segunda-feira, 15 de abril de 2013

DVD: Os Infratores

Os Bondurant reunidos: bom uísque produzido no fundo do quintal. 

John Hillcoat prova cada vez mais que é um ótimo diretor, no entanto, ainda encontra dificuldade para encontrar o seu público. Se A Estrada (2009) foi vítima das próprias expectativas geradas, com Os Infratores não foi diferente. Se no primeiro o diretor se contentava em centrar sua narrativa em dois personagens (defendidos com maestria por Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee), aqui ele lida com quase uma dezena de personagens sem muita dificuldade. Reserva destaque para Tom Hardy e Shia Labeouf, mas sabe por que vale a pena ter Jessica Chastain, Gary Oldman e Mia Wasikowska por perto. O cinema de Hillcoat não deve ter encontrado o seu público ainda pela atração que o diretor tem por universos onde a lei não serve para muita coisa, as instituições são falidas e resta a tentativa de se guiar no caos onde mocinhos e bandidos tem suas linhas divisórias borradas. O gosto cinéfilo do diretor ainda fica mais evidente quando lida com a violência de uma forma livremente inspirada em faroestes clássicos. Embora seja ambientado durante a lei seca nos EUA na década de 1920, em vários momentos me senti diante de um legítimo bang bang. O filme é baseado em uma história real e conta a história dos irmãos Bondurant. Jack (Shia LaBeouf, se esforçando num papel sério) é o caçula da família, menos troglodita que seus irmãos, ele vive se dando mal (e a cena de abertura onde hesita em matar um porco com um tiro mostra bastante de sua personalidade). As coisas pioram bastante quando  quando chega à cidade um agente cheio de pose (Guy Pearce, mais afetado do que em Priscila, A Rainha do Deserto) que pretende fazer valer a famigerada lei seca quando os Bondurant se recusam a compartilhar os lucros com as autoridades locais. Vale lembrar que esse período fez a glória dos gangsters que contrabandeavam bebidas destiladas de produtores clandestinos que driblavam as leis para ganhar a vida. Mais do que um herói juvenil, Jack reflete muito da atração que o cinema tem pelo gangster, seu estilo bem alinhado, os carros velozes, a pose de encrenqueiro - embora nutrindo um amor puro pela filha do pastor da região (Mia Wasikowska). Embora Jack receba bastante atenção, quem chefia o clã Bondurant é Forrest (Tom Hardy), que fala pouco e gosta de incrementar os boatos de que é invencível (o que só aumenta a raiva do tal agente por sua família), ainda que sofra todo tipo de golpe mortal de seus rivais. Hardy já provou várias vezes que é capaz de mostrar que os brutos também tem coração, mas não lembro dele ter uma química tão boa entre um troglodita e uma dama como vemos em seu personagem ao lado da personagem de Jessica Chastain. Na trama sobrou pouco espaço para Howard Bondurant (Jason Clarke), que fica restrito a alguns momentos de surto durante o filme. Muita gente deve se incomodar com a violência impressa por Hillcoat na trama, especialmente pelos requintes com que são mostradas. De homens castrados passando por pescoços quebrados (ou cortados), o filme é um verdadeiro desafio ao estômago do público. No entanto, vale a pena desviar o olhar quando o diretor exagerar e acompanhar a força da narrativa impressa por ele e por seu elenco (destaque ainda para Dane DeHaan, que me lembra cada vez mais o jovem DiCaprio). O mais interessante e que com todo o cuidado estético da produção o que mais me chamou a atenção foi o nome do roqueiro Nick Cave como responsável pela adaptação do livro de Matt Bondurant (neto de Jack), em alguns momentos eu parecia estar ouvindo algumas de suas músicas enquanto via e ouvia as cenas. 

Os Infratores (Lawless/EUA-2012) de John Hillcoat com Shia LaBeouf, Tom Hardy, Guy Pearce, Dane DeHaan, Jason Clarke, Jessica Chastain e Mia Wasikowska. ☻☻☻

MTV MOVIE AWARDS 2013

Whedon, Capitão América, Nick e Loki: super-heróis premiados. 

