sábado, 31 de outubro de 2015

IPØD3: Darth Vader

TRÊS MÚSICAS PARA DARTH VADER:

#3 "Supermassive Black Hole" / Muse

#2 "Come to Daddy" / Aphex Twin

#1 "The Imperial March" / John Williams


N@ CAPA: Daddy Vader


A Capa de outubro foi uma singela homenagem ao dia das crianças comemorada no dia 12 desse mês, mas que muitos ficaram mais atentos ao papai ilustre que apareceu durante todo o mês. A capa foi baseada nas obras de Jeffrey Brown, que imagina como foi a infância de Luke Skywalker e Princesa Léia ao lado do papai Darth Vader em "Darth Vader e o Filho" e "A Princesinha de Vader". Divertido os livrinhos se tornaram um grande sucesso editorial e gerou até um terceiro livro: "Darth Vader and Friends" . A seguir outras ilustrações de Jeffrey Brown e o próprio autor...






Jeffrey Brown

PL►Y: A Dama Dourada

Mirren e Reynolds: quem disse que eles precisam ser engraçados? 

Simon Curtis é um diretor e produtor inglês renomado, principalmente pelos seus trabalhos na TV, no cinema, ele ainda precisa de um pouco mais de... estilo, já que seus filmes costumam ser um tanto engessados, nunca alcançando todas as notas que deveria. Foi assim com Sete Dias com Marilyn (2011), que precisou da ajuda de Michelle Williams para ficar acima da média (mesmo com uma temática espetacular em mãos). Esse ano ele chamou a venerada Helen Mirren para ajudar em A Dama Dourada. O resultado dividiu opiniões e ficou bem longe da bilheteria desejada (e ainda teve a estreia antecipada para abril, bem longe de suas ambições para a temporada de ouro do cinema). O filme conta a história de Maria Altmann (Helen Mirren), uma senhora de origem austríaca que vive nos Estados Unidos desde que fugiu da perseguição nazista na Segunda Guerra Mundial. Maria tem algumas contas a acertar com o passado, especialmente com as obras de arte de sua família que foram roubadas pelos nazistas. Entre as obras está a famosa tela A Dama Dourada (na origem chamada de Retrato de Adele Bloch-Bauer) de Gustav Klimt, que tornou-se uma referência da identidade austríaca (mas que somente Maria sabe que trata-se de um retrato de sua tia Adele). O problema é como  uma senhora judia conseguir de volta um presente de sua família que está há tanto tempo no museu mais imponente da Áustria? Para a empreitada ela conta com um advogado em início de carreira, que não tem muito a perder e precisa reencontrar suas origens. Não deixa de ser uma ousadia ter escolhido Ryan Reynolds para viver o jovem advogado Randy Schoenberg que (assim como o ator) tem pouco mais do que boas intenções para ajudar uma amiga de longa data de sua família. O filme é pautado nas disputas judiciais travadas pela dupla contra uma estrutura que não se sente na obrigação de quitar uma dívida antiga com as famílias que enfrentaram os horrores do holocausto. Curtis costura cenas do presente e do passado de Maria (onde é vivida por Tatiana Maslany da série Orphan Black)  e o resultado consegue ser coerente, ainda que morno. A Maria de Helen Mirren sofre demais com um roteiro que possui uma ideia, mas encontra dificuldades para construir sua história. O mais interessante é que a parte referente ao passado parece mais bem desenvolvida do que a atual, onde Maria surge como uma dama inglesa cheia de tiques e manias auxiliada por um advogado desastrado. Talvez o problema de Curtis seja o mesmo de um bando de outros diretores ainda inseguros que acham que para o público se identificar com os personagens, estes precisam ser engraçados. Não precisa (na maioria das vezes parecem apenas bobos). Nem vou entrar no mérito do filme ser previsível (afinal trata-se de uma história real), mas história das famílias que ainda lutam para reconquistar as obras de suas famílias, que foram roubadas durante a Segunda Guerra Mundial, já é séria e consistente o suficiente para não necessitar de gracinhas por nossa simpatia. 

A Dama Dourada (Woman in Gold/Reino Unido - 2015) de Simon Curtis, com Helen Mirren, Rayn Reynolds, Daniel Brühl e Kate Holmes. ☻☻

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

NaTela: Beasts of No Nation

Abrahan e Idris: já vi esse filme. 

Muito se comenta sobre a chance do Netflix conseguir indicações ao Oscar por sua primeira empreitada no mundo do cinema. Lançado no serviço de streaming no da 16 de outubro, o filme causou polêmica por ser disponibilizado na internet enquanto a companhia tentava vendê-lo para as salas de cinema. As grandes companhias descartaram essa possibilidade, mas meia-dúzia de salas toparam o desafio de exibi-lo. No Brasil ninguém se candidatou à empreitada e os assinantes do Netflix já ajudaram a fazer o filme o recordistas de acessos de longa-metragens em sua estreia no site. Ainda me pergunto o que fez com que entre tantos projetos, os produtores do Netflix escolhessem uma trama ambientada na África, com doses cavalares de violência e crianças portando armas. Penso que ao mesmo tempo que ganham a força de um tema politizado, conseguem agradar quem curte cenas de ação bem executadas. Conciliando sua audiência mais cabeça e os que curtem filmes de ação, o filme já provou ser um sucesso. O filme começou a carreira muito bem disputando o Leão de Ouro no Festival de Veneza (mas ganhou apenas o prêmio de ator revelação para o menino Abrahan Attah) e sendo exibido no Festival de Toronto, tendo a assinatura de Cary Joji Fukunaga (que ganhou muito prestígio depois de dirigir a ótima primeira temporada do seriado True Detective na HBO, mas vale a pena conferir sua versão de Jane Eyre/2011 com Michael Fassbender), foi ele que escreveu e dirigiu o filme. Embora eu considere o roteiro um tanto frouxo, a direção consegue compensar isso com uma tensão crescente e incômoda diante da história de Agu (Abrahan Attah), um menino que vivia num vilarejo de um país indefinido no oeste africano com a família, até que a guerra invade sua vida. A mãe e o irmão mais novo fogem para a capital, ele fica com o pai e o irmão mais velho, mas diante da morte de ambos, ele precisa lutar pela própria sobrevivência. Ele foge para a floresta e acaba recrutado por um comandante sanguinário (o excelente Idris Elba) e seu bando da Força de Defesa Nativa.  Tem início então a dura vida de Agu no mundo dos guerrilheiros, fazendo com que deixe a infância para trás e se torne uma criança-soldado. Encarando a morte a todo instante, Agu percebe que não poderá voltar a ser a mesma criança de antes. Ancorado em cenas fortes, no carisma de Abrahan e no talento de Elba (que dá conta de nuances complicadas de um personagem execrável), o filme faz algumas opções que me incomodam bastante. A primeira é a parte inicial, que apresenta a família de Agu como se fosse composta por personagens de uma sitcom, o que rende uma artificialidade que não combina com o choque realista que o filme promovera em seguida. Outro ponto é o fato da guerra civil ser cuspida na tela. Como tantos outros filmes que retratam a guerra civil no território africano, parece que ela surge ao acaso, sem explicação de um lado ou de outro, servindo apenas para empilhar cadáveres. Diante disso, o fato do filme utilizar todos os recursos geradores de polêmica (crianças armadas, consumos de drogas, prostituição, pedofilia...) para dar ao público a sensação de que ver o filme é um exercício de ajudar a fazer um mundo melhor, acho estranho o país não ter nome, não sabermos a causa de nada do que vemos na tela, reduzindo tudo ao um espetáculo de violência. Pode parecer que sou duro demais com o filme, mas não sei se o que vi era a intenção do livro do médico nigeriano Uzodinma Iweala (que fez o livro como sua tese em escrita criativa em Harvard), tudo me pareceu um longe déjà vu apelativo, mas o problema deve ser que eu já vi muito filme com história semelhante - especialmente Rebelle/2012 (aqui chamado A Feiticeira da Guerra), um filme canadense, pouco conhecido, que concorreu ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2013. Acho que Beasts of No Nation terá grande obstáculos para chegar ao Oscar, mas pelo menos Idris Elba merecia ser lembrado por, sempre que entra em cena, me fazer esquecer minhas ressalvas quanto ao filme. 

