sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Na Tela: Livre

Reese: reencontrando seu caminho. 

Esse ano me dei ao luxo de conferir o maior número de indicados ao Oscar até o dia da cerimonia. Livre de Jean-Marc Vallée está em cartaz há mais de um mês no Brasil, mas o conferi só recentemente. Não sei se é por conta de uma antipatia recente sobre os filmes centrados especificamente em um ator em cena a maior parte do tempo (que parece ter uma luz piscante dizendo: "OSCAR! OSCAR!") ou uma ideia inconsciente de que filmes sobre gente em contato com a natureza costuma me deixar entediado a maior parte do tempo. O fato é que demorei para investir meu tempo nessa empreitada de Reese Witherspoon ao lado do diretor do premiado Clube de Compras Dallas/2013. A vida não andava boa para Reese desde que ganhou o Oscar de atriz como a esposa de Jonhy Cash em Johny & June (2005). De lá para cá ela se separou do ator Ryan Phillipe, teve problemas com álcool, sofreu um dos atropelamentos mais estranhos da história... e no trabalho as coisas não estavam melhores. Desde sua premiação teve dois filmes de sucesso (a comédia natalina Surpresas do Amor/2008 e Monstros e Alienígenas/2009 no qual fazia a voz da grandalhona Ginormica), mas nada que de relevante para quem tem um Oscar na estante. Hollywood parecia querer transformá-la em apenas uma loura (basta ver o que ela faz nos intragáveis Como você Sabe?/2010 e Guerra é Guerra/2012). Olhando assim, seus trabalhos eram mais interessantes antes de ganhar a cobiçada estatueta. Seria Reese mais uma vítima da maldição do Oscar que afetou Halle Berry, Jessica Lange e Mira Sorvino? Voltando os olhos para o início de sua carreira nos filmes independentes, Reese reencontrou seu caminho nos últimos anos em filmes de orçamentos modestos - mas de ideias consistentes para suas atuações em  Sem Evidências (2012), Amor Bandido (2012) e o recente Vício Inerente (2014). Essa longa introdução serve para demonstrar o que atraiu Witherspoon na jornada de Cheryl Strayed, que resolveu fazer a trilha pela costa do Pacífico para colocar sua vida sob nova perspectiva. Enquanto caminhava, com fome, sede e um pé maltratado por botas apertadas, Cheryl queria esquecer o fracasso do seu casamento, anos de sexo promíscuo, o vício em heroína e a morte da mãe vítima de câncer. Durante toda a jornada, Cheryl repete para si mesma que ao final voltará a ser a mulher que sua mãe esperava. É verdade que durante o caminho, Chreyl encontra outros desafios, de homens ameaçadores, água escassa, calor, frio, cobras, neve... tendo muitos momentos para pensar na vida e poucos de diversão, são essas experiências (misturadas às memórias em flashback da personagem) que torna sua jornada bastante intimista. No entanto, sua história não me envolveu. Não sei se não percebi, ou se de fato o roteiro nunca explica muito bem qual é a grande angústia da personagem para se impor aquela peregrinação toda. Com exceção da morte da mãe (vivida pela sempre competente Laura Dern, indicada ao Oscar de coadjuvante), todos os outros problemas de Cheryl poderiam ser revolvidos se ela caísse em si a qualquer momento em qualquer lugar. Percebo que existe uma dificuldade para dimensionar as motivações da personagem, mais isso não prejudica em nada a atuação de Reese (indicada ao Oscar de melhor atriz). A atriz se sai bem no desafio de imprimir veracidade às diferentes fases de Cheryl. Talvez a intenção de Vallée é demonstrar que, ao final da cansativa jornada (para Cheryl e para o espectador), a personagem perdoa a si mesma pelos tropeços que cometeu, mas até lá percebe que andar centenas de quilômetros por vários dias não afasta seus fantasmas, pelo contrário, os deixam ainda mais presentes e necessários para sua sobrevivência. 

