sexta-feira, 17 de maio de 2013

DVD: Lincoln

Daniel Day Lincoln: a diferença ente um filme e uma aula de História. 

Já estamos na temporada em que filmes da época de ouro começa a chegar em DVD/Blu-Ray, sendo assim, quem não conseguiu assistir aos nove filmes indicados ao Oscar deste ano, tem agora a chance de ver no conforto do lar - ainda que com as modestas proporções de uma exibição domiciliar. E quem já viu pode revê-los quantas vezes quiser. Lincoln de Steven Spielberg confirma o gosto da Academia em indicar o diretor quando ele se mete a filmar temas épicos. O filme foi o mais indicado ao Oscar deste ano e recebeu duas estatuetas: direção de arte e ator para Daniel Day Lewis. Lewis já era considerado imbatível desde que sua primeira foto caracterizado como o 16º presidente dos EUA. Antes do lançamento eu não queria parecer um estraga-prazer, mas desde que começou toda expectativa sobre o filme lembrei muito do que aconteceu com o magnífico Sangue Negro (2007) de Paul Thomas Anderson, que muitos consideraram (injustamente) que valia somente pela atuação de Lewis. Imaginei que poderia acontecer o mesmo com o esmerado filme de Spielberg - e de fato aconteceu, só que a diferença é que sem Lewis interpretando o fantasma de Lincoln não sei se o filme iria funcionar (ao contrário do filme de Anderson). O filme é irretocável em sua reconstituição de época (tanto que mereceu todos os prêmios que recebeu), os atores são excelentes (se Histórias Cruzadas/2012 era uma coleção de talentos femininos, esse aqui faz o mesmo pelo time masculino - ainda que em papéis de menor escala), mas sem Day Lewis causando arrepios com sua atuação mediúnica a coisa não iria passar de uma sonolenta aula de história. Quero deixar claro que não estou dizendo que o filme é ruim, mas a abordagem dos últimos anos do governo de Abraham Lincoln me parece didática demais no texto de Tony Kushner. São tantos personagens que aparecem em tão pouco tempo (e isso justifica a escolha de atores de presença marcante na tela) que por vezes mal conseguimos identificar quem é quem no jogo de interesses em torno de manter ou não a escravidão na terra do Tio Sam. Em 1865, a Guerra Civil já havia sacrificado vários cidadãos. Os EUA vivia uma crise que dividia seus estados entre norte e sul, baseado nas ideologias construídas desde a sua colonização. A escravidão, o nacionalismo exacerbado do sul, o crescimento da produção industrial e as tarifas interestaduais eram alguns dos motivos que pautavam os conflitos. Lincoln tinha que lidar com todos esses interesses em uma nação dividida e, via na associação entre o fim da escravidão e a paz a sua chance de acabar com a Guerra Civil. Não é fácil desenvolver um filme me torno de uma emenda constitucional e sua trajetória até ser aprovada, sendo assim existem momentos cômicos (como os lobistas da época querendo convencer políticos para a causa) e outros dramáticos que nem sempre funcionam - especialmente o xilique de Sally Fields como e Joseph Gordon Lewitt como o filho que quer ir para a guerra de qualquer jeito. É estranho, mas o filme parece escrito para ninguém fazer sombra à figura do presidente. Sua grandeza histórica merece, mas Tommy Lee Jones (indicado ao prêmio de coadjuvante), David Straitharn, Jackie Earle Halley, Hal Holbrook e John Hawkes (todos com uma indicação ao Oscar no currículo) devem se contentar com participações sutis no decorrer da história, assim como os não menos talentosos Jared Harris, Joseph Cross (desperdiçado como sempre)  e a lista segue. Quem vê o filme deve até notar a curiosidade de ver como o partido republicano e democrata modificaram suas ideologias no passar dos anos... ou será que nem tanto? O que mais me incomodou no filme é que apesar de todo o discurso antipreconceito, o filme nem esbarra num dos maiores motivos de acabar com a escravidão no solo americano: os escravos emperravam o discurso do trabalho pago fruto do capitalismo. Parece pouco, mas não é. Talvez com medo dessa causa parecer menos nobre, ela quase aparece diante das manobras quase equilibristas dos políticos da época. O que importa é que no meio de discursos racistas e outros contrários a ele, Daniel Day Lewis praticamente esmaga o filme com sua presença cênica. Prova disso é que basta seu perfil sombreado contra a luz para nos fazer acreditar que ele não interpreta Lincoln, ele é Lincoln. Sua atuação é o que faz o longa ser um filme e não uma tediosa aula de história americana. 

