sexta-feira, 10 de abril de 2015

PL►Y: Sem Segurança Nenhuma

Mark e Aubrey: ficção científica humanista. 

Sem Segurança Nenhuma é um filme independente que ganhou mais fama pelos elogios que recebeu do que pela bilheteria. No entanto, o primeiro longa metragem do diretor Colin Trevorrow lhe proporcionou o convite inesperado para dirigir Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros, quarta parte da franquia inaugurada por Steven Spielberg e que retorna à pauta de Hollywood com ambição de ser uma das maiores bilheterias do ano. Isso vale para ressaltar, em parte, os méritos do diretor atrás das câmeras. Estrelador por dois atores associados a comédia, o filme se sustenta com um clima que parece inspirado nas dramédias dos anos 1980, seja pela ideia biruta que movimenta a história ou o tom melancólico de seus personagens. A história gira em torno de um anúncio de classificados onde alguém procura um parceiro para viajar no tempo. O anúncio chama atenção de um editor (Jake Johnson) que leva um casal de estagiários para procurar o tal responsável pelo anúncio. Ele descobre que o anunciante é Jeff (Mark Duplass), o funcionário de um supermercado de vida bastante comum e sem indícios de ter o conhecimento suficiente para bancar uma viagem no tempo, porém, Jeff não parece louco, ao contrário, parece bem seguro de seu plano científico extraordinário. Já que o editor não convence, cabe à estagiária Darius (Aubrey Plaza) descobrir o que se passa na mente de Jeff, mas para isso, terá que ganhar sua confiança aos poucos. De início Jeff mostra-se desconfiado e cheio de paranoias (que aos poucos demonstram ser bem concretas). Aos poucos, o que poderia ser uma ficção científica maluca, torna-se uma espécie de comédia romântica sobre encontrar o parceiro ideal a partir de uma premissa bastante original (e isso serve de material para a cena final do longa). Ao mesmo tempo, em segundo plano, existe uma trama sobre um personagem que tem a chance de fazer as pazes com um relacionamento do passado no presente, o que amplia ainda mais o sentido do que poderíamos pensar como motivação para uma viagem no tempo. Sem Segurança Nenhuma pode não render gargalhadas, mas ainda assim, prende nossa pela forma minuciosa como o roteiro aborda seus personagens e, sobretudo, como revela que Jeff é um personagem mais complexo do que você imaginava num primeiro momento. Além disso, o casal Mark e Aubrey consegue gerar uma química interessante onde os dois personagens parecem estar enganando mais a si mesmos do que ao outro. O filme escrito pelo estreante Derek Connolly, mostra-se mais uma obra que imprime um olhar diferente às temáticas fantasiosas da ficção científica, assim como Melancolia (2011) e Um Inferno (2011), mas tendo mais semelhanças com Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (2012) lançado no mesmo período.

Sem Segurança Nenhuma (No Safety Guaranteed/EUA-2012) de Colin Trevorrow com Aubrey Plaza, Mark Duplass, Jake Johnson e Karan Soni. ☻☻☻

quarta-feira, 8 de abril de 2015

PL►Y: Gloria

Paulina: simplesmente gloriosa. 

