sexta-feira, 23 de março de 2012

DVD: Contágio


Paltrow: elogios como a paciente zero de Contágio.

Steven Soderbergh estava precisando de um sucesso. Sua carreira parecia ir para a geladeira mais uma vez depois de seus experimentalismos não terem agradado muito o público e a crítica. O auge de sua pretensão foi o filme de quatro horas de duração de Che Guevara (em 2008) que poderia ter metade disso que já estaria de bom tamanho. Mas Soderbergh ainda tem prestígio entre a classe artística (todo mundo lembra que foi ele que oscarizou Julia Roberts por Erin Brokovich em 2001, mesmo ano que ganhou o Oscar de direção por Traffic), para Contágio ele escalou atores ganhadores do Oscar como Kate Winslet, Matt Damon, Gwyneth Paltrow e Marion Cotillard, além de outros indicados como John Hawkes, Elliot Gould, Jude Law e Lawrence Fishburne - e outros que ainda não tiveram o seu devido reconhecimento como Jennifer Ehle. Vendo o filme me pergunto se não é exagerar apostar as fichas em mais um filme de epidemia para fazer sucesso. Mesmo apostando num verniz mais politizado, já vimos filmes desse tipo mais de uma dezena de vezes -  caos, ruas desertas, o desespero, a selvageria, o isolamento, lágrimas, despedidas e caridades. O filme mostra o estrago feito por um vírus desconhecido que possui origem na contaminação de um porco por um morcego. É a genética desses dois seres que auxiliam na genética desse ser vivo invisível aos olhos, mas letal. "Em algum lugar o morcego errado encontrou o porco errado" diz a personagem de Jennifer Ehle enquanto corre contra o tempo para encontrar uma cura. Além disso, Soderbergh conta a história de uma dezena de personagens que possuem suas vidas transformadas pela epidemia. Matt Damon é o pai de família que tenta lidar com a morte da esposa (Gwyneth Paltrow, que alguns achavam até que concorreria ao Oscar, um exagero) e do filho. Sendo assim, concentrará seus esforços para preservar filha do primeiro casamento. No meio de tudo isso ele descobre que tem imunidade contra o vírus. Ele é o sujeito comum da trama, que vê o caos que o mundo se torna em meio aos saques e barbárie que se espalha conforme o vírus contabiliza milhões de mortos. Kate Winslet tem como função combater a  a contaminação, Marion Cotillard é a epidemiologista da Organização Mundial de Saúde que vai para Hong Kong atrás das pistas sobre as primeiras vítimas da doença enquanto Jude Law  é um jornalista idealista (e chato) que tem milhões de seguidores em seu blog  - e que se ficasse calado ajudaria muito mais. Soderbergh começa muito bem fazendo o horror de quem tem transtorno obsessivo compulsivo por lavar as mãos (uma vez que dedica essa introdução da história à  forma como o vírus se propaga através do toque em superfícies e objetos contaminados). O diretor peca quando demora a inserir a intervenção governamental efetiva contra a epidemia - o que, da forma como é mostrada, é impossível de acontecer na vida real (nem as desculpas do exagero feito com o H1N1 e evitar o pânico funcionam no roteiro). Quando ela começa existir, o filme vira outra coisa, se concentrando nas saídas individuais para a situação - nessa parte que o filme demonstra seus tons mais originais (mas nem tanto) - explorando o jogo de poder e relações que existem na indústria farmacêutica e agências governamentais, mas acaba se enrolando na própria corda ao perder tempo apontando o dedo para quem é bom ou mal quando no centro do picadeiro está um personagem tão contraditório quanto o blogueiro sensacionalista vivido por Jude Law. Acho que Law é o elo mais fraco do elenco, nunca sai da caricatura, compondo um personagem cheio de tiques e com um dente torto - que deve fazer parte do seu kit EI! EU NÃO SOU UM ROSTO BONITO! Sinceramente, ele não deveria mais se preocupar com isso, o tempo já lhe tirou a estampa de galã e o tornou um ator peguiçoso. Apesar do elenco cheio de estrelas - e reservar algumas cenas importantes para eles - o diretor perde alguns pelo meio do caminho (que final é aquele da personagem de Marion? E Elliot Gould desaparece!), isso mantém como surpresa do elenco a pouco conhecida Jennifer Ehle (uma atriz da qual gosto muito desde que a vi em Sunshine/1999 de István Szabó) como a cientista que pesquisa a vacina da doença. Ela que guia nosso maior interesse por um roteiro extremamente informativo que usa pouco o elenco valioso que possui - talvez por isso, mesmo com o marketing vigoroso (e o lançamento no fatídico 11 de setembro, dez anos depois da catástrofe), o sucesso do filme foi modesto.

Contágio (Contagion/2011-EUA) de Steven Soderbergh com Matt Damon, Lawrence Fishburne, Kate Winslet, Jude Law, Jennifer Ehle, Marion Cotillard, Gwyneth Paltrow e John Hawkes. ☻☻☻

CATÁLOGO: Olhos de Serpente

Russo e Madonna: filmagem dos horrores. 

