domingo, 8 de novembro de 2015

Filmes2013: Salomé

Kevin e Jessica: bons atores sobre um palco filmado.

Muitos irão considerar uma blasfêmea, mas não sou muito fã das produções que Al Pacino costuma dirigir. Até admito que sua estreia com Ricardo III - Um Ensaio (1996) foi interessante ao mostrar como uma montagem teatral em torno da peça de Shakespeare ganhava forma, mas ao assistir sua última empreitada atrás das câmeras o que era uma ousadia, passou a parecer uma espécie de covardia. Ao explorar uma montagem do texto Salomé de Oscar Wilde, ele faz exatamente a mesma coisa. Nada contra ele explorar o processo de criação do espetáculo no documentário (Wilde Salome) exibido em alguns festivais desde 2011, o problema maior foi ele gerar outro projeto em 2013, onde filma e exibe a peça em si sobre um palco (e os dois forma lançados juntos nos EUA, enquanto aqui um ou outro só aparecem em exibições especiais). Sendo assim, Salomé exibe justamente o que eu mais temia nos filmes anteriores: como diretor, Al Pacino tem medo de fazer filmes. Protegido pela estética teatral e a curiosidade do público em torno da dramaturgia, seus filmes geram interesse, mas no fundo, o que Pacino queria era fazer uma adaptação, mas sem a exposição de tentar gerar um trato cinematográfico ao texto clássico. A edição pode até enganar, mas o fato é que Salomé resulta num filme desengonçado demais, um misto de teatro filmado e cinema que em poucos momentos funciona. Os maiores méritos ficam por conta de Jessica Chastain, que encarna uma Salomé incandescente como só os maiores pesadelos de João Batista seria capaz de tecer. Nesse aspecto, sua imagem inusitada de uma palestina pálida e de cabelos vermelhos, chama a atenção para o fato de ser uma mulher incomum para os registros bíblicos - e por isso mesmo, tão tentadora à corte em que vivia. Neta de Herodes, o Grande, ela foi criada na corte de Jericó pelo tio Herodes Antipas (vivido por Al Pacino) e é conhecida por ser a responsável pela execução de João Batista (Kevin Anderson) - seria um SPOILER  mesmo com a famigerada história da cabeça na bandeja? No texto, fica claro como João era incômodo para o poder local, principalmente por acusar a mãe da jovem Salomé, Herodias (Roxanne Hart), de adultério. Herodias odiava João e, junto à Antipas e Salomé, torna-se uma figura importante numa história sobre hipocrisia, pecado, vingança e ambição. Nem vou entrar nos méritos do texto de Wilde (que não poderia deixar de ser forte, provocador e excepcional), mas o trato do diretor deixa tudo um tanto engessado, que não colabora em nada para que seus maiores méritos sejam saboreados plenamente. Como peça pode até funcionar, mas numa tela torna-se chato e um tanto sem sentido em suas falas descritivas, cortes bruscos e atores que recitam o texto como se as pessoas da última fileira precisassem ouvir o que está acontecendo no palco. Adoraria que Pacino deixasse seus melindres de lado e investisse numa adaptação cinematográfica do texto e não na comodidade do teatro filmado, então ele não teria a necessidade de dizer que o filme parecer hermético demais aos incultos que não sabem apreciar arte elevada... quando na verdade ele tenta disfarçar seus temores em se tornar um cineasta mais interessante. Talvez assim suas obras atrás das câmeras pudessem ser descobertas pelo público que ainda o reconhece como um dos maiores atores em atividade. 

Salomé (Salome/EUA-2013) de Al Pacino, com Al Pacino, Jessica Chastain, Kevin Anderson, Ralph Guzzo, Steve Roman e Roxanne Hart. ☻☻

sábado, 31 de outubro de 2015

N@ CAPA: Daddy Vader


A Capa de outubro foi uma singela homenagem ao dia das crianças comemorada no dia 12 desse mês, mas que muitos ficaram mais atentos ao papai ilustre que apareceu durante todo o mês. A capa foi baseada nas obras de Jeffrey Brown, que imagina como foi a infância de Luke Skywalker e Princesa Léia ao lado do papai Darth Vader em "Darth Vader e o Filho" e "A Princesinha de Vader". Divertido os livrinhos se tornaram um grande sucesso editorial e gerou até um terceiro livro: "Darth Vader and Friends" . A seguir outras ilustrações de Jeffrey Brown e o próprio autor...






