quarta-feira, 5 de março de 2014

CATÁLOGO: CopLand

Liotta, Stallone e DeNiro: um policial contra todos?

Recentemente muitos críticos elegeram como esporte favorito comparar o trabalho de David O. Russell em Trapaça com a obra de Martin Scorsese. O próprio David afirmou que seu último filme era uma homenagem ao diretor de Os Bons Companheiros (1990) e Taxi Driver (1976) e, como ele, não percebo que seja um demérito você se inspirar na obra de outras pessoas, afinal, seria difícil dizer quem nunca usou como referência algo que já viu ou leu em algum lugar (Quentin Tarantino que o diga). O fato é que nos idos de 1997, outro filme evidenciava a inspiração no universo de Scorsese, era CopLand, o subestimado segundo filme de James Mangold. Revê-lo recentemente me fez pensar como seria a carreira do diretor (de filmes variados como Johny & June/2005, Garota Interrompida/1999 e... Wolverine Imortal/2013 ) se CopLand houvesse recebido toda a atenção que ele esperava. O longa sobre uma localidade habitada sobretudo por policiais era esperado como uma das grandes promessas de 1997, mas fracassou nas bilheterias e até os críticos se dividiram. O maior problema talvez seja a presença (alardeadíssima) de Sylvester Stallone gordo e num personagem bem diferente do que o público estava acostumado a vê-lo. Tratava-se de um excelente veículo para o ator renovar sua carreira, que já demonstrava sinais de cansaço, o problema é que ninguém pareceu entender muito bem o seu desempenho. De fato, Stallone não era a melhor escolha para viver o xerife Freddy Heflin, mas seria maldade dizer que o ator está ruim em cena. Sylvester faz um personagem preso à inércia de quem está preso para sempre no posto de xerife por conta da surdez em um dos ouvidos, provocada por um acidente. Para piorar, Heflin trabalha num subúrbio de Nova Jersey que foi concebido para dar aos policiais e seus familiares uma vida tranquila. Ou seja, seu trabalho seria zelar pela paz de seus colegas de trabalho, o que influencia diretamente a forma como ele lida com alguns acontecimentos que fogem do modelo de conduta que espera-se da população local. O roteiro de Mangold é visivelmente ambicioso, ao construir um acontecimento, aparentemente trivial, que gera desdobramentos que podem ser surpreender seu protagonista apático. Logo no início, um promissor jovem policial conhecido como Superboy (Michael Rapaport) se envolve na morte de dois jovens negros. Em meio à confusão acredita-se que ele se suicidou ao atirar-se da ponte onde houve o ocorrido. Para tornar a cena do crime mais nebulosa, seu tio policicial, Ray Donlan (Harvey Keitel), conta com a ajuda dos amigos policiais Jack Rucker (Robert Patrick), Joey Randone (o hoje diretor Peter Berg) e Gary Figgis (Ray Liotta). No entanto, o caso chama atenção do corregedor Moe Tilden (Robert DeNiro) que suspeita do envolvimento de Donlan e sua turma em casos de corrupção. Resta a Moe, fazer Heflin despertar para o que está acontecendo, mas o xerife se divide entre a vontade de fazer o que é certo e a pressão do corporativismo entre os colegas de profissão - é justamente nessa guinada que acho que Stallone poderia injetar um pouco mais de vigor no personagem. Mangold conduz seu filme com mão firme, criando um emaranhado noir moderno de grande tensão que explode no final. As situações se tornam cada vez mais suspeitas e mostram que existe um poder paralelo dentro da própria polícia local. Além do clima que parece sugado dos grande filmes policiais da década de 1970, acredito que não foi por acaso que o diretor escalou atores de filmes de Scorsese para o filme (Liota protagonizou Os Bons Companheiros e, tanto Keitel como DeNiro participaram de uma dezena de filmes do diretor... só faltou o Joe Pesci), além disso as situações violentas e pouco louváveis envolvendo policiais de Nova York (território favorito de Scorsese) também evidenciam como Mangold digeriu bem as referências das quais se apropria. CopLand pode não ter sido o sucesso e nem ter transformado seu diretor num autor renomado em Hollywood (no máximo se tornou uma espécie de operário padrão que faz qualquer coisa), mas merece ser visto pelo diretor em início de carreira que hoje continua bom com atores, mas que perdeu sua ousadia.

CopLand (EUA-1997) de James Mangold com Sylvester, Harvey Keitel, Ray Liotta, Robert Patrick, Robert DeNiro, Annabella Sciorra, Noah Emmerich, Peter Berg e Cathy Moriaty. ☻☻☻☻

DVD: Cornouaille

Os pretendentes e Odile: simpática casa mal assombrada. 

