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domingo, 30 de agosto de 2020

CICLO GHIBLI: Nausicaä do Vale do Vento / O Castelo Animado / Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar

Nausicäa: futuro pós-apocalíptico. 

Nausicäa é o segundo filme de Hayao Miyazaki, não chegou a ser produzido pelo Estúdio Ghibli, mas com o tempo recebeu o selo pela notoriedade que seu criador recebeu após o seu sucesso. Após  O Castelo de Cagliostro (1979), Hayao demonstra aqui mais claramente o estilo que o consagraria em todo o mundo: o uso exuberante das cores, as ambientações impressionantes, o traço caprichado, os protagonistas heroicos e a relação do homem com a natureza. O filme agradou público e crítica e alavancou de vez a carreira do cineasta. No entanto, Nausicäa do Vale do Vento investe num gênero que Hayao não revisitou em sua carreira: a ficção científica. Curiosamente a trama é baseada no mangá criada pelo próprio Miyazaki dois anos antes e conta uma história ambientada mil anos no futuro em que vemos a Terra devastada por séculos de poluição e destruição da natureza, o que gerou o chamado "colapso da civilização industrial". O resultado é um mundo praticamente coberto pelo que chamam de "Mar Podre", espécie de floresta tóxica que produz gases venenosos habitada por insetos gigantes capazes de destruir tudo que está pela frente - o que coloca ainda mais em risco a vida dos humanos sobreviventes. No meio deste mundo destruído, existe o vale do título, um lugar que ainda abriga uma espécie de paraíso natural, no qual o humanos procuram viver de forma harmônica com a fauna e a flora que restam. Nausicäa é a heroína que lança um olhar diferente sobre o que a maioria dos personagens teme ao longo da história. Disposta a conhecer melhor este estranho mundo novo o filme cria um embate entre ela e outra personagem que tem outros planos para a humanidade se impor novamente naquele mundo. Existe aí um verdadeira disputa pelo poder através da força bruta. Este embate revela bastante semelhança com os temas abordados mais tarde em outro filme do cineasta, Princesa Mononoke (1997) em que a relação do homem com a natureza também está no centro da trama só que abordado de forma ainda mais agressiva. A animação capricha nos cenários, nos figurinos e nas cenas de ação com naves espaciais e aquele início no deserto que lembra a estética de Star Wars. Nausicäa é um filme cheio de energia e mantem o tom de aventura durante suas quase duas horas de duração. Constrói um mundo próprio tão envolvente quanto assustador e se mantem atual pelo valor de suas entrelinhas. É interessante lembrar dos filmes de Hayao citados aqui e depois assistir a O Castelo Animado (2004), o nono longa metragem do cineasta. Lançado após o sucesso arrebatador de A Viagem de Chihiro (2001), o filme investe mais uma vez em uma fantasia radical (só que desta vez baseada na obra da britânica Diana Wynne Jones). O filme conta a história de  Sophie, a filha de um chapeleiro que é amaldiçoada por uma bruxa e recebe a aparência de uma senhora de noventa anos.

O Castelo Animado: Benjamin Button feminino?

Tentando reverter a maldição ela acaba encontrando o castelo e seres mágicos em seu caminho (um mago, uma chama falante, um espantalho flutuante....), o filme então investe naquele grupo de personagens que tentam mudar seus destinos enquanto Sophie rejuvenesce aos poucos em cada cena. Com toques de romance, aventura e bruxaria o filme caprichando no tom fantástico que é atravessado por uma verdadeira guerra. Particularmente considero o ponto alto do filme o próprio castelo. Sua concepção como um amontoado de sucata em constante movimento resulta bastante exuberante. Enquanto caminha perdendo peças pelo caminho, ele guarda segredos e passagens secretas e já torna por si só interessante. Seu visual é tão milimetricamente calculado em sua tridimensionalidade que impressiona sempre que está em cena. Apesar de ser totalmente surreal, ele parece visualmente realista ao extremo. Embora o roteiro não seja tão bem amarrado, o filme se torna bastante envolvente e, por vezes, até assustador. Quem leu o livro da escritora britânica pontuou que o final ficou bastante diferente, o que transforma a história em uma trama sobre superação e perdão. Diante de suas qualidades, o filme concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza e foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, se tornando um clássico do diretor japonês. Logo em seguida o diretor lançou outro filme que concorreu ao prêmio máximo do Festival de Veneza, mas ficou de fora do Oscar. Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar deve ser o filme mais leve do diretor, apesar de possuir elementos mágicos, seu tom de fábula com toques de surrealismo o torna um programa bastante agradável de assistir. Ponyo parte de uma ideia simples e encantadora em sua ambição de ser apenas uma fantasia sobre amizade, mas que aos poucos ganha contornos de uma fábula sobre nossa relação com a natureza. Ela conta a história de um peixinho que é encontrada por um menino de bom coração, chamado Sosuke e por conta de um incidente no tempo que os dois conviveram, o peixinho se transforma em uma menina e parte para reencontrar seu amigo. No entanto, esta proximidade entre os dois viola algumas regras importantes no convívio entre o mundo marinho e o mundo dos humanos, o que gera consequências surreais na história. O filme tem a maior cara de conto de fadas (e em vários momentos me fez lembrar de A Pequena Sereia/1989 da Disney, embora siga por um caminho completamente diferente) e capricha no uso do mar para criar cenas impressionantes (prova disso é a cena do mar agitado perseguindo o carro de Sosuke e sua mãe), mas mesmo quando o filme apresenta situações que poderiam ser trágicas, o diretor opta por um caminho mais leve e mágico em sua proposta.  O resultado parece mais voltado para as crianças, mas os adultos devem apreciar o excelente uso de cores em contraste com o azul e o verde que alcança momentos deslumbrantes em sua execução.  