Livre (Wild/EUA-2014) de Jean-Marc Vallée com Reese Witherspoon, Laura Dern, Thomas Sadoski, Kevin Rankin e Gabby Hoffman. ☻☻

Na Tela: A Teoria de Tudo

Jones e Eddie: os Hawkins em drama romântico. 

Um filme sobre um dos homens mais inteligentes do mundo não pode ser pouca coisa, por isso mesmo, desde que A Teoria de Tudo começou a ganhar forma recebeu atenção dedicada da mídia. O diretor James Marsh (do oscarizado documentário O Equilibrista/2008) ainda foi esperto o suficiente para escolher um casal de bons atores que ainda não são estrelas, mas que tem potencial de sobra para isso. O desafio maior era evitar romancear demais os dramas da vida do casal Jane e Stephen Hawking, especialmente por ser baseado no livro dela sobre os anos em que foi casada com um dos maiores cientistas de todos os tempos. Se você espera conhecer a fundo as teorias de Stephen  é melhor procurar suas obras (sobretudo o clássico Uma Breve História do Tempo), já que o foco do filme está nos desafios do casal ao lidar com a rara doença degenerativa que compromete o sistema motor de Stephen (e, aos poucos, o seu casamento). O casal se conheceu na Universidade de Cambridge nos anos 1960 e o romance evoluiu perante o diagnóstico da doença aos vinte um anos do rapaz, mas a moça não intimidou-se diante da previsão de dois anos de vida do homem com quem casaria e teria três filhos (já que conforme Stephen esclarece tão bem, algumas funções do corpo masculino funcionam de forma "automática"). Assim como O Jogo da Imitação o filme é bastante romanceado para dar corpo à trama de um filme, mas funciona bem pelas boas atuações e o visual apresentado. Eddie Redmayne encarna Stephen com maestria, mas seus maiores méritos vão para além do seu trabalho corporal, tendo os melhores momentos nas cenas em que seu olhar precisa demonstrar todas as emoções de um personagem cuja fama precede o filme em décadas. Redmayne apresenta não apenas o tom espirituoso do personagem, mas também grande naturalidade nas cenas em que precisa demonstrar que é um gênio envolto em teorias sobre buracos negros e a história do tempo. Redmayne é seguido de perto por Felicity Jones, que exibe a presença cênica já apresentada anteriormente, numa atuação bastante humana de uma mulher que aceita os tons mais sombrios de seu destino. Apesar da forte quimica de seu par de atores, Marsh tem algumas dificuldades ao abordar os conflitos na relação do casal, eles são sempre apresentados de forma discreta e resolvidos da forma mais branda possível - o que já foi criticado por não estar de acordo com a realidade vivida pelo casal, sobretudo no doloroso processo de separação (mesmo a relação com o amigo Johnatan vivido por Charlie Cox parece sempre amarrada demais para se aprofundar como deveria). O resultado é um filme agradável de assistir, com boas atuações e excelente trabalho de fotografia (que terminou esquecida do Oscar). A Academia rendeu cinco indicações ao longa: Filme, ator (Redmayne, que tornou-se o favorito da categoria), atriz (Felicity), roteiro adaptado e trilha sonora (que já levou o Globo de Ouro), mas acredito que o maior elogio que o filme recebeu foi o próprio Stephen Hawking afirmar que ao assistir ao filme, pensava que era ele mesmo que estava na tela - um comentário desses faz até esquecer as críticas sobre o tom açucarado do filme. 

