sexta-feira, 15 de abril de 2016

PL►Y: Nocaute

Jake: nocauteado por um acidente do destino. 

Jake Gyllenhaal nasceu em 1980 em uma família totalmente envolvida com cinema. Sua mãe é a produtora e roteirista Naomi Foner (que tem em seu currículo o famigerado As Violetas São Azuis/1986), seu pai é o diretor Stephen Gyllenhaal (um dos nomes mais requisitados para dirigir séries - ele já assinou episódios de Felicity, Numb3rs, The Mentalist, Rectify...) e a madrinha é a famosa Jamie Lee Curtis. Num ambiente desses, dificilmente o pequeno Jacob Benjamin Gyllenhaal não se interessaria pelo trabalho na tela - assim como a irmã, Maggie. Jake atua desde os onze anos, mas chamou a atenção somente com o sucesso cult Donnie Darko/2001 e a primeira indicação ao Oscar veio em 2005 como um dos cowboys homoafetivos de O Segredo de Brokeback Mountain/2005. Depois de aparecer em superproduções, ele resolveu dedicar-se a valorizar seu currículo com personagens mais desafiadores. Foi assim com O Homem Duplicado/2013 , O Abutre/ 2013 (que quase lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator) e, mais recentemente, com este Nocaute. Se o ator havia perdido 14 quilos para dar o aspecto doentio de seu personagem em O Abutre, aqui ele ganha massa muscular para convencer como um lutador de boxe de peso médio. Antes do filme estrear houve uma campanha forte para o ator ser lembrado na temporada de prêmios, mas depois que o filme chegou aos cinemas suas chances diminuíram consideravelmente. Sua atuação está longe de ser ruim, mas o problema está no roteiro que lhe ofereceram. Ao contrário de outros filmes sobre lutadores, o longa de Antoine Fuqua, tenta ser diferente ao optar por não concentrar-se na ascensão do protagonista, mas em sua decadência profissional e pessoal. Billy Hope (Jake) tem uma história de grande superação, filho de uma presidiária e criado num abrigo, ele ganhou fama como campeão dos ringues. Casado com a dedicada Maureen (Rachel McAdams) e pai da pequena Leila (Oona Laurence), sua vida vira do avesso quando é desafiado pelo grosseiro Miguel Escobar (Miguel Gomez). Depois que o adversário lhe propõe o desafio, o roteiro coloca o seu herói sob duras provações. Ele perde a esposa, perde nos ringues, quebra contratos, vai à falência e perde a guarda da filha em poucos meses. Se a graça é ver se Billy consegue superar seus tormentos e voltar ao ponto de equilíbrio, o roteiro dificulta as coisas ao apresentar tudo rápido demais, num conjunto de martírios que parecem um tanto forçados e abruptos se levarmos em consideração que o rapaz era aclamado por estar invicto em dezenas de lutas até uma tragédia acontecer. Talvez o maior problema seja a mão do diretor, já que Fuqua (que rendeu o Oscar de melhor ator para Denzel Washington em Dia de Treinamento/2001) carece de sutileza em suas narrativas, oscilando entre o bruto e o melodrama. No entanto, o diretor conta com um ótimo elenco que consegue imprimir dignidade aos personagens. Gyllenhaal tem ótimos momentos, especialmente quando está em cena com a pequena Oona Laurence. Rachel tem presença marcante, Forrest Whitaker tem seu melhor momento em muito tempo e até o rapper 50 Cent Curtis Jackson está bem em cena como o empresário escorregadio de Billy Hope. Nocaute pode não ficar entre os melhores filmes do gênero, mas pelo menos conta com boas atuações (e pode ficar tranquilo Jake, em breve o tio Oscar lembra novamente de você). 

Nocaute (Southpaw/EUA-2015) de Antoine Fuqua com Jake Gyllenhaal, Rachel McAdams, Forrest Whitaker, Oona Laurence e Curtis '50Cent' Jackson. ☻☻

quinta-feira, 14 de abril de 2016

FESTIVAL DE CANNES 2016

I ♥ Cannes!

