quinta-feira, 20 de março de 2014

KLÁSSIQO: Adeus, Meninos

 
Fejto e Manesse: amizade em risco. 

Recentemente lançado em Blu-Ray no Brasil, eu não poderia deixar de comentar um dos filmes mais aclamados do diretor Louis Malle. Lembro que quando assisti o filme pela primeira vez o considerei superestimado. Lento e arrastado, o filme ainda deve ser um desafio para muitos cinéfilos que estão acostumados com o ritmo de narrativa mais ágil, no entanto o filme prende a atenção pelo tema que aborda e ficar na memória, sobretudo, pelo seu final. É justamente por conta desses dois fatores que o filme cresceu no meu conceito quando soube que se tratava de uma história real, mais do que isso, a história aconteceu com o próprio diretor que resolveu exorcizar um fantasma de seu passado ao revisitar o drama de infância mostrado em Adeus, Meninos. Dirigido, escrito, produzido e lançado por Malle em 1987, o filme ganhou o Leão de Ouro em Veneza pela temática provocadora que indaga ao espectador se um ato de crueldade seria menos cruel por ser praticado (acidentalmente?) por criança. Não precisa de muito esforço para perceber que o cineasta francês precisou de muita coragem para contar a história do menino judeu que se refugia num colégio interno carmelita na França durante a Segunda Guerra Mundial. Com o conflito instaurado, a França é dividida em nazistas e colaboracionistas (cidadãos franceses que ajudam os alemães) contra os opositores (que poderiam ser chamados de "resistência" quando atuavam clandestinamente) e cidadãos comuns. Nesse contexto, o menino Julien (Gaspard Manesse), filho de uma família rica, é enviado, junto com o irmão mais velho para o colégio interno onde as aulas são organizadas e ministradas por padres cristãos. Nesse quesito, o filme consegue retratar com perfeição a rotina do internato, com suas regras de conduta e a convivência entre os alunos dentro daquele universo bastante conservador, sufocante e, ao mesmo tempo, seguro. Não por acaso, o filme pode parecer tedioso ao espectador, já que somos apresentados à essa rotina de forma bastante realista e contida. O cotidiano da instituição recebe novos ares quando o diretor do local, Padre Jean (Philippe Morier-Genoud) aceita quatro novos alunos, sendo que um deles, Jean Bonnet (Raphael Fejto) chama a atenção de Julien. Jean tem a mesma idade de Julien, mas mostra-se tão inteligente quanto discriminado pelos colegas. Conforme os dois meninos se aproximam, Julien percebe que o menino guarda um segredo que poderá comprometer o universo quase paralelo que o internato se tornou durante os tempos de guerra, especialmente quando nazistas aparecem na instituição. A cena em que um simples olhar trai as intenções dos personagens é bastante marcante, ainda que tratada com a mesma desenvoltura introspectiva de toda a narrativa. Sem melodramas, é visível como o diretor evita o melodrama em nome de uma reconstituição "imparcial" de suas memórias de infância, no entanto, além da cena final (que torna o título bastante doloroso), existe uma belíssima cena de crianças brincando num bosque que me lembrou, salvo as devidas proporções, as intenções de Michael Haneke em A Fita Branca (2009) e até de O Menino do Pijama Listrado (2008). Louis Malle faz um filme difícil de assistir, mas bastante contundente nas questões que propõe ao espectador. Ou seja, nada como crescer e amadurecer seu olhar sobre uma obra de arte.  Vale lembrar que o filme foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro e de roteiro original. 

Adeus, Meninos (Au revoir les enfants/França-Alemanha/1987) de Louis Malle com Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Peter Fitz e Irène Jacob. ☻☻☻☻

segunda-feira, 17 de março de 2014

FILMED+: O Doce Amanhã

Ritmo de despedida: a obra-prima de Atom Egoyam. 