Lincoln (EUA/2012) de Steven Spielberg com Daniel Day Lewis, Sally Fields, David Straitharn Tommy Lee Jones, Jared Harris e Hal Holbrook. ☻☻☻

quarta-feira, 15 de maio de 2013

FESTIVAL DE CANNES 2013

Nem vou rasgar seda ao Festival de Cannes desse ano, vou me contentar em dizer quais os filmes que serão exibidos em suas mostras e só depois vou me arriscar a dizer quem iremos ouvir falar nesse ano - até o Oscar do ano que vem! Lembrando que a 66ª edição do Festival acontece do dia 15 até o dia 26 deste mês e tem filmes para todos os gostos, de diretores conhecidos como Polanski, François Ozon, os manos Cohen e outros queridinhos do festival como Nicolas Winding Refn e Claire Denis. Confira a lista de filmes - e seus diretores - e escolha os seus favoritos!


FILMES EM COMPETIÇÃO

Inside Llewyn Davis - Joel e Ethan Coen
Nebraska  - Alexander Payne
Venus in Furs  - Roman Polanski
Behind the Candelabra  - Steven Soderbergh

MOSTRA UM CERTO OLHAR
As I Lay Dying - James Franco
Miele - Valeria Golino
Death March - Adolfo Alix Jr.
L' Inconnu du lac - Alain Guiraudie
Bends - Flora Lau
La Jaula de Oro - Diego Quemada-Diez
Anonymous - Mohammad Rasoulof
Sarah préfère la course - Cloé Robichaud
Grand Central - Rebecca Zlotowski
My Sweet Pepperland - Hinner Salem
Tore Tanzt - Katrin Gebbe
Wakolda - Lucia Puenzo


SESSÕES DA MEIA-NOITE
Monsoon Shootout - Amit Kumar
Blind Detective - Johnnie To

SESSÕES ESPECIAIS
Weekend of a Champion - Roman Polanski
Stop The Pounding Heart - Roberto Minervini
Otdat Konci - Taisia Igumentseva


FORA DE COMPETIÇÃO
All is Lost - J.C. Chandor
La Dernier des Injustes - Claude Lanzmann


SELEÇÃO CINÉFONDATION
The Norm of Life - Evgeny Byalo (Rússia)
The Magnificent Lion Boy - Ana Caro (Reino Unido)
O Šunce - Eliška Chytková (República Tcheca)
Duet - Navid Danesh (Irã)
Needle - Anahita Ghazvinizadeh (Estados Unidos)
Waiting for the Thaw - Sarah Hirtt (Bélgica)
Stepsister - Joey Izzo (Estados Unidos)
In the Fishtank - Tudor Cristian Jurgiu (Romênia)
Seon - Kim Soo-Jin (Coréia do Sul)
Babaga - Gan de Lange (Israel)
Contrafábula de una Niña Disecada - Alejandro Iglesias Mendizátabal (México)
Going South - Jefferson Moneo (Estados Unidos)
Danse Macabre - Malgorzata Rzanek (Polônia)
Mañana Todas Las Cosas - Sebastián Schjaer (Argentina)
Asunción - Camila Luna Toledo (Chile)
Exil - Valdilen Vierny (França)
Pandy - Matúš Vizár (República Tcheca)
After the Winter -  Zhi Wei Jow (França)

domingo, 12 de maio de 2013

Combo: PARA O DIA DAS MÃES

5 Tudo Sobre Minha Mãe (1998) Sempre tenho a impressão que quem ousar fazer uma lista sobre mães e não incluir esse filme estará correndo sério risco de vida! Lembro quando o filme foi lançado e muitos desavisados acharam que era uma história inspirada na mãe de Almodóvar. Como o filho da personagem de Cecilia Roth morre logo no início, muitos se surpreendiam! O mais interessante é que no filme existe todo tipo de mãe, a autoritária, a grávida, a que zela pela amante... mas a que sempre reina absoluta entre as demais é Manuela. Sem filho desde as primeiras cenas, a personagem torna-se um porto seguro para os que conhece pelo caminho. 

