domingo, 24 de abril de 2016

Na Tela: Ele Está de Volta

Hitler e sua nova assistente: o poder do discurso. 

Faz exatamente uma semana que terminei de ler Ele Está de Volta livro de Timur Vermes que chamou atenção nas livrarias por colocar Adolf Hitler vivo, por motivos desconhecidos, na Alemanha atual. Devo confessar que o livro me deixou bastante incomodado pelo seu senso de humor surreal, onde o fürher com seu visual e discursos conhecidos, logo é alçado à fama de comediante num canal de TV. Na época do Youtube, selfies e intolerância com os imigrantes na Europa, Hitler causa risadas, embora nem ele entenda muito bem o motivo. Há quem perceba que os risos são provocados pelas ideias do ex-ditador soarem como piada nos dias atuais. Será? Vale lembrar que o início de sua ascensão antes da 2ª Guerra Mundial, muitos já riam dele - e em tempos em que o milionário candidato à presidência americana Donald Trump e o deputado brasileiro Jair Bolsonaro convertem seguidores em eleitores, não creio que o discurso da extrema-direita possa ser interpretado como piada. O escritor Timur Vermes percebeu, notavelmente, que em tempos em que o mundo está desiludido com a política, muitos eleitores tendem a acreditar em discursos mais conservadores (por se apropriarem de uma certa "nostalgia" que alimenta a crença de que são os capazes de instaurar "a ordem" novamente). O livro Ele Está de Volta segue um incômodo tom cômico, deixando alguns momentos em que um ou outro personagem se preocupa com as apresentações de Hitler. Lançado na Alemanha em outubro de 2015 com sucesso de bilheteria, o filme Ele Está de Volta chega ao Brasil com distribuição pelo Netflix.  Assim como no livro, Hitler (vivido pelo bom ator Oliver Masucci) desperta num parque nos tempos atuais, sem saber o que aconteceu com o mundo a partir de 1945. Abrigado por um jornaleiro, ele devora informações sobre o cenário político-econômico mundial  e causa tanto estranhamento quanto risadas em quem cruza o seu caminho. Afinal, para muitos, o homem que afirma ser o fürher não passa de um louco. Não demora muito para que ele se torne uma celebridade televisiva controversa com a ajuda do cameraman Sawtzki (Fabian Busch) e da ambição da diretora Srª Bellini (Katja Rieman), mas será que alguém irá perceber que ele é Hitler em pessoa? O diretor David Wnendt consegue o feito de não ficar preso ao livro, mas se as cenas de câmera escondida soam um tanto desgastadas ao testar a reação do público com uma pessoa fantasiada de Hitler, por outro lado, ele cria um rumo mais eficiente para o último ato - que além de causar surpresa nos leitores, ainda funciona melhor do que o presente no livro (permanecendo a arrepiante frase "Nem tudo foi ruim" ao final). Por ressaltar o carisma do fürher, capaz de encantar o povo alemão, além da habilidade na elaboração de discursos (além de rompantes de fúria), pode se dizer que a adaptação de Ele Está de Volta é mais assustadora que o livro, afinal, revela ainda mais como o discurso do seu protagonista permanece vivo no cenário político mundial do século XXI. 

Ele Está de Volta (Er ist wieder da / Alemanha - 2015) de David Wnendt com Oliver Masucci, Fabian Busch, Katja Rieman, Christoph Maria Herbst e Franciska Wulf. ☻☻☻

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