quinta-feira, 21 de julho de 2016

PL►Y: Um Caso de Amor

Evan, Brendan e Justin: como ser o homem ideal. 

Todo o ano dezenas de comédias românticas são lançadas, pouquíssimas alcançam sucesso e o posto de ter conseguido algum diferencial dentro de um gênero com sinais de desgaste. Um Caso de Amor não chega a ser memorável, mas consegue divertir a plateia com uma ideia bastante atual, já que o inseguro Sam (Justin Long, que também é um do roteiristas) se apaixona por Birdie (Evan Rachel Wood) e para conquistá-la resolve procurá-la nas redes sociais. Ao invés de entrar em contato com ela por esse tipo de mídia, ele resolve descobrir os gostos pessoais da moça e seguir cada um deles na intenção de mostrar-se como sua alma gêmea. Haja aulas de Judô, de culinária, aulas de violão e canções de Joan Baez! Depois a coisa complica. Só essa ideia já renderia um filme de uma piada só cheio de possibilidades para provocar risadas, mas o roteiro inventou que Sam é um escritor de livros baseados em filmes - e está em crise pela necessidade de se tornar um autor sério e... ele passa a escrever a história sobre sua jornada para conquistar o coração de Birdie. A parte do livro escrito por Sam parece estar sobrando na história e acaba atrapalhando o desenvolvimento das trapalhadas que ele precisa fazer, mas nada que comprometa a sessão. Apesar de ser uma uma piada esticada por todo o filme, ela até funciona por conta do carisma de Evan e Justin, dois bons atores que já apareceram em uma dezena de filmes. Os dois não forçam seus personagens para que sejam engraçados ou dramáticos, o que facilita o espectador a torcer por eles, mesmo quando Sam começa a ficar estranho por se incomodar com a própria farsa (e isso repercute em sua obra). O filme ainda conta com participações especiais de Sienna Miller, Peter Dinklage, Sam Rockwell, mas o que eu mais gostei foi rever Brendan Fraser quase irreconhecível como o ex-namorado roqueiro de Birdie. Seguindo a cartilha das comédias românticas, Um Caso de Amor pode agradar quem curte filmes do gênero e não se incomoda pelo tom bobinho com que desenvolve sua história de amor.  

Um Caso de Amor (A Case of You/EUA-2013) de Kat Coiro com Justin Long, Evan Rachel Wood, Vince Vaughn, Keir O'Donnell, Peter Dinklage e Sam Rockwell. ☻☻ 

PL►Y: A Garota de Fogo

Bárbara: mistérios em tons pastéis. 

No espanhol A Garota de Fogo alguns personagens se misturam de forma que lembra os filmes de Alfred Hitchcock, especialmente o clássico Pacto Sinistro (1951). Na cena de abertura um professor de matemática explica que algumas certezas são inabaladas, mas ao se confrontar com uma aluna percebe que a certeza pode ser enganada facilmente pelos sentidos. O diretor e roteirista Carlos Vermut apresenta essa cena sem que nos demos conta do sentido que ela terá para a história de seus dois protagonistas. Luis (Luis Bermejo) passa os dias cuidando da filha (Lucía Pollán) que está com leucemia e sem perspectiva de melhoras. Diante da situação da filha ele tenta realizar uma espécie de último desejo da menina e acaba cruzando o caminho de Bárbara (Bárbara Lennie), mulher que é casada com um psiquiatra (Israel Elejalde) e vive tomando medicamentos sem que saibamos o motivo. Sob a influência de Luis, Bárbara terá que voltar ao seu passado e reviver situações que terão consequências trágicas no futuro. Quando você se acostuma com a história surge outro personagem, capaz de fazer tudo o que Bárbara lhe pedir, quase que por feitiço. A narrativa de A Garota de Fogo (nome que faz alusão a uma canção que toca no filme mais de uma vez, mas deixa de lado o mais coerente "Garota Mágica" do título original) constrói-se lentamente, revelando aos poucos os personagens que se tornam cada vez mais sombrios entre caprichos, cumplicidades e crimes. Vermut se esmera na atmosfera contida embalada por tons pastéis e se dá ao luxo de terminar o filme deixando alguns mistérios no ar (afinal, o que existe no tal quarto do lagarto negro? Que laço foi construído entre Bárbara e o estranho Damián?) mas peca por nunca deixar o espectador se identificar com os personagens, sempre apresentados a uma distância emocional segura do espectador. Existem ideias bem sacadas (como o quebra cabeça interminável, a brincadeira com a constituição espanhola, o embate entre dois professores, o culto aos personagens de mangá, os capítulos classificados pelos inimigos da alma segundo o cristianismo...) e alcança um exercício de mistério envolvente, mas que se prejudica pelo desfecho previsível. 