Jeffrey Brown

PL►Y: A Dama Dourada

Mirren e Reynolds: quem disse que eles precisam ser engraçados? 

Simon Curtis é um diretor e produtor inglês renomado, principalmente pelos seus trabalhos na TV, no cinema, ele ainda precisa de um pouco mais de... estilo, já que seus filmes costumam ser um tanto engessados, nunca alcançando todas as notas que deveria. Foi assim com Sete Dias com Marilyn (2011), que precisou da ajuda de Michelle Williams para ficar acima da média (mesmo com uma temática espetacular em mãos). Esse ano ele chamou a venerada Helen Mirren para ajudar em A Dama Dourada. O resultado dividiu opiniões e ficou bem longe da bilheteria desejada (e ainda teve a estreia antecipada para abril, bem longe de suas ambições para a temporada de ouro do cinema). O filme conta a história de Maria Altmann (Helen Mirren), uma senhora de origem austríaca que vive nos Estados Unidos desde que fugiu da perseguição nazista na Segunda Guerra Mundial. Maria tem algumas contas a acertar com o passado, especialmente com as obras de arte de sua família que foram roubadas pelos nazistas. Entre as obras está a famosa tela A Dama Dourada (na origem chamada de Retrato de Adele Bloch-Bauer) de Gustav Klimt, que tornou-se uma referência da identidade austríaca (mas que somente Maria sabe que trata-se de um retrato de sua tia Adele). O problema é como  uma senhora judia conseguir de volta um presente de sua família que está há tanto tempo no museu mais imponente da Áustria? Para a empreitada ela conta com um advogado em início de carreira, que não tem muito a perder e precisa reencontrar suas origens. Não deixa de ser uma ousadia ter escolhido Ryan Reynolds para viver o jovem advogado Randy Schoenberg que (assim como o ator) tem pouco mais do que boas intenções para ajudar uma amiga de longa data de sua família. O filme é pautado nas disputas judiciais travadas pela dupla contra uma estrutura que não se sente na obrigação de quitar uma dívida antiga com as famílias que enfrentaram os horrores do holocausto. Curtis costura cenas do presente e do passado de Maria (onde é vivida por Tatiana Maslany da série Orphan Black)  e o resultado consegue ser coerente, ainda que morno. A Maria de Helen Mirren sofre demais com um roteiro que possui uma ideia, mas encontra dificuldades para construir sua história. O mais interessante é que a parte referente ao passado parece mais bem desenvolvida do que a atual, onde Maria surge como uma dama inglesa cheia de tiques e manias auxiliada por um advogado desastrado. Talvez o problema de Curtis seja o mesmo de um bando de outros diretores ainda inseguros que acham que para o público se identificar com os personagens, estes precisam ser engraçados. Não precisa (na maioria das vezes parecem apenas bobos). Nem vou entrar no mérito do filme ser previsível (afinal trata-se de uma história real), mas história das famílias que ainda lutam para reconquistar as obras de suas famílias, que foram roubadas durante a Segunda Guerra Mundial, já é séria e consistente o suficiente para não necessitar de gracinhas por nossa simpatia. 

A Dama Dourada (Woman in Gold/Reino Unido - 2015) de Simon Curtis, com Helen Mirren, Rayn Reynolds, Daniel Brühl e Kate Holmes. ☻☻

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

NaTela: Beasts of No Nation

Abrahan e Idris: já vi esse filme. 