O Festival de Cannes sempre abre ainda mais o meu apetite cinéfilo! Afinal,  ainda é o festival mais influente do mundo, capaz de colocar os holofotes em produções que ficam em evidência até a culminância da temporada de ouro (que termina praticamente no ano seguinte). Vale lembrar que O Filho de Saul, Mad Max: Estrada da Fúria, Carol, Juventude, Amy,  Sicario e Divertida Mente, finalistas no Oscar2016 foram exibidos pela primeira vez no Festival. Esse ano o evento conta com vários diretores de prestígio mundial (Almodóvar, Woody Allen, Xavier Dolan, Jim Jamursh, Nicolas Winding Refn...) e até um brasileiro concorre ao prêmio máximo do Festival (Aquarius de Kleber Mendonça Filho).  O Festival começa no dia 11 de maio e anuncia seus premiados no dia 22! O cardápio do ano é o seguinte:

FILME DE ABERTURA
 Café Society (Woody Allen)

COMPETIÇÃO OFICIAL
Toni Erdmann (Maren Ade)
Julieta (Pedro Almodóvar)
American Honey (Andrea Arnold)
Personal Shopper (Olivier Assayas)
La Fille Inconnue (Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne)
Juste la Fin du Monde (Xavier Dolan)
Ma Loute (Bruno Dumont)
Paterson (Jim Jarmusch)
Staying Vertical (Alain Guiraudie)
Aquarius (Kleber Mendonça Filho)
Mal De Pierres (Nicole Garcia)
I, Daniel Blake (Ken Loach)
Ma’ Rosa (Brillante Mendoza)
Family Photos (Cristian Mungiu)
Loving (Jeff Nichols)
The Handmaiden (Park Chan-Wook)
The Last Face (Sean Penn)
Sierra Nevada (Cristi Puiu)
Elle (Paul Verhoeven)
The Neon Demon (Nicolas Winding Refn)

UN CERTAIN REGARD
 Varoonegi (Behnam Behzadi)
Apprentice (Boo Junfeng)
Voir Du Pays (Delphine Coulin e Muriel Coulin)
La Danseuse (Stéphanie Di Giusto)
Clash (Mohamed Diab)
The Red Turtle (Michael Dudok De Wit)
Harmonium (Fukada Kôji)
Omor Shakhsiya (Maha Haj)
Me’ever Laharim Vehagvaot (Eran Kolirin)
After The Storm (Hirokazu Koreeda)
Hymyilevä Mies (Juho Kuosmanen)
La Larga Noche De Francisco Sanctis (Francisco Márquez)
Dogs (Bogdan Mirica)
The Transfiguration (Michael O’Shea)
Captain Fantastic (Matt Ross)
Uchenik (Kirill Serebrennikov)

FORA DE COMPETIÇÃO
 O Bom Gigante Amigo (Steven Spielberg)
Goksung (Na Hong-Jin)
Jogo do Dinheiro (Jodie Foster)
Dois Caras Legais (Shane Black)

SESSÕES DA MEIA-NOITE
 Gimme Danger (Jim Jarmusch)
Bu-San-Haeng (Yeon Sang-Ho)

SESSÕES ESPECIAIS
L’ultima Spiaggia (Thanos Anastopoulos e Davide Del Degan)
Hissein Habré, Une Tragédie Tchadienne (Mahamat-Saleh Haroun)
La Mort De Louis XIV (Albert Serra)

Le Cancre (Paul Vecchiali)

Na Tela: Conspiração e Poder

Blanchett e Redford: bastidores rumo à lama. 