Sei que um bando de pessoas vão chegar até esta postagem procurando algo sobre o filme de Brian de Palma estrelado por Nicolas Cage, para esses devo dizer que o filme em questão é outro: o dirigido pelo controverso Abel Ferrara, Sempre tive curiosidade pelo filme (ainda mais agora que um bando de cineastas resolveram achar que um ator não deve interpretar, mas viver a cena da forma mais real possível) e alguns críticos chegaram a elogiar a atuação da atriz na época o que é algo raro, já que estamos falando de Madonna! Sei que parece inacreditável, mas realmente ela colheu alguns elogios pelo filme, o que não evitou que ele fosse o maior fiasco de sua carreira como atriz - rendeu pouco mais de 72 mil dólares (acho que nem os cenários custaram isso) o que colaborou muito para que fosse esquecido. Agora, com o lançamento de W.E. (segundo filme dirigido pela popstar) pipocaram cinebiografias da loura e este voltou a ter seus quinze segundos de fama (minutos já me parece exagero). Ferrara é um cineasta que adora polêmicas, seus filmes se concentram especialmente no choque entre o consumo de drogas, religião e violência, mas nada que lhe atribua adjetivos melhores do que um Scorsese de terceira categoria. Olhos de Serpente parte até de uma premissa interessante, mas estraga tudo (por coincidência) pelo mesmo problema de Madonna em W.E., conta duas histórias distintas, mas que não colam nem com superbonder! Com a ideia de mostrar um filme dentro do filme, Ferrara dá um show de pretensão ao criar um retrato sombrio de Hollywood, com o bastidor descontrolado da filmagem de um roteiro pesado. Por algum mistério do universo Harvey Keitel foi considerado o melhor ator de Veneza em 1993 pelo papel do cineasta Eddie Israel, que filma em Los Angeles com o problemático astro Francis Burns (James Russo) e a estrela em ascenção Sarah Jennings (Madonna). Os atores dão vida a um casal em crise, tudo por conta da redenção religiosa de Sarah após uma vida de excessos com drogas e sexo. Enquanto Francis é o tipo de ator que foge da técnica, do método e de qualquer outra coisa que não seja seu descontrole ao improvisar, Sarah é seu total oposto, chegando a se irritar com ele diversas vezes durante as filmagens. Essa tensão só aumenta e o diretor Israel alimenta isso, sem perceber que está criando um grande problema. Enquanto o filme retrata o casal em crise sobra tensão nos exageros utilizados por Ferrara, mas quando o espectador  está imerso naquele conflito angustiante, existe o corte que nos direciona para a vida dos bastidores. O efeito é de um balde de água fria, porque ao contrário do que Ferrara pensava, o que seu alter-ego tem a dizer não é interessante, ao contrário, é apenas irritante. Alimentando a raiva de Burns com todos os clichês que se pode imaginar (a pressão dos produtores, sua decadência artística, a  competitividade com uma estrela em ascensão, o cronograma de filmagens, o affair que acontece entre o diretor e sua atriz...) a vítima dessas investidas acaba sendo Sarah (principalmente nas cenas mais violentas que o seu papel exige), ao ponto de quase acontecer um estupro diante da câmera. O mais curioso é que embora não seja uma atriz de prestígio, Madonna consegue dar conta de sua personagem com muita dignidade - claro que se Ferrara tivesse mais cuidado com os diálogos tudo seria muito melhor. O filme foi um dos primeiros filmes produzidos pela produtora de Madonna,  a Maverick Films e ela fez questão de falar mal dele quando chegou aos cinemas. Existe um motivo pessoal para isso (além de toda a pretensiosa mediocridade do longa), Madonna sofreu um abuso muito semelhante ao que vemos no filme no período em que tentava a vida como estudante de dança em Nova York, o filme mexeu em suas feridas. Seu nervosismo na cena em que conta o abuso sofrido nas filmagens com Francis Burns é evidente por tiques nervosos. Ferrara tentou contar dois filmes em um só, mas seu olhar sobre os personagens é mais interessante do que quando começa a reclamar da vida de cineasta (ora, porque não vai vender batatas?). Com cenas fortes de violência contra a mulher, ironicamente, são elas que tentam salvar o filme de um bando de fiapos masculinos (até a esposa de Abel, Nancy Ferrara, tem  um momento luminoso onde lava a roupa suja com o personagem de Harvey Keitel). Ferrara deveria procurar outra forma de exorcisar seus fantasmas.

Olhos de Serpente (Dangerous Game/EUA-1993) de Abel Ferrara com Harvey Keitel, James Russo, Madonna e Nancy Ferrara. ☻

quinta-feira, 22 de março de 2012

KLÁSSIQO: Domingo Maldito

Glenda Jackson: um dos abraços mais calorosos do cinema.

