excepcional, que consegue transformar sua personagem em alguém de carne e osso tentanto se equilibrar entre qualidades e defeitos numa existência onde cada dia tem sua parcela de dor. Colabora muito para esta dissecação da personagem a proposta narrativa de Demme, que conta a história como se fosse um documentário sobre o casamento a se realizar (nisso até os improvisos foram aproveitados, como a cena em que Kym reclama da música ambiente). Após projetos onde sua assinatura ficou ofuscada pela pressão dos estúdios, Demme quis relaxar e beber na fonte dos filmes do cinema independente americano e até do manifesto dinamarquês Dogma95. O resultado é de um frescor ímpar por nos inserir nos meandros emocionais da cerimônia que se anuncia (desde o chato ensaio dos discursos à festa em contraste aos sentimentos da protagonista). Demme mostra-se em plena forma e arranca atuações competentes de todo o elenco (como Mather Zickel na pele do pretendente simpático de Rachel, a sumida Debra Winger como a mãe divorciada de aparente indiferença e o pai vivido por Bill Irwin que tenta pacientemente juntar os cacos desta família). Demme ainda consegue orquestrar uma festa de casamento multicultural com japonesa sambando e citações de Neil Young, O Casamento de Rachel é a festa que marca seu retorno em grande estilo.    

O Casamento de Rachel (Rachel getting Married/EUA-2008) de Johnatan Demme com Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Mather Zickel e Debra Winger ☻☻☻☻

DVD: Amor & Outras Drogas


Anne & Jake: esforço para deixar de ser apenas dois corpos na tela.

Perto do dia dos namorados chegou nas locadoras Amor & Outras Drogas que ganhou até alguma repercussão ao ter rendido para seus atores Jake Gyllenhall e Anne Hathaway indicações para os Globos de Ouro de atores de comédia. Isso não quer dizer muita coisa já que até Angelina Jolie & Johny Depp foram indicados por suas atuações bizonhas em O Turista.  Bem, voltemos ao filme de Jake e Anne. Antes devo dizer que pensei que ambos tivessem capacidade de perceber quando um filme não sai de cima do muro por conta de um roteiro que não consegue decidir que história quer contar. A trama foi vendida ao estúdio como a história do representante de vendas que ajudou a tornar o viagra um sucesso comercial nos idos de 1996. Mas o resultado é bem menos interessante do que esta premissa prometia. Eu já estranhei a presença de Edward Zwick (mais conhecidos por grandiloquências como Diamante de Sangue e O Último Samurai) como diretor de algo que se pretende uma comédia. Zwick tem mão pesada na direção e o roteiro que não sabe muito bem para onde ir não ajuda. Não me surpreende que o esforço de sua dupla central seja em vão. O filme começa mostrando o quanto o garotão Jamie Randall (Gyllenhall)  é mulherengo, para logo depois colocar em seu caminho a chance de sua vida em tornar-se divulgador de um concorrente do Prozac produzido pela Pfizer. Nesse percurso ele acaba encontrando uma bela morena desencanada que sofre de Parkinson aos 26 anos. Maggie Murdock (Hathaway) mostra-se sedutora, bem humorada e mais interessada em sexo do que ele poderia imaginar. No meio deste caminho inventam o viagra e o relacionamento entra em crise toda vez que Maggie lembra que possui uma doença degenerativa até o fim da sessão. Tudo é raso, abrupto e mal desenvolvido, a personagem de Maggie é tão mal escrita que está mais para chata do que para doente (e Anne tenta lidar com isso sorrindo o tempo todo para ganhar nossa simpatia). Já Jake faz o que pode com seu mulherengo que cai de amores por ela. Se o roteiro se preocupasse mais em desenvolver personagens do que criar cenas de sexo para preencher o tempo o resultado poderia ser mais interessante. Claro que a maioria das pessoas que assistirem ao filme vão se satisfazer com as cenas de nudez da dupla, mas infelizmente eu não me contento com isso. Acho que todo mundo sabe que Hathaway é bonita e que Jake Gyllenhall faz por onde ter seu fã clube fiel, mas os dois são atores e não dois corpos diante de uma câmera. Ambos já mostraram antes o que podem fazer e já concorreram a prêmios por isso, vê-los num texto tão primário quanto de Amor & Outras Drogas é decepcionante.

Amor & Outras Drogas (Love & Other Drugs/EUA-2010) de Edward Zwick com Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway e Hank Azaria.   

Combo: As piores namoradas

 Em homenagem ao dia dos namorados resolvi lembrar algumas das namoradas mais assustadoras do cinema! Aquelas garotas que tinham tudo para ser felizes ao lado dos homens que amam, mas insistem em criar problemas para tornar tudo ainda mais complicado. Sejam inseguras, insatisfeitas, problemáticas, insensíveis, grosseiras ou simplesmente provocadoras (no pior sentido) elas nos fazem lembrar que muitas vezes é melhor estar só do que mal acompanhado.

