domingo, 31 de julho de 2011

CATÁLOGO: Reflexos da Inocência

Craig: de volta às origens.

Antes de se tornar o primeiro James Bond louro da história, Daniel Craig construiu uma sólida carreira nos palcos londrinos e em produções independentes do cinema inglês. Já é famosa a anedota em que ao receber o convite para ser o novo 007 ligou perguntou para Spielberg (que acabara de o dirigir em Munique/) e perguntou se após encarnar o agente ainda teria chance de ser convidado para fazer algum filme spielberguiano. Embora Spielberg dissesse que sim, Craig sabia que ao encarar uma grande produção sua carreira nunca mais seria a mesma. Entre os dois filmes da série Bond, o loiro arranjou tempo para voltar aos velhos tempos e fazer um filme independente, modesto e que mostrasse aos seus novos fãs que era um ator que sabia mais do que distribuir tiros e pancadas. Embora o sucesso de Reflexos da Inocência tenha sido mínimo, o filme serviu de refresco para o ator esquecer a pressão de carregar um blockbuster nas costas. A trama é desenvolvida sem grandes surpresas, às vezes abusa dos clichês e do melodrama, mas é um filme a que se assiste sem esforço e com alguma simpatia. Craig é Joe Scott, um ator hollywoodiano em decadência e em meio à tríade sexo, álcool e drogas parece ter esquecido o que um ator tem que fazer. Fora isso, os efeitos do tempo começam a comprometer a sua estampa de galã. Essa parte é uma clichezada só, mas Craig faz tudo direitinho, especialmente depois que descobre que seu melhor amigo de infância faleceu e sua vida parece ganhar um enorme ponto de interrogação em que se pergunta em que momento as coisas saíram do eixo. Então o filme segue pelo convencional caminho do flashback e o verdadeiro protagonista aparece, o jovem ator Harry Eden (que mesmo visivelmente tingido deve se parecer um bocado com o astro quando era jovem). Em suas desventuras juvenis ao lado do amigo Boots (Max Deacon), seu flerte com uma mulher casada e com uma adolescente (que curte cultura pop tanto quanto ele) é onde o filme se concentra com maior vigor. As coisas caminham de forma previsível (tirando uma luta com Boots em que eu pensava que Joe levaria a melhor) até que uma tragédia muda a vida de Joe Scott, ao ponto dele abandonar aquele vilarejo à beira da praia e procurar novos rumos. Craig volta na última parte para amarrar algumas pontas que ainda ficaram pendentes no destino de seu personagem - sendo auxiliado mais uma vez pelo bom elenco de apoio que conta com Claire Forlani e Olivia Williams (que interpreta sua mãe em ambos os tempos) e embora não seja memorável (e me lembre um bocado uma dezena de outros filmes) é um filme bem feitinho, sem ousadias (menos com algumas cenas de sexo desavergonhadas aqui e ali), com trilha sonora nostálgica (que abusa de Roxy Music) e que com certeza teria uma carreira ainda mais modesta sem o apoio do agente 007 - que alcança mais uma atuação convincente, quando poderia se acomodar e ser apenas mais um brucutu de filmes de ação.

Reflexos da Inocência (Flashbacks of a fool/Reino Unido-2008) de Baillie Walsh com Daniel Craig, Harry Eden, Olivia Williams, Mark Strong e Claire Forlani. ☻☻

CATÁLOGO: Houve Uma Vez Dois Verões


Arteche e Mainieri: Gravidez toda quarta-feira.

Acabadas as férias de meio de ano me lembrei que que não fiz nenhuma menção aos filmes de férias, ou coisa parecida. Hibernei mais do que qualquer coisa nesta semana. Está certo que como dá para perceber o filme em questão não trata de férias de inverno, mas de verão, mas vale a pena rever o primeiro longa metragem de Jorge Furtado, que trouxe fôlego para um gênero ainda pouco explorado no cinema brasileiro: o filme para adolescentes. Não falo dessas bobagens caça-níqueis bancada por canais de televisão e com aquela cara de especial de fim de ano, mas um filme mesmo, com cara de cinema. Estes ainda somam poucos em nossa produção anual. Quando Jorge  Furtado lançou seu primeiro longa ele já era mais do que reconhecido como um dos melhores cineastas de nosso país, afinal seus curta-metragens são multi-premiados, consagrados e mais completos do que muitos longas que estreiam toda semana. Quando Dois Verões estreou eu ainda estava na faculdade e lembro que muitos amigos falaram dele por muito tempo e, apesar de não haver nada de revolucionário em sua trama, existe aquela guinada esperta que Furtado já demonstrou em seus longas seguintes (O Homem que Copiava/ e o hilariante Saneamento Básico/). Trata-se de um filme de férias e para adolescentes, espera-se aqueles romances temporários e intensos que chegam ao fim junto à volta para casa - ou então aquela tentativa de manter o romance em meio às dificuldades da distância e as distrações cotidianas. A diferença de ter Furtado na escrita do destino de seus personagens é que, como na maioria dos filmes de tipo, uma parte do casal é cheio de boas intenções e quer manter o vínculo - mesmo que a outra parte não demonstre ser muito merecedora. A trama é mais ou menos assim: Chico (André Arteche) vai para uma praia no litoral gaúcho com seu amigo Juca (Pedro Furtado), os dois tem que lidar com os hormônios à flor da pele e o sucesso modesto com as garotas. É quando Chico conhece Roza (Ana Maria Mainieri) e tem uma noite de amor na praia. Depois ela some e quando reaparece anuncia uma gravidez indesejada - e a postura escorregadia da garota só ressalta que tudo não passa de um golpe. Mas será mesmo? Ao falar sobre o amor, a graça mesmo está nas ironias do roteiro, a começar pelo nome da garota, Roza - assim mesmo, com Z, era de se suspeitar que seus sentimentos sejam tão verdadeiros como uma flor de plástico (e o seu hábito de "engravidar toda quarta-feira"). O mais interessante é quando todos os sentimentos nobres parecem perdidos de vez, Furtado enfilera piadas espertas e mantem a narrativa num tom de comédia romântica de forma surpreendente e legítima. Há de se elogiar os então novatos André Arteche e Ana Maria Mainieri, que conseguem explorar aspectos ambíguos de seus personagens com a maior leveza e que trazem para além da superfície a sensação de estarmos diante de um casal que simplesmente cresce diante do que sentem um pelo outro. Deastaco ainda a trilha sonora que conta com bandas regionais e até uma ótima versão de Cássia Eller para "Nasci para Chorar". Pode não ser uma obra-prima ou revolucionar o cinema nacional, mas mostra que é possível fazer filmes para adolescentes subvertendo as expectativas dos espectadores, resultando num filme de férias dos mais agradáveis.

Houve uma Vez Dois Verões (Brasil/2002) de Jorge Furtado, com André Arteche, Ana Maria Mainieri e Pedro Furtado. ☻☻☻

segunda-feira, 25 de julho de 2011

DVD: Os Famosos e os Duendes da Morte


Tambourine e Diego: Nem famosos e nem duendes.

