domingo, 27 de abril de 2014

Na Estante: A Culpa é das Estrelas

A Culpa é Das Estrelas de John Green é um desses livros em que subitamente parece estar em toda parte. Lembro quando o livro foi lançado no Brasil em 2012 e uma resenha na mídia me chamou atenção por se tratar de um romance entre dois jovens com câncer. Era uma época estranha, onde uma série de produções procuravam ver com bom humor a cruel doença. Talvez por ser mais ou menos a mesma época dos filmes O Ruído do Gelo (2010) e 50% (2011), além da série The Big C (2010-2013), o livro não motivou que eu o lesse naquele exato momento - talvez eu mesmo devesse digerir meus preconceitos com relação à uma abordagem menos trágica ao assunto. Foi na minha visita à Bienal do Livro do ano passado que me rendi ao livro. Terminei de acompanhar a saga de Hazel Grace e Augustus Waters no mês passado e fiquei impressionado com a capacidade de John Green tratar de forma leve a história de personagens tão jovens lidando com a morte à espreita. Sem fazer dramalhão, Green tem a habilidade necessária para temperar o romance de seus personagens com bastante cultura pop. Eles sempre mencionam games, livros, estrelas de cinema (o livro sempre tenta criar uma semelhança de Hazel com Natalie Portman), bandas... enfim, seus personagens são jovens e se comportam como tal -  e por essa identificação o livro agradou tanto e está prestes a ganhar sua versão no cinema. O livro não é brilhante, mas cria truques interessantes que funcionam bem na cabeça do espectador, seja a sensação de que Hazel (que aos 16 anos tenta lidar com a metástase no pulmão gerada por um câncer de tireóide) e Augustus (vítima de Osteosarcoma) poderão falecer a qualquer capítulo ou a obsessão de Hazel com o destino de uma personagem de seu livro favorito (que a leva a conhecer o autor da obra) que revela muito de si mesma. O mais interessante é que Green não cria vítimas em seu livro, Hazel e Augustus tem suas qualidades e defeitos, são adolescentes que ainda constroem sua identidade e o olhar sobre o mundo, têm passagens de rebeldia, desobediência, estranhamentos... e ficarei feliz se o filme dirigido por Josh Boone (que antes realizou Ligados Pelo Amor/2012 com a estreia sempre adiada no Brasil) conseguir manter essas características que sempre afastam dos personagens a pecha de "coitadinhos" (coisa que Hazel e Augustus detestam). Simpático e melancólico, a versão cinematográfica do filme chegará aos cinemas brasileiros em 05 de junho de 2013 e trará um elenco inspirador formado por Shailene Woodley (Hazel), Ansel Elgort (Augustus), Laura Dern (na pele da atenciosa mãe de Hazel) e Willem Dafoe na pele de um autor cultuado por Hazel até que... bem, melhor ler o livro - nem que seja para comparar com o filme. 

A Culpa é das Estrelas (The Fault in our Stars) de John Green, tradução de Renata Pettengill. Editora Intrínseca, 2012.

Shailene e Ansel: Hazel & Augustus no cinema. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Na Tela: Capitão América 2 - O Soldado Invernal

Capitão e seu algoz: continuação coerente, mas sem o brilho do longa anterior. 

