sábado, 17 de junho de 2017

CATÁLOGO: De Olhos Bem Fechados

Kidman e Cruise: pesadelo erótico. 

Stanley Kubrick dirigiu apenas 13 longa metragens. Para muitos ele é considerado um dos grandes gênios do cinema e criador de  obras que figuram entre as favoritas de muita gente. No entanto, quis o destino que ele se despedisse com um filme que não é favorito de ninguém. De Olhos Bem Fechados só foi exibido pela primeira vez depois que Kubrick já havia falecido em consequência de um ataque cardíaco. O filme era um dos mais aguardados de 1999, especialmente por conta do casal Tom Cruise e Nicole Kidman - que casados na época, deixavam propagar na mídia que protagonizariam cenas repletas de erotismo no filme. A polêmica em torno do filme só crescia quando o cineasta faleceu e Cruise aparecia como grande defensor de que nada fosse cortado ou acrescentado ao longa, para que fosse exibido exatamente da forma como Stanley concebeu. Ao ser exibido no Festival de Veneza a obra dividiu opiniões - alguns o consideraram um vexame outros uma obra sensorial e hipnótica. O maior sabor de decepção deve ter ficado por conta de quem esperava ver momentos de intimidade reveladoras entre o casal de atores, que apareciam em cenas de sutil erotismo sob a batuta do cineasta (que dizem ter até contratado uma ajuda técnica para que o casal perdesse a timidez diante das cenas mais picantes). De Olhos Bem Fechados é um filme sobre fantasias sexuais e, por isso mesmo, torna-se bastante complicado de ser realizado (se podar demais fica frio, se relaxar demais fica vulgar...). A própria história do livro que inspira o filme é interessante, já que La Ronde de Arthur Schnitzler  foi escrito em 1897 e impresso em poucas cópias (para alguns amigos) no ano de 1900, o livro oferecia um mergulho num mundo onde o sexo aparecia como um ato de transgressão sobre convenções sociais e relações de classe. O roteiro adaptou a história tendo como protagonista o doutor William Harford (Cruise), casado com Alice Harford (Kidman). Belos, casados, bem sucedidos e endinheirados os dois chamam atenção por onde passam e os assédios são recorrentes, mas basta William suspeitar que Alice poderia tê-lo traído que ele mergulha em situações que lhe pareciam surreais (e o clima remete a isso mesmo, meio confuso, abstrato, nebuloso...). Se no início ele encontra com um pai que lhe oferece a própria filha adolescente, a situação fica ainda mais tensa quando ele se depara com uma sociedade secreta que organiza orgias num casarão nas redondezas da cidade. Kubrick surpreende por investir num erotismo que compõe uma atmosfera estranha, do pianista que toca vendado todas as noites (participação do diretor Todd Field), dos corpos nus, das máscaras, dos rituais misteriosos e com a morte sempre à espreita... tudo faz com que o longa pareça mais um pesadelo do que um sonho erótico - e se essa for a intenção está explicado o motivo do roteiro não se preocupar em costurar as cenas com muito empenho. Seja como for, Kubrick surpreendeu ao oferecer aos seus fãs mais um filme completamente diferente do que havia realizado até então - e, mesmo com pouco tempo de tela, ofereceu à Nicole Kidman a chance de provar que poderia se tornar uma grande atriz. Hoje, Tom Cruise poderia mostrar o mesmo gosto por ousadias com diretores renomados ao invés de correr atrás de franquias milionárias que o desvalorizam cada vez mais. 

 De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut / Reino Unido - EUA/1999) de Stanley Kubrick com Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Todd Field, Vinessa Shaw, Leelee Sobieski e Thomas Gibson. ☻☻☻

quinta-feira, 15 de junho de 2017

PL►Y: Vida

Reynolds e Jake: um marciano do barulho. 