A Garota de Fogo (Magical Girl/Espanha-2014) de Carlos Vermut com Bárbara Lennie, Luis Bermejo, José Sacristán, Lucía Pollán e Israel Elejalde. ☻☻☻

quarta-feira, 20 de julho de 2016

10+: Winona Ryder

Winona Laura Horowitz nasceu em 1971, no estado de Minnesota (EUA) numa família chegada à filosofia hippie. Em 1986 a menina de olhos expressivos estreou no cinema - e logo foi considerada um dos nomes mais promissores de Hollywood. Na vida real, Winona já foi afilhada de guru espiritual, tatuagem de Johnny Depp, namorada ciumenta de Matt Damon e até a garota problemática no banco dos réus - o que jogou sua carreira numa espécie de limbo. Com a série Stranger Things o mundo parece estar disposto a redescobrir essa talentosa atriz com disposição de sobra para voltar ao primeiro time de Hollywood. Essa lista é sobre meus dez momentos favoritos da atriz - que servem para lembrar que Winona Ryder ainda merece um lugar em nossos corações: 

#10 A Casa dos Espíritos (1993) de Bille August
Pouca gente curtiu a adaptação de August para esse cultuado livro de Isabel Allende ambientado num período conturbado da história do Chile - mas o elenco enchia os olhos, só para ter ideia: Winona era a filha de Jeremy Irons com Meryl Streep e sobrinha de Glenn Close!

#09 Cisne Negro (2010) de Darren Aronofsky
Depois que sua instabilidade foi parar nos tribunais a atriz passou vários anos fazendo participações especiais em filmes pouco vistos... até que Aronofsky a convidou para viver a bailarina problemática Beth MacIntire - praticamente um fantasma do futuro que se arma para a protagonista de Natalie Portman. 

#08 Edward Mãos de Tesoura (1990) de Tim Burton
No clássico absoluto de Burton, Winona é a mocinha que aparece de cabelos louros para deixar o personagem de Johnny Depp apaixonado (e a química funcionou tão bem que os dois namoraram na vida real - rendendo a famosa tatuagem Winona Forever). 

#07 Os Fantasmas se Divertem (1988) de Tim Burton 
Na primeira parceria com Burton, Winona se saiu muito bem como a jovem gótica que se torna musa do estranho Besouro Suco (Michael Keaton). A partir daqui a moça se tornou uma das musas do diretor, com quem trabalhou mais duas vezes (e cogita a continuação dessa comédia esquisita). 

#06 Drácula de Bram Stoker (1992) de Francis Ford Coppola
Dizem que havia grande tensão nos bastidores entre Coppola e a atriz, mas quando assistimos ao filme, em que ela encarna a amada Mina do Conde Drácula (Gary Oldman), nem percebemos as dificuldades encontradas pela atriz. Isso que é profissionalismo!

#05 Garota, Interrompida (1999) de James Mangold
Ao final dos anos 1990, Winona começou a produzir filmes que podiam lhe render ainda mais reconhecimento - e quem sabe até lhe render um Oscar. Aqui ela vive uma jovem que passa um tempo numa instituição psiquiátrica. Sua atuação é competente, mas o Oscar foi para a colega Angelina Jolie. 

#04 A Época da Inocência (1993) de Martin Scorsese
Se a coisa não foi bem com Coppola, o mesmo não se pode dizer do seu primeiro trabalho com o mestre Scorsese. No filme mais romântico realizado pelo diretor, Winona vive a recatada noiva de Daniel Day Lewis...  mas ele nem imagina que ela é mais esperta do que parece. Winona foi indicada ao Oscar (de atriz coadjuvante) pela primeira vez pelo papel. 