Muito se comenta sobre a chance do Netflix conseguir indicações ao Oscar por sua primeira empreitada no mundo do cinema. Lançado no serviço de streaming no da 16 de outubro, o filme causou polêmica por ser disponibilizado na internet enquanto a companhia tentava vendê-lo para as salas de cinema. As grandes companhias descartaram essa possibilidade, mas meia-dúzia de salas toparam o desafio de exibi-lo. No Brasil ninguém se candidatou à empreitada e os assinantes do Netflix já ajudaram a fazer o filme o recordistas de acessos de longa-metragens em sua estreia no site. Ainda me pergunto o que fez com que entre tantos projetos, os produtores do Netflix escolhessem uma trama ambientada na África, com doses cavalares de violência e crianças portando armas. Penso que ao mesmo tempo que ganham a força de um tema politizado, conseguem agradar quem curte cenas de ação bem executadas. Conciliando sua audiência mais cabeça e os que curtem filmes de ação, o filme já provou ser um sucesso. O filme começou a carreira muito bem disputando o Leão de Ouro no Festival de Veneza (mas ganhou apenas o prêmio de ator revelação para o menino Abrahan Attah) e sendo exibido no Festival de Toronto, tendo a assinatura de Cary Joji Fukunaga (que ganhou muito prestígio depois de dirigir a ótima primeira temporada do seriado True Detective na HBO, mas vale a pena conferir sua versão de Jane Eyre/2011 com Michael Fassbender), foi ele que escreveu e dirigiu o filme. Embora eu considere o roteiro um tanto frouxo, a direção consegue compensar isso com uma tensão crescente e incômoda diante da história de Agu (Abrahan Attah), um menino que vivia num vilarejo de um país indefinido no oeste africano com a família, até que a guerra invade sua vida. A mãe e o irmão mais novo fogem para a capital, ele fica com o pai e o irmão mais velho, mas diante da morte de ambos, ele precisa lutar pela própria sobrevivência. Ele foge para a floresta e acaba recrutado por um comandante sanguinário (o excelente Idris Elba) e seu bando da Força de Defesa Nativa.  Tem início então a dura vida de Agu no mundo dos guerrilheiros, fazendo com que deixe a infância para trás e se torne uma criança-soldado. Encarando a morte a todo instante, Agu percebe que não poderá voltar a ser a mesma criança de antes. Ancorado em cenas fortes, no carisma de Abrahan e no talento de Elba (que dá conta de nuances complicadas de um personagem execrável), o filme faz algumas opções que me incomodam bastante. A primeira é a parte inicial, que apresenta a família de Agu como se fosse composta por personagens de uma sitcom, o que rende uma artificialidade que não combina com o choque realista que o filme promovera em seguida. Outro ponto é o fato da guerra civil ser cuspida na tela. Como tantos outros filmes que retratam a guerra civil no território africano, parece que ela surge ao acaso, sem explicação de um lado ou de outro, servindo apenas para empilhar cadáveres. Diante disso, o fato do filme utilizar todos os recursos geradores de polêmica (crianças armadas, consumos de drogas, prostituição, pedofilia...) para dar ao público a sensação de que ver o filme é um exercício de ajudar a fazer um mundo melhor, acho estranho o país não ter nome, não sabermos a causa de nada do que vemos na tela, reduzindo tudo ao um espetáculo de violência. Pode parecer que sou duro demais com o filme, mas não sei se o que vi era a intenção do livro do médico nigeriano Uzodinma Iweala (que fez o livro como sua tese em escrita criativa em Harvard), tudo me pareceu um longe déjà vu apelativo, mas o problema deve ser que eu já vi muito filme com história semelhante - especialmente Rebelle/2012 (aqui chamado A Feiticeira da Guerra), um filme canadense, pouco conhecido, que concorreu ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2013. Acho que Beasts of No Nation terá grande obstáculos para chegar ao Oscar, mas pelo menos Idris Elba merecia ser lembrado por, sempre que entra em cena, me fazer esquecer minhas ressalvas quanto ao filme. 