Lembro do principal motivo que me levou a assistir a O Doce Amanhã pela primeira vez: foi um comentário da crítica de cinema Ana Maria Bahiana onde ela dizia que era o seu filme favorito de 1997 - isso em pleno ano em que Titanic eclipsava produções como Los Angeles - Cidade Proibida (de Curtis Hanson), Jackie Brown (de Quentin Tarantino) e Boogie Nigths (de Paul Thomas Anderson). O filme foi ignorado no Globo de Ouro, mas o Oscar lembrou dele nas categorias de melhor roteiro adaptado (do romance de Russell Banks) e direção para Atom Egoyan. Egoyan (que nasceu no Egito e foi criado no Canadá) já havia chamado atenção pelo seu trabalho curioso em Exótica (1994), mas quando exibiu O Doce Amanhã em Cannes a plateia agradeceu a bela surpresa que havia reservado. Lento e belíssimo, o filme é uma dolorosa história sobre uma cidade no interior gélido do Canadá que perde quase todas as suas crianças de uma só vez - e a forma como o sofrimento e o oportunismo se cruzam pelo meio do caminho. Num dia comum, um acidente com o ônibus escolar irá modificar a vida daqueles habitantes para sempre. Egoyan trata a situação sem firulas, sem melodramas, com a velocidade crua que somente um pesadelo pode ter. Mas enquanto tentam lidar com o luto, os moradores recebem a visita do advogado Mitchell Stephens (Ian Holm). Stephens quer aproveitar a tragédia para tentar convencer os pais a processar a companhia de ônibus, sob a argumentação de que a companhia sabia que o ônibus não era seguro o suficiente para realizar o trabalho. Enquanto conhece os pais que perderam os filhos, o advogado tenta lidar (por telefone) com a filha adolescente que é viciada em drogas. Stephens é apenas uma amosta de como Egoyam constrói um cenário humano interessantíssimo, repleto de culpas, pecados e perdão (temas que acentuam o teor religioso da trama) especialmente em torno de uma sobrevivente do acidente, a jovem Nicole (Sarah Polley). Nicole pode mudar a forma como lidam com a situação a partir do seu testemunho sobre as ações da motorista do ônibus no momento do acidente, Dolores (Gabrielle Rose). Focalizando personagens como o pai viúvo que hesita diante das intenções do advogado, a mulher adúltera que pensa em mudar de vida diante da tragédia, a adolescente que mantém um relacionamento incestuoso com o pai, Atom cria um filme sobre uma cidade que encontra-se morta em seus personagens que tentam sobreviver. Além da belíssima trilha sonora e da fotografia que valoriza o tom gélido do lugar, O Doce Amanhã ainda estabelece paralelos com o conto O Flautista de Hamelin - aquele em que para se vingar de uma cidade, um flautista leva todas as crianças para longe dali - com um efeito poético inesquecível. ainda que pouco lembrado, O Doce Amanhã é um desses filmes que descobrimos aos poucos os seus méritos e, depois de muito tempo, ainda habita a nossa lembrança com seus personagens e situações. Deve ser um dos filmes mais tristes que já assisti, mas é também um dos mais bonitos. O considero a obra-prima de Atom Egoyan.  

O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter/Canadá-1997) de Atom Egoyan com Ian Holm, Sarah Polley, Gabrielle Rose, Bruce Greenwood e Tom McCamus. ☻☻☻☻☻ 

DVD: Histórias que Contamos

Michael e Sarah Polley: reverenciando a história da família.