Gloria é uma dessas personagens que a maioria das atrizes maduras sonham conseguir, sorte que a chilena Paulina García o recebeu e, com ele, elogios unânimes e o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim em 2013. Ou seria que é sorte de Gloria encontrar uma atriz com o talento de Paulina para emprestar-lhe mais do que o carne e osso, mas uma alma que transcende as limitações da película? Gloria é uma mulher de cinquenta e muitos anos que não tem pudor de exibir o tempo de vida que possui. Divorciou-se do marido há dez anos, os filhos estão crescidos - ela conversa com eles sempre que pode - e se divide entre trabalho e balada com grande desenvoltura. Ou seja, a protagonista do filme de Sebastián Lelio é bastante independente, desinibida e espirituosa, não por acaso, seu maior problema seja encontrar um homem à altura. A plateia se anima quando ela conhece Rodolfo (Sergio Hernández), mas ele - que ainda está comprometido com a ex-esposa e as duas filhas crescidas - irá deixar claro que Gloria terá sérios problemas para ser considerada uma prioridade em sua vida a dois. O legal é que embora se magoe, a protagonista está bem distante de imaginar que sua vida deva girar em torno de um relacionamento e, por isso mesmo, sua tristeza está mais em perceber o quanto é difícil olhar para frente quando a sua geração tende a olhar para trás. Muitos críticos percebem uma analogia da personagem com a situação do Chile, tanto que o longa tem cenas de panelaço e até conversas sobre a situação do país, mas nada que faça o filme ser pesaroso ou aborrecido. Gloria utiliza sua personagem para mostrar que os tempos mudam, mas algumas pessoas preferem continuar as mesmas. Por isso mesmo, sua relação com Rodolfo proporciona um saboroso tom cômico à história, já que Paulina García consegue construir uma mulher que praticamente esmaga o seu parceiro em cena, incluindo as cenas de nudez que revelam o quanto existe de audácia no filme de Lelio. Sendo assim, a cena final não poderia ser diferente de uma verdadeira ode à mulher idealizada pelo seu diretor. 

Gloria (Chile/2013) de Sebastián Lelio com Paulina García, Sergio Hernández, Diego Fontecilla e Eyal Meyer. ☻☻☻☻

PL►Y: Passageiros da Vida

Mitch e Colin: registro de viagem. 

O Ganhador do Prêmio Johnn Cassavetes (conferido ao melhor filme independente com orçamento inferior a quinhentos mil dólares) no Independent Spirit Awards desse ano foi para uma simpática comédia sobre dois velhinhos, amigos de longa data, que resolvem viajar para a Islândia. A ideia simples é valorizada pelos diálogos espirituosos entre os personagens, que se distanciam gradualmente dos estereótipos. Mitch (Earl Lynn Nelson) é o mais animado da dupla, embora sempre esteja disposto a pegar no pé de quem está por perto (especialmente com relação às roupas alheias), além de ser bastante chegado a um baseado, enquanto Colin (Paul Eenhoorn) é mais introspectivo e sério - mas vale ressaltar que ambos tem um charme bastante próprio. A dinâmica estabelecida entre os atores/personagens garantem um programa leve, despretensioso e ainda mais interessante quando percebemos a forma como esses dois senhores seguem suas vidas. Os dois são cunhados duas vezes (já que um casou com  irmã do outro) e enquanto Colin parece não ter se recuperado do falecimento da esposa, ou do fim de seu último relacionamento, é visível como Mitch é fundamental para que o amigo não se sinta só. O texto assinado pelos próprios diretores, poupa a plateia de lamentos sobre o abandono dos filhos, doenças e outros aspectos que parecem de lei em filmes que retratam idosos. O filme parece mais preocupado em acompanhar a dupla pelas belas paisagens da terra de Björk, seja para tomar banho em lagoas de água quente, caçar géiser, frequentar boates ou interagir com os outros personagens que cruzam o caminho deles. É verdade que não existe uma história propriamente dita, mas uma espécie de diário de bordo da viagem, sem golpes melodramáticos, baixarias ou chororô, sendo um recorte breve, mas revelador dos personagens distintos em suas personalidades. Por escapar de situações manjadas, o filme torna-se mais interessante quando Mitch fica eufórico com a chegada de uma dupla de jovens moças - e elas se mostram mais de carne e osso do que qualquer outra coisa -, o mesmo quando acontece um beijo entre Colin e uma desconhecida, ele é mostrado de forma terna e confortável. Ainda que eu não goste do título Passageiros da Vida, posso dizer que ele faz sentido e combina com o clima da sessão, que não pretende ser edificante, ou uma grande lição de vida. O longa está mais preocupado em desenhar e acompanhar a dupla de amigos como se nem criasse um filme, mas um registro de viagem. Esse aspecto fica tão evidente que as duas cenas dos amigos fazendo gracinha para a câmera são os momentos mais sem graça, já que quebram o clima de que estamos acompanhando aquela viagem mais por uma janela do que propriamente uma tela. 

