sábado, 9 de fevereiro de 2013

CATÁLOGO: Tempo de Crescer

Emma e Jeff: amizade intergeracional. 

Um dos meus gêneros favoritos é a dramédia. Sei que soa estanho, mas é um gênero que recebe cada vez mais seguidores desde a década de 1990 com a proliferação das produções independentes. Sei que a palavra é uma grande bobagem, já que desde a Grécia Antiga as obras mais dramáticas tinham os seus toques cômicos para que os personagens conquistassem a plateia e vice-versa. No entanto, o gênero é difícil de alcançar o ponto exato de equilíbrio entre o drama e a comédia, geralmente os diretores ficam tentados a colocar mais açúcar do que deveriam a e coisa fica mais melada do que deveria - ou não. Este é o caso de Tempo de Crescer, estrelado pelo veterano Jeff Daniels, uma estrela de TV consagrada (Lisa Kudrow) e dois jovens atores badalados (Emma Stone e Ryan Reynolds), um filme que teima ao ficar em cima do muro quando deveria se tornar uma obra realmente original e memorável. Pelo menos a dupla Kieran e Michelle Mulroney tentam ser diferentes ao explorar a trama de um escritor que pretende escrever um livro de sucesso enquanto se refugia numa cidadezinha minúscula. Seu processo criativo poderia ser um tormento solitário se não conhecesse a adolescente Abby (Stone) com quem acaba desenvolvendo um relacionamento que está sempre entre o romance e a amizade. A dupla tem muita coisa em comum, apesar das idades diferentes. Apesar de já crescido, Richard (Daniels) aprecia a solidão ao lado de um amigo imaginário, um super-herói chamado Capitão Excelente (Reynolds, mais convincente do que quando fez Lanterna Verde) que funciona como uma espécie de consciência para um homem que se distancia cada vez mais do que gostaria de se tornar. Eu demorei para perceber, mas Abby também tem seu próprio amigo imaginário, Christopher (Kieran Culkin) que sente-se mais ameaçado por Richard do que pelo namorado de Abby, o grosseiro Bryce (Hunter Parrish). Richard, por sua vez, tem a esposa que sempre o deixa desconfortável (Kudrow que parece ser especialista no papel de megera) e que terá uma crise de ciúme quando imaginar que o esposo o trai com uma garota com idade para ser filha deles. Entre uma gracinha aqui e outra ali, o texto da dupla Mulroney erra tanto na dose de açúcar na dupla central como na forma com que exagera nos dramas de seus personagens: a perda da irmã de Abby, o fato de Richard não ter filhos, a relação de Abby com Bryce, o fracasso do livro de Richard... tudo parece caminhar para o fundo do poço na vida de ambos, ainda que permaneçam pessoas bacanas e querendo melhorar. Eu tive a impressão que, assim como os seus personagens, os diretores/roteiristas não sabiam muito bem para onde estavam indo, mas o resultado ainda assim é simpático nos seus cacoetes de produção independente. Destaque para a cena de despedida de Christopher, onde o filme consegue alcançar o seu melhor momento de originalidade agridoce - melhor até do que o final feliz em aberto. 

Tempo de Crescer (Paperman/EUA-2009) de Kieran e Michelle Mulroney com Jeff Daniels, Emma Stone, Kieran Culkin, Ryan Reynolds e Lisa Kudrow. ☻☻☻

DVD: Valente

Merida e a mãe: cabelos ruivos caprichados. 

