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domingo, 31 de dezembro de 2017

MELHORES DO CINEMA - 2017

Para me despedir de 2017 escolhi os meus favoritos do ano que termina. Foi um bom ano para o cinema, com vários filmes interessantes e que deram o que falar por vários motivos... Lembrando que utilizo como critério os filmes que entraram em cartaz entre o final de dezembro de 2016 e o final de 2017,  os meus melhores do ano foram: 

 ELENC✪ 
Num ano de interpretações marcantes, foi o elenco de Moonlight que mais ficou na minha memória. Misturando artistas conhecidos com novatos, o diretor Barry Jenkins conseguiu interpretações inesquecíveis de todos nos três tempos que compõem a narrativa. A sintonia entre os atores foi muito importante na história do menino que cresce à procura do amor num mundo agressivo, de cores fortes, mas com toques de inacreditável poesia. Boas interpretações fizeram a diferença também em Blade Runner2049, Manchester à Beira-Mar,  Estrelas Além do Tempo,  Okja, e Um Homem Chamado Ove

REVELAÇÃ✪ DO ANO
Quem o assiste Lewis MacDougall como o melancólico menino que faz amizade com um monstro em Sete Minutos Depois da Meia-Noite pensa que é um veterano em corpo de menino! Espero que o menino apareça em muitos filmes daqui para a frente. 2017 foi um ano cheio de novos talentos interessantes, da complexidade introspectiva de Harris Dickinson (Ratos de Praia), a estreia no cinema da (também cantora) Janelle Monáe (que fez sucesso com Estrelas Além do Tempo e Moonlight), a simpatia de Alex Sharp (ótimo em O Mínimo para Viver e está no novo filme de John Cameron Mitchell, Como Falar com Garotas em Festas) , a versatilidade da francesa Doria Tillier (que avança por décadas em Monsieur e Madame Adelman) e a presença imponente de Trevante Rhodes (fechando muito bem o último ato de Moonlight).

ATRIZ C✪ADJUVANTE
Faz tempo que acompanho a carreira de Naomie Harris, mas confesso que a atriz inglesa nunca chegou a me empolgar em cena. Ela sempre me parecia abaixo das expectativas, mas o que ela faz em Moonlight é coisa de outro mundo! Dando conta de ser a única atriz que aparece nas três fases distintas da história, ela constrói uma personagem com princípio, meio e fim (?)  e em cada momento ressalta uma emoção diferente num trabalho brilhante diante da câmera. Simplesmente sensacional! Outros trabalhos que curti no ano foram da maternal Felicity Jones (Sete Minutos Depois da Meia-Noite), Naomie Ackie (como o lado mais frágil nos jogos de poder de Lady Macbeth), Kirsten Dunst (roubando a cena em O Estranho que Amamos), a pouco conhecida Hayley Squires (Eu, Daniel Blake) e a diva Viola Davis (Um Limite Entre Nós).

AT✪R COADJUVANTE
Sei que ele não aparecerá nas grandes premiações, mas dificilmente quem assistiu Una esquece do trabalho magistral deste australiano que ainda é pouco conhecido. Ben Mandelsohn caiu no meu radar com Reino Animal/2010 e apareceu nesta mesma categoria tempos atrás. Desde então ele apareceu em várias produções do cinema americano. O fato é que Mendelsohn neste ano deu conta de um papel complicadíssimo, conseguindo ser sedutor, doentio, covarde e monstruoso. Vale a pena vê-lo devorar um personagem perigoso com um apetite fascinante. Lhe fazem companhia entre os melhores atores coajuvantes do ano dois atores do tenso Animais Noturnos (Michael Shannon e Jake Gyllenhaal), dois talentos de Moonlight (André Holland e Mahershala Ali), além de Alex Brendemühl que rouba a cena do galã de Um Instante de Amor

ROTEIR
Um roteiro é a alma de um filme. Um bom diretor pode até fazer um bom filme com um roteiro que não é lá grandes coisas, mas para estragar um filme com roteiro bem escrito exige um esforço descomunal! Moonlight é o meu texto favorito do ano. Adaptado de uma peça para a telona (com grande sensibilidade por Barry Jenkins) o roteiro é um verdadeiro primor! Outros trabalhos interessantes foram vistos na lapidação literária de Manchester à Beira-Mar, no tom de fantasia real de Okja, o estilo inconfundível de Mulheres do Século XX, na trajetória de Um Homem Chamado Ove e o corajoso  resgate do universo devidamente ampliado de Blade Runner 2049

MELHOR AT✪R
M. Night Shyamalan ressurgiu com o sucesso de Fragmentado, um suspense calcado principalmente num personagem com 23 personalidades. Não são muitos que dariam conta de um desafio deste tamanho como o escocês James McAvoy. Elogiado por seu trabalho com as nove identidades que aparecem no filme (as outras devem aparecer na continuação), o ator deve ser esquecido nas premiações novamente. Entre os favoritos do ano, Casey Affleck totalmente contido em  Manchester à Beira-Mar, Joel Edgerton que fez bonito em Loving, Ryan Gosling por Blade Runner 2049 e Peter Sarsgaard (outro constantemente esquecido) como o psicólogo social de O Experimento de Milgram. Quem está cotado para as premiações que se aproximam é (quem diria!) Robert Pattinson, que cresceu e apareceu em Bom Comportamento, numa atuação exemplar!

MELH✪R ATRIZ
Felizes são aqueles que já viram a atriz Ruth Negga em outros papéis. Acostumada a crescer em papéis que não lhe ofereciam muito para fazer, Ruth apresentou uma das atuações mais elogiadas do ano em Loving. Vivendo Mildred Loving no filme de Jeff Nichols, ela brilha em cada cena - e, por vezes, nem precisa fazer muito para comover como parte do casal perseguido por desobedecerem a lei que proibia casamentos inter-raciais na Virgínia na década de 1960. Outras atuações memoráveis do ano ficaram por conta de Jennifer Lawrence no controverso Mãe!, Marion Cotillard nos devaneios românticos de Um Instante de Amor, a ótima Taraji P. Henson na NASA de Estrelas Além do Tempo, Rebecca Hall como a repórter suicida Christine Chubbuck e... dá para acreditar que Florence Pugh de Lady Macbeth tem apenas 21 anos? Com dois filmes no currículo e tamanha intensidade, esta garota vai longe...

