segunda-feira, 12 de outubro de 2026

KLÁSSIQO: Vidas Amargas

Dean: filme de despedida. 

Saudoso diáriw, aproveitei toda a animação em torno da minissérie East of Eden da Netflix e procurei sua versão para o cinema realizada por Elia Kazan em 1955. Lançado por aqui com o nome de Vidas Amargas, o filme se tornou um clássico, muito pela presença de James Dean que tornou este seu último filme após falecer precocemente aos 24 anos de idade. Dean foi o primeiro ator a receber uma indicação póstuma ao Oscar de ator. No filme ele interpreta Caleb Trask, um dos filhos de Adam Trask (Raymond Massey) que sempre deixou clara sua insatisfação com o jovem, preferindo as atitudes do outro filho, Aron (Richard Davalos). O religioso Adam desde pequeno contou aos filhos que a mãe deles havia morrido, mas não é bem assim. O roteirista Paul Osborn optou por adaptar somente última parte da obra de John Steinbeck que se passa às vésperas da Primeira Guerra Mundial e que gira em torno de um triângulo amoroso formado pelos dois irmãos e a doce Abra (Julie Harris), deixando um mistério no ar sobre a mulher que Cal está sempre à espreita. Ela é Kate (Jo Van Fleet premiada com o Oscar de atriz coadjuvante), que possui um prostíbulo nas redondezas e parece muito bem resolvida com as escolhas que fez ao longo da vida. Elia Kazan enfatiza o tom de conflito entre a família Trask, no que ficou conhecido como uma releitura dos manos bíblicos Caim e Abel. O mais interessante é como Cal é apresentado como um adolescente rebelde um tanto desequilibrado até percebermos os traumas e mentiras que envolveram sua infância e adolescência. O diretor sabe utilizar muito bem o ar de vulnerabilidade do astro James Dean, que tem um bom trabalho apesar de alguns exageros melodramáticos que eram comuns no período de produção. O longa também concorreu aos Oscars de direção e roteiro adaptado naquele ano. 

Vias Amargas (East of Eden / EUA - 1955) de Elia Kazan com James Dean, Julie Harris, Richard Davalos, Jo Van Fleet, Raymond Massey, Burl Ives e Lois Smith. ☻☻☻

NªTV: East of Eden

Pugh: atuação impecável. 

Elogiado diáriw, a atual produção mais badalada da Netflix é esta minissérie de sete episódios baseada na obra de John Steinbeck. Parte do livro já havia chegado às telas pelas mãos de Elia Kazan em 1955 e a neta dele, Zoe Kazan, resolveu adaptar toda a obra. Antes de comparar o filme com a minissérie é bom lembrar que o formato em episódios permite trabalhar muito mais os personagens, especialmente Kathy (em um desempenho estupendo de Florence Pugh) que deixou de ser a mulher que abandonou os filhos para ter sua história conturbada exibida na telinha. A personagem é a que mais ganha nuances nesta nova produção, ao mesmo tempo que os crimes cometidos por ela também recebem atenção. Na minissérie ela é acolhida pelos irmãos Adam (Christopher Abbott) e Charles (Mike Faist) após ser agredida e deixada a beira da morte. Aos poucos conhecemos sua história e como Adam se apaixona por ela ao ponto de achar que poderia dirigir a vida da esposa. Ambientado no árido Vale das Salinas na Califórnia entre o período da Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial, o tom épico daqueles personagens perante a História dos Estados Unidos se enriquece ainda mais com coadjuvantes importantes como Lee (Hoon Lee), o filho de chineses nascido nos na Terra do Tio Sam e que não encontra espaço para viver o sonho americano. O elenco, a direção, a ambientação e todo resto é de uma perfeição de encher os olhos, mas em meio a tantos destaques nada brilha mais do que Florence Pugh na pele de Kathy. Todo mundo já sabe que a inglesa de é uma grande atriz, mas o que ela faz aqui a coloca entre as maiores atrizes em atividade (entreguem logo um Oscar para ela). A cena em que reencontra Aaron e tenta disfarçar o choro com uma risada é de partir o coração. A obra que era sempre lembrada como uma releitura de Caim e Abel, ganhou uma versão impecável que é impossível parar de assistir. 

East of Eden (EUA - 2026) de Garth Davis e Laure de Clermont-Tonnerre com Florence Pugh, Chritopher Abbott, Mike Faist, Ciarán Hinds, Joseph Zada, Martha Plimpton, Tracy Letts e Hoon Lee. ☻☻☻☻☻

domingo, 11 de outubro de 2026

.Doc: A Artista e o Ladrão

Bertil e Barbora: amizade improvável. 

Surpreso diáriw, em abril de 2015 duas pinturas grandes e das mais valiosas da artista Barbora Kysilkova foram roubadas à luz do dia da Galleri Nobel no centro da cidade de Oslo. Apreensiva diante da situação, Barbora acompanha a investigação que descobre quem são os ladrões que irão a julgamento. Embora o mandante do crime seja desconhecido, a artista tem curiosidade de conversar com um dos ladrões, o norueguês Karl Bertil Nordland, um criminoso de currículo extenso. Obviamente que existe a curiosidade da pintora descobrir mais sobre o caso, mas enquanto Bertil argumenta não lembrar de nada devido ao efeito das drogas, Barbora começa a se interessar pela história pessoal rapaz. O laço entre os dois se firma de vez quando ela o utiliza como modelo para um dos seus quadros e ele fica em choque e depois chora ao ver a obra pronta. A cena foi a que motivou o diretor Benjamin Ree a estender as filmagens de seu curta-metragem por anos e acompanhar aquela relação de amizade improvável de 2016 até 2019. No decorrer dos anos conhecemos um pouco mais sobre a o passado de Bertil e sua capacidade autodestrutiva e como isso provocou alguma identificação em Barbora que canaliza esta energia perigosa para fazer arte. Premiado em Sundance, o filme se desenvolve de forma surpreendente e possui cenas marcantes, como aquela em que Bertil lembra quando foi afastado dos irmãos ainda muito pequeno, sua carreira como marceneiro e o trabalha com crianças com dificuldade de aprendizagem antes do vício em substâncias ilícitas. Enquanto isso  Barbora a se sentir uma pessoa pior quando começa a fazer terapia. Fosse uma obra de ficção, A Artista e o Ladrão seria considerado absurdo, mas é uma história real emocionante sobre vidas opostas que se encontram. 