Beasts of No Nation (EUA/2015) de Cary Joji Fukunaga com Abrahan Attah, Idris Elba,  Andrew Adote e Bernard Quaye. ☻☻

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

APOSTAS PARA O OSCAR 2016 - CAPITULO I

Se você percebeu que estão chegando aos nossos cinemas obras de diretores importantes (Ridley Scott com Perdido em Marte, Robert Zemeckis com A Travessia, Guillermo Del Toro com A Colina Escarlate, Steven Spielberg com Ponte de Espiões...) você não está enganado, a temporada de ouro do cinema americano acaba de chegar (e todos os citados tem intenções (e chances) de aparecer nas premiações que se aproximam (assim como Divertida Mente e Ex-Machina, que podem figurar entre categorias importantes). Ano passado as minhas primeiras apostas para o Oscar já continham o maior premiado do ano (com quatro estatuetas, incluindo melhor filme, diretor e roteiro original), o premiado na categoria de melhor ator e atriz coadjuvante. A melhor atriz veio somente na postagem seguinte e o ator coadjuvante apareceu na conclusão de minhas apostas (e foi a maior surpresa da cerimonia do ano passado com três prêmios). Ou seja, são grandes as chances do favorito ao Oscar 2016 estar nessa lista abaixo: 

O Regresso (The Revenant)
Leonardo DiCaprio tem cinco indicações ao Oscar, uma como produtor, mas nenhuma estatueta na estante. Esse ano ele tenta quitar essa dívida pessoal ao se entregar ao diretor Alejando González Iñárritu nessa história de vingança ambientada em 1820. Hugh Glass (Leo) escapa da morte e busca aqueles que o abandonaram após o ataque de um urso. Sua jornada atravessa um temeroso inverno... muito elogiado a questão é se a Academia irá premiar novamente uma obra do diretor de Birdman

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)
Se Alejandro pode repetir o sucesso em 2016, o mesmo pode acontecer como Eddie Redmayne que tem fortes chances de ser premiado como melhor novamente. Depois de viver Stephen Hawking em A Teoria de Tudo, o ator vive Einar Wegener, o primeiro homem a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. Ele se torna Lili Elbe e mantem seu casamento com Gerda Wegener (papel de Alicia Vikander), o que provocou uma mudança nos paradigmas das relações de gênero. O filme tem a assinatura ilustre de Tom Hooper, mas os maiores elogios giram em torno de Eddie, que pode ser o terceiro ator na História a ganhar o Oscar de melhor ator por dois anos consecutivos. 

O Quarto de Jack (Room)
Assim como The Danish Girl, o Room de Lenny Abrahamson foi exibido no Festival de Toronto, a diferença foi que saiu de lá com o prêmio de melhor filme exibido no Festival - o que não é pouca coisa. Sendo assim, a adaptação da obra de Emma Donoghue ganhou fôlego para o Oscar, especialmente pela atuação de Brie Larson (a menina de ouro do cinema indie atualmente). Jack é uma criança de cinco anos que viveu desde pequena presa num  quarto sob os cuidados da mãe - mas um plano arriscado para fugir irá mudar tudo. Este drama com toques de suspense promete ser uma das grandes surpresas e, com fortes chances de surpreender. 

Aliança do Crime (Black Mass)
Depois de alguns fracassos de bilheteria, Johnny Depp conta com o diretor Scott Cooper para dar uma levantada em sua carreira. Depp assumiu o risco de usar uma maquiagem que o deixou irreconhecível na pele do criminoso Whilter Bulger - que tornou-se informante do FBI para prender sua família mafiosa de Boston. O elenco impressiona e os elogios em torno do filme crescem cada vez mais por expor a estranha dinâmica do FBI com um dos seus dez criminosos mais procurados e... Depp tem a chance de conseguir sua quarta indicação ao Oscar (e ser premiado finalmente) mas no páreo terá colegas que também esperam sua primeira estatueta na estante, como por exemplo, Sir Ian McKellen... mas isso fica para a próxima lista. 


Steve Jobs 
Michael Fassbender tornou-se um dos atores mais interessantes em atividade, provando que pode ser qualquer coisa (líder terrorista em greve de fome, senhor de escravos, ninfomaníaco, vilão mutante, artista problemático...), agora ele encarna um dos maiores ícones da tecnologia. O filme de Danny Boyle faz o filme lançado anos atrás com Ashton Kutcher parecer ainda pior, já que Boyle e Fassbender não tem pudores em descascar as virtudes e falhas na jornada do seu retratado. Se não apresenta novidades, o resultado ainda é capaz de impressionar e tornar-se um forte concorrente perante os demais. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PL►Y: Creep

Mark: sujeito esquisito. 

Mark Duplass é um dos artistas mais influentes do cinema independente. Produtor, diretor, roteirista e ator, Mark tem uma queda por comédias dramáticas, mas, recentemente se aventurou por filmes de terror. Foi assim que causou certo alvoroço em festivais quando emprestou sua figura simpática para um filme feito com câmera (trêmula) na mão onde vive um sujeito muito esquisito. O filme conta a história de um videomaker chamado Aaron (Patrick Brice, que também assina a direção e o roteiro do filme), que responde a um anúncio de quem precisa de seus serviços por um dia. Aaron segue para o endereço indicado, um local afastado, no meio de um bosque, sem outros moradores por perto... é ali que conhece Josef (Duplass, que também assina o roteiro e a produção), um sujeito de olhar estranho e que desde o início demonstra interesse em provocar sustos no seu contratado. Josef conta que sua esposa está grávida, mas que por conta do câncer que se espalha pelo seu corpo, ele não poderá conhecer o herdeiro, por isso, teve a ideia de filmar um dia de sua vida para que o filho pudesse conhecê-lo melhor.  O filme então gasta tempo com imagens prosaicas sobre o personagem, mas que revela aos poucos (em alguns momentos de forma cômica) que existem alguns parafusos fora do lugar... A tensão (a sexual, inclusive) cresce vagarosamente, até que os aspectos mais sombrios do personagem começam a surgir. Ainda que Creep siga aquele estilo de documentário fake tão em moda ultimamente, com câmera trêmula e roteiro frouxo, ele tenta subverter um pouco alguns paradigmas desse estilo. Embora não seja surpreendente, o filme beneficia-se muito da eficácia de Duplass em direcionar olhares arrepiantes para a câmera, construindo um sujeito sutilmente doentio. Elementos como a assustadora máscara de lobo e o belíssimo plano utilizado no último encontro dos personagens fazem a diferença durante no que começou como a ideia de uma comédia de humor negro e descambou para o horror. Talvez seja essa mudança de foco que deixou a produção um pouco irregular, mas ainda assim, coerente com o estilo a que se dedica, sobretudo por manter a tensão com somente dois atores em cena. 

Creep (EUA-2014) de Patrick Brice com Mark Duplass e Patrick Brice. ☻☻

domingo, 25 de outubro de 2015

FILMED+: O Labirinto do Fauno

O Fauno e Ofelia: a fantasia que nasce da realidade. 

Existem filmes que deixam aquela sensação incrível de ter assistido a uma verdadeira obra-prima. Uma sensação tão subjetiva quanto esquisita, raramente sentida, uma mistura de alegria, estranhamento, satisfação e, às vezes, de nó na garganta. O Labirinto do Fauno se enquadra em todos esses quesitos citados . O mexicano Guillermo Del Toro realizou sua obra-prima em seu sexto filme - o terceiro em sua língua materna. Antes ficou famoso em Hollywood com aventuras de sucesso como Blade II (2002) e Hellboy (2004) - nos quais ajudou a consolidar uma linguagem mais séria nas adaptações de HQ para o cinema. Embora sejam diferentes em sua origem, existe um traço semelhante em todas as suas obras: a fantasia. Afinal, o uso de criaturas fantásticas na criação de seus enredos, sejam fantasmas, vampiros, demônios, insetos estranhos ou figuras folclóricas, todos eles aparecem em suas tramas de forma geralmente incomum, o que reflete o fascínio do diretor pelo que os literatos chamariam de maravilhoso. Foi com O Labirinto do Fauno que o diretor explicou seu interesse por essa abordagem cinematográfica, afinal, o longa retrata como a fantasia e a realidade podem ser muito semelhantes, ainda que com características distintas. O magistral roteiro conta a mesma história sobre dois prismas específicos a partir da menina Ofelia (Ivana Baquero). Ofelia muda-se ao lado da mãe grávida (Ariadna Gil) para a casa do padrasto, um rude militar espanhol chamado Vidal (o ótimo Sergi López), que enfrenta problemas para domar os rebeldes que vivem nas redondezas. Diante da violência do lugar, o interesse de Ofelia pelos contos de fada torna-se ainda maior, principalmente depois que ela encontra um fauno (Doug Jones, um sujeito que é craque em viver criaturas no cinema) que afirma que ela é uma princesa e precisa lutar  para libertar seu povo de criaturas do mal. Para isso ela deve ser virtuosa, obediente e corajosa, caso contrário as consequências serão terríveis. Enquanto conhecemos a aventura de Ofelia num mundo mágico, acompanhamos a trajetória dos rebeldes que são auxiliados pela empregada do capitão (papel de Maribel Verdu), que pretendem acabar com a tirania de Vidal. Além da brilhante condução nas duas horas de filme,  Guillermo Del Toro capricha não apenas nos cenários, nos figurinos, na fotografia, nos efeitos, na maquiagem, mas também na costura de suas tramas, demonstrando que a fantasia está longe de ser uma fuga da realidade, mas uma releitura do mundo que está diante dos nossos olhos. O Labirinto do Fauno é uma ode à fantasia em seu estado mais significativo, não a que a faz parecer alienante ou vazia, mas a que retrata o mundo concreto de forma mais lúdica para que possamos perceber os absurdos que nos cercam. Belo, trágico e único, o filme ainda está entre os dez melhores filmes dos últimos dez anos - e numa posição bem segura. 