Enquanto a maioria das pessoas gosta de aproveitar o carnaval em meio a festas, desfiles, blocos e celebrações eu prefiro me esconder. Costumo ir para a cidade natal de minha mãe, buscando refúgio numa localidade onde nem lembro que é carnaval. Nada contra quem curte a agitação ao lado de amigos e parentes, mas eu prefiro aproveitar esses dias para sossegar para o ano que se inicia, de fato, depois desse período festivo. Nesse carnaval assisti poucos filmes, mas houve um que se eu assistisse em qualquer outro dia ele teria me chamado menos atenção. Cornouaille é um desses filmes franceses que são introspectivos e sem muita ação, mas que pode cativar o público que se identificar com o clima nostálgico da personagem que precisa tomar decisões importantes para o rumo que sua vida. Odile (Vanessa Paradis) está enrolada no relacionamento com Fabrice (Johanatan Zaccaï, do filme Les Revenants/2004), um homem casado que, por mais gente boa que pareça, não sabe muito bem o que quer. Eis que Odile precisa fazer uma viagem para uma província litoranea da França para se desfazer de uma casa que herdou da tia falecida. Daí em diante, o filme dirigido e escrito pela veterana atriz Anne Le Ny (que apareceu recentemente no sucesso Intocáveis/2012) se transforma num simpático filme de fantasmas. A tarefa que seria bastante simples se torna complicada quando Odile precisa lidar com as lembranças que habitam a casa - o que passa pelo dia do falecimento de seu pai, pelas brincadeiras com os primos (que poderiam aparecer um pouco mais na história) e com os amigos de infância, um deles é o simpático Loïc (Samuel Le Bihan)  que acredita que foi dele o primeiro beijo da personagem. A certa altura um personagem diz que ela não sabe lidar com seus mortos e, portanto, não consegue se relacionar com os vivos. Essa parece ser a grande questão do filme. O roteiro trata de explorar como a personagem aos poucos começa a repensar sua forma de lidar com a vida (e a morte) e isso influencia na forma como age no mundo ao seu redor - e nesse processo a companhia de Loïc torna-se essencial (mesmo quando ela começa a suspeitar que ele é um fantasma e o roteiro consegue lidar de forma eficiente com a incerteza que paira sobre o mistério do personagem). Vale destacar ainda as conversas da personagem com o pai falecido e com os jovens vizinhos que cruzam seu caminho, que aproximam mais Odile das relações humanas. Outro ponto interessante da narrativa são os pesadelos de Odile, simples, mas reveladores, eles ajudam a pontuar momentos de mudança da personagem com alguma sutileza, especialmente quando ela suspeita de uma gravidez não planejada. Com belas paisagens e toques de humor, o filme não chega a ser inesquecível, mas serve para passar o tempo de forma eficiente e descompromissada. Não posso deixar de mencionar que Vanessa Paradis (famosa pela música Joe Le Taxi - que virou música de Angélica aqui no Brasil e por ter ficado casada por 14 anos com Johnny Depp) não está bonita no filme, mas consegue fazer de Odile uma personagem bastante palpável em suas angústias.  

Cornouaille (França/2012) de Anne Le Ny com Vanessa Paradis, Samuel Le Bihan, Johnatan Zaccaï e Martin Jobert. ☻☻☻

segunda-feira, 3 de março de 2014

PREMIADOS OSCAR 2014

Oscar 2014: foto não oficial favorita.

Ontem foi um Oscar de poucas surpresas (a maior de todas foi a derrota de The Act of Killing na categoria documetário), mas se a ideia era criar um programa inofensivo e descontraído, Elllen DeGeneres conseguiu cumprir o seu papel (a começar pela foto coletiva clicada no meio da cerimônia que ilustra esse post). Entre os ganhadores, fiquei muito feliz que 12 Anos de Escravidão virou o jogo e se tornou o melhor filme de 2013 (e se eu soubesse que o livro que o inspira será distribuído nas escolas, assim como  o DVD do filme, eu teria saberia que ele ganharia maior prêmio da noite). Outros pontos altos da festa foram o Oscar de roteiro original para Spike Jonze, Lupita Nyong'O nos fazendo presenciar o nascimento de uma diva, Karen O. cantando "The Moon Song" (do filme "Ela" e minha favorita - sinceramente, achei a música do U2 uma breguice e a de Frozen uma chatice), os sete prêmios para Gravidade, Cate Blanchett não sendo ofuscada pelas polêmicas do diretor de Blue Jasmine e a lembrança de nosso mestre Eduardo Coutinho entre a homenagem aos que nos deixaram. A seguir os ganhadores (com ☻ marcando meus acertos).