Indicado ao Oscar de Melhor Animação (e possível favorito depois de ganhar o Globo de Ouro da categoria), Valente foi a empreitada da Pixar em 2012. Admito que o trailer não me empolgou, nem a sinopse, então somente agora o assisti quando saiu em DVD. O que posso dizer é que o filme é... bonitinho. Só. Durante todo o filme a única sensação que tive era que o estúdio preferiu gastar os neurônios na construção da cabeleira ruiva da personagem (para a qual tiveram que criar um novo software para a animação) do que fazendo uma história interessante. O começo não me pareceu promissor com a velha história da princesa que precisa se um pretendente e é disputada por príncipes de diversos reinos estranhos. A princesa Merida (dublada por Kelly McDonald) possui bem menos nuances do que deveria, chega a ser irritante como o roteiro a constrói como uma garota sem modos polidos e sempre corrigida pelos pais nobres. Ela gosta mesmo é de usar arco e flecha - além de fazer coisas que sua mãe não considera apropriadas para uma garota da realeza. Nesse embate de seus gostos pessoais com as obrigações de uma futura rainha, Merida (acho que esse nome também não funciona no Brasil, se você não presta atenção no "i"...) tem sérios problemas com a mãe, por conta disso acaba recebendo ajuda de uma bruxa num feitiço que não sai exatamente como ela esperava. O problema maior com o feitiço fica por conta do pai de Merida ter perdido uma perna num confronto com um urso e... é melhor eu parar por aqui. As crianças podem até gostar do ritmo de aventura, mas as piadinhas são bem fraquinhas. Já os adultos terão que se contentar com o efeito hipnótico da cabeleira ruiva de Merida (que me lembrou os de Nicole Kidman antes de virar estrela) que é o maior destaque do filme. Ao final, fica a sensação que é a história é sobre a relação mãe e filha e que uma garota pode ser independente... onde está a originalidade da Pixar? Sei lá. Depois do fracote Carros 2, eu esperava que o estúdio colocasse as coisas novamente nos eixos (talvez por isso eu tenha considerado Valente ainda mais decepcionante). Parece que ao se juntar com a Disney, o estúdio perdeu fôlego. Embora o primeiro fruto desse casamento tenha sido o excelente Toy Story 3, investir em uma outra sequência em seguida (Carros 2) já dava sinais de que a criatividade de outrora estava rareando. Valente espremido entre a continuação de Monstros S/A (Universidade Monstros, com previsão de estreia para 21 de junho no Brasil) está longe de ter o frescor esperado. Mas quem sabe, com essa vontade de faturar em velhas ideias, a Pixar não lança a aguardada sequência de Os Incríveis (2004)? 

Valente (Brave/EUA-2012) de Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell com vozes de Kelly MacDonald, Billy Connolly, Emma Thompson, Julie Walters e Kevin McKidd. ☻☻☻

CATÁLOGO: 21 Gramas

Naomi: Quando a vida pesa uma tonelada. 

O mexicano Alejandro González Iñárritu tornou-se badalado no mundo inteiro depois que colocamos os olhos em Amores Brutos (2000), uma dessas pérolas cinematográficas que parecem surgir do nada com uma força incomum e que nos transforma reféns por mais de duas horas enquanto acompanhamos o caos de seus personagens, sendo eles humanos ou caninos. Além dos prêmios que conquistou mundo afora, o filme foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro e perdeu para o menos interessante (desculpem fãs) O Tigre e o Dragão de Ang Lee. Posso imaginar que não demorou muito para que um bando de atores começassem a cobiçar um papel no próximo filme de Iñárritú. Como ele tinha em mente uma espécie de trilogia sobre tragédias, ele podia se dar ao luxo de escalar para o mesmo filme nomes cobiçados como Sean Penn, Naomi Watts, Benicio Del Toro e ainda coadjuvantes do porte de Melissa Leo, Danny Huston e Charlotte Gainsbourg. Assim surgiu 21 Gramas, o inevitável passo seguinte ao excepcional Amores Perros. Se em Amores as histórias eram contadas quase que paralelamente, rompendo e reatando elos conforme os núcleos se desenvolviam de forma quase independente, 21 Gramas é o oposto. A edição quebrada mistura os núcleos e constrói sua lógica somente na cabeça do espectador - que tenta juntar os cacos do que sobrou da vida de três personagens  principais. Quando o filme se inicia, não sabemos exatamente em que ponto da narrativa seus personagens se encontram, um truque narrativo arriscado, mas que consegue manter o espectador tão desorientado quanto os personagens a que somos apresentados. Tudo gira em torno de um acidente de carro que vitimou o esposo e os filhos de Christina Peck (Naomi Watts), mas que ajudou o professor de matemática Paul Rivers (Sean Penn) a conseguir um transplante de coração. Conforme as peças se encaixam, Christina se afoga na dor (e nas drogas) até que conhece Paul e o torna cúmplice de um plano de vingança contra o homem que provocou o acidente. Ele é Jack Jordan (Benício Del Toro, em seu melhor momento), que não é um sujeito malvado e inconsequente, pelo contrário, é um ex-presidiário que busca sua redenção em torno da fé e conta com o apoio da esposa devotada (Melissa Leo) para melhorar de vida ao lado dos filhos. O acidente torna-se um grande martírio para o personagem, que será perseguido por Paul e Christina no auge do descontrole. Apesar de todos os maneirismos nos fragmentos de suas tramas, o cineasta consegue realizar seu filme mais harmônico - ainda que eu considere que tanta fragmentação acaba complicando a tensão crescente que deveria se instaurar logo de início. Entre os pontos mais interessantes da produção, está o fato de González esconder a câmera em locais inusitados para ressaltar as atuações viscerais de seus atores (com ajuda de uma fotografia estranhamente sombria). Pelo trabalho, Penn e Naomi foram premiados no Festival de Veneza - ela acabou sendo indicada ao Oscar pela sua excelente atuação (as cenas em que parece se torturar com a ausência da família são de despedaçar a alma). Del Toro também tem ótimos momentos e foi lembrado na categoria de coadjuvante no Oscar, mas embora ninguém tenha levado nada (só Sean Penn que com o filme impulsionou sua indicação por Sobre Meninos e Lobos e levou o Oscar de ator para casa) o filme é um belo trabalho onde morte e vida se colidem a cada instante. O título do filme (que na época muitos acharam que fazia alusão ao uso de drogas) é baseado nas pesquisas do físico Duncan MacDougall que (em 1907) constataram que o corpo perde 21 gramas no momento da morte (o que ele acreditava ser o peso da alma). Depois deste filme, Alejandro Gonzalez Iñarritú anabolizou ainda mais o seu estilo em Babel (2006), ultima parte de sua trilogia trágica e da parceria com o roteirista Guillermo Arriaga na construção de personagens com dramas que pesam uma tonelada. 