#03 As Bruxas de Salém (1996) de Nicholas Hytner
Olhando sua carreira em perspectiva, a estrela deve ter achado que faltava uma vilã de peso! Foi quando ela produziu essa excelente adaptação da peça de Arthur Miller. Na pele da rancorosa Abigail, a atriz promove um verdadeiro massacre ao acusar seus desafetos de cometerem atos de bruxaria. 

#02 Minha Mãe é uma Sereia (1990) de Richard Benjamin
Cher estava com a bola toda quando resolveu produzir essa comédia sobre o relacionamento tempestuoso entre mãe e filha - baseado no livro de Patty Dann. O resultado é um filme divertido que rendeu uma indicação ao Globo de Ouro para sua filha (Winona) que tenta ser santa!

#01 Adoráveis Mulheres (1994) de Gillian Armstrong
A heroína Jo March já foi vivida por várias atrizes e a atuação de Winona está entre as melhores. Jo vive com a mãe e as três irmãs sonhando em ser escritora. Entre dramas familiares e amorosos (com Christian Bale), Jo amadurece no decorrer da história. O filme rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para sua estrela. 

NªTV: Stranger Things

Winona: momento de luz na carreira. 

Desde que foi lançado o primeiro trailer, Stranger Things foi direto para o pódio de estreias mais esperadas do ano. A nova série de mistério da Netflix foi lançada há uma semana é já possui fãs fiéis aguardando a segunda temporada (que acaba de ser encomendada). A trama é ambientada na pequena cidade de Hawkins onde uma série de fatos estranhos começam a acontecer após o desaparecimento do menino Will (Noah Schnap). Para o desespero da mãe, Joyce (Winona Ryder) ninguém sabe direito o que aconteceu com menino e a polícia não parece muito preocupada, já que em Hawkins faz uns vinte anos que ninguém desaparece (e realmente pensam que ele aparecerá em breve). Não demora muito para que a mãe de Will passe a receber telefonemas estranhos ou ver luzes piscantes e considerar que o filho quer enviar-lhe uma mensagem. Não bastasse isso, começam a existir indícios de que uma criatura estranha anda pelas redondezas. Enquanto Joyce tenta encontrar o filho por conta própria, o xerife Jim Hopper (David Harbour) tenta entender o que está acontecendo numa cidade que costumava ser bastante tranquila e o trio de amigos de Will também irão se aventurar em busca do amigo - só que no caminho os pequenos Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) aparecerá uma misteriosa menina (Millie Bobby Brown) e... melhor parar por aqui. A criação dos irmãos Duffer ainda conta com o charme de ser ambientada no início dos anos 1980, caprichando na reconstituição de época que vai para além dos cenários e figurinos: os personagens realmente agem como se estivessem num filme dos anos 1980! Seja nas referências que aparecem nos diálogos ou nos dilemas juvenis que enfrentam, existe uma atmosfera oitentista que torna Stranger Things muito mais coerente e um tanto nostálgica. Misturando E.T. (1982) com Conta Comigo (1986), Goonies (1985), Poltergeist (1982) e tantos outros filmes que misturavam doses de humor e mistérios, a direção consegue manter o interesse ao amarrar os oito episódios como se compusessem um filme envolvente de pouco mais de seis horas de duração. A diversidade do elenco, com núcleos formados por adultos, adolescentes (com direito à um triângulo amoroso) e infantis, também ajuda a dar forma ao programa para que agrade diversas faixas etárias. Embora o nome de Winona Ryder apareça primeiro nos créditos, o grande destaque da série são as crianças escolhidas criteriosamente pelos produtores (e a menina Millie Bobby Brown é um verdadeiro achado), são os pequenos que tomam a nossa atenção durante os episódios. Vale ressaltar que, como fã de Winona, fico feliz de vê-la retornar aos holofotes depois de uma fase estranha na carreira, aqui ela se joga no papel de mãe desesperada sem paraquedas, sem medo de cometer exageros, afinal trata-se da sua grande chance desde que retomou a carreira em  Cisne Negro (2010). O outro destaque do elenco é David Harbour, que está ótimo como o xerife de bom coração e que parece estar apenas esperando a chance de se tornar herói na cidadezinha que escolheu para fugir de seus próprios fantasmas. Tão divertido quanto assustador, Stranger Things nem parece ter sido criado praticamente por uma dupla de poucos trabalhos no currículo. Até aqui The Duffer Brothers (como os manos assinam a produção) tinham apenas dois curtas de terror, um longa de suspense no currículo (Escondidos, lançado no ano passado e que prometo comentar em breve por aqui) e a experiência de fazer alguns roteiros para a série Wayward Pines - baseada na trilogia literária de Blake Crouch. Agora, com total liberdade para criar o universo próprio da nova série, os manos conseguiram um dos maiores acertos da temporada e que já figura como uma das melhores estreias do ano. 

