domingo, 29 de julho de 2012

DVD: O Abrigo

Shannon: mais um louco em seu currículo?

A quem pertence a verdade? Essa é a pergunta que fica em nossas mentes quando acabamos de assistir o sensacional segundo filme do  cineasta Jeff Nichols (de Shotgun Stories/2007). Ganhador de três prêmios em Cannes2011 (Semana da Crítica; Quinzena dos Realizadores; SACD) o filme merece a atenção pela forma como mistura uma série de ingredientes numa atmosfera tão cheia de suspense quanto dramática. Não é fácil realizar um filme que flerta o tempo inteiro com a loucura temperada com a recém paranoia americana. Nichols mostra-se um realizador competente (e seu novo filme, Mud exibido em Cannes já é um dos favoritos ao próximo Oscar). O filme conta a história de Curtis (Michael Shannon, ganhador de vários prêmios da crítica), um homem comum que mora com a esposa e a filha surda no estado de Ohio nos Estados Unidos. Curtis trabalha numa construtora e a esposa, Samantha (Jessica Chastain) tenta ajudar nas despesas da casa com a venda de bordados nem sempre valorizados na feira local. O casal parece ter chegado ao ponto cômodo do casamento, onde possuem uma fina sintonia e a maior preocupação é com o tratamento da filha (assegurado pelo plano de saúde proporcionado pela empresa em que Curtis trabalha). Mesmo que existam alguns desentendimentos, fica difícil duvidar do amor entre os dois. Um personagem chega a mencionar que Curtis tem uma vida perfeita -  pena que quando pesadelos começam a perturbar o sono dele as coisas mudam. Afinal, são mais do que sonhos, "são sensações". Essa angústia nascida nos sonhos permanece nos dias de Curtis. Tempestades apocalípticas, homens misteriosos querendo fazer mal à sua filha, pássaros em voos desgovernados, o filme borra a noção de sonho e realidade à medida que percebemos que nem Curtis consegue definir o que é uma coisa ou outra. Essa estranheza acaba ressuscitando seu maior fantasma familiar: o diagnóstico de esquizofrenia aos trinta anos de sua mãe (Kathy Baker). Curtis tem trinta e cinco. O protagonista tem tanto medo de enlouquecer quanto de seus sonhos serem premonitórios. O personagem começa a ter estranhas atitudes para evitar que seus pesadelos se tornem realidade, até que decide reformar reformar o abrigo de tornados que possui no quintal. É neste momento que as coisas se complicam, já que o personagem parece caminhar, cada vez mais, para a ruína que tenta evitar. Mesmo que eu considere que o filme poderia ser um pouco mais curto, o diretor Nichols mostra-se extremamente hábil na condução da trama. Michael Shannon está excepcional em mais um papel estranho. Seus olhos grandes, presos no rosto de traços duros, conseguem exalar uma melancolia  que dificilmente outro ator conseguiria na mistura de medo e loucura necessária ao personagem. Shannon compõe seu personagem a partir da premissa de um pai de família devotado que procura evitar que uma tragédia aconteça. Jessica Chastain também merece elogios, no papel da esposa de Curtis. Não há dúvidas de que ela foi a maior atriz surgida no ano passado, aqui ela consegue manter o equilíbrio entre emoções tão distintas quanto amor,  revolta e compreensão. O efeito do casal em cena cresce lentamente e chega ao auge na espetacular cena em que Curtis enfrenta toda a cidade num jantar. Ali ele parece mais um profeta do que louco. Afinal, o que diferencia um do outro nos tempos atuais? A cena é tão arrepiante que eleva o último ato a outro patamar, tornando suas ações imprevisíveis. Com narrativa lenta e silenciosa, a explosão de Curtis é o anúncio de que talvez ele não seja louco e que no fundo ninguém quer aceitar que ele está certo. Ou então, que ele está prestes a cometer a maior de suas loucuras... "Há uma tempestade se aproximando", na verdade ela está na mente do personagem o tempo inteiro. É interessante como o roteiro desenvolve a ideia do abrigo exalando segurança e medo - e a sequência em que Samantha tenta convencê-lo a sairem daquele cubículo é um dos mais belos duetos do ano passado. Os reclamões podem até dizer que o cara já está se repetindo em criar personagens doidos, afinal ele já foi até indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel do vizinho que gosta de dizer mais verdades do que deveria no subestimado Foi Apenas um Sonho (2008) depois de viver o pirado nada beleza em Possuídos (2006), mas a performance dele aqui é devastadora! Não lembro de ter visto um ator construir um personagem com tanta consciência diante da loucura eminente. Sua capacidade de transmitir a desordem emocional do personagem é fascinante. Imortalizado em nossas mentes após a sequência final, onde a praia paradisíaca remete à pergunta que escrevi no início desta postagem, o filme deixa o público com um nó na garganta. 

O Abrigo (Take Shelter/EUA-2011) de Jeff Nichols com Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart e Kathy Baker. ☻☻☻☻

sábado, 28 de julho de 2012

CATÁLOGO: O Grande Truque

Angier: Jackman e os sacrifícios pelo ofício

Entre suas aventuras com Batman, Christopher Nolan lançou O Grande Truque que só não fez mais sucesso porque foi lançado num ano onde filmes sobre mágicos estavam na moda ("O Ilusionista" e "Atos que Desafiam a Morte" foram lançados no mesmo ano, mas este é sem dúvida o melhor dos três). Mais uma vez, Nolan prova que cinema pode ser arte e diversão ao mesmo tempo, além disso foi o filme em que o diretor mostrou que estava construindo uma espécie de "patota" em Hollywood. Escalou Christian Bale e Michael Caine (com quem trabalhou em Batman) e arranjou espaço até para Wolverine, ou melhor, Hugh Jackman (que atravessava o melhor ano de sua carreira). O filme começa com Bale sendo acusado pela morte do ilusionista conhecido como Grande Danton (Hugh Jackman), no decorrer do filme descobrimos o que aconteceu antes do suposto crime. Robert Angier (Jackman) e Alfred Borden (Bale) eram parceiros em shows de ilusionismo, mas quando um erro causa a morte da esposa de Angier o desejo de vingança se torna maior que a amizade. Além da vingança, os dois começam a disputar quem é o ilusionista mais brilhante numa guerra de egos onde existem segredos que serão revelados apenas no final - mas até chegar lá, existirá muita coisa para entreter a plateia. O roteiro de Christopher e seu mano Johnatan transforma o livro de Christopher Priest em um exercício metafílmico, já que por mais que faça referência ao mundo dos ilusionistas (o próprio título vem daí, o tal "prestígio" é o último truque, aquele que encerra o show e deve deixar a plateia perplexa e com o desejo de rever o espetáculo até que descubra como se faz aquilo), na verdade é sobre o próprio filme e sua relação com a plateia que o roteiro trata. Portanto, fique atento à cena de Angier se recusa a fazer um truque em que mata um pássaro - por não querer sujar as mãos de sangue - ele não faz ideia do que a trama lhe reserva. O auge da disputa entre os dois rivais é um truque de Borden, conhecido como "o homem transportado", onde uma explicação plausível para o que os olhos veem se torna uma obsessão para Angier - pelo menos até que ele crie sua própria versão do truque. Além do interesse pelo que acontece nos números de mágica, os bastidores vividos pelos personagens também mantém  o  público atento. Menos por conta de Angier contratar uma loura voluptuosa (Scarlett Johannson) para distrair os olhares da plateia e mais por conta do triângulo amoroso que se forma entre a moça, Borden e sua apaixonada esposa (Rebecca Hall, que aqui já chamava atenção, mas fez sucesso somente anos depois em Vicky Christina Barcelona/2008 de Woody Allen). Falar mais que isso compromete o maior segredo do filme - mas se você ficar atento a todas as referências que o roteiro faz à importância das distrações desviando o olhar da plateia do que não deve ser visto, você pode até imaginar o que está por vir. Além da trama pessoal de Borden, existe a de Angier na busca por truques cada vez mais impressionantes - ao ponto de recorrer a um sósia bebum (o próprio Jackman) e um mago de verdade chamado Nikola Tesla (David Bowie) que flerta com a descoberta da eletricidade e atrai a ira de muita gente. Ou seja, assunto é o que não falta no filme, mas Nolan consegue construir uma narrativa fluente onde tudo se torna pista para que o espectador monte o grande mistério que está por vir. Houve quem achasse o filme ofensivo por afirmar que "o público gosta de ser enganado", na verdade, ele quer ser surpreendido e isso Nolan consegue fazer ao mostrar todo tempo que conseguiu desviar nosso olhar de uma vida nas sombras e outra de horrores, onde se morre e mata todo dia pelo ofício escolhido. O filme concorreu ao Oscar de direção de arte e fotografia, mas quem merecia mesmo aparecer nas premiações era Hugh Jackman que dá conta de um papel multi facetado com a mesma desenvoltura que interpreta Wolverine. 