Passageiros da Vida (Land Ho! /Islândia-EUA / 2014) de Aaron Katz e Martha Stephens, com Earl Lynn Nelson, Paul Eenhoorn, Karrie Crouse, Elizabeth McKee  e  Daníel Gylfason. ☻☻

terça-feira, 7 de abril de 2015

Na Tela: Força Maior

Thomas, os filhos e a esposa: antes da avalanche. 

Depois de receber o prêmio da Mostra Um Certo Olhar em Cannes2014, Força Maior colheu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e, muitos consideravam, que sua presença no Oscar era certa. No entanto, o filme ficou de fora do prêmio de melhor filme estrangeiro. Porém, o longa merece ser visto por qualidades quase inusitadas. O diretor e roteirista Ruben Östlund conta a história de uma família que vai curtir as férias esquiando nos alpes franceses, mas uma quase tragédia irá mudar radicalmente o que era para ser diversão. Um dia, enquanto estavam no restaurante do hotel, visualizaram uma avalanche que se aproximava cada vez mais. Diante do perigo  Ebba (Lisa Loven Kongsli) abraça os filhos conforme a avalanche se aproxima, enquanto seu marido, Tomas (Johannes Kuhnke) pega o celular, o par de luvas e foge sozinho. Passado o susto, percebem que a avalanche, ainda que assustadora, era inofensiva. No entanto, a tragédia anunciada tem efeitos devastadores no relacionamento familiar. Östlund apresenta sua família feliz como se fosse parte de um comercial de margarina, para pouco depois, coloca em dúvida os sentimentos do esposo por sua esposa e filhos. Trata-se de um exercício cruel, não apenas para os personagens, como para o espectador também, afinal, a pergunta que paira sobre a reação de Tomas afeta diretamente a ideia que temos de nossa própria reação naquela situação. Enquanto os ressentimentos crescem em Ebba, a tristeza invade os filhos que ainda não conseguem expressar muito bem o que sentiram. Por outro lado, Tomas mostra-sem cada vez mais introspectivo e deprimido conforme Ebba relembra a avalanche em conversas com os amigos, que evocam diretamente um julgamento da postura do patriarca. Embora o instinto de sobrevivência possa ter falado mais alto naquele momento, Ebba não consegue entender a reação do esposo. Aos poucos o ocorrido afeta até alguns amigos do casal, que tomam partido da postura de um e de outro, ressaltando que em meio à reflexão proposta pelo filme, existe até espaço para o humor inusitado do relacionamento entre casais (ou de sua trilha sonora superlativa). Mais interessante do que julgar os personagens (e se você condenar Tomas, também pode se incomodar com a postura de Ebba que ao invés de conversar com ele em particular sobre o assunto, prefere lavar a roupa suja somente na frente dos amigos) é embarcar na discussão que cerca o filme sobre a forma como aquela situação pode deflagrar sentimentos antes ocultos nos personagens. Força Maior pode não ser um filme fácil de assistir para quem está acostumado com o cinema americano, mas evoca os instintos animais que temos dentro de nós de forma bastante reveladora. Sendo assim, até seus dois atos finais, soam mais irônicos do que propriamente heroicos, nos fazendo reavaliar tudo o que observamos desde o início da sessão. Valorizado pelo roteiro e as atuações de seus protagonistas, Força Maior promete gerar discussões por dias após ser visto. 

Força Maior (Force Majeure / Suécia - França - Noruega - Dinamarca/ 2014) de Ruben Östlund com Johannes Kunke, Lisa Loven Kongsli, Clara Wettergren. ☻☻☻☻

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Combo: Tente Outra Vez...

Depois de assistir No Limite do Amanhã (2014) era inevitável lembrar de outros filmes onde seus personagens tem a chance de retomar os rumos de sua história para alcançar seus objetivos. Os cinco longas que me vieram a memória foram os seguintes: 

5 Corra Lola, Corra! (1998) O filme do alemão Tom Tykwer virou sensação com sua protagonista de cabelos vermelhos qu
e precisa correr para salvar a vida do namorado... Lola (Franka Potente) não consegue, mas a narrativa do filme lhe garante outras chances de resolver a pendenga. Tykwer nem perde tempo com explicações para o fato, apenas apresenta a situação como um videogame onde a personagem tem várias vidas para mudar cumprir o objetivo e mudar de fase. Não satisfeito, o diretor ainda utiliza cenas em animação e faz sua personagem ter a habilidade de soltar agudos ensurdecedores. O filme tornou-se cult - e tem gente que curte, assim como tem gente que acha uma grande perda de tempo...