Aproveitando o clima fúnebre da morte de Amy Winehouse lembrei deste filme brasileiro que aborda  a morte  de forma inteligente e nada melodramática. Lembro que quando começou a passar nos festivais começaram a ficar com o pé atrás por imaginarem que fazia uma apologia do suicídio - o que é uma grande bobagem. Da mesma forma, é simplista demais considerar que o longa de estreia de Esmir Filho é somente sobre esse tema. O filme merece ser conferido pela atmosfera que o diretor consegue criar utilizando poucos recursos. É louvável como consegue dar vida à uma cidade ao ponto dela parecer um personagem. Talvez o filme devesse levar o nome dela (que nem aparece, mas poderia ser algo como A Cidade na Névoa ou A Cidade da Ponte, que não são nomes muito bons mas são infinitamente melhores do que este nome horroroso que recebeu - e deve ter afugentado o público em massa). Apesar de abordar temáticas comuns aos filmes voltados para adolescentes (uso de maconha, a perda da virgindade, a solidão e a internet) o filme deve conquistar mais os adultos, especialmente os que são fãs das obras de David Lynch. Do mestre o diretor utiliza os longos silêncios (quase não há diálogos no filme, e quando existem são menos reveladores do que todo o resto) e o tom fantasmagórico de uma cidade interiorana nos cafundós do Rio Grande do Sul. É difícil falar de um filme que fica marcado principalmente pelas sensações que proporciona, mas eu vou tentar. O protagonista é um rapaz de dezesseis anos (Henrique Sarré) que só tem nome na internet, onde utiliza o nome de Mr. Tamborurine Man para desabafar sobre suas angústias e, embora a proposta do filme seja realista, o rapaz vive entre dos mundos: o real (onde se preocupa com os estudos, um show de Bob Dylan, mora com a mãe e tem um amigo com quem passa o tempo) e um virtual (onde tem como musa uma tal de Jingle Jungle que posta vídeos no youtube que ressalta suas tendências suicidas). No decorrer da trama vamos juntando peças soltas que apontam para a ligação de Jingle com um homem misterioso chamado Julian que vive rondando o protagonista e seu amigo Diego (que nutre ódio por Julian enquanto tenta seguir uma vida normal de adolescente). A relação entre esses personagens aos poucos vai ganhando formas inusitadas durante a sessão quando descobrimos que Jingle e Julian se jogaram da ponte da cidade, mas só ela morreu. Cheio de climas o filme aborda a insatisfação de Tambourine com  a vida provinciana em que está inserido - onde a internet é a fonte de contato com o mundo e o anúncio de uma vida diferente da que se anuncia todos os dias (e ainda mescla passado, presente e futuro de acordo com a intenção do usuário). Esmir merece aplausos por conta de não ter medo de aprofundar seu personagem principal com forte apelo surreal, lhe proporcionando ambiguidades onde a vida e a morte se atraem, se cruzam e repelem - assim como sua sexualidade. Esta vida de insatisfação é muito bem ilustrada pela ponte que divide a cidade - e que representa uma ameaça para o rapaz, principalmente pelos suicídios que se relacionam à ela. O filme capricha nas fotografia, nas locações, nos enquadramentos e na melancolia de seus personagens que se encontram na busca de caminhos próprios. Muita gente vai achar esquisita a cena na estação hidrelétrica onde três personagens se encontram cruzando os universos em que o filme transita e compromete o momento mais feliz do filme (a aguardade festa julina da cidade). Sem utilizar muitas palavras para expressar suas ideias, o filme promete muitas (re)leituras e marca pontos positivos na carreira de seu diretor (Esmir tem 28 anos e já havia estourado na internet com o curta Tapa na Pantera) que tem como base o livro homônimo de Ismael Canepelle (que no filme vive o misterioso Julian). Talvez o título se refira aos personagens que são famosos na cidade por conta da internet e os duendes da morte se deva à sensação quase mística de que ela está sempre presente quando se atravessa as ruas vazias daquela cidade de arrepiar (e não só por causa do frio). Trata-se de um filme brasileiro interessante sobre temáticas jovens, assim como Houve Uma Vez dois Verões (2002) e As Melhores Coisas do Mundo (2010), entretanto é o mais experimental e sombrio (principalmente por sua inspiração Lynchiana).

Os Famosos e os Duendes da Morte (Brasil/França-2009) de Esmir Filho com Henrique Larré, Ismael Caneppele, Tuane Eggers, Samuel Reginatto e Áurea Baptista. ☻☻☻☻

domingo, 24 de julho de 2011

COMBO: Suicidal Tendencies

Não se admirem se daqui a alguns anos lançarem um  filme sobre a vida de Amy Winehouse, afinal o cinema adora cinebiografias de artistas transtornados em seus conflitos entre o talento e a autodestruição. Enquanto o filme de Amy ainda é só uma hipótese, não custa lembrar de alguns talentos que perdemos precocemente por conta da mistura de dores emocionais mal curadas, álcool e drogas. Se seus heróis morreram de overdose, ou estiverem bem perto disso se prepare para o combo mais deprimente de todos os tempos... 

5 Stoned (2005) Há quem critique o filme de Stephen Wooley por puxar muita brasa para a sardinha de Brian Jones (vivido por Leo Gregory), o ex-membro fundador dos Rolling Stones. Músico versátil, o cara se tornou famoso ao ser guitarrista dos Rolling Stones, mas seu envolvimento cada vez maior com as drogas lhe custaram a carreira junto ao bando de Mick Jagger, sendo expulso da banda em 1969.  Artista, estrela pop, ícone da moda, mulherengo e pioneiro da contracultura, Jones foi tudo isto e muito mais durante os sete curtos anos da sua ascensão para o estrelado e  queda. O fato de ter sido encontrado morto na piscina de sua casa um mês depois de ter saído da banda gerou um número impressionante de teorias conspiratórias. As justificativas do seu óbito (aos 27 anos) vão desde afogamento, overdose e até assassinato (o filme acredita nesta versão) - o que para muita gente é mais que compreensível pelo cara não ser dos mais agradáveis.   

4 Os Últimos Dias (2005) Gus Van Sant não tentou nem disfarçar que um dos seus filmes mais experimentais (ou arrastadamente pretensiosos) era baseado nos últimos dias da vida de Kurt Cobain (1967-1994), o vocalista do Nirvana. Pouca coisa acontece na tela, afinal se trata de um retiro de um astro de rock para lidar com seus próprios fantasmas. Não esperem polêmicas sobre o relacionamento de Kurt com Courtney Love (para isso existe aquele documentário famigerado Kurt & Courtney/1998), a intenção de Van Sant era fazer um poema fúnebre para o rei do grunge. Dificilmente o filme teria o impacto que possui sem a presença marcante do (nem sempre inspirado) Michael Pitt. Entre drogas, cigarros e álcool, sua atuação transborda melancolia - e isso é o que mais se sobressai.   

3 O Ocaso de uma Estrela (1971) Este drama biográfico dirigido por Sidney J. Furie fez grande sucesso em 1971 ao contar a ascenção e queda da venerada cantora de blues Billie Holliday. O filme acompanha a vida da estrela desde sua infâmcia pobre, a experiência como garota de programa, o início de sua carreira musical e os primeiros show pelos Estados Unidos. Poderia ser um conto de fadas se não fosse o tumultuado casamento da estrela e seu envolvimento cada vez maior com as drogas - que a levaria à morte no ano de 1959. O roteiro é baseado na autobiografia escrita pela própria Holiday (Lady Sings the Blues), o filme anda esquecido (parece não ter saído em DVD por aqui) e merece ser redescoberto, especialmente pela arrepiante atuação de Diana Ross no papel principal. A madrinha de Michael Jackson tem uma estreia cinematográfica arrasadora que lhe valeu alguns prêmios e uma indicação ao Oscar.
 
2 Control (2007) Ian Curtis era mais do que o vocalista da banda inglesa Joy Division, era o ícone de uma geração. Pena que sua carreira foi tão breve ao ponto de ter lançado somente dois álbuns. Parte da trajetória de Curtis aparece no ótimo A Festa Nunca Termina (2002) de Michael Winterbotton, mas sua história é tão interessante que ganhou um filme próprio e estiloso pelas mãos do diretor Anton Corbjin rodado em preto e branco, o filme tem o roteiro baseado no livro de sua viúva, Déborah (chamado Touching from a Distance) e mostra como Curtis (o bom Sam Reily) construiu um novo gênero musical (o pós-punk) em meio às suas crises epiléticas, depressões e casos extra-conjugais. Para além da relação sexo, drogas e rock'n roll a pressão sobre sua carreira (que durou de 1977 até 1980) e o divórcio são julgados como fatores determinantes para seu suicídio aos 23 anos, pouco antes de sua primeira turnê pelos EUA.

1 A Rosa (1979) Bette Midler é uma das  minhas atrizes favoritas, pena que tem se dedicado a filmes que subestimam o seu poder de fogo diante de uma câmera. Quem se habituou a ver Midler em participações especiais em comédias bobocas, vai se surpreender com sua atuação neste filme de Mark Rydell. Em A Rosa ela interpreta uma rockstar inspirada em Janis Joplin (1943-1970), o filme segue a última turnê dessa intensa cantora chamada The Rose, que extrovertida no palco se mostra solitária e insegura, sendo explorada por seu empresário ganancioso. Rose acredita que só sua relação com o motorista de limusine chamado Houston  pode salvá-la da auto-destruição, mas sua relação com as drogas se mostra mais perigosa do que pensava. É devastadora a cena em que Rose realiza seu último show (e rende a Bette Midler uma das atuações mais fascinantes do cinema).

4EVER: Amy Winehouse

14/09/1973 - 23/07/2011

"We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black"

sábado, 23 de julho de 2011

DVD: Minha Versão do Amor

  
Giamatti e Pike: não é um filme de Julia Roberts.