O Grande Truque (The Prestige/EUA-Inglaterra-2006) de Christopher Nolan com Hugh Jackman, Christian Bale, Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Michael Caine, Andy Serkis e Piper Perabo. ☻☻☻

sexta-feira, 27 de julho de 2012

TRILOGIA BATMAN - PARTE 3: Christopher Nolan

Nolan Begins
Depois da micagem de Batman e Robin (1997), a Warner não queria saber de Batman tão cedo. Depois que a Marvel estabeleceu um novo padrão para as produções de filme baseados em HQs (especialmente com o sucesso de X-Men/2000 e Homem Aranha/2002) a Warner (ao lado da DC Comics) começou a pensar em como poderia redefinir a franquia do Homem Morcego na telona. Estavam levando a ideia tão a sério que convidaram Darren Aronofsky para dirigir o filme. Darren lançara os sombrios Pi (1998) e Réquiem para Um Sonho (2000) e os estúdios ficaram fascinados com as possibilidades de um diretor tão engenhoso e sensorial pilotando a franquia. Convidado a dirigir Batman, Darren mostrou-se tão radical num filme por encomenda quanto em suas produções independentes. Chegou a convidar o septuagenário Clint Eastwood para encarnar um Batman mais maduro vivendo sua crise em lutar contra o crime - enfrentando o vilão Espantalho (papel que seria do roqueiro Marylin Manson). A ideia é até interessante, mas estava longe de que a Warner tinha em mente para dar fôlego aos filmes de Batman. Com Darren dispensado convidaram Chritopher Nolan para dirigir Batman. Os fãs do diretor de Amnésia (1999) começaram a se preocupar com os rumos que sua carreira tomariam, mas os fãs das HQs tinham o presságio de que os filmes do super-herói alcançariam um outro patamar. 

Neeson e Bale: Mestre e discípulo?

Quando Batman Begins estreou o público percebeu que o diretor não estava brincando quando assumiu a proposta de levar sua concepção do Homem Morcego para a telona. O filme se concentra na construção do mito de Batman, para isso mistura histórias como "The Man who Falls", "The long Halloween" e, principalmente "Batman: Year One" (que quase foi o título do filme). Nesse processo, valoriza os personagens clássicos em sua construção. Está presente a traumática perda dos pais num assalto (assim como no filme de Tim Burton, mas o tom é outro, mais clássico e operístico) este é o ponto de partida para a construção do lado mais sombrio do personagem. Nesse aspecto obscuro de um homem que escolhe um morcego para símbolo, a escolha de Christian Bale para o papel foi fundamental. O ator galês era visto com ressalva pelos produtores, uma vez que seu temperamento precedia sua fama, além disso, sua carreira em filmes independentes e sombrios (como Psicopata Americano/2000) ressaltava tanto seu talento quanto o fato de ser avesso às grandes produções. Já é clássica a história de que Bale foi fazer o teste do herói quando era quase pele e osso após sua atuação em O Operário (2004) e precisou convencer os produtores que poderia ficar musculoso para habitar a batcaverna em menos de um mês. Nolan bateu o pé pelo astro e o que vemos é a melhor personificação de Wayne/Batman. A opção de acolher os medos do herói como seu ponto de partida, foi fundamental para lhe dar a seriedade perdida no mundo colorido de Joel Schumacher. Batman, além de herói, é uma espécie de reflexo distorcido de seu alter-ego Bruce Wayne. Nascido das inseguranças e angústias de Wayne em lidar com a raiva, nasce um vingador mascarado para cuidar da cidade de Gotham City, mesmo que forjado pelo treino em artes marciais com um terrorista internacional, Ra's Al Ghul.  Nenhum filme se preocupou em mostrar como um ricaço como Bruce se torna um exímio lutador - nem como consegue desenvolver seus apetrechos (cortesia de Lucius Fox feito por Morgan Freeman). Esses personagens que compõem a identidade do herói, ainda encontra o lado afetuoso do fiel mordomo Alfred (Michael Caine, que nasceu para o papel) e o compromisso de Jim Gordon (Gary Oldman). Não satisfeito com o leque de personagens utilizado para tornar seu filme mais rico, o filme ainda recorre ao vilão Espantalho (Cillian Murphy) e ao corrupto mafioso Falcone (Tom Wilkinson) para personalizar o que há de pior em Gotham. Enquanto Espantalho se esconde na pele de um psiquiatra do clássico Asilo Arkhan - que planeja contaminar a cidade com uma substância alucinógena, o maior vilão que Batman terá de enfrentar é o mestre que imaginava estar morto. Com tom realista, fotografia sombria e uma trama cheia de elementos para administrar, fica visível que a Warner esteve no controle de tudo - e o filme transparece que Nolan não relaxa na direção, mas mesmo assim apresenta uma obra superior a todos os outros filmes do Homem Morcego. Se existe uma reclamação é a inconsistência de Katie Holmes como par romântico do herói. Tendo custado 150 milhões e  filme rendeu quase 400 milhões pelo mundo. O público ficou satisfeito, mas queria mais, especialmente depois do final que parecia remeter ao filme de Tim Burton. 


Ledger, Bale, Aaron: o palhaço, o cavaleiro negro e o branco.

Com todas as fichas na mesa depois de Batman Begins, Christopher Nolan lançou aquele que é considerado por muitos como o melhor filme de super herói de todos os tempos. Batman - O Cavaleiro das Trevas, um filme que rompeu a barreira do bilhão de dólares em arrecadação, ampliou todas as premissas de seu antecessor, adicionou novos elementos e se tornaou uma alegoria política muito bem vinda sobre o período que os EUA viviam. Sem o compromisso de ter que apresentar os personagens, Nolan teve mais tempo para trabalhar o maior inimigo de Batman: o Coringa. Além do apelo perante o público, o vilão  ainda rendeu publicidade ao filme por conta da morte de seu intérprete, Heath Ledger. Antes do filme estrear a atuação de Ledger já era saudada como uma das melhores do ano, digna de Oscar e tudo mais. Dizem que o filme teve que passar mais uma vez pela ilha de edição para retirar algumas cenas que poderiam ser desagradáveis após a morte do ator (acho aquela última cena do Coringa aberta demais para a estrutura do longa, acho que o desfecho era outro). Bale volta para a pele do herói e consegue convencer mais uma vez como um Bruce Wayne relapso que disfarça a identidade do herói, no entanto, sua química com Coringa faz toda a diferença neste filme. Afinal, ambos são lados da mesma moeda, a violência e a loucura está presente em ambos, mas de formas tão distintas como complementares. Na anarquia de Coringa, o auto-contole de Batman parece prestes a se diluir e torná-lo uma espécie de reflexo do palhaço maluco. Ao contrário do filme anterior, que era repleto de vilões, o Coringa dá conta de tornar a cidade num caos entre  recompensas por assassinatos, bombas espalhadas pela cidade, bandidos brigando entre si e dois barcos que dependem do bom senso para não irem para o espaço. Cheio de golpes elaborados, o Coringa de Ledger faz o de Jack Nicholson (Batman/1989) parecer uma piada. Talvez o motivo seja o fato de Ledger se envolver até na maquiagem do personagem (criada por ele mesmo) e que o torna mais assustadoramente estranho. Por mergulhar com tanta devoção numa das mentes mais perturbadas do cinema, Ledger recebeu o segundo Oscar In Memorian conferido pela Academia do Oscar. Curioso perceber que entre o palhaço e o morcego existe uma peça fundamental para a trama: o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhardt). Dent inspira Gotham em sua sede pelo correto em meio ao caos, ao mesmo tempo que faz um triângulo amoroso com Wayne e sua amada Rachel (Maggie Gyllenhaal substituindo Katie Holmes). Dent funciona como um híbrido entre as duas forças protagonistas do filme e torna-se fundamental nos rumos que Christopher Nolan e seu irmão pretendem dar a Batman em seu desfecho nas telas.  Desaparecendo nas sombras, todo mundo só queria saber o que a sétima arte reservava para a sua próxima aventura (só sabiamos que permaneceria sem o Robin). O filme concorreu a oito Oscars (ganhou edição de som e ator coadjuvante/Ledger), mas pior do que perder seis categorias foi não ficar entre os cinco concorrentes ao Oscar de Melhor Filme e deixar Nolan fora da categoria direção. Essa gafe da Academia acabou rendendo uma revisão nos conceitos do Oscar, que passou a indicar mais de cinco filmes à categorias principal. 


Batman Begins (EUA-2005) de Christopher Nolan com Christian Bale, Liam Neeson, Katie Holmes, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman e Cillian Murphy. ☻☻☻


Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight/EUA-2008) de Christopher Nolan com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Echardt, Maggie Gyllenhaal, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman e Cillian Murphy. ☻☻☻

KLÁSSIQO: Laços de Ternura

MacLaine e Winger: as dicotomias entre mãe e filha. 