DIRET✪R
O canadense Denis Villeneuve provou ser um diretor de coragem ao realizar a sequência de Blade Runner 2049. A ideia tinha tudo para dar errado, mas o diretor sabia exatamente o que queria fazer para ampliar e enriquecer ainda mais o universo apresentado anteriormente no filme de 1982. Com imagens belíssimas, novos conflitos, efeitos especiais, trilha sonora perfeita e ritmo contemplativo o filme não fez o sucesso esperado, mas se tornou um marco na ficção científica. Não fosse por ele, Barry Jenkins seria o meu escolhido do ano pelo belíssimo trabalho em Moonlight. Outros que se destacaram por seus trabalhos foram Darren Aronofsky pelas alegorias tão amadas quanto odiadas de Mãe!, David Lockery pela atmosfera única de A Ghost Story, Joon-Ho Bong que fez de Okja um filme tão fofo quanto assustador e o estreante William Oldroyd que surpreende com a direção de Lady Macbeth (e nos deixa curiosos sobre o que fará nos próximos anos). 

FILME DO AN
Lembro quando vi Blade Runner 2049 no cinema e me perguntaram o que eu achei...  não hesitei em dizer que era o melhor que eu tinha visto no ano! Vi o filme novamente uma semana depois e gostei mais ainda. Para quem é fã do clássico de Ridley Scott lançado em 1982 calcado na obra de Phillip K. Dick. A tardia continuação se torna ainda melhor ao honrar a obra original e ampliar tudo o que vimos no filme anterior. 2049 traz algumas das melhores cenas que vi no cinema nos últimos anos e nem importa que não fez a bilheteria que esperavam (nem o primeiro filme fez e se tornou um clássico cult com o tempo)! Os outros nove já foram citados anteriormente aqui no blog anteriormente. Como esquecer o ritmo de Baby Driver, a fantasia de Sete Minutos Depois da Meia-Noite, a poesia áspera de Moonlight, o humor negro de Um Homem Chamado Ove, o amor incompreendido de Loving, as emoções ambivalente de Okja, o estilo de Mulheres do Século XX, a economia precisa de Lady Macbeth ou as reflexões de O Experimento de Milgram. em tempos tão estranhos? Estes foram os dez filmes que fizeram a diferença no meu ano cinematográfico de 2017. E quais foram os seus?

Feliz Ano Novo!
Que 2018 traga bons filmes para todos nós! 

domingo, 24 de dezembro de 2017

MELHORES DA TV - 2017

Em 2017 a produção de séries bateu um recorde, com aproximadamente, 500 programas do gênero sendo lançadas! Nesta leva me despedi de Girls (2012-2017), Halt and Catch Fire (2014-2017) e Orphan Black (2013-2017), não curti tanto como esperava a segunda temporada de Stranger Things (a campeã do ano passado), presenciei o nascimento de Deuses Americanos, surtei com Legião, vi Mr. Robot voltar aos trilhos em uma bela temporada e vi House of Cards cair em desgraça. Já me preparo psicologicamente para o fim de The Americans, Veep e o retorno de Westworld. Enfim, vamos aos meus favoritos do ano que chega ao seu final de temporada: 

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SÉRIE DE COMÉDIA
Pelo segundo ano consecutivo, Veep foi a série que mais me fez rir - o que foi uma surpresa já que eu não imaginava os caminhos que a série seguiria quando a vice-presidente Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) saia da Casa Branca pela porta dos fundos (e com uma mão na frente e outra atrás), mas... os produtores provaram que para a vice mais que querida dos EUA não existem limites para passar vergonha! Duas novas séries chegaram no páreo: Glow e Dear White People, ambas com estilos bem diferentes do trivial e fazendo barulho com o humor mordaz. Duas veteranas Silicon Valley e Orange is The New Black também entregaram temporadas que deram repaginadas em seu andamento e ganharam destaque por aqui. 

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ATOR DE COMÉDIA
Eu não conhecia o trabalho de Marc Maron e fiquei impressionado com a sua desenvoltura como o criador da luta de mulheres em Glow, seu charme cafajeste desleixado incompreendido é um dos pontos altos da série composta por fortes presenças femininas - e ele não parece intimidado. Curiosamente, todos os seus companheiros de pódio vieram de programas da Netflix, sendo que Ansari já concorreu ano passado, Paul Rust aparece aqui pela primeira vez e Neil Patrick Harris também por sua personificação do estranho Conde Olaf. Vale lembrar que Titus Burgess ganhou tanto destaque que deixou de ser coadjuvante e ganhou mais destaque como protagonista ao lado de Unbreakable Kimmy Schmidt

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ATRIZ DE COMÉDIA
Acompanho o trabalho de Alison Brie desde que ela era uma das esposas exemplares de Mad Men. Depois ele provou que ficava mais a vontade fazendo palhaçadas em Community e depois de aparecer em alguns filmes ela finalmente ganhou o destaque que merecido como a atriz desempregada que se torna lutadora em Glow. Brie cria uma personagem cheia de nuances e que se torna uma delícia de acompanhar (especialmente quando entra no ringue). Acho que até Julia Louis-Dreyfus deu boas risadas com Alison durante o ano! Recém chegadas também são Betty Gilpin e Logan Browning vivendo personagens fortes em verdadeiras encruzilhadas emocionais. Se despedindo do pódio está Lena Dunhan que encerrou Girls num episódio final controverso, mas que era do jeito que ela queria. 

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ATOR COADJUVANTE
Se todos eram favoritos era hora de desempatar com algum critério: qual foi mais impressionante? Quem não teve arrepios com Cameron Britton como um dos prisioneiros mais assustadores dos Estados Unidos. Em Mindhunter o ator se transforma na pele do assassino Edmund Kemper - e sua presença é tão forte que ele aparece somente em três episódios e, mesmo assim, paira como um fantasma nos outros sete. Foi um trabalho exemplar que deve reaparecer na segunda temporada da série de David Fincher. Seu parceiro de elenco Holt McCallany, também merece ser lembrado, assim como Paul Bettany num papel que até poderia aparecer na mesma série, mas foi no pouco visto Manhunt: Unabomber. Eu também não poderia esquecer do crescimento de Andrew Ranells (especialmente do momento solo de Elijah) em Girls ou de Alfred Molina atiçando as divas em Feud

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ATRIZ COADJUVANTE
Sei que alguns vão dizer que Susan Sarandon é atriz principal de Feud, mas resolvi considerar que ela é coadjuvante. Afinal, existem episódios em que ela mal aparece e todo o foco é no olhar de Joan Crawford sobre sua rival Bette Davis. Além disso, o trabalho de Susan é tão magnífico que ela nem precisa ser a principal para chamar atenção, ela é mais do que antagonista da diva que tentava dar a volta por cima e tornou os bastidores de "O Que Teria Acontecido a Baby Jane?" num inferno que ecoaria por anos! Feud colocou Susan de volta em nossos corações, de onde nunca deveria ter saído. No mesmo programa a Jackie Hoffman também estava impecável como a impagável Mamacita! As outras favoritas foram Anna Torv (que não fez feio em Mindhunter), assim como Gillian Anderson - que  foi a atriz mais falada de Deuses Americanos vivendo a Deusa Mídia, além de Laura Dern  que completava as grandes atuações do ano em Big Little Lies na HBO. 