Quando o primeiro filme do Capitão América (2011) foi lançado eu ficava até irritado com todo o burburinho gerado pelo medo do antiamericanismo prejudicar as bilheterias do filme. A preocupação era tanta que o fato dele ser o "Primeiro Vingador" ficava mais evidente em alguns cartazes do que propriamente o nome do herói. Triste era ver que apesar de todo o cuidado na produção, o filme se tornou um dos menos rentáveis da fase pré-Vingadores elaborada pela Marvel (tanto que o encontro dos heróis na telona tinha até um flashback da origem do herói patriota). Se o primeiro filme trazia uma estética irresistivelmente retrô (e um roteiro bem costurado que brincava com a imagem realista do Capitão América com as fantasias que ele evoca), no mundo depois de Os Vingadores/2012, o herói deveria apresentar um novo conceito. O caminho mais óbvio era investir no choque de Steve Rogers ao viver num mundo completamente diferente ao que estava acostumado, já que no final de sua primeira aventura solo ele é descongelado várias décadas depois e escalado pela S.H.I.E.L.D. para lutar contra inimigos variados. O mais curioso é que os filmes do Capitão são os que mais possuem elementos para as aventuras do grupo de heróis, foi assim no primeiro filme com a descoberta do misterioso Triceracto que se torna o objeto das batalhas com Loki em Vingadores e, agora, o filme gira em torno da provável queda da S.H.I.E.L.D. perante a ameaça da organização nazista que o Capitão lutava contra em sua primeira aventura, a Hydra. Apesar do segundo filme ser bastante diferente do anterior, sua trama consegue ser bastante coerente com o que vimos anteriormente, já que Steve Rogers (mais uma vez vivido por Chris Evans) começa a perceber que as relações entre o bem e o mal nos dias atuais é bem mais confusa - e as coisas só pioram quando a vida de Nick Fury (Samuel L. Jackson) é colocada em risco. Rogers acaba sendo acusado de algo que não cometeu e conta apenas com a ajuda de Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o novo amigo Sam Wilson (Anthony Mackie) a maior parte do tempo para descobrir o que a Hydra está tramando. Sabe-se apenas que a organização conta com a ajuda do misterioso Soldado Invernal (cujo a identidade eu suspeitava desde que lembrei do primeiro filme)  para fazer o serviço sujo. O mais interessante é quando nos damos conta de como os vilões estão armando seu novo plano - algo assustadoramente verossímil, contemporâneo e que somente alguém com um olhar crítico potencializado por ser de outra era seria capaz de perceber. É absurdamente funcional o paradoxo entre liberdade e segurança que o filme apresenta, no entanto, apesar das cenas de ação elaboradas, o filme demonstra ser menos coeso que o anterior. Eu não entendi muito bem como o filme foi cair nas mãos dos irmãos Russo (Anthony e Joe) que são mais conhecidos pela produção da sitcom Community (2009-2012). Eles parecem fazer o filme engasgar várias vezes no meio do caminho - e as dezenas de frases engraçadinhas que aparecem na narrativa  não ajudam (aquelas sobre uma pretendente para o Capitão chegam a enjoar). Mesmo não tendo um roteiro tão bem construído como o anterior, o filme consegue ser relevante dentro do universo construído pela Marvel (sem aquele ar de história improvisada para faturar milhões que podemos perceber em Homem de Ferro 3) e reforça a boa índole do Capitão como um herói em estado puro como se pedia antigamente - o mais incrível é como Chris Evans encarna seu herói com insuspeita perfeição. 

Capitão América 2 - O Soldado Invernal (Captain America 2: The Winter Soldier/EUA-2014) de Anthony Russo & Joe Russo com Chris Evans, Samuel L. Jackson, Robert Redford, Scarlett Johansson, Anthony Mackie e Hayley Atwell. ☻☻☻

Combo: Dogma 95

O Dogma 95 deve ser o último movimento cinematográfico mais badalado mundialmente. O D95 foi lançado em 13 de março de 1995 através de um manifesto assinado pelos dinamarqueses Lars Von Trier e Thomas Vinterberg. No manifesto, havia dez regras de verdadeiro "celibato cinematográfico" (que configuraram uma espécie de vanguarda técnica no final do século XX), as regras incluíam o não uso de cenários montados, captação direta do som (incluindo a trilha sonora), uso de câmera na mão, ausência de iluminação especial e até ausência do nome do diretor nos créditos. Essa tentativa de construir filmes mais realistas recebeu vários adeptos pelo mundo, inclusive no Brasil que lançou Funeral em Família/2009. Alguns dos preceitos podem ser vistos em vários filmes de diretores que posam de "estilosos" do cinema atual, mas se você quiser conhecer a origem de tudo isso precisa conhecer alguns filmes importantes do movimento:

05 Fuckland (2000) escrito e dirigido por José Luis Márques o filme foi totalmente realizado em câmera digital e seguindo vários preceitos do Dogma 95 para contar a história de Fabián Stratas, um mágico e comediante argentino que resolve criar um plano até ingênuo: engravidar mulheres de uma localidade de domínio dividido entre o Reino Unido e a Argentina (a Falkland Island, de onde saiu o trocadilho do título). O filme teve grande repercussão mundial (inclusive no Brasil) e criou mais burburinho por ser feito clandestinamente, sem autorização do governo de Flakland e sem contar à namorada de Stratas suas verdadeiras intenções de guerrilha!