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno/Espanha-México-EUA/2006) de Guillermo Del Toro com Ivana Baquero, Sergi López, Doug Jones, Maribel Verdu, Ariadna Gil e Roger Casamajor. ☻☻☻☻☻

§8^) Fac Simile: Charlie Hunnam

Charles Matthew Hunnam
Prestes a ver uma sessão de A Colina Escarlate em Londres, nosso repórter imaginário encontrou com o ator britânico Charlie Hunnam comprando doces para a sessão que também assistiria.  Surpreso ao ser reconhecido, Charlie foi convencido a responder cinco perguntas nessa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Como foi ser o mocinho de A Colina Escarlate?

Charlie Foi engraçado, eu trabalhei com Guillermo em Círculo de Fogo/2013 e não imaginava que ele gostasse tanto do meu trabalho. Sei que meu papel é pequeno, mas fiquei muito satisfeito com o resultado. Não é todo dia que temos um cara tão bonzinho em mãos.

§8^) E isso foi logo depois que a mulherada reclamou de sua escalação para 50 Tons de Cinza, onde viveria Christian Grey. Como foi se sentir tão rejeitado?

Charlie Achei engraçado porque a mulherada não costuma reclamar! Mas é difícil rivalizar com um personagem que ficou tão forte no imaginário do público. Eu não entendi muito bem, mas no fundo, senti um certo alívio quando abandonei o filme. A pressão que eu senti na época foi absurda... e o filme ficou uma porcaria, o que me deixou muito mais tranquilo. 

§8^) Apesar de pouco conhecido, você já fez papéis muito variados. Lembro que a primeira vez que o vi na telona foi em Nicholas Nickleby (2002), também acompanhei você na série Sons of Anarchy...

Charlie Caramba! Você lembra de Nickleby... quando o filme foi indicado ao Globo de Ouro foi sensacional! Realmente foi uma surpresa! Mas... tive uma amigas que disseram que foi Sons of Anarchy que pesou contra as fãs do Grey, era realmente um ambiente agressivo demais e devem ter pensado que seria algo como 50 Sons of Anarchy no fim das contas... 

§8^) Teve gente que falou que o problema era com a sua nudez frontal...

Charlie kkkk! Sério?! Mas nem teve cena de nudez frontal masculina no filme... e os efeitos especiais sempre podem ajudar nessas horas...

§8^) Acha que precisaria?

Charlie kkk... bem... como já disse antes, a mulherada não costuma reclamar! Mas eu acho que o efeito deveria ser ao contrário do que você imagina! Sempre acho que aquele monte de bugiganga do quarto vermelho é para compensar alguma coisa no Grey... só acho...

NaTela: A Colina Escarlate

Mia, Tom, Jess e Charlie: bebendo na fonte gótica. 

Ao terminar a sessão, um rapaz que estava por perto - e esclareceu aos seus amigos que era um filme de Guillermo Del Toro - decretou "Fraquinho". Muita gente que considera conhecer o cineasta por Círculo de Fogo/2013 (que meu organismo considera uma espécie de sonífero... já tentei assistir umas cinco vezes e sempre durmo) realmente irá considerar o filme ruim. Mas quem conhece um pouco mais da carreira do diretor, sobretudo seu irmão direto A Espinha do Diabo/2001, irá perceber que o filme é muito mais coerente com o universo do diretor. Com inspiração na literatura gótica, o filme conta a história de uma mocinha chamada Edith (Mia Wasikowska), que desde pequena é assombrada pelo fantasma da mãe (que sempre lhe avisa sobre algo referente à uma tal Colina Escarlate). Crescida, Edith quer ser escritora, mas encontra dificuldades pelo seu gosto por histórias da fantasmas. Enquanto aspira ser escritora, conhece o baronete Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), pelo qual sente uma atração quase instantânea - maior do que a demonstrada pelo médico Alan McMichael (Charlie Hunnam), seu amigo de longa data.  O pai de Edith não gosta nem um pouco da presença de Thomas (e tão pouco dos seus planos de extração de argila na propriedade da família Sharpe na Inglaterra), o coroa também não simpatiza muito com a irmã do baronete, Lucille Sharpe (Jessica Chastain), mas isso não evitará que após uma tragédia familiar, Edith se case com Thomas e vá viver com ele na sombria propriedade dos irmãos: um castelo, caindo aos pedaços e que guarda segredos que irão assombrar a nova moradora. Quem ficar atento, irá perceber que Guillermo investe num texto cheio de tiradas metalinguísticas (especialmente no início), basta ouvir Thomas dizendo gostar dos dois capítulos mais românticos do livro de Edith antes que os fantasmas apareçam, ou como ele se identifica com a complexidade do herói romântico da obra. Para além do discurso meta, A Colina Escarlate ainda apresenta uma nobreza decadente, que não encontra espaço num novo modelo sócio-econômico e político. Quem não soube se adaptar, apenas dilapidou toda a fortuna, como o Barão Sharpe - que deixou os filhos à míngua enquanto atormentava a esposa. São esses segredos do passado que fazem a graça do filme e (conforme dizem várias vezes durante a projeção), é ele que os fantasmas representam. Os tormentos de Lucille e Thomas para reconquistar um lugar no mundo a qualquer preço é o motor da história enquanto a casa em pedaços  afunda conforme Thomas revira a argila vermelha da propriedade. Entre borboletas, mariposas e espectros vermelhos, A Colina Escarlate mantem a elegância e entrega uma das melhores megeras que esse tipo de filme já exibiu. Jessica Chastain compõe uma Lucille espetacular e parece se divertir muito durante todo o filme, sua atuação é tão cheio de nuances que os outros atores ficam um ponto abaixo de seu magnetismo contido até a hora que precisa crescer ainda mais em cena. No fundo, Lucille parece ser o maior fantasma do filme, mas há de se destacar que Guillermo fez um belíssimo trabalho ao batalhar a construção de uma casa arruinada de verdade (que mesmo em suas partes inteiras, parece estar pela metade), que ao lado dos figurinos exuberantes (ainda que estranhos) confere uma plasticidade única ao filme. Existem sustos e fantasmas no filme, mas são esses detalhes de um mundo que estava em transição que fazem a diferença. Quem prestar atenção nisso perceberá que o filme está longe de ser fraquinho. É verdade que faltou algum toque especial que o fizesse ser uma obra-prima como O Labirinto do Fauno (2006), mas isso já seria pedir demais, afinal, antes de ver as belíssimas imagens que ilustram os créditos finais eu já estava satisfeito com o resultado. 

A Colina Escarlate (Crimson Peak/ EUA-2015) de Guillermo Del Toro com mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain, Charlie Hunnan e Jim Beaver. ☻☻☻☻

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

PL►Y: A Entrega

Hardy e Rapace: pitbull head.

