quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pódio: Guy Pearce

Ao contrário do que muita gente pensa, Guy Pearce nasceu  1967 na Inglaterra e depois se naturalizou australiano. Foi na década de 1980 que tornou-se conhecido na terra dos cangurus pelo papel no seriado Neighbours (1986-1989). Com o recente The Rover - A Caçada, existem aqueles que apostam numa indicação ao Oscar para esse senhor de 46 anos. Neste pódio dedicado à sua carreira, lembramos três outros momentos importantes de sua carreira no cinema:

Bronze: o certinho.
3º Los Angeles - Cidade Proibida (1997) Pearce ainda começava seus trabalhos em Hollywood quando o diretor Curtis Hanson o escalou para viver o policial certinho Edmund J. Exley que se depara com o jogo de crimes, intrigas e corrupções na polícia de LA na década de 1950. Baseado na obra de James Ellroy, o filme é um primor em sua reconstituição colorida do cinema noir, misturando glamour e sordidez durante na medida exata. O filme só não ocupa posições mais elevadas porque num elenco composto por Kevin Spacey, Kim Basinger e um furioso Russell Crowe, Pearce foi o mais discreto aos olhos da plateia, apesar de sua boa atuação. O filme concorreu a nove Oscars e ganhou dois (atriz coadjuvante/Basinger e roteiro adaptado)

Prata: a drag venenosa.
2º Priscilla, a Rainha do Deserto (1994) Depois de viver o lendário Errol Flynn no cinema, o filme que elevou a carreira do moço à outro patamar foi essa comédia australiana de figurinos espalhafatosos (que ganharam o Oscar) e trilha disco! Pearce encarna Adam, ou melhor, Felicia, a jovem drag queen que acompanha duas amigas drags pelo deserto australiano para fazer um show. Pelo caminho encontram aborígenes, incompreensão, perigos e alguns desentendimentos (principalmente pelo humor ácido de Felícia). Aqui, Pearce prova que é um ótimo comediante, apesar de ser o gênero menos explorado em sua filmografia. O porte do moço também chamou a atenção do público feminino, mas Guy nem se iludiu a bancar o galã em comédias românticas. 

Ouro: o esquecido.
1º Amnésia (2000) Clássico absoluto de Christopher Nolan, o filme ficou famoso por sua narrativa invertida sobre um personagem que perde a memória após um período curto de tempo. O diretor utiliza a sensação do personagem para compor a narrativa sobre o personagem vivido por Guy Pearce - o perdido Leonard que tem sede de vingança e vive atrás do assassino de sua esposa. Baseado em tatuagens, fotografias e diversas anotações que tentam substituir sua memória, Leonard espera encontrar a verdade - no entanto, os rumos dos acontecimentos mostram que por mais objetivos que pareçam os recursos adotados por ele, a subjetividade do olhar humano sempre compromete seus planos. Guy merece elogios por ser o guia perfeito para a plateia nesse filme complexo. Apesar dos elogios,  Amnésia não ganhou nenhum dos Oscars a que foi indicado (roteiro original e melhor edição). 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Na Tela: The Rover: A Caçada

Pearce e Pattinson: a dura vida após o colapso...

