domingo, 18 de dezembro de 2011

CATÁLOGO: Ruth em Questão


Dern como Ruth: desajustada memorável.

Um dos filme mais cotados para esta temporada de prêmios é The Descendants, o novo filme de um dos meus diretores favoritos e que só agora me dei conta de que não escrevi no blog sobre nenhum filme dele! Para compensar esse sacrilégio, preparei uma retrospectiva sobre os filmes deste americano descendente de gregos chamado Alexander Constantina Papadadopoulos, ou para os íntimos Alexander Payne. Depois de realizar alguns curtas e um média metragem, seu primeiro longa foi Ruth em Questão. Lembro quando o filme chegou aos cinemas e todo mundo comentava a atuação de Laura Dern como a cidadã Ruth do título original, uma desajustada que se metia entre as cruzadas pró e anti aborto nos EUA. Não, não se trata de um filme edificante com mensagens tocantes ou lições de moral, Payne deixava claro que seu objetivo não era tomar partido sobre o aborto, mas queria nos instigar a refletir sobre uma o grau de histeria que a situação pode alcançar - e o jogo de interesses que está por trás dessas campanhas. Ruth é uma coitada que vive cheirando qualquer produto químico que aparece em sua frente (esmalte, tinta spray, solventes e derivados), além disso gosta de tomar umas biritas de vez em quando. A ironia do roteiro é que enquanto ela faz tudo isso e prejudica a si mesma ninguém se incomodoa. Esse comportamento já lhe rendeu filhos de pais diferentes - e que vivem com seu irmão, sem que Ruth tenha permissão de vê-los. Parece dramático? Espere até ela ser presa e ser absolvida porque descobrem que ela está grávida e com planos de fazer um aborto. Ruth acabará se tornando involuntariamente o símbolo de uma campanha nacional anti-aborto. O problema é fazê-la aceitar esse papel ("eu não quero ser símbolo de nada" ela vive repetindo), já que só precisa de alguns dias na casa de uma família cristã de militantes para mostrar que está longe de ser uma personagem que se redime dos pecados... é quando a campanha pró-aborto a descobre e a vida (ou a morte) do bebê parece ser disputada num leilão (e Ruth sempre penderá para o lado que lhe pagar mais). Payne atira para todos os lados e não tem medo de expor o ridículo de todos os personagens que disputam Ruth para as suas campanhas, até o político vivido por Burt Reynolds (que é mais ambíguo do que propriamente humanista) não é digno de muita credibilidade. O mais engraçado do filme (e que cai muito bem ao tom de farsa que o diretor imprime na narrativa) é a construção que Laura Dern faz de Ruth. Mais conhecida por suas atuações sombrias em filmes de David Lynch ou pela participação saltitante em Jurassic Park (1993), a atriz faz da personagem um fantoche despudorado, pensando de acordo com a causa que é mais vantajosa para o seu bolso (nada mais americano... e por isso cenas como a que fica hipnotizada pela luz de atrair insetos são tão divertidas). Em sua estreia, Payne já deixava claro que não era um diretor de comédias bobinhas e que não tinha medo de enfiar o dedo em algumas feridas da sociedade americana, o roteiro é um primor e a direção segura o suficiente para fazer rir e pensar ao mesmo tempo. Seu estilo traz muito daquele estilo crítico que se tornou marca das comédias da década de 1970  - e isso ficou ainda mais claro quando transportou as disputas políticas para uma escola em Eleição (1999), nosso próximo assunto nesta retrospectiva.

Ruth em Questão (Citizen Ruth/EUA-1996) de Alexander Payne com Laura Dern, Swoozie Kurtz, Mary Kay Place, Kurtwood Smith, Kelly Preston, Burt Reynolds e Diane Ladd. ☻☻☻☻

sábado, 17 de dezembro de 2011

DVD: Toda Forma de Amor

Plummer, Arthur e Oliver: ricos personagens.