A MTV está cada vez mais no meu seleto grupo de vergonha alheia. Ontem foi a entrega do MTV Movie Awards 2013 e o que era para ser mais uma edição do que já foi um dos prêmios mais descolados do cinema causou apenas bocejos. O caminho da bobagem mais rasteira e gratuita até que tentava ser disfarçado com uma piada ou outra da sempre-a-mesma-coisa Rebel Wilson, mas aqueles comentários da MTV brasileira são imperdoáveis e ainda reclamam do José Wilker e do Rubens Ewald Filho! Será que dá tanto trabalho mandar calarem a boca da próxima vez? Pelo menos a vitória de Os Vingadores e a presença de nomes que apareceram em outras premiações como Jennifer Lawrence (que ganha pela segunda vez consecutiva),  Bradley Cooper, Javier Barden e Ben Affleck ao lado de promessas como Ezra Miller, Suraj Sharma e Tom Hiddleston compensam baboseiras sem noção como "Melhor Performance sem Camisa". O engraçado é que Crepúsculo ficou de fora de quase todas as categorias depois de esmagar a concorrência por um bom tempo. Enfim, ainda há esperança na premiação. A seguir todos os indicados e o nome dos premiados em destaque. 

FILME DO ANO
Django Livre
O Lado Bom da Vida
Ted
Os Vingadores
Batman – O Cavalheiro das Trevas Ressurge

MELHOR ATRIZ
Anne Hathaway, Les Miserables
Mila Kunis, Ted
Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Emma Watson, As Vantagens de Ser Invisível
Rebel Wilson, Pitch Perfect

MELHOR ATOR
Ben Affleck, Argo
Bradley Cooper, O Lado Bom da Vida
Daniel Day-Lewis, Lincoln
Jamie Foxx, Django Livre
Channing Tatum, Magic Mike

REVELAÇÃO
Ezra Miller, As Vantagens de Ser Invisível
Eddie Redmayne, Les Miserables
Suraj Sharma, As Aventuras de Pi
Quvenzhané Wallis, Indomável Sonhadora
Rebel Wilson, A Escolha Perfeita

MELHOR PERFORMANCE ASSUSTADA
Jessica Chastain, A Hora Mais Escura
Alexandra Daddario, Texas Chainsaw 3D
Martin Freeman, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Jennifer Lawrence, A Casa do Final da Rua
Suraj Sharma, As Aventuras de Pi

MELHOR DUPLA
Leonardo DiCaprio & Samuel L. Jackson, Django Livre
Bradley Cooper & Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Mark Wahlberg & Seth MacFarlane, Ted
Robert Downey Jr. & Mark Ruffalo, Os Vingadores
Will Ferrell & Zach Galifianakis, Os Candidatos

MELHOR PERFORMANCE SEM CAMISA
Christian Bale, Batman: O Cavalheiro das Trevas Ressurge
Daniel Craig, Skyfall
Taylor Lautner, A Saga Crepúsculo: Amanhecer Parte 2
Seth MacFarlane as Ted, Ted
Channing Tatum, Magic Mike

MELHOR LUTA
Jamie Foxx vs. Candieland Henchmen, Django Livre
Daniel Craig vs. Ola Rapace, Skyfall
Mark Wahlberg vs. Seth MacFarlane as Ted, Ted
Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson and Jeremy Renner vs. Tom Hiddleston, Os Vingadores
Christian Bale vs. Tom Hardy, Batman – O Cavalheiro das Trevas Ressurge

MELHOR BEIJO
Kerry Washington and Jamie Foxx, Django Livre
Kara Hayward and Jared Gilman, Moonrise Kingdom
Jennifer Lawrence and Bradley Cooper, O Lado Bom da Vida
Mila Kunis and Mark Wahlberg, Ted
Emma Watson and Logan Lerman, As Vantagens de Ser Invisível

MELHOR MOMENTO WTF (OU 'QUE #$%*@ É ESSA')
Jamie Foxx and Samuel L. Jackson, “Candieland Gets Smoked” em Django Livre
Denzel Washington, “Final Descent” em O Vôo 
Anna Camp, “Hack-Appella” em A Escolha Perfeita
Javier Bardem, “Oops… There Goes His Face” em Skyfall
Seth MacFarlane as Ted, “Ted Gets Saucy” em Ted