O australiano David Michôd estreou com uma verdadeira pérola de dramaticidade marginal. Lançado em 2010, Reino Animal  recebeu inúmeros elogios em festivais independentes e ainda deu novo fôlego à carreira da veterana Jacki Weaver. A narrativa crua sobre uma família de bandidos conquistou fãs ao redor do mundo que aguardavam ansiosamente o novo filme do cineasta. The Rover - A Caçada pode não ser tão contundente quanto seu filme anterior, mas não deve desapontar os fãs. De seu filme anterior o diretor trouxer Joel Edgerton (mas dessa vez colaborando somente no roteiro) e Guy Pearce, que recebe o papel de protagonista. Pearce tem recebido elogios pela sua atuação silenciosa como Eric, um homem solitário que vaga em seu automóvel por um deserto pós-apocalíptico. Na primeira cena, o filme revela que a história acontece dez anos após o colapso. Não entrando em detalhes sobre que colapso foi esse, o espectador é apresentado a um mundo desértico, empoeirado e sujo. É nesse mundo que Eric tem seu carro roubado por três homens que acabaram de sofrer um acidente na caminhonete que dirigiam. Afim de reaver seu carro, Eric utiliza a caminhonete deles, que continua funcionando, para perseguí-los - e o espectador perceber que existe um motivo muito especial para que o personagem queira seu automóvel novamente. Obstinado, ele passa a perseguir os ladrões por ambientes habitados por personagens estranhos que servem somente para revelar que o tal colapso afetou drasticamente as relações humanas. É em uma dessas paradas que o jovem Rey (Robert Pattinson) cruza seu caminho, ele alega que aquela caminhonete pertence ao seu irmão e Eric vê que o rapaz pode lhe ser útil. Não se sabe ao certo os motivos, mas Rey foi ferido e deixado para trás pelo irmão e servirá para que Eric descubra para onde levaram seu estimado veículo. Os desavisados podem pensar que Michôd irá explorar uma amizade que servirá de conforto para os personagens naquele cenário árido, mas não é bem assim. De forma áspera, Eric e Rey irão se ajustar através de desentendimentos e ameaças, mesmo que Eric perceba aos poucos que Rey é mentalmente problemático. De sorriso nervoso, tiques e falas desconexas, o personagem serve para Robert Pattinson provar de vez que é capaz de ter vida depois de Crepúsculo (2008), aprendendo com diretores exigentes a desenvolver suas interpretações. Pattinson tem uma atuação bastante digna que não faz feio perante o seu parceiro de cena. Conforme a trama segue, Rey mostra-se confuso com os sentimentos atribuídos ao irmão e o desfecho é inevitavelmente trágico para os envolvidos. The Rover não é tão original como Reino Animal, mas prova a habilidade de Michôd ao criar atmosferas pesadas com personagens aparentemente simples, mas que se revelam densos a medida que a trama avança e muito pouco sobre eles é revelado. Na jornada dos personagens, A Caçada deixa a impressão que todos perdem alguns pedaços de si ao longo do caminho e, neste ponto, Guy Pearce tem um dos momentos mais interessantes de sua carreira num personagem pacato prestes a explodir.

The Rover - A Caçada (Austrália-EUA/2014) de David Michôd com Guy Pearce, Robert Pattinson e Scoot McNairy. ☻☻☻


domingo, 31 de agosto de 2014

N@ CAPA: Judi Dench e Helen Mirren

Dench e Mirren: noir ladies

A capa do mês de agosto foi uma adaptação da foto da Vanity Fair que celebrava o gênero noir em 2007. Na fotografia, as veteranas Helen Mirren e Judi Dench mostram por que ainda são duas divas inglesas bastante requisitadas em Hollywood. Aos 69 anos, Helen está envolvida em quatro produções que devem chegar em breve aos cinemas. Enquanto Judi (recentemente indicada ao Oscar por Philomena/2013) está prestes a completar 80 anos e tem três filmes prestes a estrear. Além de sucesso no cinema, as duas são veneradas no teatro britânico, ao ponto de participarem da prestigiada série National Theatre Live, onde pérolas da dramaturgia eram exibidas na TV entre 2009 e 2013. 

DVD: Para Roma com Amor

Davis, Allen, Pill e Flavio Parenti: surrealismo não salva as irregularidades. 