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ATOR DE DRAMA
Fiquei realmente impressionado com o trabalho de Jonathan Groff em Mindhunter como o jovem agente do FBI que busca a criação de perfis psicológicos de serial-killers - antes mesmo deste conceito ser construído. Eu lembrava daquele ator de algum lugar... nada mal para quem foi do elenco de Glee e Looking e embarcou num projeto totalmente diferente, menos festivo e mais assustador. Groff faz seu personagem crescer aos poucos e entre tropeços no ego e na vaidade, seu agente se torna ainda mais interessante. Matthew Rhys e Rami Malek são velhos conhecidos da categoria e deram as boas vindas aos gêmeos vividos por James Franco em The Deuce e ao sempre interessante Sherlock do britânico Benedict Cumberbatch. 

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ATRIZ DE DRAMA
Acho que nunca antes apareceram tantas atrizes oscarizadas nesta categoria. Ironicamente ganhou a mais experiente (seis indicações e duas estatuetas em casa). Jessica Lange pode estar meio esquecida da tela grande, mas encontrou na TV papéis fortes que a colocaram novamente sobre os holofotes. Em Feud: Bette and Joan ela personifica Joan Crawford como uma diva que entra em pânico sempre que percebe que pode ser esquecida. Em busca de reconhecimento ela resolve produzir um clássico do suspense e começa uma guerra de egos com Bette Davis. Lange está excelente no papel! Big Little Lies também fez bonito na TV tendo performances memoráveis de suas produtoras (Nicole e Reese) e recentemente uma segunda temporada foi anunciada. Keri Russell segue sua jornada como a espiã russa de The Americans que vai chegando ao final em 2018 e a novata Sarah Gadon também merece ser lembrada por sua exemplar performance em Alias Grace

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MELHOR SÉRIE DRAMÁTICA
Foi difícil escolher o meu programa favorito deste ano e por pouco Mindhunter não levou, mas sempre que penso que a treta entre Joan Crawford e Bette Davis chegou ao fim na produção de Rian Murphy eu sinto uma tristeza. Ancorado por atuações memoráveis de todo o seu elenco (especialmente de Jessica Lange e Susan Sarandon), Feud: Bette and Joan era mais do que a história de duas estrelas lutando para serem reconhecidas, tratava também da forma como o cinema percebe suas estrelas e como os estúdios a mídia pode alimentar intrigas (isso sem falar dos segredos de bastidores que contaminam até o Oscar). Para quem curte cinema, Feud foi um deleite ainda maior! Mas não poderia esquecer de Mr. Robot entregando uma ótima terceira temporada (e que continue assim), do aclamado Big Little Lies que fez tanto sucesso que a minissérie virou uma série de TV, além de DARK, a sensacional série alemã da Netflix que deu o que falar (além de um nó na cabeça de quem assistiu).

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

10+ Favoritos do Ano

Passei o ano inteiro preparando a minha lista de filmes favoritos que chegaram no Brasil em 2017. A minha lista original tinha dezenove filmes, mas tive que sofrer um bocado para cortar alguns. O lado bom é que olho para os dez que aparecem aqui e vejo que são os que mais se comunicaram comigo. Vale lembrar que é uma lista subjetiva - e você também deve ter a sua. Não significa que filmes como A Criada, Dunkirk e Corra! ficaram de fora porque são ruins, mas, apenas porque curti um pouco mais esses dez. Sei que tem algumas surpresas (que provavelmente aparecerão somente na minha lista de favoritos), mas tem outros que não poderiam ficar de fora. Os filmes que levarei do ano que está chegando ao fim são os seguintes (em ordem alfabética): 

É preciso ter coragem para criar a continuação de um clássico mais de três décadas depois. Muita gente argumentou que o filme não foi tão bem nas bilheterias porque era lento demais, mas sinceramente, eu gosto dele do jeitinho que ele é (mas poderia durar umas cinco horas que eu não me incomodaria). Villeneuve cria um espetáculo visual que amplia completamente o clássico de Ridley Scott, enriquecendo sua mitologia e criando novos personagens que são autênticas continuações do filme original. Blade Runner 2017 traz algumas das cenas mais lindas que  já vi numa tela de cinema, criando momentos de pura magia - que fez até os fãs mais durões se emocionarem na sala escura.  Adoraria que o universo de Phillip K. Dick virasse uma trilogia, mas como o resultado não empolgou o estúdio, será difícil. No entanto, como nem o Blade Runner original fez sucesso de bilheteria no seu lançamento, só ganhando respeito ao longo do tempo... quem sabe quando eu tiver uns setenta anos a terceira parte chegue aos cinemas. 

Fui ver Bady Driver quase que por acaso, sem esperar muito dele. No início eu não via nada demais nesta nova empreitada de Edgar Wright, mas conforme a trama avançava, me envolvi cada vez mais com a história do motorista de assaltos que quer mudar de vida. Sem perceber você começa a repensar os coadjuvantes que se tornam cada vez mais interessantes (sem que você saiba muito sobre eles) e o melhor de tudo: você percebe que o filme tem o ritmo de sua trilha sonora. Ao longo da narrativa fica latente a genialidade do diretor em criar coreografias com perseguições de carros, tiros e diálogos. Além do apelo visual (e sonoro) irresistível existem ainda as piadinhas internas que crescem em sua mente após o término da sessão. Em Ritmo de Fuga se tornou a minha maior surpresa do ano e não poderia ficar de fora das minhas melhores experiências cinematográficas de 2017 - e já aguardo a sequência. 

Acho realmente fascinante como um filme econômico pode ser envolvente pelo trabalho do diretor conduzindo seus atores. Lady Macbeth é um filme aparentemente sem muitos recursos. Com locações quase todas dentro de uma casa, poucos atores em cena que fazem crescer uma tensão irresistível sobre a maldade humana - e do que ela se alimenta. Baseado na obra de Nicolai Leskov, o filme de William Oldroyd não tem efeitos especiais, monstros ou reviravoltas mirabolantes, mas conta com momentos de um vigor inacreditável. A atriz Florence Pugh merece desde já entrar nas listas de atuações favoritas do ano na pele da personagem que passa de mocinha infeliz ao posto de vilã diabólica. Regado por humilhações, rancores e desejos, Lady Macbeth torna-se uma obra arrepiante e um tanto desagradável de assistir, mas que você não consegue deixar de acompanhar, como se sofresse uma espécie de transe hipnótico - que permanece mesmo após o filme terminar. 