A Artista e o Ladrão (Kunstneren og tyven / Noruega - EUA/ 2020) de Benjamin Ree com Barbora Kysilkova, Karl Bertil Nordland e Øystein Stene. ☻☻☻☻ 

10+ Cotados para o Oscar 2027

 A temporada de ouro se aproxima e com ela os lançamentos que ambicionam uma vaga nas premiações começam a ser lançados nos cinemas de olho no Oscar do ano que vem. Embora alguns filmes lançados ao longo do ano como A Odisseia, Devoradores de Estrelas, O Convite e Obsessão devem garantir vagas nas categorias principais, seus maiores concorrentes devem chegar aos cinemas na reta final do ano. A seguir os dez filmes que devem dar o que falar nos próximos meses:

#01 "A Bola Negra" de Javier Calvo e Javier Ambrossi
Exibido e premiado no Festival de Cannes o filme foi comprado pela Netflix que deve investir pesado para conquistar preciosas indicações. O filme interliga três vidas em períodos históricos diferentes para abordar a homossexualidade através dos tempos. Com participação especial de Glenn Close e Penelope Cruz, a produção franco-espanhola é a favorita na categoria de filme internacional, mas a concorrência será pesada com o polonês Fatherland, o romeno Fjord, o austríaco Rose e o francês Minotauro no páreo. 

#02 "A Grande Estreia" de Jesse Eisenberg 
Julianne Moore está cotada para levar seu segundo Oscar! Ela vive uma dona de casa que sempre sonhou ser atriz e que consegue um papel em uma peça de teatro local, mas precisa lidar com  um diretor exigente (Paul Giamatti que pode ser premiado como coadjuvante). Não sou grande fã do último filme do Eisenberg como diretor, mas a ideia e o elenco deste são bem interessantes. 

#03 "Artificial" de Luca Guadagnino
Esta comédia dramática aborda a crise de cinco dias da OpenAi em dezembro de 2023, crise que rendeu a demissão do CEO Sam Altman (vivido por Andrew Garfield) e sua recontratação pouco tempo depois. O filme não gerava grandes expectativas até sua primeira exibição que deixou muita gente animada com o resultado que lança um olhar bastante atual sobre nossa relação com a tecnologia. Yura Borisov e Monica Barbaro reforçam o elenco.

#04 "Behemoth!" de Tony Gilroy
Pedro Pascal indicado ao Oscar? Muita gente aposta que sim! O ator chileno está bastante elogiado por seu trabalho neste filme em que interpreta um violoncelista nascido em uma família de músicos que retorna para Los Angeles após 20 anos viajando pelo mundo. Prestes a gravar a trilha sonora de um filme, o músico se reencontra com seu passado. No elenco ainda estão Olivia Wilde, Will Arnet e Hank Azaria.

#05 "Cavalo Selvagem 9" de Martin McDonagh
John Malkovich foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e com isso cravou seu favoritismo ao Oscar do ano que vem. O ator que andou meio esquecido pelo Academia já tem duas indicações no currículo e será que agora leva? Ele vive um agente secreto que enfrenta uma missão de confiança no Chile no ano de 1973 , ao seu lado o parceiro, Lee (Sam Rockwell) ajuda na empreitada. 

#06 "Digger" de Alejandro González Iñárritu
Com Malkovich no páreo o favoritismo de Tom Cruise está em risco por seu trabalho nesta comédia ácida e absurdista (ou seria premonitória?). As críticas divisivas também podem dificultar as ambições do astro que se esforça bastante no papel do bilionário que coloca o mundo em risco com uma escavação arriscada na Groenlândia. Recém lançado no Brasil, o filme cheio de exageros tem como unanimidade a direção de arte, a maquiagem e o trabalho de Cruise que fazia tempo não se arriscava tanto em uma produção. 

#07 "Elsinore" de Simon Stone
Ian Charleson (Andrew Scott) é um talentoso ator inglês que aceita interpretar Hamlet em uma montagem ambiciosa do National Theatre. O trabalho se torna um desafio ainda maior porque Ian trava uma luta particular com o HIV o que torna a proposta a chance de realizar o grande trabalho de sua vida. A crítica caiu de amores pelo trabalho do (sempre bom) Andrew Scott - o que deve ajudar bastante ao ator cravar sua primeira indicação ao prêmio. Ainda no elenco Olivia Colman e Billie Piper. 

#08 "Ink" de Danny Boyle
Será que o escocês Danny Boyle retornará ao Oscar em grande estilo? Os fãs dizem que sim pelo seu trabalho ao contar a história do famoso jornal "The Sun" que em 1969 foi comprado por um magnata da mídia que ao lado do editor que tornou o tablóide no mais influente da Grã-Bretanha. No elenco estão Jack O'Connell, Guy Pearce e Claire Foy. Ponto negativo: o uso de IA na produção gera polêmicas. 