MELHOR VILÃO
Javier Bardem, Skyfall
Leonardo DiCaprio, Django Livre
Marion Cotillard, Batman – O Cavalheiro das Trevas Ressurge
Tom Hardy, Batman – O Cavalheiro das Trevas Ressurge
Tom Hiddleston, Os Vingadores

MELHOR MOMENTO MUSICAL
Anne Hathaway, Les Miserables
Channing Tatum, Matt Bomer, Joe Manganiello, Kevin Nash and Adam Rodriguez, Magic Mike
Anna Kendrick, Rebel Wilson, Anna Camp, Brittany Snow, Alexis Knapp, Ester Dean and Hana Mae Lee, A Escolha Perfeita
Bradley Cooper and Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Emma Watson, Logan Lerman and Ezra Miller, As Vantagens de Ser Invisível

domingo, 14 de abril de 2013

DVD: O Segredo da Cabana

Três amigos: Big Brother melhor que o original?

Acreditam que eu demorei muito tempo para reconhecer Chris Hemsworth neste filme? Estou tão acostumado a vê-lo como Thor (você não faz ideia de quantas vezes meu pai já viu o filme do super-herói da Marvel) que não o reconheci sem a cabeleira e a barba (e convenhamos que o visual não era tão diferente em Branca de Neve e o Caçador). Some isso ao fato dele estar mais "adolescente" neste filme e acho que Odin vai até me perdoar! O Segredo da Cabana começou a chamar minha atenção quando me deparei com seu pôster que entrou na minha lista de favoritos do ano passado. Depois li algumas resenhas bastante favoráveis ao jeito como o filme busca surpreender o público com reviravoltas malucamente coerentes. A cereja do bolo foi quando a Associação de Críticos Americanos indicou o filme como um dos melhores filmes de ficção-científica e terror do ano passado. De fato, o filme consegue surpreender, ainda que com aquele clima de brincadeira que fez a graça de Scream no final do século XX. No início temos aquela sensação de que tudo será uma grande farsa e as atuações (propositalmente?) artificiais do elenco fazem tudo parecer meio trash (inclusive os letreiros que surgem quando o longa ainda  parece um filme sério de ficção científica). A premissa é bastante simples: um grupo de cinco amigos vão passar uns dias numa cabana no meio do mato enquanto temos a impressão que serão cobaias de um experimento. No início parece um programa de televisão com câmeras escondidas e estímulos variados para que se comportem conforme um grupo de jaleco misterioso esperam. Enquanto a plateia tenta entender o que está acontecendo o filme começa a ser invadido por zumbis e... se contar mais estraga! O Segredo da Cabana faz uma homenagem a vários filmes de terror e o faz com bastante graça, construindo um universo onde tudo se mistura: sacrifícios, virgens destemidas, monstros variados a espera de suas vítimas, clichês, deuses e o escambau! O incrível é os três atos do filme são desenvolvidos com uma coerência imaginativa rara neste tipo de produção. Existem tantos argumentos no liquidificador do roteiro que não dá para ficar indiferente ao banho de sangue promovido na hora da vingança - onde o feitiço vira contra o feiticeiro. Trata-se de um momento tão espetacular que está a léguas de distância de quase tudo o que foi produzido no gênero no ano passado. O segredo para esse tom certo de aventura, sci-fi e horror vem das referências que poucas pessoas saberiam manipular tão bem quanto o produtor e roteirista Joss Whedon (diretor de Os Vingadores) que encontrou no estreante Drew Goddard (Jean Luc deve estar com urticária) a habilidade compatível com a velocidade de sua mente delirante. O Segredo da Cabana, com seu humor obscuro, jorros hemorrágicos e tom profano consegue oferecer aos fãs do terror (e aqueles que nem curtem muito o gênero), noventa e cinco minutos de um engenhoso quebra-cabeça de imagens que traz bastante ironia sobre o público de um dos gêneros mais marginalizados da história do cinema. 

O Segredo da Cabana (Cabin in the Woods/EUA-2012) de Drew Goddard com Chris Hemsworth, Kristen Connolly, Anna Hutchinson, Fran Franz, Richard Jenkins e Jesse Williams. ☻☻☻

DVD: Livro de Escotismo para Meninos

Turgoose: do amor platônico à tortura. 