Paul Giamatti é um dos atores mais versáteis de Hollywood, embora tenha no currículo algumas comédias idiotas, o cara gosta mesmo é de papéis sérios em produções independentes. Ele aprendeu este caminho modesto, mas de grande potencial com O Anti-Herói Americano (2003), voltou a ele em Sideways (2004) e ano passado mostrou que ali é mesmo seu território ano passado em Minha Versão do Amor. Se todos os três lhe renderam indicações ao Globo de Ouro de ator de comédia/musical, somente com este último ele levou o prêmio para casa. Giamatti interpreta, com sua habilidade habitual, o difícil produtor Barney Panofsky, um homem que não prima pela simpatia, mas que o ator interpreta com tanto gosto que é impossível não sentir algum carinho por ele. A vida de Barney não é fácil e sua vida matrimonial demonstra bem isso. Da primeira vez casou com uma riponga pouco confiável (a canastrona Rachelle Lefevre), recuperado do trauma investe no relacionamento com uma dondoca rica e chata (a sumida Minnie Driver) e, em plena festa de seu segundo casamento encontra o amor da sua vida, a adorável locutora Miriam (a ótima Rosamund Pike que concorreu ao Globo de Ouro de atriz). A partir dali, Barney quer demonstrar que é uma pessoa melhor, mesmo que para isso tenha que investir num inevitável caso de adultério – o que vai totalmente contra os princípios de sua amada. Talvez por essas desventuras amorosas, a distribuidora tupiniquim tenha forçado a barra mais uma vez (com esse título digno de Julia Roberts). O nome em inglês Barney’s version (A Versão de Barney) seria mais justa ao que vemos na tela - uma vez que por mais idiotas que sejam as ações de Barney, nós conseguimos compreendê-las por serem mostradas segundo o ponto de vista do personagem (tanto que na primeira vez que vemos Miriam, automaticamente nos apaixonamos por ela, assim como Panofsky). Além disso, a versão de Barney ainda abrange uma subtrama: a suspeita de que Barney tenha assassinado um amigo com problemas com drogas (Scott Speedman, que me surpreendeu pela forma como se despe de sua estampa de galã e vive um sujeito auto-destrutivo). Enquanto casa com Miriam e tem filhos, Barney tenta superar seus vícios (a bebida, os charutos, as traições) enquanto Giamatti lhe dá contornos cada vez mais tragicômicos. O diretor Richard J. Lewis faz um filme que se ampara principalmente em seus atores, já que a mordacidade do livro homônimo de Mordecai Richler perde muita substância por deixar de fora a narrativa em primeira pessoa (sem ela o filme pende cada vez mais para o trágico, perdendo muito de seu humor negro e ritmo). É visível como Lewis admira o trabalho de seus atores e os deixa confortáveis. Esse cuidado carinhoso com a escolha do elenco fica ainda mais evidente quando reconhecemos três diretores indies em pequenas participações (Denis Arcand como um mâitre, Atom Egoyan e David Cronenberg como colegas de trabalho de Bareny), além de Dustin Hoffman numa participação afetiva muito eficiente como pai de Barney (não por acaso, o filho de Giamatti é interpretado pelo filho de Dustin, Jake Hoffman). Mas entre erros e acertos, é a atuação de Giamatti que traz equilíbrio para o filme (o filme foi um fiasco nos EUA, o que lhe custou a merecida indicação ao Oscar) ao lado da doçura firme de Rosamund Pike.

Minha Versão do Amor (Barney's Version/Canadá - Itália / 2010) de Richard J. Lewis com Paul Giamatti, Rosamund Pike, Dustin Hoffman, Scott Speedman, Anna Hopkins, Jake Hoffman e Minnie Driver. ☻☻☻ 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

FILMED+: Lavoura Arcaica


Spoladore: estreia calada, mas não muda...

Com a chuva de longas metragens assinados por diretores vindos da TV em nossos cinemas, dia desses me dei conta de que o filme Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho faz dez anos e merece ser revisto. O diretor realizou um dos trabalhos mais notáveis do cinema brasileiro, sendo ousado,  inovador e nada televisivo. Desde que dirigia novelas na Globo (Renascer/1993, Rei do Gado/1996) era mais do que visível que o diretor trazia para a telinha qualidades da sétima arte.  Na verdade, Lavoura trouxe Carvalho de volta às suas origens, já que foi no cinema que construiu sua primeira obra-prima (o curta A Espera/1986) e devido às qualidades sublimes deste trabalho foi convidado a injetar sangue novo na teledramaturgia (o que causou grande polêmica entre os diretores tradicionais). Admiro a coragem de, neste retorno, Carvalho tenha escolhido um dos mais belos livros de nossa literatura - embora seja um dos mais densos também, um jorro de memórias de um protagonista autocentrado que abandona os sua família de imigrantes libaneses, assim como os seus valores. A narrativa é tão forte e vertiginosa que depois dele o escritor Raduan Nassar largou a literatura (foi viver numa fazenda após, somente, três livros publicados).  O filme Lavoura Arcaica busca reproduzir o jorro narrativo em forma de imagens e consegue realizar, magistralmente, um filme irretocável visualmente. Visualmente inebriante, o filme causa algum desconforto a partir do momento em que temos contato com a escrita forte e literata na boca de seus atores, mas a intensidade das atuações, os enquadramentos, o jogo de luzes e sombras nos absorvem de tal forma que é impossível ficar indiferente. Não é todo mundo que se satisfaz a este estilo narrativo (me lembra muito o cinema de Terrence Mallick com as vozes alternadas em off e cenas que remetem às memórias do protagonista) mas é uma experiência inesquecível. Carvalho realizou um trabalho de preparação intenso para o filme, preparou seu elenco por três meses numa fazenda afastada da civilização. A produção se alongou por três anos e juntou um elenco excepcional com dois atores de grande apelo perante o público (Raul Cortez e Selton Mello, que perdeu vinte quilos para o papel) e quatro (então) menos conhecidos em papéis estratégicos (Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Caio Blat). O filme cria o avesso da parábola do filho pródigo, André (Selton, excepcional no papel que fincou seus pés no cinema) saiu de casa deixando para trás todo o rigor de seu pai (Cortez, em mais um grande momento), o afeto (que é visto como uma anomalia na casa) da mãe (Juliana Carneiro, estupenda) e seus irmãos. Para buscá-lo a família envia o primogênito Pedro (Leonardo Medeiros), que ao encontrá-lo se depara com as angústias que levaram ao distanciamento da família. André se mostra confuso, entre a vulnerabiliade e a ira, jorrando sobre Pedro todos os seus dilemas e contradições sobre o discurso de seu pai e seus sentimentos - especialmente pela irmã Ana (a espetacular estreia de Simone Spoladore).  Isso é suficiente para que o diretor nos mergulhe em belas imagens pontuadas por diálogos áridos, numa espécie de paradoxo estilístico. Mesmo que alguns considerem o filme pretensioso em demasia (talvez merecesse perder uns vinte minutos), há de se ressaltar que o filme desperta as mesmas sensações que o livro, com a vantagem de ampliar os sentimentos dos personagens secundários (já que o livro se concentrava especialmente em André). Apesar de Selton ter mais tempo em cena, todos tem seus momentos (Spoladore não tem uma fala, mas nem precisava, suas cenas de dança são as mais impressionantes que já vi, Cortez mostra sua eficiência habitual num diálogo com Selton que é de arrepiar, Denise Del Vecchio tem uma participação pequena e memorável, Medeiros, Blat e Juliana tem atuações precisas, contidas e inesquecíveis em todas as cenas). Além deste acréscimo o filme ainda me fez despertar para uma leitura que ainda não havia feito sobre o livro, o diálogo do pai com André remetem diretamente à filosofia pós-moderna ao expor as contradições do poder e das referências expostas naquele lar. Um lar que ao final dá a sensação de ruir perante as revelações que  André desejava esconder. Carvalho faz uma adaptação muito pessoal do livro (tão pessoal que até assume a narração, como o André adulto, durante quase todo o filme), apesar de precisar de um ajuste aqui e outro ali, o longa é uma das obras mais impressionantes do cinema brasileiro.
LAVAOURA ARCAICA (Brasil/2011) de Luiz Fernando Carvalho com Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Caio Blat. ☻☻☻☻☻

quinta-feira, 21 de julho de 2011

DVD: Inverno da Alma


Uma das desvantagens do Oscar ter dez indicados na categoria de melhor filme é que não dou conta de ver todos os indicados na categoria. No ano passado dois me escaparam, um foi O Vencedor, o outro foi Inverno da Alma. Nada contra os filmes, mas por divergências de agenda. Inverno da Alma foi sensação em Sundance e de quebra levou Jennifer Lawrence ao estrelato (e aquele vermelho usado no Oscar ajudou ainda mais). Lawrence já havia demonstrado que era uma atriz eficiente quando foi premiada em Veneza por sua atuação em Vidas que se Cruzam (2009) e aqui prova que pode carregar um filme nas costas com louvor. Acrescenta-se a isso o fato de que não estamos falando de um filme qualquer, trata-se de um filme lento, silencioso, intimista e triste. Muito triste. Lawrence foi merecidamente indicada ao Oscar e neste ano conseguiu destaque em X-Men: Primeira Classe como Mística, mas este filme da diretora Debra Granik será, por um bom tempo, o seu cartão de apresentação. O filme pode não ser perfeito, mas tem habilidade ao contar a triste história de Ree Dolly (Lawrence), uma jovem de 17 anos que precisa cuidar da casa, de seus dois irmãos e da mãe.  Como tragédia pouca é bobagem, o pai é procurado pela polícia por violar a condicional - a qual a fiança foi paga com a casa em que mora sua família antes de sumir do mapa. O filme se concentra na jornada de Ree em busca de seu pai, para poder permanecer com a casa se conseguir provar que o pai está morto. Ninguém sabe o paradeiro dele, se ele morreu ou quem o matou. Granik não faz concessões para contar sua história, não utiliza trilha sonora (somente se alguém resolver tocar uma música country, o que ocorre várias vezes), o ritmo é lento e a maioria dos personagens é desagradável ao extremo - piora ainda mais essa situação quando nos damos conta que todos possuem laços de parentesco. A angústia que contamina a plateia vem do fato de que existe um impasse: ou estes parentes ajudam Ree ou mantem oculto um crime que precisam esconder. O fato de cada pessoa que a jovem encontra colaborar com alguma peça sobre o paradeiro do pai pode cansar um pouco. Curioso notar é que apesar de toda ambientação interiorana o filme bebe diretamente nas tramas noir, o que lhe confere alguma originalidade, especialmente pelo arrasador encontro de Ree com seu pai. A fotografia gélida (assinada pelo brasileiro) emoldura bem as atuações contidas – e ao mesmo tempo assustadoras - do elenco. É um filme bem feito em sua simplicidade e que conseguiu três indicações ao Oscar: filme, atriz, ator coadjuvante (o bom John Hawkes como o tio que ajuda Ree em sua jornada) e roteiro adaptado - mas que está longe de ser a obra-prima que anunciaram. Me arrisco a dizer que sem Jennifer Lawrence a coisa seria um fiasco, a garota tem uma atuação memorável que alterna força e fragilidade em meio à brutalidade que a cerca (sem falar que exibe um visual diferente da diva que surgiu no tapete vermelho da Academia). 