Sabe aquela lista de diretores que você não pode perder filme algum. Jeff Nichols está na minha lista desde que assisti O Abrigo (2011), sobre um homem que não sabe se é louco ou profeta do apocalipse. Desde então Nichols já fez filmes bem diferentes, sendo o último esta bela biografia do casal que dá nome ao filme. Richard e Mildred Loving se casaram nos anos 1960 no estado da Virgínia e fica difícil perceber como o matrimônio entre duas pessoas que se amam poderia ser um crime, mas havia uma lei no estado que proibia casamentos interraciais e... foram presos, perseguidos e tiveram que se afastar da cidade onde cresceram por viverem um amor fora da lei. Loving incomoda principalmente por nos lembrar que nem sempre a lei está do lado certo e em tempos onde o racismo quer se passar por uma "questão de opinião", o filme ganha ainda mais importância. Lembrado no Oscar somente na categoria de melhor atriz (a magnífica e pouco conhecida Ruth Negga), Loving não encontrou espaço nos cinemas brasileiros, mas merece ser descoberto. 

Por algum tempo Moonlight foi lembado como aquele filme da confusão do Oscar deste ano. Pareceu brincadeira que no ano em que todo mundo já dava como certo o anúncio de La La Land como o melhor filme do ano, Warren Beatty tenha trocado os cartões do anúncio e anunciado equivocadamente La La como melhor filme. Sorte que logo depois o equívoco foi reparado e ninguém entendeu muito o que aconteceu, mas não restava dúvidas de que Moonlight recebia um prêmio merecido. Feito com orçamento minúsculo e atores totalmente imersos em seus papéis, a história do menino negro que cresce num mundo violento em busca de afeto é de partir o coração. O melhor é que Jenkins conta uma história de traços fortíssimos com uma poesia que poucas vezes se viu numa tela. Tudo é tão comedido e sincero que até a forma como o desejo é inserido na história segue por um caminho não convencional. Moonlight despedaça nossa alma - e ainda agradecemos.  

O cinema de Mills é um dos mais peculiares de Hollywood. A forma como constrói suas narrativas não parecem muito comprometidas com convenções, além disso, insere pontos de sua própria história nos roteiros. Pouca gente vai assistir seus filmes no cinema, o que é uma pena. Se Toda Forma de Amor/2011 revisitava partes de sua história com o pai, Mulheres do Século XX é dedicado ao relacionamento do diretor com a mãe. Que outro filme interrompe a história principal para falar de seus coadjuvantes pontuando o período histórico em que nasceram? Qual filme alterna a narrativa entre as vozes de mãe e filho sem perder o tom? Além disso tem aqueles recortes que só Mills sabe fazer, a trilha sonora com Talkin Heads e diálogos inéditos que só poderiam sair da mente criativa do diretor/roteirista. Mulheres do Século XX fala do passado, do presente e do futuro e você mal percebe. 

Lançado no final de 2015 nos Estados Unidos, ignorado nas premiações e chegando por aqui somente este ano pela Netflix, o filme de Amereyda é uma dessas pérolas que se perdem no tempo e que merecem ser descobertas. O roteiro é uma construção interessantíssima em torno dos estudos do psicólogo Stanley Milgram que gerou muita polêmica com suas experiências comportamentalistas na década de 1960. Seu experimento mais famoso é o que dá corpo ao filme, demonstrando o que ele tinha de mais polêmico e fascinante dentro da psicologia social - além de motivar discussões sobre a ética em experimentos que perduram até hoje. Almereyda faz um filme que é uma delícia de acompanhar e prega peças no espectador tornando a obra ainda mais interessante, além disso tem uma atuação memorável de Peter Sarsgaard na pele do cientista - e acredite, ninguém consegue falar com a câmera como ele. Se você não assistiu, não perca tempo! Será um dos melhores filmes que verá neste ano. 

Incrível é imaginar como um filme tão querido gerou tanta polêmica antes da estreia só por concorrer  à Palma de Ouro do Festival de Cannes. O problema estava longe de ser a comovente jornada de uma menina para salvar seu porco gigante da indústria alimentícia, mas o fato do filme ter sido bancado pela Netflix e destinado ao serviço de streaming. Curiosamente, achei muito estranho o filme sofrer duras críticas antes que o vissem e ver a Netflix se tornar a vilã da história, quando legitimou a independência de um roteiro rejeitado por vários estúdios quando o cineasta coreano batia o pé para não atenuar a parte mais sombria de sua história. Debaixo de toda esta confusão, eu entendi que se todos os diretores resolverem recorrer à Netflix quando tem suas visões rejeitadas, os produtores terão uma grande dor de cabeça (tão grande quanto a de muitos carnívoros que cogitaram se tornar vegetarianos após cair de amores por Okja). 

O espanhol Bayona está se tornando especialista em conseguir atuações marcantes de atores mirins. Desta vez quem impressiona é Lewis MacDougall, jovem ator que tinha treze anos durante as filmagens e que demonstra uma intensidade emocional de dar inveja à muito marmanjo. A história do menino perseguido na escola e que tenta superar a tristeza de ver a mãe em uma guerra contra o câncer poderia ser apenas mais um melodrama, mas Bayona torna o filme em algo muito maior quando seu protagonista passa a ser visitado por uma árvore monstro que irá lhe contar algumas histórias estranhas e mudar o olhar do menino sobre o mundo. Embora tenha sido ignorado no Oscar (sabemos que existe um grande preconceito com fantasia entre os votantes da Academia), o filme recebeu 12 indicações ao Goya, sendo premiado em nove (incluindo diretor, mas perdeu a de melhor filme). O filme merece maior atenção do público e traz uma história interessante conduzida de uma forma extremamente emocional (e com uma das últimas cenas mais belas dos últimos tempos). 

Mesmo indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro pouca gente se interessou por esta comédia dramática sueca - e acredito que poucos irão lembrar dele na lista de melhores do ano.  O diretor Hannes Homme leva para as telas o romance de Fredrick Backman sobre o homem mal humorado que deseja cometer suicídio e sempre algo atrapalha. Aos poucos conhecemos um pouco mais de sua história e entendemos os motivos que o fazem perceber como o mundo é cada vez mais sem graça... até que uma série de acontecimentos transformam sua rotina em algo mais interessante. Um Homem Chamado Ove traz uma história simples defendida por ótimos atores e um roteiro amarradinho que cria um painel interessante sobre a relação da velha Europa com os dias atuais e seus imigrantes, homossexuais e pessoas com deficiência. Quem diria que a história sobre um vizinho rabugento seria uma ótima alegoria sobre o respeito às diferenças (e sem ser chato). 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