Woody Allen dirigiu a maioria de seus filmes com locações em Nova York. A Big Apple ainda é o cenário favorito do diretor, mas desde que ele resolveu realizar alguns trabalhos pela Europa, algumas cidades turísticas do mundo resolveram convidá-lo para fazer o mesmo (incluindo o Rio de Janeiro). Assim que ele filmar na Espanha (Vicky Cristina Barcelona/2008), na França (Meia-Noite em Paris/2011) e até em Roma nesta que seria sua declaração de amor à cidade italiana. No entanto, vale lembrar, que declarações de amor feitas por encomenda costumam não funcionar e Para Roma com Amor. Um amigo meu diria que é um dos filmes que "Woody filmou para cumprir tabela" - se referindo à compulsão do cineasta lançar uma produção por ano, este foi o filme com o selo 2012, ou seja, lançado depois dos prêmios e bilheteria surpreendente de Meia-Noite e Paris e a aclamação de Blue Jasmine/2013. Para contornar a premissa o diretor criou vários personagens que visitam Roma por algum motivo e a filmagem narra os acontecimentos com cada um deles. O efeito é como se fosse um episódio da cine-série cidade que amamos (como Nova York, Eu Te Amo/2008) em que os episódios foram misturados na edição. Algumas histórias são bacanas, outras nem tanto (e essas prejudicam a fluência das que funcionariam bem), sendo assim, Allen chega a temperar algumas com toques surreais para que fiquem mais engraçadas. A coisa funciona com a história do homem comum (Roberto Benigni)  que do nada é perseguido pela imprensa, ou com o homem que é ótimo cantor de ópera - somente quando está debaixo do chuveiro (vivido pelo tenor Fabio Armiliato), mas nada pode salvar a arrastada trama sobre adultério eminente protagonizada por Jesse Eisenberg, Ellen Page e Greta Gerwig que não decola nem com o espectro de Alec Baldwin para dar uma mãozinha (essa deve ser a pior história já escrita por Allen). Allen ainda encontra espaço para colocar Penelope Cruz como uma prostituta metida numa farsa com um jovem tímido recém casado (enquanto a esposinha se perde na cidade) e o fato de colocar uma espanhola como italiana é o motivo da melhor piada autorreferencial do filme, já que Allen diz em cena que não entende espanhol... quando está no meio de uma autêntica discussão italiana. Sem a preocupação de misturar as tramas (são todas independentes) ou seguir uma linha temporal comum (algumas tramas acontecem por dias, enquanto outras acontecem em uma única tarde), Allen recicla algumas ideias (o mundo das celebridades, o adultério, seres imaginários...) e capricha num elenco plural para ajudá-lo a tornar interessante um filme irregular. Maçante em sua duração, Para Roma com Amor (e o título sem graça só reforça a ausência de um corpo coerente à história disfarçada de brincadeira com as Cidades que Amamos) deve figurar na lista dos filmes mais descartáveis do diretor.  Para dizer que não gostei de nada, tem uma piadinha aqui e outra ali que funciona, também curti ver a sumida Judy Davis novamente ao lado do diretor e um personagem discutindo as qualidades de A Solidão dos Números Primos (2010), um dos melhores filmes italianos dos últimos anos. 

Para Roma com Amor (To Rome with Love/EUA-Itália-Espanha/2012) de Woody Allen com Jesse Eisenberg, Woody Allen, Judy Davis, Ellen Page, Alec Baldwin, Alison Pill, Alessandro Tiberi, Roberto Benigni e Fabio Armiliato. ☻☻

DVD: As Bem Armadas

Bullock e Melissa: seguindo a cartilha das duplas policiais. 

Sandra Bullock tem um Oscar na estante para provar que é uma boa atriz. Apesar de ter ficado conhecida por comédias bobas, Sandra sempre gostou de exercitar seus músculos dramáticos em filmes que nem sempre recebiam o devido reconhecimento (e, às vezes, eles nem mereciam). Bullock ganhou o prêmio de atriz debaixo de críticas com o mediano Um Sonho Possível (2009), no ano em que foi mais elogiada por ter feito uma de suas melhores comédias (A Proposta/2009). De lá para cá ela se dedicou a atuações mais densas (como em Tão Forte tão Perto/ e em Gravidade/2013 que lhe rendeu outra indicação ao prêmio da Academia), mas entre eles era preciso fazer um carinho no público que ajudou a pagar suas contas vendo suas comédias. Apesar do sucesso, As Bem Armadas é um filme bastante esquecível. Pegue a fórmula gasta de duplas da lei que precisam trabalhar juntas sem se entender muito bem, transforme-as em mulheres e não precisa nem mudar a tipologia padrão, a certinha e a doidinha já basta para criar gags sobre os conflitos de personalidade entre as duas. Cozinhe a história sobre uma investigação de tema gasto (tráfico de drogas, claro!) por quase duas horas (e a longa duração também preocupa) e você terá um filme. Bullock interpreta a agente especial do FBI Ashburn, tão certinha que usa uma presilha no cabelo que foi banida de Hollywood nos últimos vinte anos! Apesar da boa vontade de seu superior, Hale (Demian Bichir), Ashburn fez alguma bobagem no passado e agora precisa provar o seu valor. O difícil será fazer isso numa investigação sobre traficantes onde terá que lidar com a grosseira Mullins (Melissa McCarthy). Obviamente que as duas parecem água e azeite na dificuldade que tem de se misturar, mas como o roteiro irá lhes mostrar elas não tem outra opção: vão ter que se entender - afinal, todos os filmes de duplas engraçadinhas precisam ser assim. As piadas do filme são de uma fazendo troça da outra, seja das roupas, do apartamento, da família... o roteiro é como um torneio de dardos de uma sobre a outra. Mas nada muito complicado ou denso para afugentar o público, afinal, apesar das personagens serem adultas vividas por atrizes com mais de quarenta anos, elas se comportam como adolescentes. Se Bullock faz o que pode para dar alguma densidade à sua personagem que parece possuir Transtorno Obsessivo Compulsivo até com os fios de cabelos, já Melissa faz o que está se tornando especialista: viver a gorducha grosseirona. Acho que esse é o maior problema do filme. Celebrada por sua atuação em Missão Madrinha de Casamento (2011), pela qual foi até indicada ao Oscar de coadjuvante. Melissa está presa ao tipo, correndo o risco de transformar suas comédias cada vez mais repetitivas. Talvez se ela mudasse de papel com Bullock o filme tivesse algum sabor de novidade. Dirigido por Paul Feig (o mesmo de Missão Madrinha...) o filme pode até gerar risadas, mas está longe de apresentar qualquer novidade para ser lembrado por mais de algumas horas. 