5 Bridget Jones (O Diário de Bridget Jones/2001) O que estraga em Bridget (Renée Zellwegger) - ao contrário do que ela pensa - não são os seus quilinhos a mais e nem as suas trapalhadas. Dá para relevar até as suas fraquezas com o salafrário Daniel Cleaver (Hugh Grant), mas a insegurança da senhorita Jones é uma das coisas mais insuportáveis que existe. Será que custa muito para uma pessoa se aceitar e entender que Mark Darcy (Colin Firth) pode amá-la simplesmente pelo que ela é? Se Bridget se preocupasse menos em dieta e mais em amar a si mesma sua vida amorosa chegaria a outro patamar - e não faria ela ou Darcy passar tanta vergonha! Depois de dois filmes de mazelas emocionais auto-produzidas, Jones retornará em breve em sua maior aventura: ser mãe (coitada da criança).

Kate McKay (Kate & Leopold/2001) é uma das mulheres mais chatas que já vi numa tela de cinema - e serviu para mostrar que Meg Ryan estava longe de ser a heroína romântica de outrora. Além de ser chata, Kate ainda é grossa, mal educada e tem mania de se achar mais esperta do que qualquer cara que chegue perto dela. Eu poderia até dizer que seu maior defeito é não ser gentil nem quando um verdadeiro cavalheiro do século XIX  cruza o seu caminho, mas existe uma coisa ainda pior: Kate já deve estar beirando os quarenta e ainda se comporta como uma adolescente cheia de picuinhas com o universo ao seu redor que conspira para que não encontre seu príncipe encantado - talvez ela devesse se contentar com o duque  Leopold Alexis Elijah Walker Thomas Gareth Mountbatten (Hugh Jackman) que está apaixonado por essa mala! Inacreditável!

3 Bella Swan (Crepúsculo/2008) Se eu fosse um vampiro eu iria procurar uma namorada bem mais interessante do que a pálida (em todos os sentidos)  Bella (Kirsten Stewart), afinal de contas, já pensou passar a imortalidade ao lado de uma garota que não sabe o que quer e ainda cheia de tiques (sempre contrai o lábio e desvia o olhar)? Bella ainda tem um dedo podre impressionante para escolher pretendentes! Além de dizer que está apaixonada pelo vampiro com a pior maquiagem do cinema ainda elege como aspirante a amante um lobisomen bombado-depilado! Como se não bastasse tamanha indecisão diante dos pretendentes sobrenaturais, a mocréia ainda tem uma personalidade pífia. Acho que no fim da saga Crepúsculo vão descobrir que ela é uma feiticeira (o que explica o fascínio dos dois por ela) ou então um zumbi (o que explicaria sua apatia)!

2 Summer Finn (500 Dias com Ela/2009)  é uma garota adorável, tem gosto musical apurado (Smiths, Beatles, trilhas de seriados televisivos...) e um estilo incomum para se vestir. Além disso é bem humorada, desencanada e mais bonita do que a maioria das garotas de plástico que aparecem nas comédias românticas americanas! Você deve estar se perguntando por que ela está em nossa medalha de prata, Summer (Zooey Deschannel) pode ser tudo isso como pessoa, mas como namorada é um desastre! Não importa quão nobres e bem intencionadas são as intenções de Tom (Joseph Gordon Levitt) - seu pretendente mais simpático - a garota não tem pudores em rejeitar sua afeição quando bem lhe entende. Isso causa um efeito devastador na psique de qualquer rapaz! Afinal ela não quer compromisso e tudo que ele faz lhe soa errado e desnecessário. Mais do que chata ela é incompreensível!

1 Andie Anderson (Como Perder um Homem em Dez Dias/2003) Andie Anderson (Kate Hudson) é nossa campeã - e com louvor! Quem a conhece deve estar pensando que sua vitória não conta já que ela faz tudo de propósito para terminar seu namoro com o publicitário pinta de galã Benjamin Barry (Matthew McConaghey). Mas convenhamos, o que ela faz neste filme não se deve desejar nem para o pior inimigo! Tudo bem que ela é linda, mas além dos pitis e jeito pegajoso ela ainda leva o coitado para o show da Celine Dion (blaargh) enquanto ele quer ver o jogo do seu time de coração! Além disso está sempre disposta a atrapalhar o jogo de cartas com os amigos e (para acabar com qualquer resquício de namoro que resista) ela ainda chama o genital dele de Princesa Sofia! É ou não é a campeã?

sábado, 11 de junho de 2011

FILMED+: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças.


Winslet  & Carrey: O importante é lembrar.