Para além do vencedor do Oscar Spotlight, outro filme sobre jornalismo ambicionava fazer bonito nas premiações, trata-se de Conspiração e Poder, que marcou a estreia do roteirista James Vanderbilt (de Zodíaco/2007) na direção. A lembrança nas premiações ficou apenas na intenção, mas a crítica foi bastante favorável ao filme que retrata de forma dramatizada um dos momentos mais controversos da recente história do jornalismo americano. Afinal, trata-se dos bastidores do renomado programa 60 Minutes que foi ao ar em 2004 onde o foco era: como o, então candidato à presidência George W. Bush teria utilizado a influência política de sua família para escapar do alistamento da Guerra do Vietnã. Capitaneado pelo prestigiado âncora Dan Rather (Robert Redford), um ícone do jornalismo americano, e produzido pela elogiada produtora Mary Mapes (Cate Blanchett), bastou o programa ir ao ar para colocar em dúvida a credibilidade da matéria e dos profissionais envolvidos. Toda a questão girava em torno dos documentos apresentados ao programa serem falsos - sendo acusados de servir apenas para favorecer ao outro candidato à presidência. A tarefa do filme é bastante complicada, já que por um lado está um grupo de jornalistas comprometidos com o seu trabalho que perseguem fontes, informações e provas, some isso a toda o estresse e ritmo frenético de construção de um programa jornalístico e não será difícil perceber que alguns atropelos possam ter acontecido pelo caminho. Por outro lado, estão os interesses políticos inegáveis de uma eleição americana. Ou seja, em Conspiração e Poder  a verdade (o título original do filme: Truth) está bastante turva e - ficará ainda pior. Além do que é verdade ou não, fica evidente o peso que a repercussão da notícia teve sobre a carreira de dois pilares do jornalismo, a partir da matéria, Rather e Mapes quase viraram inimigos de Estado, passando por sindicâncias, investigações, julgamentos... como o filme deixa claro, a carreira de ambos nunca mais foi a mesma. Enquanto diretor, Vanderbilt ainda precisa melhorar, explora poucos os personagens secundários defendidos por bons atores (Elisabeth Moss, Dennis Quaid, Topher Grace...) e deixa o filme numa cadência um tanto arrastada em sua primeira hora. Para nós brasileiros o filme tem ainda um caráter quase pedagógico, por apresentar uma história onde a verdade pode estar evidente ou cada vez mais oculta quando trata-se de interesses políticos - algo que deve desagradar quem enxerga o mundo apenas na oposição entre um lado e outro.

Conspiração e Poder (Truth/EUA-2015) de James Vanderbilt com Cate Blanchett, Robert Redford, Topher Grace, Bruce Greenwood e Dennis Quaid. ☻☻☻

domingo, 10 de abril de 2016

Na Tela: O Filho de Saul

Saul: em busca de redenção. 

Ganhador do prêmio de melhor filme estrangeiro no último Oscar, o húngaro O Filho de Saul segue em cartaz nos cinemas brasileiros chamando atenção pela forma diferenciada com que conta uma trama em meio ao holocausto. Embora a história se passe no campo de concentração de Auschwitz, o diretor mantém o foco numa trama bastante particular, enquanto a História (com "H" maiúsculo) se desenrola em segundo plano, ao fundo, numa construção cênica que impressiona. Essa preocupação fica evidente desde a primeira cena, onde um grupo de pessoas é vista fora de foco, até que a câmera encontra Saul Ausländer (Géza Röhrig), prisioneiro judeu húngaro que integra o Sonderkommando, grupo com a assustadora tarefa de conduzir os judeus para a câmara de gás, levar os mortos para o crematório,  limpar a câmara para as próximas execuções, além de jogar as cinzas num rio. O roteiro se concentra nos dias em que, após encontrar um garoto que sobreviveu à câmara de gás (e morreu logo depois), Saul dedica-se a procurar um rabino capaz de dar um enterro digno ao menino. Embora a história sirva para o personagem expiar seus pecados, na busca de um perdão por todo o "trabalho" que realizou, ela serve mais ainda para  criar uma experiência sensorial imersiva para o espectador. A sensação claustrofóbica dos enquadramentos junto ao tom caótico do que acontece em torno de Saul, transforma o filme numa tarefa árdua aos que pensam que cinema é a maior diversão. O Filho de Saul é um filme que exige muito da plateia por compor cenas onde os diálogos são escassos e menos vigorosos do que as cenas impactantes que exibe, sejam sutis (como o encontro de Saul com sua esposa) ou brutais. O diretor estreante László Nemes não tem pudores de submeter a plateia aos horrores que seu protagonista presencia, afinal, ainda que a câmera sempre enquadre Saul incansavelmente nos longos planos que compõem o filme, a visão periférica sempre é composta pelo horror. Enquanto o protagonista tenta cumprir sua missão, o mundo desaba ao seu redor em tramas paralelas que se desenhariam como notas de rodapé em outros filmes do gênero. De certa forma, Laszlo Nemes cria uma nova fórmula para os filmes sobre o holocausto (que poderia gerar desdobramentos infinitos em vários filmes dedicados aos personagens que cruzam o caminho de Saul), sinto essa sugestão explicitamente no desfecho -  quando a câmera deixa de seguir Saul e escolhe um representante de uma nova Alemanha, que desde pequeno terá que conviver com as lembranças da História que o precede.