04 Italiano para Principiantes (2000) Antes de partir para Hollywood e fazer filmes como o ótimo  Educação/2009 e o nem tanyo Um Dia/2011 Lone Scherfig ganhou fama com esse filme sobre um jovem pastor que chega numa cidade dinamarquesa e aceita a sugestão de frequentar um curso noturno para aprender a italiano. As aulas servirão para que ele ajude um grupo de pessoas com histórias de vida complicadas, mas que aos poucos irão aprender a superar seus problemas. Lone foi a primeira mulher a aderir ao movimento Dogma 95 e foi premiada no Festival de Berlim por introduzir doses generosas de otimismo o movimento. 

03 Mifune (1999) Soren Kragh-Jacobsen sabia que os filmes do movimentos não deveria se restringir a gêneros, mas diferente dos seus colegas que faziam filmes pesadões, ele pegou um ponto de partida bastante dramático para criar uma comédia romântica memorável: um homem que interrompe a lua-de-mel devido a morte do pai - que vivia numa fazenda decadente acompanhado de um filho problemático. Para dar conta do casamento e seus novos afazeres, ele contrata uma empregada linda e delicada (papel de Iben Hjejle que depois fez Alta Fidelidade/2000 com John Cusack) - o que ira gerar algumas situações tragicômicas durante a sessão. Quem está acostumado com o tom pesaroso dos dogmáticos pode estranhar a sessão... 

02 Os Idiotas (1997) Antes de jogar as regras do movimento para o espaço (e fazer um musical com Björk), Lars Von Trier criou a experiência mais radical do Dogma 95 ao contar essa história sobre um grupo de pessoas que busca o "idiota anterior" para perder suas inibições. Assim, eles começam a se comportar como se fossem... idiotas! - uma forma de desafiar as convenções sociais e o tratamento pouco criativo e pouco desafiador dado à inteligência. São quase duas horas de provocações do diretor, incluindo cenas de nudez e sexo explícito. Para quem acha que o que ele faz em Ninfomaníaca/2013 é novidade em sua carreira...

01 Festa de Família (1998) Thomas Vinterberg caiu nas graças da crítica mundial com o filme mais cultuado do D95. O uso da câmera trêmula diante de um episódio familiar chocante foi fundamental para o sucesso do filme. Afinal, a câmera nos faz sentir um convidado diante do turbilhão de emoções vivido pela família que precisa lidar com uma terrível revelação: de que o patriarca da família (Henning Moritzen) abusou sexualmente de seus filhos por muito tempo (um deles até se suicidou). Filmado e escrito de forma crua, Festa de Família chegou como uma bomba nos cinemas e foi indicado a vários prêmios (incluindo o Globo de Ouro de filme estrangeiro). Pena que só recentemente, Vinterberg acertou a mão novamente com A Caça/2012. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

DVD: A Caça

Mads: preso num labirinto de acusações. 