Lawrence e Hawkes: parente é serpente...

Inverno da Alma (Winter's Bone/EUA-2010) de Debra Granik com Jennifer Lawrence, John Hawkes e Lauren Sweetser.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

DVD: Maré de Azar


Affleck e Bateman: piadas sem ritmo.

Guardo com boas lembranças a estreia de Mike Judge como cineasta fora do universo de Beavis & Butt Head em Como enlouquecer seu chefe (1999). depois ele lançou outro filme que ganhou alguns prêmios (o pouco encontrado Idiocracy/2006). O cara voltou ao mundo do trabalho em Maré de Azar, onde explora personagens mais do que caricatos num filme que apesar de boas piadas segue num ritmo linear que prejudica o filme. O filme conta alguns dias na vida de um empresário dono de uma empresa que produz extratos (o sempre simpático Jason Bateman).  O coitado enfrenta uma série de problemas, tem que lidar com um gerente que não recorda o nome dos funcionários (J.K. Simmons), uma senhora cheia de preconceitos que implica com todos os funcionários, um palerma que não consegue dar ré na empilhadeira (uma das tiradas mais simples e engraçadas do filmes) e para completar um homem que perde um testículo num acidente de trabalho (que parece criado pelo MacGyver)! É após esse acidente que o filme parece conduzir sua trama. A expectativa de um processo acaba atraindo a atenção da picareta Cindy (Mila Kunis, antes de Cisne Negro), que orquestra um verdadeiro golpe na empresa. Não bastasse seduzir o castrado ela ainda começa a trabalhar na empresa e dar em cima do chefe. Este se sente mal por todo desejo adúltero que a bela empregada desperta e aceita os conselhos do amigo ripongo (um  Ben Affleck bem diferente do usual): contratar um garoto de programa (T.J.Miller) para seduzir sua esposa mal humorada. Apesar de todas as alfinetadas no mundo do trabalho, no casamento, no mundo mágico da picaretagem e outras bobagens, o filme não possui o ritmo necessário para segurar o longa - deixando sempre a impressão que as cenas não estão muito ligadas entre si. Judge continua tendo fina ironia e tiradas espertas, mas aqui ele construiu seu filme mais irregular. Isso não significa que o filme seja ruim, mas diante das peças que coloca em seu roteiro o resultado poderia ser ainda mais provocador. É para se divertir e lidar com o estranhamento de cenas inusitadas - como a de Gene Simmons (do Kiss) personificando um dos adovogados mais bizonhos da história do cinema.     

Maré de Azar (Extract/2009) de Mike Judge com Jason Bateman, Mila Kunis, Ben Affleck e J.K. Simons.

terça-feira, 19 de julho de 2011

DVD: Te amarei para sempre

McAdams & Bana: Romance com ficção científica.

É público e notório que Brad Pitt tem uma queda por personagens esquisitos, acho que quando lhe caiu nas mãos o roteiro de Te Amarei para Sempre, baseado no romance de Audrey Niffenegger, seus olhos devem ter brilhado para ser o protagonista. Como estava envolvido com Benjamin Button de David Fincher, resolveu deixar o papel para outro ator e ficou restrito à produção. Tal e qual o personagem que nasce velho e rejuvenesce, o personagem masculino deste filme também sofre de uma anomalia genética fantástica: consegue viajar no tempo. Chama atenção ainda, que assim como Benjamin Button, o filme investe pesado no tom de romance, existe um amor que nasce na infância e  preocupações com a saúde dos futuros filhos que podem herdar a anomalia do pai.  Não deixa de ser interessante esta injeção de romance numa premissa que parece de ficção científica e o diretor Robert Schwentke consegue dar fluência à trama, ainda que nunca aprofunde os conflitos do que tem em mãos. Por mais que Rachel McAdams e Eric Bana  se esforcem é nítida  sensação de que estão tirando leite de pedra em personagens tão passivos. Henry desde o inicio parece acostumado ao seu destino de ficar vagando entre tempos e espaços completamente peladão (pelo menos até roubar alguma roupinha), tirando algum desconforto sua sina está mais do que aceita. Quanto à sua amada a coisa não é muito diferente, ao conhecê-lo demonstra claramente que conhece a situação do seu amado (afinal, ele a visita desde que era uma menina). A rejeição e estranhamento fica restrita aos coadjuvantes, que depois que passam a conviver com ele nem ligam mais para isso. Os problemas começam a aparecer depois que se casam, onde ela tem que se acostumar com a ausência dele e com as dificuldades em engravidar, não bastasse isso existe a suspeita de uma morte prematura para atrapalhar. É um filme a que se assiste sem esforço, mas que carecia de um pouco mais de ênfase em sua narrativa, talvez com medo de afugentar o público apreciador de romances tudo foi simplificado ao ponto de quase se tornar o insosso. Sabemos que Henry e Claire ( e nisso as atuação do casal protagonista ajuda muito, até mesmo Bana que costuma ser claudicante em suas atuações está confortável), mas da forma como lidam com a situação inusitada, suas vidas parecem incrivelmente monótonas. Trata-se de um filminho água com açúcar bem feitinho, mas que poderia render uma obra bem mais vigorosa, especialmente se explorasse com mais garra o acidente que vitima Henry, o encontro com a mãe morta ou até o quase ‘adultério’ de Claire - cenas interessantes que poderiam fazer a diferença no tom sem sobressaltos da narrativa.

Te amarei para sempre (Time traveler's wife/EUA-2010) de Robert Schwentke com Eric Bana, Rachel McAdams e Ron Livingston.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

DVD: Lembranças


Pattinson e Emilie: apenas dois pombinhos tristes.

Antes que as zilhões de fãs histéricas de Robert Pattinson encomendem a minha morte eu devo dizer que EU REALMENTE TENTEI! Usei todos os truques do cinéfilo experiente que quer se isentar de opiniões alheias na hora de expressar a sua sobre determinada obra. Esperei passar meses do lançamento deste filme nos cinemas, esperei meses depois que foi lançado em DVD e esperei a temporada em que Pattinson fica afastado da mídia (para depois voltar para todas as capas de revistas adolescentes por mais um capítulo da interminavel xaropada vampiresca de Crespúsculo). Contou ainda na coragem de ver o filme a assinatura do diretor Allan Coulter que realizou alguns dos melhores capítulos do seriado Família Soprano e foi capaz de tirar uma atuação que prestasse de Ben Affleck em Hollywoodland (2002). Pena que nada disso pesa muito quando digo que Lembranças é um dos filmes mais desalmados que já vi. Não, não digo isso por Pattinson, Coulter ou pelo roteiro, o filme é de uma falta de energia surpreendente. Devo admitir que Pattinson também não ajuda, ele até parece encontrar o tom do personagem no início, com aquela pinta de rapaz bem nascido e que pode ser rebelde contra as injustiças 'do sistema' - afinal a mesada do papai está sempre ali para ajudar (ou alguém não se perguntou como ele consegue se manter, já que é um estudante de sociologia?). Entre uma encrenca aqui e outra ali ele tenta superar o suicídio do irmão (ele tem até uma tatuagem no peito em homenagem ao suicída, o que me parece muito mais uma tortura auto-realizada do que qualquer outra coisa) e bancar o irmão bacana com sua irmã (a precoce Ruby Jerins, a melhor em cena). Para completar seus dramas pessoais, o relacionamento com o pai (Pierce Brosnan, canastra como sempre) não é dos melhores e ele ainda arranja uma namorada problemática, (Emilie de Ravin, da série Lost). O maior problema de ... é que sua mãe morreu num assalto no metrô e seu pai (Chris Cooper, que ganhou o Oscar quando mudou a carranca de sempre em Adaptação/2002) foi o policial que quebrou a cara de seu pretendente. Com os personagens tão estereotipados você já sabe o que vai acontecer, briguinhas aqui, desentendimentos ali, conflitos com os pais acolá até que o filme chega ao seu desfecho. Pena que Pattinson e Emilie sejam um limitados demais para dar ânimo a um fiapo de história desses. Muitas vezes ela parece uma chata e ele um zumbi. Em suas atuações a vida parece se arrastar até quando estão juntos - diante de uma atmosfera dessas até eu tinha me suicidado!! Jovens, bonitos, apaixonados e de situação financeira estável nunca fica muito claro que vácuo é esse que domina os dois. Fosse um filme mexicano o filme poderia faturar vários prêmios pela forma como transbordariam suas emoções, mas a forma contida com que o filme é feito o resultado é um sonífero. Coulter faz o que pode para fazer de conta que seus personagens estão se desenvolvendo - caprichou na trilha sonora triste, na fotografia melancólica e no ritmo arrastado. Tudo exala tristeza, melancolia, pezar... pena que esqueceram de desenvolver a história se amparando no final 'surpresa' que não consegue comover. Desculpem fãs de Pattinson, o cara deveria aprender que construir um personagem não é vestir um estilo e arrastá-lo até a cena final. Dar-lhe cores, camadas, emoções ajuda bastante e a sua história não deve ficar só atrelada ao fato de ter uma garota para dar umas beijocas e reclamar da vida: um personagem é um sujeito de sua história, sem história não há lembrança que permaneça.    