As Bem Armadas (The Heat/EUA-2013) de Paul Feig com Sandra Bullock, Melissa McCarthy, Demian Bichir, Marlon Wayans, Michael Rapaport e Taran Killam. ☻☻

sábado, 30 de agosto de 2014

§8^) Fac Simile: Sulley

James P. Sullivan
Ser monstro em Hollywood não é fácil, principalmente se você quer manter distância dos filmes de terror. Nosso repórter imaginário estava passeando pela Disney World quando encontrou James P. Sullivan, mais conhecido como "Sulley" de Monstros S/A (2001) e Universidade Monstros (2013), dois filmes de sucesso do estúdio, mas que não são garantias de trabalho para esse ator longe da franquia de sucesso. Nosso repórter não perdeu a chance e convenceu Sulley a lhe responder cinco perguntas nessa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Você fez dois filmes de enorme sucesso, mas percebemos que é difícil vê-lo em outras produções, existe muito preconceito com monstros na indústria?

Sulley: Bastante. Eu ainda tenho sorte de ser azul, uma cor que sempre tem oportunidades no cinema, mas nem sempre dou sorte. Sempre tem papel para criaturas azuis. Eu me depilei e fiz uma dieta rígida para filmar Avatar, mas James Cameron me recusou. Fiz teste para Os Smurfs, mas me acharam grande demais. Eu quase fui escolhido para fazer o Fera de X-Men, mas durante as aulas de musculação eu acabei tendo um problema nas costas e perdi o papel! Essas coisas acontecem o tempo todo. Eu também tentei fazer parte do Blue Man Group, mas eles preferiram colocar o Dr. Manhattan de Watchmen na vaga que surgiu. Disseram que eu perdia muito tempo tirando meus pelos. Mas tudo bem, enquanto não filmo eu trabalho aqui na Disney tirando fotos com os fãs!

§8^) Você falou de vários testes, mas convites para outros filmes, você recebe?

Sulley: Muitos, mas quando se tem contrato com a Disney você precisa ter alguns critérios. Me chamam sempre para fazer filmes de terror, mas eu recuso, tenho muitas crianças que me admiram e o efeito poderia ser desastroso para minha carreira. 

§8^) Soube que o Sylvester Stallone também te chamou para fazer Os Mercenários 3, mas você recusou...

Sulley: É, as filmagens aconteceram durante a divulgação de Universidade Monstros e eu acabei recusando o convite. Minha agenda ficou uma loucura naquela época... Sly disse que tinha escrito um papel especialmente para mim e que temos um tipo físico ótimo para filmes de ação, mas o papel acabou ficando com o Kelsey Grammer... o cara que foi o Fera em X-Men 2... ele parece estar sempre atento quando eu perco um papel. 

§8^) Qual foi o papel mais estranho que já te ofereceram?