#09 "Primetime" de Lance Oppenheim
Enquanto o Oscar de melhor atriz deve ficar entre Julianne Moore e Inde Naravete, o de melhor ator sofre um congestionamento de candidatos ao prêmio. Robert Pattinson engrossa a fila com seu trabalho neste filme que demonstra as ambições por trás de um icônico programa jornalístico. Pattinson vive o complexo Chris Hansen que com sua audácia revolucionou o jornalismo da época. Vale lembrar que depois de tantos bons trabalhos tá na hora do Oscar lembrar do ator.

#10 "The Social Reckoning" de Aaron Sorkin
David Fincher ficou de fora da direção de seu sucesso A Rede Social (2010) porque está ocupado demais filmando a continuação de Era Uma Vez em Hollywood (2019) no lugar do Tarantino (As Desventuras de Cliff Both da Netflix e estrelado por Brad Pitt seria o número onze desta lista). Sendo assim, a direção deste aqui ficou com o roteirista premiado Aaron Sorkin que agora conta a história de anos depois em que Mark Zuckerberg (agora vivido por...) admite saber todos os maléficios provocados por sua criação e... lucra com isso! Será que o filme repetirá o mesmo sucesso do original? 

sábado, 10 de outubro de 2026

PL►Y: Acampamento Miasma

Gillian: diva do terror. 

Nostálgico diáriw, a diretora Jane Schoenbrun é responsável por Eu Vi o Brilho da TV (2024), um dos filmes mais interessantes daquele ano. Em 2026, ela exibiu seu novo filme na mostra Un Certain Regard  no Festival de Cannes e saiu de lá premiado com a Queer Palm. Acampamento Miasma é sobre uma famosa franquia de terror slasher iniciada ao final dos anos 1970 e que perdeu fôlego ao longo de várias continuações caça-níqueis. A história sobre o serial killer chamado Pequena Morte (o nome de inspiração francesa não é por acaso) que assombrava o acampamento em que foi morto pelos colegas caiu no ridículo depois de anos de produções ruins. A fama da saga é apresentada logo no início com recortes de jornal, brinquedos e cartazes que narram a trajetória da franquia de forma bastante concisa até que Kris (Hannah Einbinder), uma diretora indie diante do seu primeiro sucesso em festivais é convidada a reiniciar a franquia. Ela vai em busca da protagonista do primeiro filme, Billy Presley (Gillian Anderson, perfeita) que após o sucesso da personagem resolveu se afastar dos holofotes e vive décadas depois nas locações do filme. Kris fica intrigada com a atriz veterana e começa a ter ideias para o novo filme a ser protagonizado pela misteriosa atriz. O filme mistura o olhar sobre o gênero de Pânico (1996) com o clássico Crepúsculo dos Deuses (1950) para que a diretora utilize o terror mais uma vez para falar sobre a sexualidade de seus personagens. Porém, apesar dos jorros de sangue, o filme investe mais no romance entre as protagonistas (pena que Hannah Einbinder me parece ingênua demais no papel de Kris). Com um filme dentro do filme e uma mistura de ficção e realidade, o filme não consegue ser tão fascinante quanto o trabalho anterior da diretora, mas cria momentos bastante envolventes em paisagens surreais. 

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma / EUA - 2026) de Jane Schoenbrun, com Hannah Einbinder, Gillian Anderson, Jack Haven, Jasmin Savoy Brown, Aren Buchholz, Kevin McDonald, Ryan McEwen e Amanda Fix. ☻☻☻

NªTV: Meus Mortos Tristes

Morán: Laços espirituais de família. 

Assombrado diáriw, esta minissérie que chegou no final de setembro na Netflix conta a história de Ema (Mercedes Morán, que lembra muito a Carmela Soprano, ou melhor, a Edie Falco), uma médica que desde pequena dizia que conseguia ver e conversar com os mortos. As pessoas ao seu redor parecem nunca levar isso a sério. Agora, após anos cuidando da mãe enferma, ela presencia lidar com o espírito da matriarca chorando todos os dias na residência em que viveram juntas. A experiência se torna ainda mais intensa quando Ema se aposenta e fica mais tempo em casa e lidando com o relacionamento tenso com a filha (Dolores Fonzi), a visita da irmã que foi viver nos Estados Unidos com o marido e a filha, Julie (Carolina Álvarez) que enfrenta problemas por ter a mesma habilidade de Ema - só que as utiliza de forma diferente,  digamos um tanto... prazerosa. Em uma cidade repleta de espíritos, a direção do chileno Pablo Larraín, carrega as expectativas do público para outro caminho o que pode causar algum estranhamento (assim como a fotografia em tons de rosa desbotado). Sem sustos, a relação entre os fantasmas e as videntes falam muito mais sobre a forma como nos relacionamos com as lembranças de quem se foi do que com uma história de terror. Ao longo da trama a cidade parece invadida por almas penadas vistas por outros personagens, a maioria por conta dos conflitos que ocorrem na região, tornando o mundo dos vivos e dos mortos cada vez mais próximo. O destaque da narrativa fica por conta da relação de Ema com Julie, que se torna a alma da história até o desfecho com sabor de família reunida. Particularmente gosto muito mais quando Larraín filma fora de Hollywood, embora aqui eu considere que valeria ter enxugado a trama para caber em um longa-metragem. Uma obra interessante.