Lembranças (Remember me/EUA-2010) de Allan Coulter com Robert Pattinson, Emilie de Ravin, Chris Cooper, Lena Olin e Pierce Brosnan. 

DVD: Demônio

M. Night Shyamalan terá que ralar um bocado para se livrar das péssimas recordações que seus filmes recentes trazem. O cara não acerta uma desde o abobado A Dama na Água (2006) e não há previsão de melhoria depois das framboesas de ouro conquistadas por O último mestre do ar (2010). Se existe alguma esperança para seus fãs (se é que ainda sobrou algum) ela está depositada na série de filmes que carregam seu nome no argumento, batizada de Night Chronicles (um trocadilho com seu nome de fantasia que pode soar como Crônicas da Noite), o primeiro deles chegou neste ano e dividiu opiniões. Mas devo confessar que é a melhor coisa em que Shyamalan esteve envolvido desde A Vila (2004). Demônio tem uma premissa simples e feita com uma economia que só trabalha ao seu favor. Um grupo de cinco desconhecidos acaba preso no elevador de um prédio comercial, são eles uma senhora desconfiada, um segurança do prédio, uma jovem refinada, um cara com jeito de pilantra e um homem caladão. Todo o estresse que cresce entre os personagens poderia ser justificado pelo nervosismo de estar dentro daquele cubículo de metal e sem perspectiva de saída, mas há quem acredite que isso é o início de uma jornada orquestrada pelo malígno. Um dos seguranças teme o mau agouro de um homem ter se suicidado naquele prédio pela manhã, assim como suspeita que entre os frames da câmera de segurança tenha visto o esboço do coisa ruim. Claro que ninguém acredita nele, até que começa a acontecer assassinatos misteriosos quando a luz apaga dentro do elevador. Para confundir o espectador, todo mundo tem um podre no passado que aponta na direção de um ou outro provável assassino, uma mistura de claustrofobia, preconceito e traumas de guerra serve para apostarmos em quem pode estar possuído. Enquanto mistérios são revelados e alguns segredos vão surgindo, o espectador fica ansioso para saber o que de fato está acontecendo - não só com aqueles sujeitos, como no prédio como um todo que mostra-se cada vez mais assombrado. Se existe um problema em Demônio é o final "surpresa" que parece preparado pelo produtor Shyamalan, que joga todas as pistas do filme no ralo apelando para o melodrama. Lembro de muitos professores de redação e roteiro ressaltando como um final arrebatador é capaz de conquistar a plateia, mas não há nada de arrebatador ao final deste aqui. O que temos é um remendo de filme trash com uma produção que se pretende sofisticada e capaz de resgatar parte do crédito perdido por Shyamalan. Embora seus realizadores tenham traquejo e criatividade, precisam perceber que a 'surpresa' do final tem muito mais graça quando é coerente com o resto do filme - algo que Shyamalan demonstrou tão bem em O Sexto Sentido (1999). Mesmo com o final criticável, o filme ainda vale a visita pela aura de suspense que consegue construir em seus oitenta minutos de duração - e ainda que tudo fosse mal, o pôster já merecia uma nota especial.

No elevador: 'o diabo são os outros'! 

Demônio (Devil/EUA-2011) de  John Erick Dowdle com Chris Messina, Logan Marshall-Green, Jenny O’Hara, Jacob Vargas, Matt Craven, Bojana Novakovic, Bokeem Woodbine, Geoffrey Arend e Caroline Dhavernas. ☻☻

DVD: Pandorum


Pandorum: mais um pseudo-clone de Alien.  

Pandorum é um filme de ficção científica que bebe diretamente na fonte de Alien (1979) de Ridley Scott. Não existe novidade nenhuma nessa afirmação, já que se você viu o trailer ou a estética do filme em qualquer foto sabe que ele bebe diretamente naquele visual industrial decadente que ficou célebre em quase todos os filmes de sci-fi que flerta com o terror. O pior de tudo é que o filme começa bem com Bower (Ben Foster) acordando desorientado numa nave espacial sem saber onde está, para onde vai e quanto tempo se passou. Para lhe fazer companhia existe apenas o comandante Payton (Dennis Quaid) que acorda igualmente confuso e perturbado. Nesse momento inicial, quando todas as peças estão soltas, o suspense cresce sem esforço, o visual dark também ajuda bastante em sua simplicidade. O problema é quando Bower se embrenha pela nave espacial em busca de reativar o reator de energia e o filme inventa tanta história que se perde na espiral de detalhes. Antes da primeira hora a coisa toda já desanda com o ataque de criaturas estranhas que perseguem os poucos sobreviventes presentes ali. Acho que não estraga dizer que o “drama” do filme se sustentaria no fato de que estão numa nave de colonização - já que a Terra possui recursos escassos e milhares de habitantes para transportar para um planeta com ecossistema parecido com o nosso. O filme perde muito do seu apelo quando se torna um filme de monstros onde os atores desperdiçam seus talentos “lutando pela sobrevivência”. Também cansa um bocado que Bower sempre encontra tipos bizarros,  um monte de pistas falsas (que complicam ainda mais as peças do quebra cabeça que se via no início) e as coisas só tendem a piorar quando Payton se depara com um dos atores aspirantes a galã mais suspeitos de todos os tempos (Cam Gigandet, que anda fazendo um filme atrás do outros: Detenção, Burlesque, A Mentira...) que vive falando sobre a síndrome de Pandorum – que pode ter levado a missão ao fracasso. entre tantos monstros o desenho dos personagens se torna cada vez mais frágil (o único que se sai melhor é Ben Foster, que já provou ser um bom ator, mas que eu adoraria ver num papel leve para variar. Sempre encarnando tipos perturbados e nervosinhos, ele tem que tomar cuidado para não ficar marcado somente a um tipo). Para a ala masculina as cenas de violência e sanguinolência devem empolgar, a presença de Antje Traue como  mocinha marrenta também deve ajudar (apesar dela passar a impressão que sofria de torcicolo durante a filmagem), mas para quem esperava uma ficção científica interessante, o filme fica devendo - principalmente por atirar para todos os lados deixando um monte de pontas soltas ao fim da sessão, mesmo para um filme B, isso é muito comprometedor.
Pandorum (EUA-2009) de Christian Alvart com Ben Foster, Dennis Quaid e Antje Traue. ☻☻