Sarah Polley é uma atriz canadense que já trabalhou em vários filmes queridos pela crítica (entre eles Exótica/1994 e O Doce Amanhã/1997, ambos de Atom Egoyam, Vamos Nessa/1999 de Doug Liman e Minha Vida sem Mim/2003 de Isabel Coixet), mas apesar de todo o respeito conquistado diante das câmeras é atrás delas que Sarah parece mais confortável. Foi em seu segundo longa metragem que abordou as dores do esquecimento em Longe Dela (2006) e conseguiu arrancar uma performance memorável de Julie Christie (indicada ao Oscar de Melhor Atriz), além de conseguir para si uma indicação ao careca dourado de roteiro adaptado. Chega a ser impressionante que enquanto lançava a crise no casamento de Entre o Amor e a Paixão (2011), ela terminava de lapidar esse documentário que explora uma temática bastante pessoal. Num primeiro momento, tem-se a impressão que a diretora reuniu a família para falar sobre sua mãe, Diane. No início existe grande hesitação de todos os envolvidos, o pai (intrigado com as câmeras presentes no estúdio onde ele grava a narração do filme), os dois irmãos (Mark e John), as duas irmãs (Suzy e Joanna), os amigos da família... Sarah tem dificuldades de dar forma ao que ela não gostaria que fosse apenas uma jornada egocêntrica em sua intimidade. As cenas aleatórias dão a impressão de que a ideia da cineasta ainda procura uma forma - e quando a encontra toda a desconfiança da plateia é quebrada. O que vemos através das entrevistas é a forma como todos nos apresentam a matriarca Diane. Uma atriz de uma energia contagiante, que contaminava toda a família, mas existem pistas de que existe um segredo que todos evitam revisitar num primeiro momento. A constituição da família Polley é exposta para o público com todas as suas alegrias, tristezas, elos, aspirações e tropeços. Do dia em que Diane conhece Michael Polley numa peça de teatro, a chegada dos filhos, a crise no relacionamento, além das tentativas de Diane ser reconhecida como atriz (e a forma como as dores de ter perdido a guarda dos filhos do primeiro casamento - John e Suzy) marcará seus atos futuros. É como se aos poucos a diretora construísse uma grande colagem sobre aqueles personagens que giram sobre a órbita de sua mãe, até o momento em que revela o motivo de todo esse cruzamento de narrativas: a suspeita de que Sarah não seria filha de Michael Polley. É visível como esse fato é doloroso para a família, sobretudo para a forma como a vivenciam - é Mark que consegue expressar de forma mais tocante as angústias de sua mãe, ainda que não a isente de reprovações. Mais emocionante que a jornada da diretora em busca do pai biológico, são as cenas onde os personagens precisam se deparar com uma dolorosa verdade, que no fundo, não parece fazer tanta diferença assim. Sarah cria um filme sensacional, onde revela que um documentário pode ser única e somente o cruzamento de versões sobre o passado, mas isso não impede que seja rico e crie impressões universais de como uma família forja a construção da identidade de seus sujeitos. Além disso, o encadeamento das entrevistas mostra-se fundamental para que conheçamos Diane como um ser humano e não um ser mítico, além disso tem a memorável cena final (a primeira gravada para o documentário) onde Michael Polley confronta as intenções (in)conscientes da filha. Ele reage de forma deliciosamente humana aos sentimentos que passaram na cabeça da diretora durante toda a feitura do filme. Histórias que Contamos é um documentário simples sobre pessoas comuns, mas realizado no capricho com cenas reais entremeadas com atores representando os personagens quando jovens. Sem os moralismos e ressentimentos que costumam aparecer nesse tipo de fime, Sarah Polley realizou outro grande trabalho, que prima, sobretudo, pela sinceridade. 

Histórias que Contamos (Stories We Tell/Candá-2012) de Sarah Polley com Michael Polley, Sarah Polley, John Buchan, Suzy Buchan, Mark Polley, Joanna Polley, Harry Gulkin e Anne Tait. ☻☻☻☻

domingo, 16 de março de 2014

Combo: As Mulheres de Lars Von Trier

Agora que a segunda parte de seu famigerado Ninfomaníaca chega aos cinemas brasileiros, parece que os mais desinformados perceberam que a obra de Lars Von Trier nunca quis ser um filme pornográfico. O dinamarquês é considerado por alguns como um gênio e outros o veem como um verdadeiro picareta (que utiliza a polêmica para vender seus filmes difíceis de digerir e que falam sempre da mesma coisa). Independente de sua opinião sobre ele, Trier vai de encontro com aquilo que Hollywood ainda hesita em reconhecer (e que Cate Blanchett deflagrou ao receber o Oscar desse ano): filmes que giram em torno de personagens femininas. É verdade que a maioria das atrizes que trabalharam com o cineasta tiveram suas crises, mas parece que ele finalmente encontrou sua maior musa! Mas qual das mulheres que comeram o pão que Lars Von Trier amassou você prefere?

5 Dançando no Escuro (2000) À operária imigrante Selma (Björk, premiada em Cannes) sofre de uma doença degenerativa na visão que em breve irá vitimar seu filho também. Para evitar isso, a personagem junta suas economias para curá-lo, só que ela acaba roubada e sendo presa quando resolve pegar o dinheiro de volta. Pegue agora todo esse drama e transforme em um musical de denúncia social.  O que era para ser uma crítica ao capitalismo foi visto como um filme antiamericanista (e o diretor alimentou ainda mais isso em entrevistas). Apesar dos prêmios (incluindo a Palma de Ouro em Cannes) e a indicação ao Oscar de Melhor Canção (para a triste I've Seen It All, uma das estranhas músicas cantadas no filme), Björk disse que Trier era um pornógrafo emocional e que jamais trabalharia com ele novamente (na verdade ela nunca mais atuou no cinema). 

