segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

PL►Y: Sully - O Herói do Rio Hudson

Hanks: baseado em um personagem real. 

Tom Hanks é um dos atores mais prestigiados do cinema americano, no entanto, nos últimos anos ele tem sido criticado pela condução de sua carreira nos últimos tempos. Obviamente que Hanks recebe propostas dos diretores mais renomados e roteiros de todo tipo de gente, mas ele prefere conduzir a carreira dentro de uma zona de conforto quando parte do público gostaria de vê-lo em trabalhos diferenciados, assim, ele mantem distância da maioria do cinema independente e jovens diretores. Este ano o ator está cotado para o Oscar por The Post de Steven Spielberg, mas nos últimos anos também esteve por Capitão Phillips (2013), Ponte de Espiões (2015) e este Sully (2016), todos são filmes bem conduzidos e com histórias interessantes, mas que assistimos e vemos Hanks fazer o que se acostumou a fazer nos últimos anos, não se arrisca, não surpreende e continua na mesma esperando que o Oscar lhe conceda mais uma indicação. Sully - O Herói do Rio Hudson é um belo exemplo disso. Dirigido por Clint Eastwood, o filme conta a história real de Chris Sullenberger, um piloto de avião que fez uma manobra muito arriscada para salvar um voo que estava destinado ao desastre. Diante de um incidente grave, Sully resolveu arriscar e pousar sobre o Rio Hudson numa manobra inexplicável que conseguiu salvar todos os passageiros, mas não se preocupe, isto não é um SPOILER, já que o filme prefere abordar as consequências da decisão do piloto. Após o incidente houve um processo de sindicância que contestou a decisão do piloto e de herói ele passou a ser considerado um irresponsável que poderia ter gerado dezenas de mortes por puro capricho de seu ego. O filme gira em torno deste processo, misturando a tensão do piloto que começa a duvidar sobre o que deveria ter feito naquele dia. Sua vida pessoal, o assédio da mídia e sua conduta sobre suspeita se misturam em um roteiro tenso que se torna o grande trunfo do filme. As idas e vindas da trama não prejudicam em nada a compreensão da história, ao contrário, a enriquece apresentando diversas camadas sobre o episódio. Hanks e o elenco de apoio não decepciona, assim como os efeitos especiais que são extremamente realistas e convincentes. Se afastando de se tornar mais um filme catástrofe,o filme se tornou sucesso de público e crítica, mas não encontrou tanta repercussão nas premiações e chegou no Oscar somente com uma indicação à Melhor Edição de Som. No entanto, ainda é o melhor filme de entretenimento dirigido pelo experiente diretor.

Sully - O Herói do Rio Hudson (EUA-2016) de Clint Eastwood com Tom Hanks, Aaron Eckhart,  Laura Linney, Mike O'Malley, Anna Gunn e Holt McCallany. ☻☻☻☻

PL►Y: Mr. Roosevelt

Nöel: estrela promissora. 