Não faz muito tempo que Christopher Plummer foi indicado a vários prêmios por sua atuação em "A Última Estação" e ao que tudo indica o feito pode se repetir neste ano (e com fortes chances de ganhar alguns) por conta de sua comovente atuação neste Toda Forma de Amor, pelo qual está concorrendo ao Globo de Ouro de ator coadjuvante. Embora Mike Mills venda seu filme como comédia, trata-se de um drama bem humorado que merece ser visto nem que seja em DVD. Acho que o filme ainda tem chances de aparecer no Oscar de roteiro original, não que seja perfeito, mas a forma que Mills conta a sua história faz toda a diferença. O roteiro engenhoso mistura três tempos da vida do designer gráfico Oliver Fields (Ewan McGregor em um ótimo momento), sua infância principalmente ao lado da mãe (a desconhecida e excelente Mary Page Keller, veterana da TV), o martírio que atravessou crescido com o pai vítima de câncer (Plummer) e o presente onde estabelece um romance promissor com Anna (Mélanie Laurent). Mills estabelece mais do que uma linha temporal fragmentada, mas linhas narrativas onde o tempo e o espaço são perceptíveis a partir de cada elemento em cena - o que não deixa a trama confusa, ao contrário, impregna cada cena de significados a medida que a narrativa segue rumo ao fim. Claro que não basta pegar a vida de um personagem e embaralhar os momentos aleatoriamente, Mills sabe disso e reforça o crescimento emocional do personagem com alguns toques adicionais. Primeiro é o fato do pai vítima de câncer ter assumido a homossexualidade após a morte da esposa que lhe acompanhou por 44 anos, este personagem vivido por Christopher Plummer, em ótima forma e sem frescuras, faz toda a diferença (a frescura parece ter ficado a cargo do galã Goran Visnjic que não compromete o todo). Plummer faz do personagem um sujeito de carne e osso que não desistiu de encontrar a cara metade, mesmo após ter vivido vários anos num casamento convencional. Isto é o que mais intriga o seu filho, que após vários relacionamentos sempre consegue escapar deles a medida que se tornam mais sérios. Este também parece ser o problema de... e quando os dois decidem viver juntos as coisas acabam não saindo como o esperado. Mills tem o bom senso de não forçar as situações, deixando que tudo aconteça naturalmente entre a melancólica narrativa em off de seu protagonista alter-ego (pois é, o filme tem traços autobiográficos) e não parece ridículo nem quando ilustra o pensamento do simpático cãozinho Arthur com o uso de legendas. Mesmo com alguns toques que poderiam fazer parecer uma comédia maluca, o filme se beneficia de possuir um grupo de personagens interessantes disfarçados de pessoas comuns. Mais engenhoso do que a abordagem humanista sobre os preconceitos que um progenitor homossexual poderia gerar, Mills parece estar mais interessado na forma como a passagem do tempo e de relacionamentos influencia na construção do personagem (daí a utilização de três tempos distintos, da mania de Oliver utilizar referências cronológicas - seja em pixações em locais públicos ou utilizando imagens para contextualizar épocas diferentes). Este interesse  isso é muito bem ilustrado no desenho da pedra chamada passado esmagando um rapaz chamado presente. Buscando sempre o equilíbrio entre o drama familiar e a comédia de costumes, o filme de Mills mostra o quanto ele amadureceu enquanto cineasta desde o seu primeiro filme - ou pelo menos, que sabe que atrás de um sorriso pode haver um bocado de tristeza. Se esta não é sua obra-prima (o ritmo ainda tem aquela cadência perigosa e alguns personagens poderiam ser mais desenvolvidos) ela está bem próxima de chegar - afinal, ser capaz de arrancar uma atuação inesquecível do veterano Plummer merece todo o reconhecimento.

Toda Forma de Amor (Beginners/EUA-2011) de Mike Mills com Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic, Mary Page Keller e Keegan Boos. ☻☻☻☻

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

INDICADOS AO GLOBO DE OURO 2012

My Week with Marilyn: comédia?

Por problemas na internet acabei arriscando os meus palpites em cima da hora, mas até que consegui alguns acertos substanciais. Tirando minhas típicas confusões nas categorias drama e comédia até qua não fiquei muito decepcionado! A seguir os indicados ao Globo de Ouro 2012 e meus acertos sinalizados com☻. Futuramente sinalizo quem são os meus favoritos:

Melhor Filme - Drama
Os Descendentes ☻
Histórias Cruzadas ☻
A Invenção de Hugo Cabret ☻
Tudo Pelo Poder (estava entre os meus palpítes, mas acabei tirando... grrr)
O Homem que Mudou o Jogo (o filme está empenhado em ser Um Sonho Possível do ano)
Cavalo de Guerra ☻


 Melhor Filme - Musical ou Comédia
The Artist (pensei que o Globo de Ouro o deixaria só no páreo de filme estrangeiro)
Missão Madrinha de Casamento ☻
50% (uma grata surpresa)
Meia-Noite em Paris ☻
My Week with Marilyn (Eu achava que o filme era um drama!)