4 Melancolia (2011) Mesmo após os comentários infelizes do diretor no Festival de Cannes (onde o filme foi exibido pela primeira vez), a atuação de Kirsten Dunst lhe garantiu o prêmio de melhor atriz no Festival pela noiva deprimida que mostra-se conformada com o fim do mundo que se aproxima. Falando sobre a colisão de um planeta gêmeo (que dá nome ao filme) com a Terra, Trier desenvolve com maestria a relação dicotômica de das irmãs Justine (Dunst) e Claire (Charlote Gainsburg) com o fim que se anuncia. Enquanto uma se desespera diante do fim de todas as possibilidades que a vida lhe prometia, Justine vê no apocalipse uma espécie de cura. O ponto alto de Melancolia é a narrativa solene, quase operística, que o cineasta propõe ao espectador. 

3 Ondas do Destino (1996) Quem colocou as mulheres do cineasta no radar das premiações foi Emily Watson na pele de Bess McNeill. Bess estava feliz da vida com o casamento, até o dia em que seu esposo (vivido pelo muso de Trier, Stellan Skarsgaard) sofre um acidente e a coisa se complica. Impossibilitado de manter relações sexuais com a esposa, Jan convence a mulher a realizar uma difícil jornada em busca de novos parceiros. O fator religioso aqui já se mostra bastante presente na obra do cineasta, já que ela acredita que seu sacrifício irá curar o esposo. Pela excepcional performance, Emily tornou-se a primeira (e única) indicada  ao Oscar de atriz por um filme do polêmico cineasta.  

2 Anticristo (2009) Foi neste filme que Lars Von Trier encontrou sua alma gêmea no cinema. Charlotte Gainsburg foi eleita a melhor atriz em Cannes pela sua personagem atormentada pela morte do filho. De nada adianta ela fugir para uma cabana no meio do mato com o esposo (Willem Dafoe) para esquecer os problemas, afinal, todos eles estão todos dentro de sua cabeça. Trier cria um filme de terror com altas doses de erotismo, onde  a psicologia é o alvo num num universo onde o homem é tratado como ameaça pela natureza. Animais falantes, barulhos de sementes caindo, corvos e segredos fazem o casal ter a discussão de relação mais radical que já se viu numa tela. Aqui existem alguns elementos que retornam em Ninfomaníaca, incluindo a (corajosa) atriz que virou musa do dinamarquês. 

1 Dogville (2003) Nicole Kidman merece o topo da lista por sua personificação da personagem a que Lars elaborou uma trilogia somente para ela. Grace é a protagonista misteriosa de Dogville, cidadezinha americana no meio do nada, cujos personagens se lambuzam nas mazelas da Grande Depressão. Mais do que uma intrusa num grupo de pessoas, Grace é usada para uma espécie de "experiência social" - e acaba sendo escravizada e sofrendo abusos físicos e psicológicos. Mas na cidade do cão chamado Moisés, quem ri por último, ri (pelo menos) mais alto. Grace ainda apareceu em Manderlay (2005) uma fazenda que ainda tinha escravos (mas lá ela tinha a cara de Bryce Dallas Howard). Trier ainda fala de lançar a última parte da trilogia que desbrava as mazelas americanas: Wasington (assim mesmo, sem "h"). Os fãs aguardam a conclusão da saga sem cenário. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

CATÁLOGO: Reencarnação

Bright e Kidman: amor impossível.