Meus Mortos Tristes (Mis Muertos Tristes / Chile - Argentina / 2026) de Pablo Larraín com Mercedes Morán, Dolores Fonzi, Alejandra Flechner, Carolina Álvarez, Carlos Portaluppi, Luz Jimenéz, Germán da Silva e Pablo Schwarz. ☻☻☻

terça-feira, 6 de outubro de 2026

4EVER: Eva Marie Saint

04/07/1924 ✰ 06/10/2026
Nascida em Nova Jersey em 1924, a atriz faleceu aos 102 anos se tornando uma das últimas estrelas da era de ouro de Hollywood. Após trabalhos na TV, a diva estreou no cinema em Sindicato de Ladrões (1954) de Elia Kazan e por ele recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Em 1990 ganhou um  Emmy também de coadjuvante por seu papel em People Like Us. Em nove décadas de carreira, ela participou de outros clássicos como Intriga Internacional (1959), Exodus (1960) e foi até Martha Kent em Superman: O Retorno (2006). A atriz faleceu de causas naturais. 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

PL►Y: Eu Já Fui Engraçada

Rachel: em busca de si. 
Traumatizado diáriw, este filme canadense chamou minha atenção pelo título incomum e pela presença de Rachel Sennott que é uma das jovens atrizes mais interessantes do cinema atual. Eu não sabia muito bem qual era a história e a sinopse sobre uma jovem comediante de stand up que tenta encontrar uma garota que ela tomava conta não ajuda muito. Aos poucos você começa a desvendar o tema do filme e quando ele terminou, só pensei que ele merecia mais atenção em sua época de lançamento. Primeiro por misturar temas bastante complicados e, ainda que por vezes os embole durante seu desenvolvimento, o resultado ainda consegue ser bastante acima da média, sobretudo pela sinceridade com que conduz a trama. Não existe uma redenção ou momento catártico que irá salvar as personagens, existe no centro uma relação de amizade que sofre um corte brusco e violento que causa cada vez mais desconforto enquanto não consegue ser confrontado. Rachel Sennott dá conta de uma personagem que transita entre as idas e vindas da narrativa, entre o passado em que se apresentava em shows de humor, se sustentava cuidando da adolescente  Brooke (Olga Petsa), namorava com Noah (Ennis Esmer) e se divertia com os amigos (Sabrina Jalees e Caleb Hearon), já no presente a personagem não sabe muito bem como lidar com um trauma que tirou toda sua vida dos trilhos. A atriz consegue elaborar a personagem nestes momentos distintos com bastante desenvoltura. Depois de dirigir curtas, clipes e séries de televisão, a diretora e roteirista Ally Pankiw faz uma estreia bastante promissora em longa-metragem e consegue estruturar o drama central como uma espécie de suspense que se desvenda aos poucos. Algumas situações do roteiro poderiam ser mais lapidadas, mas nada que comprometa o resultado final. 

Eu Já Fui Engraçada (I Used to Be Funny / Canadá -Reino Unido - 2024) de Ally Pankiw com Rachel Sennott, Olga Petsa, Jason Jones, Sabrina Jalees, Caleb Hearon e Ennis Esmer. ☻☻☻

FILMED+: Pulp - Até Onde Você Vai Por um Bis?

Jarvis: puro suco do britpop.
Amado diáriw, aguardei ansiosamente para a estreia do documentário Pulp: Até Onde Você Vai por Um Bis? na Mubi e assim que o documentário acabou, eu assisti tudo de novo. A produção acompanha o show de nº 566 da banda que foi realizado na lendária O2 Arena em Londres. O show fazia parte da turnê de volta de banda que lançou o álbum More em 2025 quebrando um hiato de 24 anos sem lançar material inédito. Eles até realizaram alguns show aqui e ali, mas os fãs acreditavam que o retorno da banda era cada vez mais incerto. O show ainda rendeu um (ótimo) álbum ao vivo e o documentário faz parte do pacote celebratório em torno da banda do mítico Jarvis Cocker, um dos vocalistas mais interessantes do universo. Dirigido or Garth Jennings, o filme traz cenas de palco entrelaçada com vários registros da banda desde o seu início em 1978 na cidade de Sheffield. A trajetória do Pulp é contada de forma bastante concisa e descontraída pelo vocalista, tornando a produção ainda mais envolvente pelo seu tom bem humorado. Cocker (e lógico que fazem piada com o sobrenome do moço) revisita os álbuns da banda, que inicia meio folk, passa pelo gótico, pela influência da música eletrônica até ganhar o público com toda essa mistura (que inclui Barry White também) no início dos anos 1990 até explodir no sucesso do álbum Different Class (1995). Eu conheci a banda nessa época (ouvindo Disco 2000 e Common People no Lado B da MTV. Bons tempos!). Durante pouco mais de hora e meia de duração, você entende o motivo do Pulp ter se tornado uma banda icônica do britpop. Enquanto Blur e Oasis se matavam por popularidade, a banda de Sheffield parecia estar mais preocupada com o visual retrô e suas esperiências sonoras inconfundíveis. Confesso que sou fã mas já está na minha lista de filmes favoritos do ano. 

Pulp: Até Onde Você Vai por Um Bis (Pulp: What Do You Do for an Encore / Reino Unido - 2026) de Garth Jennings com Jarvis Cocker, Nick Banks, Candida Doyle e Mark Webber e Mark Sainsbury. 
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domingo, 27 de setembro de 2026

PL►Y: Sem Cortes

Kieron: entre personas. 