MELHOR FILME
"12 Anos de Escavidão"

MELHOR DIRETOR
Alfonso Cuarón, por "Gravidade" ☻
MELHOR ATOR
 Matthew McConaughey, por "Clube de Compras Dallas" ☻

MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett, por "Blue Jasmine" ☻

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jared Leto, por "Clube de Compras Dallas" ☻

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Lupita Nyong'o, por "12 Anos de Escravidão" ☻

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Ela", escrito por Spike Jonze ☻

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"12 Anos de Escravidão" ☻

MELHOR ANIMAÇÃO
"Frozen: Uma Aventura Congelante" ☻

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Grande Beleza" (Itália) ☻

MELHOR DOCUMENTÁRIO
"A Um Passo do Estrelato"

TRILHA SONORA
Steven Price, por "Gravidade" ☻

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Let it Go" de "Frozen"

MELHOR EDIÇÃO
"Gravidade" ☻

EFEITOS VISUAIS
 "Gravidade" ☻

FOTOGRAFIA
"Gravidade" ☻

DESENHO DE PRODUÇÃO
O Grande Gatsby

EDIÇÃO DE SOM
"Gravidade" ☻

MIXAGEM de SOM
"Gravidade" ☻

FIGURINO
"O Grande Gatsby" ☻

CABELO E MAQUIAGEM
"Clube de Compras Dallas" ☻

Esses eu já sabia que seria difícil acertar:

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
"The Lady in Number 6"

MELHOR CURTA
"Helium"

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
 "Mr. Hublot"

Total de acertos:   17 acertos de 24 categorias 
(muito melhor que o fiasco do ano passado - 14 acertos de 24 categorias e igual 2012). 

Quanto ao placar da noite foi o seguinte:

Gravidade - 07
12 Anos de Escravidão - 03
Clube de Compras Dallas - 03
O Grande Gatsby - 02
Frozen - 02
Blue Jasmine - 01

Matthew, Cate, Lupita e Jared: talentoso quarteto sem surpresas. 

sábado, 1 de março de 2014

APOSTAS PARA O OSCAR 2014

Empate: Trapaça, 12 anos de Escravidão ou Gravidade?

Nem lembro de quando na entrega do Oscar tivemos uma páreo tão acirrado como o de amanhã na categoria principal. Três filmes aparecem entre os prováveis ganhadores: Trapaça, 12 Anos de Escravidão ou Gravidade estão empatados em favoritismo. Comédia, drama pesadão ou ficção científica? Trata-se de três gêneros que os votantes costumam olhar com alguma reserva ao escolher entre o melhor do ano. Arrisco aqui os meus favoritos entre os indicados da edição 2014 do prêmio - que será exibido amanhã a partir das 20:30 pelo canal TNT. 

MELHOR FILME
"Gravidade"

MELHOR DIRETOR
Alfonso Cuarón, por "Gravidade"

MELHOR ATOR
 Matthew McConaughey, por "Clube de Compras Dallas"

MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett, por "Blue Jasmine"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jared Leto, por "Clube de Compras Dallas"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Lupita Nyong'o, por "12 Anos de Escravidão"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Ela", escrito por Spike Jonze

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"12 Anos de Escravidão"

MELHOR ANIMAÇÃO
"Frozen: Uma Aventura Congelante"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Grande Beleza" (Itália)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
"O Ato de Matar"

TRILHA SONORA
Steven Price, por "Gravidade"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Ordinary Love", de "Mandela: Long Walk to Freedom" 
 Música de Paul Hewson, Dave Evans, Adam Clayton e Larry Mullen; letra de Paul Hewson

MELHOR EDIÇÃO
"Gravidade"

EFEITOS VISUAIS
 "Gravidade"

FOTOGRAFIA
"Gravidade"

DESENHO DE PRODUÇÃO
"Gravidade"

EDIÇÃO DE SOM
"Gravidade"

MIXAGEM de SOM
"Gravidade"

FIGURINO
"O Grande Gatsby"

CABELO E MAQUIAGEM
"Clube de Compras Dallas"

A partir daqui considero tiros no escuro:

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
"Facing Fear"

MELHOR CURTA
"The Voorman Problem"

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
 "É Hora de Viajar"