Livro de Escotismo para Meninos é um filme pequeno, modesto e por isso mesmo surpreendente.  Mas vale ressaltar, que no meio do caminho, ele fica longe de ser movido pela nobreza que esperamos de um guia para escoteiros.  Acho notável a habilidade do diretor Tom Harper (neste que é seu primeiro e único trabalho no cinema como diretor até agora) de mudar o clima da narrativa quando ele alcança aquele ponto cômodo em que a plateia pensa que está diante de mais um romance juvenil de veraneio. Desde o início o cenário já soa diferente, já que somos apresentados a uma geografia diferente do Reino Unido. Um ambiente praiano, cheio de sol, mar, piscinas, veranistas e moradores que vivem em trailers. É saltando pelos trailers que conhecemos David (Thomas Turgoose) e sua melhor amiga, Emily (Holliday Grainger). Não precisa mais do que a cumplicidade existente entre a dupla para perceber que existe um amor platônico ali, assim como, pouco depois, somos apresentados a um possível obstáculo: Steve (Rafe Spall que é um dos queridinhos ingleses da atualidade, anda em tudo quanto é filme). Steve é o típico cara mais velho que aparece para atrapalhar. Tem moto, topete e sorriso largo, além de todo o estilo que deixa as mães com a pulga atrás da orelha. Enquanto David e Emily seguem o manual da inconsequência juvenil nesse tipo de produção, o filme fica parecendo uma penca de outros filmes que você já assistiu. É quando a menina recebe o recado que terá que morar com o pai que as coisas complicam. Ela some sem deixar vestígio na cidade - e o desespero de sua mãe (Susan Lynch que parece se inspirar em Amy Winehouse) é menos comovente do que as aparições desnorteadas de David pedindo à população que encontrem sua amiga. Percebermos que tudo é uma farsa e que a garota se esconde por conta de alguns segredos que prefere que ninguém saiba. Neste momento a atmosfera de filme juvenil vai para o espaço e começa a utilizar ingredientes mais próximos do  suspense. Nisso, o que poderia ser uma libertadora declaração de amor se torna cada vez mais o combustível para uma espécie de obsessão, onde o poder de ter o controle sobre alguém é mais forte do que qualquer coisa. David acaba se tornando um paradoxo ambulante, enquanto todos o reconhecem como o pobre garoto preocupado com sua amiga ele se torna numa espécie de aprendiz de vilão. David torna-se capaz de prejudicar pessoas que confiam nele para que as coisas saiam do jeito que ele quer, pena que tudo sai do controle. Há de se ressaltar o talento de Thomas Turgoose de equilibrar inocência  e apatia nos momentos mais complicados de seu personagem. Sua interpretação é o que nos faz oscilar do início alegre até o momento em que a atmosfera ensolarada cede lugar a uma história triste sobre o poder de destruir a quem amamos quando simplesmente não deixamos que faça suas próprias escolhas.  O filme me pareceu uma versão adolescente de O Colecionador (celebrada obra de John Fowles que virou filme em 1965 com Terence Stamp no elenco), mas em seu desfecho arrasador, sabemos que uma parte do jovem David ficou pelo caminho, talvez sua melhor parte, a mais terna, promissora e feliz. 

 Livro de Escotismo para Meninos (The Scouting Book for Boys/Reino Unido-2009) de Tom Harper com Thomas Turgoose, Holliday Grainger, Rafe Spall e Susan Lynch. ☻☻☻

quinta-feira, 11 de abril de 2013

DVD: Cinco Anos de Noivado

Emily e Jason: entre sonhos e casório adiado. 