4 Questão de Tempo (2013) Uma anomalia genética permite ao pai que transmite ao filho a capacidade de voltar no tempo e consertar algumas coisas que não funcionaram. Usar essa premissa para uma comédia romântica funciona melhor do que parece nesse longa, onde o simpático britânico Tim (Domhall Gleeson) tenta conquistar a americana Mary (Rachel McAdams) e manter família e amigos sempre seguros. A fantasia amorosa  consegue lidar com bastante humor (como no momento da conquista ou a primeira noite repetida inúmeras vezes) as desventuras de seu protagonista. Para quem curte romances despretensiosos e divertidos.  

3 Contra o Tempo (2011) Aparentemente seria na ficção científica que a premissa de voltar no tempo (ou estar preso num tempo específico) deveria funcionar melhor. Duncan Jones conta a história do homem que vivencia várias vezes os oito minutos finais de um trem prestes a explodir. Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) e a plateia demoram para entender o que está acontecendo, mas percebem que Colter tem a missão de impedir a explosão. Jones faz um filme quase brilhante, o quase fica por conta dos pontos que perde ao ceder a pressão de um final feliz para a história (o que transforma um filme enxuto em uma grande confusão).

2 Efeito Borboleta (2004) Sempre acho que esse filme da dupla Eric Bress e J. Mackie Gruber foi bastante subestimado (prova disso é que a dupla ainda não lançou um longa desde então). Ashton Kutcher surpreende como o jovem Evan, que tem a capacidade de voltar no tempo e mudar seus dramas e de seus amigos, o problema é que sempre que ele muda um fato, as consequências parecem torna a realidade pior, gerando novos transtornos. Bem amarrado e sem medo de ser hardcore (ainda que tenha mudado o final, onde o protagonista voltava ao período uterino e provocava o aborto de si mesmo), o filme ainda traz uma atuação memorável de Amy Smart como a amada de Evan. 

1 Feitiço do Tempo (1993) o falecido Harold Ramis ganhou o BAFTA de melhor roteiro original ao contar a história de Phil (Bill Murray), jornalista encarregado de cobrir o inusitado Dia da Marmota, um evento anual que ele despreza (celebrado no dia dois de fevereiro nos EUA e Canadá, onde uma marmota determina o término do inverno). Portanto, parece um castigo que Phil passe a acordar no mesmo dia fatídico várias vezes sem qualquer explicação. Aos poucos, o protagonista percebe que pode mudar suas ações para melhorar não apenas o dia, mas sua vida (inclusive no campo amoroso). O filme alcançou um sucesso inesperado e ainda é lembrado como um clássico dos anos 1990!

PL►Y: No Limite do Amanhã

Cruise e Blunt: Lute. Morra. Repita.