FILMESD+: Blade Runner + Blade Runner 2049

Hauer e Ford: os replicantes como espelho da humanidade

Quando Ridley Scott lançou Blade Runner em 1982 ele não fez o sucesso esperado, sendo considerado até um fracasso de bilheteria. Adaptado da obra de Phillip K. Dick (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? lançado em 1968), Scott construiu um verdadeiro mundo banhado em atmosfera noir onde o caçador de replicantes Rick Deckard (Harrison Ford em atuação antológica) perseguia um grupo de andróides super desenvolvidos que fugiram do trabalho intergaláctico e voltaram para a Terra. Considerados rebeldes, o grupo liderado por Roy (Rutger Hauer) se recusava a passar toda a vida produtiva fazendo os serviços que a humanidade não queria fazer. Assim, nos deparamos com o drama existencial dos replicantes,  que com todo o potencial da inteligência artificial pereceriam em apenas quatro anos de existência. A partir dali, Blade Runner demonstrar que a criatura feita pelo homem enfrentava o mesmo dilema de caminhar sempre ao encontro da morte. Por isso mesmo, Roy e seus seguidores queriam estar face a face com o criador (do modelo Nexus 6 ) na esperança de que ele pudesse impedir o fim tão próximo, ou talvez, até lhes oferecer a imortalidade. Este aspecto tão humano da história é o que torna o filme interessante até hoje e alimenta diversas discussões filosóficas acaloradas. Para além da perseguição aos replicantes, Deckard se deparava com a atração que sentia por Rachel (Sean Young no papel de sua vida), que acredita ser humana, na verdade a sobrinha do criador dos replicantes, Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel). Rachel faz com que Deckard comece a questionar seu trabalho e perceba que os replicantes podem ter evoluído para além do que foram projetados. Scott faz algumas das cenas mais belas da ficção científica e cria personagens memoráveis, incluindo os replicantes mais inesquecíveis do cinema. Como esquecer a Pris de Daryl Hannah ou Zhora de Joanna Cassidy? Sem falar em Rachel, Roy e até mesmo Deckard que rendeu inúmeros boatos de que ele mesmo poderia ser um replicante. Scott sempre manteve vivo o desejo de fazer uma continuação, sobretudo depois que o filme se tornou cult com a ajuda das locadoras (nessas horas que cai a ficha que sou do século passado... e até a expressão cair a ficha não faz mais sentido algum), no entanto, não havia gostado de nenhum roteiro que tenha caído em suas mãos. Portanto, devemos agradecer à parceria do roteirista do filme original Hampton Fancher e Michael Green (que foi parceiro de Scott na repaginada de Alien) que escreveram a sequência mais aguardada das últimas três décadas - que ganha vida pelas lentes do canadense Dennis Villeneuve.

Joi e K: amor tecnológico de verdade?

O melhor de tudo desta sequência é a sensação de que sua história sempre esteve presente nas entrelinhas do primeiro filme, parecendo ter sido uma sequência planejada desde sempre. Aqui acompanhamos a história de K (Ryan Gosling), um Blade Runner que atua trinta anos após o desaparecimento de Deckard no primeiro filme. Ele é o responsável por investigar o paradeiro do veterano caçador e de Rachel, mas acaba descobrindo um segredo que pode mudar totalmente os rumos na produção de replicantes - que já estão ainda mais aprimorados e ainda existem outras tecnologias que garantem até um romance na vida de K, desta vez ainda mais fadado ao fracasso que o de Deckard e Rachel. Agora quem comanda a indústria de replicantes é o estanho  Niander Wallace (Jared Leto), que comprou a Tyrell Corporation e inovou ainda mais a tecnologia que encontrou. No entanto, ele quer algo ainda mais ambicioso, algo que acredita já ter sido desenvolvido por Tyrrell anteriormente, mas que se perdeu num desastre digital que apagou todos os dados eletrônicos em escala mundial. Dennis Villeneuve amplia todo o universo do filme de 1982 numa verdadeira homenagem à obra de Phillip K. Dick (reparou que o nome do protagonista vem do nome do meio do autor?) e de Scott. A amplia com tecnologias que tem nomes de sentimentos, hologramas ultra realistas e a sensação de que a humanidade parece mais perdida do que antes. Cria duas novas musas para este universo, Joi (Ana de Armas) e  Luv (Sylvia Hoecks), mostra que Dave Bautista pode ser mais do que mais um fortão engraçado em uma participação pungente e complexifica o trabalho de K ao máximo. Neste ponto, Ryan Gosling merece todos os elogios, já que torna seu personagem realmente comovente. Há de ressaltar ainda toda a estética do filme e parabenizar a coragem de Villeneuve em fazer um filme que contrasta ousadamente longos silêncios com sons ameaçadores, chegando a investir numa trilha que remete à clássica sonoridade composta por Vangelis, mas que se funde com os barulhos de naves, motores e explosões. A cena dos hologramas silenciosos no Cassino, com sonoridades fragmentadas alcança um efeito magnífico no encontro de Deckard com K. É brilhante ao evocar um mundo que não existe mais. É Nostálgico! Arrebatador! Mas ainda assim  nos damos conta de que o filme ainda tem mais a oferecer e Villeneuve provoca arrepios ao criar um (quase) reencontro dos mais lindos da história do cinema - para destruí-lo logo em seguida. Talvez neste universo não exista mais espaço para o amor, independente de quem esteja envolvido... ma, pensando bem, a última cena é exatamente o oposto disso! Blade Runner 2049 é a sequência que esperamos por mais de trinta anos e amplia ainda mais a crise de identidade de pessoas que não estão certas se são humanas e replicantes que não sabem se são humanos. Criadores e criaturas se misturam mais uma vez na telona e o resultado é a melhor ficção científica do ano - e com louvor!

Sean Young: guardando o maior segredo da Tyrell Corporation. 

Blade Runner (EUA - Hong Kong - Reino Unido /1982) de Ridley Scott com Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Daryl Hannah, Joanna Cassidy, Joe Turkell e Edward James Olmos. ☻☻☻

Blade Runner - 2049 (EUA - Reino Unido - Canadá / 2017) de Dennis Villeneuve com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoecks, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Edward James Olmos e Jared Leto. ☻☻☻☻☻

domingo, 10 de setembro de 2017

FILMED+: Lady Macbeth

Florence: silenciosamente amoral.