Não pense que o filme é sobre o ex-presidente dos EUA, Mr. Roosevelt passa longe da política! O título é o nome de um simpático gatinho que mal aparece no filme, mas desencadeia toda a história sobre a jovem aspirante à comediante que precisa resolver algumas pendengas de sua vida emocional. Conforme vemos no início,  Emily (Noël Wells) descobriu que conseguia fazer as pessoas rirem desde pequena e desde então resolveu ser comediante. Embora arranjar trabalho na área não seja tão fácil como imagina, ao menos ela teve um momento de glória quando um vídeo protagonizado por ela se tornou um sucesso na internet - e algumas pessoas até a reconhecem na rua por conta dele. Fora isso, ela enfrenta alguns problemas com a imagem que tem de si mesma e tem um verdadeiro dedo podre para arranjar namorados desde que ela terminou com Nick (Eric Kline). Eis que um dia Nick entra em contato para ela para comunicar os problemas de saúde com o gato de estimação que ela também deixou para trás e... o reencontro entre os dois é inevitável. Poderia ser uma chance do casal recomeçar se Nick não estivesse num relacionamento sério com Celeste (Britt Lower), que não apenas divide a casa com Nick como também adotou Mr. Roosevelt como seu gatinho de estimação. Ou seja, a crise de ciúme de Emily só tende a se intensificar com o tempo. Por peso na consciência, ciúmes e arrependimentos ela fica na casa com os dois por algum tempo e a tensão cresce de forma  inevitável. É verdade que Nick deixou suas ambições de ter uma banda de sucesso e agora vive uma vida mais estável, talvez por influência de Celeste procurar criar uma imagem perfeita para o casal - o que irrita ainda mais Emily. Aquela atmosfera funciona apenas como um espelho que reflete como  sua vida está cada vez mais bagunçada e tudo explode numa sucessão de conflitos bem humorados e confusões. Além de engraçado, Mr. Roosevelt chama atenção pela forma descontraída como Noël Wells dirige e atua num filme escrito por ela mesma. Ainda que seja uma  ilustre desconhecida por aqui, Noël já participou de vários programas de televisão, entre eles o Saturday Night Live (entre 2013 e 2014) e de episódios do eleogiado Master of None da Netflix. Existe um frescor irresistível na forma como ela conduz a jornada de sua personagem por tudo o que preferiu deixar para trás e faz lembrar uma versão mais light e divertida do que Lena Dunhan era ao fazer o mesmo processo com Mobília Mínima (2010), antes de ficar famosa e ganhar prêmios com a série Girls. Seria interessante que alguém se interessasse pelas ideias de Noël e também lhe desse a oportunidade de criar sua própria série de TV - e nos garantir a cota de risada semanal. 

Mr. Roosevelt (EUA-2017) de Noël Wells com Noël Wells, Eric Kline, Britt Lower, Daniella Pineda, Andre Hyland e Doug Benson. ☻☻☻

domingo, 14 de janeiro de 2018

PL►Y: Wilson

Woody e Laura: casal desastre. 

O roteirista Daniel Clowes tem uma longa carreira no mundo dos quadrinhos, sendo responsável por várias graphic novels que se tornaram cultuadas com o tempo. Clowes também costuma escrever o roteiro quando algum diretor se aventura a levar suas histórias para a telona, foi assim que conseguiu uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado pelo seu trabalho em Ghost World (2001), que tem fãs fieis até hoje. As histórias de Daniel costumam gerar em torno de pessoas comuns que não são muito bem ajustadas aos padrões e geralmente podem ser classificados como excêntricos ou esquisitos em histórias que capricham no humor negro. Com Wilson não poderia ser diferente. Dirigido por Craig Johnson (Irmãos Desastre/2014), Wilson também tem a vantagem de ter Woody Harrelson vivendo o antológico personagem, um senhor de meia-idade solitário, neurótico e dotado de uma honestidade irritante. Se no início o filme não consegue esconder sua alma de HQ, aos poucos a história encontra seu ritmo e o insere num verdadeiro melodrama familiar que segue por um caminho totalmente oposto do convencional. A começar pelo seu reencontro com um amigo de infância (que acaba sendo o último dia em que se verão pelo resto da vida) ou com a ex-mulher, que o abandonou para tentar a vida em Las Vegas. Não bastasse a desenvoltura de Harrelson no papel principal, o diretor ainda conseguiu escalar a ótima Laura Dern para interpretar sua ex-esposa (e ela parece uma versão do futuro de sua personagem em Ruth em Questão/1996 de Alexander Payne, o que deixa tudo ainda mais divertido). Não satisfeito, Wilson descobre que ela estava grávida e que o bebê foi dado para a adoção e o que poderia ser um dramalhão daqueles segue mais uma vez por caminhos inesperados. A química entre o casal de atores consagrados (cada um deles com duas indicações ao Oscar no currículo)  funciona que é uma beleza e deixa o filme ainda mais divertido. O roteiro de Clowes somado com a direção despojada de Craig criam uma atmosfera que subverte sempre o que se espera neste tipo de história, sem inventar demais e sempre exagerando no drama que ressalta ainda mais a graça das situações que vemos na tela. Wilson bem que poderia ter sido lembrado em algumas premiações pelo seu tom de comédia despretensiosa e tão desconjuntada quanto a vida de seu protagonista. 