Acho interessante como um gênero tão aparentemente simples pode ser tão complicado de ser realizado. Trata-se do drama familiar. Faz tempo que o público vê esse gênero com ressalvas, afinal costumam cair em clichês fáceis, exagerar no açúcar ou ainda ser simplesmente uma bobagem. Se você pensar que uma das maiores referências do gênero é Laços de Ternura a coisa piora mais ainda, afinal o filme é um clássico do gênero e mesmo assim rendeu um genérico histérico descarado (Flores de Aço/1989), uma continuação que caia em todas as armadilhas do gênero (O Entardecer de Uma Estrela/1996) e até seu diretor conseguiu alguma eficácia somente em Melhor É Impossível (1996). Ou seja, Laços de Ternura é um desses filmes que tinha tudo para não funcionar, mas funciona. Funciona tanto  que é um dos poucos filmes a devorar os Oscars nas categorias principais: filme, direção (James L. Brooks), atriz (Shirley MacLaine), roteiro adaptado, só faltou o prêmio de ator - mas para isso o performance orscarizada de Jack Nicholson deveria ter mais tempo na tela. O segredo do filme é conseguir se sustentar a partir dos episódios das vidas de mãe e filha por vários anos (é brilhante marcar a passagem do tempo pelo constante estado de gravidez de uma das protagonistas). Aurora (Shirley MacLaine) é uma mulher vaidosa, além de mãe dominadora que é desde o início contra o casamento da filha, Emma (Debra Winger, que ironicamente, foi a mãe de O Casamento de Rachel/2008 após longo hiato nas telas). A história das duas é contada em paralelo, centrada nos dramas cotidianos contados com muito humor. O interessante no filme é o cuidado que a produção tem em não ridicularizar seus personagens, mesmo que Aurora às vezes pareça uma perua e Emma seja ingênua demais ao ponto de casar com um homem sem muita ambição e acreditar poder viver só de amor, aos poucos o filme mostra que essas personagens são mais ricas do que aparentam, seja pelo interesse de Aurora por um vizinho astronauta e mulherengo (vivido por Jack Nicholson bancando o sedutor) ou o casamento de Emma marcado por bebês constantes ou e o fantasma do adultério. Além do bom humor, o roteiro é um primor ao explorar como essas duas mulheres de gerações diferentes e personalidades aparentemente opostas encaram seus relacionamentos. Aurora se mostra mais liberal do que se imagina ao engatar um romance com o vizinho, ao mesmo tempo, Emma e o esposo (vivido por um jovial Jeff Daniels) embarcam em relacionamentos extra-conjugais sem a baixaria que costumamos ver nesse tipo de filme. Valorizando seus personagens o filme se desenvolve através de pequenas surpresas sobre a personalidade dessas mulheres. Quando mãe e filha deixam as brigas de lado o roteiro dá uma guinada perigosa, mas que parece anunciada desde o início. Esse contraste funciona como uma espécie de mágica, todos os ingredientes estavam ali e poderiam construir um melodrama medonho, mas existe tanta verdade nas atuações e na direção que é impossível não embarcar na história. MacLaine merece aplausos eternos por sua Aurora, uma mulher fascinante (como qualquer mulher comum bem defendida na telona deve ser) e mais aplausos ainda merece Debra Winger (indicada ao Oscar de coadjuvante) que anda esquecida, mas aqui mostra que já era uma atriz completa ao ressaltar as cores do amadurecimento de sua doce Emma. É impressionante como as duas atrizes dão conta de transmitir que a vida, mesmo com fotografia de cartão postal, precisa lidar com uma doença devastadora que mudará o rumo das personagens - enquanto provoca na plateia uma reflexão sobre o que fazemos de nossas vidas, das relações com as pessoas que conhecemos pelo caminho e o tempo que perdemos com egoísmos, vaidades e orgulho. No fim das contas, mesmo com o tempo gasto em atritos, aquele temido momento da despedida pode ser representado apenas por um olhar que podemos presenciar ou simplesmente perder por ter adormecido.


Laços de Ternura (Terms of Endearment/EUA-1983) de James L. Brooks com Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels e Danny Devito. ☻☻☻

domingo, 22 de julho de 2012

DVD: Gasland

Não é efeito especial!!!
Não sei quanto a vocês mas tem documentários que me dão vergonha da espécie humana. Gasland - Terra do Gás é um desses casos. Lembra quando Julia Roberts protagonizou Erin Brockovich (2000), filme em que era uma secretária envolvida num processo de desmascarar uma empresa que contaminava a água de uma região dos EUA - e a empresa fingia que não tinha nenhuma relação com as doenças que vitimavam os habitantes locais? Gasland é uma variação disso. Se o filme de Julia impressionou você, imagina o efeito de um documentário sobre inúmeras cidades do sul dos EUA que tiveram a água e o ar contaminados pela produção de gás natural? O filme assinado por Josh Fox começa quando o próprio diretor recebe uma carta proposta de receber uma quantia robusta para permitir que captem esse gás de sua propriedade. Instigado pela quantidade de dinheiro, Fox começa uma pesquisa sobre a produção de gás natural e descobre aspectos assustadores dessa indústria que cresce no mundo inteiro. Só para começar, ele descobre que durante a crise do petróleo no governo W.Bush o lobby das empresas de gás natural era fortíssimo, ao ponto de alardearem que utilizar o gás natual escondido abaixo do solo do país era quase um exercício de patriotismo - devido a romper com a dependência que o país sofre da exportação de fontes de energia. Essa balela funcionou com tanta maestria que resolveram motivar a captação de gás natural isentando essas empresas de qualquer proibição  no uso de substâncias tóxicas ao ser humano. O resultado? Cidades cujo a população sofre de enxaqueca constante, doenças cardiorespiratórias, neurológicas e tumores cancerígeros variados. A qualidade do ar é péssima, ao ponto do risco de explosão ser grande e a água (com gosto de metal) pode fazer torneiras parecerem um maçarico quando ligadas. Feito como um road movie, a jornada do documentarista se torna cada vez mais assustadora quando chega às primeiras cidades a abrigarem esse tipo de indústria. Com fauna e flora dizimadas, essas cidades tornaram-se fantasmagóricas e habitadas por histórias tristes de habitantes que perderam seus parentes e amigos enquanto esperavam alguma providência das autoridades. Não são poucos os casos onde as vítimas tinham que provar a relação das indústrias de gás natural com os prejuízos, quando na verdade, as indústrias que deveriam provar a não relação com os absurdos cometidos. Não se engane com seu formato despretensioso, Gasland é tão deprimente quanto necessário ao mostrar um mundo onde a força do dinheiro é mais importante do que qualquer outra. É como se onde houvesse lucro não existisse problema, é como se dissessem: "que se danem as vidas sacrificadas se o maior beneficiado será o bolso de algum magnata". Essa lógica que aparece com grande transparência no filme assusta mais ainda quando nos damos conta que é ela que perpassa a mente de um bando de políticos que brigam por seus próprios interesses financeiros em eventos como a Rio+20. O efeito é de um grande filme de horror. Gasland tem entre seus produtores a atriz Debra Winger (que anda sumida das telas) e foi indicado a vários prêmios (incluindo o Oscar), ganhando o prêmio do júri em Sundance e o Emmy de documentarista revelação do ano. 

Josh: denúncia sobre a ação predatória da indústria de gás natural. 

Gasland - Terra do Gás (EUA/2011) de Josh Fox com Josh Fox, Dick Cheney, Pete Seeger e Ron Carter. ☻☻☻☻

sexta-feira, 20 de julho de 2012

TRILOGIA BATMAN - PARTE 2: Joel Schumacher

Kilmer e Kidman: "uma mulher gato entre nós"!
Depois dos dois filmes do Homem Morcego dirigidos por Tim Burton, a Warner resolveu dar uma repaginada com a intenção de aumentar as bilheterias (já que Batman- O Retorno/1991 rendeu metado do anterior, tendo custado o dobro). Para a empreitada, o estúdio escalou o diretor Joel Schumacker que tinha lá os seus sucessos, sendo os dois últimos os mais aclamados de sua carreira: Um Dia de Fúria (1993) e O Cliente (1994). Burton agora assinaria apenas a produção e Joel, para deixar sua marca na franquia, inseriu mais cores na produção (especificamente mais verde, vermelho e lilás), escalou Val Kilmer para ser  Bruce Wayne/Batman e alguns atores em ascensão perante para se juntar ao elenco. Ciente de que a franquia dava cada vez mais destaque aos vilões, escolheu Jim Carrey (que estava no auge) para ser o clássico vilão Charada e o veterano Tommy Lee   Jones para ser Duas Caras. Como filme de Batman deve ter uma beldade, a escolhida da vez foi Nicole Kidman para viver a psicanalista Chase Meridian. A doutora serve para vender a ideia de que haveria uma parte mais pscicológica na trama de Batman Eternamente (1995), onde Wayne entraria em crise existencial por se dividir entre um milionário durante o dia e combater o crime durante a noite. Afinal o que se esconde por trás de um morcego? Essa é a ideia que alguns personagens comentam durante o filme, mas que não convence na tal "profundidade psicológica" que o roteiro pretendia. É mais interessante ver o filme inserir Robin na história depois de ser desprezado nos filmes de Tim Burton. O garoto prodígio de Chris O'Donnel é fiel à origem do personagem nos quadrinhos e a cena em que se torna órfão deve ser uma das mais bem resolvidas do filme - o que motiva o rapaz a se juntar a Batman para se vingar do assassino de seus pais. Existe até um ensaio nesse embate entre a "justiça" de Batman e o desejo de "vingança" de Robin, mas não decola. Quem rouba a cena mesmo é Carrey como o pateta Edward Nigma, gênio da informática demitido das indústrias Wayne e que cria uma máquina capaz de roubar os pensamentos dos habitantes de Gotham City (o que ameaça o segredo de Batman). Enfim, existe ideias que ficam somente no esboço e toda atmosfera dark de Tim Burton foi para o ralo. Ainda que não marque um reinício para a franquia (Chase Meridian chega a citar a figura da Mulher Garo e os vilões não se repetem) ficava óbvio que as aventuras do herói chegava a uma nova era nas telas. Depois de Prince e Siouxsie e The Banshees nas trilhas anteriores, esse filme tornou  Kiss from a Rose do Seal uma das músicas mais tocadas em todo mundo, superando até Hold me thrill me kiss me kill me do U2 que também estava na trilha sonora. O Batman de Schumacher era menos dark e mais pop. 

Jones e Carrey:  Os vilões da vez. 