Beasts of No Nation (EUA/2015) de Cary Joji Fukunaga com Abrahan Attah, Idris Elba,  Andrew Adote e Bernard Quaye. ☻☻☻

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

APOSTAS PARA O OSCAR 2016 - CAPITULO I

Se você percebeu que estão chegando aos nossos cinemas obras de diretores importantes (Ridley Scott com Perdido em Marte, Robert Zemeckis com A Travessia, Guillermo Del Toro com A Colina Escarlate, Steven Spielberg com Ponte de Espiões...) você não está enganado, a temporada de ouro do cinema americano acaba de chegar (e todos os citados tem intenções (e chances) de aparecer nas premiações que se aproximam (assim como Divertida Mente e Ex-Machina, que podem figurar entre categorias importantes). Ano passado as minhas primeiras apostas para o Oscar já continham o maior premiado do ano (com quatro estatuetas, incluindo melhor filme, diretor e roteiro original), o premiado na categoria de melhor ator e atriz coadjuvante. A melhor atriz veio somente na postagem seguinte e o ator coadjuvante apareceu na conclusão de minhas apostas (e foi a maior surpresa da cerimonia do ano passado com três prêmios). Ou seja, são grandes as chances do favorito ao Oscar 2016 estar nessa lista abaixo: 

O Regresso (The Revenant)
Leonardo DiCaprio tem cinco indicações ao Oscar, uma como produtor, mas nenhuma estatueta na estante. Esse ano ele tenta quitar essa dívida pessoal ao se entregar ao diretor Alejando González Iñárritu nessa história de vingança ambientada em 1820. Hugh Glass (Leo) escapa da morte e busca aqueles que o abandonaram após o ataque de um urso. Sua jornada atravessa um temeroso inverno... muito elogiado a questão é se a Academia irá premiar novamente uma obra do diretor de Birdman. 

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)
Se Alejandro pode repetir o sucesso em 2016, o mesmo pode acontecer como Eddie Redmayne que tem fortes chances de ser premiado como melhor novamente. Depois de viver Stephen Hawking em A Teoria de Tudo, o ator vive Einar Wegener, o primeiro homem a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. Ele se torna Lili Elbe e mantem seu casamento com Gerda Wegener (papel de Alicia Vikander), o que provocou uma mudança nos paradigmas das relações de gênero. O filme tem a assinatura ilustre de Tom Hooper, mas os maiores elogios giram em torno de Eddie, que pode ser o terceiro ator na História a ganhar o Oscar de melhor ator por dois anos consecutivos. 

O Quarto de Jack (Room)
Assim como The Danish Girl, o Room de Lenny Abrahamson foi exibido no Festival de Toronto, a diferença foi que saiu de lá com o prêmio de melhor filme exibido no Festival - o que não é pouca coisa. Sendo assim, a adaptação da obra de Emma Donoghue ganhou fôlego para o Oscar, especialmente pela atuação de Brie Larson (a menina de ouro do cinema indie atualmente). Jack é uma criança de cinco anos que viveu desde pequena presa num  quarto sob os cuidados da mãe - mas um plano arriscado para fugir irá mudar tudo. Este drama com toques de suspense promete ser uma das grandes surpresas e, com fortes chances de surpreender. 

Aliança do Crime (Black Mass)
Depois de alguns fracassos de bilheteria, Johnny Depp conta com o diretor Scott Cooper para dar uma levantada em sua carreira. Depp assumiu o risco de usar uma maquiagem que o deixou irreconhecível na pele do criminoso Whilter Bulger - que tornou-se informante do FBI para prender sua família mafiosa de Boston. O elenco impressiona e os elogios em torno do filme crescem cada vez mais por expor a estranha dinâmica do FBI com um dos seus dez criminosos mais procurados e... Depp tem a chance de conseguir sua quarta indicação ao Oscar (e ser premiado finalmente) mas no páreo terá colegas que também esperam sua primeira estatueta na estante, como por exemplo, Sir Ian McKellen... mas isso fica para a próxima lista. 


Steve Jobs 
Michael Fassbender tornou-se um dos atores mais interessantes em atividade, provando que pode ser qualquer coisa (líder terrorista em greve de fome, senhor de escravos, ninfomaníaco, vilão mutante, artista problemático...), agora ele encarna um dos maiores ícones da tecnologia. O filme de Danny Boyle faz o filme lançado anos atrás com Ashton Kutcher parecer ainda pior, já que Boyle e Fassbender não tem pudores em descascar as virtudes e falhas na jornada do seu retratado. Se não apresenta novidades, o resultado ainda é capaz de impressionar e tornar-se um forte concorrente perante os demais. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PL►Y: Creep

Mark: sujeito esquisito. 