A Teoria de Tudo (The Theory of Everything/Reino Unido - 2014) de James Marsh com Eddie Redmayne, Felicity Jones, Emily Watson, David Thewlis, Harry Lloyd e Charlie Cox. ☻☻☻☻

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

INDICADOS AO OSCAR 2015: Melhor Diretor

ALEJANDRO GONZÁLEZ IÑÁRRITU (Birdman)
Desde que estreou no cinema concorrendo ao Oscar de Filme Estrangeiro com o antológico Amores Brutos (2000) que o mexicano caiu nas graças da Academia - 21 Gramas (foi indicado a melhor ator, atriz e ator coadjuvante), Babel (total de sete indicações, duas para Alejandro como produtor e diretor), Biutiful (Melhor Filme Estrangeiro e ator para Javier Barden) -, mas é com o humor negro de estilo inigualável de Birdman (e seus bastidores vertiginosos da fama) que o cineasta está mais perto da estatueta, ou melhor, das estatuetas, já que Alejandro concorre como diretor, roteirista e produtor do filme. Com cinco indicações no currículo, é a segunda vez que concorre ao Oscar de direção. Favorito na categoria, a pergunta é se a Academia irá premiar um latino após a consagração de Alfonso Cuarón no ano passado por Gravidade.  


RICHARD LINKLATER (Boyhood)
Lidar com gravações esporádicas ao longo de doze anos para acompanhar o crescimento de seu protagonista é uma tarefa árdua - e isso deve pesar nos votos a favor de Linklater. Por registrar as mudanças sutis na vida de seus personagens ao longo dos anos (e controlar os ânimos de quem desanimava no caminho, caso de sua própria filha Lorelei Linklater), o ator recebeu sua primeira indicação ao Oscar de direção (ele também concorre como roteirista e produtor do longa). Nem parece, mas Richard já possui 54 anos e mantem seu estilo indie - que já concorreu ao Oscar como roteirista por Antes da Meia-Noite (2013) e Antes do Por-do-Sol (2004).

WES ANDERSON (O Grande Hotel Budapeste)
Com estilo bastante peculiar, Wes Anderson entrou no páreo de melhor direção pela primeira vez depois de concorrer como roterista (Os Excêntricos Tenenbaums/2001 e Moonrise Kingdon/2012) e melhor animação (O Fantástico Senhor Raposo/2009). Anderson conta a história de um concierge conquistador num hotel luxuoso na fictícia República de Zubrowka durante o período delicado entre guerras na Europa. É a primeira vez que seu cinema incorpora elementos mais violentos e sombrios. Lançado no início de 2014, sua vitória no Globo de Ouro renovou seu fôlego na memória dos votantes, parece que finalmente entenderam sua forma de pensar e fazer cinema!


BENNETT MILLER (Foxcatcher)
Miller é um querido da Academia, sua primeira indicação foi em sua estreia com Capote (2005), depois viu Moneyball (2011) ser indicado a seis Oscars e deixá-lo de fora do páreo de diretor. Com Foxcatcher o prêmio de melhor direção em Cannes deu força para quando já o consideravam fora da disputa. Ótimo diretor de atores, Miller conta a história da desastrosa ligação entre o milionário Jon DuPont com os irmãos lutadores Mark e Dave Schultz com toda a atmosfera desoladora que merece. Ainda que não tenha muitos fãs, Miller já pode ser considerado um dos cineastas mais respeitados dos EUA.  


MORTEN TYLDUM (O Jogo da Imitação)
Se a Academia sentir falta da maneira mais tradicional de fazer cinema, o ganhador deve ser o norueguês que tem a árdua tarefa de manter sóbrio um filme que poderia descambar facilmente para apelação. É a primeira vez que o diretor realiza um longa em inglês e a Academia reconheceu seu trabalho sobre o importante trabalho do matemático Alan Turing em  decifrar o código de comunicação nazista durante a Segunda Guerra Mundial (e sua perseguição por ser homossexual). O Jogo da Imitação está no páreo de outras oito categorias - e mesmo que não ganhe, Tyldum tem o passaporte para Hollywood garantido (já está produzindo Pattern Recognition baseado na obra de William Gibson)