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

N@ CAPA: INDICADOS AO OSCAR 2014 - MELHOR FILME


Domingo é dia de Oscar e nada melhor para ser a capa do mês de fevereiro do que os nove contemplados com o reconhecimento da Academia como os melhores filmes de 2013. Alguns já passaram por aqui, outros estão em cartaz e alguns ainda vão estrear, mas todo mundo ouviu falar deles durante o mês de passou. Já tem o seu favorito? 
A seguir os candidatos a melhor filme:

Capitão Phillips Apesar dos comentários de que o verdadeiro Phillips foi bem menos heroico do que conta o filme, existe um burburinho que aponta que o filme pode surpreender na categoria. Será? Não acredito muito que o filme que ajudou a dar um upgrade na carreira de Tom Hanks (que faz tempo precisava de um sucesso desse porte) chegue tão longe com a história real de um barco que é tomado por piratas. O filme está indicado em seis categorias: Filme, montagem, edição de som, mixagem de som, roteiro adaptado e ator coadjuvante (Barkhad Abdi tem chances de levar!)

Clube de Compras Dallas É sempre interessante quando um filme que ficou na gaveta por tanto tempo consegue ser finalizado e chegar tão longe. Muita gente torce o nariz pelo filme concorrer na categoria de melhor filme do ano, mas não deixa de ser honroso que a Academia reconheça os méritos de uma história real de contravenção: um grupo de pessoas portadoras do HIV realizam uma espécie de cooperativa que faz contrabando de remédios mexicanos para os EUA. A trama concorre a seis estatuetas: Filme, montagem, cabelo e maquiagem, roteiro original, ator (Matthew McConaghey, favorito na categoria) e ator coadjuvante (Jared Leto, idem). 

12 Anos de Escravidão Quando foram divulgados os indicados, a história real do negro livre que é enganado e vendido como escravo no interior dos EUA estava longe de ser favorito ao prêmio, mas gradativamente chamou atenção pela firmeza com que conduz um assunto que os americanos adoram esconder debaixo do tapete. O filme não poupa o expectador dos horrores causados pelo período e sua força narrativa nasce exatamente daí (embora alguns críticos brasileiros não vejam novidade nisso, já que por aqui até as novelas das seis abordam o tema). O longa está no páreo nas categorias: filme, direção (Steve McQueen), figurinos, montagem, design de produção, roteiro adaptado, ator (Chiwetel Ejiofor), ator coadjuvante (Michael Fassbender) e atriz coadjuvante (Lupita Nyong'O, que tem fortes chances) 

Ela concorre em cinco categorias (Filme, canção, trilha sonora, design de produção e roteiro original - o qual é favorito) e, curiosamente, é a primeira vez que um filme de Spike Jonze concorre na categoria principal. O roteiro escrito pelo diretor conta a história de um futuro próximo, onde um homem solitário se apaixona por um sistema operacional com voz da Scarlett Johansson! Menos do que uma crítica, o filme aborda a necessidade que o ser humano tem em conectar-se com alguém para lidar com sua existência. Considerado um dos filmes mais originais (e tristes) da temporada, Ela deve ser contemplado com o prêmio de roteiro original - o que seria o primeiro Oscar de Spike Jonze. 

Gravidade Filmes de ficção científica não costumam ser lembrados na categoria mais importante do Oscar, mas o longa de Alfonso Cuarón está bem perto de ser considerado o melhor filme do ano. A seu favor está a sensação de proporcionar ao espectador uma experiência cinematográfica e sensorial única. A qualidade do filme é impressionante ao contar a história da astronauta que se perde no espaço e precisa enfrentar vários desafios. Cuarón deve levar o prêmio de diretor, mas o filme concorre em outras nove categorias - sendo favorito em todas as técnicas (fotografia, montagem, trilha sonora, design de produção, edição de som, mixagem de som, efeitos especiais), além de concorrer na categoria de melhor filme e atriz (Sandra Bullock no papel de sua vida).

Nebraska Às vezes tenho a impressão que nem Alexander Payne acredita que tem, mais uma vez, uma obra sua sendo lembrada pela Academia. É verdade que Nebraska chamava a atenção desde a sua estreia em Cannes - e a indicação de Bruce Dern pela atuação de um senhor que acredita que receberá um prêmio de um milhão de dólares era praticamente certa. A jornada desse personagem curioso por pessoas e lugares de sua história é temperada com o tom cômico de Payne, sendo lembrada em seis categorias: melhor filme, diretor (Payne), ator (Dern), atriz coadjuvante (June Squibb), fotografia e roteiro original, mas é favorito em nenhuma delas. 