A Caça é o tipo de drama que mais parece um filme de terror. O dinamarquês Thomas Vinterberg conta a história de Lucas (Mads Mikkelsen, excelente e premiado em Cannes), um professor de creche que tenta reconstruir sua vida depois de um divórcio. Além dos desentendimentos com a esposa e a briga pela guarda do filho, Lucas passa o tempo na companhia de sua adorável cadelinha Fanny e dos amigos com quem caça de vez em quando. Apesar dos dramas familiares, a vida de Lucas pode ser considerada tão tranquila quanto a cidade em que vive. O melhor amigo de Lucas é Theo (Thomas Bo Larsen) que de vez em quando se desentende com a esposa e deixa a filha de oito anos, Klara (Annika Wedderkopp) meio de escanteio. Nos momentos de crise familiar, é o sereno Lucas que serve de porto seguro para a menina. É nesse desenvolvimento inicial que podemos ver  quanto Klara admira o amigo de seu pai. Percebendo isso, Lucas conversa com Klara e ela sente raiva suficiente para comentar com a diretora que "odeia Lucas" porque "ele é bobo, feio e tem pipi". Misturando referências que ouviu seu irmão adolescente conversando com amigos, ela complementa seus comentários de forma que a diretora acredita que Lucas molestou a menina na escola. Daí em diante, Lucas mergulha num inferno astral onde de bom sujeito ele se transforma num pedófilo perante a comunidade - sem nunca ficar muito claro do que está sendo acusado. O filme constrói lentamente o drama do personagem, que começa a ser rejeitado por toda a comunidade, perde o emprego, as chances de ficar com o filho e se torna alvo de ações violentas de quem antes considerava ser seus amigos. Cria-se entre os personagens uma estrutura sufocante, onde a verdade nunca consegue aparecer numa histeria coletiva onde o que importa é execrar Lucas e quem está perto dele. Econômico em sua narrativa, mas pleno no domínio de cada cena, Thomas constrói um drama pesado num ritmo de pesadelo onde a condução de um comentário é capaz de acabar com a vida de alguém. Vendo o filme lembrei de O Processo de Kafka e de As Bruxas de Salém de Arthur Miller, mas A Caça ganha vida própria ao lidar com uma paranoia atual de forma bastante contundente. O filme serve como modelo exato de como não lidar com um caso desses, a diretora nunca faz as perguntas certas à menina, deixa sempre lacunas para que seus próprios medos possam preencher, da mesma forma, nunca é clara com a comunidade, deixa o imaginário de todos aumentar ainda mais o comentário da menina, expõe vítimas, o suspeito e seus familiares, vizinhos, crianças, escola... transformando toda a cidade num campo onde quem é considerado "pessoa de bem" precisa estar disposto a cometer alguma selvageria. A tensão é crescente e a reflexão sobre como a "civilidade" se transforma facilmente em "selvageria" quando borramos os conceitos de vingança e justiça é certeira em seus objetivos. Há de se exaltar as atuações de todo o elenco, sobretudo da menina Annika e de Mads que está excepcional na pele de Lucas (há nele algo de Jó, que fica ainda mais evidente na catártica cena da igreja).  Vinterberg cria aqui o seu melhor filme, curiosamente, abordando uma tema parecido com do longa que o revelou para o mundo (o controverso Festa de Família/1998). Além da boa condução da jornada de Lucas, o filme mostra-se brilhante quando, ao final, tudo parece se acertar de forma incômoda ao espectador - até que uma surpresa (que remete diretamente ao título) mostra que, por mais que a verdade tenha aparecido, a mancha permanecerá para sempre na vida de seus personagens.   

A Caça (Jagten/Dinamarca-2012) de Thomas Vinterberg com Mads Mikelsen, Annika Wedderkopp, e Thomas Bo Larsen. ☻☻☻☻

§8^) Fac Simile: Jennifer Garner

Jennifer Anne Garner Affleck
Fac Simile é o repórter imaginário do blog que de vez em quando conseguirá entrevistas falsas com algum astro do cinema. A vítima eleita de sua estreia foi a atriz Jennifer Garner, a esposa de Ben Affleck. Ele a encontrou numa premier de seu novo filme "Draft Day" e teve o direito de fazer cinco perguntas para Jen. Fac não perdeu tempo:

§8^) Você participou de dois filmes independentes que foram indicados ao Oscar de Melhor Filme (Juno/2007 e Clube de Compras Dallas/2013) e que houve até especulações de ser indicada como coadjuvante, mas você nunca foi. Como se sente diante disso? 

Jen: O quê? É essa mesmo a pergunta? Bem... eu me sinto... esquecida! Mas depois que o filme de Ben (Argo/2012) foi indicado em sete categorias, ganhou quatro, incluindo melhor filme, e ele não foi lembrado na categoria de diretor eu aprendi que coisas piores acontecem o tempo todo. 

§8^) Acha que isso ainda é reflexo pelo seu fracasso em Elektra/2005 ?  

Jen: ... [risos] Acho que não, afinal era um filme tão ruim, será que alguém ainda lembra dele?

§8^) Bem... sou eu que faço as perguntas por aqui...

Jen: Ok. Ok. Acredito que não!

§8^) Afinal, você foi apresentada como a nova Julia Roberts e Julia foi indicada ao Oscar pela primeira vez com 22 anos por Flores de Aço (1989) e ganhou o Oscar aos 33 por Erin Brockovich (2000), você está com quantos anos mesmo? 

Jen: Acabo de completar 42... mas sempre achei uma estupidez essa comparação. Nem considero que somos parecidas... e tenho três filhos para criar, tenho mais com o que me preocupar. 

§8^) Eu imagino... Quais são os seus novos projetos no cinema?

