quarta-feira, 18 de junho de 2014

MOMENTO ROB GORDON: Sósias da Copa

Para não dizerque nem mencionei uma única linha sobre a Copa (não curto muito futebol, o que torna muito difícil criar uma lista de filmes sobre o assunto) resolvi fazer um ranking de algo que se tornou comum em vários sites da internet. Basta colocar no GOOGLE "sósias da copa" para ter uma enxurrada de pessoas que se parecem com outras. Como a mania de Rob Gordon é fazer rankings de cinco, descrevo aqui os sósias cinematográficos favoritos da temporada futebolística!

05 Andrea Pirlo (Itália) x Chuck Norris (Braddock)
Se assistiu algum jogo da Itália e teve a impressão que Chuck Norris havia se tornado jogador, você não foi o único. Andrea Pirlo e o astro aposentado dos filmes de ação são pessoas diferentes (pelo menos até que provem o contrário). 

04 David Luiz (Brasil) e Side Show Bob (Springfield)
Seria maldade dizer que o motivo da comparação é a cabeleira entre dos dois, vale ressaltar que acho até o nariz e os lábios do jogador paulista parecidos com do personagem vilanesco dos Simpsons. 

03 Valdivia (Chile) x Fernanda Torres (Brasil) 
Fernandinha já foi comparada com a cantora Alanis Morrissete, mas acredito que até Fernanda Montenegro sentiu calafrios quando viu a semelhança da filha com o jogador nascido na Venezuela. Gêmeos?

02 Karim Benzema (França) e Shia Labeouf (Made in USA)
Sinceramente, em algumas fotos não sei distinguir quem é um ou outro. O fato é que o jogador de origem Argelina parece uma espécie de clone (ou vice-versa) do ator que ficou famoso com as aventuras de Transformers no cinema. 

01 Júlio César (Brasil) x Buzz Lightyear (Toy Story)
Desculpe a obviedade, mas a Pixar deve estar sofrendo um processo por direitos de imagem do goleiro brasileiro, já que Buzz é simplesmente sua versão em desenho animado. 

DVD: Ninfomaníaca - Volume 1

Martin e Shia: pretensiosamente tedioso. 