Mark Duplass é um dos artistas mais influentes do cinema independente. Produtor, diretor, roteirista e ator, Mark tem uma queda por comédias dramáticas, mas, recentemente se aventurou por filmes de terror. Foi assim que causou certo alvoroço em festivais quando emprestou sua figura simpática para um filme feito com câmera (trêmula) na mão onde vive um sujeito muito esquisito. O filme conta a história de um videomaker chamado Aaron (Patrick Brice, que também assina a direção e o roteiro do filme), que responde a um anúncio de quem precisa de seus serviços por um dia. Aaron segue para o endereço indicado, um local afastado, no meio de um bosque, sem outros moradores por perto... é ali que conhece Josef (Duplass, que também assina o roteiro e a produção), um sujeito de olhar estranho e que desde o início demonstra interesse em provocar sustos no seu contratado. Josef conta que sua esposa está grávida, mas que por conta do câncer que se espalha pelo seu corpo, ele não poderá conhecer o herdeiro, por isso, teve a ideia de filmar um dia de sua vida para que o filho pudesse conhecê-lo melhor.  O filme então gasta tempo com imagens prosaicas sobre o personagem, mas que revela aos poucos (em alguns momentos de forma cômica) que existem alguns parafusos fora do lugar... A tensão (a sexual, inclusive) cresce vagarosamente, até que os aspectos mais sombrios do personagem começam a surgir. Ainda que Creep siga aquele estilo de documentário fake tão em moda ultimamente, com câmera trêmula e roteiro frouxo, ele tenta subverter um pouco alguns paradigmas desse estilo. Embora não seja surpreendente, o filme beneficia-se muito da eficácia de Duplass em direcionar olhares arrepiantes para a câmera, construindo um sujeito sutilmente doentio. Elementos como a assustadora máscara de lobo e o belíssimo plano utilizado no último encontro dos personagens fazem a diferença durante no que começou como a ideia de uma comédia de humor negro e descambou para o horror. Talvez seja essa mudança de foco que deixou a produção um pouco irregular, mas ainda assim, coerente com o estilo a que se dedica, sobretudo por manter a tensão com somente dois atores em cena. 

Creep (EUA-2014) de Patrick Brice com Mark Duplass e Patrick Brice. ☻☻

domingo, 25 de outubro de 2015

FILMED+: O Labirinto do Fauno

O Fauno e Ofelia: a fantasia que nasce da realidade. 

Existem filmes que deixam aquela sensação incrível de ter assistido a uma verdadeira obra-prima. Uma sensação tão subjetiva quanto esquisita, raramente sentida, uma mistura de alegria, estranhamento, satisfação e, às vezes, de nó na garganta. O Labirinto do Fauno se enquadra em todos esses quesitos citados . O mexicano Guillermo Del Toro realizou sua obra-prima em seu sexto filme - o terceiro em sua língua materna. Antes ficou famoso em Hollywood com aventuras de sucesso como Blade II (2002) e Hellboy (2004) - nos quais ajudou a consolidar uma linguagem mais séria nas adaptações de HQ para o cinema. Embora sejam diferentes em sua origem, existe um traço semelhante em todas as suas obras: a fantasia. Afinal, o uso de criaturas fantásticas na criação de seus enredos, sejam fantasmas, vampiros, demônios, insetos estranhos ou figuras folclóricas, todos eles aparecem em suas tramas de forma geralmente incomum, o que reflete o fascínio do diretor pelo que os literatos chamariam de maravilhoso. Foi com O Labirinto do Fauno que o diretor explicou seu interesse por essa abordagem cinematográfica, afinal, o longa retrata como a fantasia e a realidade podem ser muito semelhantes, ainda que com características distintas. O magistral roteiro conta a mesma história sobre dois prismas específicos a partir da menina Ofelia (Ivana Baquero). Ofelia muda-se ao lado da mãe grávida (Ariadna Gil) para a casa do padrasto, um rude militar espanhol chamado Vidal (o ótimo Sergi López), que enfrenta problemas para domar os rebeldes que vivem nas redondezas. Diante da violência do lugar, o interesse de Ofelia pelos contos de fada torna-se ainda maior, principalmente depois que ela encontra um fauno (Doug Jones, um sujeito que é craque em viver criaturas no cinema) que afirma que ela é uma princesa e precisa lutar  para libertar seu povo de criaturas do mal. Para isso ela deve ser virtuosa, obediente e corajosa, caso contrário as consequências serão terríveis. Enquanto conhecemos a aventura de Ofelia num mundo mágico, acompanhamos a trajetória dos rebeldes que são auxiliados pela empregada do capitão (papel de Maribel Verdu), que pretendem acabar com a tirania de Vidal. Além da brilhante condução nas duas horas de filme,  Guillermo Del Toro capricha não apenas nos cenários, nos figurinos, na fotografia, nos efeitos, na maquiagem, mas também na costura de suas tramas, demonstrando que a fantasia está longe de ser uma fuga da realidade, mas uma releitura do mundo que está diante dos nossos olhos. O Labirinto do Fauno é uma ode à fantasia em seu estado mais significativo, não a que a faz parecer alienante ou vazia, mas a que retrata o mundo concreto de forma mais lúdica para que possamos perceber os absurdos que nos cercam. Belo, trágico e único, o filme ainda está entre os dez melhores filmes dos últimos dez anos - e numa posição bem segura. 