Com a proximidade do dia dos namorados, acho que vale a pena rever o filme mais romântico escrito por Charlie Kauffman. Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças foi o filme mais inventivo de 2004 e o roteiro mais harmônico do autor (que acabou ganhando o Oscar de roteiro original ao lado de Gondry), colabora para essa sensação o trato lírico surpreendente do francês Michel Gondry (que recentemente fez o desfavor de pagar mico em Besouro Verde). A ideia biruta pode ter passado pela cabeça de muita gente, mas ninguém teria a ousadia de traçar os rumos que Kauffman realiza. Jim Carrey tem aqui sua melhor atuação como Joel um homem que descobre que sua ex-namorada, Clementine (Kate Winslet de cabelos multicoloridos em um de seus raros personagens que não são de época - e que lhe valeu uma indicação ao Oscar) o apagou da mente mediante um tratamento revolucionário e muito esquisito. Por um acidente de percurso essa medida drástica que deveria ser mantida em sigilo chega conhecimento de seu ex (que como vingança resolve fazer a mesma coisa). O que ele não sabia era que no meio do tratamento ele redescobriria lembranças que gostaria de guardar para sempre. Parece simples, mas nada com roteiro de Kauffman é simples. O filme começa a contar a história do final, sei que isso é praticamente um SPOILER mas facilita um bocado a compreender a trama que se passa quase totalmente na mente de seu personagem. Kauffman tem verdadeiro fascínio pela forma como nossa mente trabalha - desde o sentimento de esconder-se de si mesmo (como em Quero Ser John Malkovich) ou o processo de criação (em Adaptação e Sinedóque NY). Como nesses filmes a matéria prima do roteiro se concentra nas memórias e nossas interações com ela, além da insatisfação que despertam e nossa reflexão sobre isso. É justamente nessa interação do casal com as lembranças que Gondry faz a festa! Seu senso estético é superior ao da maioria dos cineastas e cria cenas belíssimas, muitas vezes sem efeitos especiais e apenas utilizando truques de câmera. Isso ajuda ao filme a ter uma densidade visual impressionante, não parecendo artificial em momentos cruciais. O mais interessante é que como o tratamento parte das lembranças mais recentes para as mais antigas, Clementine é mostrada como uma chata (e essas lembranças vão embora sem problemas). As coisas complicam quando chega a hora de se livrar das lembranças dos bons momentos entre os dois (mais frequentes no início do relacionamento). Diante deste quadro, Joel procura esconder Clementine em momentos em que não estava presente. Os meandros deste tratamento surreal deixa o filme embolado, mas serve apenas para tornar ainda mais estranho um tratamento que não existe. Mas nem só de Winslet e Carrey vive o filme, o sempre honesto Tom Wilkinson está muito bem como o criador do tratamento, assim como Kirsten Dunst como sua secretária namorada de Mark Ruffalo (mais nerd do que nunca). Para confundir ainda mais a mente de Clementine está Elijah Wood, como o assistente que se apaixona por ela e sabe exatamente os caminhos de seu coração. Até o final do filme, a mensagem que se fortalece é que mais importante do que o namoro em si, são os bons momentos vividos juntos - e estes valem ser lembrados (mas nem pense em ver o filme sozinho no dia dos namorados!).

Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (Eternal Spotlight of a Spotless Mind/EUA-2004) de Michel Gondry, com Jim Carrey, Kate Winslet, Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Elijah Wood e Mark Ruffalo. ☻☻☻☻

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CATÁLOGO: Sinedóque, Nova Iorque


Caden: contemplando suas centenas de personagens.