Dirigido pelo sueco Daniel Espinosa (eu explico, o pai dele é chileno e ele ainda não divulgou se é parente do outro Espinoza), Vida chamou atenção desde os seus primeiros trailers que revelava pouco sobre a história que tinha para contar. Bastou o filme estrear para os críticos torcerem o nariz para esta releitura de tudo que fez Alien/1979 um sucesso (que rende filmes até hoje). Se você acha que Ridley Scott complicou demais o universo de sua cria com Prometheus/2012 e Covenant/2017 você irá adorar este aqui. Vida (eu já perdia a conta de quantos filmes carregam este nome simplista) conta a história de um grupo de astronautas que durante uma missão descobrem vida em Marte. Eles coletam  amostras e observam a vida se desenvolver no laboratório, mas... o que era uma simples larva começa a se desenvolver mais rápido do que eles esperavam. Assim, Calvin - o nome dado à amostra - começa a fugir do controle dos seus novos amigos curiosos. Espinosa não tem pudores em revelar em várias cenas que sua maior inspiração é mesmo no antológico filme de 1979, sendo que a maior está no visual que que parece mais próximo do que vimos em Gravidade/2013 de Alfonso Cuarón. A primeira parte do filme funciona bem, conseguindo equilíbrio entre alegria e estranhamento dos envolvidos, mas depois que as coisas começam a complicar, tudo se resume do velho jogo de quem será o próximo a morrer. Embora tenha Jake Gyllenhaal e Ryan Reynolds no elenco, ninguém tem tem muito o que fazer em cena - e nenhum deles chega a ter um momento memorável (afinal, todos tem o mesmo destino: virar comida de monstro). Algumas mortes são elaboradas, mas o filme tinha potencial para virar algo muito mais interessante sobre a descoberta da vida no Planeta Vermelho. O segundo ato se arrasta bastante até chegar no ato final, onde ele consegue criar uma tensão realmente genuína (mesmo que os mais espertos já saibam qual será a revelação final).  Vida pode até decepcionar, mas quem curte filmes de terror espaciais acharão tudo bem divertido. 

Vida (Life/EUA-2017) de Daniel Espinosa com Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson, Hiroyuki Sanada e Ariyon Bakare. ☻☻

BREVE: A Última Família

A família Beksinski: filme simpático com desfecho assustador. 

Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no ano passado e aclamado em vários Festivais (sobretudo europeus), A Última Família poderia ser um olhar interessante sobre o passar do tempo em uma família comum, mas se trata da biografia do artista plástico polonês Zdzslaw Beksinski. O roteiro de Robert Bolesto e a direção de Jan P. Matuszynski ousam na proposta de acompanhar 28 anos da vida de Beksinski ao lado de sua família e o resultado consegue ser bastante interessante ao  mostrar o protagonista como um sujeito que poderia ser até o seu vizinho. Do relacionamento com a esposa compreensiva, passando pelo relacionamento cansativo com o filho problemático e as mães idosas do casal (que moraram com eles por algum tempo) o filme capta com maestria este cotidiano que oscilava entre a tranquilidade e o conturbado. Por mais que Zdslaw (o ótimo Andrzej Seweryn que em vários momentos parece o velhinho de Up-Altas Aventuras/2009) e a esposa, Zofia (Aleksandra Konieczna) tentassem fazer o filho sentir-se bem, a instabilidade emocional de Tomasz (Dawid Ogrodnik) sempre está presente. O rapaz tenta morar sozinho, pensa em suicídio algumas vezes, tem relacionamentos amorosos que nunca avançam, trabalha como crítico musical, DJ, tradutor... mas sempre arranja tempo para deixar seus pais preocupados. A ênfase no relacionamento com o filho único é um aspecto interessante do filme sobre um artista que ficou conhecido por misturar vários estilos em sua carreira - chegando a criar algumas imagens perturbadoras, repletas de surrealismo e horror. O filme resiste à tentação de correlacionar o que acontecia em sua vida com as pinturas que realizava, mas, por isso mesmo, fica ainda mais interessante já que se tem a impressão que aquele simpático velhinho guardava angústias que não era capaz de compartilhar com ninguém - nem mesmo com a esposa (este aspecto aparece logo na primeira cena quando ele relata em uma entrevista as suas fantasias com... Alicia Silverstone!). Matuszynski cria um filme que surpreende por flui naturalmente, contando com uma bela fotografia, ótimo trabalho de edição  e reconstituição de época (destaque para a trilha sonora). O cotidiano retratado no filme mistura drama e um irônico senso de  humor, o que pode agradar até o espectador que nunca ouviu falar do artista, no entanto, o desgosto com a cruel cena final é inevitável. Mesmo em se tratando de uma cena real eu sempre penso que Matuszynski poderia ter colocado o ponto final em seu filme de uma forma mais sutil (eu imaginava que ele terminaria com Zdslaw sentado com os parentes que se foram se aproximando dele e olhando diretamente para a câmera), mas não deixa de ser corajoso terminar o filme com uma cena que destoa de todo o resto - o que a deixa tão assustadora quanto alguns quadros do artista. 