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno/Espanha-México-EUA/2006) de Guillermo Del Toro com Ivana Baquero, Sergi López, Doug Jones, Maribel Verdu, Ariadna Gil e Roger Casamajor.
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§8^) Fac Simile: Charlie Hunnam

Charles Matthew Hunnam
Prestes a ver uma sessão de A Colina Escarlate em Londres, nosso repórter imaginário encontrou com o ator britânico Charlie Hunnam comprando doces para a sessão que também assistiria.  Surpreso ao ser reconhecido, Charlie foi convencido a responder cinco perguntas nessa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Como foi ser o mocinho de A Colina Escarlate?

Charlie Foi engraçado, eu trabalhei com Guillermo em Círculo de Fogo/2013 e não imaginava que ele gostasse tanto do meu trabalho. Sei que meu papel é pequeno, mas fiquei muito satisfeito com o resultado. Não é todo dia que temos um cara tão bonzinho em mãos.

§8^) E isso foi logo depois que a mulherada reclamou de sua escalação para 50 Tons de Cinza, onde viveria Christian Grey. Como foi se sentir tão rejeitado?

Charlie Achei engraçado porque a mulherada não costuma reclamar! Mas é difícil rivalizar com um personagem que ficou tão forte no imaginário do público. Eu não entendi muito bem, mas no fundo, senti um certo alívio quando abandonei o filme. A pressão que eu senti na época foi absurda... e o filme ficou uma porcaria, o que me deixou muito mais tranquilo. 

§8^) Apesar de pouco conhecido, você já fez papéis muito variados. Lembro que a primeira vez que o vi na telona foi em Nicholas Nickleby (2002), também acompanhei você na série Sons of Anarchy...

Charlie Caramba! Você lembra de Nickleby... quando o filme foi indicado ao Globo de Ouro foi sensacional! Realmente foi uma surpresa! Mas... tive uma amigas que disseram que foi Sons of Anarchy que pesou contra as fãs do Grey, era realmente um ambiente agressivo demais e devem ter pensado que seria algo como 50 Sons of Anarchy no fim das contas... 

§8^) Teve gente que falou que o problema era com a sua nudez frontal...

Charlie kkkk! Sério?! Mas nem teve cena de nudez frontal masculina no filme... e os efeitos especiais sempre podem ajudar nessas horas...

§8^) Acha que precisaria?

Charlie kkk... bem... como já disse antes, a mulherada não costuma reclamar! Mas eu acho que o efeito deveria ser ao contrário do que você imagina! Sempre acho que aquele monte de bugiganga do quarto vermelho é para compensar alguma coisa no Grey... só acho...