O Filho de Saul (Saul Fia/Hungria-2015) de László Nemes com Géza Röhrig, Levente Mólnar, Urs Rechn e Todd Charmont. ☻☻☻☻

sábado, 9 de abril de 2016

Pódio: Julia Roberts

O Bronze: a cinderela moderna
Uma Linda Mulher (1990)
Julia Fiona Roberts nasceu em 1967 e atua desde meados dos anos 1980. Ela conquistou uma indicação ao Oscar de coadjuvante por Flores de Aço/1989, mas ficou famosa mesmo quando encarnou a garota de programa Vivian Ward neste filme de Frank Marshall. Aqui ela vive um romance com Richard Gere  um empresário endinheirado e... Julia deixou de ser a irmã de Eric Roberts, ficando até mais conhecida que ele (ganhando um Globo de Ouro e sendo indicada ao Oscar novamente). O filme colocou Julia entre as atrizes mais queridas do mundo, aparecendo em várias produções que sempre chamaram atenção da mídia por conta de seu sorriso de quinhentos watts de potência. 

A Prata: a mãe destemida. 
Erin Brockovich (2000)
Dez anos separam Uma Linda Mulher de Erin Brockovich e neste meio tempo Julia desejava cada vez mais provar que era uma atriz séria, capaz de não ficar restrita às comédias românticas. No filme Steven Soderbergh a atriz demonstrou grande empenho em deixar o glamour de lado e encarnar uma personagem real, mãe solteira que vê (ao trabalhar como assistente numa agência de advocacia) a chance de fazer a diferença diante das suspeitas de irregularidades nas ações de uma grande companhia. Erin se tornou responsável por uma das maiores idenizações já pagas na história dos EUA e ainda rendeu o cobiçado Oscar de Melhor Atriz para a estrela. 

O Ouro: a filha pródiga. 
Álbum de Família (2013)
Muitos irão estranhar minha escolha, mas desde que recebeu seu Oscar de Melhor Atriz, Julia tem procurado um outro tom para suas atuações - um tom menos sorridente e mais introspectivo. Ela já tinha conquistado fama, prestígio e uma vida pessoal estável quando encarnou a (um tanto amarga) Barbara Weston. Entre o relacionamento explosivo com a mãe, a tensão causada pelo suicídio do pai, a traição do marido, os desentendimentos com a filha adolescente e a delicada relação com as irmãs, Julia consegue uma atuação sensível e repleta de nuances - com direito até a um duelo à altura com Meryl Streep. Pelo papel foi indicada ao prêmio de coadjuvante em sua quarta indicação ao Oscar. 

PL►Y: O Segredo dos Seus Olhos / Olhos da Justiça

O Segredo dos Seus Olhos: obra-prima do cinema argentino. 

Em 2010 o Brasil tentava uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro com esquecível Salve Geral/2009 de Sérgio Rezende, no páreo pelas vagas estavam dois pesos pesados lançados no Festival de Cannes: A Fita Branca de Michael Haneke (que ganhou a Palma de Ouro) estava no posto de favorito, seguido de perto por O Profeta de Jacques Audiard. Ambos cravaram suas indicações, o brasileiro ficou de fora e a lista de concorrentes foi completada pelo israelense Ajami e dois filmes latino americanos, o peruano A Teta Assustada e o argentino O Segredo dos Seus Olhos. Foi um ano atípico, já que a Academia costuma consagrar somente um latino por ano entre os indicados. A rigidez de A Fita Branca continuava no posto de favorito, causando grande surpresa quando Tarantino e Almodóvar (que dupla hein?) anunciou que O Segredo dos Seus Olhos como o premiado da noite. Os prêmios e o sucesso do filme são merecidos, não apenas pela energia como o cinema argentino conta suas histórias, mas porque trata-se de um grande filme, tecnicamente impecável. Benjamin Espósito (Ricardo Darín) é um agente da Justiça Federal Argentina aposentado, para ocupar o tempo ele começa a escrever um livro baseado num caso instigante com o qual teve contato no ano de 1974. Trata-se do assassinato brutal de Liliana Calotto (Carla Quevedo) esposa do devastado Ricardo Morales (Pabrlo Rago) que permanece indignado com o rumo das investigações. Conforme revive o caso, o filme passa a ser narrado entre o passado e o presente, utilizando como verniz alguns aspectos mal resolvidos do regime ditatorial vivido pela Argentina - além de fazer Espósito revisitar alguns fantasmas do seu próprio passado, incluindo a paixão platônica que sente há anos pela promotora e amiga Irene (Soledad Villamil). Campanella constrói o suspense da história aos poucos, com uma precisão impressionante no corte (ou na ausência dele, como no magnífico plano sequência no estádio de futebol), até chega ao final tão surpreendente quanto perturbador. Repleto de qualidades, que demonstram uma forte identidade argentina, fiquei muito surpreso quando resolveram fazer uma versão americana da história (oh, não!). 