A Última Família (Ostatnia Rodzina/Polônia-2016) de Jan P. Matuszynski com  Andrzej Seweryn, Aleksandra Konieczna, Dawid Ogrodnik e Andrzej Chyra. ☻☻☻☻

sábado, 10 de junho de 2017

Na tela: Mulher Maravilha

Maravilha: um filme para chamar de seu. 

Pode se dizer que diante do sucesso do universo cinematográfico da Marvel a DC Comics está um pouco, digamos, atrapalhada. Afinal, não se trata mais de lançar um filme de herói para arrecadar bilheterias milionárias ao redor do mundo, o fato é que existe uma pressão para que a DC siga o caminho de sua concorrente e faça o mesmo nas telonas: integrar seus heróis numa verdadeira saga (tal e qual existe nas HQs). A Warner, detentora dos direitos da DC nos cinemas, não tinha a intenção de fazer nada parecido - e disse isso para imprensa várias vezes antes do fenômeno Vingadores/ 2012 mudar as regras do jogo. Ao topar a empreitada foi reconfigurada a continuação de Homem de Aço/2013 como o primeiro exemplar desse universo unificado. Lamentavelmente Batman v. Superman (2016) sofreu tantas intervenções que gerou uma histeria assustadora, que piorou muito mais com a versão retalhada de Esquadrão Suicida (2016) que chegou nos cinemas. Quanto à bilheteria não havia do que reclamar (e Esquadrão ganhou até um Oscar, lembram?), mas de olho num público mais amplo, o sinal de alerta soou nas gravações da próxima aventura a estrear: Mulher-Maravilha. O fato é que para a além do tabu de ser um raro filme de super-heroína, trata-se também de um dos pilares da DC Comics.  Para além disso, para um público que adora alienígenas e naves espaciais, mexer com deuses e mitologia ainda soa como heresia, nem vou falar que ela tem um dos uniformes mais complicados de levar para um filme e, o que é essencial para a personagen, Mulher-Maravilha é o heroísmo em estado puro! Ela não nasce de um planeta destruído ou presenciou a morte dos pais na infância. Descendente da rainha das amazonas, esculpida do barro e recebendo o sopro de vida do próprio Zeus, ela nasce para zelar pela vida sem cinismos ou grandes conflitos (algo um tanto fora de moda para os tempos estranhos que vivemos). Diana foi treinada para ser uma guerreira e sente necessidade de conhecer o mundo para além de Themyscira (mais conhecida como a Ilha Paraíso, criada por Zeus especialmente para as guerreiras amazonas e onde homens não são bem vindos) quando sabe que o mundo está em perigo com a chegada acidental do Capitão Steve Trevor (Chris Pine).

Trevor e Diana: clima de comédia romântica. 

Dirigido por Patty Jenkins (que desde que arrancou a oscarizada atuação de Charlize Theron em Monster/2003 sonhava em dirigir o filme Wonder Woman) o filme surpreendeu nas bilheterias e colheu elogios por reviver um filme de herói à moda antiga, sem inventar demais e com maior clima de matinê. Eu ainda percebo onde o filme foi mexido nos quatro atos feitos por Jenkins: o primeiro é o mais interessante ao mostrar a origem da personagem, o segundo torna-se um pouco cansativo ao mostrar o contato da personagem com o mundo dos mortais (e da-lhe piadinhas e tom de comédia romântica quando ela sai da ilha com Trevor). O terceiro a coloca no front e mostra porque ela se tornou um dos maiores nomes da DC Comics (a personagem foi criada na década de 1930 por William Moulton Marston - psicólogo polígamo cuja vida também merece um filme). Neste ponto devo dizer que a israelense Gal Gadot teve o grande desafio de fazer uma versão mais jovem e inexperiente da personagem que se tornou o ponto alto de Batman Vs. Superman. A bela atriz se esforça para dar conta dos dilemas da personagem, sua crença em matar o deus da Guerra e libertar os homens do horror das batalhas e sua decepção ao perceber que os homens apreciam a destruição mais do que ela imaginava. No entanto, surge o último ato um tanto forçado, mas que ainda é necessário para colocar a heroína no panteão dos seres mais poderosos do cinema junto ao grande público. Mulher Maravilha agrada, não está entre os meus filmes de heróis favoritos, mas mostra que a DC Comics descomplicou na hora de fazer um filme de herói dentro dos novos padrões "unificados". O resultado é mais agradável, menos sombrio, mas perde um pouco de ousadia - ainda que ele invista no discurso do empoderamento feminino de forma charmosa e irresistível.