Na estreia de Ninfomaníaca, a atriz Charlotte Gainsbourg disse que na primeira vez em que o diretor Lars von Trier comentou sobre o filme, ela acreditou que era apenas uma piada provocadora. Somente depois, quando recebeu o roteiro que percebeu que o diretor estava falando sério. Conforme a produção ganhava forma o filme recebia mais destaque na mídia. Cada aquisição do elenco, cada comentário do diretor sobre cenas picantes, sua extensa duração (cinco horas dividida em dois capítulos) ou pôster provocador era como um petisco do que estava por vir. Lançado nos cinemas os curiosos foram assistir, mas entre eles quem era fã de Lars tinha altas expectativas, afinal de conta o sexo já foi elemento de algumas obras anteriores do diretor, seja no sofrido Ondas do Destino (1996), no brilhante Dogville (2003) e, principalmente, no horror Anticristo (2009). Era esperado que o diretor subvertesse o que o público esperava e criasse outra obra surpreendente. No entanto, devo registrar que me decepcionei bastante com o filme (o que não deixa de ser surpreendente, já que curto o trabalho do cineasta). Trier sempre foi uma bom diretor de atores e um roteirista de mão cheia, mas aqui ele não faz a mínima ideia do que fazer com sua história. Apesar de ser um dos seus filmes mais bem cuidados (existem vários detalhes que tendem a tornar o resultado mais pop, como a trilha sonora e a fotografia belíssima), mas a história de Joe é simplesmente tediosa. Nesse volume 1, conhecemos a infância e a adolescência da personagem, conhecemos a influência de sua amiga B no desenvolvimento de sua sexualidade, a distância afetiva de sua mãe (uma silenciosa Connie Nielsen), a admiração que tem pelo pai (Christian Slater) e o nascimento de sua paixão por Jerome (Shia Labeouf), seu primeiro homem - o qual encontrará diversas vezes na narrativa. O filme é isso. É verdade que para tornar tudo mais "dinâmico", o diretor opta por colocar Joe mais velha (vivida por Charlotte Gainsbourg, atriz que tornou-se a favorita do diretor) contando suas desventuras a um desconhecido (Stellan Skarsgard, o ator favorito de Lars). Ela não entra em detalhes sobre seus parceiros, afinal, eles estão ali apenas para cenas de sexo sem muita importância - afinal, diante da tediosa vida de Joe a única graça que existe no mundo é transar. Existem momentos cômicos, como aqueles em que ela se confunde com as ligações de seus vários parceiros ou quando faz considerações sobre o comportamento deles. Existem outros agradavelmente estranhos (como a visita de Uma Thurman à casa da amante do esposo), outros comoventes (os últimos dias do pai de Joe) e até românticos (como o segundo reencontro de Joe com Jerome), mas Lars tem uma dificuldade gigantesca de criar sua personagem. Vivida quando jovem pela novata Stacy Martin, Joe está longe de ser uma personagem interessante, parece apenas entediada em meio aos bons coadjuvantes em cena. Talvez essa seja a intenção de Lars, criar uma personagem oca que evite que caia em moralismos ou simples pornografia, mas percebe-se uma tendência de criar uma aura erudita à trama, o que é duro de engolir. O roteiro tenta fazer analogias do comportamento de Joe com o ato de pescar, com Fibonacci, com a música e outras coisas numa fragilidade que mostra-se um tanto patética. Tropeçando em sua própria pretensão, tudo que a história poderia ter de dramática, cômica e até eroticamente interessante fica pela metade do caminho, parecendo uma versão piorada de Romance (1999) de Catherine Breilat e menos interessante que 9 Canções (2004) de Michael Winterbotton, ambos polêmicos, explícitos e irregulares, mas que chegavam mais perto de suas ambições do que a frágil obra de Trier. Parece que o filme tenta ser a versão feminina do bem sucedido Shame (2011), mas não funciona. O último ato até promete que as coisas podem melhorar no segundo volume, mas ainda acho que as ideias de Ninfomaníaca - volume 1 caberiam em um curta de vinte minutos. 

Ninfomaníaca - Volume 1 (Nynphomaniac: Vol.I/Dinamarca, Alemanha, Bélgica, França, Reino Unido - 2013) de Lars Von Trier com Charlotte Gainsbourg, Satacy Martin, Shia Labeouf, Stellan Skarsgaard e Uma Thurman. ☻

terça-feira, 17 de junho de 2014

DVD: Sem Perdão

Colin e Noomi: sede de amor e vingança.