Ponyo: aventura em ritmo de conto de fadas. 

Nausicäa do Vale do Vento (Kaze no tani no Naushika / Japão - 1984) de Hayao Miyazaki com vozes de  Sumi Shimamoto, Mahito Tsujimura, Hisako Kyôda. ☻☻☻☻

O Castelo Animado (Hauru no ogoku shiro / Japão - 2004) de Hayao Miyazaki com vozes de  Chieko Baishô, Takuya Kimura e Tatsuya Gashûin. ☻☻☻☻

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo / Japão - 2008) de Hayao Miyazako com vozes de Tomoko Yamakagushi, Kazushige Nagashima, Yuria Nara e George Tokoro. ☻☻☻☻ 

domingo, 14 de outubro de 2012

DVD: Branca de Neve e o Caçador

Charlize: sofrendo por um espelho cego. 

Dá até para imaginar os produtores tramando: "Vamos adaptar Branca de Neve para um público mais juvenil" "Ah, eu também tive essa ideia! E agora?" "Simples, eu faço uma versão para meninas com Julia Roberts e você faz uma versão para meninos", assim nasceram, respectivamente "Espelho, Espelho Meu" e "Branca de Neve e o Caçador". Se o primeiro é leve, bem humorado, com ares de comédia romântica e figurino colorido, o outro é sombrio, repleto de violência e com figurino gótico. Em ambos o destaque é a performance da madrasta, sendo que Roberts opta por uma rainha malévola cool enquanto Charlize Theron aposta alto para se tornar uma das vilãs mais sombrias de 2012. No embate é Charlize que honra um dos maiores ícones vilanescos do cinema. Sem falar que a loura tem talento de sobra para compensar a sonolência de Kirsten Stewart que se beneficia mais da montagem do filme do que dos parcos talentos dramáticos que corre em suas veias. O conto dos irmãos Grimm recebe uma versão épica, voltada especialmente para aqueles que curtem cenas de ação mirabolantes temperada com doses de fantasia. A história começa de forma clássica, mas a coisa já muda no início quando um rei admirado por todos encontra uma prisioneira de um exército inimigo. Ela é Ravenna (Theron), que não mede esforços para reinar sozinha. Para garantir seu poder irrestrito ela mata o rei e prende a sua enteada Branca de Neve (Kristen Stewart), que cresceu com vontade de vingar o legado de seu pai. Quando o espelho mágico diz para a bruxa madrasta que Branca de Neve irá tomar o seu lugar, Ravena decida matá-la. Branca acaba fugindo do castelo e se refugiando na estranha Floresta Negra e a madrasta precisa contratar os serviços de um homem que sobreviveu à estranha floresta. O caçador Eric (Chris "Thor" Hemsworth) aceita a empreitada meio a contragosto sob a promessa de ter sua esposa ressuscitada pela rainha - que é chegada à uma magia negra.  Não precisa pensar muito para perceber que ele se meteu numa grande furada e acaba se aliando à sua caça. O interessante é como o filme arruma soluções para encaixar referências à história original, como o momento em que os sete anões aparecem na trama (desta vez interpretados por atores como Bob Hoskins e Ray Winstone diminuídos por efeitos de computador) como ladrões e o anúncio shakesperiano (que parece chupado de Macbeth) de que Branca de Neve é a mais bela do mundo não apenas por sua aparência mas pela inocência, caráter e força - sendo a única a poder destronar a rainha. Com visual caprichado e cenas de ação bem produzidas, o filme recebeu mais elogios e atenção do público do que a versão cômica da clássica história. As comparações são inevitáveis, mas não é novidade que a violência sempre leva mais pessoas ao cinema, mas é fato que este filme é mais bem cuidado e fluente que o Espelho Espelho Meu de Tarsen Singh. A verdade é que sempre que Theron está em cena, o filme sobe vários (de)graus no interesse da plateia e mostra que Kirsten Stewart está longe de ser o talento que Hollywood espera que ela seja (ela bem que poderia gastar algumas milhas num bom curso de interpretação). Quanto à Chris Hemsworth ele faz o trabalho direitinho, mas em alguns momentos ele fica claramente sobrando na história - esse é o preço de se transformar um personagem pequeno em protagonista. O estreante Rupert Sanders mostra-se um diretor eficiente e seria uma pena ele ser mais lembrado como o homem que terminou o namoro de Kristen com Robert Pattinson. Ao final da sessão o que fica é o enigma da beleza de Charlize que está cada vez mais linda - embora seu espelho no filme seja claramente cego. 

Branca de Neve e o Caçador (Snow Shite And the Huntsman/EUA-2012) de Rupert Sanders com Charlize Theron, Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Sam Claflin, Bob Hoskins, Ian McShane, Ray Winstone e Toby Jones. ☻☻☻