sexta-feira, 10 de junho de 2016

Pódio: Ben Whishaw

Bronze: O Gênio.
Diante da repaginada que foi a era Daniel Craig na franquia James Bond, Ben Whishaw utilizou toda sua fleuma britânica para dar vida à versão mais jovem do brilhante Q, responsável por todos os apetrechos e assessoria tecnológica que o o agente 007 precisa. Além de criar um personagem com maior presença em cena, ele ainda transpira um senso de humor quase inexplicável com um simples gesto ou pausa respiratória. Com a postura criada pelo ator, Q nem precisava fazer nada, o personagem exala genialidade só de ficar parado na tela. 

Prata: O Poeta. 
Tipos românticos são uma raridade na carreira do ator. Acho que ele prefere ser uma das versões de Bob Dylan (Não Estou Lá/2008) ou viver o urso Paddington (2014), mas ele encarnou de forma memorável o poeta John Keats nos seus últimos três anos de vida - quando em meio a todos os problemas ele viveu um romance com a modista Fanny Browne (Abbie Cornish). A química entre o casal, somado ao romantismo trágico impresso pela diretora Jane Campion, fez do filme um dos filmes mais queridos do Festival de Cannes daquele ano. 

1º: O Sem Cheiro
1º  Perfume - A História de Um Assassino (2006)
Ninguém tinha ouvido falar do ator quando ele foi o protagonista desse impactante filme do alemão Tom Tykwer. Ben vive um sujeito que padece de uma maldição: não ter cheiro. Para sanar o problema ele traça o plano de criar um cheiro próprio para si através da essência de algumas moças. Na pele de Jean Baptiste, o ator mostrou que é capaz de criar as nuances mais inesperadas para qualquer tipo de personagem. Foi por conta de sua atuação neste filme que ele era o meu favorito para viver o jovem Magneto no filme solo do personagem (quando Michael Fassbender nem era cogitado pelo estúdio). 

CICLO DIVERSIDADE SXL: Lilting

Whishaw e Leung: refúgio na memória. 

Ben Whishaw é um dos meus jovens atores ingleses favoritos e, embora não seja muito conhecido do público brasileiro, já apareceu em vários filmes de sucesso e outros que se tornaram cults. O rapaz costuma diversificar bastante os papéis e, embora as grandes premiações ainda o ignorem, podem escrever que um dia ele ainda será indicado ao Oscar (e talvez até leve a estatueta para casa). Whishaw ainda é um dos poucos atores em ascensão que tiveram a coragem de sair do armário perante a mídia, sem medo de que isso prejudicasse sua carreira - ele até casou com o compositor Mark Bradshaw em 2013. Portanto, é fácil entender o interesse do ator em estrelar Lilting, filme inédito nos cinemas (talvez por carregar o título capenga Na Cadência do Amor graças aos nossos brilhantes distribuidores que não sabiam que o título original se referia à uma melodia) - mesmo com elogios da crítica e indicações ao BAFTA  de melhor estreia para o diretor, roteirista e produtor Hong  Khaou. Embora Whishaw mereça destaque, sua atuação não é o único motivo para prestar atenção à história, a veterana Pei Pei Cheng (atriz chinesa que filma desde a década de 1960) também tem momentos memoráveis na história de duas pessoas que buscam superar a ausência do grande amor de suas vidas. Junn (Cheng) é uma imigrante cambojana que vive atualmente numa instituição para idosos e ainda tenta superar a morte de Kai (Andrew Leung), seu único filho. Sem dominar o inglês sua vida é ainda mais solitária naquele local, motivo pelo qual conversa frequentemente com as memórias do filho falecido. Embora atencioso, Kai nunca conseguiu explicar para a mãe porque ela não poderia morar com ele. O motivo é que ele mora com Richard (Ben Whishaw), que é mais do que só o amigo que a mãe imagina. Kai e Richard formavam um casal e com a morte dele, Richard considera que possui uma dívida com aquela senhora, ao ponto de contratar uma tradutora não profissional (Naomie Christie) para indiretamente se aproximar dela. Hong Khaou cria um filme sensível, que mistura o tempo presente com o passado e flashbacks de maneira bastante eficiente, deixando claro que ausência de Kai une Richard e Junn. É envolvente a forma como embora ambos lidem com esse incômodo vazio de forma semelhante, os dois encontram dificuldades para aliviar a dor um do outro - não apenas por problemas de comunicação, mas porque Kai não conversou com a mãe sobre o fato de ser gay e Richard não sabe como agir diante do segredo. Embora essa confissão seja o fio condutor do filme, cresce a impressão que isso é o que menos importa. Ao explorar uma solidão causada por mentiras e pré-conceitos, o diretor narra os dramas de seus personagens com rara delicadeza (e alcança tanta eficiência que as cenas que funcionriam para o alívio cômico parecem estar sobrando). Quando o filme termina a sensação é que as memórias dos protagonistas podem preencher o vazio de um e outro - mas muitas outras poderiam ter surgido se o medo da rejeição não houvesse causado ausência já em vida. Lilting é uma pequena, mas cintilante, pérola sobre a ausência de quem foi amado.