Aos poucos Jason Segel prova que não quer só o reconhecimento como comediante. Depois de Jeff e as Armações do Destino (2011) ele escreveu para si o papel de quase galã neste Cinco Anos de Noivado. No filme, Jason é quase o parceiro ideal, ele pode não ser propriamente bonito (embora algumas amigas até o considerem pegável), mas tem aquele jeitão despojado e bem humorado que tem público fiel. No filme ele é o chef de cozinha Tom Solomon que namora com a psicóloga Violet (Emily Blunt em atuação bem mais leve que o costume). O pedido de casamento acontece logo no início e gera expectativa em todos os parentes e amigos, mas o matrimônio acaba adiado quando Violet consegue ingressar num curso de pós-doutorado numa Universidade em Michigan - e Tom a acompanha deixando a carreira para trás. Enquanto Violet consegue destaque em sua pesquisa em psicologia comportamental, Tom fica cada vez mais frustrado com as mudanças em sua vida (colabora para isso o fato do amigo desencanado vivido por Chris Pratt ter casado com a cunhada antes que ele e Violet chegarem primeiro ao altar). Trabalhando em uma lanchonete especialista em sanduíches, a vida de Tom não parece melhor nem quando resolve se distrair com o novo amigo que faz tricô nas horas vagas (sempre criando peças mal feitas) e a caça de cervos. Some a isso o flerte de Violet com um professor sabichão (Rhys Ifans) e você terá ideia dos problemas que o casal enfrenta durante o filme. Apesar de uma piada bobalhona aqui e e outra ali, o filme me surpreendeu pela forma como os acontecimentos são bem costurados. Gradativamente acompanhamos o relacionamento de Violet e Tom passar por todo tipo de provação até que comecem a considerar outro rumo para suas vidas. No fim das contas o filme consegue dar novos contornos para o gasto gênero das comédias românticas. Com assinatura de Judd Apatow na produção, o filme mantém sua rotina de saber equilibrar a personalidade de homens e mulheres, sem demonizar um ou outro, mas mostrando atribulações reais que um casal de verdade pode atravessar - apesar de todo o amor que um sente pelo outro. Os (acidentais) cinco anos de noivado são perpassados por óbitos de parentes e por encontros com Alex (Chris Pratt) e Suzie (Alison Brie da série Community) que sempre geram situações curiosas ao representarem a vida que Tom e Violet deveriam ter - além dos comentários sempre pessimistas da mãe de Violet (vivida pela australiana Jacki Weaver. Bem humorado e romântico o filme até arranja espaço para dar algumas alfinetadas no mundo da psicologia - e deixa o público satisfeito à espera de um final feliz para o casal que ganha nossa simpatia já nas primeiras cenas. 

Cinco Anos de Noivado (Five Years Engagement/EUA-2012) de Nicholas Stoller com Jason Segel, Emily Blunt, Rhys Ifans, Chris Pratt, Alison Brie e Jacki Weaver. ☻☻☻

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DVD: O Futuro

July e Hamish: doçura misturada com David Lynch. 

O que esperar de um filme que é narrado por um gatinho de voz sinistra? Com certeza, um punhado de situações inusitadas. Se a primeira parte de O Futuro até engana parecendo ser mais uma comédia romântica típica do cinema independente sobre frustrações e humor tristonho, a coisa muda de figura quando chega em sua metade e a narrativa investe no surreal e o tom se torna até sombrio. Acho que se David Lynch dirigisse uma comédia romântica, ela seria bastante parecida com esse segundo filme assinado pela cineasta Miranda July. Premiada em Cannes por sua estreia em 2005 com Eu, Você e Todos Nós, July volta a câmera para um casal que - ao julgar pela semelhança física - parecem ser almas gêmeas. Sophie e Jason parecem viver confortavelmente em seu pequeno universo domiciliar entre brincadeiras pessoais e ambições que parecem nunca se concretizar. Até o dia em que encontram um gato na rua (o tal que narra o filme) e decidem cuidar dele a vida de ambos parecia estar num ponto cômodo que nem precisava ser modificado. Levando o bichano ao veterinário, descobrem que ele ficará em observação por quase um mês devido à uma patinha quebrada. A data marcada para buscar o felino desperta no casal o sentimento de que o tempo passa aos poucos sem que se deem conta de que alguns de seus desejos ficaram para trás. Sophie (a própria diretora e roteirista do filme) percebe que poderia fazer mais sucesso postando vídeos de dança no Youtube do que se dedicando às aulas de um bando de crianças de pretensões dançantes. Enquanto isso, Jason (Hamish Linklater, o irmão impagável da série The Adventures of Old Christine em atuação contida) resolve fazer algo pelo mundo como sempre sonhou... ou quase, já que o máximo que consegue é participar de uma organização que vende árvores ao preço de dez dólares! O engraçado é que nem quando se rendem às suas ambições o casal parece gostar do que faz. É neste ponto que o relacionamento entra em crise. Embora sejam carinhosos um com o outro, a passividade de Sophie parece cessar somente para fazer esquisitices - e ela acaba se rendendo a um caso com um homem mais velho que vive solitário com a filha. O amante aceita sem questionar as excentricidades de Sophie e quando ela resolve contar o que está havendo para Jason o filme dá sua guinada rumo ao desconhecido. Se a brincadeira de parar o tempo ganha um pequeno espaço logo no início, ela se mostra um recurso inevitável para retratar o pavor das surpresas que só um "agora" pode causar, ao mesmo tempo, denota uma certa inércia de Jason diante dos acontecimentos. Enquanto a vida de Jason para, a de Sophia prossegue por caminhos não menos inusitados. Seja pela garota que deseja se enterrar no fundo do quintal ou por uma camiseta que ganha vida para assombrá-la. Embora O Futuro separe a trajetória de seus personagens (inclusive do gatinho que ao final é condenado à uma ausência constante pela total inabilidade dos seus novos donos de perceber a passagem do tempo), o final parece apontar para um retorno ao passado, ou seria ao presente que já é o futuro vivenciado? O Futuro é um olhar bastante pessoal de July sobre uma relação amorosa e, por isso mesmo, merece tanto estranhamento quanto atenção de quem busca um filme diferente para assistir. 