21 Gramas (21 Grams/EUA-2003) com Sean Penn, Naomi Watts, Guillermo Del Toro, Melissa Leo, Charlotte Gainsbourg e Danny Huston. ☻☻☻☻

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

INDICADOS AO OSCAR 2013: Melhor Atriz

EMANUELLE RIVA (Amor) se tornou a atriz mais velha a ser indicada ao Oscar. Aos 85 anos, após participar de clássicos como Hiroshima, meu Amor (1959) e A Liberdade é Azul (1995), entre muitos outros, a veterana atriz francesa conseguiu sua primeira indicação ao Oscar! Sua atuação como a esposa que começa a apresentar problemas de saúde com a passagem do tempo lhe garantiu vaga nas premiações (além do Oscar está indicada ao BAFTA e várias associações de críticos mundo afora). A proposta do amor sob o teste da velhice já premiou o filme em Cannes e pode surpreender ao premiar uma atriz querida por cinéfilos desde a década de 1950! 

JENNIFER LAWRENCE (O Lado Bom da Vida) divide o posto de favorita na categoria com Jessica Chastain. Ao seu favor tem o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia/Musical e o prêmio do sindicato dos atores, além disso já tem uma indicação anterior por Inverno da Alma (2010) (em que foi considerada uma revelação) e um currículo eficiente em blockbusters (Jogos Vorazes/2012 e X-Men Primeira Classe/2011) e filmes independentes (Loucamente Apaixonados/2011). Na comédia romântica diferentona de David O.Russel, Lawrence interpreta Tiffany, uma garota que se apaixona por um homem bipolar (Bradley Cooper) e aos poucos se mostra problemática (enquanto ele melhora seu quadro psiquátrico!).


JESSICA CHASTAIN (A Hora Mais Escura) apareceu para o mundo em 2012 no Festival de Cannes como a esposa de Brad Pitt no reflexivo A Árvore da Vida. Ano passado ela apareceu  em outros cinco filmes, por um deles foi indicada ao Oscar de coadjuvante (Histórias Cruzadas) e neste ano volta na categoria principal depois de receber o Globo de Ouro de atriz dramática. No polêmico filme de Kathryn Bigelow sobre a caça a Osama Bin Laden, Jessica interpreta uma agente durona da CIA que fica obcecada com sua operação de caça ao líder terrorista. O que pesa contra a atuação de Jéssica é o roteiro de Mark Boal (que já admitiu que se trata de uma obra de ficção) que dizem ser uma apologia à tortura. 