Sulley: De vez em quando recebo uns convites para fazer uns filmes adultos, eu sempre acho tão esquisito. Principalmente porque alegam que tenho muitos fãs, homens e mulheres que desenvolveram uma espécie de fetiche por mim. Um povo que curte caras peludos... dá para acreditar numa coisa dessas? Minha namorada me mataria se fizesse um filme desses... kkk

§8^) Acha que tem relação com o fato de você não usar roupas? Devem achar que você lida bem com a nudez...

Sulley: Puxa! É verdade... ainda não tinha pensado nisso!

DVD: Universidade Monstros / Monstros S.A.

Sulley e Wazowski: como tudo começou. 

Existe um problema sério com as sequências de sucessos da animação - e nem precisa ser muito rabugento para perceber isso. Vejamos o exemplo de Monstros S/A (2001) o filme da Disney era uma delícia ao mostrar um mundo onde os monstros precisavam visitar às crianças durante a noite para assustá-las - e transformar a potência de seus sustos (ou gritos) em energia para o mundo em que viviam. Naquele universo particular, o grandão azul Sulley (voz de John Goodman) e o caolho verde Wazowski (voz de Billy Cristal) eram os melhores no que faziam. Além das piadas referentes ao funcionamento da empresa (o relacionamento com os colegas, a competitividade, as metas de produção, os acidentes de trabalho...), a dupla de amigos ainda tinham que lidar com um problema adorável: a menina Boo (Mary Gibbs) - que ensina aos dois que crianças não são tóxicas como imaginavam. Além disso, Boo descobre o que esses personagens tinham de mais adorável enquanto mergulhavam numa aventura de tirar o fôlego de crianças e adultos. Além de sucesso de bilheteria, o filme concorreu a quatro estatuetas no Oscars (ganhando a de melhor canção e perdendo a de melhor animação para o japonês A Viagem de Chihiro). Por muito tempo falou-se numa sequência para o filme, doze anos depois ela chegou aos cinemas com a história de como Sulley e Wazowski se conheceram na faculdade. Isso para os fãs é um deleite, especialmente por criar a possibilidade de conhecê-los antes de estabelecerem as personalidades que conhecemos no filme anterior. Não é segredo para ninguém que Sulley e Wazowski estão muito longe de ser assustadores (assim como a maioria dos monstrinhos criados para a série), mas em Universidade Monstros isso torna-se um grande dilema para os dois, especialmente para Wazowski que terá que se esforçar muito para provar que é um monstro de respeito - enquanto isso Sulley tem a sorte de ser de uma família famosa pelos sustos que proporciona, mas enfrenta problemas quando precisa conhecer outras técnicas para ser um monstro profissional. Só isso já está de bom tamanho, mas os roteiristas inventaram uma gincana entre os personagens para motivar as cenas de ação e as gracinhas da trama. O resultado pode até divertir, mas não fica muito longe do que vimos em filmes recentes como Os Estagiários (2013). É verdade que Universidade Monstros tem a (enorme) vantagem de possuir personagens com o carisma testado e comprovado anteriormente, mas o que poderia ser mais uma filmes divertido e original se transforma na velha história dos estudantes excluídos procurando formas de provar seus méritos. Assim, Sulley e Wazowski tornam-se coadjuvantes numa sátira de tantos outros filmes sobre adolescentes querendo provar o seu valor no universo escolar, com a diferença de serem monstros. Mais do que suar para vencer os concorrentes, os dois terão que ralar um bocado para contornar a preguiça dos roteiristas. O visual do filme permanece arrebatador, a fluência da narrativa é boa, mas nunca chega  a ter o frescor e originalidade do filme anterior. Embora divertido, Universidade Monstros é um tanto decepcionante para quem considera Monstros S/A uma das animações mais bem boladas do século XXI. 

Monstros S.A: frescor e originalidade. 

Monstros S/A (Monsters Inc./ EUA-2001) de Pete Docter, David Silverman e Lee Unkrich com vozes de John Goodman, Billy Cristal, Steve Buscemi, Jennifer Tilly e Mary Gibbs. ☻☻☻☻

Universidade Monstros (Monsters University/EUA-2013) de Dan Scanlon com vozes de John Goodman, Billy Cristal, Helen Mirren, Sean Hayes e Alfred Molina. ☻☻☻

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

DVD: O Passado

Rahim, Bérénice e Mosaffa: o passado ente culpas e segredos. 