O diretor dinamarquês Niels Arden Oplev pode se gabar de ter deixado David Fincher para trás, pelo menos no que diz respeito à adaptação da série Millenium para a telona. Foi Oplev que dirigiu a versão sueca para a primeira parte da trilogia de Stieg Larsson sobre a relação entre a cyberpunk Lisbeth Salander e o jornalista Michael Nyqvist.  Era visível que a versão de Oplev bebia diretamente nos primeiros filmes de Fincher com seu tom sombrio alimentando um suspense crescente. Não por acaso, quando Hollywood inventou de fazer sua própria versão de Milleniium para a telona, convidaram o próprio Fincher, mas no fim das contas, é o filme de Oplev que mostrou-se mais eficiente e coerente com a história. Muito dos méritos do cineasta é devido à escalação da vigorosa Noomi Rapace para o papel de Lisbeth. Apesar da versão americana ter rendido uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Rooney Mara, é Noomi que se tornou referência mundial da personagem de visual punk. Tudo isso torna ainda mais justo que, quando convidado para dirigir uma produção americana, Niels convide Noomi para ser sua protagonista. Apesar de tornar a personagem Beatrice marcante, a atriz é coadjuvante nesta trama de vingança um tanto truncada protagonizada por Colin Farrell. Farrell é o misterioso Victor, que vive metido nas ações de uma gangue de criminosos. O espectador ficará perdido no início sem saber exatamente o que está acontecendo em meio aos tiros e perseguições do início, mas a intenção do diretor é essa mesmo. Eis que um dia Victor fica instigado com a vizinha que o observa no prédio da frente e os dois acabam se encontrando. Ela se chama Beatrice e sofre com as várias cicatrizes deixadas por um acidente de carro. Por conta das cicatrizes a moça realizou várias cirurgias para desfazer o estrago em sua aparência, mas as marcas psicológicas são ainda mais profundas. Beatrice sabe de um segredo de Victor e o utiliza para chantageá-lo, pedindo em troca de seu silêncio que Victor assassine o homem que provocou o acidente. Noomi dá conta do lado mais obscuro de sua personagem, enquanto Collin consegue manter o caráter de seu personagem em suspenso durante boa parte da sessão. No entanto, a dureza dos personagens com sede de vingança, dilui-se que o carinho que um passa a nutrir pelo outro. O mais interessante do filme é que enquanto pensamos que a trama irá manter a tensão da relação entre os dois, num caso de reflxos da vingança de um sobre a do outro, a coisa descamba para um romance entre os dois personagens. Romance esse que poderá ser capaz de curar as cicatrizes do casal, mas que não combina em nada com a doses cavalares de violência sádica que o filme exibe. Sem Perdão torna-se quase "sem noção" nos caminhos que segue, dependendo basicamente de sua dupla de atores para manter a credibilidade na overdose de reviravoltas que  nem sempre funcionam como deveriam - já que o espectador mal digere uma novidade, esta se desmonta no caminho de uma outra. Quando tudo fica esclarecido, fica a impressão que o diretor complicou demais uma trama simples de romance e vingança, se fosse mais enxuto, o resultado poderia ser mais harmônico e benevolente à atuação de seu elenco competente- que inclui até a diva Isabelle Huppert na pele da doidivana mãe de Beatrice. 

Sem Perdão (Dead Man Down/EUA-2013) de Niels Arden Oplev com Colin Farrell, Noomi Rapace, Dominic Cooper, Terrence Howard e Isabelle Hupert. ☻☻☻

domingo, 15 de junho de 2014

A FAMÍLIA BATEMAN

Patrick é um típico yuppie (que na verdade é uma sigla para "jovem profissional urbano") da década de 1980. Curte música pop, artigos eletrônicos, cosméticos, ternos indefectíveis (Armani, de preferência), Nova York, drinques (além de prostitutas, serras elétricas, facas, arames...). Não sabemos muito a sua origem, somente que formou-se em Harvard em 1984. Ele poderia até ser Batman se sua psiquê não fosse tão comprometida, com traços de psicopatia e suspeitas de que seja um serial killer, Bateman ainda consegue ser um sujeito muito querido pelo escritor Bret Easton Ellis - que, além de Psicopata Americano (1991) menciona o sujeito em obras como As Regras da Atração (1987), Glamourama (1998) e Parque Lunar (2005). As pessoas não conhecem o paradeiro de Patrick atualmente, mas é capaz que ainda esteja ganhando alguns milhares de dólares em negociações sobre a extração de gás natural nos EUA.

O irmão caçula de Patrick tornou-se conhecido antes do mano, já que As Regras da Atração (1987) foi editado primeiro. É através dele que sabemos que a família Bateman não é endinheirada, tanto que o cobiçado rapaz precisa traficar drogas no campus universitário para pagar suas despesas. Sean não parece suspeitar das mazelas psicológicas do irmão, mas também tem sua cota de problemas para resolver, principalmente sobre suas dificuldades em manter um relacionamento sério e romper com a visão superficial que tem das relações humanas. Sean acabou abandonando a faculdade - e dizem que vive cruzando o mundo de um lugar para o outro atrás de repostas nunca encontradas sobre o seu lugar no mundo. Entre um paradeiro e outro passa o tempo com variadas parceiras sexuais. 