NAOMI WATTS (O Impossível) interpreta uma mãe que se perde da família em meio à catástrofe do tsunami na Tailância em 2004. Com todas as dificuldades, ela tenta reencontrar o esposo e os filhos com quem passava férias naquele paraíso destruído. Famosa pelo trabalho com David Lynch em Cidade dos Sonhos (2001) e pela franquia O Chamado (2002/2005), Naomi foi indicada anteriormente ao Oscar de atriz por 21 Gramas (2003), mas nos últimos anos se dedicou mais aos filhos e casamento com o ator e diretor Liev Schriber. A indicação serve para ressaltar que ela ainda está no páreo das melhores em Hollywood (e deve aparecer no Oscar novamente em 2014 com sua atuação como Princesa Diana).

QUVENZHANÉ WALLIS (Indomável Sonhadora) se tornou a mais jovem atriz a ser indicada ao Oscar (e também a com nome mais estranho). A prodígio estreante de nove anos já ganhou 11 prêmios por sua atuação (eles se dividem em Melhor Atriz e Revelação em várias premiações) e basta ver o trailer do longa metragem de Benh Zeitlin para entender o motivo. Pelo papel de Hushpuppy, uma menina que precisa lidar com o pai doente em meio a uma enchente na comunidade pobre em que vivem, a menina tem momentos de fazer corar de vergonha muitas pessoas que se dizem atrizes. Filmes sobre a pobreza nos EUA são raros, mas Zeitlin acertou em cheio ao escalar essa pequena estrela para encantar as plateias mundo afora. 

A ESQUECIDA: MARION COTILLARD (Ferrugem e Osso) foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz dramática, mas já imaginava que ficaria de fora conforme crescia a expectativa em torno de outra francesa que poderia aparecer na categoria da Academia (Emanuelle Riva). No filme de Jacques Audiard ela faz uma domadora de baleias que, num  acidente, tem as pernas esmagadas por uma delas. Esse fato acaba levando-a para um romance surpreendente com um homem envolvido com lutas clandestinas. Apesar de ter um Oscar na estante por Piaf (2007), a atriz francesa tem ficado de lado nos últimos anos do Oscar, mesmo colecionando atuações memoráveis em filmes como Nine (2009), A Origem (2010) e Meia-Noite em Paris (2011). 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

DVD: O Corvo

Evans e Cusack: paródia de Sherlock Holmes?

Uum filme de suspense que tem o escritor Edgar Alan Poe como protagonista é capaz de garantir o interesse de milhões de pessoas ao redor do mundo. O texto em torno de crimes baseados na obra do autor só precisa ser bem escrito para que consiga ser um grande sucesso, pena que textos bem escritos são raridades no cinemão hollywoodiano - e quando você vê Poe bancando o engraçadinho com piadinhas tolas e diálogos que já parecem clichês, a decepção já está instaurada na primeira meia hora de duração. James McTiegue está longe de ser um diretor de pulso firme (já podiamos perceber isso em sua estreia em V de Vingança/2005) e aqui ele apenas comprova sua dificuldade de fazer um filme para adultos. Nada contra os alívios cômicos em filmes que pretendem criar tensão, o problema é que não há tensão que resista a piadinhas fracas que aparecem no começo do filme (será que a ideia era pescar parte do público do Sherlock Holmes repaginado de Guy Ritchie?). Sorte que as piadinhas vão ficando para escanteio conforme a trama avança, mas aí ela cede espaço para um episódio de época da franquia Jogos Mortais (e admito que fechei os olhos nessas cenas). A apresentação de Edgar Alan Poe (John Cusack) como personagem já é frustrante, o problema pode ser, em parte, a atuação de John Cusack que não encontra o tom do personagem ficando no automático na maioria das cenas - e quando começa a bancar o conquistador ao lado da loura Alice Eve é impossível não imaginar que ele revisita Rob Gordon de Alta Fidelidade numa versão menos inspirada. Talvez por sentir que seu parceiro de cena não estava de brincadeira, as melhores cenas de John são aquelas em que aparece perto de Luke Evans (que você ainda vai ouvir falar muito quando ele conseguir um papel sério de verdade) que interpreta o detetive Fields. A ideia do filme é promissora, já que explora as investigações em torno de um assassino que se inspira nos contos violentos de Poe e embora a ideia mantenha o charme no início ela começa a perder fôlego quando começa a se repetir demais com citações superficiais à obra de Poe (percebam como sempre detetive e autor remetem ao mesmo trecho sem novidades ou avanços) e a presença do renomado escritor começa a se tornar cada vez mais didaticamente desnecessária junto aos detetives. Embora o elenco se esforce, McTeigue perde o ritmo logo no início e resta apenas saber quem é o assassino que desafia a lógica dos investigadores. Visualmente bem cuidado, o filme não cumpre tudo o que prometeu (especialmente no poster bem bolado que ficou em sexto lugar na minha lista de cinco melhores publicada aqui no blog). Ironicamente a partir do momento em que o vilão sequestra a amada de Poe o filme se torna cada vez mais arrastado e desinteressante. O Corvo torna-se apenas uma boa ideia desperdiçada e cheia de literatices.