O diretor inglês Johnatan Glazer colheu elogios quando exibiu seu novo longa no Festival de Veneza (o terror Under The Skin protagonizado por Scarlett Johansson), mas ele ainda encontra dificuldades em sua distribuição  - o que não impediu que ele concorresse a quatro prêmios (incluindo  melhor diretor e atriz)  no British Independent Film Awards no ano passado. No entanto, sempre existem aqueles que consideram o trabalho do diretor pretensioso e vazio. Devo dizer que não pertenço a esse grupo. Glazer foi responsável por alguns dos clipes mais interessantes da década de 1990 (incluindo o clássico "Rabbit in your headlight" do Unkle) e foi para o cinema disposto a contar histórias de um jeito ousadamente estiloso, apresentando um capricho incomum entre os cineastas independentes ingleses. Em 2014 faz exatos dez anos que ele lançou Reencarnação, drama intimista estrelado por Nicole Kidman (que foi indicada ao Globo de Ouro pelo papel). O título em português motivou uma campanha que vendia o filme quase como um filme de terror, quando a ideia do diretor era fornecer ao espectador uma espécie de enigma. Nicole vive Anna, que após dez anos da morte do esposo ainda tenta reconstruir a vida. Depois de anos de hesitação, ela aceita o pedido de casamento de Joseph (Danny Huston), agradecendo sua paciência e compreensão em esperar por ela. Eis que surge em cena o moleque de dez anos (vivido pelo soturno Cameron Bright) que além de ter o mesmo nome do falecido, Sean, ainda diz ser a reencarnação do próprio. O que poderia ser uma brincadeira de mal gosto, começa a incomodar Anna e seus familiares, já que o garoto persiste na afirmação devidamente abastecido de informações íntimas da vida do casal. Glazer dá conta da história através de longos silêncios e ritmo lento, que permite ao espectador preencher as lacunas de dúvidas e indagações. Menos interessado em discursos religiosos e mais em mostrar o impacto do menino na vida dos personagens, o diretor busca mostrar o que se passa na cabeça dos personagens (com a ajuda de belos zooms), especialmente de Anna (existem várias cenas em que podemos ver a tempestade sentimental da personagem, destaque para a cena dela caminhando entre a multidão e a antológica cena na orquestra, onde apenas vemos o rosto da personagem sendo corroído por dúvidas). Há quem fique frustrado com o desfecho do filme, ou até mesmo com a inibida forma como Glazer apresenta a possibilidade de um romance improvável entre Anna e o pequeno Sean, no entanto, o filme funciona de forma bastante elegante com a fotografia cheia de marrom, sombras e dourado embalada por uma trilha sonora que lembra tristes canções de ninar. Cada cena, em seus movimentos próprios, cria uma narrativa envolvente que mescla drama e suspense com maestria numa história onde o passado inibe que o futuro aconteça. Além de contar com a impecável atuação de Nicole, o filme ainda se beneficia de um bom grupo de coadjuvantes que inclui Lauren Bacall (como a matriarca da bem nascida família de Anna), Alison Elliott, Peter Stormare e uma surpreendente Anne Heche na pele da dona de um segredo perigoso. Apesar do fracasso de bilheteria nos EUA, o filme fez sucesso nos cinemas brasileiros e colheu elogios pelo conteúdo provocador tratado de forma tão envolvente. 

Reencarnação (Birth/EUA - Reino Unido - Alemanha/2004) de Johnatan Glazer com Nicole Kidman, Danny Huston, Cameron Bright, Lauren Bacall, Anne Heche, Peter Stormare e Alison Elliot. ☻☻☻☻

segunda-feira, 10 de março de 2014

DVD: Só Deus Perdoa

Gosling: mãos para destruição e não para diversão...

Ao assistir ao primeiro filme da trilogia Pusher (1996) tive a impressão de que havia uma vontade do dinamarquês Nicholas Winding Refn ser uma versão hardcore de Quentin Tarantino. Com menos humor e citações cinéfilas, sobrava espaço para cenas de violência elaborada e a criação de cenas tensas ao extremo. Sorte que quando o diretor realizou o sucesso Drive (2011) essa impressão não existia mais. Observamos um diretor pleno na construção de sua identidade, usando referências da década de 1980 (os créditos iniciais, a trilha, a jaqueta cool do protagonista...) para criar a narrativa de um dublê de cinema que dirige carros para criminosos nas horas vagas - papel defendido por Ryan Gosling. Refn e Gosling ficaram tão satisfeitos com a elogiada parceria que engataram um segundo filme juntos: Só Deus Perdoa. Eu já fiquei assustado quando um bando de marmanjos entusiastas aclamavam o primeiro poster da produção, onde o rosto do ator aparecia cheio de hematomas. Com as críticas que o filme recebeu (e a demora na estreia por aqui) hesitei em acreditar que a dupla criou um fiasco. Assistindo ao filme, aquela impressão de que Refn queria ser Tarantino voltou ainda mais forte, pena que não seja tão hábil com uma caneta na mão. Refn demonstra uma dificuldade danada em construir uma história que preste dentro das referências que escolheu aqui. A violência estilizada beira o humor involuntário (ou o pastelão) e as referências ao cinema oriental me remeteram a uma espécie de Kill Bill (2003) pobre, que se leva mais a sério do que deveria. Outra referência na história é a tragédia clássica de Édipo Rei, mas faltou ao diretor a humildade de perceber que não tinha uma história pronta, apenas o esboço de uma história sobre vingança. Refn parece implorar para que Ryan Gosling atue como uma estátua, com poucos momentos em que podemos perceber o talento do moço na pele de Julian (e a lembrança  fresca de Drive faz sua atuação soar como uma paródia de si mesmo). Julian é o administrador de uma casa de Muay Thai em Bancoc, na Tailândia. Apesar do ator chamar atenção para a produção, os minutos iniciais são dedicados ao irmão dele, Billy (Tom Burke) e sua jornada em busca de uma adolescente para estuprar e matar. Billy acaba assassinado pelo pai de sua vítima a mando de um policial  (Vithaya Pansringarm) que vive com uma espada de samurai presa às costas. Ciente da conduta do irmão, Julian acaba desistindo de vingar a morte do mano, mas a mãe dele não fica nada satisfeita com isso e busca a vingança por meios próprios. A narrativa parece fazer questão de nos fazer não se envolver com os personagens, mas Kristin Scott Thomas consegue chamar atenção como a estranha mãe de Julian. Bastante diferente dos tipos elegantes que estamos acostumados a vê-la, Kristin constrói uma espécie de poderosa chefona brega de tendências incestuosas, graças à ela que o filme consegue ter alguma graça. - já que o policial vilão acaba gerando risadas sempre que está pronto para usar sua espada. Já o pobre Julian serve apenas para o diretor exercitar seu fetiche pelas mãos do personagem - que parecem destinadas somente à violência (que renderá a cena conclusiva mais bizarra dos últimos tempos). Só Deus Perdoa tem a ambição de ser um filme estiloso sobre vingança, mas o estilo acaba ficando restrito ao uso da iluminação e da trilha sonora. As cenas arrastadas e simbólicas não conseguem disfarçar a preguiça de construir uma história que prestasse, o que torna o filme uma experiência frustrante para quem esperava que Nicholas Winding Refn havia alcançado o domínio de seu estilo próprio. Só Deus Perdoa mostra que ele é capaz de recair num velho mosaico disforme de referências, mas só uma nova obra irá dizer se Refn é digno de perdão. 