Olhos da Justiça: elenco esforçado em filme decepcionante. 

Todo mundo que assistiu ao filme de Campanella já sabia que a versão americana não ficaria tão interessante quanto o original, afinal, o fator surpresa não existiria. Restava apenas a esperança que Billy Ray (indicado ao Oscar pelo roteiro de Capitão Phillips/2013), fosse um diretor capaz de contar a história fugindo das obviedades como Campanella fez. Não é bem assim. Embora conte com um elenco de respeito, o filme não decola e termina de forma decepcionante. O fantasma da ditadura foi transformado no fantasma de onze de setembro, os personagens foram simplificados e a trama diluída no limite do sonífero envolvendo agentes do FBI e promotores. Agora é o agente Ray Casten (Chiwetel Ejiofor) que precisa lidar com um caso mal resolvido em seu passado, no caso, o assassinato da filha da colega de trabalho Jessica Cobb (Julia Roberts). Devido a alguns interesses da própria justiça, a investigação foi comprometida, deixando Ray com a necessidade de reparar a situação perante a amiga. Assim como o filme argentino, o filme é contado entre as relações entre o passado e o presente, enfatizando o romance mal resolvido de Ray com a amiga Claire Sloan (Nicole Kidman), mas não espere uma trama bem desenvolvida, diálogos lapidados e cenas bem contruídas, Olhos da Justiça limita-se a seguir a cartilha dos filmes policiais americanos sem muita criatividade. Essa ausência de originalidade afeta até o elenco esforçado, Chiwetel é um ótimo ator, mas aqui ele não tem muito o que fazer, parecendo apenas mais um policial esquentadinho. Julia Roberts passa a maior parte do tempo com a mesma cara, se no início seu tom amargo convence, aos poucos perde a força por não ter nuances mais interessantes paraa trabalhar, parecendo um tanto robótica durante a sessão. Para Nicole Kidman sobrou o pior, sua Claire é tão sem sal que sempre parece estar sobrando em cena (que em nada lembra as sutilezas de Soledad Villamil) - e nem espere um fiel escudeiro equivalente ao vivido por Guillermo Francella no filme argentino. Talvez por ser fã do filme original, achei tudo muito superficial e quase abandonei o filme no meio do caminho, persisti imaginando como ele trataria o final e... a decepção tornou-se maior ainda. Ray opta pela obviedade mais uma vez, deixando no ar se ele realmente entendeu o filme argentino, já que Olhos da Justiça resulta num genérico sem efeito que sucumbe à mais estranha noção de justiça da Terra do Tio Sam, onde o que era perturbador torna-se apenas perturbado. Somente a aversão do público americano a ver filmes legendados explica a sandice que foi criar esse remake.

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos/Argentina-2009) de Juan José Campanella com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago e Guillermo Francella. ☻☻☻☻

Olhos da Justiça (The Secret in Their Eyes/EUA-2015) de Billy Ray com Chiwetel Ejiofor, Julia Roberts, Nicole Kidman, Alfred Molina e Joe Cole. ☻☻

sexta-feira, 8 de abril de 2016

PL►Y: Adam

Rose e Hugh: lidando com a  síndrome de Asperger. 