Na Cadência do Amor (Lilting/Reino Unido-2014) Hong Khaou com Pei Pei Cheng, Ben Whishaw, Andrew Leung, Naomie Christie e Peter Bowles. ☻☻☻ 

Você também poderá gostar destes filmes citados aqui no blog:
🌈 "Direito de Amar" de Tom Ford
🌈 "O Amor é Estranho" de Ira Sachs
🌈 "Toda Forma de Amor" de Mike Mills

quinta-feira, 9 de junho de 2016

CICLO DIVERSIDADE SXL: Eu Te amo Renato

Adriana, Beto e André: ménage (quase) constante. 

Renato Russo com suas letras à frente do Legião Urbana tornou-se o porta-voz de uma geração e o fato de ser homossexual assumido desde os 18 anos nunca foi problema para que fizesse história como um dos maiores ícones do rock brasileiro. Em 2012 o diretor Fabiano Cafure também fez história, só que no cinema nacional ao lançar o primeiro filme brasileiro feito diretamente para a internet. Some esse fato ao título (dedicado ao vocalista da Legião Urbana, Renato Russo) e você entenderá dois dos principais motivos do longa ter chamado atenção. Em sua primeira experiência como diretor Cafure ainda responde como diretor de fotografia, diretor de arte, roteirista e até aparece como ator (em uma pequena participação) e percebe-se durante todo o filme como o fato de ser uma produção independente (não atrelada a grandes estúdios, patrocínios e distribuidores) o ajudou a construir um filme bem diferente do que o cinema nacional está acostumado a fazer. Embora tenha seus tropeços, Eu Te Amo Renato (que você pode assistir agora mesmo, é só procurar na internet), merece destaque pela ousadia de contar a história de um triângulo amoroso formado pelo casal de namorados Adriana (Ingrid Conte) e Beto (Felippe Vaz) junto ao amigo André (Vinicius Moulin Allemand) na cidade de Valença na década de 1990. Adriana e Beto convidam André e sua pretendente, Camila, para um final de semana numa casa de campo. Camila acaba desistindo e André quase faz o mesmo, mas por insistência do casal acaba aceitando acompanhá-los. Acho essa primeira parte a mais interessante, onde se percebe através de toques e olhares, que existe uma atração entre os personagens. Fabiano Cafure consegue apresentar os personagens com bastante sinceridade até que começa um relacionamento a três no segundo ato do filme.  A câmera deixa claro que com o tempo, Adriana perderá espaço no trio e que as mágoas serão inevitáveis. Embora Cafure invista longos minutos no tórrido relacionamento dos personagens, o problema está no que está em volta do trio (tanto que opta por quase sempre isolá-los), já que o filme apresenta de forma tímida como a população conservadora reage ao trio de amantes - cabendo ao marrento irmão de André o posto de preconceituoso do filme. Levando em conta que a pequena Valença, cidade no sul do estado do Rio de Janeiro, tem pouco mais de 70 mil habitantes nos dias atuais, um relacionamento como o apresentado no filme causaria um rebuliço bem maior que o apresentado aqui - e o alto números de beijos não ajuda a narrativa (deve ser o filme com maior concentração de beijos da história do cinema nacional). Parece que um beijo vale mais que qualquer palavra... não é bem assim. Ainda existem alguns momentos que soam forçados, como Adriana divagando sobre a vida  ou os momentos em que uma canção é inserida nos diálogos quase que abruptamente (como se fossem realmente necessárias). É verdade que a trilha sonora tem papel importante, pena que não foi possível utilizar as músicas da Legião na versão original, sendo apresentadas somente versões (para não inchar o orçamento de 35 mil reais). Apesar dos tropeços, Eu Te Amo Renato conta com dois jovens atores esforçados, Felippe e Vinicius conseguem defender seus papéis com bastante desenvoltura, inclusive nas cenas em que demonstram maior intimidade diante da câmera. É por conta deles que o final se torna ainda mais emblemático com a notícia da morte de Renato Russo (que poderia até gerar risos da forma como é mostrada ao sobrepor duas perdas significativas para os personagens). Sem Renato, o futuro deixou de ser como era antigamente. 