Melhor Ator - Drama
George Clooney (Os Descendentes) ☻
Leonardo DiCaprio (J. Edgar)☻ 
Michael Fassbender (Shame)☻
Ryan Gosling (Tudo Pelo Poder) (eu sabia que seria indicado, mas pensei que Gary Oldman tinha mais chances)
Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo) (não vi o filme, mas preferia Michael Shannon)

Melhor Atriz - Drama
Glenn Close (Albert Nobbs) ☻
Viola Davis (Histórias Cruzadas) ☻ 
Rooney Mara (Os Homens que não amavam as mulheres) (Se o filme de Marilyn é comédia...)
Meryl Streep (A Dama de Ferro)☻
Tilda Swinton (We Need to talk About Kevin)☻ 


Melhor Ator - musical e comédia
Jean Dujardin (The Artist) ☻
Brendan Gleeson (O guarda) (Surpresa! Um filme que passou em branco por aqui)
Joseph Gordon Levitt (50%) ☻
Ryan Gosling (Amor a toda Prova) (ele é coadjuvante, mas é curioso já que fez o filme por sugestão do analista)
Owen Wilson (Meia Noite em Paris) ☻


Melhor Atriz - musical e comédia 
Jodie Foster (Carnage) (Não sabia que o filme era comédia!)
Kate Winslet (Carnage) (idem)
Charlize Theron (Jovens Adultos)☻
Kristen Wiig (Missão Madrinha de Casamento) ☻
Michelle Williams (My Week with Marilyn) (Acertei a indicada, mas errei a categoria)

Melhor Ator Coadjuvante
Kenneth Branagh (My Week With Marilyn) (o deus do trovão deve ter ajudado)
Albert Brooks (Drive)☻
Jonah Hill (O homem que mudou o jogo) (azarão?)
Viggo Mortensen (Um Método Perigoso)  (Mortensen/Cronenberg acertam de novo)
Christopher Plummer (Toda Forma de Amor) ☻


Melhor Atriz Coadjuvante
Berénice Bejo (The Artist)
Jessica Chastain (Histórias Cruzadas) (acertei a atriz, mas errei o filme)
Janet McTeer (Albert Nobbs) ☻
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas) ☻
Shailene Woodley (Os Descendentes) ☻


Melhor Diretor
Woody Allen (Meia-Noite em Paris) (muito bom!)
George Clooney (Tudo Pelo Poder) (mais um sucesso para o diretor Clooney)
Michael Hazanavicius (The Artist) ☻
Alexander Payner (Os Descendentes) ☻
Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret) ☻


Melhor Roteiro
The Artist ☻
Os Descendentes ☻
Tudo Pelo Poder (boa surpresa)
Meia-Noite em Paris ☻
O Homem que Mudou o Jogo (assustador!)

Melhor Canção Original (não tive palpites nesta categoria)
"Lay Your Head Down" (Albert Nobbs)
"Hello Hello" (Gnomeu e Julieta)
"The Living Proof" (Histórias Cruzadas)
"The Keeper" (Redenção)
"Masterpiede" (W.E.) (oooh!)

Melhor Trilha Sonora (não palpitei nesta categoria)
The Artist
Os Homens que não Amavam as Mulheres
A Invenção de Hugo Cabret
Cavalo de Guerra
W.E. (OOOOH!)

Melhor Animação (Achei que seriam só três indicados)
As Aventuras de TinTim ☻
Operação Presente
Carros 2 (sério?)
Gato de Botas
Rango ☻

Melhor filme em Língua Estrangeira
Jin líng shí san chai (apesar do filme é estrelado por Christian Bale!!)
In the Land of Blood and Honey ☻ (filme de estreia de Angelina Jolie na direção)
O Garoto da Bicicleta (se chegou até aqui, o filme deve dar trabalho no Oscar)
A Separação ☻
A Pele que Hábito ☻


De 59 palpites acertei 34! Se levarmos em consideração que acertei Micelle Williams entre as indica das (mas não como atriz de comédia-musical, mas na categoria atriz dramática) e Jéssica Chastain como coadjuvante  coadjuvante (ela tinha seis filmes no páreo, era um tiro  no escuro) eu fiz 36 acertos. Preciso  melhorar... 