Thurman e Freeze: O visual não salva. 
Se muita gente considerou Batman Eternamente uma bomba, eles não faziam ideia do que estava por vir. A Warner ficou até feliz em ter investido cem milhões e ter recebido o triplo disso em bilheteria. Ficaram tão felizes que confiaram mais um filme do Homem Morcego à Schumacher, desde o início chamado Batman e Robin (1997). Depois que Val Kilmer se desentendeu com os produtores, convidaram o galã em ascensão George Clooney para trocar alfinetadas com o Robin de Chris O'Donnel. Os interesses megalomaníacos da produção resolveram não colocar dois vilões na trama, mas três! Hera Venenosa (Uma Thurman), Mr. Freeze (Arnold Schwarzenegger) e Bane (Jeep Swenson). Os fãs salivaram, já que Bane foi o responsável por uma reviravolta nas HQs quando tornou Batman paraplégico e impossibilitado de combater o crime (na época a DC Comics havia radicalizado para aumentar as vendas de seus gibis, eles até mataram o Superman, lembra?), mas bastou dizer que Alicia Silverstone (acima do peso) viveria a Batgirl, sobrinha do mordomo Alfred que os mais antenados começaram a reclamar. Afinal de contas, todo fã sabe que Batgirl é sobrinha do Comissário Gordon... Schumacher nunca foi muito fiel ao universo das HQs, mas aqui ele chutou o balde. Existem tantas piadas estúpidas na produção (Cartão de Crédito do Batman: Não saia de casa sem ele!? Robin pendurado gritando que "Ah, eu tô maluco?!") e atenção com detalhes bisonhos (Bane é um boçal?! Armaduras com mamilo?!) que no fim das contas o filme é uma paródia de mal gosto do personagem criado por Bob Kane. Nem adianta colocar Batman e Robin brigando por Uma Thurman ou caprichar nos efeitos de Mr. Freeze, o filme é uma calamidade tão grande que George Clooney nem se esforça em dar qualquer dignidade ao herói (até hoje ele faz piada com o filme) - curiosamente ele foi o que menos se prejudicou com a produção, já os outros tiveram de amargar descrédito em suas carreiras (as de O'Donnel e Alicia Silverstone tiveram quedas bruscas que duram até hoje). Em meio ao baile de carnaval patrocinado por Joel Schumacker se entendeu que a referência do diretor era aquele seriado toscamente cômico (que durou de 1966 a 1968 com Adam West). Ou seja, não bastasse ter ofendido os fãs de Batman com o pior filme do herói, ele ainda ganhou a ira dos fãs do seriado!  O resultado? Um investimento de 125 milhões que rendeu 130 milhões em bilheteria mundial, o maior fracasso do herói nas telas. Depois de tanta dor de cabeça a Warner não queria ver a batcaverna tão cedo. Era preciso de redimir do vexame, mas como? Pelo menos o filme teve uma trilha sonora excelente com Smashing Pumpkins, R.E.M, Jewell, Moloko, Underworld, Goo Goo Dolls, Soul Coughing e Meshell Ndegeocello. Santo carnaval com trilha de primeira, Batman!


Alicia, Clooney e Chris: O pior Batman de todos os tempos. 

Batman Eternamente (Batman Forever/1995) de Joel Schumacher com Val Kilmer, Nicole Kidman, Jim Carrey, Chris O'Donnel, Tommy Lee Jones e Drew Barrymore. ☻☻


Batman & Robin (EUA/1997) de Joel Schumacher com George Clooney, Chris O'Donnel, Uma Thurman, Alicia Silverstone e Arnold Schwarzenegger.

DVD: O Homem que Mudou o Jogo

Pitt e Hill: mudando os paradigmas do baseball. 

Bennett Miller é um diretor com dois filmes de ficção no currículo - e os dois concorreram ao Oscar de Melhor Filme. O primeiro foi o mórbido Capote (2005) que premiou Phillip Seymour Hoffman o segundo é este O Homem que Mudou o Jogo, que dificilmente teria a projeção alcançada se não tivesse Brad Pitt no alto dos créditos. Pitt conseguiu uma cadeira entre os concorrentes ao Oscar de Melhor Ator deste ano e o motivo é que esta é uma das poucas vezes em que interpreta um sujeito comum em sua carreira. Talvez eu não tenha considerado o filme algo grandioso porque, como bom brasileiro, eu não manjo nada de beisebol - o pouco que sei sobre um dos esportes favoritos dos sobrinhos do Tio Sam foi assistindo aos desenhos do Snoopy (mas eu sei que um cachorro não joga beisebol). Talvez por conta dessa falta de familiaridade do resto do mundo com o esporte tratado no longa, Miller opta por um truque que pode ser visto como um tiro pela culatra: não mostrar os jogos. A desculpa para acompanharmos os jogos por cenas curtas, comentários por rádio ou TV é o fato do diretor geral do Oakland A's, Billy Beane (Pitt), não assistir aos jogos para não se envolver emocionalmente com os jogadores. Se você conseguir perceber que o baseball é só o pano de fundo para um filme sobre quebra de paradigmas, desconstrução de preconceitos, noções de economia e probabilidades você vai até achar o filme interessante. Se você não curte nada disso é melhor ver outra coisa. Beane tem que levantar um time que possui a menor verba da liga, para piorar mais ainda seu time ficou famoso por descobrir atletas promissores e depois perdê-los por contratos mais robustos. Colecionando derrotas e com rombos na escalação do time, Beane tenta negociar craques com os oponentes, mas acaba conhecendo o analista Peter Brand (Jonah Hill), um jovem economista formado em Yale (que analisa os jogadores por aspectos diferentes do marketing e salários milionários). Somando as características individuais dos jogadores em campo, Brand convence Beane de que é capaz de se construir um bom time com a ninharia que tem à disposição. Obviamente que todos os conselheiros do diretor, assim como o técnico rabugento Art (Phillip Seymour Hoffman)  e a imprensa fazem da estratégia da dupla a chacota da temporada. Mas com um jeitinho aqui e outro ali a coisa começa a funcionar. É interessante ver um olhar diferente sobre o esporte, ainda mais um olhar tão calculado quanto o matemático e aí reside a maior força do filme. Pitt e Hill conseguem realmente vender a ideia de seus personagens para o público, o problema é quando o filme se perde num conjunto de apetrechos que os prestigiados roteiristas Steven Zaillian e Aaron Sorkin espalham no texto para nada. Miller deveria ter percebido as sobras e as deixado na ilha de edição, afinal não tinha a mínima necessidade colocar as cenas de Beane novinho começando a carreira no baseball (feito por um ator que precisa de muita boa vontade da plateia para ser visto com um jovem Brad Pitt), assim como também não precisava colocar Robin Wright em apenas uma cena como ex-esposa num segmento mal trabalhado que serve só para que a filha de Beane cante aquela musiquinha no final. Não vou nem mencionar que o time é mal trabalhado na trama, sendo formado apenas por um amontoado de nomes sem que possamos nos identificar com aquele grupo de atletas renegados pela idade avançada, por uma cirurgia no braço ou pela vida boêmia (o que recebe um pouco mais de destaque é o Hatterberg de Chris Pratt que cumpre sua função a contento na história). No fim das contas o resultado é um filme que se assiste pela vontade de ver derrotados dando a volta por cima com uma base matemática, mas poderia ter um resultado melhor se o roteiro se concentrasse em suas intenções (aquela última partida é criminosamente subaproveitada) e não deixasse um monte de pontas soltas. Baseado na história real relatada no livro de Michael Lewis, O homem que mudou o jogo foi indicado a seis Oscars - e ainda que Pitt esteja num bom momento, quem surpreende mesmo é Jonah Hill num tipo bem diferente dos outros de sua carreira (e que mostra ser realmente um ator a ser levado a sério). 

O Homem Que Mudou o Jogo (Moneyball/EUA-2011) de Bennett Miller com Brad Pitt, Jonah Hill, Phillip Seymour Hoffman, Chris Pratt, Robin Wright e Chris Bishop. ☻☻☻

CATÁLOGO: Gattaca


Hawke (à esquerda): fora do padrão. 

Um bom filme de ficção científica não se ampara em efeitos especiais mirabolantes ou maquinários malucos, mas em sua capacidade de projetar um futuro que se desenha no presente - é essa característica causa a identificação necessária do público para que embarque na história. Tempere essa projeção temporal com um bocado de sociologia e ciência política e o resultado pode beirar o genial. Foi isso que o diretor neozelandês Andrew Niccol pensou quando preparava seu primeiro longa metragem. Misturando várias referências, Niccol visualizou um mundo onde com os avanços da engenharia genética, o homem aprendia a construir seres perfeitos capazes de executar as tarefas mais nobres. No entanto, mesmo com a tecnologia mais avançada, imprevistos acontecem e aqueles que são considerados portadores de alguma imperfeição genética são destinados a tarefas que poucos gostariam de fazer. Não importa as ambições desses seres imperfeitos, eles estão fadados a executar tarefas estabelecidas pelo sistema de acordo com suas restrições físicas. É nessa estrutura sufocante que vive Vincent Freeman (Ethan Hawke) um rapaz que queria ser astronauta desde pequeno, mas tem seu ideal impossibilitado por uma "impureza genética". Por conta disso, Vincent terá de limpar o chão numa empresa para o resto da vida. A realidade pintada por Andrew Niccol é bem parecida com os rumos que nossa sociedade poderia tomar, assim como os caminhos que os "inválidos" escolhem para subeverter a ordem estabelecida. Fraudes sutis e clandestinidades são recursos adotados numa luta individual contra o totalitarismo da ordem estabelecida. Vincent, por exemplo, assume a identidade de Jerome Morrow (Jude Law), um genéticamente perfeito que se torna "inválido" após um acidente que o torna cadeirante. Com a identidade de Jerome, Vincent planeja ser astronauta e viajar para Titã (o satélite de Júpiter) num plano perfeito (que inclui prótese óssea nas pernas e esfoliantes para não deixar vestígios de DNA pelo caminho). No entanto, existem duas coisas que comprometem o plano de Vincent, uma é a sua atração por Irene Cassini (Uma Thurman), uma colega de trabalho que aproxima-se cada vez mais da identidade real de Vincent, e a outra é o fato de haver um assassinato na empresa que Vincent se infiltrou, a Gattaca, onde todos se tornam suspeitos do crime. Com as investigações, a atenção de Vincent terá de ser redobrada para que sua identidade "inválida" não seja descoberta. Niccol consegue universalizar os dramas de seus personagens de tal forma que a trama poderia acontecer numa sociedade totalitária ou num campo de concentração qualquer. Flertando com o cinema noir (especialmente no visual glamouroso de Thurman) existem segredos e mentiras suficientes para manter o interesse da plateia até o final. Também ajuda muito a ambientação cool dos cenários e as atuações dedicadas de seu elenco que fazem do filme uma ficção científica acima da média. Se existe uma ressalva é o drama familiar que o roteiro coloca perto do final e que resulta mal trabalhada dentro do que o filme propõe, seu efeito não é de algo relevante, mas de uma digressão melodramática desnecessária ao que o filme apresenta. Um defeito pequeno diante de um texto inteligente que trabalha com metáforas sobre uma sociedade de classes onde a única opção de transformação é a contravenção - ou o suicídio. Além do sucesso de crítica, Niccol ainda ganhou fama de cupido, já que foi ele o responsável por apresentar Hawke à Thurman, o que deu origem a um casório de seis anos. 