O Lobo de Wall Street Leonardo DiCaprio realizou seu quinto trabalho com Martin Scorsese, a diferença é que dessa vez a iniciativa foi do ator em escalar o consagrado diretor para dirigir a cinebiografia de Jordan Belfort - que ficou famoso por fazer fortuna com crimes cometidos em nome dos excessos do capitalismo na Terra do Tio Sam. O longa concorre aos prêmios de filme, direção (Scorsese), ator (DiCaprio), ator coadjuvante (Jonah Hill) e roteiro adaptado. Apesar do sucesso de bilheteria, é público e notório que a Academia tem suas ressalvas com um longa metragem repleto de sexo, drogas e contravenções. 

Trapaça Se o Oscar fosse realizado há um mês atrás, o filme de David O. Russell provavelmente teria sido o grande favorito. A verdade é que a trama que mistura trapaceiros, agentes do FBI, políticos corruptos e uma ex-mulher ensandecida perdeu força conforme se aproximava a data da cerimonia. O filme acabou perdendo seu favoritismo, mas o sucesso de bilheteria ainda o mantém no páreo com o ar de tributo a Scorsese. O filme - ao lado de Gravidade - é o que concorre em mais categorias: filme, diretor (Russell), ator (Christian Bale), atriz (Amy Adams), ator coadjuvante (Bradley Cooper), atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence, que pode levar), figurino, edição, design de produção e roteiro original, num total de 10 chances de levar a estatueta para casa.  

Philomena Histórias humanas quando bem realizadas são sempre bem vindas! Prova disso é o sucesso que o último filme de Stephen Frears faz desde que foi lançado no Festival de Veneza no ano passado. Baseado numa história real (completando cinco histórias verdadeiras no páreo de melhor filme), o longa retrata a história de uma senhora que resolveu buscar o paradeiro do filho dado à adoção. Em sua jornada ela conta com a ajuda de um jornalista (Steve Coogan, que assina o roteiro) de temperamento bem diferente do dela. O filme tem 4 indicações - com chances na categoria de roteiro adaptado ainda concorre a melhor filme, atriz (Judi Dench) e trilha sonora. 

O ESQUECIDO: Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum. Quem diria que depois de uma consagrada estreia em Cannes o novo filme dos irmãos Coen seria tratado com tanto pouco caso pela Academia. Talvez o Oscar tenha se cansado de histórias sobre artistas talentosos fracassados. O filme sobre o fictício Llewyn Davis pode não ter agradado pela atmosfera lúgubre e pelos personagens melancólicos, mas chega a ser maldade deixá-lo de fora até da categoria melhor canção original. O filme ainda poderia estar fácil nas categorias de melhor filme, diretor, roteiro original e ator (Oscar Isaac), mas a Academia o reconheceu somente nas categorias de fotografia e mixagem de som. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

KLÁSSIQO: Passagem para Índia


Davis: engolida pelos mistérios indianos. 