A ESQUECIDA: Ava Duvernay (Selma)
Apesar de algumas imprecisões históricas (como a de vários outros filmes "baseado em história real" que estão no páreo desse ano), o trabalho bastante digno e envolvente de Ava Duvernay ao abordar uma figura tão adorada como Martin Luther King merecia ser reconhecido. A diretora dribla alguns cacoetes da indústria para lidar com figuras histórias ilustres e consegue fazer um filme sobre a luta pelos direitos civis sem perder a dimensão humana de seu maior protagonista. Não por acaso sua indicação era dada como certa. A não indicação fez a Academia perder a chance de fazer história: ela seria a primeira diretora americana negra indicada à categoria. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Na Tela: Leviatã

Kolya e Lilya: o pão que a corrupção amassou. 

Fosse um filme americano, Leviatã não chegaria nem perto de uma indicação ao Oscar, tão pouco, seria o favorito a levar uma estatueta para casa depois de receber o Globo de Ouro de filme estrangeiro em 2015. A trama sobre corrupção e destruição de um homem (e tudo que o cerca) poderia acontece em qualquer lugar do mundo, da mesma forma como aparece aqui, se fosse ambientado num estado americano, poderia ser até mal visto pela Academia pelo seu tom pessimista que crava vagarosamente sua trama por mais de duas horas de duração. O que faz a diferença em Leviatã não é nenhuma de suas qualidades técnicas (que são apenas corretas), mas o fato de ser ambientado na Rússia. Em seu quarto longa metragem o russo Andrey Zvyagintsev conta a história de Kolya (Aleksey Serebryakov), um homem que já está no limite desde que  o prefeito da cidade ficou de olho em um terreno que lhe é de direito por herança familiar. Naquele terreno, Kolya construiu um lar confortável e seu trabalho (uma requisitada oficina), mas o prefeito planeja um grande empreendimento naquele vilarejo de pescadores e ele se tornou uma espécie de pedra no sapato. Para ajudá-lo a derrotar o prefeito, Kolya conta com o melhor amigo, um advogado de Moscou, Dmitri (Vladimir Vdovitchenkov) que possui um dossiê comprometedor sobre o tal prefeito. O mais interessante é que sempre que teremos contato com o impasse vivido por Kolya na justiça, tudo será dito num tom mecânico rápido e desprovido de qualquer emoção, deixando claro que o interesse do diretor  está na dissolução da vida do personagem. Além do problema com o prefeito, torna-se mais visível o relacionamento tempestuoso do filho de Kolya com a madrasta, Lilya (Elena Lyadova), e o cansaço dela com a atmosfera cada vez mais pesada dentro de casa - e não vai demorar muito para que um triângulo amoroso fadado ao fracasso comece a desenhar-se. Andrey Zvyagintsev mostra-se a vontade quando aborda a dissolução das relações de Kolya com quem o cerca, deixando o filme menos empolgante quando tende para uma caricatura quase cômica dos poderosos da região (envolvendo o prefeito, a igreja, as forças armadas, o judiciário...), sempre que a história tende para abordar esse núcleo governamental, a ideia de criar uma crônica sobre a corrupção resulta menos interessante do que a releitura do duelo entre Davi e Golias ou O Livro de Jó. Sem truques narrativos, o diretor arrasta a trama até o final devastador. O título cria uma analogia entre as carcaças de baleias e navios antigos no litoral norte da Rússia que aparecem em cena, criando a imagem de um mausoléu onde as ideologias de outrora jazem faz tempo - e o cinema de Andrey aborda isso de forma quadradinha para que seus personagens comam o pão que os poderosos amassaram. Enfim, acho pouco para ganhar Oscar. Ainda assim, Leviatã tem seu maior mérito no trio central de atores, especialmente nas interpretações de Elena Lyadova e Vladimir Vdovitchenkov (que já foi o melhor ator em cena no sonolento caleidoscópio de 360 assinado por Fernando Meirelles) num personagem interessante, mas que fica no meio do caminho - assim como todas as esperanças que aparecem ao longo da história.