Gattaca (EUA/1997) de Andrew Niccol com Ethan Hawke, Uma Thurman, Jude Law, Gore Vidal, Elias Koteas, Maya Rudolph e Jayne Brook. ☻☻☻☻

terça-feira, 17 de julho de 2012

DVD: O Preço do Amanhã

Justin e Amanda: mais pose que atuação. 

O cineasta neozelandês Andrew Niccol foi uma das grandes promessas de Hollywood ao final da década de 1990, além de ter estreado na direção com o elogiado sci-fi Gattaca (1997) ele ainda concorreu ao Oscar de roteiro original pela escrita de O Show de Truman (1999). Vendo os filmes deste senhor de quase cinquenta anos não é difícil perceber sua criatividade e gosto pela ficção científica. Pena que sua carreira tem se mostrado um tanto irregular. Se sua estreia prometia uma carreira de sucesso, ela naufragou logo no filme seguinte com S1m0ne (2002), aquele filme em que Al Pacino cria uma estrela de cinema por computador - e que foi mais falado do que visto. A coisa não melhorou muito quando fez o roteiro de O Terminal (2004) que se tornou um dos filmes mais inexpressivos de Steven Spielberg. Sorte que em 2005 ele deu a volta por cima com o interessante O Senhor das Armas estrelado por Nicolas Cage. Seis anos depois ele volta à ficção científica com esse O Preço do Amanhã e prova, mais uma vez, que tem ideias interessantes, mesmo que não aproveite todas as possibilidades que elas lhe oferecem. A história se passa num futuro não identificado onde o tempo se tornou a moeda de troca. Aparentemente, para vender a ideia à humanidade, as pessoas param de envelhecer aos vinte e cinco anos, no entanto, precisam trabalhar para ganhar cada vez mais "tempo" para que possam viver. Acabando seus segundos, a pessoa morre abruptamente. É uma lógica interessante e cruel que consegue produzir uma alegoria pertinente sobre o capitalismo e sua lógica onde "time is money" - e centenas de pessoas morrem diariamente por não ter dinheiro para sustentar seu tempo de vida. Niccol não se preocupa em explicar como surgiu essa ideia mirabolante, nem como as pessoas têm sua cota temporal escrita digitalmente num mecanismo misterioso abaixo da pele. No entanto, o filme  consegue segurar nossa atenção quando nos apresenta Will Salas (Justin Timberlake, que parece estar levando a sério a carreira de ator), um rapaz que precisa batalhar num dia o seu tempo de vida para o dia seguinte. Após conhecer um milionário que era perseguido pelos bandidos conhecidos como "mafiosos do tempo" (liderados por Alex Pattife Pettyfer), Will recebe de presente mais de um século de vida e uma nova percepção do sistema social em que vive (onde o custo de vida sobe mais do que a remuneração dos mais pobres, uma medida  para evitar a superpopulação e o fim dos recursos materiais). Depois de receber essa "consciência social", Will é acusado de assassinato e passa a ser perseguido enquanto tenta desmontar a estrutura econômica em que vive. A partir daí o filme perde um bocado do ritmo ao inserir na narrativa a menina rica rebelde Sylvia Weis (a chatinha Amanda Seyfried), que tem um  flerte com Will e passa a ser sua parceira. Quando passa a se concentrar nas correrias de Will e Sylvia o filme deixa as ideias de lado e vira um filme de ação desmiolado. Seria muito mais interessante explorar as origens do guardião do tempo vivido por Cyllian Murphy, os escrúpulos do "banqueiro" vivido por Vincent Kartheiser (o Pete do seriado  Mad Men) ou a amizade de Will com Borel (Johny Gallecki da série Big Bang Theory), isso sem falar as referências jogadas na tela sobre o pai de Will. Não vou nem mencionar alguns furos do roteiro (como os empregados trabalham na casa dos ricos se eles não podem atravessar as fronteiras? Por que alguns atores parecem ter mais de 25 anos?). Sorte que a boa ideia de Niccol consegue segurar as pontas (tanto que a bilheteria rendeu quatro vezes o custo de produção do filme), poderia ter rendido mais se houvesse arranjado uma atriz mais consistente do que Seyfried que passa o filme inteiro fazendo pose e ajeitando a peruca do personagem mais desinteressante da trama. 

O Preço do Amanhã (In Time/EUA-2011) de Andrew Niccol com Justin Timberlake, Amanda Seyfried, Olivia Wilde, Cillian Murphy, Vincent Kartheiser, Johny Gallecki, Alex Pettyfer e Matthew Bomer. ☻☻☻

CATÁLOGO: Insônia

Williams e Pacino: a percepção reavaliada em dias eternos. 

Insônia é o filme menos lembrado de Christopher Nolan, não que ele não mereça atenção, mas quis o deuses do cinema que ele ficasse imprensado entre o cultuado Amnésia (2000) e a franquia Batman.  Apesar dos elogios, Insônia é lembrado somente pelos fãs do diretor, mas tem elementos suficientes para  quem curte um bom filme policial. Baseado numa produção sueca homônima de 1997, o filme recebeu vários elogios pela performance de Al Pacino na pele de Will Dormer, um detetive enviado para uma investigação no Alaska e que acaba sendo surpreendido pela constante insonia provocada pelos dias eternos do lugar, afinal as noites só existem por lá durante o inverno (onde os dias possuem nada menos que 22 horas de noite durante três meses). Embora não utilize truques elaborados como no seu famoso filme de trás para frente, Nolan consegue imprimir as sensações de Dormer durante a narrativa quando seu cérebro cansado não consegue filtrar as informações que recebe (embaralhando sua percepção que se torna cada vez mais turva) ou fazendo com que perca a paciência com os colegas adolescentes da vítima. Acostumado com Los Angeles, Dormer vai até o pólo da terra para investigar o assassinato de uma colegial,  ao seu lado está o parceiro Hap Eckardt (Martin Donovan, um dos atores mais populares do cinema indie americano)  - mas muitos consideram que Sormer está lá para fugir das acusações de corrupção que recaem sobre ele (inclusive o próprio Eckhardt). Dormer é recebido como uma espécie de celebridade no local, especialmente pela agente Ellie Burr (Hillary Swank em uma  ótima atuação) que o vê como uma inspiração para os investigadores americanos. Para fazer mais do que um filme de caça ao criminoso, Nolan insere um dilema moral em seu protagonista, quando em uma perseguição ao assassino ele acaba atirando no parceiro de longa data. Sujeito aos primeiros efeitos de mais de vinte e quatro horas sem dormir, Dormer não consegue distinguir se o episódio  foi acidental ou não - e para piorar o assassino da tal adolescente testemunha o ocorrido. O filme acredita que o mais interessante da história não é descobrir quem matou a garota - já que isso nós descobrimos antes da metade com a presença do estranho escritor Walter Finch (Robin Williams) - mas saber como Dormer irá lidar com os dilemas que podem arruinar de vez a sua carreira. Acusando Finch de ter assassinado seu parceiro, Dormer cria uma espiral de mentiras que apontam cada vez mais para sua controversa figura. Apesar de conter momentos de grande tensão, os melhores momentos do filme ficam por  conta da atuação sonolenta de Pacino e as desilusões de Swank em perceber que seu ídolo é mais falho do que poderia imaginar. Sem os truques de edição e roteiro utilizados em Amnésia, Nolan parece querer focar nossa atuação somente no trabalho com os atores numa história de crimes e desilusões sob a percepção de mundo de um personagem que já tinha uma visão turva da ética e  da moral muito antes de não conseguir dormir. 

Insônia (Insomnia/EUA-Canadá/2002) de Christopher Nolan com Al Pacino, Robin Williams, Hillary Swank e Martin Donovan. ☻☻☻

segunda-feira, 16 de julho de 2012

TRILOGIA BATMAN - PARTE 1: Tim Burton

Keaton: "I'm Batman"
Com a proximidade do lançamento do derradeiro Batman de Christopher Nolan, acho que é mais do que conveniente rever as outras concepções do Homem Morcego na telona. Embora a primeira adaptação cinematográfica de Batman seja de 1943 (lançado com o nome de "O Morcego"), a segunda sendo de  1966 (batizada de A Volta do Homem Morcego) e a terceira em  1966 (Batman: O Homem Morcego) foi Tim Burton o primeiro a dar cara de superprodução aos filmes do herói criado por Bob Kane na década de 1930. Se hoje em dia os estúdios brigam por um filme de HQ, na década de 1980 a coisa era bem diferente. Levar um super-herói para as telas era tarefa mais do que complicada, já que poucas experiências valeram a pena. Sucesso mesmo só obteve o primeiro Superman (1978) de Richard Donner e sua sequência em 1980, depois disso só houve fracassos e produções tão ruins que nem chegaram a estrear. Burton já um sucesso no currículo (Os Fantasmas de Divertem/1988) e muitos viam com desconfiança a sua tentativa de imprimir sua estética ao herói de Gotham City - e as coisas ganharam proporções mais complicadas quando Burton escalou o comediante Michael Keaton (ator de Os Fantasmas...) para ser o herói. Enquanto alguns especulavam sobre o motivo da escalação ser os lábios do ator, Burton estava ciente de que tinha condições de fazer do filme um sucesso. Estava caprichando na atmosfera dark (com o objetivo de sepultar de vez a série de TV no imaginário dos fãs) e escolhendo aliados de peso como Jack Nicholson (para viver o vilão Coringa) e a loura Kim Basinger (para viver o par romântico do herói) - isso sem falar na trilha sonora de Prince que prometia dar a aura pop que o filme precisava entre os mais antenados. Enquanto os batmaníacos ainda viam com desconfiança a escalação de Keaton, Burton fez uma jogada de mestre ao criar um trailer curtinho onde o ator grunhia "I'm Batman" vestido a caráter. Pronto, todo mundo acreditou que Keaton daria conta do recado. 