Wilson (EUA-2017) de Craig Johnson com Woody Harrelson, Laura Dern, Judy Greer, Toussaint Morrison, Chryl Hines, Isabella Amara e Alec George. ☻☻☻

PL►Y: A Longa Caminhada de Billy Lynn

Joe e Garrett: a guerra como espetáculo. 

O diretor taiwanês Ang Lee tem dois Oscars na estante (por Brokeback Mountain/2005 e As Aventuras de Pi/2012), além de vários outros filmes que poderiam ter lhe rendido o mesmo reconhecimento da Academia ao longo de sua carreira. Seja filmando em sua terra natal ou nos EUA, sua lista de trabalhos é extensa e impressiona principalmente pela diversidade (ele já adaptou Jane Austen com o brilhante Razão e Sensibilidade/1995 e fez até uma versão de Hulk/2003 quando a Marvel nem imaginava ter seu próprio estúdio).  Quando filma fora do oriente sua maior virtude é o olhar estrangeiro sobre a cultura americana, o que sempre confere um toque incomum sobre gêneros que pensamos conhecer tão bem - isto não quer dizer que sempre consegue reconhecimento do público e da crítica, pelo contrário, quando mais dissonante for o seu olhar sobre o da audiência, mais risco ele corre. Lançado em 2016, o filme A Longa Caminhada de Billy Lynn perdeu espaço para outro filme de guerra coberto de expectativas para as premiações, no caso Até o Último Homem/2016 que marcou a ressurreição de Mel Gibson para Hollywood. É fácil perceber a maior identificação do público com o filme de Gibson, que segue uma cartilha mais tradicional do filme de guerra americano, quando Billy Lynn oferece mais uma reflexão sobre as marcas da guerra e seu choque com a indústria do entretenimento. Billy (o novato Joe Alwyn) é um jovem de dezenove anos que é transformado em herói por conta de um incidente numa batalha no Iraque. Com seu retorno aos EUA , ao lado dos companheiros de batalha, o assédio da mídia é incessante, numa rotina de encontros e eventos que deixa a impressão de que os soldados (e seus traumas) estão todos deslocados naqueles espaços.  Entre a realidade do showbizz e da guerra, o filme utiliza flashbacks para contar um pouco do que aconteceu com o protagonista e seus companheiros enquanto se preparam para participar de um show do Destiny's Child (este mesmo, o antigo grupo de Beyoncé) durante um jogo de futebol americano e as negociações para que a história daquele herói se torne um filme. Ironicamente, Ang Lee torna o campo de batalha em segundo plano, girando em torno dos rapazes, sua inadequação àquela estrutura, o inevitável reencontro do protagonista com sua família e suas perspectivas para o futuro. O filme é baseado no best-seller de Ben Fountain e tem algumas fragilidades, como o pouco desenvolvimento dos personagens coadjuvantes ou não fazer a mínima ideia de como lidar com o relacionamento de Billy com a irmã (Kirsten Stewart na pele de Kirsten Stewart) ou a dançarina com quem se envolveu sexualmente no passado. Embora nasça de uma ideia interessante, A Longa Caminhada de Billy Lynn não tem fôlego para ser muito mais do que uma crônica visual sobre a guerra vendida como espetáculo da era W. Bush. Sem receber muita atenção nos cinemas americanos o filme foi lançado diretamente em DVD por aqui, uma pena, já que Ang Lee utilizou uma inovadora tecnologia para filmar (filmado em 3D com resolução 4K e 120 quadros por segundo, ou seja, cinco vezes mais rápido do que o utilizado nos últimos 90 anos), esse apuro visual fica evidente na cena do show (que resulta o melhor momento do filme), mas não serve para muita coisa num filme que poderia ser muito mais incisivo do que conseguiu ser.

A Longa Caminhada de Billy Lynn (Billy Lynn's Haltime Long Walk/EUA - Reino Unido - China) de Ang Lee com Joe Alwyn, Garrett Hedlund, Arturo Castro, Mason Lee, Beau Knapp,  Kirsten Stewart, Chris Tucker, Steve Martin e Vin Diesel. ☻☻

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

PREMIADOS CRITIC'S CHOICE AWARDS - 2018

A Forma da Água: Melhor drama rumo ao Oscar. 