Já escrevi várias vezes a minha admiração por Judy Davis, uma atriz australiana que sempre me pareceu nunca receber a atenção que deveria. Às vezes tenho a impressão que apenas eu e Woody Allen lembramos que ela existe, mas Judy sabe capitalizar sua aura de atriz cult dando conta de participações especiais em filmes esporádicos (como Maria Antonieta/2006 de Sofia Coppola), produções para TV e curtas metragens. Nascida na cidade de Perth em 1955 e atuando no cinema desde 1977, o mundo reconheceu seu talento quando foi estrelou o belo Passagem para Índia de David Lean - pelo qual cravou uma indicação ao Oscar de atriz em 1985 (ano que consagrou Sally Fields por Um Lugar no Coração). Provavelmente a atriz não levou o prêmio porque sua personagem atormentada surge numa interpretação bastante introspectiva, direcionada com bastante inteligência mas que torna toda a experiência do filme um pouco mais complexa do que a plateia está acostumada. Famoso pelos filmes épicos de imagens grandiloquentes, cheias de planos abertos exuberantes (basta ver Lawrence da Arábia/1962 e Doutor Jivago/1965), o diretor ficou tão frustrado com o fracasso do grandiloquente A Filha de Ryan (1970)  que ficou quatorze anos sem lançar obra alguma. Quando retornou ao batente, realizou um filme onde a história fala mais do que a forma como a Índia e seus encantos são apresentados. O filme conta a história de duas mulheres que vão para Índia no período em que o país ainda era dominado pelos ingleses. A experiente Srª Moore (Peggy Ashcroft, ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante) resolve visitar o filho que ocupa um cargo diplomático na Índia. Ela leva a futura nora, Adela (Judy Davis) e as duas percebem que existe bastante preconceito na forma como os seus conterrâneos ingleses tratam os indianos. Quem também percebe isso é o superintendente da escola local Richard (James Fox) que mantêm laços de amizade com o excêntrico brâname Godbole (o mutante Alec Guiness, divertido, irreconhecível e genial) e que acolhe as duas. Ao grupo de amigos se juntará o simpático doutor Aziz Ahmed (Victor Banerjee), viúvo bastante atencioso com as inglesas. Eis que por um golpe do destino, Ahmed e turistas irão visitar cavernas misteriosas que são pontos turísticos da região e ele será acusado de ter estuprado Adela. É neste momento que David Lean mostra todo o seu talento ao conjugar cenas e que falam mais do que as palavras, existindo tanto o horror da suspeita de estupro, como também o pavor de que seja feita uma injustiça com Aziz devido ao preconceito latente dos ingleses. Com quase três horas de duração, Lean constrói lentamente a narrativa e revela seus personagens aos poucos para a plateia. Talvez por isso, Aziz seja bem menos suspeito do que a instável Adela, mesmo no tribunal - onde a verdade irá se confrontar com fantasias e a construção da identidade de ambos os envolvidos. Baseado na obra de E.M. Forster, Lean faz um filme sobre o processo violento que foi o domínio inglês na Índia (que permaneceu até o século XX). O esmero na realização do filme lhe valeu 11 indicações ao Oscar, dos quais levou o de atriz coadjuvante para Peggy Ashcroft (numa interpretação bastante teatral) e trilha sonora. Completando vinte anos, o filme merece ser redescoberto. 

Passagem para Índia (A Passage to India/EUA-Reino Unido-1984) de David Lean com Peggy Aschcroft, Judy Davis, Alec Guiness, James Fox e Victor Banerjee. ☻☻☻☻

DVD: É o Fim

Franco e seus convidados: piadas no apocalipse.

Nada como juntar os amigos e fazer uma farra, mas quando essa farra acontece quando se está trabalhando o efeito deve ser ainda maior. Essa foi a sensação que tive ao assistir ao besteirol É o Fim, idealizado por Seth Rogen e estrelado por ele, James Franco e sua patota. Sob a premissa de contar o fim do mundo de acordo com o texto bíblico do apocalipse, o roteiro serve de colagem para uma série de situações cujo o único objetivo é fazer o espectador rir. É verdade que não é para o gosto de todo mundo a quantidade de bobagem presente no filme, mas se você entrar no clima as gargalhadas serão muitas. Existe um subtexto de camaradagem e amizade, mas o que vale mesmo são as brincadeiras dos atores interpretando a si mesmos de acordo com a forma como as pessoas os enxergam (Jonah Hill é o bom moço, James Franco é arrogante e alvo de boatos sobre sua sexualidade, Jay Baruchel é o rapaz que tenta se enturmar e não consegue...) enquanto o mundo está acabando. Tudo começa quando Seth Rogen convida o amigo de muitos anos Jay Baruchel para uma festa na casa de James Franco. Jay não demonstra estar muito animado, mas vai mesmo assim como uma forma de se reconciliar com o amigo, com quem quase não tem contato. Chegando na festa existe um bando de celebridades em participações especiais (Rihana, Jason Segel e Michael Cera que interpreta uma personalidade mais desinibida do que vemos nos filmes em que encarna o eterno adolescente desajeitado). A festa ocorre bem em seus excessos, mas uma série de acontecimentos estranhos começam a aparecer. Luzes brancas levam pessoas não se sabe para onde e um enorme buraco se abre para engolir boa parte das pessoas. O excesso de desespero pode causar risadas na plateia e a coisa permanece misteriosa quando Seth, Franco, Jay, Jonah, Craig Robinson e Danny McBride (o penetra na festa de Franco) ficam isolados na casa do anfitrião em meio à sua coleção obras de arte de gosto duvidoso. Cenas como a contagem de alimentos, a busca de água, a visita de Emma Watson e as explicações de que estão diante do fim do mundo convivem num ritmo apressado e que não tem a mínima pretensão de ser levado a sério. Apesar dos efeitos especiais, tudo é descaradamente absurdo e divertido. Não sou muito fã desse tipo de filme que exagera nas baixarias para fazer rir, mas a forma como os atores brincam com os estereótipos que lhes cabe é bastante engraçado. Destaco a cena em que Jonah Hill está possuído e o filme consegue conjugar muito bem uma mistura de terror com humor que eu não via tão eficiente desde o primeiro Pânico (1996) de Wes Craven. Acrescente uma discussão despretensiosa sobre o que é ser bom, digno de salvação, cenas pós-apocalípticas com bons efeitos especiais e  a vontade ilimitada de se fazer rir e você terá uma ideia do que é o filme até o final paradisíaco mais nonsense de todos os tempos. Agora só falta avacalhar outros gêneros para ficar ainda melhor!