quinta-feira, 14 de julho de 2011

CATÁLOGO: Half Nelson


Epps e Gosling: tentando ser fortes em Half Nelson

Half Nelson é o tipo de filme que tem a estética favorita de seu astro Ryan Gosling. A narrativa é cruamente realista, o roteiro não tem frescuras, a fotografia não é caprichada, os enquadramentos beiram o documental e - para completar - lhe reserva um papel complexo. Por produções assim que o ator é reconhecido como um dos melhores em atividade hoje - e Half Nelson colaborou muito para isso. O filme lhe valeu alguns prêmios (incluindo o Independent Spirit de melhor ator) e sua primeira (e única, até agora) indicação ao Oscar. A história tinha tudo para ser intragável, mas o diretor Ryan Fleck consegue fazer um filme que se não prima pela originalidade de seu formato, acerta na sinceridade das atuações e de seu texto (inspirado em seu curta metragem Gowanus, Brooklyn de 2004). Nos minutos iniciais imaginamos que iremos acompanhar mais um desses filmes edificantes onde um professor é responsável por servir de exemplo para seus alunos, mas esta ideia vai por água abaixo quando uma aluna o surpreende usando crack no banheiro. Um dos maiores acertos do filme é não dividir seus personagens entre mocinhos e bandidos, sabiamente limitando-se a mostrá-los enquanto seres humanos com suas expectativas e fraquezas. Dan Dunne (Gosling) é um professor de uma escola no Brooklyn, além de conhecer a realidade dos alunos ele utiliza metáforas para trabalhar assuntos complexos como a luta pelos direitos civis e dialética. Dunne poderia ser brilhante se não utilizasse todo tipo de drogas para esquecer os problemas. O filme não aponta para uma causa específica para que utilize as substâncias, mas aponta o olhar crítico do personagem para a sociedade (reforçada pelos comentários dos alunos sobre fatos históricos inusitados) e o efeito do fim de um relacionamento amoroso em sua trajetória. A outra ponta da narrativa fica por conta da aluna craque em basquete, Drey (Shareeka Epps, também premiada com o Independent Spirit) que estreita seus laços com o professor conforme percebe as fraquezas dele. Além disso Drey reflete sobre o irmão preso por tráfico de drogas e o assédio de um traficante (Anthony Mackie). Apesar de Epps ser uma atriz eficiente, o filme vale mesmo é por Ryan, que consegue expressar cada degrau da caminhada de seu personagem rumo a auto-destruição. Suas ideias, antes claras nas explicações em sala de aula, tornam-se cada vez mais confusas, seus gestos se tornam mais elétricos e seu tom de voz mais agressivo. A trama caminha entre a decepção de um e o outro perante as situações que presenciam - e chega ao fim de forma inteligente no encontro das duas pontas (ambas ressentidas pelo fato de comprometer a vida de alguém pelo qual se importam).   O filme teve um custo mínimo para os padrões americanos (700 mil e rendeu mais de quatro milhões de bilheteria) e comprova que as ideias podem valer mais do que um orçamento de milhões.

Half Nelson (EUA-2006) de Gary Fleck, com Ryan Gosling, Shareeka Epps e Anthony Mackie. ☻☻☻

DVD: Waiting for Superman


Anthony: um dos alunos em busca de uma escola melhor.

Existem alguns documentários que deveriam ser verdadeiros objetos de estudo. Este é o caso deste Waiting for Superman, que não recebeu um título em português para evidenciar que apesar de todas as semelhanças (quando o assunto é escola pública e inclusão social) os EUA têm seus próprios problemas para resolver. Não sou antiamericano, mas não precisa ser um para saber que a campanha de marketing feita pela terra do Tio Sam para vender a imagem de mundo de oportunidades é forte e serve apenas para jogar suas mazelas sociais para debaixo do tapete. O filme explora os problemas das escolas públicas americanas a partir de cinco alunos que buscam vagas nas melhores instituições públicas de sua região. Não precisa esforço para se identificar e se comover com as falas das crianças sobre o sistema educacional de seu país. Aspectos como a 'dança dos limões' e um sistema que só favorece a defasagem dos alunos são facilmente relacionados com situações que acontecem no Brasil. As tentativas de fortalecer o sistema público de ensino também está presente, sendo alvo de críticas e embates com sindicatos que são mostrados mais preocupados com os bolsos do que com a aprendizagem dos alunos. Eu poderia escrever páginas e páginas de como o sistema é excludente e é construído para fazer permanecer o status quo, poderia dizer que a piedade que sentimos dos cinco eleitos pelo diretor Davis Guggenheim (oscarizado por Uma Verdade Inconveniente/2006) nos fazem torcer para medidas competitivas, que disfarçadas de sorte, apenas mascaram a crueldade de um mundo pautado por salvações individualistas. Sem contestar o sistema cruel (liberal?) em que está inserido, o filme ainda favorece reflexões sobre a forma que o sistema educacional direciona o destino dos alunos. O filme ainda acrescenta que o dinheiro gasto com presidiários daria para dar bolsas de estudo para todos os alunos da escola pública. Não, não estou dizendo que sou a favor de investimento de dinheiro estatal em instituições particulares, mas fica evidente que o problema não é o dinheiro público para financiar a educação, mas manter os 'fracassados do sistema' num espaço em que não atrapalhem a estrutura sócio-econômica vigente. Impossível conter nossa tristeza diante dos alunos que depositam suas esperanças numa escola que não os deixará fracassar. Sem demonizar a escola pública ou endeusar instituições privadas, o filme não aponta para saídas metodológicas ou soluções. O filme se preocupa principalmente em explorar que para um sistema que pretende educar, existem aspectos que acabam efetuando o efeito contrário. Não me iludo em pensar que o destino dos alunos mostrados no filme depende de uma bolinha de loteria a ser sorteada, mas sei que numa estrutura social excludente essa tal 'sorte' arredondada pode fazer muita diferença. Por abordar uma realidade que não aparece nos telejornais o filme foi indicado a vários prêmios, tendo recebido alguns - como em Sundance no ano passado.

Waiting for Superman (EUA-2010) de Davis Guggenheim. ☻☻☻☻

Combo: Os maiores nomes do cinema

Ao falar do filme que rendeu a Casey Affleck uma indicação ao Oscar de coadjuvante eu me dei conta de como existem filmes com nomes tão grandes que são capazes de nos fazer perder o fôlego só de lembrar o nome deles. Fico pensando no problema que foi quando entraram em cartaz nos cinemas e tinham que colocar aquele nome gigantesco nos letreiros. Eu lembrei de alguns e destes, esses foram os maiores da lista:

5 Para Wong Foo, obrigado por tudo! Julie Newmar (1995) Quem foi o gênio que resolveu colocar como título de um filme, um autógrafo? Pois é, Julie Newmar interpretava a Mulher Gato original no seriado do Batman. Além de ícone gay, Julie serviu de inspiração para um trio de impagáveis travestis cruzarem o interior estadounidense para reencontrá-la. Pena que o carro quebra no meio de uma cidadezinha cheia de preconceitos e as três causam um misto de estranhamento e sensação nos moradores locais. O filme estrelado pelo trio traveco improvável Patrick Swayze, Wesley Snipes e John Leguizamo nunca esteve tão engraçado numa tela! Para ficar melhor o filme só deveria ter sido lançado antes do sucesso australiano Priscilla, a Rainha do Deserto (1994). Mais escrachado e inofensivo o filme não podia ficar de fora desta lista por suas quilometragem de 37 letras!

4 Coisas que você pode dizer só de olhar para Ela (2000) O filme de Rodrigo Garcia quase empata com o filme anterior! Apesar do nome robusto o filme é um primor de sutileza ao explorar dramas femininos de uma  forma diferente. Rodrigo conta a história de várias mulheres, uma (Glenn Close) que cuida da mãe vítima de AVC, uma amante (Holly Hunter) que cogita o aborto, um casal de lésbicas (Calista Flockhart e Valeria Golino) que tenta lidar com uma doença terminal, uma mulher que se apaixona por um anão (Kathy Baker), uma professora cega (Cameron Diaz) e sua irmã policial (Amy Breneman). Nada é óbvio no caminhar da trama e dizem as más línguas que se o filme não tivesse um nome tão grande teria entrado em cartaz nos cinemas americanos e figurado em várias animações. Infelizmente, ninguém sai impune por ter um título com 10 palavras e 38 letras! Nem quando se é a promissora estreia do filho de Gabriel Garcia Marquez.

3 Coisas para fazer em Denver quando você está morto (1995) Chega a ser um desperdício usar dez palavras para nomear um filme que não tem muito a dizer. Denver foi um dos inúmeros filmes que pegaram carona no estilo de Pulp Fiction (1994) de Tarantino e distribuíram violência estilizada em suas exibições. O elenco ainda contava com nomes de grande apelo cult na década de 1990, como Andy Garcia, Gabrielle Anwar e Christopher Loyd. Pena que por mais admiradores que tivesses não conseguem fazer milagre neste filme de Gary Fleder. O filme conta a história de um gângster que prefere usar palavras do que armas (Garcia), mas que depois de um plano mal sucedido tem que sair às pressas da cidade de Denver para não ser morto. São quarenta e duas letras usadas para não dizer muita coisa.

2 O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007) Enquanto as pessoas declaravam guerra aos SPOILERs na internet, o diretor Andrew Dominick mostrou que tem coragem de sobra para contar todo seu filme em uma frase. O filme é isso aí e ninguém reclamou muito, já que conseguiu vagas em categorias do Oscar (destaque para Casey Affleck concorrendo como coadjuvante) e levou o Leão de Ouro de Melhor ator em Veneza pela boa atuação de Brad Pitt. James (Pitt) é o lendário pistoleiro dos EUA que agia com seu bando de parentes, seu maior erro vai ser deixar o calado Robert Ford (Affleck) entrar no bando. Pitt está preciso num papel que tem muito de sua aura célebre, mas a forma como trabalha as paranóias de seu personagem não merecia ser ofuscado pela atuação de Casey. Os dois estão ótimos neste filme que gastou 45 letras para contar seu próprio final.

1 Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar) (1972) A década de 1970 foi um momento espinhoso para Hollywood, estava na hora de explorar novas linguagens no cinema e procurar novos autores que fossem capaz de se comunicar com um público que não dava bola para a linguagem clássica do cinema de então. Nesta época Woody Allen bolou um de seus filmes mais divertidos e nonsense. Baseado no famoso livro de... onde relatava contos com curiosidades sexuais, Allen chutou o pau da barraca e desenvolveu os episódios deste longa que investe em homens apaixonados por ovelhas, espermatozóides em crise existencial, um programa de televisão onde as pessoas contam suas perversões, um bobo da corte adepto de afrodisíacos... não tem limites para este filme de título sério (construído com 14 palavras e 59 letras!!!) que mostra o quanto tabus sexuais podem ser abordados de forma divertida e inteligente.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

DVD: O Assassino em Mim

Casey: fingindo que está num filme bom.