Polêmico diáriw, ao ser exibido em Festivais e lançado em circuito indie restrito nos Estados Unidos, Sem Cortes recebeu elogios pela ousadia com que constrói os temas em torno do encontro de seus dois personagens principais. Aaron (Kieron Moore) ganha a vida fazendo vídeos eróticos na internet. Uma noite ele é contratado por um dos seus admiradores (Hank Grant), mas o chegar no local do encontro, o homem encapuzado parece querer mais conversar do que fazer outras coisas. Ao longo da conversa, Aaron percebe que existe algo estranho no interesse daquele homem por ele e a coisa se torna ainda mais complexa quando descobre que aquele senhor de cabelos brancos é alguém do seu passado. Este é o longa de estreia de Elliot Tuttle que também assina o roteiro e merece atenção pela coragem com que demonstra interesse em desvendar a personalidade de um personagem tão perigoso quanto o cliente vivido pelo veterano Hank Grant. Ao longo dos diálogos travados entre os dois personagens vemos as camadas de desejo e solidão vividas por ambos, sendo que sempre sempre que o personagem mais velho está em questão, um arrepio percorre a mente do espectador. A produção aborda um tema pesado, mas o faz pelos olhos de Aaron que parecia tão seguro em sua persona online, mas que mostra-se vulnerável ao se reencontrar com seu passado. Sua curiosidade e tentativa de desvendar a mente de seu interlocutor gera situações e emoções que ele nem imaginava reviver. Embora o texto tenha um grande potencial para os palcos (somente dois atores, longos diálogos e somente uma locação), o diretor e o elenco espantam qualquer vestígio de teatro filmado. Embora o sexo seja algo presente desde a primeira cena, a forma como ele e tratado aqui é bastante diferente. Considero o filme uma grande surpresa.

Sem Cortes (Blue Film / EUA - 2025) de Elliot Tuttle com Kieron Moore e Hank Grant. ☻☻☻☻

PL►Y: Bom Garoto

Anson Boon: reabilitação forçada. 

Provocador diáriw, além de O Aniversário, o diretor polonês Jan Komasa lançou outro filme em língua inglesa que está disponível no streaming. Chamado por aqui de Bom Garoto (mais um... aff) o filme se tornou um dos mais controversos do ano passado. O longa conta a história de Tommy (um furioso Anson Boon, um daqueles jovens atores que merece atenção), um rapaz de 19 anos que vive uma rotina de drogas, bebida e violência até que em uma noite em que está completamente dopado, ele é sequestrado. Ele acorda em um porão, com uma coleira acorrentado à uma parede e será submetido a um processo de "reabilitação" forçada comandado por um estranho casal. Chris (Stephen Grahan) e Kathryn (Andrea Riseborough) demoram a demonstrar o que está por trás de suas intenções com o rapaz, mas aos poucos, Tommy e o espectador começam a entender o que está acontecendo. Obviamente que a situação absurda deixa Tommy com medo e revoltado, mas a presença do menino Jonathan (Kit Rakusen) e da diarista Rina (Monica Frajczyk) trarão outras nuances para a temporada em que o rapaz participa do estranho confinamento. Komasa capricha na estranheza da história e se de início concebe Tommy como uma variação do protagonista do aclamado Corpus Christi (2019), aos poucos o desenvolve por outros caminhos. O bom elenco capricha na bizarrice das relações daquela família e embora o filme se repita em algumas cenas, o diretor segura a tensão até o final quando apresenta ao espectador um final surpreendente. A trama que caminha entre dois extremos representada por Tommy e a família que o captura se perde um pouco quando precisa desenvolver o arco de Rina, mas nada que torne o filme menos interessante. 

Bom Garoto (Heel / Polônia - Reino Unido / 2026) de Jan Komasa com Anson Boon, Stephen Graham, Andrea Riseborough, Kit Rakusen, Monica Frajczyk e Savannah Steyn. ☻☻☻☻

sábado, 26 de setembro de 2026

PL►Y: O Aniversário

Kyle e Diane: família em apuros. 

 Assustador diáriw, ouvi muitos comentários sobre este filme que está em cartaz no Prime Video e fiquei muito contente em saber que é dirigido pelo polonês Jan Komasa que dirigiu o excepcional Corpus Christi (2019), que foi indicado ao Oscar no mesmo ano em que lançou o ótimo Rede de Ódio (2020) - façanha que rendeu a ele o título de melhor diretor aqui no blog em 2020. Komasa permanece com sua verve contundente para abordar temas atuais, aqui ele usa o microcosmo de uma família para apresentar ao longo de anos os efeitos de uma sociedade que se permite seduzir pelo discurso antidemocrático. Ellen Taylor (Diane Lane) é uma professora universitária que está prestes a completa 25 anos de casamento com o esposo, Paul Taylor (Kyle Chandler). O casal feliz e unido compartilha a vida com três filhas e um filho (Dylan O'Bryen) que aproveita a comemoração para apresentar a namorada, Elizabeth (Phoebe Dynevor). Acontece que Ellen reconhece Elizabeth como uma de suas ex-alunas, especialmente por conta de um controverso trabalho apresentado durante o curso. A suspeita de que a moça não se aproximou de seu filho por acaso só cresce e a coisa piora conforme o tal trabalho mostra-se o alicerce para uma mudança sócio-política no país. Komasa conta a dissolução desta família em uma sociedade que persegue qualquer pensamento divergente. Se a ideia parece a gênese de uma distopia, ela se torna ainda mais arrepiante quando percebemos semelhanças com o mundo em que vivemos atualmente. Komasa conta esta história com atmosfera novelesca que ganha contornos cada vez mais assustadores. Embora peque pela falta de sutileza, o filme funciona como uma alegoria sem firulas sobre rumos não tão distantes do mundo atual. 