Que delícia que é assistir a um filme do qual não se sabe muita coisa e ser surpreendido por ele! Li algumas resenhas gringas sobre o filme quando foi lançado nos Estados Unidos e não sabia que ele já estava em cartaz por aqui quando o encontrei por acaso. É bom destacar que o filme não conta a história da personagem Shakesperiana que se casou com Macbeth na peça maldita do bardo inglês, esta Lady Macbeth é outra (mas já que esta versão é transposta para a Inglaterra, você pode fantasiar que ela é a própria antes de conhecer o futuro marido), o filme é baseado na obra Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk do russo Nikolai Leskov, que já virou até ópera ao contar a história de uma jovem insatisfeita com o casamento e que se torna uma assassina amoral. No século XIX a jovem Katherine (Florence Pugh) foi vendida para ser esposa de um senhor de terras (Paul Hilton), No início é visível como Katherine ainda tem esperanças de que poderá ser feliz, até que na noite de núpcias o marido a manda tirar a roupa e ao vê-la nua vira para o canto e dorme. Dali em diante a rotina da personagem a coloca na posição mais baixa na hierarquia da casa, sendo alvo do desprezo do esposo, dos desmandos do sogro (Christopher Fairbanks) e até das retaliações da empregada (a ótima Naomi Ackie) - que a cada ajuste de espartilho, pentear de cabelo ou primeiro contato do fia aproveita para torturar um pouco a nova moradora da casa. O resultado disso é o tédio, regado com doses de ódio sufocado e uma vontade constante de dormir - o que só aumenta a alegria quando Katherine se vê sem os homens da casa por alguns dias e poder dormir o quanto quiser. As coisas mudam drasticamente quando ela conhece Sebastian (Cosmo Jarvis), um cavalariço da propriedade, que logo será seu amante e colocará sua reputação a perder - mas são nos momentos em que se encontra mais acuada que Katherine terá suas atitudes mais macabras. Se no início podemos até entender suas atitudes devido a opressão que sofria, logo ela descamba para a covardia mais fria e amoral. O cineasta William Oldroyd marca sua estreia com uma narrativa que avança de forma delicadamente cruel e meticulosamente envolvente. Destoa da maioria dos filmes de época por não ter trilha sonora onipresente, cenários exuberantes, fazendo um retrato cru sem truques ou invencionices. Suas opções valorizam o texto e as atuações, sobretudo a performance da desconhecida Florence Pugh que está magnífica no papel principal. Florence transita por cada emoção da personagem com uma destreza impressionante para uma novata de vinte e um anos (e este é apenas o seu segundo filme), especialmente no final onde cai por terra toda a "pressão do romantismo" que existe sobre a atroz protagonista. A obra de Leskov foi concebida para denunciar a sociedade de sua época, o tratamento das mulheres, a semi-escravidão e a ignorância, sorte que Oldroyd mantem tudo isso ao transpor a história para a Inglaterra - e o resultado da transposição parece uma mistura de O Morro dos Ventos Uivantes com visual de Jane Austen numa versão cinematográfica de Alfred Hitchcock. Lady Macbeth é um filme impressionante.

Lady Macbeth (Inglaterra/2016) de William Oldroyd com Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Naomi Ackie,  Paul Hilton, Christopher Fairbanks e Goulda Rosheuvel. ☻☻☻

sábado, 26 de agosto de 2017

FILMED+: O Experimento de Milgram

Peter Sarsgaard: sensacional olhar sobre Stanley Milgram e sua obra. 

Lançado em 2015, desprezado por nossos distribuidores e atualmente disponível no Netflix, O Experimento de Milgram resgata o polêmico trabalho do psicólogo social norte-americano Stanley Milgram. O experimento foi realizado no ano de 1961 na Universidade de Yale e consistia em dois voluntários em papéis específicos em lados diferentes de uma sala. De um lado o chamado "professor" citava palavras para o outro, chamado aluno. Se o aluno errasse a resposta da atividade, ele tomava choques elétricos que aumentavam gradativamente conforme os erros aconteciam. A experiência era supervisionada por um instrutor e, mesmo com o "aluno" reclamando dos choques, o "professor" permanecia obedecendo as regras. O filme revela aos poucos os meandros desta experiência ao espectador, se por um lado poderia se pensar que a ideia era o aumento da concentração para evitar os choques elétricos, por outro, os choques elétricos eram inexistentes e as reclamações do aluno eram apenas gravações. A pesquisa de Milgram levantou debates controversos sobre a ética na pesquisa científica, já que era considerado que o voluntário no papel do"professor" deveria saber que o que estava sendo testado não era a memória do "aluno" (que na verdade era outro cientista interpretando o papel de voluntário), mas a obediência à autoridade, mesmo diante do desconfortável visível na execução da tarefa. Milgram veio de uma família judaica e seus estudos tentavam compreender a origem do sentimento que faz pessoas aderirem à processos destrutivos por obediência, mesmo que signifique passar por cima de padrões de moralidade - o que pode motivar  a torturar e executar pessoas sob o argumento de que apenas executavam ordens. Obviamente que o holocausto e a figura de Adolf Eichman, assim como o conceito de banalidade do mal construída pela filósofa Hannah Harendt motivaram Eichman em sua pesquisa e aparecem no roteiro, o que explicíta o que a obra de Milgram possui de controversa e contundente. O melhor de tudo é que o diretor Michael Almereyda (conhecido por sua versão moderninha de Hamlet/2000 com Ethan Hawke) não se contenta com todo este conteúdo e constrói um filme de narrativa bastante instigante, tornando o próprio Milgram num personagem curioso. Vivido de forma inspirada por Peter Sarsgaard, o personagem conversa com o expectador olhando a câmera, narrando o filme de corpo presente (tendo consciência inclusive do que o futuro lhe reserva), esta opção não apenas o aproxima do expectador mas também injeta um humor inusitado no personagem. Além disso, o roteiro apresenta outras ideias do pesquisador (e sim, você conhece várias...), sua vida familiar com a esposa e os filhos e até a repercussão de seus estudos na vida acadêmica sempre com uma estética interessante (cenários projetados deliciosamente fakes, o elefante andando pelo corredor, o menino de rosto verde e outros detalhes que deixam o espectador com a sensação de que ele mesmo está sendo testado pelo personagem). Com roteiro bem amarrado, bons atores e narrativa inspirada, O Experimento de Milgram lembra como seus estudos ainda falam mais sobre a humanidade do que gostaríamos. 

O Experimento de Milgram (Experimenter/EUA-2015) de Michael Almereyda com Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Anthony Edwards, Jim Gaffigan, John Palladino, Harley Ware, Harley Ware, Anton Yelchin, John Leguizamo e Taryn Manning. ☻☻☻☻

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Na Tela: Em Ritmo de Fuga

Ansel, Jamie, Elza e Jon: personagens em fina sintonia. 