Outro filme cheio de ambições que fracassou recentemente foi The Killer Inside Me. O mais curioso é que o filme me faz pensar em por que o diretor Michael Winterbotton quando tem um roteiro mais convencional nas mãos ele acaba fazendo uma obra descartável. Foi assim com O Preço da Coragem (2007) estrelado por Angelina Jolie e é o que acontece também neste filme que tem como maior trunfo a atuação de Casey Affleck. No entanto, existe um fator que acaba trabalhando contra o ator, já que ele interpreta mais uma vez um assassino  - como na sua atuação anterior em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007), onde interpreta o Ford do título que é xará do protagonista do filme de Winterbotton. O Ford daqui é um xerife que recebe a missão de afastar uma prostituta das redondezas (Jessica Alba, pior do que péssima), mas depois de tomar uns tabefes da profissional ele acaba libertando seu lado mais agressivo. A partir dali se tornam amantes, ele se tornando cada vez mais agressivo e ela aceitando suas maiores perversões. Essa parte do filme é tão apressada e mal contada que nem dá para sentir alguma coisa pelos dois. Winterbotton não perde tempo delineando personagens, suas ações ou situações em que se metem. O espectador nem entende muito bem o andar da trama até que ela parece tomar corpo num plano esquisito de Ford: matar sua amante para se vingar do policial que incriminou seu irmão. Nesse momento Winterbotton passa dos limites do bom senso ao mostrar o cara socando o rosto de Alba (que mostra de vez ser um caso perdido em termos de atuação). Casey Affleck se esforça para expor como funciona a mente perturbada de seus personagem, mas o roteiro não ajuda. Sempre que o filme parece que vai decolar (a melhor parte é o miolo onde arquiteta maneiras de despistar as investigações do primeiro crime que cometeu) ele volta para a ideia malajambrada do início. Só que desta vez com a participação de sua futura esposa Amy (Kate Hudson, mostrando, mais uma vez, que não faz feio quando recebe um papel que presta) e um mendigo que quer acertar as contas com o personagem. A impressão é que Wintebotton não faz a mínima ideia do que fazer com o filme, tenta ser irônico, cool, misterioso, engraçadinho (só ele deve ter achado graça nas músicas animadinhas nos momentos desagradáveis) e quando achamos que Affleck terá sua apoteótica cena final a coisa degringola de vez num desfecho ridículo onde uma de suas vítimas volta das catacumbas. Não bastasse isso tudo termina num fogaréu ao som deu outra música animadinha! Dizem que nem o elenco se empolgou quando viu o filme pronto e deixaram Winterbotton sozinho nos festivais para justificar sua opção por explorar ao máximo as chocantes cenas de violência contra as mulheres de seu longa. Baseado no livro homônimo de Jim Tomson - que explorava os meandros da mente doentia de seus personagem - O Assassino em Mim parece até um filme bom pela dedicação de Affleck e Hudson, mas não é. Trata-se de um exercício noir mal sucedido de um diretor que já produziu pérolas misturando linguagem documental e ficção como Bem Vindo a Sarajevo (1997) e  A Festa Nunca Termina (2002).

O Assassino em Mim (The Killer inside Me/EUA-2010) de Michael Winterbotton com Casey Affleck, Jessica Alba, Kate Hudson,  Simon Baker e Elias Koteas.

CATÁLOGO: Pecados Inocentes


Tragédia: Moore, a ótima. Redmayne, o desastre!

Fã que é fã aguenta de tudo, até mesmo os maiores tropeços de seu artista favorito. Sou admirador declarado de Julianne Moore e sou daqueles que até hoje não entendem como ela sempre perde o Oscar, mesmo sendo a melhor atriz do páreo! A ruiva já passou dos cinquenta anos e ainda é uma das artistas mais interessantes de Hollywood - e não faz a mínima questão de levar uma vida de diva, detesta badalações, entrevistas e andar produzida. Talvez tudo isso colabore para que muitos a achem antipática ao ponto de ser esnobada pela Academia em atuações como a que vemos em Minhas Mães e Meu Pai (2010). O melhor em ser fã de Julianne é que sabemos que mesmo em um desastroso, ela tem a capacidade, quase miraculosa, de ser a única coisa boa em cena. Este é o caso de Pecados Inocentes de Tom Kalin. O filme é um drama desses que ambiciona ser cool, polêmico e fazer bonito nas premiações, mas o único mérito é ter confiado o papel de protagonista à Moore. Baseado numa história real, o filme conta a história da família Baekeland,  que tenta conviver com as divergências entre Brooks (Stephen Dillane, desperdiçado) e a matriarca Bárbara (Moore) que amarga entre suas frustrações não ter se consolidado como atriz. Para aumentar as divergências entre os dois está o herdeiro, Antony, que desde pequeno se mostra diferente dos demais garotos de sua idade. O roteiro não se preocupa em construir uma narrativa bem costurada, prefere exibir pedaços da vida desta família de forma meio solta e sem ligação aparente entre elas. Sendo assim, vemos Tony demonstrar sinais de sua homossexualidade, o pai abandonar a família e Bárbara mantendo a pose - mesmo quando o mundo desaba em sua cabeça. Fico imaginando Julianne recebendo o roteiro e imaginando como uma ricaça que queria ser atriz se comportaria e... nasce uma diva! Pena que o diretor não seja tão inventivo. Se Kalin buscava investir tanto em humanizar a relação entre mãe e filho mergulhando na solidão, poderia ter escolhido um ator melhor do que Eddie Redmayne para duelar com Julianne - deveriam ter arranjado pelo menos alguém que honrasse a atuação do moleque (Barney Clark) que o interpreta quando tem doze anos (Clark consegue ser mais vigoroso do que o bocó em que se transforma). Redmayne é ruim de doer, se fosse substituído por uma folha de papelão nem notaríamos a diferença. Quando a desorientação do personagem cresce gradativamente perante os sentimentos ambíguos e incestuosos por sua mãe, o ator se limita a fazer a mesma cara de estátua e mergulhar na passividade. Não vou nem comentar seus momentos "sedutores" que beira o nonsense. Nem as cenas feitas para chocar consegue envolver a platéia, parece que a indiferença do diretor pelos seus personagens contamina o público e um filme cheio de ambições naufraga quase que completamente. Quase naufraga porque Julianne está belíssima e ótima como a mãe luminosa que esmaga seu filho sem se dar conta. Pena que nem a atriz (aliada aos belos figurinos e fotografia) consiga fazer milagre por um filme que permanece cheio de mistérios. O maior deles é por que Kalin inventou de levar para as telas uma história tão visceral de forma tão sem graça? Pálido, como seu protagonista que sucumbe ao assassinato, dificilmente ficará na memória de quem assistir.

Pecados Inocentes (Savage Grace/2007) de Tom Kalling com Julianne Moore, Eddie Redmayne, Stephen Dillane e Hugh Dancy.

MOMENTO ROB GORDON: 5 Bandas Favoritas

Como procurar ser o mais objetivo e imparcial quando se trata de suas bandas favoritas? É complicado calcular! Pensar em qual você costuma ouvir mais, quais você tem uma ou outra canção que não sai de sua cabeça, qual você tem mais álbuns, quais que estão mais presentes no seu iPod, celular, notebook, CDteca e aparelho de som. Diante desta perplexidade aparentemente inútil  (além do DIA MUNDIAL DO ROCK no dia de hoje - 13/07) chafurdei em inúmeros cálculos, probabilidades, análises e realizei uma apuração das bandas que estão mais presentes nesses recursos eletrônicos que esboçam nossa trilha sonora personalizada. Atribuindo cotações aos seus álbuns, canções e execuções cheguei à conclusão de qual é minha banda favorita (consciente ou inconscientemente, pelo menos dentro desses parâmetros estatísticos). São elas:

5  Coldplay
Podem chamar a banda de Martin do que quiser, mas o piano e os vocais em falsete fazem a diferença no cenário da música atual. Às vezes até concordo com aqueles que dizem que o Coldplay não é tão chato quanto tenta ser. Apesar de um tropeço meloso aqui e outro ali, eu mesmo me surpreendi com a quantidade de canções da banda que permanecem em minha trilha cotidiana. A banda desbancou outras que eu esperei que estivessem aqui como The Smiths, Strokes e Legião Urbana! Integrantes Cris Martin (vocal, guitarra e piano), Guy Berryman (baixo), Jon Buckland (guitarra), Will Champion (bateria) Álbuns Parachutes (2000); A Rush of Blood To The Head (2002); X & Y (2005); Viva La Vida or Death and All His Friends (2008) Músicas mais cotadas Don't Panic; Trouble; The Hardest Part; Talk; Cemeteries of London Álbum favorito (*de acordo com o número de canções em apetrechos sonoros) Parachutes (2000).