4 Laços de Ternura (1983) Quem nunca teve seus desentendimentos com a mãe? Especialmente quando ela se deu conta que por mais que o amor seja recíproco, a criança que ela colocou no mundo cresceu e tem vontade própria ao chegar? Esse é o caso de Aurora (a espetacular Shirley MacLaine), que sempre discordou do namoro da filha (Debra Winger) com um escritor (Jeff Daniels), mas quando os pequenos dramas de ambas convergem para uma despedida inevitável é hora de mostrar que existem coisas mais importantes do que orgulhos e vaidades. James L. Brooks faz essa dramédia inspirada que nos faz querer ligar para a mãe da gente assim que o filme termina. 

3 Minhas Mães e Meu Pai (2010) Quem somos nós para julgar a formação do núcleo familiar de alguém? Sabemos que nas famílias pessoas diferentes ocupam seus papéis e o que importa é a forma como os desempenham - e não se são do sexo masculino ou feminino. O filme de Lisa Cholodenko fez sucesso ao mostrar uma família onde duas mulheres (as ótimas Julianne Moore e  Annette Bening) educam seus filhos com todas as inseguranças presentes em todos os casamentos - a maior delas surge com o aparecimento do pai das crianças (Mark Ruffalo). Teve gente que achou o filme panfletário do casamento gay, outros uma declaração de guerra aos homens... acho que esses não entenderam  nada do que viram. 

2 A Árvore da Vida (2011) Lembro quando o filme em O Corvo/1994 o personagem dizia que "Mãe é como o nome de Deus da boca de seus filhos". Jessica Chastain nesse filme de Terrence Mallick é a a melhor personificação dessa frase. Num lar dominado pela testosterona (são três filhos e um esposo autoritário - vivido por Brad Pitt), Jessica é a mãe que os meninos precisam para perceber que no mundo apenas som e fúria não basta - é preciso uma boa dose de amor para conseguir permanecer nele. Chastain era uma desconhecida quando desempenhou o papel e desde então tornou-se uma estrela, não são muitas atrizes que conseguem dar vida a uma personagem definida somente pela maternidade. 

1 Os Incríveis (2004) Meus amigos mais críticos vão achar que enlouqueci ao fazer uma lista tão idealizada sobre as mães! Acho que algumas amigas vão até me considerar machista, mas não estou nem aí! Por isso mesmo, nada melhor do que colocar no topo deste Combo a personagem que retrata melhor a forma como eu via minha mãe quando  era pequeno. A Mulher Elástica, a senhora Incrível em pessoa!  Quem nunca percebeu a mãe como uma super-heroína sempre disposta a ajudar quando você precisa? O mais bacana é que por ser uma heroína casada com um herói (você nunca viu seu pai assim também?) seus filhos também tem super poderes - assim como minhas irmãs e eu!!

sábado, 11 de maio de 2013

CATÁLOGO: Um Peixe Chamado Wanda

Cleese, Wanda, Jamie, Kevin e Palin: comédia clássica dos anos 1980.