Girl Power: a elite de Themyscira.

Mulher Maravilha (Wonder Woman/EUA-2017) de Patty Jenkins com Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis e Lucy Davis. ☻☻☻☻

PL►Y: Lego Batman - O Filme

Alfred, Robin e Batman: o morcegão pode ser muito divertido. 

Depois de toda a polêmica envolvendo Batman Vs. Superman (2016) e as críticas sofridas por Esquadrão Suicida (2016), a Warner ao lado da DC Comics roíam as unhas pela vontade de conseguir um sucesso proporcional aos protestos histéricos que receberam. Enquanto não paravam de reformular os filmes de heróis que estão por vir, a estreia de Lego Batman surgiu como um bem vindo refresco. Sucesso de público e crítica, o filme demonstrou como o universo das histórias em quadrinhos ainda pode ser rico e manter o interesse do público. É verdade que se trata de uma animação e que muito o que funciona neste formato não seria tão bem visto num filme feito de carne, osso e celuloide. Também não podemos perder de vista que o filme é a continuação do famigerado Uma Aventura Lego (2014), já que expande o universo da franquia centrando em um dos personagens mais conhecidos daquele sucesso: o Homem Morcego. Lego Batman é na verdade uma sátira de tudo que o personagem já atravessou no mundo da cultura pop,  além de ser uma grande brincadeira sobre a fama de anti-social e arrogante que o personagem conquistou ao longo do tempo e, por isso mesmo acerta ao colocar o Cavaleiro das Trevas ao lado de Dick Grayson, o Robin original (e só por colocar a dupla em seu melhor momento na telona o filme já merece credito). A inserção de Robin na sétima arte sempre se mostrou problemática (seja nos execrados filmes de Joel Schumacher, ou na sutileza de O Cavaleiro das Trevas Ressurge/2012 ou até em BvS que citava menino prodígio numa cena rápida), mas aqui, talvez pelo clima descontraído e descompromissado, a dupla se encaixa que é uma beleza. Afinal, Dick reflete o lado emocional que Batman deixa escondido pela máscara. Sorte que o filme não é só isso, chegando a ser engraçado ver a história colocando o personagem contra todos os vilões que já cruzaram o seu caminho (inclusive os mais bizarros dos quadrinhos que jamais teriam espaço no cinema, nomes feito Cabeça de Ovo ou Rei dos Codimentos) quando essa (ou quase) era a ideia de Ben Affleck para seu The Batman (que permanece na penumbra com Affleck fora da direção). Sem a necessidade do realismo, o filme deixa as rédeas soltas e consegue construir uma história divertida e bastante coerente com a trajetória do herói nas mais diversas mídias - o que rende vários momentos divertidos que levam os fãs ao delírio - e os geeks em geral quando o Coringa resolve libertar os vilões presos na lendária Zona Fantasma (claro que aqui não estamos falando só do General Zod e outros prisioneiros de Krypton, mas de Sauron, Voldemort, Agente Smith e seus clones e outros vilões consagrados) depois que Batman demonstra total indiferença perante ele (o que deixa o Coringa magoado, já que se considerava o pior inimigo do morcegão). Batman enfrenta aqui uma bela jornada para descobrir que fazer as coisas sozinho nem sempre pode ser a melhor ideia (mesmo que a Liga da Justiça faça uma festa sem convidá-lo) e nem precisa mencionar o belo visual colorido do filme. A saga do Batman de brinquedo ganhou vida própria para gerar filmes mais desencanados do que a DC prepara em live-action em meio a toda tensão que já conhecemos nas redes sociais.