Só Deus Perdoa (Only God Forgives/Dinamarca-França/2013) de Nicholas Winding Refn com Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm e Tom Burke. ☻

domingo, 9 de março de 2014

Pódio: Jared Leto

Bronze: vidas paralelas infinitas
3º Senhor Ninguém (Mr. Nobody/2009) 
Pouco divulgado e com dificuldades de ser lançado nos EUA até hoje, talvez esse filme dirigido pelo belga Jaco Van Dormael tenha chance de ser descoberto depois dos prêmios recebidos por Jared recentemente. O penúltimo filme de Leto é uma jornada surpreendente por realidades paralelas, onde num futuro distante, a narrativa do homem mais velho do mundo (Jared) entrelaça as várias possibilidades de seu passado. Bem construído, envolvente e poeticamente complexo, o filme merece um lugar entre os seus favoritos de todos os tempos.

Prata: o mundo é um pesadelo
2º Réquiem Para um Sonho (Requiem for a Dream/2000) 
Em seu segundo longa metragem, Darren Aronofsky mostra com quantas cenas se revira o estômago do espectador. Baseado na obra de Hubert Selby Jr, Réquiem é um dos maiores pesadelos já concebidos para o cinema. Denso, delirante e sem concessões, o filme mostra o mergulho de uma família no mundo das drogas, seja o filho (Jared Leto), a namorada dele (Jennifer Connely) ou a mãe (Ellen Burstyn). O filme provou que Jared podia ser um bom ator - ainda que as suas parceiras roubassem a maioria das cenas desagradáveis. O filme ainda marcou a atração de Jared por transformações físicas. 


Ouro: Oscar na estante. 
1º Clube de Compras Dallas (Dallas Buyer's Club/2013)
Acho que nem o ator acreditava que um dia levaria os maiores prêmios do cinema para a casa (incluindo o Globo de Ouro e o Oscar), talvez por conta da esnobação por seus trabalhos no cinema, Jared Leto tenha passado mais tempo na companhia de sua banda 30 Seconds o Mars. Agora, depois que a transexual soropositiva Rayon mudou a percepção de Hollywood sobre ele, Jared deve aparecer mais vezes no cinema. No entanto, depois de viver o contrabandista de remédios, não vejo que seus papéis serão mais comuns, pelo contrário, talvez sejam mais desafiadores! 

CATÁLOGO: Capítulo 27

Jared: 27 quilos a mais.