Nicholson: maquiagem caprichada e nome no alto dos créditos. 

Quando o filme estreou todo mundo concordou que Keaton não comprometia a produção, apesar do roteiro dar mais destaque ao vilão Jack Napier, o bandido vivido por Jack Nicholson. Jack criou um bandido que era o responsável pela morte dos pais de Bruce Wayne e criador do trauma que fez  o herdeiro milionário se transformar no justiceiro mascarado de Gotham. As coisas poderiam parar por aí se ele não sofresse um acidente que deformasse seu rosto e acentuasse sua psicopatia - virando o risonho Coringa. Seu plano é dominar (claro) o mundo a partir de produtos de beleza que quando combinados causam efeitos colaterais que podem ser mortais. Enquanto Batman tenta impedí-lo, existe uma dupla de repórteres  Vicky (Basinger) e Alex (Robert Wuhl) que tentam descobrir os segredos do vilão e do super-herói que surge na noite de Gotham. Apesar das cenas de ação (muitas embaladas com os gritos de Basinger) o que marcou a produção foi o visual criado pela dupla Anton Furst e Peter Young (que levou para a casa o Oscar de Melhor direção de Arte e Cenários). Burton utilizou o que havia de mais sombrio num personagem inspirado em morcegos para criar sua obra que se tornou um sucesso - custou 35 milhões de dólares e rendeu mais de 400 milhões pelo mundo. Apesar do eficiente Alfred (Michael Gough), os fãs reclamaram do pouco destaque que personagens como Comissário Gordon (Pat Hingle) e Harvey Dent (Billy Dee Williams) receberam na trama. Esperava-se que a aventura seguinte resolvesse esses detalhes. Não foi bem assim. Batman - O Retorno (1992) custou 80 milhões e rendeu pouco mais de 200 milhões, ou seja, teve sucesso abaixo do esperado ao render metade do anterior tendo custado mais do que o dobro. O motivo pode ser a decepção dos fãs que consideraram que o herói aparecia pouco e sem muito destaque na trama, a não ser atrapalhar os vilões na execução dos seus planos. Se por um lado a história dá mais destaque para o grotesco Pingüim (Danny DeVito) em seu plano de matar os primogênitos de Gotham, quem rouba a cena  é Michelle Pfeiffer com a Mulher-Gato mais inesquecível de todos os tempos. Se Pingüim foi abandonado pelos pais por suas deformidades (crescendo nos subterrâneos de Gotham), a Mulher-Gato era a tímida secretária Selina Kyle que é quase assassinada pelo seu chefe, o inescrupuloso Max Schrek (Christopher Walken) e ressuscita com sede de vingança. O roteiro é um tanto confuso e nem sempre o apelo de Pingüim funciona, deixando a atmosfera mais bizarra do que sombria. Enquanto o visual do filme continua irretocável, a direção de Burton mostra-se mais cansada (acho que depois do sucesso de Edward Mãos de Tesoura/1990 seu interesse era firmar-se como autor e não com produções feitas por encomenda). Burton dá sinais de brilhantismo somente quando Pfeiffer e Michael Keaton se encontram em cena. Foi brilhante a ideia de criar uma roupa fetichista para a vilã de chicote em punho (e Pfeiffer merecia uma foto no verbete "sensual" em todos os dicionários). Com problemas em seu encadeamente, Batman - O Retorno foi a última aventura de Tim Burton no universo do Homem-Morcego, mesmo havendo a promessa de um filme solo da Mulher-Gato protagonizada por Michelle (o que nunca se concretizou).  O Oscar lembrou de indicar a maquiagem e os efeitos especiais (que se tornaram mais elaborados do que no filme anterior), mas  a produção não ganhou nenhum. Diante da decepção, a Warner resolveu repaginar o herói em sua próxima aventura nas telas. 

DeVito e Pfeiffer: adivinha quem entrou para a História?

Batman (Reino Unido/EUA-1989) de Tim Burton com Michael Keaton, Jack Nicholson. Kim Basinger e Jerry Hall. ☻☻☻

Batman - O Retorno (Batman Returns/EUA-1992) de Tim Burton com Michael Keaton, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken e Danny DeVito. ☻☻☻

DVD: In The Loop

Addison e Foster: você confiaria seu país a esses caras?

Fazia tempo que não assistia a um filme que abusasse tanto do mais cortante humor britânico e, o mais incrível, dentro de um tema tão delicado quanto as especulações de uma guerra que se aproxima. As piadas e centenas de referências garantiram ao filme uma vaga na corrida pelo Oscar de roteiro adaptado de 2010, onde mostrou-se um verdadeiro peixe fora d'água (já que ninguém esperava sua indicação). Baseado na série The Thick of It, que era produzida e escrita pelo diretor do filme, Armando Iannucci, o longa se mostra uma sátira politicamente incorreta e engraçadíssima sobre as dificuldades de comunicação entre o governo britânico e o americano -  acrescida de uma dose cavalar de incompetência. Tom Hollander (aquele baixinho de Orgulho e Preconceito/2005) está hilário como Simon Foster, o Secretário Britâncio de Estado para o Desenvolvimento Internacional, que sente mais necessidade de dizer alguma coisa do que entender sobre o que está falando. Soltando frases sem sentido sobre a eventual possibilidade de uma guerra, ele está no cargo há 48 horas e já é considerado um idiota. Até o fato de ter a eficiente Judy (Gina McKee) e, o nem tanto,  Toby (Chris Addison) como assessores não é páreo para suas sandices.  A repercussão de suas frases de efeito sem sentido (como "Escalar a montanha dos conflitos") na imprensa repercute no governo americano - que utiliza as declarações boçais de Foster tanto para impedir quanto fazer estourar a guerra. Sem saber muito bem o que está fazendo Foster tem contato com um general  (o ótimo James Gandolfini) e a  Secretária Assistente para Diplomacia Karen Clarke (Mimi Kennedy) que tentam impedir a guerra por motivos mais econômicos do que pacifistas. No meio dessas intrigas comitês secretos são os alvos dos personagens. No entanto, as falas mais absurdamente divertida são do especulador Malcolm Tucker (Peter Capaldi). Como diria uma amiga, o cara tem que lavar a boca com cloro de tão suja que ela é. Além dos palavrões que jorram ele ainda é capaz de chamar Foster de "Julie Andrews Nazista" enquanto chama o Toby de "Bebê Eraserhead" e Judy de "mulher de Traídos pelo Desejo". A propósito, mesmo com toda eficiência, Judy é seu alvo favorito, sendo suspeita por todos os vazamentos de informação para imprensa e ainda é acusada de achar conduzir o seu trabalho como um livro de Jane Austen - sem falar nas ofensas (que não podem ser escritas aqui) sobre cavalos. Enfim, Tucker é um gentleman [sic] capaz de manipular toda a política para satisfazer seus interesses mais mesquinhos (basta ver sua correria ao final para começar e depois adiar a guerra). Ianucci imprime ao filme uma estrutura bastante similar ao seriado The Office, mas não exagera no tom documental. Nem precisava, existe uma quantidade de cenas tão absurdas no filme que ele já teria graça somente com o texto escrito na tela. A cena de James Gandolfini calculando o número de soldados num computador infantil é de rolar de rir, assim como Foster deitado de gravata e cueca recebendo a visita de Tucker: "Você veio aqui só para me humilhar!", já valeria a visita. Além disso o filme ainda tem a grata surpresa de resgatar Anna Chlumsky, a menina que foi o Primeiro Amor (1991) de Macaulay Culkin, que cresceu e apareceu no papel de uma assessora que ficou marcada por escrever um documento, o PP-PIP ("O que é isso é sobre pássaros?", pergunta um personagem), que pode estragar qualquer tentativa governamental de declarar guerra. Com tantos tipos estranhos, os britânicos ganham de lavada em termos de piadas e tropeços governamentais. Divertidamente surreal, In The Loop faz a política deixar de ser coisa séria, mas continuar sendo um campo de jogos de interesses onde o que menos importa é o cidadão comum que vê seu muro desmoronar. 

In The Loop (Reino Unido/2010) de Armando Iannucci com Tom Hollander, Peter Capaldi, Chris Addison, Anna Chlumsky, Mimi Kennedy e James Gandolfini. ☻☻☻☻

DVD: Onde Está a Felicidade?

Lombardi e Larralde: tropeços no caminho de Santiago de Compostela. 