Antes de se tornar um filme cult de Nicolas Winding Refn, o livro Drive de James Sallis vivia sendo repaginado para ganhar as telas. Ao cair nas mãos do diretor dinamarquês (e do astro Ryan Gosling) o filme ganhou fãs ao contar a história de um piloto de fuga contratado por bandidos que se metia em encrencas variadas enquanto se apaixonava por uma garota frágil. Em Ritmo de Fuga poderia  ser uma das versões do livro de Sallis para a telona, ou então, seja mesmo uma versão mais palatável do violento filme de Refn escrita pelo diretor e roteirista Edgar Wright. No entanto, isso não diminui em nada a produção de Edgar Wright que ficou famoso por misturar humor e alguma aventura em seus filmes anteriores (incluindo Todo Mundo Quase Morto/2004 e Scott Pilgrim/2010). Aqui, o diretor conta a história de Baby (Ansel Elgort), um rapaz com carinha de anjo que é um dos motoristas mais habilidosos que já apareceram numa tela. Pena que ele tem a alma vendida para um bandidão (Kevin Spacey fazendo o tipo de  personagem que mais gosta) que o faz dirigir para bandidos pela cidade, assim Baby recebe um pequeno percentual dos roubos enquanto paga a dívida com o chefão. Porém, Baby quer outro rumo para a vida. Sempre com um fone de ouvido e cada vez mais apaixonado por uma garçonete adorável (Lily James) ele não vê a hora de quitar sua dívida, se livrar do submundo e viver em outro lugar. O mais interessante do filme é como Wright brinca com as expectativas da plateia, sempre trazendo surpresas quando menos esperamos. Curiosamente o filme parece que é feito em marchas, na primeira ele apresenta os personagens, na segunda ele meio que repete a primeira com alguns detalhes  a mais. Depois ele engata a ré e diminui o ritmo, deixando uma impressão quase irregular de seu roteiro, mas depois quando engata a terceira, a quarta e a quinta ele demonstra que seu filme tem muito mais a oferecer do que se espera dele (e que para chegar até ali precisava passar por todas as outras marchas). Em Ritmo de Fuga se beneficia de muitos elementos, seja da forma como as músicas ditam o ritmo das cenas de ação (perceba como até os tiros adquirem a cadência da trilha sonora), ou os diálogos espertos - como a advertência de que você não pode deixar Buddy (Jon Hann) de rosto vermelho ou Griff (Joe Bernthal) dizendo que se não o vermos mais é porque ele morreu e... - e mistura humor irônico, ação e romance. Além de Wright firmar o promissor Ansel Elgort como astro e criar algumas das cenas de ação mais empolgantes do ano, o filme ainda se beneficia da esperteza de revelar seus personagens aos poucos, seja o próprio protagonista (de personalidade bastante peculiar) ou os seus ilustres coadjuvantes (e todos estão bem, parecendo uma fauna de tipos que não fariam feio nos textos mais urbanos de Tarantino). Não se engane com o início do filme, Em Ritmo de Fuga é mais do que um filme de carros correndo, tiros e explosões, ele possui mais a oferecer e não me surpreenderia se a bilheteria robusta empolgasse os produtores a fazer uma sequência.  Ou duas... três...

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver/EUA-Reino Unido -2017) de Edgar Wright com Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Hamm, Jamie Foxx, Elza González, CJ Jones e Sky Ferreira. 

terça-feira, 4 de julho de 2017

FILMED+: Okja

Okja e Mika: a menina e o porquinho do século XXI. 

Okja, antes mesmo de estrear, se envolveu em polêmicas infinitas, não por conta de seus méritos, mas por ter sido um dos filmes escolhidos para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano. Muitos criticaram por conta do filme ser produzido para a Netflix e não para sala de cinema. Nesse contexto a Netflix pareceu o vilão da história por não demonstrar interesse de lançar o filme em salas de exibição - mas se bem me lembro a empresa teve sérios problemas com o lançamento de Beasts of no Nation/2015 no cinemas (e a política de boa vizinhança não ajudou em nada, já que viu seu filme ser esnobado no Oscar de ver a colossal atuação de Idris Elba sequer ser indicada). Por outro lado, o diretor Joon Ho-Bong viu seu excelente Expresso do Amanhã/2014 ser visto por meia dúzia de gatos pingados ao ser lançado nos EUA e ser totalmente desprezado nas premiações. Agora você imagina um diretor coreano cheio de boas ideias com um projeto original e ambicioso embaixo do braço (e que os produtores achavam diferente demais para bancar e satisfazer o público "carente" de continuações, reboots e remakes) e Netflix topando a empreitada, sendo alvo de críticas no maior festival de cinema do mundo. Foi isso mesmo? Obviamente que Okja é um filmão que visto no cinema impressiona ainda mais, pena que se viu no meio de uma guerra onde o que menos importava eram as qualidades do filme e dos envolvidos. Qualidades Okja tem de sobra! Ótimas atuações, efeitos visuais bem cuidados, roteiro bem amarradinho com doses de fantasia e crítica à indústria alimentícia. Não é pouca coisa para um mundo que se acostumou a pensar em filmes de entretenimento como sinônimo de explosões, mortes e tiros. Okja é o superporco de estimação de uma menina coreana (Seo-Hyun Ahn) cujo avô recebeu há dez anos a missão de cuidar do superporco pra participar de um concurso que escolheria o mais bem cuidado de todos. Por trás dessa premissa aparentemente inofensiva se esconde alguns segredos, já que até então ninguém sabia da existência da espécie chilena de porcos robustos capazes de produzir carne saborosa a baixo custo. Isso mesmo, Ojka, assim como os outros de sua espécie foram descobertos pelo conglomerado Mirando para ajudar o mundo a sanar a fome mundial... ou pelo menos é isso que a campanha de marketing agressiva propaga. Capitaneada pela misteriosa Lucy Mirando (Tilda Swinton), que vive sob o fantasma do pai sombrio e da irmã gêmea sinistra (a Nancy Mirando, também vivida por Tilda), a empresa tenta mascarar os interesses empresariais, a experiência com transgênicos e os maus tratos aos animais na criação e processo de massacre produção. Joon Ho-Bong já demonstrava habilidade na direção de uma narrativa impactante e repleta de analogias em seu filme anterior, mas aqui ele acrescenta doses fartas de fofura! Ainda que Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal (que interpreta um grotesco apresentador abobalhado) estejam ótimos em cena (remetendo aos exageros dos personagens de animes) é a relação entre a menina e seu querido superporco que se torna o laço mais forte do filme com a plateia (e talvez por isso o roteiro trate os demais personagens como acessórios). Okja é um filme para todas as idades, diverte, comove e faz pensar enquanto nos deslumbra com um visual muito bem cuidado. 

Okja (Coreia do Sul/EUA - 2017) de Joon Ho-Bong com Tilda Swinton, Seo-Hyun Ahn, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Lilly Collins e Steven Yeun. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Na Tela: Um Homem Chamado Ove

Ove e suas vizinhas: humor negro e sensível. 