Leviatã (Leviathan/Rússia-2014) de Andrey Zvyagintsev, com Aleksey Serebryakov, Vladimir Vdovitchenkov, Elena Lyadova e Roman Madyanov. ☻☻☻

10+ As Fantasias Segundo Johny Depp

10 O Cientista Maluco 
Transcendence (2014)
O fracasso do filme colabora para a fantasia ficar em último lugar!

09 O Marchant
Mortdecai - A Arte da Trapaça (2015)
Em Johny até algo simples fica com cara de fantasia... 

08 A Periguete!
Antes do Anoitecer (2000)
Fantasia clássica para sair no Bloco das Piranhas!

07 O Serial Killer
Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007)
Reutilizável na festa de Halloween!

06 Willy Wonka
A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005)
Os Oompa Loompas vão de brinde!

05 O Lobo Mau
Caminhos da Floresta (2014)
Um personagem clássico tem sempre o seu valor!

04 Pirata
Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra (2003)
Quando a fantasia ficou batida, Depp reconceituou o modelito!

03 O Vampiro
Sombras da Noite (2012)
Filme mediano. Fantasia cool!

02 O Chapeleiro Maluco
Alice no País das Maravilhas (2010)
Você pode dizer que é um ET que todos acreditam!

01 Edward
Edward Mãos de Tesoura (1990)
Releitura infanto-juvenil de Frankenstein!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

PL►Y: Minha vida Dava um filme

Wiig e Cris: história sem química. 

Acho sempre interessante quando um comediante quer mostrar que é bom de drama. No último ano houve gente que elogiasse Adam Sandler em Homens, Mulheres e Filhos só porque ele faz um personagem que não é idiotizado - enquanto Steve Carrell é indicados aos maiores prêmios do cinema por construir um personagem muito estranho em Foxcatcher. Na ala feminina não consigo lembrar de nenhuma comediante que tenha se empenhado tanto em ter seus dotes dramáticos reconhecidos como Kristen Wiig. Depois do sucesso no programa Saturday Night Live em 2009, a atriz foi consagrada por sua atuação e pela escrita do roteiro indicado ao Oscar da comédia rasgada Missão Madrinha de Casamento (2011). De lá para cá, a atriz deixou claro que não faria a continuação do filme e embarcou em projetos que lhe garantissem atuações mais intimistas. Foi a esposa de um casamento deteriorado em Solteiros com Filhos (2011) e apareceu recentemente nos cinemas como a contida personagem de Amores Inversos (2013) e a irmã gêmea perdida de Irmãos Desastre (2014). Tirando pequenas participações em comédia, Wiig quer mesmo ser reconhecida como atriz e não como humorista. Em Minha Vida Dava um Filme (2012), seu primeiro longa depois que tornou-se estrela de Hollywood, ela já deixava claro que tomaria gosto por viver, digamos, personagens "sem graça". Aqui ela é Imogene, uma menina arrogante que cresce e se torna uma aspirante a escritora igualmente arrogante, mal sabe ela que uma maré de azar irá fazê-la rever alguns conceitos, especialmente depois que o noivo pomposo por fim ao relacionamento. Frustrada com o naufrágio amoroso e por nunca ter escrito a grande obra dramatúrgica que esperavam dela, Imogene tenta o suicídio, mas até nisso ela fracassa, tendo que viver uns tempos com a mãe até se estabilizar emocionalmente. Basta dizer que Imogene preferia cortar os pulsos a viver com a mãe espalhafatosa (vivida por Annette Bening com sua desenvoltura habitual) num subúrbio longe de Nova York. Some a personagem a uma casa habitada por um irmão que parece viver em outro mundo (Christopher Fitzgerald), o namorado da mãe que diz ser agente da CIA (Matt Dillon) e um inquilino que vive no quarto alugado que era dela (Darren Criss) e você terá apenas uma leve dimensão de como a protagonista sente-se o fracasso em pessoa (nem vou dizer que a melhor amiga dela está prestes a lançar o primeiro livro da carreira). O problema maior do filme é que ele faz tudo para ser engraçadinho, mas produz apenas sorrisos amarelos. O casal de diretores Shari Springer Berman e Robert Pulcini não demonstram nem de longe a habilidade apresentada em O Anti-Herói Americano (2002) ou em Cinema Verite (2011), deixando tudo correr meio frouxo. O filme não empolga e as excentricidades dos personagens tentam dar graça a uma historinha bem desenxabida, já que Imogene parece um tanto alheia a tudo até que aprenda uma "grande lição para toda a vida".  Wiig se esforça, mas sua personagem é chata demais para cair nas graças da plateia - e para piorar ela não tem química alguma com Darren Criss, que pelas voltas do roteiro tem um namoro com a protagonista. A vida de Imogene pode até dar um filme, mas isso não quer dizer que ele seja necessariamente interessante. 