Com dois Oscars de melhor atriz na estante (por Mulheres Apaixonadas/1970 e Um Toque de Classe/1974), a inglesa Glenda Jackson foi uma das maiores atrizes de sua geração. Eu não conhecia muito o trabalho da atriz, mas fiquei apaixonado por ela quando vi recentemente sua atuação em Domingo Maldito, filme que lhe rendeu o BAFTA de melhor atriz e sua terceira indicação ao prêmio da Academia de Hollywood. Além da indicação da atriz, o filme concorreu a outras três estatuetas (direção, roteiro e ator para Peter Finch) e não ganhou nenhuma. É mais do que compreensível, já que o filme retrata um tema polêmico, ainda que com muita dignidade e discrição. O filme conta a história de um triângulo amoroso formado por Alex (Glenda Jackson), Daniel (Finch) e o jovem Bob (Murray Head). O filme começa quando Alex (o nome unissex é proposital)  aceita tomar conta de umas crianças ao lado de Bob durante um final de semana. Alex é espirituosa, atraente e desencanada como muitas almejavam ser ser no início da década de 1970. Os casal parece brincar de casinha numa espécie de ensaio para a convenção social do casamento - tendo como momento de privacidade somente os que estão no quarto. Entre as tarefas do lar e a simulação de papéis sociais tradicionais que se espera de um casal, as cenas da dupla são cortadas por cenas do cotidiano do médico Daniel Hirsch. Não fica muito clara a relação que os três personagens possuem, até o dia em que Bob sai da casa para um encontro e deixa a namorada sozinha. Visivelmente enciumada ela nem menciona o nome da pessoa com quem Bob irá se encontrar, é quando percebemos que Bob se divide entre Alex e Daniel, com o consentimento de ambos. Trata-se menos de uma aceitação e mais do medo de perdê-lo que faz com que ambos amantes concordem com esse relacionamento. Não demora para que Bob volte para Alex e voltem a viver seu final de semana de família convencional. O trunfo do roteiro está em lidar com as simbologias de atos cotidianos simples, mas impregnados de significados. Não é por acaso que depois do final de semana brincando de casinha, Alex começa a ver seu relacionamento amoroso com outros olhos e outro sentimento começa a ganhar força dentro dela: a solidão. Ainda que viva momentos tórridos com seu parceiro, Alex percebe que quer algo mais, algo que seu rival Daniel pode até imaginar, mas que os preconceitos e reservas pessoais fazem com que prefira frequentar jantares da família desacompanhado e aguente ser apresentado por mulheres as quais jamais lhe despertarão interesse. John Schlesinger mostra-se um diretor de mão cheia para miudezas das relações humanas e um mestre em construir pessoas complexas diante da câmera (características que gerou o oscarizado Perdidos na Noite/1969) . Por mais simpático que seja, Bob não parece se importar muito com nenhum de seus parceiros, mesmo se relacionando com os dois parece estar sempre preocupado com si mesmo e suas vontades (como a viagem à Nova York, que faz com que seus amantes tenham que lidar com a sensação infeliz de perdê-lo), já Alex começa a desejar alguém sempre por perto enquanto Daniel parece acostumar-se à solidão. Acho que muita gente deve torcer o nariz quando assistir ao filme nos dias de hoje, mas é impossível ficar indiferente às transformações pelas quais passa os personagens durante a semana em que os fatos são narrados. Apesar do trio ser afiado, eu confesso que a Alex de Glenda foi a vértice que mais me chamou a atenção, com seus olhares e sorrisos é mais do que compreensivo porque num momento decisivo, Bob a convida para prosseguir com ele. É neste ponto que Glenda alcança um dos momentos mais brilhantes de sua carreira onde os sentimentos contraditórios compõem cada célula interpretativa de seu corpo. Depois desse filme, Glenda concorreu ao Oscar de atriz mais uma vez por Hedda (1975) ao interpretar a clássica personagem de Ibsen. Só para lembrar, vendo o filme é inacreditável que Schlesinger tenha voltado a abordar um relacionamento entre uma mulher hetero e um homossexual no fraco Sobrou para Você estrelado por Madonna e Rupert Everett (2000).

Domingo Maldito (Sunday Bloody Sunday/Reino Unido-1971) de John Schlesinger com Glenda Jackson, Peter Finch e Murray Head. ☻☻☻☻

quarta-feira, 21 de março de 2012

DVD: Cowboys & Aliens


Ford e Craig: cadê a diversão que estava aqui?