Em 2008 o roteirista Charlie Kauffman lançou seu primeiro filme na direção. Quem conhece sua carreira pautada por obras originais como Quero Ser John Malkovich (1999), Adaptação (2002) e Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (2004) sabe que o cara está longe de facilitar a coisa para o espectador - no entanto, isso não impediu que ganhasse o Oscar de roteiro original por este último longa. Não estou bem ao certo, mas após ver uma obra complexa como Sinedóque Nova Iorque, penso que Kauffman imaginou que somente ele seria capaz de transmitir todos os pensamentos que passaram por sua mente elétrica enquanto escrevia o seu texto mais denso, sombrio e deprimente. Existe muitas semelhanças entre Sinedóque e os roteiros assinados por ele anteriormente, mas ao mesmo tempo pesa a sensação de que um diretor mais experiente teria realizado um filme melhor. Talvez o distanciamento do texto, aquele que é impossível para quem o escreveu, teria ajudado a perceber que algumas ideias sobram e servem apenas para deixar confusa uma trama de potencial universal para dialogar com o público. Ou seja, Kauffman não é Michel Gondry, tão pouco Spike Jonze. Não vou perder meu tempo apontando semelhanças entre este filme e o clássico de Fellini, Oito e Meio (1963) que retrata um diretor de cinema que começa a filmar sua obra mais ambiciosa sem saber ao certo que história quer contar (e acaba revisitando sua própria vida). Obviamente que existem semelhanças entre ambos, mas independente das declarações de Kauffman de que não conhecia a obra do cineasta italiano, seu filme tem alma própria - embora seja um bocado transtornada. O filme se ocupa a contar a história de Caden (Phillip Seymour Hoffman, competente como sempre), um dramaturgo que é criticado e elogiado na mesma medida por suas montagens de textos alheios. Caden é casado com Adele (Catherine Keener, amiga e musa de Kaufman), uma artista plástica insatisfeita com o casamento. Juntos fazem até terapia de casal (com uma psicanalista interpretada por Hope Davis) para tentar salvar uma relação desgastada e que pode afetar a graciosa filha do casal, a pequena Olive (a menina Sadie Goldstein que antes apareceu em Pecados Íntimos/2006). Mas tudo vai por água abaixo quando Adele parte para a Alemanha com Olive e deixa Caden ainda mais à deriva nas frustrações, neuroses e hipocondria. Caden beira o colapso nervoso e não ajuda ter uma amiga atriz talentosa como Claire (Michelle Williams) ou uma candidata à amante como Hazel (Samantha Morton) sempre por perto. Quando ele recebe um financiamente milionário como prêmio, Caden resolve bancar um projeto ambicioso em Nova York onde contará a história de sua própria vida e seus inúmeros coadjuvantes.  O projeto se arrastará por mais de vinte anos e irá escancarar os limites da arte que imita a vida (ou seria da vida que imita a arte?). O filme borra os limites entre o que é encenado e o que é real, ao ponto de haver um ator que interpreta Caden e  que está prestes a contratar um ator para interpretá-lo (deu para entender?). Neste ponto já percebemos que Kauffman constrói uma crítica melancólica a quem prefere reproduzir a vida a mostrar o seu olhar sobre ela. Caden se perde em sua obra ao ponto de não perceber que foi totalmente tragado por ela, ao ponto de não mais viver, apenas existir para reproduzir o que já viu. Curioso é que perto dele todos parecem querer deixar sua marca, seu olhar sobre o mundo, menos ele. Vejamos, Adele quando consagrada diz que "vê o mundo, se o vê, sente. Se o sente, pinta! Simples assim"! Da mesma forma a pequena Olive narra (em uma das cenas mais lindas do filme) em seu diário suas viagens imaginárias ao lado de seu pai - para logo em seguida ter um contraste brusco com seu leito de morte cheio de ressentimentos por mentiras contadas por uma amiga de sua mãe (Jennifer Jason Leigh em outro papel esquisito). Caden parece contruir para si uma prisão (sua peça interminável) dentro de outra (sua própria existência real) e em ambas mantém a inércia de sempre esperar por um sentido que nunca é produzido, apenas aguardado. Nesta prisão duplamente auto-construída chega a se casar com Claire e ter uma filha, a qual chama recorrentemente de Olive, o que só expressa o seu anseio em reproduzir o que já se foi. Ironicamente, a única criação de Caden é Ellen, uma criação involuntária ao lado de Adele (por conta de uma confusão com o nome da faxineira). Não por acaso é a atriz contratada para viver Ellen na peça (Dianne Wiest, num papel pequeno, mas preciso) que conduz a mente de Caden rumo ao fim (por um ponto eletrônico). Mesmo que este seja mais confuso do que os outros filmes que levam a sua escrita, o longa retoma aspectos pertinentes da obra de Kauffman e resulta no seu roteiro mais melancólico. Mesmo que em alguns pontos o diretor ainda demonstre sua irreverência celebrada (a obsessão por fezes estranhas, o livro "interativo" da psicanalista ou a casa sempre em chamas de Hazel) a profundidade dos assuntos que procura abordar deixa seu protagonista cada vez mais próximo do abismo. Sorte que nessa jornada ele contou com o apoio de um excelente elenco.

Sinedóque, Nova Iorque (Synecdoche, New York/EUA-2008) de Charlie Kauffman com Phillip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Keener, Michelle Williams, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan e Emily Watson. ☻☻☻