Ove é um senhor um tanto rabugento que vive sozinho e que acaba de sair do emprego. Ele também não consegue se adaptar muito bem a um mundo onde as pessoas passam mais tempo no celular do que conversando umas com as outras. Ele também não gosta dos aplicativos e apetrechos que facilitem a vida. Ove preferia o mundo como ele era antigamente, de preferência quando a esposa era viva e lhe fazia companhia todos os dias. Devido a essa sensação de desajuste, Ove decidiu dar fim à própria vida. Só que por sorte (ou seria azar?) sempre que tenta, algo o impede - e o deixa ainda mais impaciente. Baseado no livro de Frederick Backman (que vendeu mais de 700 mil livros ao redor do mundo), Um Homem Chamado Ove poderia ser apenas um feel good movie, se não optasse por ser uma comédia de humor negro - que é uma delícia de assistir! Especialmente pela forma como o diretor Hannes Holm conduz sua narrativa entre o presente e as lembranças do protagonista. Ove (o veterano Rolf Lasgaard), enquanto tenta se matar, conta para a plateia como foi sua vida até ali, desde a infância. Do relacionamento com o pai, do primeiro encontro com o amor de sua vida, a professora Sonja (Ida Engvoll), os desentendimentos com o ex-melhor amigo... sempre pontuando o que havia de bom e de trágico em sua vida. Aos poucos, percebemos as várias nuances do personagem, descobrimos os motivos de seu mal humor e, ao mesmo tempo, acompanhamos como ele reencontra gosto pela vida - especialmente quando começa a se aproximar dos novos vizinhos, o casal Patrick (Tobias Almborg) e Parvaneh (Bahar Pars), além das duas filhas pequenas (Nelly Jamarani e Zozan Akgun) que adotam Ove como avô. A narrativa que investe no que há de cômico no cotidiano do personagem (que envolve ainda uma simpática gatinha da vizinhança), aliada à fotografia caprichada ajudam a equilibrar o filme perante o que a trajetória do personagem possui de mais sombrio (afinal, é quase um inventário sobre formas de se suicidar).  É interessante notar como o filme se ampara na rotina repetitiva do personagem para demonstrar as mudanças que ele atravessa (sem perder a chance de fazer graça quando ele tem um infarto nos braços de Parvaneh). Conforme os personagens se aproximam de Ove, sua vida ganha novos sentidos - além de servir de analogia para as transições que o próprio país atravessou. Não deixa de ser interessante que, ainda que seja nostálgico e um tanto saudosista (especialmente com uma marca de carro específica), a história de Ove é atravessada por imigrantes, homossexuais e pessoas com deficiência num retrato bastante natural da diversidade na Suécia. Indicado aos Oscars de Melhor Filme Estrangeiro e melhor maquiagem, Um Homem Chamado Ove pode ser uma bela surpresa para quem não conhece a inventividade do cinema sueco. 

Um Homem Chamado Ove (En man som heter Ove/Suécia-2015) de Hannes Holm com Holf Lasgaard, Bahar Pars, Ida Engvoll, Tobias Almborg e Nelly Jamarani. ☻☻☻☻

sábado, 1 de abril de 2017

FILMED+: Mulheres do Século XX

Billy, Elle, Annete, Greta e Lucas: uma família diferente

Confesso que tenho um estranho vínculo com os filmes de Mike Mills, não que eles tenham alguma relação direta com minhas vivências, mas a forma como o diretor de 51 anos conta suas histórias me envolve plenamente.  Ao ver seus filmes eu sempre me surpreendo e, quando termina, eu imagino que eu teria contado a história daquele mesmo jeito. Embora sua carreira conte vários com curtas, vídeos e documentários, o diretor assinou recentemente seu terceiro longa de ficção (os anteriores foram Impulsividade/2005 e Toda Forma de Amor/2011). Em Mulheres do Século XX ele consolida sua forma particular de filmar e ainda conseguiu sua primeira indicação ao Oscar (na categoria de melhor roteiro original), embora o longa merecesse aparecer em, pelo menos, mais umas três categorias. Ambientado em 1979, Mills conta a história do adolescente Jamie (Lucas Jade Zumann) e sua mãe Dorothea (Annete Bening, indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia). A vida de Dorothea teve lá sua dose de pioneirismo, mas depois do divórcio coube a ela trabalhar e cuidar do filho sozinha. Para ajudar nas despesas da casa ela aluga alguns quartos, assim, convive constantemente com seus inquilinos, William (Billy Crudup) e Abbie (Greta Gerwig). Ele ajuda a fazer os reparos na casa e seu jeito rústico se equilibra com um certo tempero zen que instiga a moderninha Abbie - que estudou arte e desde a primeira cena já deixa claro que tem problemas de saúde. O grupo de personagens ainda conta com Julie (Elle Fanning), filha de uma terapeuta, melhor amiga de Jamie e que não está muito interessada amorosamente pelo mocinho. Aos poucos nos damos conta de que o quinteto forma uma família incomum, onde William não está disposto a ser o homem da casa, Abbie parece um irmã mais velha (que apresenta Jamie à nata do discurso feminista e à música punk) e Julie alterna no papel de irmã, filha e primeiro amor do protagonista (enquanto enxerga tudo com um distanciamento que parece inspirado por sua mãe e os grupos de terapia grupal que frequenta desde pequena). Mills constrói o filme misturando a história de cada personagem com um pouco do tempo em que viveram - e um certo desajuste de cada um deles. Todos estão tentando se situar na vida de alguma forma, seja a mãe experiente ou o menino de quinze anos que aos poucos constrói sua própria identidade. O mais interessante do filme é como a narrativa é feita pelos recursos empregados por Mills. Da narração em off que se alterna entre os personagens (destaque para a de Dorothea analisando aquele tempo com o olhar de quem viveu até várias décadas depois) passando pelos breves históricos da vida de cada personagem, além do uso de fotografias, vídeos antigos e trilha sonora esperta. Mills homenageia aqui o momento em que as mulheres já deixavam de ser apenas mães e donas de casa para se tornar senhoras de próprio destino - mas sem perder de vista os homens que presenciaram essa transformação e tiveram que se reinventar também. Mills não se preocupa em criar uma narrativa de início, meio e fim, construir vilões ou momentos avassaladores, prefere deixar a história se desenvolver quase que por conta própria, dando pinceladas gradativas na definição de cada personagem e sendo sincero justamente pela forma como aprofunda os laços que se estabelecem. Oscilando entre a leveza e a densidade, há de se destacar que é a primeira vez que o diretor tem o foco em personagens femininas e o resultado ainda agradará poucos - o filme teve sérios problemas de distribuição nos EUA e só estreou em grande circuito em meados de janeiro deste ano -, mas ainda assim é uma beleza de assistir. Já aguardo o próximo filme, meu amigo Mills!

Mulheres do Século XX (20th Century Women/EUA-2016) de Mike Mills com Annete Benning, Lucas Jade Zuman, Greta Gerwig, Elle Fanning e Billy Crudup. ☻☻☻☻