O Futuro (The Future/EUA-Alemanha/2011) de Miranda July com Miranda July, Hamish Linklater, David Warshofsky e Isabella Acres.
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terça-feira, 9 de abril de 2013

DVD: As Aventuras de Pi


Parker e Pi: filme bonito por dentro e por fora. 

Muita gente ficou surpresa quando viu Ang Lee ser eleito pelo Oscar o melhor diretor de 2012. Achavam que com Ben Affleck fora do páreo (ainda com toda a consagração de Argo) a vitória de Steven Spielberg seria certa. Eu já imaginava que a Academia não renderia a Spielberg uma terceira estatueta de diretor, mas não esperava que fosse consagrar, pela segunda vez, o cineasta taiwanês. Desde que levou para a casa a estatueta de diretor por Brokeback Mountain (2005) o diretor não caia no gosto da Academia e até do público. Depois de carregar no erotismo em Desejo e Perigo (2007) e fazer um retrato ingênuo do festival de rock mais famoso da história em Aconteceu em Woodstock (2009) já estava na hora de fazer um filme arrebatador como esta adaptação do premiado livro do canadense Yann Martel. Lançado em 2001, o livro teve sua própria cota de polêmicas - ao ponto de ser acusado de se tratar de plágio do livro "Max e os felinos" do brasileiro Moacir Scliar. Na obra de Scliar um jovem náufrago alemão se vê num bote ao lado de um jaguar. Na época do lançamento, Martel chegou a fazer declarações bastante deselegantes alegando que pegou uma ideia "que não foi aproveitada como deveria por um escritor ruim". No meio da confusão, Scliar resolveu se calar e Martel pediu desculpas fazendo agradecimentos à "semente" de Pi que foi plantada não pelo livro de Scliar, mas por uma resenha que lera sobre a obra. Alegando ser bastante diferente do livro brasileiro, Martel ficou bastante feliz com as onze indicações ao Oscar que o filme recebeu. Muitos dos méritos do filme se deve ao esforço hercúleo de Lee que conduziu um orçamente inchado de 240 milhões numa produção arriscada que envolvia cerca de três mil profissionais. Dá para perceber em que partes da leitura a produção começou a tomar forma na mente de seu diretor como um longa em 3D. Cenas como as do naufrágio, o momento em que céu e terra se fundem para um bote que parece navegar no infinito, o ataque dos peixes voadores, o salto da baleia e outros belíssimos momentos renderam cenas que impressionaram na telona, mas que mesmo em DVD não devem decepcionar. Ainda acho que o único problema é  o início que demora a engrenar ao introduzir a relação do jovem indiano Pi(scine) Patel com uma religiosidade híbrida. Ainda assim, a relação do personagem com Deus(es) é fundamental para o andamento da trama e serve de liga para os acontecimentos que se seguem quando o navio em que viaja com a família e os animais do zoológico naufraga. Depois de tirar o fôlego da plateia com a tragédia, Pi (o estreante Suraj Sharma) se vê num bote ao lado de uma zebra, uma hiena e um tigre de bengala conhecido como Richard Parker (!), mas logo um orangotango irá se juntar ao grupo. Aos poucos, Pi se verá sozinho com o ameaçador Tigre, que de uma maneira incomum irá colaborar para a sua sobrevivência. A forma como o tigre lhe inspira medo e solidariedade é um dos grandes trunfos do filme que flerta com a fantasia em alguns momentos sem desafinar na narrativa. Lee cria um espetáculo para os olhos, sem perder de vista as reflexões filosóficas que um homem solitário pode ter em seus confrontos com a natureza ao seu redor e em si mesmo. Não bastasse todas as qualidades da produção, o roteiro ainda reserva um desfecho surpreendente para a história que torna tudo ainda mais simbolicamente rico. Nem precisava tanto, as cenas em que Pi e Richard Parker vencendo suas diferenças na imensidão do oceano já são suficientemente arrebatadoras (com ou sem 3D).