Alguns amigos reclamam que não costumo ser gentil com filmes pipoca, mas os próprios filmes são os maiores culpados disso. Eu quase vi Cowboys & Aliens no cinema, mas um amigo (que pediu para ser mantido em anonimato) disse para esperar e ver  o filme em casa - e segundo suas próprias palavras: "não é nenhuma Brastemp". Ele tem razão, o problema é que poderia ser um filmão se o diretor Jon Favreau não houvesse perdido a mão. Misturar Cowboys com ficção científica pode parecer uma novidade para a maioria das pessoas, mas quem já teve a oportunidade de ver o programa FanBoy Confessional sobre os Steampunks (tribo urbana que mistura roupas de época com apetrechos punks e futuristas) sabe que existe uma legião de fãs apreciadora dessa mistura. O próprio filme foi baseado numa HQ cultuada por eles (e dizem que manteve pouca coisa de sua escrita original), pena que todos mas devem ter entendido tudo errado já que sobra violência e falta diversão num filme que deveria apenas entreter. Sei que o western é um dos gêneros cinematográficos mais secos que existem (se não for o mais), mas o problema aqui não é esse. Numa cidade do Arizona no final do século XIX, todo mundo parece possuído pela maldade e a coisa começa a cansar antes da primeira hora de duração. Quando os discos voadores aparecem nós pensamos que a coisa vai melhorar, mas aí a coisa fica arrastada até o desfecho. Onde foram parar os alienígenas? o que vemos são draminhas rasos dos personagens e Daniel Craig tentando usar uma arma no punho. Craig passa o filme inteiro com a mesma cara (cada vez mais seca, já que ele deve estar se dedicando bastante às atividades ergométricas na Academia. Dá para acreditar que ele tinha só 42 anos durante as filmagens?) e Harrison Ford tem o papel mais ingrato de sua carreira. Craig é um homem que aparece no meio do deserto sem memória e com um bracelete esquisito preso no braço. Ele vai parar numa cidade onde todo mundo vive sobre a opressão de um fazendeiro (Ford) e seu filho mimado (Paul Dano, outro desperdiçado). Ainda povoam a cidade uma bela misteriosa (Olivia Wilde, linda, mas dona da cena mais ridícula do filme), um xerife (Clancy Brown) e um dono de bar com bom coração (Sam Rockwell, sem muito para fazer) casado com a latina Maria (Ana de La Riguera). Todos  terão contas a ajustar com os alienígenas, seja porque foram abduzidos ou porque querem resgatar alguém querido. O problema é que apesar dos efeitos bacanas o roteiro esquece de desenvolver os personagens deixando todos caricatos, sobrando pouco para rechear o filme - que se estende por duas (looongas) horas de duração. Sobra embromação e falta uma história que preste. Jon Favreau, que foi elogiado como diretor de Homem de Ferro (2008) e menos na continuação (2010),  esqueceu que para fazer um filme não basta juntar duas ideias ou gêneros, é preciso ser bom de corte e custura, deixando tudo bem amarradinho, sem furos, dobras, vincos ou sobras. Cowboys & Aliens tem todos esses defeitos, mesmo para quem quer só se divertir o resultado é decepcionante. O resultado foi uma bilheteria pífia (custou 163 milhões e arrecadou somente 175 milhões até o final do ano passado) que deve ter engavetado as pretensões de uma sequência. Mas, apesar de tudo, o que mais me decepcionou foi a atuação de Harrison Ford, criando um tipo canastrão e preguiçoso (que mãos frenéticas são aquelas?) qualquer ator sem a sua aura de astro poderia ter feito o mesmo (alguns poderiam ter até feito melhor), era melhor ele ter ficado em casa vendo repreises de Indiana Jones na TV! Espero que a lição tenha ficado para os produtores que planejam outros crossovers cinematográficos. Os próximos da lista prometem inserir zumbis em dramas históricos (Abraham Lincoln contra os Zumbis que deve estrear em maio deste ano) e clássicos da literatura (Orgulho, Preconceito e Zumbis que está previsto para 2013). Ai meus miolos...

Cowboys & Aliens (EUA-2011) de Jon Favreau com Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde, Sam Rockwell e Paul Dano. ☻☻

DVD: Jane Eyre

Wasikoska para Fassbender: "Fui elogiada por Meryl Streep"!!