O Corvo (Haven/EUA-2012) de James McTiegue com John Cusack,  Luke Evans, Alice Eve, Brendan Gleeson, Oliver Jackson Cohen, Kevin McNally e Sam Hazeldime. ☻☻

FILMED+: Bem Vindo à Casa de Bonecas

Dawn e a escola: cadeia alimentar peculiar.

Não sei quanto a de vocês, mas a minha adolescência foi um saco. Os hormônios tornam todas as nossas sensações gigantescas, (in)justamente no momento em que nossa aparência começa a passar por tranformações (mutações?) nem sempre confortáveis. A ideia de estar deixando a infância sem ser um adulto tem um efeito devastador em alguns que olham para frente e não conseguem ver melhores perspectivas num mundo que parece rejeitar tudo o que você tem  a dizer. Talvez Todd Solondz tenha pensado nisso quando escreveu, produziu e dirigiu Bem Vindo à Casa de Bonecas, que ainda hoje considero que é sua obra-prima. Premiado em Sundance o filme se tornou um verdadeiro objeto de culto numa época em que o cinema independente começava a chamar atenção do grande público. Bem antes de todo mundo começar a fazer campanha contra o bullying, o diretor Solondz já abordava o tema mostrando que o massacre da auto-estima de um adolescente não está apenas na escola, mas no próprio lar também. Quantos pais você conhece que apelida os filhos de nomes carinhosos como inútil, imprestável, rolha de poço, bola de cebo e quatro olhos? Ou apenas compara um dos filhos ao outro que é considerado mais inteligente ou mais bonito que o outro? A vida de Dawn Wiener é mais ou menos assim (e com um nome desses, que traduzindo a sonoridade soa como "vencedora para baixo"). Aluna do sétimo ano numa escola suburbana de Nova Jersey, a maior demonstração de carinho que a garota recebe é de um aspirante a deliquente que vive ameaçando estuprá-la. Suas colegas se divertem debochando das roupas e de todo o resto da mocinha - escrevendo em seu armário palavras de escárnio. Como melhor amigo, Dawn tem um garoto chamado Ralphy (Dimitri Iervolino) - que por ser efeminadoparece estar abaixo dela na cadeia alimentar desenhada pelo universo escolar. Em casa a situação não é melhor, a mãe é uma megera, o pai é um tapado, a irmã mais nova é uma garota mimada e manipuladora que consegue a atenção de todos sem esforço, já o irmão mais velho de Dawn, Mark (Mathew Faber) evita as meninas enquanto toca clarinete numa banda de rock de garagem (?!) e pensa na faculdade. O mais interessante é que Solondz consegue fazer humor num ambiente tão opressor sem parecer ofensivo. Mesmo o moleque que persegue Dawn, Brandon (Brendan Sexton, muito antes de aparecer na série The Killing) mostra-se mais interessado em manter um romance inocente com Dawn do que agredí-la (o difícil para ele é saber como se aproximar de alguém num universo onde palavras como amor e companheirismo demonstram fraqueza). Ainda que a tortura psicológica sobre Dawn não pare, as coisas pioram ainda mais quando ela se apaixona pelo vocalista roqueiro da banda de seu irmão, vivido por Eric Mabius, e ela passa a bancar a lolita sedutora (e torna tudo ainda mais engraçado). Solondz, consegue construir um filme agressivamente nostálgico (uma espécie de oposto radical a Moonrise Kingdom/2012). Dos figurinos coloridos, passando pelas canções melosas da bandinha de garagem, o filme fez as plateias voltarem num tempo onde a identidade vive seus piores momentos. Essa viagem à adolescência de cada um tem como ótimo catalizador a atuação de Heather Matarazzo que não posa de vítima (o que acho bastante salutar, já que estou cansado do Bullying produzir filmes sobre um bando de chorões que não parecem dispostos a perceber que são mais do que seus agressores julgam) ao mesmo tempo que não promete ser uma mulher genial no futuro. Trata-se de uma garota comum, que só pretende crescer em paz. Essa quebra com a lógica american way of life não era pouca coisa em 1995. 