Jen: Estou no novo filme do Jason Reitman, "Men, Women & Children" ao lado de Emma Thompson, acho que será um filme interessante sobre as relações humanas e a influência da internet na identidade das pessoas. Estou também em "Imagine" de Dan Fogelman onde um músico tenta se reconectar com a família, fiquei muito feliz de trabalhar no filme ao lado de Al Pacino, Michael Caine, Annette Bening, Christopher Plummer... eles são meus ídolos desde que eu era pequena. Além disso estou em "Alexander and the Terrible, Horrible, no Good Very Bad Day" de Miguel Arteta em que atuo com Steve Carrell. Mas vocês devem assistir primeiro A Grande Escolha (Draft Day) em que atuo com Kevin Costner. O filme acabou de estrear nos cinemas dos EUA. 

§8^)  Quanto trabalho! Qual a pergunta mais idiota que você já teve que responder? 

Jen: Além das suas? Deixe-me ver... uma vez me perguntaram "Nunca achou estranho seu esposo ter um namoro tão comentado com Jennifer Lopez e ele, de repente... casa com outra Jennifer?"

§8^) E você respondeu?

Jen: Querido, o acordo era para cinco perguntas...

sexta-feira, 18 de abril de 2014

DVD: Butter - Deslizando na Trapaça

Garner: espécie de Desperate Housewive psicótica.  

Não é fácil ser Jennifer Garner. Depois de protagonizar um dos melhores seriados de ação da década passada (a celebrada Alias que durou de 2001 até 2006 sob a batuta de J.J. Abrams), receber prêmios e ser apontada como a nova Julia Roberts (sempre tenho a impressão que Hollywood procura isso, não sei exatamente o motivo, mas Sandra Bullock e Julia Ormond também ouviram a mesma coisa) ela foi deixada meio de lado depois de protagonizar filmes que não decolaram (sobretudo a personagem dos quadrinhos Elektra/2005, mais conhecida como namorada do Demolidor/2003 de Ben Affleck). Se a carreira tem seus tropeços, Jennifer parece feliz no casamento com Ben Affleck (que já dura nove anos, uma eternidade para os astros do cinema) e seus três filhos (duas meninas e um menino) para cuidar. Entre uma licença maternidade e outra, Jennifer encontra refúgio em filmes independentes que costumam funcionar (basta lembrar de Juno/ 2007 ou o recente Clube de Compras Dallas/2013 ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme). Em 2011 ela chegou a produzir esta comédia de costumes que tinha a ambição de lhe garantir, pelo menos, um lugar no páreo do Globo de Ouro, mas o filme teve problemas com a distribuição durante a temporada de ouro nos EUA e acabou sendo exibido somente em festivais, - sendo exibido em poucas salas, obtendo uma carreira inexpressiva no cinema. Dito isso, o filme pode até assustar, mas Butter está longe de ser um desastre, mas talvez a ideia de chamar um filme de "manteiga" e contar uma história ambientada em concursos de esculpir o laticínio não tenha rendido uma boa campanha de divulgação. O diretor Jim Field Smith acerta no tom de deboche com que apresenta seus personagens e mostra que não  se pode levar a sério quem vê um concurso desses como sua única forma de subir na vida - esse é o problema de Laura (Jennifer Garner). Debaixo de sua casca de esposa perfeita, percebemos que existe algo meio fora do eixo em sua vida quando dela decide assumir a carreira do esposo, Bob (Ty Burrell), que ficou famoso por criar esculturas inovadoras em manteiga. Com Bob aposentado, ela acredita ter técnica suficiente para derrotar seus oponentes, até que uma criança (a carismática Yara Shahidi) torna-se sua maior oponente. Se Laura não consegue convencer nem a enteada (que a detesta), imagina como ela enfrenta uma menina fofa, talentosa e com histórico de vida cheio de dramas (foi abandonada pela mãe, viveu em orfanato é adotada... o que rende um hilariante discurso sobre os ganhadores do American Idol). Enquanto a menina encontra os pais adotivos que pediu a Deus - vividos por Rob Corddry e... Alicia Silverstone (!!!) em um bom momento -, o roteiro demonstra que nem tudo é perfeição na vida de Laura e Bob (ela está prestes a cair na lábia de um ex-namorado vivido por Hugh Jackman e Bob é amante de uma stripper vivida por Olivia Wilde). Quando a competição deixa Laura a beira do surto resta a ela apelar para o que o título anuncia. É verdade que o diretor não poupa os personagens de um tom caricatural, mas a coisa funciona de forma bastante eficiente. Apesar do filme não ter alcançado o sucesso que esperava, Jennifer Garner consegue construir uma personagem bastante interessante, uma espécie de irmã mais nova da personagem de Annette Bening em Beleza Americana/1999 (o filme em geral parece um irmão menor do celebrado longa de Sam Mendes), já que Laura não tem noção do quanto está deslocada no universo que escolheu para si e, por isso mesmo, faz Butter ser mais interessante do que ambiciona. O filme também vale a pena para ver Hugh Jackman num papel mais cômico do que estamos acostumados a vê-lo. 