PALPITES PARA O GLOBO DE OURO

The Descendants: Um dos favoritos do ano.

Mais tarde será divulgado os Indicados ao Globo de Ouro deste ano! Existe um consenso de que neste ano a  disputa será mais equilibrada, portanto, foi difícil escolher os favoritos. Entre listas de eleitos por críticos, sucessos do ano, atores em evidência e um pouco de opinião pessoal... a lista de candidatos deve ser mais ou menos assim:

FILME/DRAMA
- Árvore da Vida
- The Descendants
- The Help
-  Hugo
- Tão Alto, Tão Perto
- Cavalo de Guerra

FILME/COMÉDIA
- Missão Madrinha de Casamento
- Amor à Toda Prova
- Toda Forma de Amor
- Meia Noite em Paris
- Young Adult

DIREÇÃO
- Alexander Payne (The Descendents)
- Martin Scorsese (Hugo)
- Michel Hazanavicius (O Artista)
-Tate Taylor (The Help)
- Stephen Daldry (Tão Alto, Tão Perto)

ATOR/DRAMA
- George Clooney (The Descendants)
- Michael Shannon (O Refúgio)
- Gary Oldman (O Espião que Sabia Demais)
- Leonardo DiCaprio (J Edgar)
- Michael Fassbender (Shame)

ATRIZ/DRAMA
- Viola Davis (The Help)
- Meryl Streep (The Iron Lady)
- Michelle Williams (My Week with Marilyn)
- Glenn Close (Albert Nobbs)
- Tilda Swinton (Precisamos falar sobre Kevin)

 ATOR/COMÉDIA
- Owen Wilson (Meia Noite em Paris)
- Paul Giamatti (Win Win)
- Ewan McGregor (Toda Forma de Amor)
- Joseph Gordon Lewitt (50/50)
- Jean Dujardin (O Artista)

ATRIZ/COMÉDIA
- Charlize Theron (Young Adult)
- Christen Wiig (Missão Madrinha de Casamento)
- Amy Adams (Os Muppets)
-  Emma Stone (Amor à Toda Prova)
- Milla Kunis (Amizade Colorida)

ATOR COADJUVANTE
- Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
- Max Von Sydow (Tão Alto, Tão Perto)
- Andy Serkis (Planeta dos Macacos – A Origem)  
- Albert Brooks (Drive)
- Patton Oswald (Young Adult)

ATRIZ COADJUVANTE
- Jessica Chastain (Árvore da Vida)
- Octavia Spencer (The Help)
- Janet McTeer (Albert Nobbs)
- Shailene Woodley (The descendants)
- Melissa McCarthy (Missão madrinha de casamento)

ROTEIRO
- The Help
- O Artista
- The descendants
- Meia Noite em Paris
- Toda Forma de Amor
  
ANIMAÇÃO
- Rango
- As Aventuras de Tintim
- Rio

FILME ESTRANGEIRO
- O Artista
- A Pele que habito
- A Separation
- Poesia
- City of Life And Death

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

DVD: Trabalho Sujo


As irmãs Lorkowski: cadê o final que estava aqui?