Justine Bateman
No lado mais tranquilo da família está Justine, que (por motivos óbvios) nega sua relação com Sean ou Patrick, mas o sobrenome denuncia o parentesco. Ela ficou famosa na década de 1980 quando encarnou Mallory Keaton no adorado seriado Caras e Caretas (1982-1989) ao lado de Michael J. Fox. Justine até fez alguns filmes para o cinema, mas é na televisão que costuma ser mais conhecida. Ela participou de vários programas de sucesso como Lois & Clark: As Novas Aventuras de Superman (1996), Californication (2008), Desperate Housewives (2012) e Modern Family (2013). Ano passado ela estrelou um thriller de ação ao lado de Ted Levine e Matthew Lillard chamado Deep Dark Canyon, sem previsão de estreia por aqui. 

Jason Bateman
O homem mais simpático e inofensivo da família é um dos atores mais presentes em comédias de Hollywood. Jason é o irmão favorito de Justine que incentivou bastante a carreira do moço. Jason ficou famoso com o papel no seriado Arrested Development (2003 - que retrata, curiosamente, uma família disfuncional) e conseguiu migrar para a telona sem grandes problemas. Depois do sucesso em filmes como Juno (2007), Quero Matar Meu Chefe (2011 - reparou os traços de psicopatia nesse título?) e Uma Ladra Sem Limites (2013), o ator acaba de lançar sua estreia como diretor em Bad Words (2003) onde encarna um adulto que consegue se inscrever num concurso de soletrar ao lado de várias crianças - isso não parece muito normal, o que só evidencia o parentesco de Jason e Justine com os outros Bateman dessa lista.

Nick Bateman 
O menos famoso da lista é Nick, um rapaz com pinta de galã que ganha a vida como modelo, mas que, na verdade é um vampiro que tem sua trajetória dissecada nos sete episódios da série The Originals (2011). Ele até tentou disfarçar seu parentesco com os outros Bateman dessa lista vivendo no Canadá desde que nasceu, mas não adianta. Com esses olhos e esses dentes pontudos, fica evidente que o problema nos genes dos Bateman é mais sério do que poderíamos imaginar! No entanto, é bom ficar atento a esse nome, já que o moço recebeu vários convites para filmes e programas de TV depois que a internet divulgou o efeito do Programa de Treinamento de Patrick Bateman na musculatura do rapaz...

CATÁLOGO: Regras da Atração

Beek: o dia em que o irmão do psicopata matou Dawson.