Lego Batman: O Filme  (Lego Batman - The Movie) de Chris McKay com vozes de Will Arnett, Michael Cera, Zach Galifianakis, Rosario Dawson, Ralph Fiennes, Jenny Slate e Conan O'Brien. ☻☻☻☻

sexta-feira, 9 de junho de 2017

4EVER: Adam West

19 de setembro de 1928 ✰ 09 de junho de 2017

Nascido em Walla Walla em Los Angeles, William West Anderson se formou em Psicologia e Literatura  e trabalhou como DJ enquanto fazia pós-graduação. Seu primeiro trabalho na TV foi a tentativa de lançar um canal televisivo voltado para as forças armadas, mas seu primeiro contato com a fama foi num num programa infantil.  Formado em Psicologia e Literatura  e trabalhou como DJ enquanto fazia sua pós-graduação. Ele passou alguns anos tentando lançar um canal televisivo voltado para as forças armadas e trabalhou num programa infantil chamado The Philco Television Playhouse que foi ao ar entre 1954 e 1957 -  mesmo ano em que  conseguiu seu primeiro papel no cinema em  A Ilha do Terror - mas seu papel era tão pequeno que seu nome nem apareceu nos créditos. Em 1959 mudou seu nome para Adam West realizando vários outros trabalhos para a TV. Fã de histórias em quadrinhos desde os dez anos de idade, West mal acreditou quando foi escolhido para viver seu herói favorito em Batman - o Filme lançado em 1966! O sucesso rendeu uma famosa série para TV que se tornou cultuada até hoje com seu visual colorido e onomatopeias! O papel lhe garantiu a fama necessária para revisitar o papel várias vezes durante uma carreira com quase duzentos personagens e vários trabalhos como dublador. West faleceu aos 88 anos vítima de leucemia. 

PL►Y: February

Kiernan: ligação direta com o coisa ruim. 

Aguardando sua estreia desde 2015, The Blackcoat's Daughter chegou aos cinemas americanos no final de março deste ano com o nome - e já está disponível no Netflix com o nome de February aqui no Brasil. O filme marca a estreia do ator Oz Perkins (que já fez vários filmes, mas sem muito destaque ou reconhecimento) na carreira de diretor e o resultado consegue ser interessante. O longa conta a história de duas garotas Kat (Kiernan Shipka) e Joan (Emma Roberts) que guardam algo em comum (e que os mais espertos irão descobrir logo o que é). A adolescente Kat ainda tem problemas para lidar com a morte da mãe quando era pequena, além do distanciamento do pai - e não colabora em nada o fato dela estudar num colégio interno católico. No inverno todas as alunas irão visitar suas famílias, mas Kat e uma colega, Rose (Lucy Boynton) enfrentam alguns contratempos para voltarem para casa diante do frio rigoroso. Enquanto isso não sabemos muito bem onde Joan se encaixa na história, apenas temos a impressão que ela não tem destino certo e aceita a carona de um casal de idosos. Ainda que não aconteça nada demais no início, Oz tem habilidade para configurar seu filme enquanto uma obra de terror, utilizando longos silêncios, fotografia sombria e inserindo aos poucos detalhes macabros na história. De um comentário maldoso sobre uma dupla de freiras que trabalham na escola, a trama passa para ligações misteriosas recebidas por Kat - que se torna cada vez mais esquisita. Ela começa a ter visões de uma sombra diabólica que a instiga a fazer algo diabólico. Oz Perkins consegue provar que um filme pode ser assustador com boas ideias e um orçamento modesto, sem efeitos mirabolante e abusando da imaginação do espectador. Assim ele demonstra talento para lidar com o poder da sugestão e o apelo das atuações bastante intimistas diante da atmosfera incômoda durante todo o filme - que destoa somente quando a violência joga a sutileza no ralo. No entanto, o que mais me incomodou foi a montagem um tanto confusa e alguns pontos que mereciam ser mais explorados (a personagem Rose nunca diz muito bem sua função na história e os chorinhos de Emma Roberts não convencem), mas para uma estreia conturbada, February resulta bastante promissor. 