Butter - Deslizando na Trapaça (Butter/EUA-2011) de Jim Field Smith com Jennifer Garner, Yara Shahidi, Ty Burrell, Olivia Wilde, Hugh Jackman, Alicia Silverstone e Rob Corddry. ☻☻☻

CATÁLOGO: As Patricinhas de Beverly Hills X Emma


Rudd e Alicia: No tempo das Patricinhas de Beverly Hills. 

Ainda lembro que quando Amy Heckerling lançou As Patricinhas de Beverly Hills ela dizia que era uma versão contemporânea de Emma de Jane Austen. Eu achava que se tratava de um golpe publicitário dos mais espertos da diretora que ficou famosa com a série Olha Quem Está Falando (1989). Minha desconfiança continuou até quando Douglas McGrath resolveu fazer a adaptação literal do livro de Austen, mas recentemente quando revi Emma (ao lado dos suspiros costumeiros de minha irmã), EUREKA!!! Heckerling realmente fez uma versão do livro de Austen - e devo admitir que foi bastante fiel em sua transposição de uma jovem inglesa rica do início do século XIX para o berço de ouro americano de Beverly Hills nas portas do século XXI. Emma Woodhouse (vivida por uma jovem Gwyneth Paltrow em um de seus melhores momentos) é bonita, inteligente, rica e... mimada. Ela se considera tão esperta que julga-se capaz de manipular as pessoas e situações ao seu redor para conseguir o que acredita ser melhor para os outros.  Emma considera que é boa em escolher maridos para as amigas desde que conseguiu unir sua governanta Miss Taylor (Greta Scacchi) com Sr. Weston (James Cosmo). Ainda que as intenções de Emma sejam boas, ela não tem a capacidade de perceber como ao utilizar as convenções de sua época ela pode ser bastante arrogante e preconceituosa. A graça da obra de Austen é apresentar Emma como uma heroína, quando na verdade ela poderia ser considerada uma personagem até detestável, afinal, ela pode estragar a felicidade de pessoas como sua amiga Harriet Smith (vivida por Toni Collette) apenas por não considerar que o  Robert Martin (Edward Woodall) não é um bom partido para ela. Da mesma forma, Emma julga-se tão astuta em suas crenças que é incapaz de perceber que o amor está tão perto dela mesma - afinal, ela mantém um relacionamento bastante próximo com Sr. Knightley (Jeremy Northan), irmão do esposo de sua irmã. É Knightley que de vez em quando tenta trazer um pouco de criticidade para a postura de Emma. Apesar de pouco conhecido, o diretor Douglas McGrath tem uma indicação ao Oscar por escrever ao lado de Woody Allen o roteiro de Tiros Sobre a Broadway (1994) - e com exceção de Não sei como Ela Consegue (2011) com Sarah Jessica Parker seus filmes são bem legais - e faz de Emma um filme bastante agradável de se assistir diante da ambiguidade de sua personagem (que é vivida com leveza por Gwyneth, antes do peso do Oscar na estante).  

Gwyneth e Jeremy: o mundo tradicional de Jane Austen.