De 1998 até 2013, James Van Der Beek se tornou o rapaz sonho de consumo de muitas garotas (e garotos) que assistiam ao xaroposo seriado Dawson's Creek. Ele era o próprio Dawson, o bom rapaz do grupo que estava dividido entre o amor de duas garotas e era fã de Steven Spielberg. Como todo ator que começa a carreira encarnando um personagem icônico na TV, o sonho era ir para o cinema e ganhar  a vida fazendo filmes em Hollywood, mas como a maioria deles descobre pouco depois, isso é bem mais difícil do que parece. Faz mais de uma década que o seriado terminou e tirando uma participação aqui e outra ali em filmes de diferentes gêneros, James ainda encontra na TV seu porto seguro - e em dois títulos seus melhores momentos na tela grande. Um é Vansity Blues (1999) filme todo preparado para a transição do ator para a telona. A história sobre o  promissor jogador de futebol americano rendeu boa bilheteria (graças à febre do seriado na época) e até um prêmio no MTV Movie Awards de ator revelação para o moço. Com o fim do seriado e convites para o cinema rareando, Beek ousou escolher um daqueles papéis típicos para quem quer mudar a imagem: o protagonista de Regras da Atração - um dos polêmicos livros de Bret Easton Ellis, autor de obras distópicas como Glamourama (1998) e o famoso Psicopata Americano (1991), que virou filme em 2000. Regras da Atração é seu segundo livro (lançado em 1987) e já confirmava seu território na literatura americana com personagens jovens, fúteis e que passam o tempo em busca de drogas e sexo. Ou seja, tudo que James Van Der Beek precisava para dar uma guinada na carreira. Para completar, tinha o apoio de um diretor oscarizado pelo roteiro de um marco dos anos 1990: Roger Avary, que foi parceiro de Quentin Tarantino em seus primeiros textos (incluindo premiado Pulp Fiction/1994). Beek encarna, sem inibições, o jovem Sean Bateman, um universitário que ganha dinheiro traficando drogas para dentro do campus. Sean é um típico anti-herói, sabe que o que faz não é correto, mas acredita que precisa fazer para bancar a faculdade (que é de que mesmo, hein?). Os personagens não tem cenas em salas de aulas, mas em festas que servem para desenrolar os fatos importantes e quartos no dormitório. Bateman é uma das vértices de um triângulo amoroso que tem tudo para dar errado (como a primeira cena já deixa claro), afinal ele sente-se atraído por Lauren (Shannyn Sossamon), uma garota que sempre vê horripilantes fotos de doenças venéreas para manter-se virgem enquanto Jason (Ian Somerhalder) tenta seduzir Sean como se fosse uma donzela pervertida. O filme acompanha principalmente os desastres pessoais do trio, que nunca conseguem o que querem realmente. Para manter o interesse durante a sessão, Avary prefere utilizar recursos narrativos variados enquanto seus personagens ficam na superficialidade. Um recurso é o de retroceder cenas diante do espectador para que possamos entender como chegamos ao ponto de partida (afinal, essa é a grande proposta do filme, desde a primeira cena), ou então dividir a tela para que possamos acompanhar dois personagens até que se encontrem ou até, representar a realidade de um lado e as fantasias de outro. Isso é o de menos, a presença de sexo, drogas, masturbação e promiscuidade é que deve ter provocado um efeito interessante nas fãs de Dawson's Creek. James Van Der Beek não provoca toda a ojeriza que deveria no papel de Sean, pelo contrário, o faz um sujeito até simpático ao se afogar em seu próprio egocentrismo. Se Avary fosse um diretor melhor, sua atuação poderia ter sido até memorável. Mas não precisava tanto, Regras da Atração serve para James sepultar a imagem de bom moço (fique atento ao personagem Patrick sempre mencionado por Sean - trata-se de Patrick Bateman, seu irmão, o protagonista de Psicopata Americano. Só tem gente fina nessa família)!

Regras da Atração (Rules of Attraction/EUA-2002) de Roger Avary com James Van Der Beek, Ian Somerhalder, Shannyn Sossamon, Kip Pardue, Kate Bosworth, Jay Baruchel, Colin Bain, Jessica Biehl, Faye Dunaway e Eric Stoltz. ☻☻☻

DVD: Matador em Perigo

Grint, Nighy e Blunt: a nada mole vida de um matador. 