Nenhum filme pode contar com duas conceituadas estrelas da nova safra de Hollywood impunemente! Tabalho Sujo tem um elenco encabeçado por duas atrizes badaladas no cinema americano, Amy Adams já contabiliza três indicações ao Oscar e Emily Blunt vive perseguindo sua indicação (por enquanto já contabiliza três indicações ao Globo de Ouro), ou seja, possuem suas cotas de admiradores para satisfazer! Para dar um apoio ainda maior no elenco, a diretora Christine Jeffs conseguiu que o avô da Pequena Miss Sunshine (2006) em pessoa (Alan Arkin) se envolvesse no projeto - no papel do pai das duas moças. Quem viu Sylvia (2003) sobre a poetiza Sylvia Plath, sabe que Jeffs consegue fazer filmes corretos, mas ao se aventurar pelo campo da comédia de humor negro, a moça deveria saber que precisa mais do que correção. Trabalho Sujo é um filme que explora um assunto pouco utilizado em roteiros, o trabalho das pessoas que limpam cenas de crime (e por isso mesmo as comparações com o badalado Eles Matam, Nós Limpamos de 1996 é inevitável). Trata-se de um trabalho pouco agradável e com técnicas bem específicas para redner cenas nojentas! A protagonista é Rose (Amy Smart) a garota que costumava ser popular na escola, mas que se tornou faxineira e mãe solteira depois que o capitão do time - que agora é policial (Steve Zahn) - a trocou por outra mulher. Atualmente eles são amantes. Para piorar mais ainda as coisas, Rose tem um filho e uma irmã, Norah (Emily Blunt) que vive se metendo em encrenca nos trabalhos que consegue. A vida social e amorosa de ambas está longe de ser uma beleza e ambas aparecem marcadas por um episódio trágico na família (que aparece em melancólicos flashbacks). As coisas só parecem melhorar quando as duas aceitam a proposta de limpar as cenas de crimes investigados pela polícia. Inexperientes, acabam virando motivo de chacota na região até contarem com a ajuda do simpático comerciante de produtos de limpeza Winston (Clifton Collins Jr. em momento inspirado). Conforme vão vencendo suas dificuldades financeiras e de relacionamentos o filme evolui de forma simpática até que termina bruscamente. Não sei se acabou a verba para as filmagens ou a diretora realmente não sabia o que fazer com seus personagens, tudo termina de uma forma tão abrupta que é até ofensivo aos filmes de final aberto dizer que este filme é mais um do gênero. Parece que Jeffs quis mostrar todas as possibilidades que as personagens tinham (a crise de Rose com o fato de ser amante, seu flerte com Winston, Norah se envolvendo com uma garota, as relações familiares fragilizadas...) e deixar que fizessemos a última meia hora de filme na cabeça. Uma pena, já que o resultado que poderia ser agradável é apenas decepcionante.


Trabalho Sujo (Sunshine Cleaning/EUA-2009) de Christine Jeffs com Amy Ryan, Emily Blunt, Alan Arkin, Steve Zahn e Clifton Collins Jr. ☻☻

MOMENTO ROB GORDON: Melhores Pôsteres 2011

Com o fim do ano chegam as inevitáveis listas! Para começar eu listo os melhores no ramo de estabalecer o nosso primeiro contato com um filme: o poster! Não basta ser poster tem que conseguir instigar o espectador, motivá-lo a conhecer as idéias que estão por trás dele, ver sua história projetada numa telona, vender a história e – se não conseguir nada disso – pelo menos, ficar na memória por mais tempo que o filme! A seguir os meus posteres favoritos de 2011!
  
5 O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy)
Faz tempo que Gary Oldman anda merecendo um poster para chamar de seu. O filme deve lhe render indicações aos prêmios da temporada e o poster elaborado em instigante montagem sobre números, luzes e sombras deve ajudar na projeção do filme neste concorrido fim de ano.  

4 Tudo Pelo Poder (The Ides of March)
Numa trama sobre como a política pode intoxicar até o mais bem intencionado dos envolvidos, o cartaz que mistura as estampas de Ryan Gosling e George Clooney chega a ser arrepiante. Nunca havia percebido a semelhança existente entre os atores – assim como entre seus personagens.

3 Super 
Criando impacto e curiosidade sobre o filme, o poster de Super - uma comédia sobre super-heróis com Ellen Page e Rain Wilson - deixa claro em seu cartão de apresentação que deve ser descolado. Se for cinqüenta por cento tão originalmente divertido quanto o cartaz ainda estaremos no lucro!

2 A Árvore da Vida (The Tree of Life)
Ame ou odeie o filme, o cartaz de A Árvore da Vida já deixava claro o tom poético do novo filme de Terence Mallick. Simples, comovente, metafórico e genial! 