John Cleese é um ícone da comédia dentro ou fora do Monty Python, trata-se de uma unanimidade da comédia (e em se tratando de humor ele nem precisa aparecer, é dele a voz do Rei em Shrek e ele assina o roteiro da animação Os Croods). O Python já estava parado a algum tempo quando resolveu escrever a sandice Um Peixe Chamado Wanda (1988) ao lado do diretor Charles Crichton. Para o elenco eles convidaram o amigo dos tempos de MP Michael Palin e os americanos Jamie Lee Curtis e Kevin Kline para tirar sarro da fleuma britânica. A maior piada do filme é colocar o próprio Cleese como o advogado de prestígio Archie Leach, que dá a oportunidade do ator fazer tudo que não tinha espaço na zona que era a obra de sua patota de comediantes: ser certinho. Obviamente que dá para rir de Cleese bancando o inglês típico que se mete num terrível plano orquestrado por um bando de assaltantes incompetentes. A trama começa com um roubo orquestrado pelo esnobe Georges Thomason (Tom Georgeson, o próprio nome do personagem é uma brincadeira com o nome do ator), que namora a esperta Wanda (Jamie Lee Curtis) e acredita que o comparsa Otto (Kevin Kline, Oscar de coadjuvante) é irmão dela, completa a quadrilha o gago desastrado Ken (Michael Palin). Depois que Georges é denunciado e preso, os amantes Wanda e Otto fazem de tudo para ficar com os lucros do assalto - isso inclui tentar seduzir Ken (os dois - cada um por um motivo específico, é verdade) e o advogado de defesa de Georges, Archie Leach. Leach tem lá o seu prestígio no ramo, mas tudo promete ir por água abaixo quando Wanda investe cada vez mais pesado para descobrir onde o namorado escondeu o que foi roubado. É engraçado como Jamie constrói sua pilantra sedutora num universo habitado por personagens majoritariamente masculinos menos espertos que ela, mas pode-se dizer que as melhores piadas ficaram com seus parceiros de cena (apesar dela fazer miséria com as reações de seu corpo seu estranho fetiche por línguas estrangeiras variadas). Cleese está impagável como o advogado que tenta esconder da esposa insossa que está tendo um caso, ao mesmo tempo, torna até compreensível porque ele se meteu numa aventura dessas depois de uma sucessão de cenas que mostram o quanto sua vida era sem graça antes de Wanda cruzar o seu caminho. Poe ela, Leach é capaz de fazer um dos strip-teases mais engraçados (e reveladores) da história do cinema.  É verdade que Michael Palin também tem os seus momentos tentando dar cabo da única testemunha do famigerado assalto (e de seus cachorrinhos adoráveis), mas quem surpreendeu mesmo foi Kevin Kline como o acéfalo Otto. Nem adianta colocar uma cena com o personagem lendo Nietzsche, o sujeito não conseguiria ser inteligente nem com um cérebro novo. Ele prefere passar o tempo debochando da fleuma britânica e esquentando a cabeça quando alguém lhe chama de imbecil, ou seja, é o homem ideal para Wanda manipular e conseguir o que quer. Kline ainda era um novato em Hollywood, com apenas seis filmes no currículo (todos com personagens dramáticos), ele aceitou o desafio de fazer humor ao lado de duas lendas da comédia e não fez feio. A diferença é que Otto consegue ser cretino na mesma medida que é sedutor em sua total ausência de noção do que se passa ao seu redor. Ah, claro, como pude me esquecer! Ainda tem a coitada da Wanda, não a mulher, mas o peixinho que observa a trama segura dentro de seu aquário até que Otto começa a suspeitar que ela esconde o que eles mais procuram durante a trama. Passado 25 anos de seu lançamento, o filme continua ágil e divertido, além de contar com um roteiro (indicado ao Oscar) que explora todas as possibilidades dos personagens que tem em mãos. Palin, Curtis, Kline e Cleese se juntaram novamente quase uma década depois em Ferocidade Máxima, que não conseguiu alcançar nem metade do sucesso deste aqui. 

Um Peixe Chamado Wanda (A Fish Called Wanda/EUA-Reino Unido-1988) de Charles Crichton com John Cleese, Jamie Lee Curtis, Kevin Kline, Michael Palin e Maria Aitken. ☻☻☻☻

quarta-feira, 8 de maio de 2013

KLÁSSIQO: Monty Python - O Sentido da Vida

Você confiaria nesses médicos?