Se você não concorda com os filmes que levam o Oscar para casa o que você faz? Oras, cria a sua própria premiação! A 23ª edição do Critic's Choice Awards, premiação que celebra os melhores do ano segundo a crítica especializada aconteceu ontem na Califórnia e pegou de surpresa quem apostava nos mesmos ganhadores do Globo de Ouro para o Oscar deste ano! As maiores surpresas ficaram por conta dos ganhadores de melhor filme de drama e comédia, que foram para mãos diferentes dos Globos. Outra grata surpresa foi ver Margot Robbie comprovando que  tem chances no páreo de melhor atriz ao ser eleita a Melhor Atriz de Comédia do ano. Na TV, os críticos também coroaram Big Little Lies como o melhor do ano. A seguir todos os premiados da noite:  

CINEMA

MELHOR FILME 
A Forma da Água

MELHOR ATOR 
Gary Oldman (O Destino de uma Nação)

MELHOR ATRIZ 
Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime)

MELHOR ATOR COADJUVANTE 
Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE 
Allison Janney (Eu, Tonya)

MELHOR ATOR/ATRIZ MIRIM 
Broklynn Prince (Projeto Flórida)

MELHOR ELENCO 
Três Anúncios para um Crime

MELHOR DIRETOR 
Guillermo del Toro (A Forma da Água)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL 
Jordan Peele (Corra!)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO 
James Ivory (Me Chame pelo Seu Nome)

MELHOR COMÉDIA 
Doentes de Amor

Doentes de Amor: a melhor comédia do ano tem chances?

MELHOR COMÉDIA 
Doentes de Amor

MELHOR ATOR EM COMÉDIA 
James Franco (Artista do Desastre)

MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA 
Margot Robbie (Eu, Tonya)

MELHOR ANIMAÇÃO 
Viva - A Vida é uma Festa

MELHOR FILME DE AÇÃO 
Mulher-Maravilha

MELHOR FILME DE TERROR OU SCI-FI 
Corra!

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA 
Em Pedaços (Alemanha)

MELHOR FOTOGRAFIA 
Blade Runner 2049

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO 
A Forma da Água

MELHOR MONTAGEM 
(empate)
Em Ritmo de Fuga / Dunkirk

MELHOR FIGURINO 
Trama Fantasma

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM 
O Destino de uma Nação

MELHORES EFEITOS VISUAIS 
Planeta dos Macacos: A Guerra

MELHOR CANÇÃO 
"Remember Me" (Viva - A Vida é uma Festa)

MELHOR TRILHA SONORA 
A Forma da Água (Alexandre Desplat)

The Handmaids Tale: A melhor série dramática ainda inédita no Brasil. 

TELEVISÃO

MELHOR SÉRIE DE DRAMA 
The Handmaid's Tale

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA 
Sterling K. Brown (This Is Us)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA 
Elisabeth Moss (The Handmaid's Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA 
David Harbour (Stranger Things)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA 
Ann Dowd (The Handmaid's Tale)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA 
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA 
Ted Danson (The Good Place)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA 
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA 
Walton Goggins (Vice Principals)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA 
Mayim Bialik (The Big Bang Theory)

MELHOR SÉRIE LIMITADA 
Big Little Lies

MELHOR TELEFILME 
O Mago das Mentiras

ATOR EM TELEFILME EM SÉRIE LIMITADA 
Ewan McGregor (Fargo)

ATRIZ EM TELEFILME / SÉRIE LIMITADA 
Nicole Kidman (Big Little Lies)

ATOR COADJUVANTE EM TELEFILME / SÉRIE LIMITADA 
Alexander Skarsgard (Big Little Lies)

ATRIZ COADJUVANTE EM TELEFILME / SÉRIE LIMITADA 
Laura Dern (Big Little Lies)

MELHOR PROGRAMA DE ENTREVISTAS 
Jimmy Kimmel Live!

MELHOR SÉRIE ANIMADA 
Rick and Morty

MELHOR REALITY NÃO-ESTRUTURADO 
Born This Way

MELHOR REALITY ESTRUTURADO 
Shark Tank

MELHOR REALITY DE COMPETIÇÃO 
The Voice

MELHOR APRESENTADOR DE REALITY 
RuPaul (RuPaul's Drag Race)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

PL►Y: Reino de Deus

Josh e Alec:  relações ásperas. 