As crianças: referências oitentistas. 

Stranger Things (EUA/2016) de The Duffer Brothers com Winona Ryder, David Harbour, Millie Bobby Brown, Matthew Modine, Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Charlie Heaton e Joe Keery. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 18 de julho de 2016

PL►Y: Já Estou com Saudades

Drew e Toni: amizade à prova de quimioterapia. 

Milly (Toni Collette) e Jess (Drew Barrymore) são amigas desde a infância, ainda que as vidas de ambas tenham seguido rumos diferentes, a amizade permanece intacta. Milly tem uma carreira de sucesso no mundo da música, casou com um esposo exemplar (Dominic Cooper) e tem dois filhos cheios de saúde. Jess mora numa casa-barco, faz trabalho comunitário e tem um marido (Paddy Considine) que não vê a hora de ser pai. Os maridos de ambas também se tornam amigos e todos curtem a vida como uma grande família. No entanto, a vida de todos irá mudar quando Milly descobrir que está com câncer no seio e ter que se submeter à quimioterapia, tratamento que irá mudar sua vida e de quem a cerca. Dirigido por Catherine Hardwicke (aquela que deu origem à Saga Crepúsculo/2008 no cinema) ainda está longe de ser uma grande diretora e isso fica evidente quando ela precisa aprofundar os dilemas atravessados pelas duas amigas, em alguns momentos ela pesa a mão nas doses de açúcar e algumas possibilidades do filme não se concretizam. Sua maior sorte foi ter conseguido Toni Collette para o papel principal e Drew Barrymore para encarnar a amiga compreensiva. Toni está bastante convincente como  a mulher vaidosa que tem sua identidade transformada pelas mudanças que seu corpo sofre no combate aos tumores. Ela tem as falas mais espertas (irônicas e sarcásticas) e não tem medo de ser desagradável com os outros personagens que apenas desejam fazê-la sentir-se melhor. Diante da amiga esfuziante, Drew Barrymore tem uma atuação contida numa personagem que é quase uma versão dela mesma (já que a atriz é famosa por ter um estilo de vida hippie), Drew demora para ter cenas de destaque, mas quando precisa cumpre sua tarefa com bastante competência. O filme poderia ser drama memorável sobre amigas mas o resultado fica inchado com suas quase duas horas de duração, sem ter fôlego para tanto. Houvesse vinte minutos a menos o filme seria muito melhor. Já Estou com Saudades é um filme que vale pelas suas atrizes (curiosamente Jennifer Aniston e Rachel Weisz que teriam os papéis principais, mas desistiram por atrasos na produção). 

Já Estou com Saudades (Miss You Already/Reino Unido-2015) de Catherine Hardwicke com Toni Collette, Drew Barrymore, Dominic Cooper, Paddy Considine e Tyson Ritter. ☻☻

PL►Y: Um Dia Essa Dor Será Útil

Toby: pequena jornada dentro de si mesmo. 