CATÁLOGO: Bastardos Inglórios

Fassbender e Diane: atuações vigorosas na guerra de Tarantino 

Acho que vale a pena destacar o filme que colocou Michael Fassbender (o jovem Magneto de X-Men Primeira Classe) no mapa hollywoodiano e que de quebra é um dos melhores filmes do diretor Quentin Tarantino. Inglorious Basterds era um filme que eu mesmo acreditava que nunca seria feito. Desde que estourou mundialmente com a Palma de Ouro em Cannes por Pulp Fiction (1994) este era o filme que QT começava a preparar. Mais de uma década depois ele finalmente ficou pronto e, não por acaso, foi exibido pela primeira vez em Cannes. A crítica se dividiu entre elogios e críticas sobre a fantasia do diretor sobre o holocausto - não que fosse uma comédia como a realizada por Roberto Benigni em A Vida é Bela (1997, o qual eu detesto), mas por exibir uma leitura completamente original sobre as mazelas provocadas pelo nazismo na Europa. Depois de Cannes o filme voltou para a edição e o resultado estreou muitos meses depois. Em Basterds não há campos de concentração, mas a tensão anti-semita e o sentimento de vingança sobre o clima de guerra perpassa todas as cenas. Ajuda muito também o elenco espetacular que o diretor conseguiu reunir para contar a história insusitada de um grupo de soldados americanos com a missão de caçar nazistas e - se possível - matar Hitler. Só para se ter ideia, o nome no alto dos créditos é de Brad Pitt (como o caricato líder dos Bastardos - papel que seria de Michael Madsen), mas ele parece coadjuvante de atores europeus em atuações inesquecíveis. A começar pela francesa Mélanie Laurent que vive a heroína Shosana, a sobrevivente de uma família dizimada por nazistas em seu próprio lar e que tem a chance de se vingar do oficial mandante do massacre, o escorregadio Hans Landa (o austríaco Christoph Waltz que levou para casa todos os prêmios de coadjuvante naquele ano - e o de melhor ator em Cannes). Três anos após o massacre Shosana possui um cinema, que por um desses acasos do destino (leia-se roteiro), acaba sendo o espaço escolhido para marcar a premier de um filme alemão de divulgação nazista - estrelado por um herói de guerra que apaixona-se por ela (o alemão Daniel Brühl). Vale ressaltar que a premier irá contar com o alto escalão no Reich e seu plano tem tudo para dar certo. Paralelamente conhecemos o grupo de soldados americanos judeus com o mesmo sentimento de vingança, mas estes personagens são mais atrapalhados do que eficientes. Os planos de Shosana e dos Bastardos irão se cruzar por conta da atriz Bridget Von Hammersmark (Diane Krugger, que nunca apareceu tão bonita e tão boa atriz numa tela). Tarantino embaralha esses dois planos que convergem para uma mesma noite com muita eficiência e alguns cacoetes que poderiam ter perecido na ilha de edição (a cena de Eli Roth saindo da caverna com o taco de beisebol poderia ter ficado de fora, assim como a participação arrastada de Mike Miyers), mas QT apresenta-se em plena forma nas cenas mais difíceis. A cena inicial é de tirar o fôlego e faz Shosana ganhar nosso coração nos primeiros minutos, da mesma forma, a cena da discussão na taberna com (os atores alemães) Michael Fassbender, Til Schweiger e Diane Krugger é espetacular sendo um dos melhores momentos do cinema tarantiniano. Mas nada se compara ao ápice da narrativa: a execução do plano de Shosana. O diretor alcança a perfeição na execução e na tensão que cresce na plateia. No fim das contas, mais do que a pergunta de que se vale a pena combater o mal utilizando as mesmas armas que ele, fica a impressão que Tarantino queria experimentar uma temática (o holocausto) dentro de duas linguagens diferentes. Bastardos busca o equilíbrio de uma narrativa americana (do espetáculo) e a européia (a intimista) e não precisa nem dizer que durante a sessão a parte europeia ganha de lavada. Quando a sessão termina o diretor declara que está diante de sua obra-prima. Não sei se é correto, mas com certeza, Bastardos Inglórios está entre os melhores filmes do diretor, sendo que trouxe de volta o Tarantino que sabe digerir diversas referências e construir uma obra original e que exala ousadia em seu texto e formato. Pelo caminho da ficção, Tarantino reescreve a história mundial - não por acaso num cenário de cinema - e talvez por isso considere que depois desta obra, a temática da Segunda Guerra Mundial não fará mais sentido. Será?

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds/EUA-Alemanha - 2009) com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Diane Krugger, Michael Fassbender, Til Schweiger, Eli Roth e Daniel Brühl. ☻☻☻☻

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ganhadores MTV MOVIE AWARDS

Chloe Moretz: O maior acerto do Movie Awards 2011

Me recuso a colocar aqui fotos de Crepúsculo ganhando prêmios (de CISNE NEGRO e A ORIGEM!!! SACRILÉGIOOOOO!). Eu nem apostei nos candidatos ao Movie Awards (já que todo mundo sabia que a insossa Bella & Cia iriam levar para casa os prêmios de maior prestígio - ou pelo menos o que sobrou dele depois das outras lavadas da saga vampiresca nas edições anteriores). Preferi sinalizar os meus favoritos (devidamente marcadas com smiles). Tive três acertos e fiquei mais feliz em ver Chloe Moretz sendo consagrada perante o público teen. Houve quem ficasse desconfiado que a garota mais cool de Hollywood não emplacaria depois do fracasso da versão americana de Deixe Ela Entrar, mas vai ser difícil esquecer a menina com sede de vingança na saga pancada de Matthew Vaughn. Agora vamos ver se o estúdio se empolga e faz logo a continuação de Kick Ass! Afinal de contas, mais dois capítulos de Crepúsculo já estão garantidos e... ninguém merece!!! Engraçado mesmo é ver Tom Felton que fez N-A-D-A no último Harry Potter ser eleito o pior vilão!
  