Acho que não é novidade que Tom Hardy é um dos atuais queridinhos de Hollywood.  O sucesso de Mad Max: Estrada da Fúria, o fato de ser o favorito de Hugh Jackman para ser o novo Wolverine  e estar em cinco produções de 2015, só ressaltam como Edward Thomas Hardy, de 38 anos (o que prejudica um bocado para ser um Wolverine mais jovem) vive um bom momento em sua carreira. Vale ressaltar que em 2013 e 2014 o ator desacelerou seu ritmo estrategicamente para evitar que sua imagem (um tanto desleixada) ficasse gasta. Sendo assim, em 2013 carregou o elogiado Locke nas costas e, ano passado, esteve presente somente neste A Entrega, filme de estreia do belga Michaël R. Roskam  em solo americano. Embora não seja tão marcante quanto seu primeiro longa (indicado ao Oscar de filme estrangeiro), o ótimo Bullhead/2011, Roskam confirma seu gosto por personagens desajustados que alternam ternura e violência, sendo assim, Tom Hardy tem um excelente material para trabalhar na pele de Bob. Bob é um sujeito tranquilo que trabalha no bar ao lado do primo Marv (James Gandolfini, infelizmente já falecido no período de lançamento do filme), no entanto, uma série de acontecimentos irá modificar o olhar que temos sobre ele. Afinal, ele é um sujeito que encontra um cachorro abandonado na lixeira de uma desconhecida (a sueca Noomi Rapace) e sente-se quase obrigado a cuidar do bicho com marcas de maus tratos. O cãozinho serve para que se aproxime da tal desconhecida, que chama-se Nádia e que tem um passado complicado. Esse passado se chama Eric Deeds (Mathias Schoenaerts, protagonista de Bullhead), um homem com fama de perturbado que se identifica como dono do cachorro e passa a perseguir o casal. Não bastasse isso, o bar que Bob e Marv trabalham é assaltado e descobrimos o envolvimento do estabelecimento com a máfia local - que anda com a pulga atrás da orelha. Embora Roskan deslize em alguns momentos (sobretudo com as várias coincidências do roteiro), tem a sorte de acreditar na força de Hardy defender o filme, que necessita de sua crescente tensão. De fala macia, olhos inofensivos, andar um tanto travado, a plateia vai perceber que a passividade de Bob, diante de um mundo que se acha mais esperto que ele (#sqn), é exageradamente proposital. Embora seja menos interessante do que as pretensões de seu diretor, A Entrega, convence como um suspense eficiente, que desenvolve-se aos poucos, referenciado no cinema de Martin Scorsese da década de 1970. Para quem acompanha a carreira de Roskam (e vale a pena procurar Bullhead), podemos perceber seu olhar naturalista sobre seus protagonistas. Se no filme anterior, a analogia com touros era inevitável, agora, seu personagem parece associado ao filhote de pitbull - o qual protege como se fosse sua própria cria. Bob é tão passivo quanto o cãozinho, que conforme Nadia argumenta, depende do seu dono para tornar-se feroz... 

A Entrega (The Drop/EUA-2014) de Michaël R. Roskam com Tom Hardy, Noomi Rapace, James Gandolfini, Matthias Schoenarts, John Ortiz e James Frecheville. ☻☻☻

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

PL►Y: Êxodo - Deuses e Reis

Ramsés e Moisés: tensão entre dois irmãos. 

É preciso ter coragem para filmar a mesma história de um dos maiores clássicos do cinema. Pois Ridley Scott resolveu provar que é realmente corajoso para pegar a história do clássico Os Dez Mandamentos (1956) e fazer um outro filme. Acredito que ele sabia que mesmo com todos os recursos tecnológicos disponíveis hoje em dia, seu filme tinha mais chances de receber críticas mais severas na comparação com a obra de Cecil B. DeMille. O filme conta a história de Moisés (o galês Christian Bale) que começa a descobrir suas origens enquanto cresce os embates com o faraó Ramsés (o australiano Joel Edgerton) e percebe que tem uma missão divina pela frente. Os dois foram criados juntos, mas quando Moisés descobre que é hebreu, fica cada vez mais incomodado com a escravidão de seu povo. Como a relação entre os dois fica insustentável e Moisés  parte para outras terras, casa-se, tem um filho e começa a conversar diretamente com Deus (aqui encarnado por um menino) que o alerta que se Ramsés não rever seus conceitos de seu reinado, coisas muito ruins irão acontecer. A história bíblica é mais do que conhecida, mas os (quatro) roteiristas encontram bastante dificuldade para costurar uma história repleta de elementos fantásticos que deveriam render um grande filme. Estão lá as pragas do Egito, a travessia do mar vermelho, a morte dos primogênitos, os efeitos especiais para ilustrar a fúria divina, mas o que se percebe é um conjunto de ideias costuradas por um roteiro problemático. Primeiro, desde o início enfrentam a dificuldade de construir diálogos que prestem, já que quase todos parecem quebrados, dispensáveis na compreensão da história, ao ponto de mais confundirem do que esclarecerem aspectos da narrativa. Para além disso existe a necessidade do filme ser espetacularmente épico, gerando algumas cenas de ação que ganham mais destaque do que deveriam no decorrer da história (aquela primeira batalha é tão abrupta que o espectador não faz a mínima ideia do motivo dela ocorrer). Nem vou mencionar o fato da crítica ter encrencado com o fato do filme ter em papéis de destaque somente caucasianos, já que todo mundo sabe que Hollywood não existe para bancar um candidato a blockbuster estrelado por estrangeiros egípcios. É verdade que o filme tem algumas ideias interessantes como investir num Moisés mais humano, enfatizar a relação entre ele e Ramsés, procurar justificar as pragas do Egito (em explicações bastante didáticas que nem eram necessárias diante das cenas bem encadeadas) e a travessia do Mar Vermelho. No entanto, o apego à ciência não consegue justificar alguns detalhes bíblicos que o roteiro (sabiamente) nem se atreve a explicar cientificamente. Êxodo - Deuses e Reis não chegou nem perto de alcançar as pretensões de fazer sucesso nas premiações e nas bilheterias, mas não é o desastre que muitos apontaram -  mas também está longe de ser inesquecível. 

Êxodo - Deuses e Reis (Exodus - Gods and Kings/EUA-2014) de Ridley Scott com Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Ben Mendelsohn, Ben Kingsley e Sigourney Weaver. 

domingo, 18 de outubro de 2015

Pódio: Isabella Rossellini

Bronze: A bruxa
3º A Morte Lhe Cai Bem (1992) 
Ícone de beleza no mundo fashion nas décadas de 1980 e 1990, Isabella foi a escolha certeira de Robert Zemeckis para viver a estranha Lislie Von Rhuman, espécie de feiticeira que vendia a beleza eterna a quem a procurasse. Com grande influência em Hollywood, seus seguidores nem imaginam que a eternidade alardeada por ela era tão eterna que permanecia até se a pessoa morresse (!!) e começasse a se decompor! Ainda que não tenha muita complexidade em cena, Isabella tem presença marcante em cenas que sempre sugerem uma nudez que só ressalta a estranheza de uma de suas personagens mais conhecidas. Vale para lembrar a boa forma da atriz que hoje vive matriarcas na sétima arte. 

Prata: a doce adúltera
2 Um Toque de Indidelidade (1989) 
Eis um verdadeiro clássico romântico de quando a Sessão da Tarde ainda garantia boas produções. Joel Schumacher dirigiu essa simpática refilmagem de um filme italiano onde Isabella vive a doce Maria, esposa traída de Tom (William Petersen muito antes de CSI), que se envolve com Tish (Sean Young), esposa de Larry (Ted Danson) que tem um fiapo de parentesco com Maria. O filme desenvolve as relações dos personagens de maneira mais que eficiente e Isabella confere uma leveza tão grande em seu interesse por Larry que parece até possível apaixonar-se por Ted Danson!!! 

Ouro: A cantora. 
1º Veludo Azul (1986)
Se a mãe Ingrid Bermgman é sempre lembrada por Casablanca/1942, Isabella é sempre lembrada por sua parceria com o cineasta David Lynch neste que muitos consideram sua obra-prima. O papel da cantora que se apaixona por um rapaz mais jovem enquanto sofre nas mãos do namorado abusivo, transformou Isabella em uma estrela. O filme lhe rendeu o Independent Spirit de Melhor Atriz, mas causou o rompimento do seu contrato com a gigante dos cosméticos Lancôme (que não curtiu a atmosfera do filme). O filme ainda criou alvoroço com o affair da atriz com Lynch (que começou quando ela ainda era casada com Martin Scorsese). Por suas histórias dentro e fora da tela, Veludo Azul é o momento mais marcante de Isabella.

.Doc: Green Porno Ao Vivo

A aranha e Isabella: biodiversidade sexual natural.