Um Dia Essa Dor será Útil já conta com um título que recebe atenção por si só - e a atenção aumenta quando descobrimos que é destinada a um jovem de 17 anos que ainda não encontrou o seu caminho. Quando conhecemos James Sveck (Toby Regbo) ele está prestes a se atirar do alto da casa em que mora com a mãe, mas acaba mudando de ideia quando percebe que ela acaba de voltar para casa após uma fracassada lua-de-mel. É curioso perceber que James está no limite, vivendo numa família cercada de mulheres por todos os lados, sua personalidade ainda está em desenvolvimento, mas um tanto sufocada pelos devaneios da mãe (Marcia Gay Haden) e a superficialidade da irmã (Deborah Ann Woll). Já o pai (Peter Gallagher) é um executivo conquistador que está mais preocupado em driblar os efeitos do tempo sob sua aparência - mas é esperto o suficiente para perceber que existem fortes chances do filho ser homossexual (mas James jamais lhe avisaria sobre isso). Sem a pretensão de ir para a faculdade, James passa o tempo fingindo que trabalha na galeria de arte da mãe e tendo algum alento ao lado da avó materna (Ellen Burstyn) e do cão de estimação. Um Dia Essa Dor Será Útil concentra-se justamente em um dos períodos mais delicados da adolescência, aquele em que estamos próximos demais de ser adultos e precisamos fazer nossas escolhas em meio a todas os desejos e inseguranças. O diretor Roberto Faenza faz o possível para não compor um melodrama sobre a adolescência, deixando sempre James como uma espécie de esboço do que gostaria de ser, seja na claustrofóbica viagem para Washington ou no mal entendido (junto ao funcionário da galeria de sua mãe, John (Gilbert Owuor) - fatos que revelam bastante sobre a inquietação sofrida pelo protagonista. Se Faenza acerta no tom intimista do protagonista, o mesmo não se pode dizer de Marcia Gay Haden e Deborah Ann Woll que exageram nos drama de suas personagens, que terminam parecendo fúteis demais e um tanto caricatas. Já Peter Gallagher e Stephen Lang tem mais sorte por surpreender em personagens que poderiam ser apenas estereótipos manjados. Embora evite polêmicas por não aprofundar algumas questões, o filme alcança um resultado simpático e fácil de assistir, mas que poderia render muito mais nas mãos de um diretor mais impetuoso e criativo. 

Um Dia Essa Dor Será Útil  (Someday this pain will be useful to you / EUA- Itália / 2011) de Roberto Faenza com Toby Regbo, Marcia Gay Harden, Peter Gallagher, Stephen Lang, Gilbert Owuor, Ellen Burstyn e Deborah Ann Woll. ☻☻☻

domingo, 17 de julho de 2016

PL►Y: Mistress America

Lola, Greta, Matthew e Jasmine: o Baumbach mais leve de todos. 

O casamento pode fazer muito bem a um artista, principalmente se além de matrimonial ele for também criativo. Exemplo disso é o relacionamento que existe entre Noah Baumbach e Greta Gerwig. Baumbach já foi um queridinho da crítica quando lançou A Lula e a Baleia/2005  premiado filme sobre a dissolução de uma família de intelectuais perante o divórcio. Depois demonstrou que ele não estava preocupado em gerar personagens simpáticos com o incompreendido Margot e o Casamento/2007 (o meu favorito). O fundo do poço de seus personagens desagradáveis foi com Greenberg (2010) filme insuportável protagonizado por Ben Stiller. Pelo menos ali ele nos apresentou Greta Gerwig, atriz até então desconhecida, mas que construía uma personagem de humanidade palpável. Gerwig e Baumbach se juntaram mais uma vez em Frances Ha (2012), escrito pelos dois, filmado em preto e branco, mas tão despojado que conquistou fãs fiéis, se tornou cult e indicou Greta a vários prêmios (incluindo o Globo de Ouro). Os dois consolidaram o romance e Baumbach lançou o filme mais bem humorado de sua vida: Enquanto Somos Jovens (2014). Agora ele cria outra comédia estrelada por sua musa, o despretensioso Mistress America. Porém, o posto de protagonista ficou para Lola Kirke (da série Mozart in the Jungle), ela é Taylor, uma jovem que estuda literatura em Nova York, cidade onde não conhece ninguém. A mãe dela, que está de casamento marcado, insiste para que ela entre em contato com a futura enteada, Brooke (Greta Gerwig) que vive ali por perto. Taylor hesita, mas quando entra em contato com Brooke existe uma identificação imediata entre as duas (e Baumbach capricha na entrada triunfal da personagem em cena). As duas grudam e parecem se tornar amigas. Embora Brooke sempre pareça um pouco distante (obcecada por criar um restaurante, pensando mil coisas ao mesmo tempo - mas com fala articulada), Taylor se inspira nela para criar a personagem de um conto que pode lhe tornar uma aluna respeitada na faculdade. Sei que muita gente vai achar o filme estranho, especialmente por misturar personagens que parecem estar ali para apenas tornar as cenas mais dinâmicas e divertidas (mas não recebem muita profundidade na história), o fluxo da narrativa também é diferente, pontuado por acontecimentos que parecem um tanto aleatórios...  mas não se engane, Mistress America é a história de duas amigas e da forma como ambas se desenvolvem após se conhecerem. Greta Gerwig está luminosa como Brooke, tornando fácil entender porque Taylor a admira (apesar de tecer críticas às suas instáveis motivações) e Lola Kirke está convincente como a estudante que sonha em ser uma grande escritora e que aos poucos mostra-se bem mais interessante do que realmente parecia. Baumbach deixa a pose de lado e faz graça misturando personagens que parecem ter pouco em comum, com diálogos ágeis, o filme convence e diverte por um excelente timing cômico (e uma trilha sonora que parece saída de uma comédia adolescente dos anos 1980). Os fãs de outrora irão reclamar do rumo que a carreira da Noah tomou, mas, convenhamos que o lado de Greta, ele é menos cerebral e muito mais alegre na construção de seus filmes. 