Bem Vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse/EUA-1995) de Todd Solondz com Heather Matarazzo, Angela Pietropinto, Eric Mabius, Brendan Sexton, Bill Buel, Ken Leung e Scott Coogan. ☻☻☻☻☻

DVD: A Vida Durante a Guerra / Felicidade

Timmy e Trish: os melhores diálogos de Solondz. 

Todd Solondz pertence a um clube seleto de diretores que não tem muita fé na humanidade. Seus personagens costumam ser bem desagradáveis - e aqueles que são bonzinhos, servem apenas para padecer nas mãos dos outros. Seu estilo ficou bem marcado desde a estreia com o premiado Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1995) e se cristalizou dois anos depois com Felicidade, um título irônico para um filme caleidoscópico que gira em torno da família onde o patriarca tem tendências suicidas, a irmã de sucesso não conseguia um relacionamento que prestasse, a primogênita nem imaginava que era casada com um pedófilo e a irmã boazinha sempre se metia nas maiores humilhações quando resolvia desencalhar. Apesar do humor profundamente cruel, o filme tem um número de admiradores tão grande que motivou o diretor a retomar os mesmos personagens em seu quarto filme. O resultado, ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza em 2010 e chegou por aqui direto em DVD. Apesar do elenco diferente, A Vida Durante a Guerra é uma continuação bastante eficiente aos dilemas sobre os desdobramentos acerca do que os personagens enfrentavam no filme anterior - e ainda deixa o final em aberto para, quem sabe, um retorno a esses personagens que ainda tentam encaixar a vida com as peças tortas que encontram pelo caminho. O curioso é que Solondz nunca deixou muito claro porque não convidou os atores do filme anterior para a continuação, mas a resposta é evidente: a imagem das atrizes (com todos os recursos de hoje) não dariam a impressão que já passou quatorze anos do filme original - o que é fundamental para o funcionamento da trama. As histórias giram em torno da família Jordan. Em Felicidade Papai Lenny (Ben Gazarra) descobriu que tem problemas cardíacos, mas já está tão de saco cheio da vida que resolve cumprir as recomendações médicas ao contrário pra ver se morre mais rápido. Sua vida está num ponto tão sem graça que ele não corresponde nem às investidas de uma amiga da família. Pior para a sua esposa, Mona (Louise Lasser) que tem que dar conta das filhas adultas com vidas íntimas complicadas. Enquanto Trish (Cynthia Stevenson) acha que a vida com o esposo e os filhos é perfeita, o marido Bill (Dylan Baker) tenta manter segredo sobre sua vida de pedófilo enrustido espreitando os amiguinhos do filho mais velho. Solteira e famosa, Helen Jordan (Lara Flynn Boyle) parece frígida até o osso e julga-se melhor do que suas irmãs, especialmente a coitada Joy (Jane Adams, excelente) que tem a melhor relação de sua vida com um russo (Jared Harris, excelente) imigrante ilegal, casado e que só pensa em formas de arranjar dinheiro. Não satisfeito em misturar os dramas pessoais da família, o diretor ainda arranja espaço para um tímido pervertido chamado Allen (Phillip Seymour Hoffman) entre os pretendentes das irmãs. Entre cenas tragicômicas (e algumas nojentas), Solondz alfineta a família classe média americana onde o jantar com o avô moribundo vale menos do que a morte de um tamagotchi! Essa busca desengonçada pelo que o título indica fez com que nem todo mundo curtisse o humor do filme, mas, ainda assim, ele entrou na lista de dramas familiares cultuados na década de 1990, ao lado de Beleza Americana (1998) e Tempestade de Gelo (1997), portanto, só do diretor resolver retomar a vida de seus personagens uma década depois já desperta o interesse de muita gente. Para quem viu Felicidade, A Vida Durante a Guerra é mais interessante, especialmente pelas piadas auto-referências com a escalação do elenco. Pra começar, Allen que casou com Joy (agora vivida por Shirley Henderson) agora é interpretado por um negro esguio (Michael Kenneth Williams), bem diferente da lourice rechonchuda de Seymour Hoffman. Já Helen, depois que corta os laços com a família, é vivida pela sumida Ally Sheedy (uma das queridinhas da década de 1980) e a mãe que reclama a ausência do esposo é interpretada por Renée Taylor (a mãe da babá da série The Nanny, cujo esposo nunca aparecia em cena). Se em Felicidade o destaque era em torno de Joy, agora o filme privilegia a vida de Trish (a ótima Allison Janney) que tenta refazer a vida com os dois filhos mais novos (o mais velho está na faculdade), poupando-os da verdade sobre o pai que está preso  einvestindo no namoro com Harvey Wiener (Michael Lerner, com sobrenome importado de Bem Vindo à Casa de Bonecas). São de Janney as melhores falas do filme, onde Solondz mostra sua especialidade em contruir cenas onde o espectador não sabe se ri ou chora. Janney tem um bom parceiro em cena, o  sardento Dylan Riley Snyder que interpreta Timmy. É seu olhar ingênuo enquanto descobrimos que o pai está vivo (e foi libertado da prisão com a cara do britânico Ciarán Hinds) que nos guia pelas histórias do roteiro, já que Joy recebe menos destaque - ainda que sua peregrinação em reencontros nem sempre amistosos (e uma estranha capacidade de falar com os mortos) rendam alguns momentos marcantes. Apesar de ser uma sequência, A Vida Durante a Guerra consegue ter vida própria e - apesar de ainda explorar algumas neuras americanas superficialmente -  aprofunda ainda mais um tema recorrente no filme de 1997: os laços de família são mais fortes do que os problemas que enfrentam pelo caminho? A julgar pelo filme, em alguns casos sim. Os fãs do diretor não vão reclamar (apesar dos seus filmes renderem cada vez menos nas bilheterias). 