Enquanto Emma segue os moldes de um filme de época tradicional feito para agradar o público feminino, As Patricinhas de Beverly Hills foi moldado à imagem e perfeição para fazer sucesso entre os jovens do mundo todo (e fez, tanto que além do sucesso virou série para a TV). Para começar a protagonista era Alicia Silverstone, que chegava ao auge depois de alguns filmes menores e a participação em clipes da banda Aerosmith. Alicia vive a jovem rica Cher, assim como Emma ela também não tem mãe, vive com o pai, gosta de criar relacionamentos entre as pessoas que estão ao seu redor e tem à sua volta alguém que quer que ela perceba o que as convenções que ela abraça com tanto gosto tem algo de fútil e prejudicial para a formação de seu caráter. Aqui ele não é irmão do seu cunhado, mas o enteado de seu pai, Josh (Paul Rudd, antes de ficar cômico e acreditando que podia ser galã), que por estar na faculdade lê Nietzsche e percebe que Cher ainda tem salvação. Tal e qual Gwyneth, Alicia consegue construir uma personagem bastante gostável, com a vantagem que Cher tem seus preconceitos atrelados às tribos da escola, o que suaviza a antipatia que a plateia poderia sentir por ela. É curioso ainda que o rumo dos acontecimentos seja o mesmo - o casamento arranjado por Cher é de um casal de professores, sua amiga Tai (a saudosa Brittany Murphy no momento de descoberta) é sempre alvo de namoros arranjados por Cher, inclusive um com Elton como no livro de Jane Austen (vivido por Jeremy Sisto em Patricinhas e Alan Cumming em Emma). Se Douglas McGrath consegue recriar a época de seu filme com bela fotografia, belas paisagens e figurinos apropriados, Amy Heckerling faz o mesmo. Tudo em Patricinhas é colorido, shoppings são templos sagrados, celulares são indispensáveis e as roupas parecem estar sempre em destaque entre Cher e suas amigas. Além disso, a trilha sonora (com Radiohead, Luscious Jackson e outras bandas badaladas dos anos 1990) ajudavam a criar o clima de uma Beverly Hills idílica, onde tudo é confortável apesar dos momentos de crise de sua protagonista (ela não consegue ser levada a sério, não consegue dirigir e quase surta quando descobre-se apaixonada por Josh). Entre as semelhanças entre os filmes, vale ressaltar o humor que ambos possuem perante a realidade de suas personagens e o fato de que podem ser considerados momentos memoráveis na trajetória de suas atrizes. Gwyneth e Alicia podem não viver seus melhores momentos atualmente, mas ambas brilharam como grandes promessas de Hollywood em meados da década de 1990. 

Emma (Reino Unido-EUA/1996) de Douglas McGrath com Gwyneth Paltrow, Jeremy Northan, Greta Scacchi, Toni Collette, Sophie Thompson, Ewan McGregor, Polly Walker e Alan Cumming. ☻☻☻

As Patricinhas de Beverly Hills (EUA-1995) de Amy Heckerling com Alicia Silverstone, Stacey Dash, Paul Rudd, Britany Murphy, Donald Faison e Jeremy Sisto. ☻☻☻

DVD: O Labirinto de Kubrick

Jack e o labirinto: colagem de referências ou de subjetividades?