A ficção científica já foi meu gênero favorito e, acredito, que tornou-se o gênero favorito de Tom Cruise nos últimos anos. Sem o prestígio que tinha até o final dos anos 1990, o ator tem encontrado no gênero seu porto seguro. Parece que o público cansou das esquisitices do ator e seu envolvimento com a cientologia (onde o próprio conceito parece coisa sci-fi) e o divórcio de Kate Holmes não ajudou muito.  Sorte que os fãs do gênero não se importam com fofocas e garantiram o sucesso de No Limite do Amanhã, que tornou-se um dos blockbusters mais elogiados do ano passado. O motivo para isso é o roteiro que utiliza uma ideia já utilizada várias vezes (um personagem capaz de ir e voltar no tempo para consertar os equívocos cometidos e alcançar seu objetivo). O filme é ambientado num futuro onde a humanidade precisará combater alienígenas numa verdadeira guerra. Atrair mais combatentes é o trabalho do Major William Cage (Cruise),  espécie de garoto propaganda do exército americano, no entanto, Cage nunca esteve numa batalha até que ele é convocado pelo General Brighan para combater os inimigos. Quase sendo considerado um desertor, Cage vai parar no pelotão do Sargento Farell (Bill Paxton), onde é recebido com antipatia pelos outros soldados - além de enfrentar problemas com o traje mecânico de guerra. Diante da desastrosa ação do primeiro dia, Cage morre e desperta no passado, enfrentando o mesmo dia varias vezes sem explicação aparente. A sua solução parece estar com a marrenta oficial Rita (Emily Blunt, que tomou gosto por filmes de ação depois de Looper/), vulgarmente conhecida como Full Metal Bitch, que irá treiná-lo até que consigam derrotar os inimigos... só que que para isso, Cage precisa morrer (e voltar no tempo) muitas vezes. O diretor Doug Liman demonstra mais uma vez a habilidade necessária para compor as cenas de ação de tirar o fôlego, sendo esperto o suficiente para não deixar a história repetitiva (o que é fundamental para esse tipo de filme), vale destacar que o texto do oscarizado Christopher McQuarrie (ao lado de Jez e John-Henry Butterworth) a partir do livro de Hiroshi Sakurazaka ("All You Need is Kill"), faz o enorme favor de não ficar escravo de seu truque, ampliando possibilidades e não deixando de descartar seu truque quando o julga desnecessário para o desenvolvimento da narrativa. O resultado é um filmede ação agil, inteligente com bons efeitos especiais e que consegue parecer plausível mesmo quando oferece explicação para a situação mais estapafúrdia. Ao que tudo indica, Tom Cruise  inaugurou uma nova franquia, o que prova que ainda tem carisma aos 52 anos para carregar um filme de ação nas costas (com a vantagem de não ter medo de usar o senso de humor quando necessário). O único problema do filme é o forçado romance que nasce entre Rita e Cage, mas Hollywood adora ver suas estrelas se beijando, mesmo diante do fogo cruzado com alienígenas sanguinários.

No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow/EUA-2014) de Doug Liman com Tom Cruise, Emily Blunt, Brendan Gleeson, Bill Paxton e Kick Gurry. ☻☻☻☻

PL►Y: As Duas Faces de Janeiro

Mortensen, Oscar e Dunst: elementos edipianos. 

A escritora americana ficou famosa a partir da década de 1950 por suas histórias criminais de apelo psicológico, sendo considerada uma das melhores escritoras do pós-guerra. Patricia é a autora do célebre O Talentoso Ripley (editado em 1955 e adaptado duas vezes para o cinema). O livro As Duas Faces de Janeiro foi lançado em 1962 e a versão cinematográfica assinada (pelo roteirista estreante na direção) Hossein Amini passou em branco nos cinemas. Lançado recentemente em DVD, talvez o filme receba a atenção que merece na telinha. O filme conta a história de um glamouroso casal americano que viaja pela Grécia no início da década de 1960. Chester MacFarland (Viggo Mortensen) e Collette MacFarland (Kirsten Dunst) são dois turistas que chamam a atenção do guia Rydal (Oscar Isaac). Rydal fica intrigado com a semelhança entre Chester e seu pai que falecera recentemente. Logo, Rydal servirá de guia para o casal e estará envolvido num crime que irá unir seus destinos quase que por acidente. Aos poucos o espectador irá perceber que o glamour do casal tem um preço alto demais, mas isso é menos interessante do que o jogo que se estabelece na relação dos personagens. Chester considera Rydal um pilantra (embora o guia nascido nos EUA seja educado, poliglota, diga ser formado em Economia pela Universidade de Yale e que o pai era professor em Harvard), a implicância seria um reflexo de seus fantasmas misturado ao ciúme que sente da esposa, algumas décadas mais jovem. Por outro lado, Rydal não consegue evitar os laços edipianos que o casal o faz reviver. São esses dois elementos que motivam os melhores momentos da história, contada com ritmo preciso por Hossein Amini, que ainda imprime classe a uma trama envolvendo crimes e assassinatos. Bem produzido, com locações deslumbrantes em ótima fotografia, a trama ainda perderia muito de sua força se o diretor não houvesse escolhido os atores certos para os papéis, Mortensen e Oscar estão excelentes, ao mesmo tempo, Kirsten consegue imprimir leveza à personagem que fica no centro da tensão entre dois homens esmagados pelo passado. Até a conclusão desoladora, o filme consegue honrar a escrita forte de Patricia Highsmith sem firulas ou frescuras. 