É o Fim (This is The End/EUA-2013) de Evan Goldberg e Seth Rogen com Seth Rogen, Jay Baruchel, James Franco, Jonah Hill, Craig Robinson, Danny McBride, Michael Cera e Emma Watson. ☻☻☻

domingo, 23 de fevereiro de 2014

INDICADOS AO OSCAR 2014: DIRETOR


Alfonso Cuarón (Gravidade) O mexicano tinha alguns filmes de prestígio no currículo (talvez o maior deles seja E Sua Mãe Também/2001 que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de roteiro original), mas Hollywood nunca pareceu levá-lo muito a sério. Ainda bem que ele contou com a ajuda de Sandra Bullock para tirar o roteiro sobre uma astronauta perdida no espaço do papel. Cuarón  consegue universalizar a trajetória da protagonista e, de quebra, criar um espetáculo de tirar o fôlego, nos colocando no espaço junto com a personagem. Ganhador de vários prêmios da temporada (incluindo o Globo de Ouro e o BAFTA de direção) é o favorito na categoria. Cuarón também já concorreu aos prêmios de edição e roteiro adaptado por Filhos da Esperança (2006).

Alexander Payne (Nebraska) Lançado ao estrelato indie em 1996 e nascido em (adivinhe?) Nebraska, Payne pode ser considerado um dos melhores diretores surgidos na década de 1990. Nebraska é o reencontro com as raízes de sua carreira, conta uma trama improvável que fala sobre mais coisa do que parece acontecer na tela. Pela condução da história de um senhor (Bruce Dern, na foto com o diretor) que tenta resgatar o prêmio de um milhão de dólares (que existe só na cabeça dele), Payne concorre ao Oscar de diretor pela terceira vez (antes ele concorreu por Sideways/2004 e Os Descendentes (2011), no currículo ele também tem duas estatuetas (pelo roteiro adaptado de ambos) e uma indicação pelo roteiro adaptado do sensacional Eleição (1999). 

David O. Russell (Trapaça) O novaiorquinho se tornou o novo queridinho de Hollywood. Depois de começar a carreira com filmes um tanto estranhos (lembra da estreia no incestuoso  A Mão do Desejo/1994) e cheia de discussões com o elenco, Russell já soma sua terceira indicação ao Oscar ao de direção (as anteriores foram por O Vencedor/2010 e O Lado Bom da Vida/2012 , que lhe valeu ainda uma indicação pelo roteiro adaptado) nessa espécie de homenagem ao cinema de Martin Scorsese. O filme mistura agentes federais, trambiqueiros e políticos numa trama estapafúrdia (que também indicou o trabalho do diretor na categoria roteiro original) que se tornou sucesso mundial de bilheteria. 

Martin Scorsese ( O Lobo de Wall Street) O ítalo-americano de NY prova mais uma vez que é o único diretor de sua geração que não se acomodou. Atendendo ao pedido de Leonardo DiCaprio ele topou dirigir a biografia de Jordan Belfort - que fez fortuna enquanto consumia drogas, saia com prostitutas e realizava uma série de crimes de colarinho branco na década de 1990. Apesar de não ser o favorito, trata-se de uma honra estar no páreo com o mestre que já concorreu ao Oscar de direção oito vezes (sendo a última por A Invenção de Hugo Cabret/2011). Scorsese é o único da categoria que tem um Oscar de direção na estante (por Os Infiltrados/2006)

Steve McQueen (12 Anos de Escravidão) Na minha modesta opinião, o diretor inglês merecia uma indicação ao Oscar desde o seu primeiro longa metragem (Fome/2008). Parceiro de Michael Fassbender (de chapéu na foto ao lado) - com quem ainda realizou o excepcional Shame/2011. A Academia reparou nele somente agora, quando ele toca numa das feridas mais escondidas do cinema americano: a escravidão. Contando a história de um negro livre que é escravizado e submetido a várias crueldades, McQueen faz um manifesto doloroso sobre um período que o cinema americano prefere não abordar. 