Chega a ser covardia que qualquer filme tenha que rivalizar em nossa memória com A Separação/2011, o premiadíssimo filme de Asghar Farhadi. O drama era uma mistura inacreditável das relações humanas no Irã, temas como religião, família, diferença entre os sexos, ambições e uma série de outros elementos, se misturam com perfeição numa verdadeira obra-prima. Fica evidente que aguardado filme seguinte de Farhadi seria lançado sob o espectro do filme anterior. Talvez esse seja o motivo de  O Passado não ter empolgado tanto público e crítica pelo mundo, afinal as comparações são inevitáveis (e acarretaram a não indicação do filme ao Oscar de filme estrangeiro desse ano, o que muitos consideravam algo certo). Obviamente que o filme tem seus méritos, mas o tom  ainda mais intimista pode ter transformado a trama numa narrativa menos contundente, embora Farhadi construa seus dramas como suspenses, cheio de surpresas e reviravoltas que se revelam conforme os personagens traçam ações inesperadas que afetam quem está ao seu redor. Se em A Separação acompanhamos uma família em dissolução, em O Passado, encontramos uma família em construção (ainda que constituída com os retalhos de outras). A francesa Marie (Bérénice Bejo) está prestes a consumar o seu divórcio com o iraniano Ahmad (Ali Mosaffa) para que possa finalmente se casar com Samir (Tahar Rahim). Pairando sobre o trio está o filho de Samir, o menino Fouad (Elyes Aguies) e as filhas de Marie, a adolescente Lucie (Pauline Burlet) e a pequena Léa (Jeanne Jestin) - fruto de relacionamentos anteriores da personagem. Embora Ahmad não tenha filhos, seu relacionamento com as filhas da ex-mulher é bastante próximo, ao ponto de Marie utilizá-lo como uma espécie de pacificador para o conflituoso relacionamento com a filha adolescente - que não aceita o relacionamento dela com Samir. O cineasta promove o encontro um tanto torto entre os personagens, regado a diálogos ásperos, situações desconfortáveis e um mistério a ser resolvido: a causa da tentativa de suicídio da esposa de Samir (que encontra-se em coma). Enquanto os personagens tentam se encaixar numa residência que está, não por acaso, em reforma (afinal, a ideia é construir um novo lar para a nova família que se constitui), pequenas revelações acontecem sobre a situação da mulher que encontra-se inconsciente. Do desconforto constante de Samir, passando pela angústia de Lucie e a tensão quase descontrolada de Marie, sobra ao visitante Ahmad (que está prestes a cortar o laço com esses personagens) mediar os vários conflitos que se anunciam. Embora Bérénice tenha recebido o prêmio em Cannes de melhor atriz, seus parceiros de cena também merecem destaque pela generosa forma como passam o bastão um para o outro conforme a trama se desenvolve. Enquanto Bérénice está perdidamente humana na personagem, o excelente Ali Mosaffa (o marido de A Separação) carrega a serenidade de quem passou por maus bocados no passado e Tahar Rahim convence quando o filme deposita nele as emoções mais densas no desfecho quase inacreditável, afinal, uma personagem quase insignificante mostra-se fundamental para tudo o que acompanhamos desde o início. Entre culpas e mesquinharias, o filme mostra que o passado precisa ser purificado para que as possibilidades do presente possam ser alcançadas plenamente. O passado pode não ser uma obra-prima, mas é um filme interessante pela proposta de mover seus personagens, um tanto desconectados, para o ajuste de suas trajetórias.

O Passado (Le Passé/França-Itália-Irã/2013) de Asghar Farhadi com Bérénice Bejo, Ali Mosaffa, Tahar Rahim, Elyes Aguis e Pauline Burlet. ☻☻☻☻

terça-feira, 26 de agosto de 2014

NªTV: The Knick / Helix

The Knick: o pretensioso hospital de Soderbergh. 