Harris e Adams: química marcante. 

Felicidade (Happiness/EUA-1997) de Todd Solondz com Jane Adams, Phillip Seymour Hoffman, Ben Gazarra, Dylan Baker, Lara Flynn Boyle e Jared Harris. ☻☻☻

A Vida Durante a Guerra (Life During War Time/EUA) de Todd Solondz com Allison Janney,  Dylan Riley Snyder, Shirley Henderson, Michael Lerner, Ciarán Hinds, Charlotte Rampling e Ally Sheedy. ☻☻☻☻

sábado, 2 de fevereiro de 2013

DVD: Ted

Seth, Mark e Mila: piadas repetitivas. 

O filme de estreia de Seth MacFarlane foi a grande surpresa de 2012! A bilheteria impressionou tanto os magnatas de Hollywood que o criador da série Família da Pesada (e seus infinitos desbobramentos)  foi convidado a apresentar o Oscar 2013 no próximo dia 23. Apesar de eleger o poster de Ted como o mais cool do ano passado, eu já ando tão escaldado com comédias que esperei bastante para assistir ao filme na comodidade de meu humilde lar. Ao final da sessão eu só me perguntei o motivo de tanto estardalhaço. Sei que os fãs do filme vão dizer que ele toca em assuntos sérios como a dificuldade do homem contemporâneo amadurecer, como as amizades masculinas podem minar um relacionamento e blábláblá. Esses fatores realmente estão no filme, mas debaixo de inúmeras piadas feitas para quem acha graça em ver um ursinho de pelúcia sexualizado e que usa drogas. Elas são até engraçadas no inúcio, mas depois elas começam a cansar pela, lá pela metade eu já estava bastante entediado com um filme de inúmeras possibilidades surreais. O filme gira em torno de John, um garoto solitário que ganha dos pais um ursinho de pelúcia. John fica tão apegado ao urso que um dia seu desejo de que o urso possa falar e ser seu amigo a vida inteira é atendido. No universo de Ted, ambos ficam famosos, mas com o tempo as pessoas se acostumam com a ideia do urso falante e eles precisam levar uma vida comum - a ideia de astros decadentes deve ter motivado o roteiro sobre drogas, bebedeiras e prostitutas. A coisa começa a complicar quando a a namorada de John, Lori (Mila Kunis), não aguenta mais a influência do ursinho no seu relacionamento. Algumas confusões depois, ela pede para que o namorado decida ficar com o urso ou com ela (graças à cena mais exagerada do filme, e, por isso mesmo,  a mais engraçada). Não fosse o amigo ser um urso, já teríamos visto cenas parecidas dezenas de vezes em comédias românticas - e outras nem tanto. Achei que as ideias de MacFarlane soam desequilibradas longe do formato curto dos desenhos animados, ele joga piadas sobre tudo (Embalos de Sábado à Noite, Flash Gordon, Taylor Lautner...), mas nem sempre acerta o alvo. Assim, não achei muita graça do conjunto. A necessidade  de ter um desfecho gerou até a necessidade de um moleque vilão que tem um pai frustrado que rebola diante da TV (Giovanni Ribisi em mais um momento bizarro para sua coleção). Como não podia deixar de ser o final é previsível e deixa o sabor de que Ted não teria fôlego para ser um sucesso, não fosse pelo crescente número de quem acha graça em grosserias, consumo de drogas e escatologia. Obiviamente que um filme de MacFarlane não seria politicamente correto, mas precisava ser tão repetitivo? Talvez a sequência seja melhor.