O ESQUECIDO: SPIKE JONZE (Ela) Revelados nos video clipes e aclamado desde a sua estreia em Quero Ser John Malkovich (1999) - pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar de direção. Jonze (com fone de ouvido na foto ao lado)se tornou expert em filmes tão estranhos quanto cativantes. Ela concorre em cinco categorias no Oscar (filme, roteiro original, trilha sonora, canção e design de produção) mas ficou de fora da categoria de direção. Pelo menos ele tem chance de levar a estatueta de roteiro original pela a história de um homem que se apaixona por um sistema operacional (enquanto fala de nossa necessidade em se conectar com alguém). Talvez a Academia esteja aguardando o dia em que o diretor fará um filme mais convencional para lembrar dele, mais uma vez, como cineasta. 

DVD: Bem-Vindo ao Mundo

Cruz e Hirsch: faltou sintonia. 

Tem filmes que tentam abraçar o mundo em suas histórias e acabam perdendo a chance de envolver o espectador. O italiano Bem-vindo ao Mundo (2012) de Sergio Castellito é um desses. Mesmo com a história dos personagens se misturando com a História de Sarajevo, o diretor tenta dar conta de vários elementos e termina com um resultado confuso em suas nobres aspirações. Estrelado por Penélope Cruz e Emile Hirsch, os dois vivem um casal de estrangeiros que se conhece e se apaixona em meio aos conflitos da Bósnia entre as décadas de 1980 e 1990.  No filme conhecemos primeiro Gemma (Cruz) madura, casada, numa vida confortável na Itália ao lado do filho e do esposo. Não demora muito para que conheçamos o seu passado, onde se envolve com o fotógrafo Diego (Hirsch) e, apesar de todo o amor e companheirismo que sentiam um pelo outro, a dificuldade e de Gemma gerar um filho começa a criar problemas para o casal. Gemma sofre bastante com sua possível esterilidade, mas Diego é sempre compreensivo e a apóia em todos os planos da namorada para resolver a frustração. Os conflitos em Sarajevo servem como pano de fundo para a história do casal e ainda para o relacionamento delicado de Gemma com o filho (Pietro Castellito, filho do diretor) no tempo presente, já que ele é convidado a visitar Sarajevo com a mãe e conhecer o trabalho de seu pai que encontra-se em exposição. Fica evidente que todo o passado sofrido de sua terra natal não interessa ao rapaz, existe sempre um desconforto, um mal estar por parte dele como se uma verdade lamentável estivesse para emergir a qualquer instante. Até esse ponto o filme funciona bem, o problema é quando a verdade sobre o filho de Gemma se aproxima e o roteiro se enrola em surpresas que cansam o expectador até o final que pretende ser surpreendente. Porém, o espectador já está cansado perante a guinada que sofre o relacionamento de Diego e Gemma, o que compromete todo o cuidado com que o filme apresentou seus personagens na primeira metade. Penélope Cruz se esforça, mas o filme deixa sua personagem parecendo mais uma mulher desequilibrada do que mãe zelosa,  ainda assim, a atriz espanhola devora seu parceiro de cena em vários momentos. É um tanto frustrante perceber que depois de tanto tempo Emile Hirsch (na época com 28 anos) continua sendo o mesmo ator promissor de sempre, um talento que custa a amadurecer. Talvez por isso, Diego sempre pareça um adolescente, sempre mais novo e sempre agitado demais para conter as necessidades emocionais e afetivas de Gemma. Essa pode ser até a intenção do roteiro, mas incomoda bastante uma certa falta de sintonia entre os dois personagens. Emile parece jovem demais para o papel. Porém, o maior problema do filme é a falta de sutileza como é mostrada a concepção do filho de Gemma, uma história triste, mas que aparece desvalorizada pelos elementos melodramáticos que Catellito utiliza em cena. Talvez no livro de Margareth Mazantini (esposa do diretor) as coisas fossem mais emocionantes, mas, da forma como foi filmado, o ápice da narrativa perde parte de sua força dramática pela mão pesada do diretor. Vale ressaltar que a viagem ao passado da protagonista é de uma qualidade técnica com cara de Oscar. A edição, a fotografia e a trilha sonora são impecáveis, faltou mesmo um pouco de bom senso para contar a parte em que o filme se torna mais complexo e, por isso mesmo, perigoso para um diretor cheio de boas intenções e pretensões.  

Bem-vindo ao Mundo (Venuto al mondo/Itália-2012) de Sergio Castellito coim Penélope Cruz, Emile Hirsch, Pietro Castellito, Sergio Castellito e Mira Furlan. ☻☻