Johnny (Josh O'Connor) passa os dias ajudando o pai (Ian Hart) a cuidar da fazenda de sua família.  Inquieto e agressivo, o jovem fazendeiro alivia a tensão do trabalho indo até a cidade e praticando sexo casual com outros rapazes. Obstinado em manter sua vida em segredo a família nem desconfia de sua homossexualidade, mas quando o pai contrata Gheorghe (Alec Secareanu), um imigrante romeno para ajudar a cuidar das ovelhas na fazenda, fica mais difícil o rapaz ocultar seu interesse pelo homem que está sempre por perto. Quando eles precisam conviver juntos por mais tempo nas montanhas a coisa complica e uma série de acontecimentos mudarão a rotina do rapaz, fazendo com que questione seu estilo de vida e a convivência com a família. Muitos críticos destacaram God's Own Country como um dos melhores filmes no ano passado. Sucesso no circuito de festivais, o filme permaneceu inédito nos cinemas brasileiros, chegando a pouco tempo nos serviços on demand. Embora lembre um pouco o clima de Brokeback Mountain/2005 o filme segue por um caminho diferente, já que os dois vivem uma relação que se torna mais intensa com o tempo e, explora principalmente o olhar da família sobre o comportamento do filho. O ator Francis Lee escreveu o roteiro e estreou como diretor em um longa-metragem com ousadia e uma atmosfera bastante visceral, especialmente pela performance de seus dois atores que parecem prestes a explodir quando estão juntos na tela. Os mais puritanos vão se incomodar com as cenas de nudez e as cenas bastante despudoradas entre os atores que estão bastante convincentes - com destaque para Josh O'Connor que consegue trabalhar as várias camadas de seu personagem lhe atribuindo uma identidade complexa que se desenvolve gradativamente durante a história. Adepto da introspeção, o diretor demonstra várias vezes que os diálogos são o que menos importa no amadurecimento de Johnny durante a trama. Com relações ásperas (o que inclui a presença de Gemma Jones como a mãe do protagonista) e um clima gélido, o título parece ainda mais  provocativo, evocando uma ideia de pecado que não é dita diante da câmera, mas que paira em vários instantes. Porém, não se perca entre as polêmicas, Reino de Deus é uma intensa história de amor entre dois homens que nem esperavam vivê-la e tem sua originalidade justamente por seguir um caminho pouco convencional. 

Reino de Deus (God's Own Country/Reino Unido - 2017) de Francis Lee com Josh O'Connor, Alec Secareanu, Ian Hart,  Gemma Jones e Harry Lister Smith. ☻☻☻☻

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

PREMIADOS GLOBO DE OURO 2018

Três Anúncios Para um Crime: a surpresa da noite. 

Além das atrizes vestidas de negro em protesto às inúmeras denúncias de assédio sexual de 2017, não faltaram alfinetadas à situação política dos Estados Unidos e comentários sobre  a desigualdade entre os gêneros em Hollywood. Se o anfitrião Seth Meyers não chegou a ser brilhante, pelo menos marcou o tom da noite com seu discurso inicial e piadas sobre os escândalos que perduraram durante todo o ano (e impressão minha ou começou a campanha de Oprah Winfrey para presidente?). Num ano de produções interessantes e sem francos favoritos para a temporada de prêmios, alguns ganhadores causaram surpresa durante a noite. A seguir confira os premiados e os meus comentários sobre como a temporada de prêmios começou a se desenhar a partir daqui:

Melhor filme dramático: Três Anúncios para um Crime
Talvez esta seja a grande surpresa da noite! Eu imaginava que The Post do Spielberg levaria (e houve até uma piadinha no início, bem rápida, mas impagável) ou, no auge da ousadia, A Forma da Água levaria, mas este drama recheado de humor negro ganhou força com sua história de uma mãe com sede de justiça pelo estupro e assassinato da filha - que nunca recebe a atenção merecida das autoridades locais. O filme foi o grande premiado da noite com quatro estatuetas!