Perdi a conta de quantas vezes o crítico Rubens Ewald Filho repetiu que o maior problema do ator Jared Leto era ser "bonito demais". Esse mal é muito comum em atores com pinta de galã - é por isso que Brad Pitt tem hoje em sua estante um Oscar como produtor de 12 Anos de Escravidão/2013 e não como ator indicado ao prêmio três vezes. Jared teve mais sorte. Conheço Leto desde o seu trabalho na TV, especificamente quando acompanhei a ascensão de Claire Danes no seriado My So Called Life (que durou somente 19 episódios entre 1994 e 1995), onde ele interpretava o antológico garoto problema Jordan Catalano. Depois ele começou a fazer filmes, demonstrando grande atração para aqueles papéis que funcionavam como disfarce para sua estampa. Talvez o auge de sua transformação física tenha acontecido neste Capítulo 27 que, se não fosse pelo tema espinhoso, poderia ter feito mais sucesso nas premiações. O diretor estreante J.P. Schaefer demonstrou ter coragem para criar uma adaptação para o polêmico livro Let Me Take You Down (escrita por Jack Jones) que explora como funcionava a mente de Mark David Chapman, o fã que assassinou John Lennon na noite de 08 de dezembro de 1980. Nascido em 10 de maio de 1955, Chapman foi condenado à prisão perpétua e tornou-se uma das figuras mais odiadas da década de 1980 - o reflexo disso afetou a carreira do filme drasticamente. É verdade que o diretor bancou o espertinho ao escalar o esguio Jared para interpretar o personagem rechonchudo. Jared engordou bastante para dar conta do papel (e o filme explora vários ângulos de sua inédita pança que lhe causou alguns problemas de saúde na época), mas seria maldade restringir sua presença em cena aos quilos a mais. O ator consegue criar um personagem bastante estranho, da fala arrastada aos ataques de fúria, Jared mergulha com gosto nas ambiguidades do personagem que expressa sua loucura com algumas doses dissonantes de ternura. Fica claro que a mente de Chapman agia dentro de uma lógica própria, capaz de estabelecer relações entre o cineasta Roman Polanski, o louco Charles Mason e John Lennon numa agilidade assustadora. Seus pensamentos parecem moldados por uma leitura bastante particular da Bíblia e do clássico O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger (o próprio título do filme é uma referência ao livro, que termina a narrativa no capítulo 26) e Jared constrói um personagem inquieto, ainda que sua aparência pudesse parece inofensiva. A produção funciona muito bem em seu ritmo soturnamente lento que segue Chapman em suas visitas à casa de Lennon, nas noites solitárias e os diálogos desarticulados com quem atravessava seu caminho. Sabiamente, o filme não se preocupa em criar suspense para o desfecho que todo mundo conhece. Seu foco é mesmo mostrar o funcionamento da mente doentia de seu personagem que aparece sob um passado nebuloso e já condenado a um futuro ainda mais sombrio. Ainda que evite o sensacionalismo em sua narrativa, o maior problema do filme está na fragilidade de exibir a guinada insana de Chapman que o transforma um fã de Lennon em assassino do próprio ídolo, mas penso que nem Freud conseguiria traduzir isso em imagens cinematográficas. No entanto, é preciso um bocado de coragem para fazer um longa sobre os mecanismos mentais de um personagem tão odiado. O filme acompanha os personagem nos três dias antes do crime, não tenta inocentar o personagem, nem o faz parecer alguém digno de culto, mas o exibe como uma pessoa de graves desajustes mentais (do tipo que imagina que uma assinatura na capa de um álbum fosse mudar sua vida) num clima deprimente. Carregando o filme nas costas, Leto tem companhia de um bom elenco de apoio (com destaque para Lindsay Lohan como uma fã de Lennon que percebe que alguma coisa está fora do lugar na mente de Chapman). 

Capítulo 27 (Chapter 27/EUA-2007) de J.P. Schaeffer com Jared Leto, Linsay Lohan, Judah Friedlander. ☻☻☻

sábado, 8 de março de 2014

CATÁLOGO: Uma Equipe Muito Especial

Hanks e Geena: no auge. 