O grupo de comediantes que formava o Monty Python ficou famoso em 1969 quando criou o programa de TV britânico Monthy Python - Flying Circus. O programa rendeu quatro temporadas de sucesso e um total de 45 episódios. Não são poucos que consideram que o humor debochado, escrachado e sem noção do grupo teve um impacto na comédia semelhante ao que os Beatles teve na música. A influência do humor do Python pode ser conferida até hoje em programas como Saturday Night Live e nas sempre bem vindas reprises do TV Pirata. Curioso é que depois que assisti a um documentário sobre o grupo, os comediantes diziam que muitos desdobramentos dos quadros apresentados por eles nem sequer eram cogitados quando elaboravam uma graça ou outra. Muitas vezes, a intenção era apenas instigar o espectador com uma dose cavalar de absurdo. Esse gosto por deixar a plateia inquieta pode ser conferido em seus cultuados filmes, filmes como Em Busca do Cálice Sagrado (1975) e A Vida de Bryan (1979) tem fãs fervorosos, assim como O Sentido da Vida (1983). Estranho é que quando era pequeno eu assisti a todos eles na Sessão da Tarde, mas não entendia patavina do que estava acontecendo. O Sentido da Vida é o mais episódico já realizado pelo grupo e que tira uma casquinha de suas provocações preferidas: as religião. Obviamente que vindo do grupo você espera tudo, menos que dissertem sobre o sentido da vida. Essa parece ser a premissa do filme, que é constituído de vários curtas quase independentes. Delírios como os peixes no aquário que comentam as cenas ou a espécie de apresentadora que interrompe a sessão quando chegamos ao meio do filme ou no final são alguns dos pontos de ousadia narrativa dos rapazes. Histórias como os velhinhos contadores que se rebelam contra os patrões e invadem uma espécie de wall street como se fossem piratas econômicos, está entre os momentos mais elaborados do grupo (é engraçado como consigo perceber o estilo visual de Terry Gillian nesse momento, ele voltou a exercitar esse estilo em vários de seus filmes posteriores como diretor). A grandiosidade da cena deixa claro que o sentido da vida passará longe do roteiro. Eles até tentam enganar falando sobre o nascimento de um bebê, seja num hospital onde todos parecem mais preocupados com o aparelho que faz "ping" do que com o bebê que está para chegar ou mostrando que a negação de métodos contraceptivos pode gerar sustento de famílias pobres com o uso dos filhos em experiências científicas! O humor mais obscuro do grupo pode incomodar os mais sensíveis com a sanguinolência do homem que tem seu fígado arrancado antes de sua morte ou a escatologia do gorducho no restaurante granfino. Obviamente que as pessoas podem enxergar camadas de críticas à sociedade nas histórias, mas vale mesmo é embarcar na viagem absurda e ter uma dose cavalar do humor ácido do bando de John Cleese. Minha história favorita ainda é da morte que vem buscar um grupo de amigos durante um jantar. A concepção da figura da morte é uma das mais bem construídas visualmente e serve de desfecho irônico ao mostrar todos os personagens numa espécie de paraíso com cara de boate de Las Vegas. Essa provocação só não ganha do estranhamento causado pela aula de sexo explícito na escola conservadora. No fim das contas, fica a impressão que O Sentido da Vida pode não ter sentido algum, mas pode render momentos bastante divertidos.

Monty Python: O Sentido da Vida (Monty Python's: The Meaning of Life/1983) de Terry Jones e Terry Gillian com Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones, Terry Gillian, Eric Idle e Carol Cleveland. ☻☻☻

DVD: Among Us

Ewa: beirando um ataque de nervos. 

Acredito que os filmes que consideramos bons são aqueles que provocam em nós alguma experiência diferente. Seja para emocionar, divertir ou assustar, são os filmes que aguçam nossas sensações que costumamos lembrar por mais tempo. Porém, existem filmes que parecem se contentar em ser mais uma experiência para o espectador do que qualquer outra coisa. Among Us é um filme holandês que não passou nos cinemas daqui - e quando assistimos ao longa de Marco Van Geffen logo podemos entender o motivo. O filme não tem pudores em ser estranho, embora o diretor invista numa trama quase trivial sobre o cotidiano de pessoas comuns ao ponto de quase provocar desinteresse. No entanto, ao fim da sessão quando as peças se encaixam, aquele cotidiano até arrastado cede lugar ao horror da violência que deixa as pessoas comuns cada vez mais arredias e reclusas. O filme é separado em três blocos, todos abordam o mesmo período na vida dos personagens, mas cada bloco é dedicado ao olhar de um determinado personagem sobre Ewa (Dagmara Bak). De origem polonesa, Ewa é contratada por um casal para ser babá. Apesar de quieta e introspectiva o casal percebe a dedicação de Ewa com o trabalho até que uma série de comportamentos estranhos começam a deixá-los preocupados com o fato de manterem aquela moça em sua casa. Na primeira parte achamos realmente que Ewa está beirando o surto. Será pelo fato de estar longe dos pais? Viver num país onde mal domina o idioma? Será um exagero dos seus patrões perante uma estranha? Quando na segunda parte vemos sua relação com a amiga espevitada Aga (Natalia Ribicka), começamos a ter algumas pistas do que pode ter acontecido com Ewa para que seu comportamento ficasse cada vez mais estranho. Os boatos de que existe um estuprador no bairro deixa a Ewa preocupada e, somente na terceira parte, percebemos que tudo é fruto de sua angústia silenciosa de saber quem é o homem que ameaça a paz do bairro. O filme é até interessante, mas exige grande paciência para que o espectador queira entender o que está acontecendo, já que o roteiro tem mais um enfileiramento de pistas do que propriamente uma história. O mais estranho é ao final tive a impressão que aquela garota meiga descobre quem é o meliante, mas não é capaz de tomar qualquer providência para evitar que novas vítimas sejam encontradas. Seu desespero no final do filme não consegue evitar que eu perceba que Among Us é um filme sobre a inércia e o silenciamento das pessoas comuns perante os criminosos. Ewa seria cúmplice ou uma vítima em potencial? É está pergunta que fica quando a moça consegue sua salvação individual após pouco mais de oitenta minutos de arrastada angústia.