Me preparo para todo tipo de ofensa ao terminar de escrever esse post, afinal, trata-se de minha humilde opinião de duas séries que estrearam recentemente no Brasil com ambições opostas e com aceitação um tanto divergente de crítica e público. The Knick é a badalada série de Steven Soderbergh que retrata a vida no hospital Knickbocker em nova York no início do século XX - com Clive Owen a frente do elenco -, a outra série é a menos pretensiosa Helix, criada por Cameron Porsandeh que tem Billy Campbell (o candidato azarado da primeira temporada de The Killing). Evidentemente que a crítica especializada está toda derretida pela nova obra de Soderbergh (e ele anda tecendo inúmeros elogios pela liberdade criativa que a TV lhe oferece). É verdade que podemos perceber todo estilo do cineasta a cada milimetro de The Knick, o uso de câmera na mão, o não uso de luz artificial, a edição um tanto desconexa... no entanto, ainda preciso de motivos para acompanhar o seriado. O próprio diretor diz que todos nós já vimos essa história de cotidiano hospitalar na TV e seu anseio é justamente mostrar como era no início do século XX, com todas as suas inovações e, ao mesmo tempo, um tanto de horror se comparado aos recursos que temos hoje. Embora crie arrepios com a autenticidade cênica das cirurgias mais escabrosas, Soderbergh promete se embrenhar cada vez mais nos lugares obscuros de seus personagens, especialmente do conceituado John Thackery (Cllive Owen), médico de prestígio que assume a tarefa de manter a reputação inovadora do hospital enquanto lida com seus vícios em cocaína e prostitutas orientais. Por enquanto The Knick chega ao seu terceiro episódio no Brasil, mas falta um pouco de foco no programa. A reconstituição de época é boa, os personagens são promissores, mas Soderbergh investe numa marcha vagarosa que cozinha o grande diferencial do seriado: profissionais inovadores frente às limitações de seu tempo. Nesse quesito o roteiro enrola na abordagem de temas como racismo (especialmente quando os médicos brancos precisam lidar com o colega negro vivido por André Holland), o sexismo (sobretudo com relação à enfermeira vivida por Eve Hewson) e até o otimismo de quem enxerga além de tudo isso (pelos olhos do residente cheio de expectativas vivido por Michael Angarano). O fato é que a liberdade autoral de Soderbergh não percebe o quanto sua pretensão engessa um bocado a narrativa, cozinhando em excesso as possibilidades de seus dez episódios. Até agora, a série exige disposição para embarcar nessa viagem no tempo que começa curiosa, mas que pode se tornar um tanto cansativa durante um episódio. Acho que a própria HBO notou isso ao relegar a série ao canal Max, famoso por exibir produções cabeças, obscuras e alternativas. Já Helix investe no caminho oposto. Ao abordar os problemas de uma base científica localizada no ártico, a série parece começar no meio da história para motivar o clima de mistério. Desde o início sabemos que os cientistas que trabalhavam ali descobriram (ou desenvolveram) um vírus perigoso, que destrói o organismo humano e é transmitido oralmente. Helix tem a difícil tarefa de não descambar para o trash, com sua trama que de certo verniz conspiratório e político, afinal não sabemos ao certo com que os personagens estão lidando, além disso,  estabelece conflitos num espaço onde convivem contaminados, suspeitos de contaminação, cientistas, veteranos, membros das forças armadas e agentes de controle de doenças que terão de colaborar de alguma forma se quiserem sobreviver. Pois é, você já viu essa história antes e, talvez, até melhor contada, mas o fato é que Helix consegue criar uma tensão interessante entre os personagens, sem perder de vista uma certa claustrofobia de conviver num ambiente que é, por si só, uma ameaça. Exibida em janeiro pelo canal SyFy americano, o seriado é exibido no Brasil pelo AXN e consegue costurar seus segredos com desenvoltura capaz de satisfazer os fãs órfãos de Lost e Arquivo X. Helix pode não ser genial (e acho que nem quer ser), mas consegue contar uma história que já vimos com eficiência, o que é um ganho diante de outras séries que tem ideias inovadoras, mas não sabem ao certo que história contar. Ao final de seus treze episódios, Helix foi renovada para uma segunda jornada no inverno de 2015!

Helix: suspense regado a nerdices, trashices e eficiência. 


The Knick (EUA) de Steven Soderbergh com Clive Owen, André Holland, Michael Angarano, Eve Hewson e Juliet Rilance. ☻☻

Helix (EUA) de Cameron Porsandeh com Billy Campbell, Jordan Hayes e Hiroyuki Sanada. ☻☻☻