Sei que Onde Está a Felicidade?, último filme da parceria do casal Carlos Alberto Ricceli e Bruna Lombardi (ele dirige, ela escreve e estrela) tem defeitos que chamaram muita atenção da crítica, mas também tem qualidades que transformam o filme numa boa distração para quem só quer se divertir. Lombardi e Ricceli mostram desde o início sua preocupação com a qualidade técnica do longa, a montagem é ágil, a fotografia é excelente, a trilha é bacana, o uso de vinhetas cartoonescas funciona bem e o próprio tema chama a atenção por mostrar a peregrinação de uma mulher em busca da resposta para o título. Bruna Lombardi é Teo, apresentadora de um programa televisivo que ensina a fazer comidas afrodisíacas e que está em crise consigo mesma. Não vou nem dizer que é uma crise no casamento, já que seu esposo Nando (Bruno Garcia) tem o maior jeito de bocó, mesmo flertando com outra mulher pela internet. Quando Teo descobre essa aventura online do esposo, seu mundo desmorona ao ponto de contar suas mazelas ao vivo no programa e se render às pílulas que fazem seu humor oscilar entre a lerdeza e a euforia - cortesia de sua amiga espanhola Aura (a excelente Maria Pujalte). É numa conversa com Aura que Teo resolve fazer a peregrinação pelas centenas de quilômetros do caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, uma caminhada conhecida pela espiritualização que Teo acredita precisar. Longe de ser sério e responder a questão inicial, o filme insere Teo, seu produtor (Marcello Airoldi) e uma sobrinha de Aura (Martha Larralde, que nunca acerta o sotaque) em várias situações ridículas pelo caminho. Algumas são engraçadas e outras nem tanto. Existe um bocado de clichês na caminhada de Teo, mas Lombardi entra na brincadeira mostrando que escreveu o filme para pagar mico e não ganhar prêmios. A estética destrambelhada da história lembra os filmes de Almodóvar no início da carreira, estão lá os figurinos multicoloridos, as falas emboladas e a heroína feminina que precisa redescobrir a autoestima e reservam momentos engraçados para a plateia. Pior do que algumas piadinhas sem graça é a escalação de Bruno Garcia para ser o esposo palerma de Teo, um ator com mais energia  teria mais química com a elétrica atuação de Lombardi. A ausência de química entre os dois acaba comprometendo mais ainda o filme em seu final. Debaixo de toda a bobeira o filme até que consegue dar algumas alfinetadas nas pessoas que sempre projetam a felicidade em algo externo. Dinheiro? Botox? Pílulas? Casamento? Sucesso? Santiago de Compostela? Se Teo não tivesse trapaceado na caminhada até a catedral ou tivesse ficado um tempo quietinha pensando na vida ela poderia ter encontrado a felicidade poderia esta bem perto dela. 

Onde Está a Felicidade (Brasil/2011) de Carlos Alberto Ricceli com Bruna Lombardi, Marcello Airoldi, Maria Pujalte, Bruno Garcia, Martha Larralde, Fernando Alves Pinto e Luís Miranda. ☻☻

DVD: Contra a Parede

Cahit e Sibel: raros momentos de paz. 

Há algum tempo eu escrevi sobre Soul Kitchen (2009) de Fatih Akin e me dei conta de que não havia escrito nada sobre seu premiado Contra a Parede aqui no blog. Contra a Parede foi premiado em vários festivais europeus, incluindo o Festival de Berlim que o elegeu o melhor filme de 2004, além de receber prêmios para os atores e direção. O filme conta a história dos descendentes de turcos na Alemanha do século XXI e seus conflitos entre as tradições rígidas e a modernidade que se espera de um rico país europeu. Akin tem um domínio cênico impressionante e sabe exatamente as cores e as músicas (das turcas até "I Fell You" do Depeche Mode) que deve utilizar para ampliar o efeito do que vivencia seus personagens -  não que eles precisem, já que Cahit (Birot Unel, o cozinheiro conceitual de Soul Kitchen) e Sibel (a bela Sibel Kekilli) são de uma intensidade que beira o operístico. Não fosse pelo gosto pela autodestruição que ambos nutrem, eles jamais teriam se conhecido numa clínica de tratamento para suicidas. Presos numa espécie de limbo pessoal ele vive bêbado coletando garrafas de uma casa noturna enquanto ela quer se render aos prazeres da carne, mas está presa aos hábitos seculares de sua família. Quando conhece Cahit, que apesar de todos os pesares mostra-se um verdadeiro gentleman, Sibel percebe que casar-se com ele poderia melhorar sua vida. O problema é convencê-lo disso, mas ela tem charme suficiente para vender a ideia de um casamento de aparências onde é combinado não haver envolvimento sexual entre eles - onde ela seria a maior beneficiada com a distância da família e a possibilidade de ter quantos parceiros quisesse. Obviamente que o trato não irá funcionar por muito tempo, já que desde o início percebemos que há uma química irresistível entre os dois personagens. São nos arranjos deste casamento que o filme se torna mais leve e bem humorado, explorando a relação de Cahit com os cunhados (onde ele pergunta aos parentes dela por que eles simplesmente não transam com as esposas ao invés de procurar prostitutas e eles repreendem: "nunca diga para 'transar' com nossas esposas"!) e as mentiras contadas para que seja aceito pela família de Sibel.  Como não se trata de um filme previsível, quando tudo parece caminhar para o final feliz, uma série de reviravoltas aparecem para complicar a vida do casal - e a instabilidade emocional de ambos só piora as coisas. As ações ocasionadas pelo ciúme de Cahit geram o desamparo de Sibel e originam os momentos mais tristes do filme. Alguns podem até considerar um exagero os rumos que o filme toma neste momento (especialmente na degradação de Sibel), mas é este ato que consegue exemplificar bem os dilemas que Akin expõe nas  dicotomias entre o tradicional e o moderno. Com as cores fortes das alegrias e tristezas de Cahit & Sibel, o filme é acima de tudo romântico e mesmo com tantos problemas que enfrentam é difícil não torcer para que os dois fiquem juntos ao final. O principal motivo para a torcida são as atuações magníficas de Birot e Sibel que nos fazem compreender até o ato mais disparatado de seus personagens. Flertando com uma estética punk enquanto insere vinhetas com uma banda turca (que se silencia nos momentos mais dramáticos), Atkin busca o mesmo que seus personagens na estética do filme: conciliar uma linguagem cinematográfica moderna com as histórias carregadas da dramaturgia turca. O resultado é um filme intenso e de doer o coração. 

Contra a Parede (Gegen Die Wand/Alemanha-Turquia/2005) de Fatih Akin com Birol Ünel, Sibell Kekilli, Catrin Striebeck e Güven Kirac. ☻☻☻☻

domingo, 15 de julho de 2012

DVD: Uivo

Uivo: outra atuação memorável de James Franco. 

Eu já tinha escutado sobre esse filme estrelado por James Franco, mas, devido à sua temática e formato que mistura documentário e ficção, imaginei que seria um desses casos que fugiriam do meu alcance para sempre. Sorte que ainda existem canais na TV por assinatura que reservam espaço para filmes que a maioria das pessoas consideram esquisitos e até indigestos. O longa da dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman (ambos veteranos de premiados documentários como "Nos Tempos de Harvey Milk"/1984, "Celulóide Secreto"/1995 e "Parágrafo 175"/2000) chamou atenção em Sundance ao contar a história do poeta do movimento beat Allen Ginsberg, ou melhor, sua narrativa multifacetada procura dar conta de uma gama impressionante de informações sobre Ginsberg e funciona por boa parte da sessão. O título se refere à polêmica obra de Ginsberg que serve de ponto de partida para o roteiro. O livro Uivo foi lançado no outono de 1958 com base nas experiências pessoais de Allen com pessoas que conheceu pelo caminho. Essas referências foram transformadas em poemas repletos de angústia e desilusão que alternam momentos iluminados com outros que profetizam o apocalipse. Devido ao uso de palavras impregnadas de conotação sexual, o livro foi  apreendido pela polícia de São Francisco sob a acusação de não ser literatura, apenas uma coleção de obscenidades. Não satisfeito em retratar o julgamento do livro, o filme alterna o julgamento com uma entrevista de Ginsberg (interpretado com magnífica eficiência por James Franco), cenas de flashback em preto e branco, animações baseadas na obra e momentos do escritor recitando para amigos com uma solenidade arrepiante. São cinco segmentos que conseguem ser costurados com bastante competências (as cenas de animação projetadas à voz de Franco alcança o sublime em alguns momentos). O filme revela bastante da personalidade de Ginsberg, sua tentativa de escrever numa espécie de confissão sobre sua personalidade, a forma como lidava com a loucura de sua mãe e amigos, além de seus amores homossexuais. Essas angústias que o personagem parece exorcizar são os mesmos elementos que o julgamento de sua obra tentam ignorar, preferindo deixar toda a tristeza ofuscada pelo uso de palavras que podem ser interpretadas como palavrões, mas que se enriquecem nas metáforas de seus versos. O moralismo americano ainda não estava preparado para ler sobre sujeitos que sacodem "manuscritos e genitais" sobre os telhados ou qualquer outra coisa que fizesse referência a sordidez que estava escondida debaixo do tapete do american way of life. O julgamento é uma verdadeira aula sobre o valor da liberdade de expressão. Afinal como podemos traduzir poesia em prosa? Ou dizer exatamente o que um poeta pensa ao escrever os seus versos? Ou até prever a relevância de uma obra para as futuras gerações? Que dirá estabelecer regras para avaliar o que é literatura ou não? Quando o filme aprofunda essas questões à luz da entrevista reveladora de Ginsberg o filme funciona muito bem (o entrevistador pergunta: "Por que não foi ao julgamento?". Ginsberg responde: "Não sou eu que estou sendo julgado, mas o meu livro"!), guardando o melhor para o final, quando Ginsberg diz como escolhe as palavras ou que muitas vezes ele só entende sua própria obra dois anos depois de escrevê-la. Precisa dizer que o julgamento garantiu a projeção que o livro precisava para se tornar o clássico que inaugurou o movimento beat ao lado de Na Estrada/On the Road de Jack Kerouac (que acaba de virar filme de Walter Salles). No entanto, Uivo se torna um filme cansativo com o passar de uma hora de projeção, os cortes constantes e as repetições de partes do poema podem irritar o mais devoto dos fãs do escritor, porém, nada que a James Franco não compense com sua atuação de mãos inquietas e fala quase arrastada. Acho que Danny Boyle percebeu aqui que o rapaz seria capaz de carregar 127 Horas/2010 nas costas com grande facilidade, afinal Uivo é infinitamente mais difícil de acompanhar, mas Franco torna um programa fascinante na forma como descasca o personagem que se tornou um dos maiores poetas americanos do século XX. Fico impressionado com a forma como Franco conduz sua carreira, você sabia que ele tem Mestrado e Doutorado e leciona na faculdade de Literatura  da Universidade de Nova York na cadeira que ensina como transpor poesia para o cinema? Talvez por isso o ator esteja tão a vontade em Uivo, que deixa claro o interesse do ator em levar o cinema a sério. 