Lembro que quando li o romance Jane Eyre de Charlotte Brontë na faculdade. O livro tinha acabado de receber uma versão cinematográfica dirigida por Franco Zeffireli em 1997 - estrelada por Charlote Gainsbourg e Anna Paquin se revesando no papel principal em fases distintas. O filme foi considerado sem graça pela maioria da crítica especializada, passando em branco nas bilheterias e premiações. Antes o livro já servira de inspiração para outras produções como a aclamada versão cinematográfica em 1944 e várias outras para TV (1970, 1983, 1997 e 2006). Ano passado o diretor Cary Fukunaga arriscou fazer outra versão (que concorreu ao Oscar de figurino no último Oscar). Eu não vi todas as outras, mas posso dizer que o longa tem uma quantidade considerável de méritos - e estes não se restringem ao elenco vistoso ou ao cuidado com o visual de época. O livro lançado em 1847 coleciona várias gerações de fãs com sua trama liderada por uma heroína romântica diferente. Jane não é a moça bonitinha, alegre e suspirante que se vê com frequência nesse tipo de história. Sempre apresentada como feia, a personagem ainda é cheia de dramas pessoais - ela é uma órfã criada pela tia, que não demora muito para colocá-la num internato cheio de métodos educacionais baseados em tortura física e psicológica. Depois de crescida, Jane arranja um emprego num castelo sombrio, onde serve de governanta e tutora para uma menina protegida pelo proprietário do lugar - o sisudo Sr. Rochester. Apesar de suas histórias tristes, Jane não se faz de coitadinha, pelo contrário, tem diálogos muito articulados que impressionam seu patrão mal-humorado - e percebemos que o embate entre os dois disfarça sentimentos que cresce gradativamente com o respeito que brota entre ambos. Os dois são personagens fortes e que se complementam na narrativa - que flerta em alguns momentos com elementos sobrenaturais, mas que logo são explicados de forma realista ao descobrirmos o terrível segredo do passado dele. Fukunaga tem mão firme na direção e é bastante fiel à trama, o que lhe dá segurança para embaralhar os tempos da personagem - começa da terceira parte da narrativa (quando se refugia num local afastado servindo de professora para um vilarejo e conhece o jovem St. John vivido por Jamie Bell), retornando ao período em que era governanta do castelo de Rochester (Michael Fassbender) e à infância infeliz. O roteiro é esperto o suficiente para não ficar colocando os dedos nas feridas de Eyre, deixando que a atuação de Mia Wasikowska dê conta dessa parte. Devo ressaltar que a menina merece elogios por sua atuação, fiquei até surpreso com a intensidade de sua performance (acho que fiquei tão decepcionado com a sua cara amuada como a insossa Alice/2010 de Tim Burton que a coisa sobrou até para seu papel de filha em Minhas Mães e meu Pai/2010. Eu achava que ela pensava que atuar era só  fazer cara de enjoo diante da câmera - algo que deve ter aprendido na escola de interpretação de Sean Penn em seus maus dias). Sua atuação foi até elogiada por Meryl Streep no Globo de Ouro, que estranhou sua ausência entre as concorrentes deste ano. Realmente, os olhos tristes de Mia caem como uma luva para revelar o interior da personagem - ao mesmo tempo, suas expressões estão na medida exata quando o texto lhe pede mais emoção. O maior mérito de sua performance é saber contrastar a sua imagem frágil com uma segurança que é própria da personagem. Com mais pé no chão do que vemos nesse tipo de personagem, ela dá conta do ideal de Brontë ao criar Jane Eyre (servir de contraponto para as heroínas de Jane Austen que eram limitadas pelas convenções sociais de sua época), demonstrar que as mulheres também podiam ser fortes, trabalhar fora e que o casamento era apenas uma opção. Espécie de conto de fadas realista, o filme funciona muito bem e o elenco ajuda bastante com a química muito especial entre Mia, Bell (competente num papel mais maduro do que costuma aparecer), Judy Dench (tem bons momentos como a empregada mais próxima de Jane) e Michael Fassbender (que dispensa comentários, 2011 foi definitivamente o ano dele). Claro que os fãs mais xiitas do livro vão achar algo meio apressado no affair entre Jane e seu patrão, mas isso é completamente compreensível dentro do tempo de duração de um filme. Mesmo com todos os predicados filme saiu por aqui direto em DVD. 

Jane Eyre (EUA-Reino Unido/2011) de Cary Fukunaga com Mia Wasikoska, Michael Fassbender, Jamie Bell, Sally Hawkins e Judy Dench. ☻☻☻☻

segunda-feira, 19 de março de 2012

FILMED+: Festim Diabólico

Quase um crime perfeito: o complexo de super-homem segundo Hitchcock.

Festim Diabólico deve ser o filme mais ousado de Hitchcock, talvez por isso seja um dos meus favoritos. Para começar, ele tenta reproduzir do início ao fim a ideia de que estamos diante de um plano sequência, ou seja, um filme sem cortes. Vale ressaltar que reza a lenda que o diretor realmente não fez cortes, mas apenas emendou um rolo de película no outro, já que não eram produzidos em extensão suficiente para comportar quase hora e meia de narrativa. A saída do diretor foi emendar os rolos com closes nas costas de personagens ou cortes discretíssimos, não que os fãs do diretor se importariam com esses detalhes microscópios no formato vigoroso que cria para a adaptação da peça de Patrick Hamilton. O filme começa com um assassinato num apartamento grã-fino, desde o início sabemos quem cometeu o crime. Dois amigos enforcam um convidado somente pelo prazer da ocasião e a arrogância de provar que são capazes de cometer um crime perfeito. Julgando-se superiores à vítima e boa parte da humanidade, eles realizam o crime como uma façanha que será completada com uma festa logo em seguida, onde estarão presentes o pai e a noiva da vítima. Para completar a afronta, os dois escondem o corpo num baú que servirá de mesa para o jantar. Mesmo diante dessa atrocidade, o diretor consegue manter a elegância durante toda a sessão e constrói um monstro diante de nossos olhos, Brandon Shaw (John Dall) deve ser um dos sujeitos mais amorais que já apareceram num filme e o fato de embasar sua ação em pilares da filosofia (como Nieztsche ao qual faz menção ao conceito de super-homem) só piora ainda mais as coisas. Todas as suas ações, do início ao fim, ajudam a compor o cenário sinistro a que o título se refere. Conhecido pelo seu humor obscuro, o personagem se supera ao emprestar livros ao pai da vítima amarrando-os com a arma do crime. Embora Brandon tenha como cúmplice o parceiro Phillip Morgan (Farley Granger), este por mais que aparenta ser contra suas ações, é de uma passividade tão assustadora quanto a amoralidade de seu amigo. Entrando em conflito com os atos que compactua, a paranóia de Phillip só cresce durante a festa. É notável como Hitchcock constrói a narrativa centrada em um único espaço e oito personagens em cena a maior parte do tempo, há momentos em que todos parecem falar ao mesmo tempo - perdendo o tempo com futilidades típicas dessas ocasiões enquanto se preocupam com David (Dick Hogan), o morto, que nunca chega. Há momentos assustadores como a cena em que Brandon discute com o pai de sua vítima sobre uma certa superioridade que permitiria que alguns homens matassem outros. Esse conceito chega a ser defendido por um professor de filosofia, Rupert Cadell (James Stewart) que desconfia cada vez mais da atmosfera estranha que afeta Brandon e Phillip, mesmo quando eles tentam desviar a atenção de todos em bobagens como jogar a noiva da vítima (a bela Joan Chandler) para um ex-namorado (Douglas Dick) que também foi inesperadamente convidado para a ocasião. Embora tenha apenas oito cortes entre suas tomadas contínuas, Hitchcock mantém uma narrativa ágil e angustiante na expectativa de que descubram que o corpo seja descoberto. Embora tenha sido lançado em  1948, o filme permanece atual em seu humor cortante e alfinetadas em algumas correntes das ciências humanas. Vale lembrar que embora a trama pareça absurda ela foi baseada numa história real, onde dois brilhantes estudantes da Universidade de Chicago  (Richard Loeb e Nathan Leopold) cometeram um crime com detalhes muito semelhantes ao visto no filme.  Com o passar do tempo, o filme recebeu uma polêmica de brinde: o relacionamento entre Brandon e Phillip que muitos atribuem ser mais do que uma simples amizade ancorada na agressividade de um e a passividade do outro. Este foi o primeiro filme colorido dirigido pelo cineasta. 