 4- Radiohead
Vai ter gente querendo me matar, mas acho que o fato de Radiohead estar um degrau à frente do Coldplay atesta bem a relação que existe entre as duas - além de revelar um bocado sobre meu gosto musical. Há alguns anos acho que a banda de Tom Yorke nem entraria aqui, mas depois de In Rainbows tenho buscado cada vez mais incluir músicas da banda nos iPods da vida - e gostado cada vez mais. Acho que é a sonoridade mais difícil da lista. Densa e estranha ficou fora do pódio por pouco. Integrantes Tom Yorke (vocal, guitarra, violão e piano), Johny Greenwood (guitarra e teclado), Ed O'Brien (guitarra e percussão), Colin Greenwood (baixo e teclado), Phil Selway (bateria e percussão) Álbuns Pablo Honey (1993); The Bends (1995); Ok Computer (1997); Kid A (2000); Amnesiac (2001); Hail to the thief (2003); In Rainbows (2007); The King of Limbs (2011) Músicas mais cotadas Weird Fishes; Paranoid Android; House of Cards; Rockener; True Love Waits Álbum Favorito*  In Rainbows (2007)

3- Interpol
Há alguns anos atrás o Interpol estaria no topo da lista, mas depois de dois álbuns que não me empolgaram tanto, a quantidade de músicas e cotações devem ter caído um bocado. Recentemente a banda lançou o seu quarto álbum que recebeu somente o nome da banda e ainda veio acompanhado de uma notícia dolorosa para os fãs: a saída de Carlos D. por um motivo simples: era um baixista que não queria mais tocar baixo! Em pensar que sua sonoridade plástica era um dos maiores atrativos da banda! Resta saber o caminho que o grupo mais cool de Nova York irá seguir a partir daqui. Integrantes Paul Banks (vocal e guitarra), Daniel Kessler (guitarra) e Sam Fogarino (bateria) Álbuns Turn on the bright lights (2002); Antics (2004); Our Love to Admire (2007); Interpol (2010) Músicas mais cotadas Specialist; A time to be so small; PDA; Narc; Pace is the trick; Álbum Favorito* Turn on the Bright Lights (2002) & Antics (2004) (empate!)

2 - Arcade Fire
Eu já desconfiava que o bando de músicos canadenses apareceria no pódio, até por que nos últimos anos algumas pessoas devem ficar de saco cheio pela quantidade de canções da banda que eu escuto diariamente. Beirava o impossível para mim dizer qual é o melhor álbum da banda, já que gosto de todos! A sonoridade única da banda, impregnada de melancolia e religiosidade foi consagrada recentemente pelo Grammy que elegeu The Suburbs o melhor do ano passado - ao ponto de destronar a favorita pela platéia mundial: Lady Gaga. Deve existir alguma lição nisso tudo! Na patota do vocalista Win Butler fica difícil distinguir quem toca o que, já que costumam se revesar entre os inúmeros instrumentos usados em estúdio e shows. Integrantes Win Butler; Régine Chassagne; Richard Reed Parry; William Butler; Jeremy Gara; Sarah Neufeld; Tim Kingsbury; Marika Anthony Shaw Álbuns Funeral (2004); Neon Bible (2007); The Suburbs (2010) Músicas mais cotadas Ocean of Noise; Neighborhood #3 (Power Out); My Body is a Cage; Deep Blue; Ready To Start Álbum favorito* Funeral (2004)

1- Pulp 
Fiquei surpreso em ver o finado Pulp no topo da lista! Até alguns meses atrás eu estava um bocado decepcionado com a banda de Jarvis Cocker, mas foi quando descobri a versão dupla de His'n Hers, o Deluxe Edition cheio de faixas bônus preicosas da banda inglesa. Se o unitário já era bom, duplo era ainda melhor! Teclados psicodélicos, guitarras cortantes e os vocais carregados (de sotaque, teatralidade e aquela afetação glam que ficou para trás) colaboraram um bocado para a banda aparecer por aqui! Integrantes Jarvis Cocker (vocal e guitarra), Candida Doyle (teclados); Mark Webber (guitarra); Steve Mackey (baixo); Nick Banks (bateria); Russel Senior (violino e guitarra);Álbuns It (1983); Freaks (1987); Separations (1992); His'n Hers (1994); Different Class (1995); This is Hardcore (1998) e We Love Life (2001) Músicas mais cotadas Babies; Seconds; The Trees; Common People; Lipgloss Álbum Favorito* His'n Hers - Deluxe Edition (1994)

Menções honrosas: The Smiths, Legião Urbana, Suede, Strokes, The Doors, Los Hermanos, PJ Harvey, Echo & The BunnyMen, Cachorro Grande, Teenage Fan Club, Joy Division, Ira!,  Catherine Wheal, The Editors, New Order, Capital Inicial, Placebo, Charlatans, Neil Young, Yeah Yeah Yeahs!, Keane, Travis, Blur, The Killers e outras dezenas de artistas que fazem meus ouvidos protegidos todos os dias.

terça-feira, 12 de julho de 2011

CATÁLOGO: O Visitante

Jenkins (à esquerda): finalmente protagonista.

Aprecio o trabalho de Richard Jenkins desde que o vi como o pai morto (muito vivo) do seriado À Sete Palmos da HBO, mas percebi que assim como no seriado, seus papéis no cinema eram sempre de coadjuvante. O ator até brincou com isso quando recebeu o convite do diretor Tom McCarthy para encarnar seu primeiro protagonista. Jenkins disse que estanhava ter que filmar todos os dias e ainda ter um trailer próprio... seja como for, o drama O Visitante é uma ótima oportunidade deste ator calvo e grandalhão demonstrar que consegue carregar um filme sem nomes conhecidos no elenco - tanto que foi indicado a mais de uma dezena de prêmios por sua atuação (do Independent Spirit ao Oscar de ator) tendo ganho alguns de prestígio como o Satellite Awards. O roteiro de Tom McCarthy foi muito elogiado por abordar uma temática que estava cada vez mais comum no cinema: a imigração ilegal. Lembro que na mesma época estava chegando aos cinemas o brasileiro Jean Charles, o francês Bem Vindo e o americano Território Restrito, mas nenhum deles conseguia exalar a simpatia e capacidade de emocionar a platéia como este aqui. McCarthy não força a mão em nenhum instante ao contar a história de Walter (Jenkins, excelente) um professor universitário de Connecticut  que por um acaso do destino terá que apresentar um trabalho  em Nova York. Depois de anos sem visitar seu apartamento na Big Apple tem uma grande surpresa quando descobre que a casa é habitada por um casal de estrangeiros, o sírio Tarek (Haaz Sleiman) e Zainab (Danai Gurira). Após o estranhamento e desentendimento inicial, os dramas de seus personagens se misturam de forma crível e bem construída. Aos poucos conhecemos detalhes sobre Walter, o fato de ser viúvo, ter um filho que mora na Inglaterra, seu desgosto pelo ofício e a frustração por não aprender a tocar piano. É desse interesse pela música que ocorre os primeiros traços de amizade entre Walter e Tarek, já que o estrangeiro começa a estimular seu interesse por percussão. Quando a amizade entre os dois se solidifica, ainda que Zainab seja muito desconfiada, Tarek é preso no metrô e o filme começa a abordar o drama dos imigrantes ilegais sem cair no lugar comum. McCarthy tem muita habilidade em não descambar para o dramalhão e o auxílio de seus atores é fundamental neste momento onde o filme tinha tudo para ser uma chatice. Sem ser panfletário ou levantar bandeiras, o filme solta alfinetadas sobre a política americana com os imigrantes, da forma que são tratados até os fantasmas relacionados ao fatídico onze de dezembro, tudo sem perder o tom ou descambar para discursos políticos explícitos. Claro que há muito de político no fato de Tarek ser músico, Zainab ser camelô de bijuterias e Walter (com seu emprego estável) nutrir grande afinidade por eles. O Visitante cresce ainda mais em sua sutil forma de abordar as relações de seus personagens quando coloca em cena a bela mãe de Tarek, Mouna (a bela Hiam Abbas) com quem Walter sugere um flerte que nunca se consolida (impossível não perceber como vestem os papéis de mãe e pai de uma família de laços que não são  sanguíneos). Jenkins alcança momentos inesquecíveis na jornada de seu personagem que parte de um livro que nunca escreve para redescobrir o prazer das relações humanas (ainda que com personagens vistos de forma tão preconceituosa por seus país). Alguns criticam a ingenuidade do roteiro, mas a intenção de MCCarthy é claramente mostrar que, independente da nacionalidade, somos todos humanos com nossas alegrias, tristezas, anseios e amores - aspectos que nos transforma numa família global (o que seus personagens ressaltam com apenas um olhar).

O Visitante (The Visitor - EUA/2007) de Tom McCarthy com Richard Jenkins, Haaz Sleiman e Danai Gurira e Hiam Abbass. ☻☻☻☻