Among Us (Onder Ons/Holanda-2011) de Marco Van Geffen com Dagmara Bak, Natalia Ribicka, Rifka Lodeisen e Guy Clemens. ☻☻

terça-feira, 7 de maio de 2013

CATÁLOGO: Poucas e Boas

Morton e Penn: química esquisita. 

Longe de mim duvidar do talento de Sean Penn. Ele é sem dúvida um dos maiores atores surgidos na década de 1980. Ganhador de vários prêmios entre Oscars, Globo de Ouro e dos maiores festivais de cinema do mundo (Cannes, Veneza e Berlim), Penn é realmente notável. No entanto, às vezes ele me parece se acomodar e fazer cara de quem passou mal o dia todo (como em A Árvore da Vida/2011), junte isso ao seu temperamento e algumas pessoas vão entender a antipatia que desperta em alguns. É quando vejo o ator fazendo cara de enjoado que tento me lembrar daqueles momentos diferentes em sua carreira, onde ele mostra o grande ator que é. Um desses momentos é neste que é um dos poucos filmes cômicos em que atuou: Poucas e Boas de Woody Allen. O filme rendeu sua segunda indicação ao Oscar (a primeira foi pelo excepcional Os Últimos Passos de Um Homem/1994) e o ator se sai muito bem ao construir um tipo inesquecível na pele do violonista Emmet Ray. Ray é sempre considerado o segundo melhor do ramo, ficando sempre atrás de Django  Reinhardt. Ray e Django disputavam a atenção dos apreciadores de jazz durante a Grande Depressão e a trejetória deste medalha de prata é contada a partir de anedotas lembradas por seus fãs (que inclui o próprio Woody Allen). As histórias não tentam explicar o homem por trás do mito, apenas aguça a curiosidade de como um machista, cruel, cafajeste, cleptomaníaco e egocêntrico conseguia ser extremamente conquistador perante o público feminino. Apesar de sempre ter uma mulher por perto, os passatempos favoritos de Emmet era tocar violão, atirar em ratos num lixão e ver trens passando. Tirando o dia em que inventou entrar num palco pendurado numa lua, suas maiores confusões são as amorosas. Embora tenha se casado com uma sofisticada escritora (Uma Thurman), não são poucos os que acreditam que o grande amor de sua vida foi uma simplória lavadeira muda chamada Hattie (Samantha Morton). O medo de se apaixonar por uma pessoa tão singela como Hattie faz com que Emmet tenha alguns momentos de extrema grosseria (e que nos fazem se apaixonar pela graça quase infantil de Morton) e cometa o maior erro de sua vida - um dos motivos pelo qual caiu no ostracismo e desapareceu do mundo artístico. Woody Allen consegue até fazer o espectador acreditar que Emmet Ray existiu. Embora o filme não tenha (e nem queira) a grandiloquência de Zelig (1983) torna-se notável a direção de arte muitíssimo bem cuidada e a trilha sonora sempre presente . Precisa dizer que os diálogos são inteligentes e bem construídos? Que as situações mais engraçadas sempre tendem para o mais incomum? E que Allen prefere criar climas do que começo, meio e fim? Em se tratando do diretor, acho que não. Vale mesmo é dizer que Morton foi indicada a vários prêmios de atriz coadjuvante (incluindo o Oscar) por sua excepcional atuação e que Sean Penn bem que poderia investir em outras comédias - as cenas em que toca violão sorrindo está entre os momentos mais suaves de sua carreira. O filme é tão leve e despretensioso que quase não foi visto nos cinemas.     