Prêmio Cecil B. DeMille: Oprah Winfrey
Atriz, jornalista, apresentadora, produtora e faz tudo, Oprah já é patrimônio cultural dos Estados Unidos faz tempo, faltava apenas um prêmio deste quilate para reconhecer sua importância. 

Melhor diretor: Guillermo Del Toro (A Forma da Água)
Mesmo com Natalie Portman fazendo questão de nos lembrar que não houve nenhuma mulher indicada na categoria, era muito fácil ficar feliz com o prêmio de Del Toro. O discurso do diretor fez jus ao seu filme onde uma mulher se apaixona por um monstro que é uma verdadeira declaração de amor às criaturas estranhas que habitam seu imaginário.  Ao que tudo indica, o diretor chega mais forte no Oscar (que já premiou seus amigos Alfonso Cuarón e - duas vezes - Alejandro González Iñárritú).

Melhor ator / drama: Gary Oldman (O Destino de uma Nação)
Os outros atores que me desculpem, mas parece que este é o ano de se fazer justiça ao talento de Gary Oldman. Seus oponentes podem também estar excelentes, mas o ano é dele. 

Melhor ator / comédia ou musical: James Franco (O Artista do Desastre)
Era quase inevitável dar o prêmio para James Franco. O moço tem talento, mas andava meio sem foco nos últimos projetos. Agora ele lembrou que tem bom humor e fez seu filme mais elogiado como diretor. Revisitando o melhor pior filme do mundo (The Room), Franco encontrou o papel de sua vida e deve aparecer no Oscar em breve (só ficou estanho o modo como afastou seu biografado ao receber o prêmio... estrelas...).

Melhor atriz / drama: Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime)
O que dizer de Frances McDormand? Que ela teve cinco indicações ao globo anteriormente e nunca levou nenhum para casa ou... melhor, ela ganhou um prêmio especial pelo conjunto do elenco de Short Cuts (1994) de Robert Altman e só. O fato é que num ano em que disputava com atuações poderosas (Sally Hawkins era outra favorita) ela ajudou a tornar o filme no campeão da noite. 

Melhor atriz / comédia ou musical: Saorsie Ronan (LadyBird: É Hora de Voar)
Esta categoria teve duas favoritas (os votos devem ter se dividido entre ela e Margot Robbie). Saorsie agora está mais perto de seu primeiro Oscar (e se a Academia seguir a tendência de premiar novos talentos como vimos no últimos anos, a Margot continua sendo forte no páreo). O melhor de tudo é ver que uma atriz mirim cresceu e se tornou uma artista sólida e que deve brilhar ainda mais nos próximos anos. 

Melhor ator coadjuvante: Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime)
Eu fiquei muito surpreso com Rockwell levando o prêmio para a casa. Eu imaginava que as premiações já haviam esquecido dele, já que ano após ano ele era esquecido sistematicamente. Eu via Willem Dafoe sendo premiado, mas a disputa entre os dois pelos votos deve se repetir em outros prêmios da temporada. 

Melhor atriz coadjuvante: Alisson Jenney (Eu, Tonya)
Quem não curte Alisson Jenney é porque nunca a viu em cena. A atriz finalmente ganha o reconhecimento e parte rumo a voos mais altos após anos sendo aquela coadjuvante que o grande público nunca lembra o nome. Curiosamente, outra favorita aqui era outro personagem maternal, a de Laurie Metcalf em Ladybird. Outro páreo duro!

Melhor roteiro: Três Anúncios para um Crime
Martin McDonagh parece ter finalmente realizado sua obra-prima. Depois de filmes repletos de humor negro e personagens masculinos, ele acertou em cheio ao girar em torno de uma protagonista feminina. Não é todo dia que um irlandês tem seu filme celebrado com tanta devoção nos Globos. 

Melhor trilha sonora: A Forma da Água
Alexandre Desplat dispensa comentários. 

Melhor canção original: This is Me – O Rei do Show
A canção se tornou um hit e chegou forte para a temporada, mas devo dizer que tem várias canções cotadas para o que vem por aí - e devem dar trabalho para a odisseia circense de Hugh Jackman. 

Melhor animação: Viva - A Vida É uma Festa
Considerado o melhor filme da Pixar em muito tempo, a categoria já era bem óbvia - e deve figurar no Oscar ao lado dos mesmos concorrentes que vimos aqui.  