Tem filmes que conseguem me embriagar de nostalgia da década de 1990! Um delas é Uma Equipe Muito Especial de Penny Marshall. Apesar de ter mais trabalhos como atriz do que na direção, Penny conquistou algum reconhecimento depois de realizar Quero Ser Grande (1988) estrelado por Tom Hanks (que conseguiu sua primeira indicação ao Oscar pelo trabalho) e Tempo de Despertar (1990) que indicou Robert DeNiro ao Oscar de melhor ator e ainda concorreu aos prêmios de roteiro adaptado e melhor filme. Ou seja, na época, era uma das poucas diretoras que conseguiam se impor perante a Academia - nada mal para uma novaiorquina natural do Bronx. Em 1992 seu filme era um dos mais aguardados do ano, mas teve que se contentar somente com duas indicações ao Globo de Ouro (atriz de comédia/Geena Davis e Canção Original para This Used To Be My Plauyground de Madonna e Shep Pettibone). No entanto, Uma Equipe Muito Especial alcançou sucesso de bilheteria, com a história de um grupo de mulheres escaladas para jogar na liga nacional de baseball durante a 2ª Guerra Mundial - já que os homens estavam lutando na guerra. O filme de Marshall parte do relacionamento entre duas irmãs que são sondadas para participar dos jogos, uma é a craque Dottie (Geena Davis), a outra é a sempre ofuscada Kit (Lori Petty, uma promissora atriz dos anos 1990 que sumiu do mapa). As duas se juntam a uma equipe repleta de mulheres bem intencionadas, que vivem seus dramas enquanto tem que mostrar que são capazes de jogar tão bem quanto os marmanjos. O time feminino ainda conta com Madonna, Rosie O'Donnel e Anne Ramsey, todas sofrendo com as grosserias do astro do baseball em decadência Jimmy Dugan (Tom Hanks, bem divertido e diferente dos bons moços de seu currículo). O filme consegue ser bastante agradável, alguns vão dizer que exagera nas doses de açúcar em alguns momentos, mas o resultado consegue se equilibrar na difícil tarefa de fazer graça para não cair no dramalhão. No Brasil, filmes sobre o esporte costumam ter problemas, já que ele é pouco praticado por aqui e os diretores possuem grande dificuldade em tornar as partidas interessantes (basta lembrar que O Homem Que Mudou o Jogo/2011 evita as cenas em campo sob a desculpa de ser um filme sobre "algo maior"... sei...), mas isso não acontece aqui. Penny Marshall e o elenco conseguem emanar grande energia nas partidas - o que serve de contraponto para as intrigas nos bastidores que a liga feminina atravessava. Mesmo que explore pouco as coadjuvantes em cena (inclusive Madonna que recebe destaque no poster do filme), todas tem uma cena ou outra de algum destaque, mas o foco está mesmo nos dilemas de Dottie - seja nos conflitos com a irmã, na espera do esposo que está na guerra (vivido por Bill Pullman), ou a atração mal disfarçada que Dugan sente por ela enquanto discutem por boa parte do filme. Com a mensagem de toques feministas e a abordagem de um assunto pouco abordado nos cinemas (lembrei muito dos desafios e preconceitos que sofrem as mulheres que jogam futebol profissionalmente no Brasil), Uma Equipe Muito Especial ainda merece atenção pelo jeito aparentemente inofensivo que aborda questões que (apenas) julgamos terem sido superadas. Aproveitando o tom nostálgico do filme, não tem como não relembrar o período de ouro que atravessava o trio de atores no alto dos créditos. Nos anos 1990, Tom Hanks caminhava cada vez mais para o seu auge (nos dois anos seguintes estrelaria Filadélfia e Forrest Gump, que lhe tornaria o segundo ator na história a ganhar o Oscar de ator duas vezes consecutivas e ainda viria Apolo 13, a voz do cowboy Woody em Toy Story...) e Geena Davis estava na sua fase queridinha de Hollywood (o Oscar de atriz coadjuvante por O Turista Acidental/1988 estava na estante e havia acabado de saborear sua indicação por Thelma & Louise/1991 e os elogios por Herói por Acidente/1992). Completava o trio de estrelas a cantora Madonna, que ainda tentava um lugar ao sol no cinema (fez sucesso com Dicky Tracy/1990 - sua canção tema lhe rendeu o show mais memorável da história do Oscar - apareceu num filme de Woody Allen - Neblina e Sombras/1991 que eu detesto, mas falo disso depois - e o sucesso da canção Vogue a coroava de vez como a "Rainha do Pop"). Nos dias atuais de 2014, Tom pelejou para ter uma indicação ao Oscar e não conseguiu. Geena Davis está fora do mapa hollywoodiano há alguns anos e Madonna desistiu de ser atriz - e ambiciona ser cineasta (e teve que suar muito para vender dois milhões de cópias de seu último cd, MDNA). 

Madonna: raro sucesso no cinema. 

Uma Equipe Muito Especial (A League of Their Own/EUA-1992) de Penny Marshall com Geena Davis, Tom Hanks, Madonna, Lori Petty, Rosie O'Donnel, David Strathairn e Jon Lovitz. ☻☻☻☻