Não sei o efeito que os filmes de Stanley Kubrick têm sobre você, mas tenho consciência de que eu sou hipnotizado por eles. Posso até não gostar quando os assisto pela primeira vez, mas  sinto vontade de vivenciar as experiências que proporcionam mais de uma vez - e quando os assisto novamente consigo apenas enxergar qualidades. Talvez seja por esse motivo que Kubrick seja considerado um mestre, um dos poucos cineastas capaz de enfileirar uma obra-prima depois da outra e, por isso mesmo, um documentário sobre a sua obra era quase inevitável. Room 237 causou alguma polêmica quando foi exibido em Sundance, talvez pela forma bastante subjetiva como recebe o formato documental quando, na realidade, seja uma coleção de interpretações sobre um dos filmes de maior sucesso de Kubrick: O Iluminado. Lançado em 1980, o filme é considerado um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, o que torna mais curioso perceber que embaixo da trama esconde-se uma série de referências que tornam o filme mais rico. São essas referências que renderam o título nacional de O Labirinto de Kubrick. O cineasta mescla simbologias de forma quase inconsciente na mente do espectador. Dentro dos vários olhares que o filme apresenta, a única que eu havia percebido é a forma como o diretor apresenta o hotel como um verdadeiro labirinto de percepções (é como se os cômodos tivessem vida própria, movendo-se de um lado para o outro, confundindo o espectador entre cortes e sobreposições precisas. O Hotel nunca parece o mesmo quando se anda dentro dele - é quase como se os personagens e o espectador se perdessem em seu sistema digestório). Há indícios de que Kubrick queria provocar o espectador a perceber o quanto é fácil ser enganado pelas imagens e isso o torna bastante instigante. No entanto, esse é apenas um dos itens utilizados pelo diretor para enriquecer essa adaptação da obra de Stephen King (que, como dizem no filme, odiou a adaptação devido as alterações que o diretor realizou em sua história original). A trama mostra um escritor Jack (Jack Nicholson) que se isola num hotel junto com a família e enlouquece aos poucos sob a influência das assombrações que habitam aquele lugar - dizer mais do que isso pode estragar a sessão. De acordo com os entrevistados, a trama aparentemente simples, servia como uma luva para as ousadias narrativas que o diretor queria utilizar depois de sua insatisfação com o resultado alcançado em Barry Lyndon (1976). Se Lyndon pode ser considerado um filme "tedioso feito por um homem entediado",  Kubrick queria se recuperar em sua obra seguinte, realizando um filme que explorasse o poder da imagem sobre o espectador, misturar referências que iam desde o genocídio dos índios americanos, o holocausto, desejos sexuais, mitologias e a forma como a humanidade destrói sua família sobre a terra. Debaixo de todas essas camadas que rondam a cabeça do protagonista (e do diretor), ainda há os que acreditam que O Iluminado esconde a confissão de Kubrick sobre seu envolvimento na farsa das imagens divulgadas da viagem da Apollo 11 à Lua (essa confissão estaria presente em diálogos, na camisa usada pelo filho de Jack, no número do quarto presente no título - que corresponde à distância entre a Terra e a Lua). O diretor Rodney Ascher faz em seu primeiro longa-metragem (antes havia realizado somente curtas e tinha experiência em efeitos visuais) uma colagem curiosa das obras de Kubrick (além de O Iluminado, ainda utiliza várias cenas de 2001 - Uma Odisseia no Espaço/1968, Lolita/1962, De Olhos bem Fechados/1999...) com filmes antigos e outros nem tanto (como a versão de O Iluminado feita para TV em 1997 em forma de minissérie) para ilustrar o que seus entrevistados tem a dizer. Chama a atenção o fato de nenhum deles ser famoso e que em momento algum o rosto deles é revelado, trata-se de um grupo de pessoas diversas que admiram o diretor e sua obra - e que constuíram ao longo do tempo interpretações interessantes para um filme. É interessante conhecer essa colagem subjetiva de impressões, mas dificilmente suas afirmações irão ser lembradas quando o espectador estiver mergulhado na narrativa de O Iluminado mais uma vez. Prometo que assistirei a O Iluminado novamente e escreverei sobre ele ao efeito do que ouvi sobre esses 102 minutos. 

O Labirinto de Kubrick (Room 237/EUA-2012) de Rodney Ascher com entrevistas de Bill Blakemore, Geoffrey Cocks, Juli Kearns e Jay Weidner. ☻☻☻

quinta-feira, 17 de abril de 2014

ETERNO: Gabriel García Marquez

6 de março de 1927 - 17 de abril de 2014

Dois livros mudaram completamente a forma como me relaciono com a literatura, um deles foi  o inigualável Cem Anos de Solidão (publicado pela primeira vez em 1967) de Gabriel García Marquez - considerado um dos maiores escritores do mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos e vendido em 36 idiomas. Em 1982 recebeu o Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra que inclui várias preciosidades, entre elas algumas ganharam versões para o cinema como Erendira (1983) dirigido por Ruy Guerra (e estrelado por Claudia Ohana), O Amor nos Tempos do Cólera (2007) de Mike Newell (estrelado por Javier Barden e Fernanda Montenegro), De Amor e Outros Demônios (2009) de Hilda Hidalgo, o elogiado Ninguém Escreve ao Coronel (1999) de Arturo Ripstein (e estrelado por Marisa Paredes), entre outros. Além do fascínio que sua obra gerava em cineastas de diversas nacionalidades, Rodrigo Garcia, filho do escritor, tornou-se um reconhecido diretor de cinema e televisão nos EUA. Gabriel nasceu em Aracataca na Colômbia e tornou-se reconhecido por inaugurar o chamado "realismo mágico" na literatura latino-americana. O escritor faleceu aos 87 anos na Cidade do México pelas consequências de uma pneumonia enquanto lutava contra a reincidência de um câncer.