Ted (EUA/2012) de Seth MacFarlane com Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane e Sam Jones. ☻☻

KLÁSSIQO: Touro Indomável

DeNiro: uma fera  (com ou sem as luvas do ringue). 

Minha relação com Scorsese é estranha. Até a adolescência eu odiava seus filmes. As coisas só começaram a mudar depois que - um dia, perdido na madrugada da televisão - assisti Taxi Driver/1976 pela segunda vez (motivado por meu pai). Foi uma espécie de amor a segunda vista e, até hoje, aquele filme estrelado por Robert DeNiro (e uma precoce Jodie Foster) se encontra no topo do mundo Scorsesiano. Depois disso revi alguns de seus filmes (Os Bons Companheiros/1990, Depois de Horas/1985, Cassino/1995, Cabo do Medo/1991, A Última Tentação de Cristo/1988) e passei a admirar sua obra (especialmente as mais sombrias). Porém,. eu cresci com todo mundo falando sobre Touro Indomável (1980). Que era sua obra-prima, que foi injustiçado ao perder o Oscar para Gente como a Gente e outras coisas (inclusive que o filme perdeu o prêmio de melhor filme por conta de um atentado contra o presidente Ronald Reagen em que o autor mencionou seu fascínio por Taxi Driver, oops!). Tudo isso me fez pensar que eu o consideraria algo ainda melhor do que o meu favorito, achei o DVD, comprei e... não foi bem assim. Obviamente que existem grandes méritos no filme, a forma inovadora de narrativa - propositalmente fragmentada enquanto procurar criar uma (de)cadência na história do boxeador Jake LaMotta (DeNiro, ganhador do Oscar de Ator). É de luta em luta que acompanhamos a história do protagonista, no estabelecimento das relações entre sua vida pessoal e o resultado nos ringues. Devemos elogiar que Scorsese fez um trabalho brilhante nas cenas de luta. São cruas e dramaticamente intensas na construção do personagem que estava longe de ser uma unanimidade em simpatia, ao contrário, era todo fúria! Além de gostar de aniquilar seus adversários (ele obteve a marca impressionante de 83 vitórias - 30 por nocaute -, 4 empates e 19 derrotas) ele também era violento na vida particular, agredindo a esposa diversas vezes (a ótima Cathy Moriarty, indicada ao Oscar de coadjuvante) - especialmente por ciúmes. O envolvimento com mafiosos e o relacionamento explosivo com os amigos - incluindo o irmão Joey (Joe Pesci, indicado ao prêmio de ator coadjuvante pela performance altamente emocional) tornavam sua vida uma luta tão vigorosa quanto a que travava nos ringues. Mora aí a maior contribuição de Touro Indomável para a história do cinema: mostrar que a vida pode ser um grande ringue. A associação entre a vida dentro e fora do ringue que já aparecera em Rocky - Um Lutador (1976), se intensificou com o ritmo documental devido a edição moderna que se apropria das cenas que parecem pegas pela metade (cortesia da premiada Thelma Schoonmaker) e amplificada pela belíssima fotografia em preto e branco (de Michael Chapman). No entanto, o grande trunfo do filme ainda é a atuação de Robert DeNiro - que ganhava seu Oscar de ator seis anos depois que levou para a casa o de coadjuvante pela O Poderoso Chefão II (1974), talvez por ainda estranhar o formato do roteiro (ignorado no Oscar) eu ainda precise rever o filme algumas vezes para tirar Taxi Driver do meu pedestal scorsesiano.

Touro Indomável (Raging Bull/EUA-1989) de Martin Scorsese com Robert DeNiro, Cathy Moriarty e Joe Pesci. ☻☻☻☻