O Aniversário (The Aniversary / EUA -2025) de Jan Komasa com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O'Bryen, Zoey Deutch, Madeline Brewer, McKenna Grace e Daryl McCormack. ☻☻☻☻ 

PL►Y: Pais

Søren e Bodil: jovens de novo. 
Complexo diáriw, faz tempo que estava em busca do filme de estreia do dinamarquês Christian Tafdrup na direção. Christian começou a carreira como ator e alcançou prestígio com seu terceiro longa, Speak no Evil (2022) que recebeu até uma versão hollywoodiana (pavorosa) em  2024. Levando em conta a cronologia dos seus filmes, podemos dizer que ele buscou aprimorar sua capacidade de provocar desconforto na plateia, especialmente na forma como apresenta seus personagens aparentemente comuns até que explore suas relações de forma inusitada. Em Pais ele inicia isso ao apresentar um casal maduro que acaba de ver o filho ir para faculdade. Com a vida universitária, o rapaz se distancia cada vez mais dos pais, principalmente quando encontra uma namorada e a rotina de festas e compromissos se torna constante. A mãe é quem mais sofre com a "síndrome do ninho vazio" e na busca de melhorar a rotina, o casal resolve voltar para o apartamento em que viviam antes do nascimento do filho. É um lugar pequeno (se comparado com a casa que ficou grande demais) e que passa a ser ajeitado para evocar o passado. Eis que os dois acordam jovens novamente e as relações familiares se alteram perante a inconsequência da juventude. Tafdrup afirma que a trama é inspirada em um sonho (ou seria pesadelo?) e a ideia surreal ganha atmosfera onírica em suas mãos. Achei muito interessante a forma como o diretor aborda a mudança na postura dos pais quando rejuvenescem como se perdessem as referências de si mesmos e de tudo o que construíram até ali, mas a ideia perde força quando se esquiva de aprofundar os aspectos mais polêmicos da relação entres os personagens deixando que o espectador crie sua própria leitura rumo ao desfecho. 

Pais (Forældre / Dinamarca - 2015) de Christian Tafdup com Søren Malling, Bodil Jorgensen, Elliott Crosset Hove, Miri Ann Beuschel, Anton Honik e Christian Tafdrup. ☻☻☻

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PL►Y: De Volta ao Mar

Saoirse: talento em filme caótico.  

Picotado diáriw, acho que existe um consenso de que a irlandesa Saoirse Ronan é uma grande atriz. Com 32 anos de idade e 23 anos de carreira, ela já possui quatro indicações ao Oscar e todo filme que ela aparece cogitam que outra indicação acontecerá. Foi o que aconteceu com este De Volta ao Mar, em que vive uma jovem alcóolica que tenta colocar a vida novamente nos eixos. Saoirse foi muito elogiada pelo seu trabalho, mas o fato de ser um filme europeu independente e sem muito apelo junto ao público dos Estados Unidos acabou a deixando de fora das grandes premiações. O fato da diretora alemã Nora Fingscheidt optar por contar sua história embaralhando o tempo, com idas e vindas entre passado e presente, também dificulta apreciar o desenvolvimento da personagem, que hora está bem, hora está em crise, hora tem recaída... entender em que fase a personagem está guiado pela cor do seu cabelo é um exercício que cansa antes da metade da sessão. Entre a relação com a família, com o namorado, com os amigos e com a reabilitação, o roteiro ainda costura toda a narrativa com algumas curiosidades gerais que funcionam como analogias à situação da personagem durante as fases de sua vida. Embora Saoirse esteja ótima em cena e conte com "pais" do porte de Stephen Dillane e Saskia Reeves, acompanhar as duas horas de montagem aleatória transforma o filme em uma jornada árdua. É um daqueles casos em que me pergunto se o filme não seria melhor se seguisse uma narrativa linear. Baseado no livro de memórias da jornalista e escritora escocesa Amy Liptrot (será que a narrativa do livro é um fluxo de consciência e o filme tentou fazer o mesmo?) o que achei mais interessante foi a ambientação nas Ilhas Órcades localizadas na Escócia. 

De Volta ao Mar (The Outrun / Reino Unido - Alemanha / 2024) de Nora Fingscheidt com Saoirse Ronan, Paapa Essiedu, Saskia Reeves, Stephen Dillane, Nabil Elouahabi, David Garrick e Izuka Hoyle. ☻☻

PL►Y: O Homem que Sussurra

Robert e Adam: sobre pais e filhos. 
Prezado diáriw, nas últimas semanas ouvi muitos comentários sobre uma produção da Netflix abraçada pelo público, mas que a crítica estava torcendo o nariz. Resolvi ver o filme para chegar às minhas próprias conclusões. O filme é baseado no livro de Alex North e conta a história de um escritor que volta à sua cidade natal após a morte da esposa. Tom Kennedy (Adam Scott) imagina que voltar para as origens pode ser positivo para o filho, Jake (Acston Luca Porto), mas o moço nem cogita voltar a ter contato com o pai (Robert De Niro), um policial aposentado que ficou conhecido na região por sua investigação sobre um serial killer chamado Homem que Sussurra. No entanto, décadas depois, uma série de crimes semelhantes começam a acontecer e uma detetive (Michelle Monaghan) precisa da ajuda do veterano para entender o caso. Tom já tem problemas demais e quer distância de tudo isso, mas, quando o pequeno Jake desaparece, o principal suspeito é o criminoso que repete os procedimentos do famoso assassino - e pai e filho precisam esquecer a roupa suja para ajudar na investigação. Embora tenha um bom elenco e a direção de James Ashcroft seja esforçada, é difícil disfarçar algumas situações difíceis de engolir no roteiro (o próprio retorno de Tom para aquela cidade traumática não faz sentido), mas a forma como o longa insere personagens intrigantes na trama ajuda a prender atenção (embora apresente dificuldades em trabalhar os nós das relações entre pais e filhos). Se Robert De Niro está com cara de que fez o filme para pagar boletos, destaco o trabalho de Michael Keaton como o personagem do título e um irreconhecível Hamish Linklater como um sujeito muito estranho. Não é uma obra-prima, mas deixa a plateia curiosa até o final.