February (The Blackcoat's Daughter/EUA-2015) de Oz Perkins com Kiernan Shipka, Emma Roberts, Lucy Boynton, Lauren Holly e James Remar. ☻☻

4EVER: Glenne Headley

13 de março de 1955 ✰ 08 de junho de 2017

Nascida em Connecticut e criada em Nova York Glenne Aimme Headly queria ser atriz desde criança, realizando o seu sonho de torna-se atriz graduando-se com honras na High School of Performing Arts para depois fazer faculdade de História da Arte e Literatura na Europa. Glenne atuou desde os anos 1970 e ficou conhecida pelos seus trabalhos junto à companhia de teatro que revelou John Malkovich e Joan Allen, a celebrada Steppenwolf Theatre Company. Com vários trabalhos no teatro, no cinema e na televisão (a atriz foi indicada duas vezes ao Prêmio Emmy), Glenne ganhou papéis de destaque no hilário Os Safados/1988 (ao lado de Steve Martin e Michael Caine), na adaptação de Dick Tracy/1990 e no suspense Pensamentos Mortais/1991 em que roubava a cena de Demi Moore. Ainda que tenha encontrado algum sucesso nos anos 1990, sempre considerei que o cinema nunca a ofereceu o devido reconhecimento.  Seu último papel de destaque foi na série The Night Of da HBO onde vivia uma renomada advogada. A causa da morte não foi divulgada. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

KLÁSSIQO: O Iluminado

Nicholson: mais doido que nunca.  

"Aquele Jack Nicholson só pode ser louco de verdade!" disse meu amigo Walbert dia desses quando conversamos sobre O Iluminado de Stanley Kubrick, um dos nossos filmes de terror favoritos - e um dos mais incomuns. Inspirado na obra de Stephen King, Kubrick investe aqui em mais uma de suas narrativas surpreendentes. Existem sustos, sangue (uma verdadeira onda vermelha) e uma atmosfera que se intensifica durante todo o filme - e que torna a história de um homem que enlouquece num hotel assombrado bem mais interessante do poderia ser. Jack Nicholson vive Jack Torrance, um escritor que aceita a proposta de passar uma temporada zelando por um hotel enquanto tenta escrever seu novo livro. Ele parte com a esposa (Shelley Duvall) e o filho pequeno (Danny Lloyd) para o hotel afastado da cidade e tudo indica que ele terá toda paz e sossego necessária para trabalhar. No entanto, um passado de crimes e violência do hotel mantem a tensão entre os funcionários - mas Torrance não se importa com essas histórias, pensa apenas em sentar e datilografar... até que ele começa a ter um comportamento estranho. Torrance e o filho começam a ver coisas estranhas no hotel, que podem ter relação com o passado tenebroso do local, mas enquanto busca inspiração Jack parece captar o que há de mais sinistro por ali. É fascinante como Kubrick consegue dar vida ao hotel, fazendo que a construção devore os personagens em sua própria história. A câmera do diretor explora a geografia do local revelando um verdadeiro labirinto emocional entre aquelas paredes (e com o uso de uma câmera inovadora para a época) e não é por acaso que o próprio hotel tem um labirinto do lado de fora. Entre silêncios, ótimas atuações (o trio principal é perfeito em cada cena), trilha sonora e detalhes bizarros (as irmãs que aparecem para o menino, a palavra REDRUM escrita de vermelho, o mar de sangue e até um homem vestido de pelúcia) o horror cresce gradativamente até o famoso surto ao final da sessão. O Iluminado nos leva para um mundo paralelo, um mundo assustador onde não se percebe o que é passado, sonho, alucinação ou realidade e justamente por proporcionar esta experiência que causou grande estranhamento em sua estreia (assim como todos os filmes do diretor). É verdade que Kubrick realiza várias alterações na trama de Stephen King e há quem acredite que o filme é a confissão do cineasta sobre uma grande farsa (basta ver o documentário O Labirinto de Kubrick/2012 para entender melhor), mas diante de todos os arrepios que nos oferece O Iluminado pode ser apenas a aula do meste do cinema de como fazer um filme assustador.

O Iluminado (The Shinning/EUA-1980) de Stanley Kubrick com Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd e Joe Turkel. ☻☻☻☻