Eu Te Amo Renato (Brasil, 2012) de Fabiano Cafure com Vinicius Moullin Allemand, Felippe Vaz, Ingrid Conte, David Manzano e Flavia Arruda. ☻☻

Você também poderá gostar destes filmes citados aqui no blog:
🌈 "Os 3" de Nando Olival
🌈 "Drama" de Matias Lira
🌈 "Tatuagem" de Hilton Lacerda

quarta-feira, 8 de junho de 2016

CICLO DIVERSIDADE SXL: Minha Vida em Cor-de-Rosa

Ludovic: uma difícil jornada por compreensão.  

Assistindo a produção Minha Vida em Cor-de-Rosa tenho a impressão que o mundo regrediu no século XXI. Com a propagação de tantos discursos preconceituosos, não parece que na virada de 1997 pra 1998 o filme do belga Alain Berliner tornou-se um grande sucesso nos cinemas brasileiros. Embora hoje exista vasta discussão sobre as identidades de gênero, em 1997 o espaço para essas discussões era bem mais modesta e, mesmo assim, muitos abraçaram a história do pequeno Ludovic com mais do que com curiosidade: com carinho. A história gira em torno de  um menino de apenas sete anos pensa que um dia se tornará uma menina. Utilizar roupas e acessórios femininos sempre foi um hábito para Ludo, mas os pais nunca viram com maus olhos essa característica do filho... até perceberem que aquilo deixou de ser uma brincadeira, principalmente depois que ele aparece vestido de princesa numa festa. Ludo brinca de boneca, sonha que uma personagem de TV (no estilo Barbie) é sua fada madrinha e que quando crescer ele se casará com seu melhor amigo - filho do patrão de seu pai. Os hábitos de Ludovic são tratados com tolerância no início, mas conforme começa a incomodar as pessoas que estão ao seu redor, a família começa a repreender seu comportamento, ao ponto de culpabilizar o menino por uma série de acontecimentos ruins que acontecerão na família. O melhor do filme é que não tenta explicar o comportamento do menino por um determinado fato ou influência e, por isso mesmo, quando ele é levado ao psicólogo os pais ficam insatisfeitos com o motivo do filho ser assim: Ludovic é assim e pronto. O pequeno ator George DuFresne compõe um protagonista irresistível em sua ingenuidade, inocência e doçura, representando com maestria o incômodo de pensar como uma menina num corpo de menino, seu olhar reflete a confusão de ver seu corpo como algo que não corresponde à sua identidade.  Caçula de dois irmãos e uma irmã, Ludovic tem certeza (em toda a proporção que os sete anos pode gerar) sobre seus sentimentos, já os pais ficam cada vez mais confusos diante de problemas na vizinhança e na escola, oscilando entre a culpa, o carinho e a rejeição (com destaque para atuação da mãe vivida brilhantemente por Michèle Laroque). Berliner compõe um filme colorido para tratar de um assunto delicado, mas possui a sensibilidade para transformar a jornada de seu protagonista numa reflexão sobre a construção da identidade de gênero. No entanto, além de tratar questões de sexualidade, o filme explora a relação família/sociedade e a pressão social existente para enquadrar os sujeitos em convenções pré-estabelecidas - seja através da  rejeição, desrespeito, preconceito, ignorâncias e outras posturas pouco lisonjeiras. O filme foi premiado com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e merece ser redescoberto em tempos de tanta intolerância. 