O Homem que Sussurra (The Whisper Man / EUA - 2026) de James Achcroft com  Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan, Michael Keaton, Hamish Linklater, Acston Luca Porto e Owen Teague. ☻☻☻

domingo, 20 de setembro de 2026

PL►Y: No Caminho

Victor: fugindo do passado. 

Ousado diáriw, achei afrontoso o México indicar para tentar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro o drama No Caminho que está em cartaz na HBOMax. O filme conta a história de Veneno (Vitor Prieto Simental), um jovem rapaz que está  fugindo para algum lugar que nem ele mesmo sabe direito onde fica. Aos poucos descobrimos que na verdade ele não está fugindo para um lugar, mas de um lugar que gostaria de nunca ter estado. Devido à sua fuga, ele passa a ser procurado sem ninguém saber ao certo o motivo. Quem aceita lhe ajudar é Muñeco (Osvaldo Sanchez), um caminhoneiro que está distante da família faz tempo e, devido a problemas com as drogas, não tem previsão de ver seus filhos tão cedo. A bordo do caminhão que atravessa estradas poeirentas do México, eles ensaiam algumas conversas até que se tornam próximos. A proximidade só aumenta com a sensação de solidão e isolamento, mas enquanto Veneno imagina que algo sério possa nascer dali, Muñeco não está disposto a ceder um espaço ao parceiro de viagem em sua vida. A coisa complica quando um crime atravessa o caminho da dupla e as desconfianças podem colocar a vida dos dois em risco. Sem  pudores em apresentar cenas tórridas e genitais masculinos expostos, dificilmente o filme cairá no gosto dos votantes do Oscar. O diretor David Pablos  marca a narrativa com um tom de desespero baseado na necessidade dos personagens principais se apegarem um ao outro, embora as circunstâncias se tornem cada vez mais hostis. O resultado  é uma história de amor marcada pela violência com um final assustador. Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez apresentam bons trabalhos em personagens complicados e bem que mereciam um final feliz diante das mazelas do roteiro.  

No Caminho (En El Camino / México - 2025) de David Pabloc com Victor Prieto Simental, Osvaldo Sanchez, Victor Manuel Aguirre, Mariano López Sosa, Giovanni Ontiveros e Héctor Cárdenas. ☻☻☻

PL►Y: Vestido Maldito

Fatma e Marianne: sinistrices. 
Enfeitiçado diáriw, o inglês Peter Strickland é um dos diretores mais curiosos de seu país. Seus longas geralmente possuem um ritmo muito particular, direção de arte caprichada e uma atmosfera hipnótica, geralmente caprichando no suspense alimentado pela estranheza. Foi assim com Berberian Sound Studio (2012), com O Duque de Burgundy (2015) e de forma ainda mais escancarada com este Vestido Maldito. O filme conta a história de um vestido vermelho que está destinado a complicar a vida de quem  o usa. Foi assim desde a primeira modelo que o vestiu para um catálogo e a maldição segue quando Sheila (a ótima Marianne Jean-Baptiste) o compra para vestir em um encontro. A começar com o que parece um problema alérgico, a coisa só piora quando o vestido é colocado para lavar ou quando resolve azucrinar quem mais se aproximar de Sheila. No meio da sessão o vestido vai parar nas mãos de um rapaz (Leo Bill) que está prestes a casar e as situações estranhas passam a ter outro alvo. O filme capricha no visual anacrônico que deixa o tempo em que se passa a história indecifrável e evita explicar demais o que está por trás do tal vestido, mas sugere que esteja relacionado às vendedoras e o estranho proprietário da loja. Particularmente gosto mais da primeira parte com as desconfianças de Sheila de que existe algo de errado com o vestido enquanto precisa lidar com os patrões enjoados. Temperado com um pouco de humor macabro e um cadinho de luxúria, Vestido Maldito pode ser encarado como uma alegoria ao consumismo ou a relação que temos com uma roupa, mas Strickland pega essa ideia e vira do avesso num filme que chega ao caos completo em seu último ato. Embora a ideia possa parecer ridícula, o diretor consegue evitar que tudo caia no ridículo durante toda a sessão. 

Vestido Maldito (In Fabric / Reino Unido - 2018) de Peter Strickland com Marianne Jean-Baptiste, Fatma Mohamed,  Jaygann Ayeh, Richard Bremmer, Steve Oram, Gwendoline Christie e Barry Adamson. ☻☻☻

PL►Y: Supergirl

Milly: garota esforçada. 