Minha Vida Dava um Filme (Girl most Likely/EUA-2012) de Shari Springer Berman e Robert Pulcini com Kristen Wiig, Annette Bening, Matt Dillon, Darren Criss e Christopher Fitzgerald. ☻☻

NªTV: The Strain

Stoll e uma das vítimas: epidemia vampírica. 

Acompanho os trabalho de Guillermo Del Toro desde os anos 1990 e senti uma grande decepção quando assisti a seu último filme, Círculo de Fogo (2013), afinal, tirando os efeitos especiais espetaculares havia pouca coisa naquela mistura de Transformers com Godzilla. Dei um desconto ao cineasta por ser um projeto que ele iria apenas produzir, mas acabou dirigindo depois que engavetou por tempo indeterminado sua adaptação de Nas Montanhas da Loucura de H.P. Lovecraft (produção que seria de outro nível...). Sorte que Guillermo redimiu-se rapidamente com a ótima série The Strain que é exibida pelo canal FX desde o dia 20 de janeiro. A história parte de um ponto misterioso: com um avião que pousa com a maioria dos seus passageiros mortos e outros que aos poucos despertam aparentemente normais, apesar da pele pálida e do comportamento estranho. Aparentemente, todos foram afetados por alguma doença que o Dr. Ephrain Goodweather (o ótimo Corey Stoll), chefe do Centro de Controle de Doenças terá que descobrir qual é com a ajuda da Drª. Nora Martinez (Mia Maestro). A partir dessa premissa, Guillermo cria uma atmosfera arrepiante, que indica que trata-se de uma epidemia vampírica prestes a se espalhar por Nova York, no entanto, não se trata daqueles vampiros domesticados que viraram moda com Crepúsculo, mas de criaturas da noite sanguinárias que se tornam ameaça para quem está por perto. Os sobreviventes do voo, aos poucos, irão vivenciar transformações tão profundas que nem eles irão reconhecer os instintos que passam a ter. Com a atmosfera precisa e revelações que prendem a atenção, a primeira temporada conta com 14 episódios que prometem gerar fãs fieis. Para quem curte a habilidade de Guillermo Del Toro em criar universos de fantasia sombrios, torna-se um programa irresistível - ainda que ele tenha apenas dirigido o primeiro episódio, sua marca está presente a cada passo da trama. Além de Stoll e Maestro, o elenco ainda conta com John Hurt na pele de um sobrevivente do Holocausto que é o único a perceber o que está acontecendo na cidade, além de Sean Astin como um aliado dos protagonistas. Baseado na série literária Trilogia da Escuridão escrita por Del Toro e Chuck Hogan, The Strain é mais uma série que demonstra que obras de terror estão em alta na TV - com a vantagem de ter episódios que parecem filmes primorosos do gênero. 