Festim Diabólico (Rope/EUA-1948) de Alfred Hitchcock com James Stewart, John Dall, Farley Granger, Cedric Hardwicke, Joan Chandler, Edith Evanson e Costance Collier. ☻☻☻☻☻ 

KLÁSSIQO: Um Corpo que Cai

Stewart e Novak: o amor que alimenta a tensão.

Quando eu era pequeno costumava passar filmes de Alfred Hitchcock constantemente na TV, confesso que assisti poucos, mas é sempre bom reencontrar a cinematografia de um mestre. Lembro que na casa de meus pais havia até um livro de contos escritos por ele e alguns deles eram realmente arrepiantes. Embora Psicose/ seja o seu filme mais famoso, o diretor possui uma vasta cinematografia em que experimenta diferentes gêneros e estilos de narrativa sempre temperados com muito suspense. Um Corpo que Cai, ou Vertigo, para os íntimos, é mais do que um suspense, o interesse maior do diretor parece residir no romance que se instaura entre os personagens John Ferguson (James Stewart) e Madeleine (Kim Novak), tanto que é a relação de ambos que alimenta o filme. Stewart interpreta um policial que logo no início do filme fica traumatizado por ter visto seu parceiro cair de  um prédio. Mesmo que estivessem perseguindo um bandido, John atribui a si a culpa do acidente. Afastado do trabalho devido ao infortúnio, John passa o tempo especulando sobre o que poderia fazer na companhia da bela amiga designer Midge (Barbara Bel Geddes). É neste ponto que o protagonista é escalado para vigiar a esposa de um amigo. Ela (Novak) desenvolveu uma verdadeira obsessão por uma pintura, ao ponto de acreditar que esteja possuída pela mulher retratada naquela obra. O marido explica que a mulher desenvolveu hábitos estranhos, ao ponto de se transformar em alguns momentos, modificando sua forma de falar e andar. Existem alguns segredos que podem justificar essa excentricidade, já que há um possível parentesco entre a mulher da pintura e a esposa do magnata. Tudo caminha para o encontro de John e a confusa Madeleine (Novak), mas a atração é aparentemente inevitável (o affair entre os dois me parece meio apressado, mas com o andamento da trama parece que era para ser assim mesmo). Madeleine mostra-se desequilibrada, mas o amor é lindo e cego e não liga para essas coisas, nem quando se trata de adultério. Precisa dizer que as tendências suicidas da mulher trará um fim trágico para o affair? E o pior, irá reavivar o pavor que John possui de altura. As coisas vão ainda ficar mais esquisita quando ele conhecer Judy, mulher muito parecida com a falecida, só que com cabelos castanhos. É neste momento que Hitchcock surpreende no exato momento em que pensamos ter chegado à conclusão da trama, mostrando um caso de amor estranho entre os dois personagens - já que  John pretende deixar sua nova amada cada vez mais parecida com a falecida. O romantismo que viamos até então só torna a trama ainda mais incômoda, já que estranhamos como aquela mulher se submete aos caprichos de um parceiro que insiste em fazê-la parecer com uma morta. É neste ponto que reside o motor do desfecho da trama, enquanto ele quer ter sua amada novamente, Judy vê naquele processo doentio uma forma de espiar as culpas que mantém em segredo. Durante todo o filme, Hitchcock capricha nos enquadramentos e utiliza recursos de câmera vertiginosos (como a incomum perspectiva com que foca a igreja local da tragédia ou as escadas que parecem se aprofundar num efeito 3D), isso sem falar nos detalhes espiralados que distribui em cena desde os créditos iniciais.  Embora a duração pudesse ser mais enxuta, Hitchcock mantém nossa atenção quase por hipnose e nos prega um susto na cena final de um tom quase tragicômico. Multifacetado, Um Corpo que Cai é uma aula de como doses generosas de romance pode acrescentar ainda mais estranheza num bom suspense. 