Matador em Perigo é uma daquelas típicas comédias inglesas, cheia de humor negro e atores que sabem muito bem o que fazer em cena e, sabem que, o filme não fará muito sucesso fora do país de origem. É verdade que o título em português diminui bastante do potencial do filme, já que, sem pensar muito, eu lembro de uns dez filmes que poderiam ter recebido esse nome (filmes estrelados por Pierce Brosnan, George Clooney, Sylvester Stallone...). Quem não cair na tentação de abandoná-lo terá uma divertida surpresa. Estrelado por Bill Nighy, o veterano mais cool da terra da rainha, o filme consegue ter fôlego por boa parte da sessão, só perdendo pontos quando o diretor Johnatan Lynn  pesa a mão para que exista um casal romântico na trama. Nighy é Victor Maynard, uma verdadeira lenda entre os matadores de aluguel da Europa. Sua aparência é um enigma preservado por contatos telefônicos misteriosos para serviços que devem primar pela eficiência. Talvez por isso Maynard seja tão solitário e apegado à assepsia de seu lar. Seu único contato com o mundo exterior à casa de móveis plastificados é a mãe, a temperamental Louisa Maynard (Eileen Atkins), que mesmo paraplégica presa pela reputação do filho e a honra de uma longa genealogia de matadores profissionais. Esse dever ser o maior impasse da vida de Maynard, afinal, as habilidades familiares para o negócio devem terminar nele, já que não tem planos de se casar e ter filhos. Além disso, sempre existem comentários sobre a sua sexualidade - que pode ser reprimida ou simplesmente atrofiada devido à frieza que seu trabalho exige.  Mas o caminho de Maynard irá cruzar com o de duas pessoas que deverão resolver esse dilema. Uma delas é a bela vigarista Rose (Emily Blunt, que sempre considero mais a vontade quando atua em comédias), que acaba de aplicar um golpe utilizando um Rembrandt falsificado e cuja vítima (Rupert Everett) contrata os serviços de Maynard. Desde o início sabemos que o matador terá problemas para fazer o serviço, já que a garota é mais astuta e charmosa que o resto da humanidade, mas isso não é problema já que existem outros homens capazes de fazer o serviço, inclusive o segundo melhor matador do mundo, Hector Dixon (Martin Freeman). Eis que numa confusão que só faz sentido nas comédias, Rose será salva pelo jovem Tony (Rupert Grint), que junto com Maynard serão responsáveis por sua segurança. Enquanto Rose não faz nem ideia de quem Maynard seja, os três ficarão juntos, primeiro num hotel e depois na casa do próprio Maynard. Isso é puro pretexto para que o matador decida se prefere a companhia de Rose ou de Tony, que demonstra alguma habilidade e interesse para seguir a carreira do veterano matador (além de desenvoltura para ficar sem roupa em algumas cenas). Enquanto o roteiro brinca com as diferenças entre o trio e investe nas suspeitas da homossexualidade de Maynard (e nisso sua química com a ingenuidade de Rupert Grint ajuda bastante), o filme consegue ser bastante divertido, mas depois resolvem que o matador é hétero mesmo e tudo se torna convencional e previsível até o confronto final.  Apesar de divertido, o filme perde nessa guinada a chance de tornar seu personagem mais complexo e coerente dentro do roteiro, enfim, o transforma em mais uma cria do diretor Johnatan Lynn - diretor de Meu Primo Vinny (1992), Meu Vizinho Mafioso (2000) e Resistindo às Tentações (2003), filmes que flertam com a subversão, mas sempre tomam um caminho pelo que é mais seguro e agradável ao grande público. Nisso todos saem perdendo, uma vez que nunca há um passo além do que se espera.  O mais interessante é que trata-se de uma refilmagem de um longa francês de 1993 de Pierre Salvadori (chamado Cible Émouvante), mas o personagem parece ter sido escrito sob medida para Nighy, que merece destaque dentro do talentoso elenco britânico.

Matador em Perigo (Wild Target/Reino Unido - França/2009) de Johnathan Lynn com Bill Nighy, Emily Blunt, Rupert Grint, Rupert Everett, Martin Freeman e Eileen Atkins. ☻☻☻

quinta-feira, 12 de junho de 2014

CICLO DIA DOS NAMORADOS / 10+ Filmes Românticos que Você Não viu

Para terminar nosso Ciclo do Dia dos Namorados resolvi lembrar alguns dos meus filmes românticos favoritos citados no blog. Como eram muitos, resolvi escolher aqueles menos conhecidos e pouco convencionais. Além disso, para evitar confusões, os coloquei apenas em ordem alfabética e com palavras-chave para tentar definir o que lhe aguarda quando assisti-los com (ou sem) companhia. 
FELIZ DIA DOS NAMORADOS! 