As Aventuras de Pi (Life of Pi/USA-Taiwan/2012) de Ang Lee com Suraj Sharma, Irrfan Khan, Rafe Spall, Gérard Depardieu, Adil Russain e James Saito. ☻☻☻☻

sábado, 6 de abril de 2013

DVD: À Beira do Abismo

Banks e Worthington: surpresas, suspense e piadas. 

Sam Worthington é um desses atores que os críticos adoram odiar! Trata-se de um caso em que a mídia especializada pega um ator para Cristo e não adianta fazer nada! Nenhum gênero ou esforço é capaz de parar a implicância. Está certo que Sam está longe de ter os dotes interpretativos de um Michael Fassbender ou Wagner Moura, mas também não é essa coisa tão insuportável de assistí-lo como outros atores que tem por aí. Dá para perceber em seus filme que o homem se esforça, mas ele tem uma verdadeira pedra em seu currículo: Avatar (2009) de James Cameron. Parece até que existiam alguns tolinhos que achavam que o rapaz era um dos responsáveis pelo sucesso do filme repleto de efeitos especiais que renderam gorda bilheteria. No entanto, Worthington tem a confiança dos estúdios que sempre lhe convidam para um novo papel - lhe deram até uma franquia de sucesso (Fúria de Titãs que deve render uma terceira parte em breve). Seria maldade dizer que o brando suspense À Beira do Abismo só não se torna um filme melhor por conta de sua presença. O filme é um bom passatempo e, por isso mesmo, cumpre seu papel de forma satisfatória. A trama é cheia de reviravoltas que acabam cansando pelo meio do caminho, mas o elenco cheio de rostos conhecidos consegue prender a atenção enquanto o público tenta montar o quebra-cabeça sugerido pelo roteiro. Um homem misterioso (Worthington) ameaça se jogar do alto de um prédio de Nova York. O aparente suicida começa a despertar suspeitas de que todo o alarde é para esconder alguma coisa. O seu passado acaba deixando claro que tudo pode ser um golpe - e a questão que paira na mente da plateia é se ele é inocente ou culpado... do que? Melhor não revelar. O diretor Asger Leth poderia levar um pouco mais a sério sua história e evitar as piadinhas que vão retirando cada vez mais a credibilidade do que estamos assistindo. Nem me refiro ao alívio cômico promovido pelos personagens de Jamie Bell e Genesis Rodriguez, nem ao climão descaradamente chupado de Onze Homens e Um Segredo, mas todos os personagens não precisavam ficar provando que são bem humorados mesmo quando um homem está para se jogar de um prédio. A maior prejudicada acaba sendo Elizabeth Banks, que leva a sério o seu papel de psicóloga que tenta evitar a tragédia e se vê no meio de um dilema ético e profissional envolvendo a suspeita de corrupção entre seus colegas - o tom cômico da brincadeira acaba jogando toda a dramaticidade no brejo. O filme tem boas cenas de ação e suspense, mas poderia ser ainda melhor se caprichasse mais nos diálogos e não atirasse para todos os lados para agradar todo tipo de público. Da forma como foi feito nem parece que foi inspirado numa obra de Stephen King!!

À Beira do Abismo (Man on a Ledge/EUA-2012) de Asger Leth com Sam Worthington, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Ed Harris, Edward Burns, Genesis Rodriguez, Kyra Sedgwick e Anthony Mackie. ☻☻

KLÁSSIQO: Alice Não Mora Mais Aqui

Burstyn e Lutter: dupla mais que afinada. 