1 Shame
Premiado em Veneza com o prêmio de melhor ator para Michael Fassbender, o filme ainda conta com o auxílio de um poster minimalista. Existe uma versão mais recente com Fassbender descamisado sobre a cama, mas o que é melhor para contar os dilemas de um ninfomaníaco do que os lençóis amarrotados de uma cama vazia?

sábado, 10 de dezembro de 2011

DVD: Água para Elefantes

Pattinson: "Você é menor pessoalmente..."

Água para Elefantes foi um dos filmes dos quais todo mundo queria falar mal em 2011. Existem muitos motivos para isso, um deles é que o protagonista do filme é Robert Pattinson o überstar da saga Crepúsculo. Outro motivo é que Christoph Waltz parece uma paródia de sua oscarizada atuação em Bastardos Inglórios (2009), enquanto Reese Witherspoon está totalmente deslocada no seu papel de estrela de circo, mas ainda acho que o maior motivo para o fracasso do filme é que filmes de circo estão fora de moda. Porém, o filme de Francis Lawrence não é o vexame que tanto alardeavam, o problema é que o filme é certinho demais e sem muita personalidade - mas exala uma grande vontade de acertar. A começar por Robert Pattinson, que a esta altura de sua carreira deve estar amaldiçoando o dia em que aceitou viver o vampiro Edward, já que o sucesso perante as fãs se converte em bilheteria para a saga e expectativa (frustrada) para seus outros filmes. Não tem jeito, o cara vai ter que ralar muito para perder o rótulo de astro teen, não interessa se sua atuação como o veterinário Jacob Jancowksi é aceitável, se o filme não for um blockbuster a artilharia das críticas é ainda mais pesada. O filme começa com um idoso que foge do asilo (o ótimo Hal Holbrook) que conta suas lembranças para um dono de circo, assim, relembra o período que após tragédias familiares entrou para a trupe do circo dos irmãos Benzini. Isso quando os irmãos Benzini nem existiam mais e a companhia era administrada pelo temperamental August (Waltz), não vai demorar muito para que Jacob perceba que por trás de todos os números do picadeiro, os bastidores circenses são instáveis. A tenda precisa estar cheia para terem o que comer e cuidar dos animais também não é coisa fácil (os catadores de esterco que os diga). Mas entre tantas tarefas ele conhece a estrela da companhia, a platinada Marlena (Reese), domadora de cavalos e esposa de August, que acaba perdendo seu cavalo parceiro de cena quando este adoece. Precisando de um número novo, August compra uma elefanta, a Rosie, que precisa ser cuidada e treinada para dar conta do número a ser realizado com Grace. Precisa dizer que Rosie será o elemento que faltava para ligar Jacob  e Marlena num romance proibido? Acrescente a isso a agressividade crescente do esposo traído (que costuma descontar sua fúria em Rosie ou atirando funcionários do trem da companhia)  e o filme é praticamente isso. Francis Lawrence, diretor de Eu sou a Lenda (2007) se esforça um bocado para alcançar um outro patamar em sua carreira, mas escolheu um roteiro arriscado para demonstrar que sabe fazer filme para gente grande. Embora tenha seus tropeços na trama (existem momentos estapafúrdios, como o rapaz recebendo a notícia da morte de seus pais antes de fazer a prova que lhe daria a licença de veterinário) o maior problema é a falta de química de seu casal principal. O problema não está em Pattinson, mas em Reese. A atriz oscarizada por sua atuação em Johny & June (2005)  está longe de ser a mais apropriada para o papel. Baixinha, magrinha e de traços faciais que não são nenhuma unanimidade em termos de beleza, ela não consegue se entrosar com nada que está ao seu redor, não tendo química nem com Pattinson ou Waltz (que curiosamente combinam em cena) - e o pior, ela parece envelhecida com a maquiagem pesada. Ela ainda não conseguiu se livrar da maldição do Oscar! Parece maldade dizer que a estrela é ofuscada até pela aliá carismática Rosie! Está certo que Pattinson não é um ator de muitos recursos (e seus olhos sempre me parecem sonolentos) mas ele tem se esforçado em se distanciar do tipo vampiresco que o consagrou. Aqui ele não chega a comprometer o filme, ao contrário, está aceitável correto como herói romântico (quantos atores não tiveram que encarar isso e com resultado não muito diferente?). Com a parte técnica no lugar certo (especialmente boa edição e fotografia),  acho que se tivesse uma direção com mais energia (e uma atriz mais... calorosa), Água para Elefantes poderia ter sido um grande acerto, afinal a narrativa do livro de Sara Gruen em que se baseia costuma ser elogiada.