(dupla... músicas... singelo)

(passado... livros... futuro)

(memórias... esquecimento... doidices)

(sozinha... chat... vizinho)

(suicida... perigo... circo)

(direita... sexo... esquerda)

(timidez... inibição... chocolate)

(escritor... protagonista... domínio)

(sereia...pescador...realidade)

(amigos... crescer... completar)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

CICLO DIA DOS NAMORADOS: Orgulho e Preconceito

Liz e Mark: casal icônico em ótima adaptação. 

Não deixa de haver um fundo de verdade naqueles que dizem (e repetem) que o diretor Joe Wright só funciona quando trabalha com Keira Knightley. Afinal, se formos comparar os filmes em que o diretor trabalhou com a atriz (Orgulho e Preconceito/2005, Desejo e Reparação/2007 e o controverso Anna Karenina/2012) com os outros que filmou sem ela (O Solista/2009 e Hannah/2011), parece até covardia. É possível dizer que Knightley é a musa do diretor, aquela estrela quase mítica que consegue motivar o que o talento dele tem de melhor. O mais curioso é que a parceria iniciada com Orgulho e Preconceito quase não aconteceu, já que Wright não concordava que a atriz devesse encarnar a jovem Elizabeth Bennet do cultuado livro de Jane Austen. Se formos lembrar as atuações da atriz antes dessa adaptação, a atitude de Wright está mais do que justificada. Considerada uma das mais promissoras de sua geração, Knightley passava mais tempo fazendo caras e bocas para filmes pipoca do que querendo ser levada a sério como atriz. No entanto, quando ela conseguiu o papel da mais determinada das irmãs Bennet, a moça resolveu mostrar que poderia ser levada a sério. Keira abraça todos os defeitos e virtudes de sua personagem, a temperando com romantismo e humor na medida certa - não parecendo uma heroína suspirante e nem a arrogante que não merece a torcida da plateia. Além disso, a produção conseguiu reunir um elenco invejável. Austen se concentra, mais uma vez, no núcleo da aristocracia rural inglesa na virada do século XIX para contar a história de uma família que precisa lidar com cinco filhas. Jane (Rosamund Pike), Elizabeth (Knightley), Mary (Talulah Riley), Kitty (Carey Mulligan) e Lydia (Jena Malone) vivem com relativo conforto junto aos pais (vividos pelos veteranos Donald Sutherland e Brenda Blethyn) um tanto liberais para a época, mas como não possuem irmãos, quem herdará as posses da família é um primo, William Collins (Tom Hollander). Assim, a senhora Bennet nem consegue disfarçar que gostaria muito que suas filhas casassem o mais rápido possível. Enquanto a doce Jane se apaixona pelo tímido rico Charles Bingley (Simon Woods), Elizabeth reluta em ver o casamento como uma solução para sua situação financeira, acreditando que deverá se casar somente se o amor verdadeiro aparecer em sua vida. Mas, como identificar o amor verdadeiro se ela é orgulhosa demais para isso? Ainda mais se levarmos em conta o controlado James Darcy (Matthew MacFadyen) atraído por ela e vice-versa. Se Liz considera impossível que exista amor entre eles, por outro lado, quando ele se declara, o maior problema passa a ser os preconceitos gerados por ele ser dono de metade da região. Orgulho e Preconceito é um filme que rompe com a ideia de que filme de época precisa ser pesaroso e solene (lição devidamente aprendida com Razão e Sensibilidade/1995). O maior mérito da direção de Joe Wright é imprimir uma narrativa moderna em uma história que, mesmo ambientada no passado, ainda se sustenta sobre sentimentos bastante atuais. Além disso, Liz e Darcy - um dos casais mais icônicos da literatura inglesa - recebe interpretação luminosa de Keira e Matthew. Feito na medida para agradar as plateias carentes de romantismo legítimo, o filme concorreu a quatro estatuetas no Oscar (direção de arte, trilha sonora, figurino e atriz para Keira). Os mais acostumados com os filmes americanos vão estranhar a última cena, mas em DVD temos a vantagem de ter a melosa cena final exibida nos EUA que leva as garotas às nuvens...

Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice/Inglaterra-2005) de Joe Wright com Keira Knightley, Matthew MacFadyen, Rosamund Pike, Tom Hollander e Donald Sutherland. ☻☻☻☻

terça-feira, 10 de junho de 2014

DVD: Tese sobre um Homicídio

Alberto e Ricardo: a subjetividade como armadilha?

Sei que em época de Copa do Mundo é até perigoso dizer uma coisa dessas, mas sinto uma certa inveja dos argentinos, principalmente quando nosso cinema nacional parece ter se dividido entre duas correntes: as comédiotas e filmes herméticos (ambos parecem saídos todos da mesma forma do gênero a que pertencem). Enquanto isso, os argentinos fazem todo tipo de filme, com identidade bem marcada e sucessos de crítica e publico - que conseguem chegar por aqui mais do que o resto da produção latino-americana. Tese sobre um Homicídio foi lançado em julho do ano passado no Brasil e chamou atenção do público com seu suspense protagonizado pelo famoso Ricardo Darín. Darín interpreta Roberto, um advogado aposentado que ganha a vida dando aulas numa faculdade. Conhecido no ramo, ele chama a atenção de Gonzalo (Alberto Amman) que volta para Argentina somente para ter aulas com ele. Entre as conversas de ambos, o professor diz que o que faz a diferença num julgamento não são as provas ou os fatos, mas os detalhes aos quais o juiz deverá estar atento antes de dar o veredicto. Por outro lado, Gonzalo, percebe que o Direito trabalha voltado para as relações de poder. É sobre isso que os dois personagens mantém o diálogo mais importante da trama. O aluno diz ao professor que se ele matar uma borboleta não há problema algum para a código penal, mas se essa borboleta pertencer à coleção de alguém a lei se aplica. Roberto considera a afirmação do pupilo um grande equívoco. Não demora muito para que uma mulher seja encontrada morta no estacionamento com um bilhete e um cordão com pingente de borboleta. Este pequeno detalhe é suficiente para que o professor comece a suspeitar que Gonzalo seja o assassino e que está colocando suas convicções à prova. Entre conversas com outros personagens e outras pistas que encontra pelo caminho, o roteiro de Patricio Vega (baseado no livro de Diego Paszkowski) cria um cenário bastante instigante sobre o poder da subjetividade no que escolhemos aceitar como verdade. Roberto está tão certo de que Gonzalo é o assassino que é incapaz de questionar qualquer coisa que o aponte na direção contrária (estaria assim, provocando que mesmo sem ser o dono da borboleta, algo valioso foi destruído ou apenas que ele tem o poder de ser mais esperto que o aluno?). Cada conversa, cada detalhe é sempre direcionada para que as suspeitas sobre o rapaz só aumentem, especialmente quando ele começa a se envolver com a irmã da vítima (Calu Rivero) que estranhamente tenta assumir a vida da irmã. No início, Roberto convence a plateia de suas suspeitas, mas aos poucos (conforme o passado dos personagens começa a se misturar) o espectador começa a colocar as certezas do protagonista à prova. O diretor Hernan Golfrid consegue propor uma reflexão interessante sobre a máxima do sofista Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas" e mostra o quanto a subjetividade manipula a realidade que enxergamos. Ainda que em alguns momentos pareça repetitivo em sua estrutura, Tese sobre um Homicídio consegue cumprir a sua função de fazer o espectador pensar e buscar respostas próprias diante do que a história lhe apresenta. 

Tese Sobre um Homicídio (Tesis sobre un Homicidio/Argentina-Espanha/2013) de Hernan Golfrid com Ricardo Darín, Alberto Amman, Calu Rivero e Natalia Santiago. ☻☻☻