Flopado diáriw, Supergirl se tornou uma decepção arrecadando menos do que custou nas bilheterias. O motivo para isso? Talvez seja toda a expectativa em torno do segundo longa-metragem do DCU capitaneado pelo James Gunn. É verdade que ele ficou meio sem opção quando desejou fugir dos nomes dos heróis que ganharam filmes-solo na era Zack Snyder, mas logo depois de levar Superman para as telas investir em um longa da prima do kryptoniano parece mais do mesmo. Embora o filme seja baseado na cultuada HQ A Mulher do Amanhã de Tom King, talvez o espectador aguardasse algo mais robusto do que uma aventura trivial como segundo longa-metragem do famigerado universo. No filme, Kara Zor-El (Milly Alcock) resolve comemorar seu aniversário viajando pelo espaço até que uma órfã com sede de vingança (Eve Ridley) cruza seu caminho e propõe que a ajude a encontrar um grupo de bandidos espaciais que mataram sua família. Kara rejeita a proposta, mas quando sua nave é roubada e a vida de seu cãozinho Krypto é colocada em risco, ela resolve partir em busca dos vilões da história. O diretor Craig Gillespie é craque em lidar com personagens femininas fora da caixinha (basta ver Eu, Tonya/2017 ou Cruella/2021), mas aqui o roteiro não ajuda com a protagonista sempre bêbada, apanhando e usando o famoso uniforme só no finalzinho. A trama roda, roda, roda e não sai do lugar numa aposta arriscada de engajar o público. A bilheteria murcha deve ter soado o alarme e a venda da Warner só complica mais as coisas. Se você olhar o cronograma da DC no cinema a coisa fica ainda mais complicada: Cara de Barro estreia mês que vem e o resto são séries e animações para a TV. Animados?

Supergirl (EUA-2026) de Craig Gillespie com Milly Alcock, Eve Ridley, David Corensweat, Matthias Schoenaerts, Ferdinand Kingsley, Diarmaid Murtagh e David Krumholtz. ☻☻☻ 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: A Natureza das Coisas Invisíveis

Laura e Serena: amizade irresistível. 

Querido diáriw, esta semana a Academia Brasileira de Cinema escolheu o filme Feito Pipa de Allan Deberton para concorrer à uma vaga nas indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Será uma ano complicado sem um concorrente impulsionado pela consagração em grandes festivais até o momento. Quem também estava no páreo para ser escolhido era A Natureza das Coisas Invisíveis que está em cartaz na Netflix e que mostra-se uma verdadeira joia a ser descoberta. É um dos filmes mais fofos que assisti nos últimos tempos e o mais interessante é que consegue o ser tocando em temas bastante sensíveis e até polêmicos. A leveza do filme deve-se muito à opção da diretora e roteirista Rafaela Camelo abraçar a lógica do olhar das meninas protagonistas. Glória (Laura Brandão) está de férias, mas precisa passar os dias no hospital acompanhando sua mãe no trabalho (Larissa Mauro). Lá ela conhece Sophia (Serena), que está no mesmo hospital com a mãe (a ótima Camila Mardila) por conta da bisavó (Aline Marta Maia), que está internada. Enquanto as meninas ficam amigas aproveitando aquele ambiente inusitado, as mães tem um primeiro encontro complicado que logo muda de rumo para que se aproximem também. Logo todas as personagens estarão dividindo um outro cenário em uma trama  bem escrita sobre amizade, amor, morte, aceitação e muitos outros temas que você consegue sentir nas interações daquelas personagens. Embora demore um pouco para engrenar, o filme se torna cada vez mais interessante e chega a um desfecho emocionante. Assista com um lenço que você vai precisar. Uma excelente estreia da diretora Rafaela Camelo em longa-metragem. 

A Natureza das Coisas Invisíveis (Brasil-2025) de Rafaela Camelo com Laura Brandão, Serena, Camila Mardila, Larissa Mauro e Aline Marta Maia. ☻☻☻☻  

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Sonhar com Leões

Denise: estranha onda portuguesa. 
Amargo diáriw, este filme dirigido por Paolo Marinou-Branco é um daqueles que testa as reações da plateia. Muito se deve ao tom tragicômico com que lida com a vida de Gilda (Denise Fraga), uma mulher com câncer em fase terminal que se muda para Portugal com o esposo (Roberto Bomtempo) para participar de um workshop que ensina a morrer com dignidade.  Gilda já tentou o suicídio três vezes e diante da doença que atravessa uma ideia se tornou fixa em sua cabeça: eutanásia. Disposta a aderir ao suicídio assistido, o workshop começa a deixá-la cada vez mais irritada e consciente de que a vida não lhe serve mais. É um tema incômodo e que o diretor e roteirista aborda com doses cavalares de humor negro que mais desafia a plateia do que faz rir. Denise Fraga faz tudo o que pode ao defender uma personagem amarga diante do que o destino lhe reserva. Ela quebra a quarta parede, narra suas tentativas frustradas e ilustra como o diretor/roteirista estava um tanto cansado de ver pessoas doentes terem que demonstrar bravura e heroísmo diante das dores e tratamentos - além de apresentar uma ojeriza à positividade tóxica. Gilda ilustra tudo isso, mas se perde quando o roteiro cai no clichê do romance com seu colega órfão Amadeu (João Nunes Monteiro). É um filme interessante, mas que encontra dificuldade para encontrar o tom certo do humor com críticas ácidas que realiza. Apesar de ser uma coprodução entre Brasil, Portugal e Espanha, o que fica mais evidente é a inspiração do diretor (que nasceu em Nova York, mas é descendente de portugueses e... gregos) no cinema da estranha onda grega que consagrou Yorgos Lanthimos. Existe muito do absurdismo daquele cinema por aqui e talvez por isso seja um desafio para maioria dos espectadores. 

Sonhar com Leões (Brasil - Portugal - Espanha/2024) de Paolo Marinou-Blanco com Denise Fraga, João Nunes Monteiro, Joana Ribeiro, Victoria Guerra, Sandra Faleiro, Roberto Bomtempo, António Durães e Felipe Rocha. ☻☻☻