MELHOR FILME
A Saga Twilight: Eclipse

MELHOR ATRIZ
Kristen Stewart - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR ATOR
Robert Pattinson - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR REVELAÇÃO
Chloë Grace Moretz - “Kick-Ass”

MELHOR ATUAÇÃO CÔMICA
Emma Stone - “A Mentira”

MELHOR FALA DE UM FILME
 Alexys Nycole Sanchez - “Gente Grande”: “Eu quero ficar bêbada com chocolate”

MELHOR VILÃO
Tom Felton - “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1″

MELHOR LUTA
Robert Pattinson vs. Bryce Dallas Howard e Xavier Samuel - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR BEIJO
Kristen Stewart e Robert Pattinson - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR MOMENTO “P*TA M*RDA”
Justin Bieber - “Justin Bieber: Never Say Never”: Performance

MELHOR ATUAÇÃO ASSUSTADA
Ellen Page - “A Origem”

MELHOR ESTRELA QUEBRA TUDO
Chloë Grace Moretz - “Kick-Ass”

PODERES ESPECIAIS - 3ª Edição

Nem só de heróis de histórias em quadrinhos vivem os personagens cinematográficos com habilidades inexplicáveis para um ser humano. Esses seres poderosos disfarçados de seres humanos normais pensam que nos enganam sob as identidades de:

Rachel Marron (O Guarda-Costas)
Poder: voz super-sônica
Difícil imaginar um poder tão perturbador quanto o de Rachel Marron, ex-cantora e atriz ganhadora do Oscar, Rachel ficou ainda famosa por manter um affair com o seu guarda-costas, mas as coisas ficaram insustentáveis quando ela percebeu que não precisava de ninguém para defendê-la - já que era só utilizar sua voz super-sônica para destruir os seus oponentes. Suas cordas vocais são capazes de alcanças notas altíssimas provocando a surdez, a inconsciência, o estouro de tímpanos ou vidros quebrados. Depois de ter sofrido na pele todo tipo de atentado sem originalidade, Marron largou o showbusiness e dedica sua vida a proteger os oprimidos de ouvidos resistentes!

O Narrador (Clube da Luta)
Poder: Indolor
O fundador do Clube da Luta sabe exatamente o valor de manter sua identidade secreta em sigilo absoluto. Talvez por isso deixe o trabalho sujo para Tyler Durden - estanho que seu maior inimigo acabe sendo sua própria criação... ops! Melhor não entrar em detalhes. Por não ter o nome divulgado ele é conhecido como O Narrador (por contar as coisas mais estranhas sobre a sociedade secreta de marmanjos que adorava sair na pancada). Ele pode não ter obtido sucesso ao tentar evitar o colapso nas redes de cartão de crédito no fim do século passado, mas sua capacidade de não sentir dor (ele até se soca nas horas vagas para testar seus limites) tem sido muito útil no confronto seus os oponentes. Como ninguém é de ferro ele tem até uma namorada maluquete e devotada: Marla Singer (uma das sujeitas mais complexas que já cruzaram o caminho de um homem).

Mulher Invisível (A Mulher Invisível)
Poder: Invisibilidade
Amanda começou os seus serviços de pura farra no imaginário de um publicitário em crise existencial, mas desde então percebeu que poderia ocupar seu tempo em outras missões. Obviamente que sua vida pessoal continua sendo meio confusa (ganhou até um programa de televisão onde disputa a mente de André com uma mulher de carne e osso), mas para as missões mais inusitadas ela ainda é a melhor aposta. Basta a beldade infectar a mente de um homem para simplesmente fazer o que bem entender com ele. André só não pode descobrir, senão pode ficar enciumado!

Cooler (Quebrando a Banca)
Poder: Transmissão de azar
Bernie Lutz é um sujeito simpático, educado e até meio tímido, o problema é o seu poder especial de transmitir azar para quem esteja por perto. Talvez por isso sua família seja um tanto confusa e os namoros sempre enfrentem dificuldades. Sua profissão por um tempo não foi das melhores (mas diante de sua capacidade inexplicável era bem coerente). Lutz trabalhava num cassino e ficava sempre por perto dos apostadores mais sortudos. Depois de alguns problemas profissionais acredita-se que o cara esteja morto - mas os mais antenados dizem que Lutz anda fazendo alguns serviços para a CIA infiltrado em países que representam alguma ameaça ao governo dos EUA. Seja como for a CIA foi esperta em mantê-lo longe de sua sede...

A Noiva (Kill Bill)
Poder: Habilidade Física
Beatrix Kiddo sofreu todo tipo de trauma e maus tratos nas mãos de seus amigos matadores profissionais do DIVAS e armou um plano de vingança em que se mostrou uma samurai das mais eficientes. Sua disciplina e velocidade nos golpes é reconhecida internacionalmente, da mesma forma que sua força e obstinação. Ela é capaz de derrotar sozinha dezenas de oponentes e ainda arrancar o olho de uma inimiga sem que esta se dê conta. Isso sem falar nos seus dotes em fugir do próprio caixão em que foi enterrada viva. Pode até parecer que A Noiva não possui poder especial algum, mas você acredita mesmo que uma pessoa normal conseguiria lutar daquele jeito?

domingo, 5 de junho de 2011

Na Tela: X-Men Primeira Classe

Os primeiros membros do Instituto Xavier: Sem respirar. 