Isabella Rosselini foi uma das mais cobiçadas estrelas antes do final do século XX, no entanto, a filha da atriz Ingrid Bergman (Casablanca/1942) e do diretor Roberto Rossellini nunca fez questão de ser convencional. Basta lembrar que seu relacionamento mais célebre foi com o cineasta David Lynch  - que terminou o namoro por ela insistir em cozinhar todos os dias (?!). Seguindo a carreira de atriz e modelo, foi com Lynch que realizou seu filme mais famoso: Veludo Azul (1986). Como modelo foi garota propaganda da Lancôme e ainda posou para fotos do famigerado erotismo explícito de SEX escrito por Madonna. Hoje Rosselini faz pequenas participações em produções europeias ou americanas e ainda colhe os frutos de uma série de curtas criados por ela enquanto frequentava a faculdade de biologia. A série Green Porno, sobre o ato sexual de animais e insetos se tornaram virais no Youtube quando o cinema não lhe dava muita atenção. A estética lúdica na abordagem do assunto tornou-se um grande diferencial, gerando outras duas séries para a TV, um livro infanto-juvenil e a ideia de um monólogo que deveria ficar em cartaz por seis meses em algumas cidades, mas que foi exibido por dois anos em diferentes países. Green Porno se tornou um inesperado sucesso que gerou esse documentário para a TV que relata o processo criativo de Isabella e sua equipe. Entre os curtas exibidos repletos de curiosidades sobre o sexo do mundo animal, solta aos olhos o visual colorido, geralmente feito com papel nos figurinos, cenários e demais detalhes. O humor da estrela mostra-se sutil, especialmente nos momentos mais picantes (seja quando fala do aranha que fecunda a fêmea com a mão e corre para bem longe, dos hábitos sadomasoquistas do caramujo, da genitália labiríntica das patas ou da criatividade sexual dos golfinhos...) gerando curtas memoráveis (o meu favorito é quando os pulgões e uma minhoca entra na Arca de Noé e explicam que sua reprodução sexual está além da dicotomia entre masculino/feminino). Green Porno ainda conta com cenas de Isabella simulando sua peça explicando as curiosidades de forma bastante didática (uma opção que não entendi muito bem, já que perdemos a interação da atriz com a plateia). Os vídeos Green Porno serviram para que Isabella mostrasse outros aspectos de seu talento (além de deixar clara a sintonia que tinha com David Lynch). Versátil em cena, ainda realizou o serviço de utilidade pública de mostrar que o reino animal tem uma biodiversidade sexual que extrapola a heterossexualidade. Sem estardalhaço, Isabella mostra que a diversidade sexual é natural e o que consideramos muitas vezes uma construção social, pode ter origens muito mais variadas. 

Green Porno Ao Vivo (Isabella Rossellini's Green Porno/EUA-2015) de Jody Shapiro com Isabella Rossellini. ☻☻☻☻

PL►Y: Dou-lhes um Ano

Rose e Rafe: sem graça e sem química. 

Ao longo dos anos a Comédia-Romântica se tornou um gênero a que geralmente eu fujo de assistir. Geralmente elas não são engraçadas como o público acredita e são bem menos românticas do que deveriam ser. Nem precisa dizer que geralmente conta com um casal que discute do início ao fim e no final acredita que não pode viver um sem o outro. O britânico Dou-lhes um Ano até que subverte um pouco essa ideia, mas padece de uma grande falta de criatividade para encher hora e meia de duração, apelando para baixaria em vários momentos, desperdiçando bons atores no que poderia ser até um programa interessante. O filme conta a história de Nat (Rose Byrne) e Josh (Rafe Spall), um casal de namorados que se ama, reconhece suas diferenças e mesmo assim considera que deve se casar e viver feliz para sempre. Só que o para sempre pode ser apenas eterno enquanto dure... para piorar o casal é cercado por um bando de amigos chatos (a mais chata de todas é vivida por Minnie Driver, mais antipática do que nunca como a melhor amiga de Nat) e tem pretendentes por perto a maior parte do tempo. A tentação de Nat é encarnada por Guy (Simon Baker), um cliente sofisticado que cruza seu caminho, mas ela estimula o flerte até que não possa perder o cliente para um concorrente. Já a tentação de Rafe é a ex-namorada Chloe (Anna Faris), com quem teve um relacionamento antes de conhecer Nat e, que por acaso, ele nem terminou oficialmente o namoro antes de ficar com Nat. Sabe se lá porque os dois resolvem que Guy e Chloe tem que ficar juntos e o casamento começa a desandar ainda mais rápido. O roteiro nem se preocupa em explorar questões como vida a dois, rotina e cotidiano para minar a relação dos dois, preferindo criar momentos estapafúrdios e outros nem tanto onde o casal parece cada vez menos real. Prejudica muito a graça do filme o fato de Rose e Rafe não demonstrarem a menor química em cena. A atriz já provou dar conta de personagens cômicos em filmes como Vizinhos /2014 e Missão Madrinha de Casamento (2011), mas Rafe ainda precisa se esforçar mais um pouquinho. Ainda que seja simpático, Rafe - o filho do veterano Timothy Spall (o ator favorito de Mike Leigh, mas que ficou conhecido como o rato Peter Pettigrew da série Harry Potter) - não consegue ser engraçado em cena e nem adianta colocá-lo ao lado de Anna Faris (que é engraçada até com a peruca bisonha que usa no filme), mas até poderia ter funcionado por não ter pinta de galã. O resultado é um filme sem graça, com piadas estranhas e que se acha grande coisa por não contar a história de um romance, mas do fim de um casamento (contado de forma tão artificial que nem nos damos conta de que Rafe e Nat não poderiam ser felizes juntos). 

Dou-lhe um Ano (I Give It a Year/ Reino Unido - França / 2013) de Dan Mazer com Rafe Spall, Rose Byrne, Anna Faris, Simon Baker, Minnie Driver, Jason Flemyng e Olivia Colman. ☻☻

NªTV: Humans / The Returned

Humans: frieza maior que na Suécia.

Era de se esperar que com o tempo houvessem versões em língua inglesa de duas excelentes séries europeias que colecionam sucesso pelo mundo. Recentemente a AMC começou a exibir sua versão do sueco Real Humans, meses depois que o Netflix já disponibilizara a versão do A&E para Les Revenants. Humans é realizado em parceria do canal americano com uma produtora do Reino Unido e mostra um futuro paralelo onde os seres humanos precisam conviver com robôs feitos à sua imagem e semelhança - o que gera conflitos entre humanos e robôs produzidos para satisfazer as necessidades variadas de seus patrões. Assim conhecemos a família Hawkins, cuja esposa advogada deixa espaço para que eles comprem a sintética Anita (Gemma Chan) para cuidar da casa e dos filhos, cujo o pai (Tom Goodman-Hill) não dá conta sozinho. Paralela à trajetória de outros robôs, existe a trama de Dr. George Millican (Willian Hurt) que participou da criação dos sintéticos e reluta em abandonar seu parceiro Odi (Will Tudor) perante sua nova cuidadora Vera (Rebecca Front).  Além disso, acompanhamos a jornada do misterioso Leo (Colin Morgan) em busca de sua amada. Para quem acompanha a trama de Real Humans, dá para perceber que a estrutura da série é a mesma, a diferença fica por conta do tom, mais sóbrio e quase apático dos personagens, sem a melancolia que fazia tão bem à trajetória de Anita, Flash e Odi na série original. A família Hawkins também carece de mais carisma, já que sempre está sempre discutindo em cena, o que pode deixar tudo um pouco cansativo. Penso que se a série levar-se menos a sério pode ficar muito mais interessante.  Entre as alterações que podem gerar bons momentos futuramente está no fato da filha mais velha dos Hawkins ser contra os sintéticos e George não ser mais o vovô simpático do clã, mas um cientista que deverá ter mais destaque na trama. Até o momento os melhores momentos ficam por conta de Gemma Chan, que cria uma Anita mais desconfiável e o oscarizado William Hurt, como o personagem mais humano de uma série que consegue ser mais gélida do que a versão nórdica. Estranho é que quando o canal americano A&E investiu na versão da francesa Les Revenants o problema foi praticamente o mesmo. A trama respeita a mesma estrutura dos personagens que eram mortos e ressurgem desestabilizando uma pacata cidadezinha francesa que já havia se acostumado com a morte de todos eles. Transportado para uma cidade montanhosa nos EUA, a versão americana foi ainda mais fiel ao original, onde o déjà vu é ainda mais desconfortável para quem acompanhou a versão original que levou para casa até o Emmy de Melhor Série Estrangeira em 2013. Embora o suspense permaneça, a aura perturbadora dos personagens aparece mais branda e as relações mais distantes do que deveriam. Nesse caso, a série ainda perdeu parte do seu impacto com o sucesso da (ruim) Ressurrection e (a confusa) The Leftovers que bebem em vários dos elementos utilizados por Fabrice Gobert na série original inspirada no filme Eles Voltaram (2004) de Robin Campillo. No entanto, para quem não conhece as séries europeias originais, suas versões em língua inglesa podem ser bastante interessantes em meio aos temas recorrentes das séries americanas atuais. 

The Returned: mais mortos que vivos. 


Humans (2015 - ) - 1ª Temporada com Gemma Chan, William Hurt, Katherine Parkinson e Neil Maskell ☻☻

The Returned (2015-) - 1ª Temporada de Carlton Cuse com Kevin Alejandro, Mary Elizabeth Winstead e Jeremy Sisto ☻☻

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

PL►Y: Ida

Dawid e Agata: foco nas entrelinhas. 