Água para Elefantes (Water for Elephants/EUA-2010) de Francis Lawrence com Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook e Paul Schneider. ☻☻

CATÁLOGO: O Leitor


Winslet e Kross: zelo pela nova Alemanha.

Prestes a lançar seu novo longa metragem (o aguardado Extremamently Loud and Incredibly Close com Tom Hanks e Sandra Bullock), Stephen Daldry deixa claro que está empenhado em garantir sua terceira indicação ao Oscar - e quem sabe receber a sua primeira estatueta. Daldry dirigiu três filmes e concorreu ao Oscar de direção pelos três. Seus detratores costumam dizer que dirige filmes como se estivesse no teatro, com a diferença de exagerar na trilha sonora (o que é uma provocação barata). Já seus admiradores costumam ressaltar esses aspectos entre as qualidades do diretor que costuma arrancar atuações inesquecíveis. Tanto que mesmo o filme menos aclamado de Daldry foi o que finalmente oscarizou Kate Winslet. Trata-se de O Leitor. Em primeiro lugar vamos esquecer aquela palhaçada de dizer que o longa foi o grande vilão do Oscar 2009 por tomar o lugar que seria de O Cavaleiro das Trevas. Ambos os filmes tem seus méritos e se um estava entre os cinco favoritos da Academia e o outro não, isso se deve aos membros da Academia e ponto. O Leitor tem seus méritos e problemas de execução. Entre os méritos está o padrão Daldry de qualidade: trilha sonora impecável, figurinos bem cuidados, atores dedicados, edição indefectível e bela fotografia. Além disso, lança um olhar diferenciado sobre o batido tema do Holocausto. Ao invés de mostrar os campos de concentração, como já vimos dezenas de vezes - ou até mesmo as sandices nazistas, o diretor prefere contar uma história de amor que possui o nazismo nas entrelinhas, ou melhor, possui a história da Alemanha nas entrelinhas. Todo mundo que tem um conhecimento mais aprofundado sobre História sabe que Hitler não chegou ao poder por seus poderes mágicos, mas porque defendia uma causa que causava identificação na Alemanha ainda destroçada economicamente pela primeira guerra mundial. Não tem como disfarçar, que o cara chegou ao poder com apoio da população, que em busca de alguém para culpar apontou para os judeus. O Holocausto foi uma enorme tragédia que possuia como pano de fundo a ideia insana de limpar o país para as futuras gerações. Preconceito. Genocídio. Não há desculpa para esses fatos (por mais que exista uma corrente de sujeitos que acha que ser preconceituoso é sinal de inteligência, o preconceito ainda é, apenas, sinal de burrice). A história de Hanna (a sempre competente Winslet) e Michael (o novato David Kross) nasce dessa situação. Você pode ver o filme pensando que é apenas um adolescente que se apaixona por uma mulher mais velha que gosta de ouvi-lo contando histórias. Vendo por esse lado, ele fica traumatizado quando ela some e carrega essa marca até a vida adulta (vivido por Ralph Fiennes) onde possui dificuldades em manter relacionamentos. Existe um nó na história de Hana e Michael e este é promovido pela ausência causada pela aderência dela ao nazismo. O julgamento dela mexe mais ainda com o rapaz,  que se autocrítica por gostar daquele 'monstro' capaz de exterminar outros seres vivos como se fossem insetos. Se aprofundarmos um pouco mais a gênese dos personagens veremos que Hanna simboliza a velha Alemanha (devastada, triste, pobre) e Michael é a nova alemanha (não real, mas ideal para a época: bela, instruída, forte) e a cena em que ela o banha demonstra isso perfeitamente. É neste ângulo que o filme funciona melhor, especialmente quando nos damos conta que Hanna não sabia ler e seu analfabetismo torna-se justificativa para seus atos mais hediondos. Quando perdemos de vista as simbologias, esse argumento torna-se ainda mais inaceitável, mas numa alegoria esse não saber ler se amplia. Hanna não sabia ler somente as palavras, mas sentimentos (seus e dos outros), a realidade, os atos que praticava e sua defesa torna-se inviável. O maior problema do filme está neste momento, quando deixamos de perceber do que o filme se trata realmente - e colabora muito para isso o tom erotizante de seu (longo) início. Ao mesmo tempo, o corte existente entre o velho e o novo nos guia para um final previsível. Neste romance simbólico, ainda merece destaque a presença de Lena Olin como uma sobrevivente dos campos em que ela diz: "se procura catarse, não procure os campos. Vá ao cinema, ao teatro, à ópera. Mas nunca aos campos". Ela sabe das coisas, numa leitura mais atenta percebemos que é por isso que O Leitor tem tanto cuidado em manter o equilíbrio.