Com o final de X-Men: O Conflito Final a Fox se viu numa rabuda. Primeiro que seus atores haviam realizado um contrato para três filmes, sendo assim, continuar com as aventuras de Xavier & Cia demandava uma grande dor de cabeça para conciliar agendas e cachês (para se ter ideia, foi isso que levou o Spider Man4 de Sam Raimi para o saco). Por outro lado seria um verdadeiro suicídio financeiro abandonar a franquia do século XXI mais lucrativa do estúdio. A solução ideal foi logo dada: explorar o universo de cada personagem em aventuras solo. Daí nasceu X-Men Origens: Wolverine (...) de resultado regular e as promessas de um solo de Magneto (enquanto as especulações sobre o filme do Fera eram esmagadas pela repercussão pífia do mutante azul na terceira aventura mutante). E agora o que fazer? Bryan Singer na ressaca ao boicote de Superman Returns (2006) retornou à franquia, mas pouco depois dizia estar interessado somente em produzir e roteirizar uma nova aventura. Quando o projeto começou a tomar forma, X-Men First Class era menos uma promessa de estilo do que o atestado de que a Fox estava diposta a contar a origem de seus personagens. Ninguém ainda admitiu, mas o novo fime de X-Men tem o maior jeitão da aventura solo de Magneto e sua inevitável abordagem da amizade com Charles Xavier - só para dar uma forcinha misturaram isso aos primeiros membros X-Men (que nas HQ eram Jean Grey, Homem de Gelo, Fera, Ciclope e Anjo - ou seja, personagens que apareciam nos outros filmes). Qual o problema disso? Aparentement nenhum, já que a história de Magneto é o que o filme possui de mais bem explorado. O filme retoma a saga dos mutunas no momento inicial da primeira aventura no cinema, com Magneto sofrendo maus tratos num campo de concentração e  descobrindo seus poderes. A isso intercala a vida do bem nascido Charles Xavier e seu relacionamento com Raven, que mais tarde será Mística. Toda a trama se move em torno de Magneto, o interesse nazista pelos seus poderes, seus traumas e o crescente desejo de vingança quando adulto (com direito à interpretação sempre vigorosa de Michael Fassbender). É esse desejo de se vingar do oficial nazista que assassinou sua mãe que move a trama e o faz conhecer Xavier (o sempre confiável James McAvoy). Os dois se tornam amigos e se unem para destruir o tal nazista, que agora é conhecido como Sebastian Shaw (Kevin Bacon), dono do Clube do Inferno e que possui uma quadrilha de mutantes mal intencionados (que conta com a Emma Frost de January Jones que começa e termina o filme com a mesma cara). Xavier e Magneto acabam recrutando jovens mutantes para sua equipe: Mística (Jennifer Lawrence), Destrutor (Lucas Till), Angel (Zoe Kravitz), Fera (Nicholas Hoult), Banshee (Caleb Landry Jones) e Darwin (Edi Gathegi). Obviamente que conta pontos a forma como explora a origem desses personagens (sem ser totalmente fiel à HQ) usando fatos históricos (como a crise dos mísseis em Cuba) determinantes para o futuro que se desenha para os mutantes. Estão ali as primeiras divergências entre Charles e Magneto, as inseguranças de Mística com sua aparência (e o esboço de um romance com Fera), a origem da sala de treinamento e brindes para fãs (como a lendária Moira McTaggert, a aparição de Wolverine e Rebecca Romjin como a Mística madura). No entanto Matthew Vaughn (que mostrou toda sua eficiência em filmes de heróis com Kick-Ass no ano passado) tem a tarefa ingrata de lidar com um roteiro inchado de informações. O resultado é um filme que não respira com muita ação e efeitos especiais, mas sem muita vida própria. Concordo que é interessante construir ligações com os filmes anteriores, mas do jeito que aparece o filme nunca sai da sombra dos anteriores. Quando consegue (em sua última meia-hora) a coisa já está perto de acabar e temos a exata sensação do que o filme poderia ter sido se houvesse deixado as pausas dramáticas que não sobreviveram à ilha de edição (acredito que o lançamento em DVD ou Blu-ray será apinhado de cenas deletadas). Bom mesmo é que apesar desses deslizes o filme funciona (especialmente pelas ótimas atuações de Fassbender, McAvoy e Lawrence) e deve garantir uma nova trilogia para os mutantes - só espero que no próximo Vaughn tenha tempo de respirar.     