The Strain (EUA-2014/2015) de Guillermo Del Toro com Corey Stoll, Mia Maestro, Sean Astin, John Hurt e Johnatan Hyde. ☻☻☻☻

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

PL►Y: Príncipes da Estrada

Emile e Rudd: a solidão de todos os dias. 

Apesar dos trabalhos no cinema independente, o cineasta David Gordon Green ganhou fama quando dirigiu as comediotas Segurando as Pontas (2008), Sua Alteza? (2011) e O Babá(ca) (2011). Curioso que quando retomou os dramas de pequeno orçamento, causou grande estranhamento quando recebeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Berlim em 2013 com Príncipes da Estrada. O filme é uma refilmagem de um pouco conhecido longa dinamarquês e ganhou destaque pela atuação do comediante Paul Rudd em um papel sério. Rudd  é Alvin, um homem que ao lado do jovem cunhado Lance (Emile Hirsch) sinaliza estradas que atravessam locais desolados muito distantes da cidade onde vivem. O ano é o de 1981, após a devastação que um misterioso incêndio causou na região. Os dois pintam as faixas divisórias, colocam placas e outros recursos para ajeitar o tráfego quase inexistente por aquelas bandas. Distantes de suas respectivas namoradas e parentes, os dois vivem momentos bastante intimistas. Os dois personagens ficam juntos em cena durante a maior parte do tempo. Conversam amenidades, inseguranças com relação ao sexo oposto e mostram ser bem menos rústicos do que imaginamos no momento inicial. Enquanto Alvin mostra-se regrado e responsável, Lance parece um tanto perdido, não apenas no trabalho como em sua vida emocional. Pouca coisa acontece em cena além dos personagens revelarem aos poucos um pouco de seus temores, mas vale ressaltar como a devastação do ambiente em que estão funciona como  um pouco do retrato das vidas solitárias que vemos na tela. Tirando algumas pequenas participações, o filme se sustenta pela melancolia de Lance, que sente o quanto a distância prejudica seu relacionamento com a mulher que ama. Ainda que simpático em sua execução minimalista, o prêmio do diretor em Berlim foi sem vida um exagero para o cineasta. Ainda que os atores estejam bem em cena e  existam momentos que parecem improvisados, Príncipes da Estrada não tem fôlego para tanto. Consegue ter algumas cenas engraçadinhas, outras tocantes, mas o filme está longe de ser memorável e sempre deixa a impressão que funcionaria melhor se fosse um curta metragem. Se é para destacar algo, destaco a atuação de Rudd que está bastante convincente em um papel mais dramático que o habitual. Porém, o prêmio serviu para Gordon Green colocar sua carreira sob nova perspectiva, já que desde então tirou a melhor atuação em anos de Nicolas Cage no ainda inédito por aqui Joe e aguarda o lançamento de Manglehorn estrelado por Al Pacino e Holly Hunter com vista às premiações ao final de 2015. 

Príncipes da Estrada (Prince Avalanche/EUA-2013) de David Gordon Green com Paul Rudd e Emile Hirsch. ☻☻

domingo, 8 de fevereiro de 2015

INDICADOS AO OSCAR 2015: Melhor Ator

 MICHAEL KEATON (Birdman)
Ele andava sumido faz tempo, parecia estar aguardando que alguém lembrasse dele. Pois o ator responsável por viver o Batman  na década de 1990 voltou em grande estilo - e sua trajetória pessoal faz parte do encanto para o sucesso do filme de Alejandro Gonzalez Iñárritu. Keaton tem sua primeira indicação ao Oscar na pele do ator que busca o talento reconhecido com uma peça em que aposta suas últimas fichas de prestígio. Keaton está excepcional. Com ele em cena você nunca sabe se ele é um ator querendo ser reconhecido, ou se é um homem com super poderes que recusa-se a ser herói. Simplesmente genial. 