Um Corpo que Cai (Vertigo/EUA-1958) de Alfred Hitchcock com James Stewart, Kim Novak e Tom Helmore.  ☻☻☻☻

domingo, 18 de março de 2012

Combo: Que Horror!

Renée Zellweger não foi a única oscarizada que padeceu em um filme de terror, várias atrizes premiadas resolveram encher seus cofrinhos com um sucesso perante o público do gênero mas erraram feio. Histórias mal escritas, personagens estapafúrdios ou apenas ritmo inadequado comprometeram produções assinadas até por cineastas consagrados. Deveria haver uma cláusula no Oscar assegurando que uma ganhadora não iria se meter pelo gênero mais ingrato do cinema! A seguir cinco dos casos mais recentes:

5 Água Negra (2004) Ainda não entendi como o Made in Brazil Walter Salles se meteu a fazer uma adaptação de um terror japonês na época em que todo mundo queria um "O Chamado" para chamar de seu. O diretor estava lá e o seu elenco também: Jennifer Connely (que ainda estava no auge após o Oscar de coadjuvante por Uma Mente Brilhante/2001), John C. Reilly, Pete Posthlewaite e Billy Cudrup entraram nessa amparados pelo prestígio do diretor e tiveram de engolir um fracasso de público e crítica. Apesar da ideia interessante - um apartamento assombrado que reflete o estado de espírito (sem trocadilhos) de sua inquilina que tenta juntar os cacos do divórcio - Água Negra é pomposo demais para causar medo. Boas ideias não assustam e o esforço de seus atores foi em vão no maior fracasso da carreira internacional de Salles. 

4 Mutação (1997) O Oscar de coadjuvante ainda estava fresquinho na estante de Mira Sorvino quando ela se meteu no que a crítica chamou de "o melhor filme sobre baratas gigantes da história do cinema", mas também era o único! Você deve estar perguntando quem é Mira Sorvino, ela é a filha de Paul Sorvino e a premiada atriz de Poderosa Afrodite (1995) de Woody Allen. Mutação já deixava claro que Mira não conseguiria manter-se no estrelato por muito tempo. Embora talentosa, a atriz é de uma apatia irritante como a cientista que pensa ter aniquilado as baratas dos esgotos até descobrir que provocou uma mutação nas inimigas número um da mulherada! Apesar de dirigido por Guillermo del Toro, o filme causa mais náusea do que medo e sua atriz não ajudou muito na trajetória do filme. A carreira de Mira foi se concentrando cada vez mais em produções independentes sem importância e filmes para TV.

3 Na Companhia do Medo (2003) Halle Berry havia se tornado a primeira atriz negra a ganhar o Oscar de atriz por A Última Ceia (que ainda lhe rendeu o prêmio de atriz em Berlim em 2001) e deve ter ficado preocupada quando viu que depois de bancar a bondgirl em Die Another Day (2002) e ser a mutante Tempestade em mais um X-Men (2003) a sua aposta pós-Oscar era este terror dirigido pelo francês Mathieu Kassovitz. O elenco ainda conta com Robert Downey Jr e Penelope Cruz antes que alcançassem outro patamar em Hollywood, mas o mico maior é de Halle. No papel de uma mulher confusa acusada de assassinato, presa num manicômio e sem lembrar do que fez, a atriz tem que lidar com um roteiro confuso e entregar algo mais do que a cara de asssustada. Mesmo assim, a atriz desenvolveu um gosto esquisito por trash dirigido por franceses em Hollywood, daí nasceu um horror maior ainda: Mulher Gato  (2003)!

2 A Casa dos Sonhos (2011) Rachel Weisz foi a última a entrar para o clube de micadas em filme de terror. Estimulada pela assinatura ilustre de Jim Sheridan e pela companhia de Daniel Craig (com quem engatou um namoro nas filmagens) e Naomi Watts, a atriz aparece no papel de esposa que guarda um segredo num filme de muitas reviravoltas. Pena que na ânsia de surpreender o espectador nada faz sentido em reviravoltas bruscas e cansativas reservando para Weisz o papel mais idiota dessa lista. Na época que ela era casada com Darren Aronofsky ela pode não ter conseguido sucessos de bilheteria, mas pelo menos conseguia aparecer em filmes bons de se assistir. Ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante por O Jardineiro Fiel (2005) a atriz quer reconquistar o prestígio vivendo Jaqueline Kennedy numa produção da Dreamworks. 