Uivo (Howl/EUA-2010) de Rob Epstein e Jeffrey Friedman com James Franco, John Hamm, David Strathairn, Bob Balaban, Mary-Louise Parker, Aaron Tveit, Alessandro Nivola e Jeff Daniels. ☻☻☻☻

sábado, 14 de julho de 2012

Combo: Desenhos Para Gente Grande

Existem animações para todos os gostos! Muitas são feitas pensando nas crianças e os adultos acabam gostando, outras são feitas com temáticas mais adultas por cineastas que percebem a animação como apenas uma opção de se contar uma história. Talvez com a proximidade das férias e as sequências de animações hollywoodianas eu me lembrei de algumas produções que devem fazer a glória da plateia mais madura - mas isso não impede que alguma criança possa gostar delas. 

05 - Waking Life (2001) Não sou grande amdirador deste filme de Richard Linklater (se eu disser que meu filme favorito dele é Escola de Rock/2003 você vai saber exatamente o motivo), mas sei que ele tem fãs fervorosos - inclusive no meio acadêmico. Filmado com atores de verdade,  a película foi pintada antes de chegar aos cinemas seguindo um estilo chamado de "flash". O resultado é um tanto esquisito, mas cai como uma luva na proposta do diretor de enfileirar filosofices a partir da trama sobre um rapaz que não consegue acordar de um sonho e passa a perambular entre pessoas reais e de seu imaginário. Entre reflexões sobre os estados de consciência dos seres humanos e religiões o filme encontra espaço até para Celine e Jesse, o casal vivido por Julie Delpy e Ethan Hawke no clássico Antes do Amanhecer (1995) que foi retomado três anos depois pelo cineasta em Before Sunset (2004)

04 - Valsa com Bashir (2008) Esta animação deslumbrante do diretor Ari Folman tem alguns momentos que beiram o inacreditável. O que assustou muita gente é que se trata de um documentário sobre a Guerra do Líbano em 1982. Folman é um veterano desta guerra e o filme é uma tentativa de resgatar suas memórias sobre o ocorrido - especialmente sobre o massacre de Sabra e Shatila. Feito através de entrevistas com sobreviventes da guerra em questõa, o filme utiliza o formato animação para driblar o choque que muitas cenas poderiam causar -  mas é esperto o suficiente para saber que mesmo com tanta beleza visual, a realidade precisa aparecer num momento estratégico ao final da sessão. A coragem e originalidade do trabalho de Folman lhe rendeu vários prêmios (incluindo Melhor Filme do Ano pela Sociedade Nacional dos Críticos dos EUA e César de Filme Estrangeiro) e uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro. 

03 - As Bicicletas de Belleville (2002) Esta deve ser uma das animações mais surreais de todos os tempos! Sylvain Chomet fez um dos filmes mais badalados do ano quando misturou a antológica corrida de bicicleta Tour de France, mafiosos, cantoras e uma avó em busca de seu neto sequestrado. Esta vozinha é a portuguesa Madame Souza que cuida do seu neto e desde pequeno o motivou a ser um verdadeiro atleta! Durante a Tour de France o rapaz é sequestrado e resta à Souza procurá-lo na cidade grande ao lado de seu cachorro gorducho. Chomet capricha nos traços estranhos de seus personagens (o neto ciclista que era gorducho da foto ao lado cresce e fica de pernas grossíssimas e corpo fino, os mafiosos de ternos retangulares, o bigode de Souza...) e esquisitices (a pesca de rãs e o genial número musical das cantoras de Belleville). Poucos diálogos e excelente trilha sonora ajudam a contar uma história meio nostálgica e original que tem como ápice o sonho canino mais elaborado de todos os tempos.

02 - Akira (1988) Faz tempo que não vejo Akira, mas sempre que faço qualquer lista sobre animações sou tentado a colocá-lo no topo. Lançado em 1988, o filme de Katsuhiro Ohtomo ainda é uma das animações mais impressionantes que já foram realizadas. Sei que as animações japonesas são vistas com desconfiança devido a alguns desenhos questionáveis que passam na TV, mas os grandes diretores de animação do Japão são famosos pela sua técnica apurada e, especialmente, o cuidado em construir fundos elaborados para suas tramas. Akira é um primor visual numa história digna dos melhores filmes de ficção científica. O tom apocalíptico da história de Kaneda que tem um amigo envolvido num projeto obscuro do governo chamado Akira. O filme mistura gangues de rua, militares, grupos anti-governamentais, cientistas inescrupulosos e ressalta Kaneda como um herói que tenta salvar o mundo do apocalipse. Obscuramente épico, o filme já nasceu clássico.  

01 - Persépolis (2007) Foi difícil escolher o primeiro lugar, mas acredito que esteja nas boas mãos de Marjane Satrapi. Persépolis é uma dessas obras obrigatórias, seja no formato do livro ou do filme que originou. Contando a história da própria Marjane, o filme é um verdadeiro deleite visual. O traço estilosamente simples em preto e branco (igual à HQ em que se baseia) só mostra que a história é poderosa o suficiente para não precisar de muitas firulas visuais. A trama começa pouco antes da Revolução Iraniana e mostra o impacto que um regime ditatorial causa na vida de pessoas comuns. Na adolescência Marjani vai estudar na Europa e o choque cultural é inevitável, assim como sua crise de identidade. Profundo, poético e belíssimo, nem jornais e revistas foram capazes de mostrar o cidadão iraniano com mais profundidade do que este filme assinado por Satrapi e Vincent Paranaud. Ganhou o prêmio do Júri em Cannes e foi merecidamente indicado aos maiores prêmios do cinema.

DVD: Um Gato em Paris

Nico, Zoé e Felino: praticantes de Le Parkour. 

Muita gente foi pega de surpresa quando esta animação francesa cravou uma indicação ao Oscar de animação. Na verdade, quem teve a oportunidade de assisti-la nas poucas salas em que era exibida no Brasil não estranhou muito. O trabalho de Jean Loup Felicioli e Alain Gagnol é de um visual impressionante, que lembra um livro infanto-juvenil em movimento. Não tenho nada contra animações feitas em computação gráfica, mas com o modismo, os desenhos feitos no formato tradicional acabam quebrando a mesmice - principalmente se o traço não tem a intenção de repetir o estilo Disney de desenhar e contar suas histórias. Além do traço estiloso, Um Gato em Paris possui uma trama bastante original, que flerta com histórias policiais sem perder sua leveza. Quem é dono de felinos deve ter cansado de especular para onde eles vão quando deixam o conforto do lar e vão se aventurar pela noite da vizinhança. Este foi o ponto de partida de Gagnol para criar o filme. Zoé é uma menina que não pronuncia uma palavra, ela mora com a mãe e um gatinho que à noite se aventura ao lado de um ladrão, Nico. Depois de suas aventuras ele volta para casa e se rende aos carinhos da menina - e às implicâncias da babá que toma conta de Zoé enquanto a mãe dela trabalha. A mãe de Zoé, Jeanne é uma delegada que está intrigada com as pistas de um certo ladrão de jóias que deixa vestígios felinos como pêlos e patinhas pelo chão. Além disso, Jeanne tem a chance de capturar o gangster Victor Costa, responsável pela morte do seu esposo policial e a oportunidade para isso se aproxima com a chegada à cidade de um artefato raro que chama a atenção do bandido. O problema é que o interesse de Nico pela mesma peça irá gerar algumas confusões que colocarão Zoé em perigo. O roteiro de Alain Gagnol capricha na criação da ação e gera cenas de perseguição pelos telhados parisienses como se todos em cena fossem praticantes de parkour. Com ritmo e tensão crescente embalando o traço estiloso,  o único problema do filme é a duração (70 minutos). O roteiro é um exemplo de concisão, mas se fosse mais longo daria para aprofundar mais a relação que se anuncia entre o "bom ladrão" Nico e Jeanne. De todos os personagens é Nico o menos desenvolvido, mas seu traço tem tanto charme que nem ligamos para isso, torcemos por ele porque diante do vilão em cena, Nico se torna protetor de Zoé. A animação foi um sucesso nos cinemas franceses (rendendo mais de um milhão nas bilheterias) e conquistou fãs pelo mundo pela coesão com que apresenta seu traço infantil embalando uma trama que deve agradar muita gente grande. A forma como o filme reproduz os movimentos do bichano e dos gatunos sobre os telhados é de uma precisão impressionante, um detalhe técnico que torna-se uma saborosa cereja neste filme que entra na lista de animações cultuadas e cheias de estilo. 

Um Gato em Paris (Une Vie de Chat/França-2011) de Jean Loup Felicioli e Alain Gagnol com vozes de Dominique Blanc, Bruno Salomone e Oriane Zani ☻☻☻☻