Ida é o tipo de filme que os votantes do Oscar adoram premiar. Retoma o tema do holocausto (ainda que sob um prisma diferente, tão diferente que cada um poderá ter sua própria leitura da história da freira judia que vai atrás de suas origens), possui uma linguagem clássica sem modernices, bela fotografia em preto e branco, ou seja, é um bom filme, mas que se fosse americano jamais seria premiado como melhor filme - por ser considerado difícil demais. Premiado com a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, o filme polonês mostra a jornada de uma noviça (a estreante Agata Trzebuchowska) que na década de 1960 é informada sobre a existência de uma parente viva, sua tia, Wanda (Agata Kulesza). Desde o início a moça não fica muito animada a ter que sair do convento e descobrir a história de sua vida, mas acaba conhecendo a tal tia. Assim, a noviça descobre que nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, foi registrada com o nome de Ida e foi entregue a um padre para criá-la. Em sua jornada, percebemos mais interesse de Wanda sobre a história dos parentes do que da própria Ida e isso não acontece por acaso. Repleto de camadas e intenções, o filme deixa o melhor de seu texto nas entrelinhas. São nelas que percebemos o quanto o desconhecimento e a vida reclusa no convento podem ser protetoras para alguém, ao contrário de Wanda que aos poucos começa a ter que enfrentar seus próprios fantasmas, gerando cada vez mais angústias na convivência com a sobrinha. O diretor Pawel Polikowski constrói duas personagens que funcionam num grande contraste, a tia que começa a beber e fumar cada vez mais conforme de aproxima da verdade, mantendo relações sexuais com desconhecidos sem muito critério enquanto Ida consegue, no máximo flertar com um charmoso saxofonista que conhece na viagem (o bom Dawid Ogrodnik). Embora trate suas revelações de forma precisa, nos seus momentos finais o filme perde a chance de surpreender o espectador e rende-se a uma série de situações que soam um tanto óbvias. Senti que a última cena de Ida (que revela o quanto existem lugares mais seguros do que o mundo real - com suas emoções nem sempre controláveis) e , principalmente, a despedida de Wanda uma certa necessidade de terminar num campo seguro de sua narrativa. O resultado é que o desfecho perde a chance de ser tão emocionante quanto algumas cenas desse road movie pós-guerra que cita o cinema de Ingmar Bergman em vários planos e na relação de duas mulheres interessantes. No entanto, as belas intenções de Polikowski não alcançam a intensidade esperada dentro de uma rigidez que, por vezes, atrapalha. 

Ida (Polônia/2013) de Pawel Polikowski com Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza e Dawid Ogrodnik. ☻☻☻

.Doc: O Caso do Policial Canibal

Gilberto: planos bizarros ou fantasias sexuais?

Sempre acho interessante quando um documentário consegue ampliar sua ideia ao ponto de deixar uma temática muito mais ampla, de preferência uma temática que você nem imaginava que o filme iria abordar. Em O Caso do Policial Canibal, documentário produzido pelo canal HBO, conhecemos mais de perto a estranha história de Gilberto Valles, um policial de Nova York que foi preso sob a acusação de planejar sequestrar, matar, cozinhar e devorar quatro mulheres. O que promete ser um retrato bizarro de uma mente doentia, revela-se o ponto de partida de temas muito mais amplos. Casado e pai de uma menina (ainda bebê), Gilberto tinha trinta anos quando a esposa o denunciou à polícia por conta de registros, em seu computador, onde descrevia com requintes de crueldade o que faria com suas possíveis vítimas, incluindo a própria esposa. Valles foi preso e condenado à prisão perpétua, mas foi liberado vinte um meses depois por... ausência de provas. Afinal, não havia vítimas, armas ou qualquer outra coisa que o próprio Gilberto e os advogados de defesa não pudessem classificar como meras fantasias - já que Valles descrevia seus planos no chat de um site pornográfico que dava vasão aos pensamentos sexuais mais agressivos de seus usuários. Ainda que na grande maioria das conversas, quando indagado se faria realmente o que descrevia, o policial dissesse que não seria capaz, em três delas ele parece realmente disposto a fazer o que descrevia. Entre visita à uma futura vítima, buscas por temas estranhos no Google, descrições de apetrechos a serem usados e uma casa afastada com fogão industrial no porão, tudo no caso é o suficiente para confundir o que era imaginário e o que poderia se tornar realidade. Mas quem seria capaz de arriscar um veredicto que o inocentasse? Ainda mais com a ideia de que Gilberto utilizava o banco de dados da polícia para encontrar suas vítimas em potencial (sendo esse o verdadeiro crime cometido por ele). Na maior parte das cenas, Gilberto parece a versão humana de um Ursino Carinhoso, sua fala é mansa, seu olhar é inofensivo, seu sorriso é simpático e sempre utilizando palavras que reforçam o quanto nem ele mesmo se reconhecia no que escrevia na internet. Até que ponto tudo era fantasia ou uma real intenção? Será que se não houvesse a denúncia, Valles não teria feito alguma vítima?  São perguntas que provocam incertezas, mas que denotam o que havia de mais estranho no caso: não houve vítimas, portanto, não houve crime e ainda assim, Gilberto sofria as consequências para além dos delitos que havia cometido. O Caso do Policial Canibal revela não apenas o lado mais sombrio de pessoas que julgamos tão próximas, mas mergulha num mundo obscuro presente na internet onde fantasias e intenções se misturam, conhecidos podem se tornar cúmplices e amigos em vítimas. Assim, o filme deixa ainda mais nebulosa a imagem de Gilberto Valles - e de muita gente que revela seus pensamentos mais sinistros na internet. Além disso, ressalta no espectador seus próprios conceitos sobre crime e justiça, numa sucessão de ideias que podem terminar sem respostas. 

O Caso do Policial Canibal (Thougth Crimes: The Case of the Cannibal Cop/EUA-2015) de Erin Lee Carr com Gilberto Valles, Gary Allen e Violet Blue. ☻☻☻

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

FILMED+: Divertida Mente

Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza: zelando pela mente de uma menina. 

Fazia tempo que a Pixar parecia preguiçosa em suas produções sobre Carros/2006, Aviões/2013 e nem Valente/2012 chegou a ser empolgante como o que o estúdio era capaz de fazer nos velhos tempos. Portanto, fica ainda mais saboroso saber que com Divertida Mente, a criatividade da produtora parece ter voltado aos eixos. A trama ambientada na mente de uma menina é de uma sensibilidade ímpar. Cada diálogo e detalhe do que acontece dentro de sua mente (com as emoções no comando) tem uma razão de ser e transforma a produção quase numa sessão de terapia - sem que nos demos conta do quanto mexe com nossas próprias memórias e lembranças. Não é por acaso que a menina Riley atravessa seus maiores conflitos aos onze anos, pode ser por seus pais terem se mudado para São Francisco, com problemas na entrega dos móveis e tudo mais, mas agrava muito o fato de Riley estar prestes a entrar na adolescência e o que vemos é uma confusão emocional elaborada, que dá gosto pela forma lúdica como é apresentada. Em sua mente, Alegria (voz de Amy Poehler) lidera o grupo formado ainda por Tristeza, Nojinho, Raiva e Medo. É interessante como cada um deles tem um papel importante no desenvolvimento de Riley, seja ajudando a menina a lidar com os fatos do cotidiano, cuidando de suas memórias, construindo sua identidade... mas não deixa de ser interessante como a Alegria da infância começa a perceber que o crescimento faz as outras emoções estarem cada vez mais presentes (portanto, fique atento ao número de esferas que deixam de ser amarelas para alternar cada vez mais as outras cores dos personagens). Embora Alegria seja apresentada como a grande heroína da história, aos poucos percebemos que todos os personagens/emoções são muito importantes para o crescimento de Riley, sobretudo a Tristeza, sempre sufocada e silenciada, mas que a ausência prejudica cada vez mais o desenvolvimento da menina, que torna-se cada vez mais introspectiva, dificultando o diálogo com os pais e os passos seguintes para o desenvolvimento de sua identidade. Existem tantos elementos geniais em Divertida Mente que enumerá-los é diminuir o prazer de descobrir como o roteiro prepara a estrutura da mente de Riley com memórias, subconsciente, trem do pensamento, ilhas de identidade, amigo imaginário (o fofo Bing Bong e seu foguete movido à música), esquecimento, pensamento abstrato... tudo se encaixa com perfeição numa engrenagem interessantíssima que nos faz perceber o quanto as emoções, por mais desagradáveis que sejam, são fundamentais para que possamos aprender a lidar com elas. É assim que crescemos - especialmente quando o botão da puberdade fica por perto. Pete Docter (de Monstros S.A./2001 e Up/2009) e Ronnie Del Carmen constroem um dos melhores filmes do ano, sem medo de inovar e explorar o que muitos considerariam complicado demais. No fim das contas, considerar que o filme trata da necessidade de ser alegre o tempo todo seria um grande erro, afinal, trata da capacidade de amadurecer e lidar tão bem com suas emoções mais sombrias quanto lida com a felicidade. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano - o que redime a Pixar de todos os seus tropeços, sejam eles passados ou futuros. 