Minha Vida em Cor-de-Rosa (Ma Vie en Rose / França, Bélgica e Reino Unido - 1997) de Alain Berliner com George DuFresne, Michèle Laroque, Jean-Philippe Écofrey e Hélène Vincent. ☻☻☻☻

Você também poderá gostar destes filmes citados aqui no blog:
🌈 "Hedwig" de John Cameron Mitchell
🌈 "Laurence Anyways" de Xavier Dolan
🌈 "Quero Ser John Malkovich" de Spike Jonze

terça-feira, 7 de junho de 2016

CICLO DIVERSIDADE SXL: Humpday

Mark e Joshua: dois amigos e uma ideia. 

Ben (Mark Duplass) e Andrew (Joshua Leonard) são dois amigos que não se encontram há muito tempo, portanto, a surpresa é inevitável quando Andrew bate à porta no meio da noite e diz que apareceu para uma visita. Ben apresenta o amigo para a esposa como "aquele do casamento"! Basta essa apresentação para que o sossego seja reinstalado e o hóspede seja acomodado (meio de qualquer jeito) num colchonete. Conversa vem, conversa vai, Ben fala sobre a vida de casado e o amigo sobre uma mulher que conheceu e que mora ali por perto. É meio que por conta da namorada que os dois amigos tomam conhecimento de um festival de vídeos pornográficos artísticos que acontece todo ano, onde pessoas comuns filmam cenas tórridas, exibem para uma plateia restrita escolher qual é o melhor e, depois, todos os filmes são destruídos. A ideia cresce na mente dos amigos, especialmente na cabeça de Ben que tem a ideia de filmar a primeira experiência homossexual de dois homens. Esse é o ponto de partida do filme da diretora americana Lynn Shelton que fez muito sucesso em festivais de cinema independente no ano de 2009 - levando o prêmio do júri no Festival de Sundance e o prêmio John Cassavetes (voltado para os filmes de baixíssimo orçamento) no Independent Spirit Awards - e despertou curiosidade e incômodo em plateias mundo afora. Em seu terceiro filme a diretora investe no formato "câmera na mão" e em cenas visivelmente improvisadas, para dar a sensação de que o espectador é íntimo daqueles personagens, destacando cenas pontuais para criar algum desconforto e revelar um pouco mais sobre os dois amigos. Se Ben começa como o esposo tranquilo que ainda tenta engravidar a esposa, Andrew é a sua antítese, apresentado como uma espécie de aventureiro destemido - mas que nunca foi capaz de escolher um caminho para seguir. Curiosamente, o insuspeito Ben é o mais animado para fazer o tal vídeo com o amigo, demonstrando alguns sentimentos que Andrew nem suspeitava que o  amigo possuía. Para além da tensão que começa a existir entre os dois, merece destaque a esposa (vivida por Alycia Delmore) que oscila (às vezes de forma bastante divertida) entre o que está prestes a acontecer com seu esposo. Sem cenas apelativas ou ceder aos estereótipos, Humpday também não se dedica a discursos profundos, deixando que o espectador tire suas próprias conclusões sob o trunfo de uma ideia forte, que mexe com o imaginário da plateia - aqui temperada com um homoerotismo sutil que lança significados inusitados a uma amizade já estabelecida há tempos. Pela naturalidade e realismo com que aborda um tema inquietante, o filme tornou-se um destaque da cena indie na década passada.

Humpday (EUA/2009) de Lynn Shelton com Mark Duplass, Joshua Leonard, Alicia Delmore e Lynn Shelton. ☻☻☻

Você também poderá gostar destes filmes citados aqui no blog:
🌈 "Beleza" de  Oliver Hermanus 
🌈 "Hawaii" de Marco Berger
🌈 "Os Infiéis" de Emanuelle Bercot, Jean Dujardin & Outros. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

CICLO DIVERSIDADE SXL: Gotas D'água em Pedras Escaldantes

Maliki e Anna: prisioneiros de um quadrilátero amoroso. 