O Leitor (The Reader/EUA-2008) de Stephen Daldry com Kate Winslet, David Kross, Ralph Fiennes, Lena Olin e Bruno Ganz. ☻☻☻

CATÁLOGO: Billy Elliot

Bell: dançando contra os preconceitos.

Stephen Daldry já era um sujeito consagrado nos palcos londrinos. Hoje, seu nome já está associado a mais de uma centena de produções e sua capacidade de contar histórias só esperava o tempo certo para migrar para o cinema. Este movimento do teatro para os palcos aconteceu em 2000, quando Daldry lançou Billy Elliot, um filme modesto, mas de simpatia ímpar ao lidar com temas espinhosos com uma leveza desconcertante! A trama se passa durante a década de 1980, durante o governo da ministra Margareth Tatcher que atravessou um momento delicado com a greve de carvoeiros. Billy Elliot (o ótimo Jamie Bell, indicado ao Globo de Ouro pelo papel) é órfão de mãe e filho de um carvoeiro rude e sabe que o destino lhe reserva destino semelhante, já que seu irmão mais velho já trabalha nas minas. Enquanto a família matricula o menino de onze anos numa aula de boxe (a qual ele não leva o menor jeito), Billy começa a prestar cada vez mais atenção às aulas de balé que acontecem ao lado. Por curiosidade acaba freqüentando as aulas e despertando a atenção das meninas e principalmente da professora (numa atuação inesquecível de Julie Walters, indicada ao Oscar de coadjuvante). A professora durona percebe que o moleque tem um talento bruto para a coisa e precisa ser lapidado, mas para lapidar a dupla terá que lutar contra uma série de preconceitos – afinal, não são poucos que acham que balé não é coisa para homem. Os conflitos na família de Billy são inevitáveis e a tensão causada pela greve nas minas não facilita as coisas – e o roteiro tem grande habilidade ao mesclar a trajetória de Billy ao movimento dos carvoeiros. Considero fascinante a forma como ambos os movimentos são marcados pela intenção de transformar, de melhorar as condições de suas vidas tão marcadas pela dureza da rotina cotidiana. O filme poderia cair facilmente no melodrama (e alguns críticos até acham que cai mesmo), mas Daldry consegue manter a elegância em cada parte do filme com atuações dedicadas, excelente trilha sonora com a nata do rock inglês do período (T-Rex, Clash, The Jam) e edição competente. Porém, apesar de todos os méritos (que deram a Daldry sua primeira indicação ao Oscar no seu filme de estréia) o filme teria bem menos fôlego se não contasse com a inspirada atuação do então menino Jamie Bell. Bell atua feito gente grande e o mais curioso é que sua trajetória acaba se confundindo com o personagem. Nos extras do DVD ele conta como foi escolhido entre centenas de criança para fazer o filme, algo impensável para um inglesinho de origem proletária. Sem nunca ter dançado balé, seu esforço e dedicação lhe valeu o reconhecimento em diversas premiações e cravou seu nome na história do cinema em cenas onde transmite todos os conflitos internos de Billy dançando. Há quem reclame do diretor substituir Jamie num salto temporal em que o personagem aparece adulto, mas a vida é assim, não importa o quão irresistível você seja quando pequeno: crescer é inevitável. Curioso é que depois do sucesso nas telas, o filme deu origem a um musical de sucesso na Inglaterra, que já está há anos em cartaz sob a assinatura de Daldry.    

Billy Elliot (Reino Unido/2000) de Stephen Daldry com Jamie Bell, Julie Walters, Gary Lewis e Jamie Draven. ☻☻☻☻