NaTela: A Colina Escarlate

Mia, Tom, Jess e Charlie: bebendo na fonte gótica. 

Ao terminar a sessão, um rapaz que estava por perto - e esclareceu aos seus amigos que era um filme de Guillermo Del Toro - decretou "Fraquinho". Muita gente que considera conhecer o cineasta por Círculo de Fogo/2013 (que meu organismo considera uma espécie de sonífero... já tentei assistir umas cinco vezes e sempre durmo) realmente irá considerar o filme ruim. Mas quem conhece um pouco mais da carreira do diretor, sobretudo seu irmão direto A Espinha do Diabo/2001, irá perceber que o filme é muito mais coerente com o universo do diretor. Com inspiração na literatura gótica, o filme conta a história de uma mocinha chamada Edith (Mia Wasikowska), que desde pequena é assombrada pelo fantasma da mãe (que sempre lhe avisa sobre algo referente à uma tal Colina Escarlate). Crescida, Edith quer ser escritora, mas encontra dificuldades pelo seu gosto por histórias da fantasmas. Enquanto aspira ser escritora, conhece o baronete Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), pelo qual sente uma atração quase instantânea - maior do que a demonstrada pelo médico Alan McMichael (Charlie Hunnam), seu amigo de longa data.  O pai de Edith não gosta nem um pouco da presença de Thomas (e tão pouco dos seus planos de extração de argila na propriedade da família Sharpe na Inglaterra), o coroa também não simpatiza muito com a irmã do baronete, Lucille Sharpe (Jessica Chastain), mas isso não evitará que após uma tragédia familiar, Edith se case com Thomas e vá viver com ele na sombria propriedade dos irmãos: um castelo, caindo aos pedaços e que guarda segredos que irão assombrar a nova moradora. Quem ficar atento, irá perceber que Guillermo investe num texto cheio de tiradas metalinguísticas (especialmente no início), basta ouvir Thomas dizendo gostar dos dois capítulos mais românticos do livro de Edith antes que os fantasmas apareçam, ou como ele se identifica com a complexidade do herói romântico da obra. Para além do discurso meta, A Colina Escarlate ainda apresenta uma nobreza decadente, que não encontra espaço num novo modelo sócio-econômico e político. Quem não soube se adaptar, apenas dilapidou toda a fortuna, como o Barão Sharpe - que deixou os filhos à míngua enquanto atormentava a esposa. São esses segredos do passado que fazem a graça do filme e (conforme dizem várias vezes durante a projeção), é ele que os fantasmas representam. Os tormentos de Lucille e Thomas para reconquistar um lugar no mundo a qualquer preço é o motor da história enquanto a casa em pedaços  afunda conforme Thomas revira a argila vermelha da propriedade. Entre borboletas, mariposas e espectros vermelhos, A Colina Escarlate mantem a elegância e entrega uma das melhores megeras que esse tipo de filme já exibiu. Jessica Chastain compõe uma Lucille espetacular e parece se divertir muito durante todo o filme, sua atuação é tão cheio de nuances que os outros atores ficam um ponto abaixo de seu magnetismo contido até a hora que precisa crescer ainda mais em cena. No fundo, Lucille parece ser o maior fantasma do filme, mas há de se destacar que Guillermo fez um belíssimo trabalho ao batalhar a construção de uma casa arruinada de verdade (que mesmo em suas partes inteiras, parece estar pela metade), que ao lado dos figurinos exuberantes (ainda que estranhos) confere uma plasticidade única ao filme. Existem sustos e fantasmas no filme, mas são esses detalhes de um mundo que estava em transição que fazem a diferença. Quem prestar atenção nisso perceberá que o filme está longe de ser fraquinho. É verdade que faltou algum toque especial que o fizesse ser uma obra-prima como O Labirinto do Fauno (2006), mas isso já seria pedir demais, afinal, antes de ver as belíssimas imagens que ilustram os créditos finais eu já estava satisfeito com o resultado. 

A Colina Escarlate (Crimson Peak/ EUA-2015) de Guillermo Del Toro com mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain, Charlie Hunnan e Jim Beaver. ☻☻☻☻