Depois de participar de vários curtas (de ficção ou documentais) o cineasta François Ozon mostrou-se um dos mais produtivos dos últimos tempos, afinal, lança filmes com o intervalo máximo de dois anos entre um e outro. Em seus primeiros longas ele já demonstrava gosto por questões de sexualidade - foi assim com Sitcom (1998) e Os Amantes Criminosos (1999). No entanto, foi com o filme baseado na peça do alemão Rainer Werner Fassbinder, que ele começou a ficar conhecido por aqui. Gotas D'Água em Pedras Escaldantes revela-se uma comédia (ainda que ácida) tão dramática quanto provocadora, principalmente por abordar aquele tipo de relacionamento que corrói feito uma uma doença. Ambientado na Alemanha da década de 1970, o filme é dividido em atos sobre o relacionamento do jovem Franz (Maliki Zidi) e o cinquentão Leopold (Bernard Giraudeau). Se no primeiro ato instala-se um jogo de sedução capaz de fazer o rapaz se afastar da namorada, no ato seguinte o que se vê é o efeito da rotina sobre os dois. Leopold mostra-se cada vez mais irritado e temperamental, enquanto Franz torna-se cada vez mais cansado das brigas constantes. Entre brigas e reconciliações, os dois seguem juntos num misto de atração e comodidade, pelo menos até que a trama ofereça espaço para mais duas personagens, a jovem Anna (Ludivine Sagnier), a ex-namorada de Franz, e Véra (Anna Thomson), uma antiga conhecida de Leopold. A chegada das personagens trarão novos rumos para a história e ressaltam as cores da capacidade humana em se prender a relacionamentos complicados. Mais importantes do que os laços construídos durante o filme é perceber o olhar que Fassbinder e Ozon lançam sobre a Caixa de Pandora que foi aberta com a liberação sexual, sobretudo na década de 1970. Entre a curiosidade, a sexualidade e a necessidade de romance vivida pelos personagens, o que se percebe é que em meio à revolução sexual, os sentimentos inerentes ao ser humano sempre surgem (não importa se você é hétero, homo, bi, trans...). Enquanto Leopold parece mais preocupado com o seu prazer do que com qualquer outra coisa (e o veterano Giraudeau cria uma composição perfeita para o típico sedutor), outros personagens que cruzam seu caminho esperam mais do que apenas sexo - e os conflitos se tornam inevitáveis (e até mortais). Ozon desenvolve seus personagens num misto de ironias e simpatia, abraçando o que o teatro pode lhe oferecer de melhor na condução da narrativa (a economia dos cenários, a divisão em capítulos...) e ajusta o que ele pode ter de pior na tela (qualquer exagero histriônico foi banido). Entre risos e conflitos, Gotas D'água em Pedras Escaldantes chega ao final melancólico sem moralismos ou toques politicamente corretos - e a cena da janela que não se abre reflete magistralmente como alguns amantes podem se tornar verdadeiros prisioneiros. 

Gotas D'água em Pedras Escaldantes (Gouttes d'eau sur pierres brûlantes/França-2000) de François Ozon com Bernard Giraudeau, Maliki Zidi, Ludivine Sagnier e Anna Thomson. ☻☻☻☻

Você também poderá gostar destes filmes citados aqui no blog:
🌈 "A Pele que Habito" de Pedro Almodóvar 
🌈 "Deixe a Luz Acesa"  de Ira Sachs 
🌈 "Tom na Fazenda" de Xavier Dolan

domingo, 5 de junho de 2016

FILMED+: A Grande Beleza

Servillo: a eterna busca pela essência. 