Divertida Mente (Inside Out/EUA-2015) de Pete Docter e  Ronnie Del Carmen com vozes de Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Diane Lane e Richard Kind. ☻☻☻☻☻

PL►Y: Operação Big Hero

Hiro (ao centro) e seus amigos: Marvel em versão animada. 

Quando a Disney se associou à Marvel era de se esperar que aparecesse alguma animação baseada nos personagens da editora. Os personagens criados para os quadrinhos por Steven T. Teagle e Duncun Ruleau, que após uma aparição em 1998 recebeu uma minissérie própria e, dez anos depois, outro arco fechado de aventuras. O grupo de heróis nunca foi muito famoso por aqui, mas isso não impediu que o filme se tornasse um sucesso de crítica e público - levando para casa o Oscar de melhor animação. Os diretores Don Hall e Chris Williams deixaram claro em várias entrevistas que evitariam associações do longa com o universo Marvel (por isso mesmo os fãs reclamaram das alterações que o grupo sofreu em sua transposição para as telonas), mas conseguem criar um filme cheio de aventura e com um visual interessante, onde o colorido dos heróis contrasta com os cenários urbanos cinzentos que misturam São Francisco com Tóquio (não é por acaso que a cidade chama-se San Fransokyo). A história segue Hiro Hamada, um garoto prodígio no campo da robótica, que inspirado pelo seu irmão Tadashi, cria os microbôs, pequenos robôs que se juntam adquirindo várias formas de acordo com os comandos mentais de quem usa uma tiara de comando. Eis que um acidente irá mudar os rumos da vida de Hiro, fazendo com que ele conte com a ajuda do robô atendente médico pessoal Baymax, criado pelo irmão, para descobrir a verdade por trás do acidente - uma vez que descobre que seus microbôs continuam sendo fabricadas por um personagem mascarado misterioso que possui planos que colocarão em risco toda a cidade. Com a ajuda dos amigos de seu irmão, Hiro e Baymax irão formar um grupo de heróis adolescentes que tentarão combater o inimigo mascarado. Operação Big Hero é essencialmente um filme de super herói, com um roteiro bem humorado que tem na carismática figura inflável de Baymax um delicioso alívio cômico. Embora os coadjuvantes não sejam tão bem desenvolvidos como deveriam, o drama familiar de Hiro consegue construir bons momentos emocionais num filme que transborda aventuras - e não deixa de traçar uma semelhança perigosa entre o herói e o vilão da história. Crianças e adultos não tem do que reclamar, especialmente porque a continuação já foi anunciada para os próximos anos. 

Operação Big Hero (Big Hero 6 - EUA/2014) de Don Hall e Chris Williams com vozes de Scott Adsit, Ryan Potter, T.J. Miller, Jamie Chung, Damon Wayans Jr., James Cromwell e Alan Tudyk. ☻☻☻ 

domingo, 11 de outubro de 2015

PL►Y: À Procura de Um Paraíso

Brand, Octavia e Julianne: péssima estreia de Diablo Cody na direção. 

Existem roteiristas que parecem funcionar somente com um diretor, um exemplo é Diablo Cody, a ex-stripper que ganhou fama com Juno/2007 de Jason Reitman. A história sobre a adolescente grávida que pretende dar o bebê para a adoção foi um sucesso mundial e levou para casa o prêmio de melhor roteiro original (concorrendo em outras três categorias, incluindo melhor filme). Os mais exagerados cahamram Cody de Quentin Tarantino de saias... como era esperado, o tempo demonstrou que não era para tanto. Ela teve que amargar o fiasco de Garota Infernal (2009), ver seu seriado United States of Tara cancelado depois de sua terceira temporada. Seu outro bom momento nas telonas veio com Jovens Adultos (2011), nova parceria com Jason Reitman, que pode não ter alcançado o sucesso esperado, mas está longe de ser desprezível - sobretudo pela atuação de Charlize Theron (indicada ao Globo de Ouro). Recentemente outro roteiro assinado por ela estreou no Brasil, Ricki and The Flash: De Volta Para Casa, estrelado por Meryl Streep  - e também dividiu opiniões. Antes de Ricki, Diablo Cody aventurou-se como diretora e, não deixa de ser irônico, que nem ela soube extrair o melhor de suas intenções no texto de À Procura de um Paraíso, filme que desanima logo nos primeiros vinte minutos por não se dar conta da ideia antiquada de sua provocação. O filme conta a história de Lamb Mannerheim (Julianne Hough, que ficou famosa por sua participação no programa Dancing with the Stars), adolescente que foi educada dentro de um grupo religioso ultraconservador, mas que tem a fé abalada por um acidente que deixa seu corpo coberto de queimaduras. Quando ela se rebela, decide ir morar em Las Vegas e cair no mundo, cometendo todos os pecados que lhe eram proibidos. O que poderia ser uma deliciosa comédia de humor negro perde o fôlego porque o roteiro tem uma ideia e não uma história para contar. As situações seguem arrastadas e desinteressantes, com o mesmo fôlego de um rebelde sem causa - já que o roteiro não se preocupar em dar uma profundidade plausível para sua protagonista. Não vou nem questionar o talento de Diablo como diretora, afinal, ela ainda tem muito tempo para aprender o ofício, mas impressiona como uma roteirista ganhadora de Oscar não percebeu o quão insosso era o material que tinha em mãos. Não satisfeita, ela ainda escalou uma atriz bonitinha que não consegue dar conta de fazer o mínimo por Lamb. Julianne Hough passa o filme todo com a mesma cara e repetindo a mesma coisa o tempo todo. Não por acaso, ela é ofuscada por todos os seus coadjuvantes (inclusive o chato Russell Brand, que eu ainda não entendi como consegue fazer filmes), quem ainda consegue dar alguma graça ao filme é Octavia Spencer como a cantora Loray, responsável por captar as ironias que o roteiro deixa perder pelo caminho. Ao final chegamos a conclusão que nem Diablo entende direito o que escreve, mas ela ainda tem crédito em Hollywood, já que conseguiu até Holly Hunter para uma participação especial em seu filme de estreia... mas que diante da ruindade do texto, nem Jason Reitman alcançaria um bom resultado. 

À Procura de Um Paraíso (Paradise/EUA-2013) de Diablo Cody com Julianne Hough, Octavia Spencer, Rusell Brand e Holly Hunter.

Combo: Domésticas Brasileiras


05 Trair e Coçar é só Começar (2006) Escrita por Marcos Caruso e encenada desde 1986, tornou-se a peça teatral com mais tempo em cartaz (sendo mencionada várias vezes no Guiness). Com o renascimento do cinema nacional, somado ao interesse do público por comédias, era inevitável que o texto recebesse uma versão para o cinema. Embora a direção de Moacyr Góes não tenha muita personalidade, o elenco garante a diversão com as trapalhadas de Olímpia (Adriana Esteves) enquanto seu patrão prepara a comemoração surpresa pelos quinze anos de casamento - e ela imagina que ele trai a patroa. No meio de tantas interpretações erradas, Olímpia cria uma grande confusão. 

04 Romance da Empregada (1988) Quando foi lançado, o filme de Bruno Barreto foi subestimado... sorte que as críticas positivas e a propaganda boca a boca fizeram com que o filme fosse um sucesso. Betty Faria (ótima) interpreta Fausta, um doméstica que tem que aguentar as chatices da patroa e um marido bêbado e desempregado ao chegar em casa. Sua chance de mudar de vida aparece quando ela conhece Zé da Placa (o veterano Brandão Filho em ótimo momento), que acredita que terá uma vida melhor se convencer Fausta a morar com ele.  O roteiro espirituoso e a química do casal garante a diversão (e o resultado foi até escolhido para concorrer a uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro)! 

03 Bendito Fruto (2005) É uma pena que pouca gente conheça esse interessante filme de Sérgio Goldenberg que brinca o tempo todo com as aparências. Edgar (Otávio Augusto) é um cabelereiro que se finge de homossexual para ter mais clientes, em casa ele mantem um relacionamento com Maria (Zezéh Barbosa) e tem até um filho com ela - mas a apresenta como sua empregada. Quando uma amiga (Vera Holtz) precisa ficar na casa de Edgar por alguns dias, o jogo de aparências do casal fica comprometido - e a chegada do filho irá tencionar ainda mais essa relação. Goldenberg faz um filme rico em nuances sobre preconceitos variados, diverte e faz pensar, além de trazer uma estupenda atuação de Zezeh! Uma pérola de nossa cinematografia que merece ser encontrada. 