1 Colheita do Mal (2007) O que faz esse filme estar em primeiro lugar dessa lista horrorosa é o fato de sua estrela ter não um, mas dois Oscars na estante! Depois do Oscar de Meninos não Choram (1999), Hilary Swank já havia provado que tinha dificuldade em escolher papéis em filmes decentes, pensaram que depois do segundo prêmio da Academia por Menina de Ouro (2004) a coisa iria melhorar. Puro engano. Colheita do Mal é mais um dos filmes que atribuem o mal à uma criança mal assombrada, só que dessa vez ela atrai as pragas do Egito para uma cidadezinha do sul dos EUA. Swank vive uma cética cientista que tenta explicar os fenômenos, o filme começa bem, mas vai perdendo o fôlego, se enrolando em sua própria história - forçando a mal em romances descabidos e ocultismo de boteco num resultado desengonçado. Mas Swank deve ser brasileira e não desistir nunca, ela voltou a investir nos fãs do gênero. Não, não me refiro à PS.: Eu te Amo/2007 (que apesar de se dizer comédia romântica é um horror), mas ao recente A Inquilina que repete os conceitos de uma bando de filmes que você já viu antes. 

DVD: Caso 39


Zellweger: quando a carreira vira um horror. 

Esteja onde estiver, Renée Zellweger deve estar pensando numa forma de colocar sua carreira nos eixos novamente. A atriz se tornou uma das grandes promessas de Hollywood em meados da década de 1990 e quando dividiu a cena com Tom Cruise em Jerry Maguire (1996) sua carreira ganhou um impulso impressionante, somando três indicações ao Oscar (sendo premiada como atriz coadjuvante pelo drama Cold Mountain em 2004). O pior foi que desde que foi premiada, Renée tem custado a conseguir um novo sucesso, algumas pessoas atribuem o fracasso aos cacoetes incorporados de sua atuação como Bridget Jones (que rendeu sua primeira indicação ao Oscar em 2002), outros à overdose de botox que seu rosto sofreu nos últimos anos. Eu fico com o terceiro grupo, aquele que considera que a moça perdeu o gosto por roteiros bons. Em 2009 ela achou que daria uma guinada na carreira, lançou quatro filmes e os quatro fracassaram, um deles foi este Caso 39, uma das aventuras do cineasta alemão Christian Alvart na terra do Tio Sam. O filme ficou mais de um ano engavetado e quando estreou era como se todos já soubessem o resultado. De fato, Caso 39 é um filme decepcionante. Pra começar investe em mais uma trama de terror centrado numa criança. Desta vez ela é uma menina chamada Lilith (Jodelle Fernand) que é o caso do título que cai nas mãos de Emily (Zellweger), uma assistente social de bom coração. Os pais de Lilith são bem estranhos, de uma frieza quase doentia mesmo quando recebem a visita do serviço social. Não bastasse isso o filme não nos poupa de saber que o casal maltrada a garota - em uma das cenas chegam a colocá-la num forno!!!  Comovida com a situação, Emily recebe a guarda da menina pensando que irá dar conta dos traumas da menina. Não é bem assim. Não chega a ser um SPOILER porque um bando de gente deve ter visto o trailer do filme que passou mais de um ano nos cinemas e ele deixava claro que acusavam a menina de ser um demônio. Basta Emily cuidar da menina para uma série de acontecimentos estranhos acontecerem nas redondezas, vitimando até o pretendente com pinta de galã da insossa assistente social (Bradley Cooper antes do estrelato). O problema do filme é investir numa trama gasta sem grandes inovações visuais ou narrativas, todos tem pouco a fazer e Zellweger poderia ser substituída por qualquer desconhecida que o resultado seria o mesmo. Além de tudo ser unidimensional, convencional e previsível, o sono é inevitável - já que perdi a conta do número de vezes que cochilei durante a sessão. Além disso me incomoda a forma como, mais uma vez, uma criança é mostrada como fonte de todo mal. Acho sem sentido e cafona essa história de dizer que filmes influenciam o comportamento das pessoas (penso que as intenções de uma pessoa precedem qualquer filme que tenha visto), mas vendo todas as sandices que o roteiro atribui à Lilith foi invevitável pensar no bando de malucos que andam torturando crianças. Acho que no fundo estes pensam muito parecido com o roteirista Ray Wright que para diminuir a má impressão da "legitima defesa" defendida pelo roteiro troca a jovem atriz por um diabo que parece mais um ET na última cena. Francamente Renée, como você pensava recuperar credibilidade com uma bobagem dessa? Sem projetos desde 2010 (ano em que fez Minha Canção de Amor, recentemente lançado em DVD por aqui) é melhor voltar mesmo a ser Bridget Jones no terceiro filme da franquia baseado na personagem de Helen Fielding (ainda sem data de estreia), assim ela pode lembrar da época que foi a escolhida entre concorrentes do porte de Helena Bonhan Carter e Kate Winslet. Bons tempos. 

Caso 39 (Case 39/EUA-2009) de Christian Alvart com Renée Zellwegger, Jodelle Fernand, Callum Keith Rennie e Bradley Cooper. ☻