As Duas Faces de Janeiro (The Two Faces of January/Reino Unido - EUA-França -2014) de Hossein Amini com Viggo Mortensen, Oscar Isaac, Kirsten Dunst e Daisy Bevan. ☻☻☻☻

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A FAMÍLIA JOHNSON

Dakota Johnson
Filha de atores famosos na década de 1980, Dakota nasceu em 1989 quando a carreira deles estava no auge - e sua mãe foi até indicada ao Oscar no mesmo ano. Não por acaso a moça desenvolveu gosto pela atuação. Depois de alguns papéis pequenos em filmes de sucesso, a jovem atriz ganhou fama mundial com a adaptação de 50 Tons de Cinza, o que não deixa de marcar uma trajetória parecida a de sua mãe, Melanie Griffith que ficou famosa em papeis sensuais (a famigerada cena da negociação do contrato em 50 Tons de Cinza remete diretamente a uma cena de Melanie em Dublê de Corpo/1984).

Don Johnson
Fosse lançado nos anos 1990, seria bem possível que Don Johnson fosse escolhido para viver o milionário sadomasoquista Christian Grey. O pai de Dakota Johnson ficou famoso por sua atuação no cultuado seriado Miami Vice (que durou de 1984 até 1990) e por interpretar papéis sedutores em vários filmes. Sua última aparição em um filme de prestígio foi em Django Livre (2013), onde mostrava que ainda tem talento para chamar atenção em produções hollywoodiana aos 65 anos. 

Sam Taylor-Johnson & Aaron Taylor-Johnson
Antes que acusem a diretora de 50 Tons de Cinza de nepotismo, vale esclarecer que seu sobrenome é devido ao casamento com o ator de Kick-Ass. Os ingleses Sam e Aaron se conheceram nas filmagens de O Garoto de Liverpool (2009) e tiveram que ouvir todo tipo de comentário pelos 23 anos que separam a idade dos dois. Voltando ao nepotismo, Sam sempre desconversava quando cogitavam Aaron para ser Christian Grey - e Aaron sempre alardeou que era jovem demais para o papel (ele tem 24 anos) - e seria um tanto incestuoso vê-lo com Dakota nos créditos e em cena, embora neguem o parentesco. 

Jack Johnson
Nem só de cotonetes e cinema vivem os Johnsons! Jack Johnson não faz cinema, faz música e ficou famoso com suas canções acústicas que cairam no gosto dos surfistas (mas não só eles) do mundo inteiro. Jack também não assume o parentesco com nenhuma das pessoas presentes na lista, talvez porque enquanto a maioria tentava ganhar a vida em Hollywood, ele passava o tempo surfando na Califórnia. 

Eri Johnson 
Eles nem suspeitam que tem um primo perdido no Brasil, mas talvez todos tenham a célebre pinta de Eri escondida em alguma parte do corpo para comprovar o parentesco! Eri tem dois filmes no currículo, mas ganha a vida mesmo nas novelas de Glória Perez. Houve um tempo em que ele vivia papéis antológicos na televisão, como o coreógrafo de Barriga de Aluguel (1990) ou o gótico de De Corpo e Alma (1992), hoje se concentra fazendo sempre o mesmo papel cômico. 

NaTela: 50 Tons de Cinza

Dakota e Charlie: vivendo o casal literário mais falado dos últimos anos. 