Poucas e Boas (Sweet  & Lowdown/EUA-1999) de Woody Allen com Sean Penn, Samantha Morton, Uma Thurman e Woody Allen. ☻☻☻

DVD: O Homem da Máfia

Pitt e McNairy: protagonistas dos melhores momentos do filme. 

O diretor neozelandês Andrew Dominik já soma três filmes no currículo, sendo que o segundo (O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford/2007) pode até vir a ser considerado um clássico nas próximas décadas. Enquanto isso não acontece ele pode desfrutar da amizade de um dos maiores astros de Hollywood, grato depois do convite para interpretar o lendário Jesse James   que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza. Brad Pitt e Dominik chamaram a atenção da mídia quando divulgaram estar trabalhando em um novo longa metragem. Pena que no fim das contas o filme deixa aquele gosto insosso de decepção. Baseado no livro de George V. Higgins (chamado Cogan's Trade) o filme foi exibido em Cannes como uma espécie de alegoria criminal da era Obama. O filme transborda ironia, cinismo e violência, mas quem curtiu o filme anterior de Dominik deverá se perguntar por que o diretor resolveu trocar sua análise sutil dos personagens na sociedade que os cerca por tanta pompa. É visível como o diretor tem gosto em criar cenas estilosas para os momentos mais violentos (Ray Liotta é espancado em câmera lenta para pouco depois ser morto num espetáculo de tiros e estilhaços de vidro). A impressão é que o diretor quis brincar de Quentin Tarantino, mas esqueceu de criar personagens fortes ou interessantes o suficiente para que a plateia pudesse se envolver com suas trajetórias. Parece que ao invés disso, se preocupou a mesclar discursos políticos da história americana recente com os fatos da missão de um matador de aluguel. Frank (Scoot McNairy) e o viciado Russell (Ben Mendelsohn) são amigos e são convidados a se tornarem bandidos pés de chinelo a convite de Johny Amato (Vincent Curatola). O plano consiste em assaltar uma sala de jogos clandestinos administrada por Markie Trattman (Ray Liotta) e deixar que a culpa recaia sobre o próprio Trattman que, anos atrás, assaltou sua própria casa de jogo frequentada por mafiosos. Desde o início fica claro o amadorismo de Frank e Russell (e que Trattman está fadado à tragédia). As consequências do assalto devem piorar quando chegar à cidade o temido Jackie Cogan (Pitt), um temido matador da máfia que está disposto a descobrir quem foram os dois "garotos" que assaltaram o local. Apesar do bom elenco, Dominik não consegue trabalhar a tensão como deveria. Para cada cena angustiante, existem outras que parecem estar sobrando ou se estendendo mais do que deveriam (como a cena de Russell doidão esboçando que pode ter posto tudo a perder ou os diálogos sobre prostitutas). O diretor capricha na construção de um ambiente de American Way of Life falido perseguido por viciados, prostitutas e bandidos perambulando por ruas e prédios decadentes (mordazmente pontuados por mensagens de esperança das eleições no Tio Sam). A trilha sonora também merece atenção, sempre soando irônica ao que vemos na tela, mesmo assim, tenho a impressão que falta vigor ao conjunto de elementos que o filme apresenta. Não entendi muito o que James Gandolfini faz durante o filme e achei abrupta a cena final em que Pitt deve fazer a glória dos antiamericanos, no entanto, nada parece coerente no jogo de cena onde traições, assassinatos e golpes em geral são motivados pelo vil metal. A ideia pode ser criar um olhar bruto sobre a política sócio-econômica dos EUA, mas o filme nunca decola. Muita gente vai curtir o assassino cool de Brad Pitt, mas no fim das contas eu ainda acho que ele é apenas um coadjuvante do novato Scoot McNairy (que também estava bem como um dos reféns fugitivos de Argo). Um rapaz que merece atenção e que já tem sete (!) filmes prometidos para esse ano. 

O Homem da Máfia (Kill Them Softly/EUA-2012) de Andrew Dominik com Brad Pitt, Scott McNairy, Ray Liotta, Ben Mendelsohn e James Gandolfini. ☻☻