Mistress America (EUA/2015) de Noah Baumbach com Lola Kirke, Greta Gerwig, Matthew Shear, Jasmine Cephas Jones, Heather Lind e Michael Chernus. ☻☻☻ 

PL►Y: Destino Especial

Alton: poderes especiais e destino confuso. 

Existe uma infinidade de títulos interessantes esperando uma vaga para estrear nas salas brasileiras, alguns já tiveram a estreia adiada várias vezes e a cota de pré-estreias mais do que cumprida. Esse é o caso de Destino Especial de Jeff Nichols, que tinha a estreia prevista para março, mas após dividir opiniões em sua estreia (ocorrida no Festival de Berlim), sua chegada por aqui foi alterada. Ainda que não tenha alcançado unanimidade, o cineasta Jeff Nichols se consolida como um dos nomes mais interessantes na nova safra de diretores americanos. Aos trinta e sete anos, este é o seu quarto filme e, assim como os outros, é digno de atenção. Junto aos outros, Destino Especial causa estranhamento por ser completamente diferente, afinal, Nichols chamou atenção no cinema independente com dramas intimistas - como o excepcional O Abrigo/2011 e o sucesso inesperado Amor Bandido/2012 - e aqui ele entrega uma ficção científica que transpira referência dos anos 1980, especialmente das fantasias dirigidas ou produzidas por Steven Spielberg naqueles tempos. O filme gira em torno do pequeno Alton (Jieden Lieberher que já demonstrou seu talento em Um Santo Vizinho/2014), um menino diferente que foi sequestrado por dois homens (vividos por Michael Shannon e Joel Edgerton) enquanto uma investigação começa a acontecer em sua busca. De um lado estão agências governamentais que descobriram as habilidades especiais do menino, do outro está um grupo religioso que acredita que Alton é uma espécie de salvador. No meio da confusão estão os pais do menino, que desejam apenas o bem dele diante do seu "dom". Nichols capricha nos climas e no uso dos efeitos especiais em momentos pontuais (as cenas em que o menino apresenta seus poderes são impressionantes) sem perder o tom crescente de conspiração. É um filme que se destaca como aventura infanto-juvenil e que se beneficia do mistério que contrói em torno de seu irresistível protagonista mirim. Michael Shannon também chama atenção por mais uma grande atuação (não por acaso é o ator favorito de Nichols, estando presente em quatro dos cinco filmes dirigidos pelo cineasta), aqui, Shannon demonstra total cumplicidade junto ao menino, mesmo quando alguns sacrifícios deverão ser feitos. Ironicamente, são as qualidades apresentadas por Destino Especial que torna o desfecho o seu maior problema, afinal, cria-se uma grande expectativa por todo o filme, mas a conclusão mostra-se tão apressada que torna-se até confusa. Diante do desfecho insatisfatório, destaca-se como alguns alguns atores poderiam ter recebido maior destaque na trama - como o cientista vivido por Adam Driver e a mãe encarnada por uma discreta Kirsten Dunst. Se ao final, o longa não alcança tudo o que promete, pelo menos impressiona pelo resultado alcançado com o orçamento de 18 milhões de dólares (uma ninharia para o gênero). Se depois de passar por Berlim Destino Especial dividiu opiniões, o diretor Jeff Nichols teve melhor sorte no Festival de Cannes desse ano ao apresentar Loving, elogiadíssimo drama romântico sobre um casal inter-racial enfrentou preconceitos na década de 1950 (e que já está cotado para o Oscar do ano que vem).