Atuando desde a década de 1950, Ellen Burstyn já foi indicada sete vezes ao Oscar, mas a única estatueta que tem na estante é por conta de sua parceria com o diretor Martin Scorsese neste Alice Não Mora Mais Aqui (1974) - vale lembrar que não são poucos que dizem que ela merecia outro por sua performance inesquecível em Réquiem Para um Sonho (2000), sua última indicação ao prêmio da Academia. Por conta de Réquiem, Ellen se tornou uma das minhas atrizes veteranas favoritas e tornou-se o principal motivo para que eu assistisse ao quarto filme do cineasta, o que lançou antes do ponto de virada com Taxi Driver. Não tem como não associar o início de ar fabuloso do longa com O Mágico de Oz, onde a fotografia avermelhada sobre uma paisagem rural é cortada pela voz de uma garota cantante até que a mãe lhe chame a atenção. Este é o passado de Alice (Burstyn), que em sua maturidade vive com um marido grosseirão e um filho que é uma verdadeira figura (cortesia de Alfred Lutter que largou a carreira promissora de ator ainda na década de 1970 e hoje ganha a vida como empresário no campo da informática). Devo confessar que estranhei bastante o tom cômico do filme, afinal, não estou acostumado a ver Scorsese dirigindo uma comédia (embora muitos de seus filmes tenham alta carga de humor negro). Alice parece bastante acomodada à sua vidinha comum quando torna-se viúva aos 35 anos, mas encara o fato como a oportunidade de um verdadeiro recomeço. Ela arruma suas coisas, coloca o filho dentro do carro e tem a ambição de retomar a carreira de cantora (que nunca decolou). É uma trama simples, mas escrita com grande desenvoltura por Robert Gretchell (indicado ao Oscar de roteiro original por sua estreia que é, também, seu melhor trabalho), o autor  tempera o que poderia ser um filme edificante com um humor bastante peculiar. Obviamente que não deixa de existir certa doçura quando Alice senta ao piano para convencer um dono de restaurante que sabe cantar ou quando engata um romance com um novinho Harvey Keitel (que mais tarde se mostra um desequilibrado de primeira), mas o filme gasta mais o tempo com os personagens curiosos que cruzam o caminho da protagonista - especialmente quando ela consegue emprego de garçonete numa das lanchonetes mais desorganizadas da história do cinema. Nesta parte o filme ainda ganha a participação mais do que especial de Diane Ladd (a mãe de Laura Dern) como uma colega de trabalho desbocada. O filme segue os passos de Alice, seus romances, seus conflitos e suas tentativas de encontrar um novo rumo para a vida quando as certezas parecem ter ficado somente no passado. Ellen tem uma atuação bastante humana, sem tornar a personagem uma pobre coitada ou numa heroína, ela chama a atenção por ser justamente uma personagem comum em situações comuns. Ainda que o filme tenha Keitel e Kris Kristofferson como par romântico da atriz, é o moleque que faz o precoce Tommy que se torna o maior destaque masculino do elenco (desde sua primeira cena em que aparece deitado no chão ao som de rock setentista, sabemos que teremos um personagem interessante para acompanhar)! Alfred Lutter tinha treze anos quando realizou as filmagens e alcançou uma atuação tão espirituosa que foi visto como um dos jovens mais promissores da década de 1970, foi indicado ao BAFTA pelo papel e  depois chegou a trabalhar com Woody Allen. Ele não é o único adolescente promissor do filme, no papel de Audrey, sua melhor amiga andrógina, está Jodie Foster em sua primeira experiência sob a batuta de Scorsese (dois anos antes de fazer a pequena prostituta de Táxi Driver). Assim como A Época da Inocência (1993), Kundun (1997) e o recente  A Invenção de Hugo Cabret (2011), Alice é um filme que mostra como o talento de seu diretor é multifacetado, já que na mão de outro o filme seria mais um filminho esquecível sobre a força feminina. 

Alice não Mora Mais Aqui (Alice Don't Live Here Anymore/EUA-1974) de Martin Scorsese com Ellen Burstyn, Alfred Lutter, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Jodie Foster e Diane Ladd. ☻☻☻