O jornalista Jep Gambardella (Toni Servillo) acaba de completar 65 anos e continua respeitado no meio em que trabalha, ainda que há décadas não tenha lançado seu aguardado segundo livro. Seu círculo de amigos é formado por intelectuais, artistas e endinheirados que desfrutam das badalações que a cidade de Roma oferece a quem possa bancar um estilo de vida que está longe de ser comum. No entanto, em meio a tantos artifícios, Jep contempla um certo vazio. Uma espécie de vácuo que denuncia o quanto uma existência pode ser superficial - ainda que tenha uma embalagem deslumbrante. Ao ser exibido no Festival de Cannes, A Grande Beleza foi considerado uma atualização de A Doce Vida (1960) de Federico Fellini, uma vez que Jep parece calcado no personagem de Marcello Matroiani vagando entre a nostalgia e o tédio que o presente lhe proporciona. Para Jep e seus amigos o mundo parece uma grande coluna social de jantares e eventos, mas entre um drinque e outro algumas reflexões aparecem como verdadeiros cortes de navalha. Jep encontra-se com artistas que se levam a sério demais (embora estejam apenas recheados de clichês), leitores que problematizam demais o que leem e pessoas que sentem o peso de uma existência desorientada. Parece cabeça demais? Nem tanto. O cineasta Paolo Sorrentino tem uma facilidade incrível de comunicar suas ideias com imagens e aqui ele explora vários contrastes enquanto a câmera acompanha o protagonista em suas andanças e encontros, seja com uma amigo que tenta conquistar uma roteirista arrogante, uma stripper que já passou dos quarenta anos, uma amiga que não percebe o quanto o filho está perturbado, um cultuado aplicador de botox, uma girafa ou até uma verdadeira divindade encarnada... "É tudo um truque", diz um dos personagens no meio do filme e A Grande Beleza trata o mundo como tal, um truque, com momentos trágicos, cômicos e até belamente surreais (a visita dos flamingos é sensacional!), momentos que talvez só façam parte de uma casca que esconde o que está por dentro (ou será que está apenas oco?). Toni Servillo (ator favorito do diretor) transpira um charme humano irresistível de seu personagem, o que eleva as preocupações de Jep (sobre o vácuo em que as identidades se tornaram no século XXI) para outro nível. Entre o narcisismo e o exibicionismo alimentados pelo individualismo, cada vez mais forte, o filme constrói um painel instigante de personagens e situações em busca de um sentido - que remete diretamente ao título. Ganhador de 53 prêmios internacionais (incluindo o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro), A Grande Beleza se equilibra no grande desafio de abraçar uma plasticidade pomposa enquanto disfarce da vacuidade. Se visto somente pela aparência o filme será pura futilidade, mas se perceber o que ele possui na essência,  verá o motivo dele ser considerado uma obra-prima. 

A Grande Beleza (La Grande Bellezza / Itália-França - 2013) de Paolo Sorrentino com Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Girogio Pasotti, Luca Marinelli e Isabella Ferrari. ☻☻☻☻☻

sábado, 4 de junho de 2016

Na Tela: A Juventude

Dano, Keitel e Caine: irmão mais novo de A Grande Beleza. 

Os filmes de Paolo Sorrentino precisam de uma espécie de preparo especial por parte do espectador, afinal, o diretor tem uma linguagem única de traduzir suas ideias em imagens. Sei que parece um tanto pretensioso dizer isso, mas não é o tipo de filme que você assiste apenas para passar o tempo. Quem espera uma trama com começo, meio e fim, intrigas, grandes suspenses ou dramas superlativos se decepciona. Seus filmes geralmente seguem um personagem, dando-se ao luxo de seguir alguns coadjuvantes em poucos momentos que ajudam a compor um universo bastante particular. As imagens tem uma plasticidade absurda e as locações geralmente são belíssimas - além da narrativa ser auxiliada por uma edição tão sugestiva, que compõe uma verdadeira sinfonia de imagens. O auge da admiração pelo estilo do diretor italiano veio com A Grande Beleza (2013), onde ele homenageava a obra do mestre Federico Fellini, especialmente A Doce Vida (1960). Seu passo seguinte dividiu opiniões - mas seus fãs não tem do que reclamar. Embora Juventude não tenha a mesma energia do anterior, os dois possuem muitas semelhanças: se A Grande Beleza girava em torno de um jornalista que aproveitava o que Roma tinha de melhor (e um pouquinho do pior), Juventude se concentra no maestro Fred Ballinger (Michael Caine) que tirou alguns dias para descansar num exuberante hotel nos alpes suíços - que é o destino dos famosos que precisam viver uma espécie de retiro. Ballinger conta com a companhia de um amigo de longa data, o cineasta Mick Boyle (Harvey Keitel) - que é o sogro da filha de Ballinger, Lena (Rachel Weisz). Em meio aos dias de descanso, Fred é convidado para conduzir a Orquestra da BBC na execução de sua celebrada canção Simple Song #3  à pedido da Rainha Elizabeth II. O que poderia ser o auge da carreira de qualquer compositor, torna-se um verdadeiro transtorno na vida do maestro - que rejeita o convite, embora a Rainha persista ao longo de todo o filme. O convite é o fio condutor da história, mas a história agrega vários outros elementos como a elaboração do novo filme de Boyle, a crise no casamento de Lena, a presença de uma Miss Universo no hotel, um ator reconhecido por um papel que detesta (vivido por Paul Dano), Maradona (!!?) e até um homem que é capaz de levitar. Sorrentino faz uma colagem sobre situações envolvendo esses personagens, cria cenas poéticas, bem-humoradas, dramáticas e até surreais (a cena do coral de vacas é a minha favorita). Porém, mais interessante do que a própria história é o tratamento generoso utilizado por Sorrentino para acompanhar seus personagens - motivo pelo qual a participação dissonante de Jane Fonda causou tanto rebuliço, sendo até indicada ao Globo de Ouro de atriz coadjuvante (e cotada para o Oscar tendo menos de dez minutos em cena) sua presença promove um verdadeiro choque na atmosfera construída pelo diretor. Dizem que Juventude é uma homenagem do diretor para outra obra felliniana, Oito e Meio (1963), a ideia inicial poderia até ser essa, mas Juventude parece mesmo um irmão de A Grande Beleza (e o próprio Ballinger lembra Jep Gambardella com seu óculos de armação grossa e cabelo penteado para trás), sendo que Juventude é carrega mais melancolia sob o temor de seus personagens diante de tornar-se descartável (seja como obra, artista, amigo, pessoa...). Juventude me faz lembrar quando as pessoas dizem "no meu tempo" como se o tempo dela já estivesse para trás. Sorrentino mostra que não é bem assim (ainda bem). 