02 Domésticas (2001) Quase não lembramos que antes do famigerado Cidade de Deus/2002 a dupla Fernando Meirelles e Kátia Lund fizeram essa adaptação da peça de Renata Melo para o cinema. O filme mistura a história de um grupo de personagens que tem em comum o mesmo trabalho: são domésticas. Misturando situações engraçadas e dramáticas, o filme constrói um retrato interessante do cotidiano das personagens. Entre a moça que não consegue parar no serviço, a filha de empregada que não quer seguir a profissão da mãe, a ambiciosa que se mete em uma controversa nova carreira, entre outras histórias, Domésticas consegue manter um frescor de estreia muito bem vindo. 

01 Que Horas Ela Volta? (2015) O aclamado filme de Anna Muylaert colhe elogios em todo o mundo por romper com alguns lugares comuns quando o assunto é retratar uma empregada doméstica. Como faz isso? Aprofundando ainda mais o abismo social brasileiro que separa empregados e patrões, como se existissem pessoas de primeira e segunda classe. O melhor é que o filme faz isso sutilmente a partir da chegada da filha de Val (Regina Casé). Val dedicou mais de uma década para cuidar da casa e do filho dos patrões enquanto sua filha era criada em outro estado. Quando as personagens se encontram o que vemos é um conflito de identidade tão interessante quanto o de classes. 

FILMED+: Que Horas Ela Volta?

Jéssica e Val: o macro através do micro. 

Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro, Que Horas Ela Volta? teve suas chances anabolizadas depois do sucesso nos Festivais de Berlim (onde a direção recebeu dois prêmios) e Sundance (prêmio de melhor filme dramático internacional), além de figurar em várias como um dos três filmes com mais chances de ser agraciado pela Academia. Se a indicação acontecer será um reconhecimento merecido para uma das cineastas mais interessantes do cinema mundial, mas que ainda é pouco conhecida até mesmo entre os brasileiros. Anna Muylaert tem aquele jeito tímido e sempre tem a dura tarefa de explicar seus filmes sem poder revelar muito o que eles tem de mais interessante - senão estraga a surpresa. Antes de dedicar-se ao cinema, Anna trabalhou com alguns dos programas infanto-juvenis mais celebrados da TV brasileira (entre eles Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum) e seus filmes sempre foram um ponto instigante no cinema nacional. Seja em Durval Discos/2003 ou É Proibido Fumar/2009 sua característica principal é subverter o que esperamos de seus personagens - e da própria narrativa. Em Que Horas Ela Volta? isso também ocorre, ainda que de forma mais sutil, seja pela filha da empregada que chega para ficar um tempo na casa dos patrões de sua mãe ou da postura da própria patroa (que começa o filme dizendo que o mais importante em ter estilo é "ser você mesma", para pouco depois torna-se uma megera). Regina  Casé (Outro ponto importante do filme, já que a versátil atriz é lembrada mais como apresentadora de um popular programa de TV) encarna a doméstica Val, que dedicou treze anos de sua vida trabalhando para Bárbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), cuidando da casa e de Fabinho (Michel Joelsas). Com isso sua filha Jéssica cresceu distante, em outro estado, sendo cuidada por outra pessoa. Quando está na hora de Jéssica (Camila Márdila) prestar vestibular para uma conceituada faculdade paulista  (a FAU - USP), ela pede para ficar uns tempos com a mãe - sem saber que a mãe mora num quartinho na casa dos patrões. Os patrões aceitam a presença da jovem, mas os conflitos são inevitáveis quando Jéssica apresenta ser mais esperta do que pensavam, não se enquadrando no papel de filha da empregada - afinal, ela é acolhida como hóspede e porta-se como tal, o que incomoda cada vez mais D. Bárbara e a própria Val. É preciso ficar atento para perceber todas as camadas e entrelinhas do roteiro, numa simetria propositalmente torta da relação entre os personagens, espelhando com maestria que todos fazem parte da mesma realidade com papéis construídos socialmente - que muitas vezes não correspondem às ambições de cada um. Isso acontece não apenas com Jéssica, mas com o próprio Fabinho (que quer curtir a vida enquanto a sociedade lhe cobra escolher uma carreira para o futuro), Dr. Carlos (sempre com camisa de bandas e comportamento juvenil) e a própria Dona Bárbara (que tenta mostrar sua nobreza com a presença da jovem na casa... mas não consegue por muito tempo), apenas Val consegue demonstrar resignação em seu papel, pelo menos até perceber (de forma concreta) que tudo pode ser muito diferente. É no desequilíbrio desse universo - que parece tão bem estruturado em sua harmonia postiça - que o filme cresce sutilmente, em conflitos que se instauram em ciclos que compõem um cenário rico sobre as relações entre classes sociais, misturado à dinâmica entre pais e filhos - e o que esperamos dela. O filme ainda brinca com as guinadas dos outros filmes de Muylaert (com o acidente que ocorre com Bárbara e esperamos que o filme irá enverede para outro caminho... só que não...) ou remete à diferença de postura de Dona Bárbara com a de Etty Fraser em Durval Discos (que não quer se desfazer da filha da empregada de jeito algum). O fato é: Que Horas Ela Volta? é bastante sensível e emocional, mas sem perder o caráter social da história que conta de um país em transformação e, por isso mesmo, incômodo para um grupo que sente estar perdendo a farinha de seu pirão. É o macro visto através do micro pelos olhos astutos de uma cineasta criativa e singular. Devo destacar que ela contou com a ajuda de três atrizes espetaculares - Casé desaparece na personagem, assim como Camila Márdila (ambas premiadas pelo Júri de Sundance), seguidas de perto pelas expressões duras de Karine Teles que compõe uma personagem complexa com o pouco tempo que tem em cena. Enfim, Que Horas Ela Volta? merece mais do que o Oscar: merece ser reconhecido como um dos melhores filmes do cinema brasileiro.

Anna (de preto) e o elenco: olhar astuto. 

Que Horas Ela Volta? (Brasil-2015) de Anna Muylaert com Regina Casé, Camila Márdila, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas e Lourenço Mutarelli. ☻☻☻☻☻

sábado, 10 de outubro de 2015

PL►Y: Somos o que Somos


Os Parker: lutando para colocar carne sobre a mesa. 

Quando descobri que estavam preparando uma versão americana do mexicano Somos o Que Somos (2010), eu já imaginava que todo o conteúdo social do filme longa de Jorge Michel Grau iria para o espaço. Na versão original uma família mantem a estranha tradição milenar de seus ancestrais  e encontra as vítimas preferencialmente entre prostitutas, homossexuais e sem teto - e quando o pai da família morre, cabe ao filho mais velho assumir o posto de manter a tradição e alimentar a mãe e um casal de irmãos. Na versão americana a situação principal é a mesma, mas o resto é bastante diferente. No remake quem morre é a matriarca e quem deve garantir a carne na mesa da família Parker é a filha mais velha (a bela Ambyr Childers). A mando do pai, Frank (Bill Sage) a garota tem suas dúvidas em continuar mantendo a tradição da família, o que também passa a ser questionado pela filha do meio, Rose (a promissora Julia Garner) enquanto o filho caçula não faz a mínima ideia do que está acontecendo (acreditando que existem monstros vivendo debaixo da casa).É visível como o diretor Jim Mickle quer fazer um filme de terror elegante ao afastar os protagonistas do centro urbano onde vivia os personagens do filme original, o colocando morando num bosque, perto de um rio - que por conta de uma forte chuva, transborda e  começam a aparecer ossos suspeitos pela cidade. Assim, o doutor Barrow (Michael Parks) começa a desconfiar que há algo de estranho acontecendo nas redondezas e a reclusa família começa a chamar a atenção. Mickle consegue distanciar seu filme o máximo possível do filme original,  construindo praticamente outro filme, embora tenha o mesmo ponto de partida (o que é um grande mérito). Micke investe mais na parte policial da trama e carrega nas cores trágicas de duas meninas com uma tradição estranha que não querem preservar. O filme carrega no suspense sobre as estranhezas da família, demorando para revelar o que se passa no porão da casa, talvez por isso, o tom mais direto do original funcione melhor, já que a versão americana com toda sua atmosfera dark sutil, descamba para o trash com uma velocidade difícil de digerir quando os segredos são revelados (nesse ponto, a participação da vizinha vivida por Kelly McGillis ganha um final um tanto tosco diante das possibilidades da personagem). No entanto, Somos o que Somos consegue prender a atenção com o elenco que defende os personagens com grande esmero, sobretudo a jovem Julia Garner, que na época tinha dezoito anos e convence como uma adolescente indefesa de quatorze. No entanto, na comparação com o filme original, a história perdeu suas nuances mais interessantes deixando o final convencionalmente sem graça.

Somos o que Somos (We are what We are/EUA-2013) de Jim Mickle com Michael Parks, Ambyr Childers, Julia Garner, Kelly McGillis, Michael Parks e Wyatt Russell. ☻☻