Destino Especial (Midnight Special/EUA-2016) de Jeff Nichols com Michael Shannon, Joel Edgerton, Jieden Lieberher, Kirsten Dunst, Adam Driver, Bill Camp e Sam Shepard. ☻☻☻

quinta-feira, 14 de julho de 2016

FILMED+: O Beijo da Mulher Aranha

 
Sonia e Raul: dicotomia entre a realidade e a fantasia. 

Quando lançou seu último filme (Meu Amigo Hindu/2016) fiquei muito triste quando li uma entrevista do cineasta Héctor Babenco onde ele relatava todas as dificuldades que enfrentava para filmar no Brasil. Ele ressaltava que além de todos os problemas para captar recursos, problemas com a filmagem e a longa espera por distribuição haviam transformado a vida de cineasta num verdadeiro martírio. Ingenuamente pensei que um diretor do quilate de Babenco, diretor de (pelo menos) uns cinco clássicos do cinema nacional estaria longe de todos esses percalços. Fosse americano ou europeu provavelmente seu nome estaria entre os grandes mestres da sétima arte, mas Babenco nasceu na Argentina e naturalizou-se brasileiro e, convenhamos, que seu cinema é bom demais para lotar salas famintas por comédias bobocas e atores globais. Babenco sempre quis desafiar o público, especialmente com dramas marginais que combinam a aspereza da exclusão com um pouco de poesia para tornar a existência suportável. O universo construído pelo cineasta não é para saborear a pipoca, mas para curtir o nó na garganta. Por isso eu entendo porque muita gente considera Pixote - A Lei do Mais Fraco (1980) seu melhor filme, mas eu curto mesmo é O Beijo da Mulher Aranha, outro clássico absoluto do diretor. Baseado no romance do argentino Manuel Puig, Babenco trabalha as relações da história com nuances profundamente emocionais na relação entre dois prisioneiros: Luís Molina (William Hurt, excepcional) e Valentin Arregui (o sempre competente Raul Julia). O efeminado Luís é um vitrinista que foi preso por ser homossexual e já o rústico Valentin é um prisioneiro político, ambos dividem a mesma cela numa prisão de segurança máxima de algum país da América Latina. Com diferenças visívei, Luís tenta se aproximar do companheiro de cela narrando um filme que assistiu: O Beijo da Mulher Aranha - um intrincado romance de época onde uma cantora francesa (Sonia Braga, com ares de diva e indicada ao Globo de Ouro de atriz coadjuvante) se apaixona por um oficial nazista. Babenco contrasta as cores das duas narrativas e apresenta os detalhes românticos da cantora com o oficial em contraponto com a atração que Luís começa a sentir por Valentin. Aos poucos, Babenco desconstrói a teatralidade, a sensualidade e os estereótipos do que está em cena, explorando cada vez mais os sentimentos de Luis. William Hurt está inesquecível em meio aos dilemas de seu personagem, preso entre a realidade e seus desejos (obviamente que  a Mulher Aranha é apenas uma simbologia para sua própria sexualidade), não é por acaso que o ator (que nunca se contentou em ser apenas um galã) recebeu os prêmios de melhor ator no Oscar e no Festival de Cannes. Vale destacar também o quanto Sonia Braga enche os olhos em cada cena que aparece. Babenco realiza aqui um trabalho emocionalmente intenso e com várias camadas, costuradas justamente através de suas dicotomias, alcançando sucesso mundial e recebendo quatro indicações ao Oscar (Filme, diretor, roteiro adaptado e ator) numa época em que a homossexualidade ainda era vista com desconfiança no cinema. O Beijo da Mulher Aranha é um verdadeiro trabalho de um mestre que merece nosso respeito por toda a eternidade. 

Raul e William: atuações inesquecíveis. 

O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman / Brasil - Argentina - EUA / 1985) de Héctor Babenco com William Hurt, Raul Julia, Sonia Braga, José Lewgoy, Herson Capri, Milton Gonçalves e Miriam Pires. ☻☻☻☻☻