A Juventude (Youth / Itália, França, Reino Unido e Suíça - 2015) de Paolo Sorrentino com Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda, Roly Serrano e Madalina Diana Ghenea. ☻☻☻☻

Nª TV: Damien

Hershey e Lewis:é tudo por você Damien!. 

Há duas semanas o seriado Damien estreou no canal A&E, ou seja, ele estreou por aqui logo depois que o produtor Glenn Mazzara lamentou o cancelamento da série após os dez primeiros capítulos de sua única temporada. Da audiência de 750 mil espectadores no capítulo de estreia, o programa chegou a 405 mil no último episódio. Pelo que se viu nos dois primeiros episódios é fácil perceber o que deu errado. Criado para ser uma continuação do cultuado filme A Profecia (1976), onde o menino Damien é considerado o anticristo, a ideia era mostrar o que aconteceu com o menino depois dos acontecimentos ocorridos no filme. Uma ideia promissora, mas que não recebeu o tratamento adequado nas mãos dos roteiristas. Logo no primeiro episódio percebe-se o que está errado. Depois da infância conturbada, Damien (Bradley James) cresce e se torna um fotógrafo jornalístico conceituado, mas após um conflito na Síria volta a indagar sobre o seu passado e isso irá afetar seu destino definitivamente. A ideia era criar um protagonista que reluta em perceber que foi concebido para ser o mensageiro do mal na Terra, mas diante dos episódios que vi, os autores sabotaram vários elementos que poderiam ter enriquecido o universo da série. Desculpe, mas não há como escrever sobre isso sem SPOILER! Quando aparece a ex-namorada dele você imagina que ele terá uma história de amor e que ela irá revelar o que há de melhor e mais conflituoso dentro dele e... a garota morre. Tem um estudioso sobre o anticristo que pode ajudar Damien a descobrir mais sobre a sua história e tornar tudo mais interessante e... o estudioso morre. Um homem aparece predestinado a matar Damien e você acha que a história será de perseguições, o bem contra o mal e... o homem morre. A única salvação para a história parece estar na grande atriz Barbara Hershey, que está magistral como a misteriosa Ann Rutledge, que tem verdadeira devoção pelo que Damien representa e tem a missão de protegê-lo... mas será que essa relação sustenta a série por muito tempo? É verdade que o filme de Richard Donner tinha lá sua dose de exagero, mas funcionava pelo medo da danação que provocava, mas a série Damien condensa tantos exageros em seus episódios (de cães se alimentando de jugulares, pombos esmagados, diálogos sobre tripas...) que beira o cômico. O estranho é que a série tinha a atmosfera certa até a metade do primeiro episódio, depois sucumbe a uma morte após a outra e tudo o que o ator Bradley James tinha de promissor no papel vai desanimando dentro da estrutura cada vez mais repetitiva. Vou continuar acompanhando para ver como as coisas pioram nos próximos oito episódios, mas já percebi que a marca da série é liquidar todo personagem que possa tornar a jornada de Damien mais interessante. 

Damien (EUA/2016) de Glenn Mazzara com Bradley James, Barbara Hershey, Megalyn Echikunwoke, Omid Abtahi e David Meunier. ☻☻