Melhor filme estrangeiro: Em Pedaços (Alemanha/França)
SURPRESA!! Alguém imaginava que o drama pesadão de Fatih Akin levaria este prêmio concorrido? Eu não imaginava! Bom também foi Dianne Kruger ao seu lado celebrando um filme extremamente necessário em tempos de intolerância crescente. Ótima chance de buscar outros filmes de Akin e conhecer sua obra de cores fortes e incômodas.

Melhor filme cômico ou musical: Lady Bird - É Hora de Voar
Antes das indicações este já era o filme mais querido da temporada! Sucesso de público e crítica, o filme era o favorito na categoria e, causou grande estranhamento quando a atriz Greta Gerwig ficou de fora da categoria de melhor direção por sua bela estreia atrás das câmeras. Diante da premiação, resta cruzar os dedos e esperar que o Oscar lhe faça justiça. 

Greta e o elenco de Ladybird: aguardando a indicação ao Oscar de direção. 

Vale sempre lembar que o Globo de Ouro também celebra os melhores da televisão e num ano de produções tão boas ficou até difícil prever quem seria premiado neste ano. Big Little Lies foi o grande vencedor do ano (e o feito tende a se repetir ao longo da temporada), mas The Handmaid's Tale também fez bonito, especialmente por mostrar que Elisabeth Moss é realmente uma das atrizes mais interessantes da atualidade. O que une as duas séries é o olhar extremamente feminino sobre suas histórias densas (assim como outro favorito da temporada: Feud - Bette and Joan)  A seguir todos os premiados da TV: 

Melhor série dramática
The Handmaid’s Tale

Melhor série cômica
The Marvelous Mrs. Maisel

Melhor minissérie ou filme para TV
 Big Little Lies

Ator em série dramática
 Sterling K. Brown  (This is Us)

Ator em série cômica
 Aziz Ansari  (Master of None)

Atriz em série dramática
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)

Atriz em série cômica ou musical
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

Ator em minissérie ou filme para TV
 Ewan McGregor (Fargo)

Atriz em minissérie ou filme para TV
 Nicole Kidman (Big Little Lies)

Ator coadjuvante em TV
 Alexander Skarsgard (Big Little Lies)

Atriz coadjuvante em TV
Laura Dern (Big Little Lies)

O elenco de Big Little Lies: o azar de Feud. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

PL►Y: A Guerra dos Sexos

Emma e Steve: disputa histórica.

Em 1973 a tenista Billie Jean King comprou uma verdadeira briga no mundo do tênis. O motivo era a indignação perante a diferença entre o prêmio dado a homens e mulheres num mesmo campeonato. A briga fez com que ela montasse com outras tenistas uma liga completamente feminina em que fossem respeitadas e valorizadas como esportistas. A atitude revelou uma série de situações onde o machismo no mundo dos esportes foi revelado sem máscaras. Se hoje ainda ouvimos atrocidades sobre a desvalorização das mulheres no mundo do trabalho, imagine em plena década de 1970! O burburinho causado por Billie Jean chegou a ressuscitar um tenista aposentado, Bobby Riggs que estava disposto a desafiar a tenista campeã para uma partida mista, onde os dois jogariam e ele tentaria provar o motivo dos homens merecerem receber mais do que suas colegas do sexo oposto. A Guerra dos Sexos mostra os bastidores desta partida onde no placar importava mais do que a contagem de pontos, se tratava de um momento onde Billie Jean sabia que o que que estava em jogo era o respeito às tenistas e (por que não?) às mulheres como um todo. O filme assinado pela dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris amplia o que estava por trás deste jogo caprichando nas provocações de Riggs (vivido com gosto por Steve Carrell) e no vigor de Billie Jean (ótimo momento de Emma Stone). Pela postura dos personagens ficamos surpresos na forma ofensiva como Riggs ganhava plena cobertura da mídia e se apresentava como uma espécie de justiceiro que estava cansado de ver as mulheres fora do seu verdadeiro lugar (explicado por ele como sendo "a cama e a cozinha"). Por outro lado, Emma Stone capricha nos contornos de sua Billie Jean que buscava não apenas o reconhecimento nas quadras, como também constuia sua identidade sexual. Dayton e Faris desenvolvem muito bem o roteiro de Simon Beaufoy organizando as peças meticulosamente até chegar à aguardada partida entre Riggis e Billie Jean, o ritmo da narrativa serve não apenas para criar expectativa, como também valoriza as atuações de um elenco inspirado. Ainda que seja alardeado como uma comédia (especialmente por conta das gracinhas exageradamente machistas presente no roteiro) o filme tem um grande apelo dramático e foi lançado num período em que Holllywood ferveu em luta por melhores salários para as atrizes e denúncias de assédio e violência sexual. Embora seja um filme de época, A Guerra dos Sexos ainda fala de um problema muito presente nos dias de hoje e que embasa discursos tão tacanhas quanto a que vemos no filme. 