A autraliana Rose Byrne e o britânico Hugh Dancy são dois atores talentosos que ainda batalham pelo devido reconhecimento em Hollywood (e isso inclui convites para embarcar em produções interessantes). Rose tem aparecido cada vez mais em comédias, desde que demonstrou fôlego para manter a classe diante de piadas mais refinadas e outras de pura baixaria (ao ponto de muitos considerarem que ela merecia uma indicação ao Oscar de coadjuvante por sua atuação no besteirol Vizinhos/2014, onde encarna a esposa de Seth Rogen). Já Hugh ficou famoso por sua encarnação do perturbado investigador Will Graham no finado seriado Hannibal (além de ser casado com Claire Danes). Em 2009 os dois atores se encontraram em Adam, um romance que perde a chance de ser algo mais quando tenta investir em truques manjados da comédia romântica. O maior diferencial da história é que seu protagonista, Adam Raki (Hugh Dancy) possui síndrome de Asperger, um transtorno do espectro autista que afeta a forma do indivíduo se relacionar com os outros - comprometendo, muitas vezes sua vida amorosa. O diretor Max Mayer fez a lição de casa direitinho e criou um personagem que apesar da inteligência (ele é apresentado como um perito em tecnologias) não consegue olha no olho das pessoas quando conversa, fala incessantemente sobre o assunto que lhe interessa, não consegue perceber as emoções das outras pessoas, possui dificuldades em compreender ironias e sentidos figurados -  além de não saber lidar com momentos onde sua rotina segura é quebrada. Essa quebra na rotina de Adam torna-se cada vez maior conforme ele se aproxima da nova vizinha, Beth (Rose Byrne). No início ela sente dificuldades em entender o comportamento do rapaz, que parece atencioso, mas incapaz de realizar algumas gentilezas. No entanto, ela é conquistada pelas doses cavalares de açúcar com que o roteiro apresenta-lhe o personagem - e quando descobre a síndrome de Adam, ela começa a aceitar o desafio de viver um romance com ele. O casal de atores tem carisma de sobra para segurar a atenção da plateia, o problema é quando na metade do caminho o roteiro começa a investir em outro tom. A partir do momento em que insere os pais de Beth na história o relacionamento entre os dois começa a desmoronar, não por conta de Adam, mas pelas infantilidades de Beth - que em certo momento é toda compreensiva e atenciosa e no seguinte torna-se uma histérica mimada que não aprendeu nada sobre o namorado. Parece que ao invés de investir no desenvolvimento da relação do casal, o roteiro resolveu pegar o caminho mais fácil e desviar sua atenção para o que deveria ser apenas um acessório. Desse momento em diante, o que menos importa é o romance entre os dois, mas uma pendenga jurídica envolvendo o pai de Beth. Embora tenha alguns momentos de exagero, Hugh Dancy torna seu personagem bastante palpável, enquanto Rose tem a tarefa ingrata de lidar com uma personagem que oscila  a todo instante - e que conduz o filme para uma decisão que não faz o menor sentido diante da história. Adam poderia ser um belo filme, mas se perde na própria ideia que sugere rumo a um desfecho desanimador. 

Adam (EUA/2009) de Max Mayer com Hugh Dancy, Rose Byrne, Amy Irving, Peter Gallagher e Peter O'Hara. ☻☻

segunda-feira, 4 de abril de 2016

PL►Y: Cara Gente Branca

Sam (Tessa Thompson) e seus amigos: tensão racial no campus. 

Premiado na categoria de melhor roteiro de estreia no Independent Spirit 2015, Cara Gente Branca merece atenção por abordar o racismo de uma maneira diferente do que costumamos assistir. Afinal, a história se passa numa conceituada universidade americana, a Winchester, que acredita não haver conflitos raciais em seu campus - porém, desde o início descobrimos que não é bem assim. Quando somos apresentados às fraternidades (aqueles grupos universitários americanos que sempre aparecem nesse tipo de filme) parece haver uma irmandade específica para alunos negros. É desta irmandade que faz parte Samantha White (Tessa Thompson), que apresenta o programa que dá nome ao filme na rádio universitária. Em seu programa, Sam sempre alfineta aqueles que fingem não perceber a tensão que existe entre os alunos negros e brancos da Universidade - que culmina numa festa de Halloween onde os brancos se fantasiam de negros. O filme conta a história que precede a polêmica festa a partir da postura dos personagens, suas identidades e interesses. Assim, conhecemos Troy (Brandon P. Bell), filho do reitor, ex-namorado de Sam e que disputa com ela a presidência da fraternidade dos alunos afro-americanos. Existe um jogo de interesses para que Troy se afaste de Sam e se aproxime cada vez mais dos filhos do presidente da Universidade, assim como, lidere os alunos para uma ilusão de que está tudo bem nas relações entre brancos e negros do campus. Para ilustrar que a situação é mais complicada do que se pensa, Lionel Higgins (Tyler James Williams) padece para encontrar seu espaço fora da fraternidade de Sam e seus amigos, buscando um caminho diferente, mas que tende a sempre tornar-se hostil, seja por conta de seu cabelo ou por ser homossexual (que o coloca dentro de um grupo ainda menor de alunos), assim como também conhecemos Coco (Teyonah Parris), personagem que serve para borrar nossos conceitos do que é preconceito, estilo ou alienação (já que para ela o que importa é ser popular, sobretudo com seu canal no Youtube). O roteiro do também diretor  Justin Simien é um primor na construção das situações em que seus personagens se envolvem, sempre revelando o que há de preconceituoso em posturas naturalizadas pela cultura americana (nos estereótipos presentes nos filmes, na cultura hip hop, na moda...) além do quanto que existe de interesse em tornar um ofuscados os conceitos entre a tolerância, o racismo e o preconceito (e que Sam faz um belíssimo esclarecimento). Ironicamente bem humorado, o filme cresce em tensão quando o conflito entre os personagens torna-se inevitável (e ficar em cima do muro está longe de ser uma solução). Embora mostre-se melhor roteirista do que diretor, Simien constrói um filme diferente que remexe em alguns aspectos que a cultura do Tio Sam prefere esconder - e o faz com personalidade. Sem melodramas, personagens unidimensionais ou conclusões fáceis, Cara Gentre Branca é um filme inteligente que presta a inúmeras analogias - motivo pelo qual ainda recebeu o prêmio do público no Festival de São Francisco, o prêmio especial do júri no Festival de Sundance, prêmio da juventude no Festival de Seattle e diretor promissor no Festival de Palm Springs. O mais interessante é como Simien enxerga a questão por dentro, numa autenticidade que demonstra o quanto o diretor sabe exatamente do que está falando (e onde quer chegar), embora possa render debates acalorados entre a plateia. 