Talvez por ter lido obras de Henry Miller escondido durante a minha adolescência, o livro 50 Tons de Cinza de E.L. James, nunca me chamou atenção. Sobrevivi à febre de ver todo mundo falando sobre o livro (incluindo várias amigas) e ler apenas a sinopse da história. Nada contra quem curtiu o livro, apenas não me interessou ler sobre a moça ingênua que cai nas garras de um ricaço adepto do sadomasoquismo. Talvez eu tenha introjetado a máxima do (sempre citado) amigo Osmar: "Fuja dos best-sellers como o diabo foge da cruz" sem que me desse conta. Sempre achei irritante o alardeado sucesso do livro pelas descrições das cenas de sexo, afinal de contas, acho que quando isso ocorre é porque a sexualidade ainda não é vivenciada com a naturalidade que deveria no século XXI. Diante dos milhões de livros vendidos, era evidente que Hollywood (com cada vez mais fome de trilogias) o transformaria em filme. Houve uma polêmica danada quando começaram a especular sobre quem deveria viver os protagonistas (os campeões de votos eram os ex-astros infantis Ryan Gosling e Emma Watson, que não passaram nem perto do projeto), quando escolheram Dakota Johnson e David Hunnam, os fãs da obra chiaram alto e Hunnam acabou expulso do projeto. Em seu lugar colocaram o modelo de cuecas Calvin Klein, Jamie Dornan (que também atua na série The Fall) e caiu a ficha na mulherada que nenhum ator iria satisfazer a expectativa de um personagem construído na mente de mulheres do mundo inteiro. Acabei assistindo ao filme depois dos elogios que Dakota Johnson recebeu. Lembro da filha de Melanie Grifith e Don Johnson sendo apresentada como a Miss Globo de Ouro em 2006, desde então a neta de Tippi Hedren fez alguns papéis pequenos que nunca a deixaram em evidência. Pois aos 25 anos, sua carreira parece ter dado uma guinada, graças à mudança de foco proposta pela diretora Sam Taylor-Johnson sobre a obra. Sam explora o romance entre Anastasia Steele e Christian Grey como um jogo de sedução, onde tanto ele quer satisfazer suas fantasias como ela quer fazê-lo dobrar-se aos que ela espera de um relacionamento "normal". Muita gente reclamou que o filme ficou pudico demais, sem a voltagem erótica das 480 páginas do livro. Reclamaram dos  poucos palavrões, dos atores não mostrarem os genitais, das poucas cenas de sexo, da concepção conservadora delas, ou seja, o povo queria mesmo era uma variável dos filmes pornôs que se encontram às pencas na internet. É verdade que o filme deixa o romance entre os dois um tanto fofinho demais para toda a polêmica em torno do livro, mas também, muita gente quando lê um livro imagina coisas que nem sempre quer ver sentado numa sala de cinema. No fim das contas, o sucesso do filme garante a gravação dos outros dois livros. A adaptação do primeiro livro gira em torno da apresentação dos personagens e do famigerado contrato que Grey negocia com Anastasia para que ela seja sua submissa (a negociação em si gera uma das cenas mais curiosas do filme).  50 Tons de Cinza é bastante certinho visualmente, mas Dakota dá conta de sua personagem sutilmente insinuante e Dornan consegue compor um Grey distante e quase gélido. De resto é um jogo de sedução onde um quer submeter o outro às suas vontades, algo comum no relacionamento de qualquer mortal - e nem posso dizer que há originalidade na fantasia do ricaço pervertido (com nome de conotação religiosa) somado à moça virginal (com nome de princesa russa) doida para se entregar aos prazeres da carne... então, que venha as próximas etapas do relacionamento do casal literário mais falado dos últimos anos - e ainda acho que a trilogia é a cara do diretor Adrian Lyne, que tem no  currículo Nove Semanas e Meia de Amor (1986), Atração Fatal (1987), Proposta Indecente (1993), Lolita (1997) e anda sumido desde Infidelidade (2002), quem sabe ele não encontra o tom que as fãs tanto desejam?

50 Tons de Cinza (50 Shades of Grey/EUA-2015) de Sam Taylor-Johnson com Dakota Johnson, Jamie Dornan, Marcia Gay Harden, Rita Ora e Jennifer Ehle. ☻☻