X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class/EUA-2011) de Matthew Vaughn com Michael Fassbender, James McAvoy, Jennifer Lawrence, Kevin Bacon, January Jones, Nicholas Hoult e Jason Flemyng. ☻☻☻☻

sexta-feira, 3 de junho de 2011

MOMENTO ROB GORDON: A Primeira Classe dos X-MEN

Sem os atores conhecidos e consagrados da saga mutante o filme de Mathew Vaughn apelou para nomes em ascenção que precisam convencer na pele dos personagens dos quadrinhos. Você já deve ter ouvido falar de:

5 January Jones
Musa da série Mad Men, Jones tem aqui a sua chance de se tornar uma sex symbol da sétima arte. Afinal de contas quem conhece Emma Frost dos quadrinhos sabe que os trajes da Rainha Branca do Clube do Inferno são bem... digamos... convidativos. Antes do sucesso do seriado a atriz já aparecia em filmes assinados por gente importante, como Full Frontal (2002) de Steven Soderberg,  Simplesmente Amor (2003) de Richard Curtis  e Três Enterros (2005) de Tommy Lee Jones - onde tem sua melhor atuação. Recentemente apareceu nas telonas ao lado de Liam Neeson em Desconhecido (2011), mas encarnar a gélida Frost pode dar uma guinada em sua carreira que já conta com duas indicações ao Globo de Ouro (por Mad Men).

4 Nicholas Hoult
Hoult começou cedo (doze anos) no cinema ao lado de Hugh Grant em Um Grande Garoto (2002) onde fazia troça de si mesmo por não ter o talento dramático do garoto de O Sexto Sentido (Haley Joel Osment). Auto-veneno à parte, Hoult depois apareceu já crescidinho em O Sol de Cada Manhã (2005) ao lado de Nicholas Cage e os elogios lhe renderam um papel fixo no cultuado seriado 'briteen' Skins (2007-2008) - além de campanhas publicitárias alavancadas por Tom Ford. Quem diria que aquele molequinho iria virar modelo? Ford gostou tanto do trabalho do rapaz que o escalou para ser o aluno que flerta com Colin Firth em Direito de Amar (2009). Pelo papel, Hoult concorreu ao BAFTA e ganhou papéis em superproduções: Fúria de Titãs (2010, onde foi desperdiçado), o remake de Mad Max previsto para o fim do ano e o novo X-Men onde interpreta o Fera. Onde está  Joel Osment mesmo?  

3 Jennifer Lawrence
Dificilmente você não ouviu falar de Jennifer nos últimos meses. Depois da entrega do Oscar a loura virou musa com seu vestido vermelho e que motrava que ao contrário de suas colegas contemporâneas (tem vinte e um anos) ela tem muito mais carne do que ossos. Rapidamento foi rotulada de ser uma estrela à moda antiga, com corpão, talento e glamour. Talento já sabiam que ela tinha, já que em seu primeiro papel importante, em Vidas que se Cruzam (2009) de Guillermo Arriaga, já foi premiada em Veneza. Mas tudo ganhou maior magnitude quando Sundance se rendeu ao seu talento em Inverno da Alma (2010) pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar pelo papel da adolescente que carrega as mazelas da família nas costas. Lawrence tem tudo para deslanchar no papel de Mística (em pensar que o papel sugere que ao crescer ela será Rebecca Romjin... que responsabilidade).    

2 James McAvoy
Das estrelas novatas de X-Men Primeira Classe, McAvoy deve ser o mais conhecido. Tanto pelos adolescentes (foi o chifrudinho Mr.Tumns no primeiro Crônicas de Nárnia/2005), como pelos adultos (foi o médico de O Último Rei da Escócia/2006), pelas mulheres em geral (foi o herói romântico de Desejo e Reparação/2007 e Amor e Inocência/2007)  e até os brucutus devem lembrar dele (foi o assassino desajeitado de O Procurado/2008). Claro que McAvoy prefere os papéis sérios (como o feito no recém-estreado A Última Estação ao lado de Helen Mirren), mas sabe que o convite para ser o jovem Professor Xavier não aparece todo dia. O ator escocês já deu mostras de que é capaz de carregar um filme nas costas e isso é muito bem vindo no nível de risco em que este filme dos mutantes se situa.

1 Michael Fassbender
Ok, Fassbender não é o mais famoso da lista, mas é o que possui maiores responsabilidades no filme - já que encarna Magneto, ou melhor, o Sir Ian McKellen quando jovem. Primeira Classe tem resquícios do roteiro da aventura solo de  Magneto e por isso mesmo dever ter maior foco no personagem que muitos consideram o vilão favorito da HQ. Fassbender ficou conhecido depois de encarnar o prisioneiro em greve de fome em Hunger (2008) - que se fosse menos pesado poderia ter lhe rendido os maiores prêmios do cinema. Antes o ator havia aparecido entre os descamisados de 300 (2006)  Michael tem 34 anos e nasceu na Alemanha e ganhou vários créditos entre o público em sua tensa cena na taberna de Bastardos Inglórios (2009) onde toma o filme para si (e depois queremos ainda mais). Pois é, Fassbender tem tomado cada vez mais filmes para si (tanto que tem seis filmes prestes a estrear) e com X-Men não deve ser diferente (ainda mais sem Wolverine pelo caminho).