Cara Gente Branca (Dear White People/EUA-2014) de Justin Simien com Tessa Thompson, Tyler James Williams, Brandon P. Bell, Teyonah Parris, Dennis Haysbert, Kyle Gallner e Marque Richardson. ☻☻☻☻

NaTela: A Ovelha Negra

Gummi (Sigurður Sigurjónsson) e sua ovelha: pendengas familiares e um segredo. 

Em cartaz nos cinemas brasileiros, o islandês A Ovelha Negra ganhou o prêmio na mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes e gerou uma curiosa entrevista onde o diretor Grímur Hákonarson, afirmou que em seu país existem mais ovelhas do que pessoas: são oitocentas mil ovelhas para trezentas e vinte mil pessoas. Ao que parece, na terra da cantora Björk, são as ovelhas os animais de estimação favoritos dos moradores. Tanto carinho pelos simpáticos animais fica latente durante o filme, onde um grupo de pastores cuidam das ovelhas com grande devoção, sendo até premiados por isso. Se por um lado existe grande carinho com os bichos, a trama gira em torno de dois irmãos que não se falam há quarenta anos: Gummi (o ótimo Sigurður Sigurjónsson) e Kiddi (Theodor Júlíusson). Os dois são vizinhos e dependem de um cão dedicado para que se comunicarem através de cartas levadas para lá e para cá. A relação entre os dois se torna pior quando Gummi desconfia que uma ovelha de seu irmão morreu por conta de uma doença letal para a espécie, a Scrapie (que afeta o sistema nervoso do bicho até causar infecção na medula e levar o animal à morte). Basta Gummi comentar a desconfiança com outros moradores que percebemos o pavor que sentem da doença - cujo o único remédio é sacrificar todos os rebanhos da região. A suspeita aumenta a pendenga familiar e muda o rumo da região gélida por um bom tempo, mas... melhor não contar. Grímur Hákonarson faz um filme simples muitíssimo bem realizado, utiliza ângulos bem trabalhados, conduz atuações competentes (até as ovelhas estão muito bem em cena). Fotografia e montagem merecem destaque por conseguir inserir o espectador naquele ambiente bucólico para se comover com o que vemos na tela. O mais interessante é como a história é conduzida num ritmo cômico (sem que seja uma comédia) demonstrando simpatia e um grande carinho pelos personagens - além de possuir um último ato tão bem filmado que já vale toda a sessão. A Ovelha Negra é um raro filme da Islândia (que lança cerca de seis filmes por ano) que chega aos nossos cinemas,  merecendo  ser reconhecido por contar uma história singela com uma precisão surpreendente. 

A Ovelha Negra (Hrútar/ Islândia - Noruega - Dinamarca - Polônia/2015) de Grímur Hákonarson, com Sigurður Sigurjónsson, Theodor Júlíusson e Jon Benonysson. ☻☻☻☻