  EDDIE REDMAYNE (A Teoria de Tudo)
Aos 33 anos, a atuação de Redmayne ganhou força aos poucos na temporada de prêmios - desbancando os até então favoritos à categoria. Eddie vive o famoso cientista Stephen Hawking, que teve que aprender a lidar com uma rara doença degenerativa enquanto começava sua carreira acadêmica e o relacionamento com sua namorada, Jane. A tarefa do ator foi das mais difíceis ao viver cada passo da evolução da doença no organismo. É a primeira indicação ao Oscar de um ator que eu conheci (e detestei) em Pecados Inocentes (2007), mas que redimiu-se em Sete Dias com Marilyn (2011) e Os Miseráveis (2012). 

 BENEDICT CUMBERBATCH (O Jogo da Imitação)

Muita gente considerava que seria uma barbada para Cumberbatch a categoria de melhor ator, mas conforme os filmes foram estreando, perceberam que era a temporada mais acirrada da categoria em anos. Na pele do matemático Allan Turing, que durante a Segunda Guerra Mundial, teve a árdua tarefa de decifrar a máquina Enigma utilizada pelos nazistas (além de esconder a homossexualidade numa época que era considerado crime),  Benedict está excelente! Ainda que não leve a estatueta para casa, novas oportunidades devem aparecer em breve. É a primeira indicação do ator inglês, que já participou de vários filmes que caíram na mira do Oscar como Desejo e Reparação (2007) e 12 Anos de Escravidão (2013)! 

STEVE CARRELL (Foxcatcher)

Quem diria que o personagem mais esquisito no páreo seria vivido pelo comediante Steve Carrell? Depois de ser elogiado em Cannes e indicado ao Globo de Ouro, Carrell recuperou o fôlego no final da temporada como o excêntrico milionário, amante de luta-livre, Jon DuPont. Seria maldade diminuir sua atuação à maquiagem utilizada, já que o trabalho vocal e de corpo do ator impressiona por sua contenção. Desde a primeira cena percebemos que existe algo fora do lugar no mundo do personagem - e a história real contada no filme só retrata bem isso. Famoso por comédias como O Virgem de 40 Anos (2005), Uma Noite Fora de Série (2010) e Amor à Toda Prova (2011), o ator conseguiu sua primeira indicação ao Oscar por um papel bem diferente. 

BRADLEY COOPER (Sniper Americano)
O único no páreo já indicado anteriormente é Cooper. Ele interpreta o atirador do exército americano Chris Kyle, responsável por mais de uma centena de execuções. O filme é baseado nas memórias do personagem, seus dilemas, seu relacionamento com a família e sua tentativa de conciliar a tensão da guerra com a vida domiciliar. Cooper foi indicado ao prêmio anteriormente por suas cômicas atuações em O Lado Bom da Vida (2012) e Trapaça (2013), mas aqui apresenta seu personagem mais dramático, sendo um caso raro de ator indicado três anos seguidos pela Academia (ou seja, se sua primeira indicação gerou estranhamento, agora isso é passado). 

O ESQUECIDO: JAKE GYLLENHAAL (O Abutre)

Houve um tempo em que Jake era uma séria ameaça aos atores que quisessem ser indicados ao Oscar 2015 por sua atuação como o cameraman freelancer caçador de desgraças noturnas que alimentam um jornal sensacionalista. O ator foi indicado ao Globo de Ouro e suas chances pareciam concretas junto à Academia... mas ele ficou de fora dos indicados. A explicação talvez esteja no mórbido emagrecimento para viver o personagem Lou Bloom (ele perdeu 13 quilos). Depois de Matthew McConaughey e Jared Leto esqueléticos na cerimonia do ano passado por Clube de Compras Dallas, a cota de tranformações físicas do ano ficou com Steve Carrell e só (né Jennifer Aniston?). Jake já foi indicado ao Oscar de coadjuvante  por Brokeback Mountain (2005) - e com seu gosto atual por personagens estranhos deverá ser indicado nos próximos anos.