A Guerra dos Sexos (The Battle of Sexes/EUA-2017) de Jonathan Dayton e Valerie Faris com Emma Stone, Steve Carrell, Andrea Riseborough, Sarah Silverman, Bill Pullman, Alan Cumming, Elizabeth Shue e Austin Stowell. ☻☻☻☻

PL►Y: Castelo de Vidro

Brie: crescimento complicado. 

Muita gente conheceu a atriz Brie Larson com o premiado O Quarto de Jack (2015) que lhe rendeu dezenas de prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro por seu trabalho. No entanto, o talento de Brie foi bem lapidado até a fama, atuando desde os onze anos de idade a atriz demonstrou ter se tornado atriz digna de atenção ao longo do tempo, especialmente após o seu trabalho em Temporário 12 (2013), filme que a colocou no radar de premiações indies e levou à amizade com o diretor Destin Daniel Cretton. É interessante vê-los trabalhar juntos novamente num projeto ambicioso e que foi cercado de muita expectativa por se tratar de um longa baseado na autobiografia da jornalista Jeannette Walls, onde ela exorciza seu relacionamento complicado com o pai e a infância pobre. Brie interpreta a própria Jeannette adulta, com roupas caras, penteados elaborados e jóias (a própria imagem da personagem destoa da que temos de Brie). Ainda que demonstre ter uma vida confortável ao lado do noivo, aos poucos o filme revela que a vida daquela mulher não foi fácil, ela ao lado de seus três irmãos precisaram lidar com um lar instável capitaneado por uma mãe aspirante à pintora e um pai que era "contra o sistema" e tinha atitudes agressivas com todos da família. Além das privações, Jeannette sofreu queimaduras graves quando pequena, quase foi afogada pelo pai em uma piscina e teve que presenciar uma briga entre o pai e o noivo entre outras desventuras (como ver a mãe quase cair de uma janela ou o irmão sofrer abusos de uma mulher mais velha). A coisa realmente não era fácil. O curioso nisto tudo é que o diretor ousa carregar na doçura deste lar caótico, alternando momentos de conflito e outros onde o afeto estava presente apesar de tudo. O problema é que esta opção torna Castelo de Vidro um filme estranho, quase contraditório por humanizar a figura do casal negligente formado por Naomi Watts e Woody Harrelson. Se Naomi faz o que pode com sua mãe unidimensional, Woody faz do pai um personagem bastante instigante e rouba a cena durante todo o filme, muitas vezes inspirando temor e afeição numa mesma cena.  Cretton não busca justificativas para as atitudes dele, concentrando-se nos sentimentos antagônicos que sua protagonista nutre pelo pai, um misto de carinho, medo e gratidão que torna uma história difícil repleta de sentimentos complicados num clássico da sessão da tarde. A reconstituição de época e a trilha sonora dão à produção atmosfera que é a cara dos anos 1980 e ainda que não tenha feito o sucesso esperado, o resultado garantiu admiradores para um filme que nas mãos de qualquer outro diretor viraria um dramalhão insuportável. Sorte que Cretton não é um diretor qualquer e emociona de verdade ao apresentar aquelas pessoas reais nos últimos momentos do filme. 

O Castelo de Vidro (The Glass Castle/EUA-2017) de Destin Daniel Cretton com Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Max Greenfield, Ella Anderson e Iain Armitage. ☻☻☻