sábado, 20 de outubro de 2012

DVD: Zona do Crime

Miguel: perdido num condomínio que confunde justiça com vingança. 

Conhece aquela frase do escritor Walter Lippman: "Quando todos pensam a mesma coisa é porque ninguém está pensando", existem vários filmes sobre isso, especialmente com um grupo de pessoas que passa a viver numa comunidade com regras próprias. Geralmente são filmes que mostram que a coisa costuma não caminhar para o bom caminho, assim vimos A Vila (2004), Dogville (2003), Manderlay (2005) e até A Praia (2000). Cada um funcionava dentro de uma simbologia sócio-política, mas veio do México o filme que escancara as relações sugeridas nos filmes citados com a ordem mundial que acabou recebendo o prêmio internacional da crítica no Festival de Toronto/2007. Zona do Crime é ambientado quase que totalmente num condomínio fechado chamado La Zona, nele os moradores sentem-se seguros com as câmeras e a ação dos seguranças. Eis que um dia, um acidente acaba promovendo a entrada de três delinquentes naquele condomínio. Os três invadem uma casa e depois de ficar na escuridão, ouvimos tiros e depois  contam quatro cadáveres: a senhora que teve a casa invadida, dois dos invasores adolescentes e um segurança. Preocupados com o fato, os moradores estabelecem uma espécie de pacto para que resolvam a situação mantendo a imprensa e a polícia fora do ocorrido. Além disso, todos querem encontrar o terceiro rapaz que invadiu o condomínio e que ainda se encontra escondido entre as residências do local. O roteiro assinado por Laura Santullo e o diretor Rodrigo Plá (que concorreu ao prêmio Goya de melhor roteiro) consegue ser assustador mantendo a tensão sempre crescente entre os moradores, de forma que qualquer comportamento divergente sofre represálias - como o morador que chamou a polícia e tem sua linha telefônica cortada. Da mesma forma é impossível não se incomodar com um grupo de pessoas estabelecendo leis próprias que proíbem até uma viúva de ver o corpo do marido segurança morto ou de fornecer informações à polícia. Ainda aparecem na trama os adolescentes que se divertem com a possibilidade de encontrar o invasor foragido e fazer "justiça com as próprias mãos". O filme explicita bem como a lógica da maioria é capaz de borrar as fronteiras entre justiça e vingança, por isso o filme fica melhor quando mostra os moradores com um pouquinho mais de consciência se enfraquecendo perante a truculência dos vizinhos e, especialmente, quando o jovem Alejandro (Daniel Tovar) passa a ajudar o jovem de 16 anos, chamado Miguel (Alan Chávez), que deu o azar de acompanhar os dois amigos naquela infração. La Zona mostra-se uma prisão sem saída para o adolescente e sua única chance de escapar depende da honestidade de um policial que percebe que existe algo de muito estranho nos moradores daquele condomínio. O maior pecado de Daniel Plá está no determinismo de sua trama, parece que todas aquelas falas dos moradores mais intolerantes ganham força conforme o filme caminha para o final e tudo se torna previsível quando chega ao último ato. A revolta do espectador é certa, mas ela pode perder fôlego com os toques melodramáticos que tomam conta do roteiro quando o mal já está feito. O mais interessante do filme não está nas denúncias mais óbvias que exercita (como as falas sobre corrupção policial), mas na forma simétrica como apresenta os moradores bem de vida do condomínio não percebendo a semelhança com aqueles três delinquentes. "Eles controem a própria cidade e querem ter leis próprias também", diz um morador do condomínio - o irônico é que ele se refere aos moradores da favela que fica ao lado de La Zona e não aos próprios vizinhos. 

Zona do Crime (La Zona/Espanha-México/2007) de Rodrigo Plá com Daniel Giménez Cacho, Daniel Tovar, Maribel Verdú, Mario Zaragoza, Blanca Guerra e Andrés Montiel. ☻☻☻

DVD: Bróder

Macu e Jaiminho: amigos até a última cena. 

Acho que nenhum filme escolhido pelo Ministério da Cultura a concorrer a uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro gerou tanta polêmica quanto o filme biográfico do ex-presidente Lula. Um dos motivos para reclamarem era que o Brasil contava com uma boa safra de filmes naquele ano e um dos mais elogiados foi esse Bróder a que só assisti recentemente. O filme de Jeferson De tem algumas virtudes, mas perde força por investir em alguns lugares comuns que acabam tornando a história dos três amigos de infância moradores de uma favela paulistana menos interessante do que deveria ser. As primeiras cenas com o personagem Macu (Caio Blat) são bastante interessantes pela proposta de mostrá-lo no escuro numa conversa tensa no celular para depois revelá-lo aos poucos. As boas ideias continuam quando o mostram andando pela favela num plano sequência que revela mais do que a maior parte das cenas do filme. Enquanto apresenta seus personagens o filme prende o interesse, seja na tensão de saber que aquele rapaz gente boa está metido numa encrenca, seja pela visita do astro de futebol Jaiminho (Jonathan Haagensen) que aguarda sua convocação para a seleção enquanto visita a madrinha (Cássia Kiss) na comunidade em que cresceu ou nos conflitos do certinho Pibe (Silvio Guindane) que casou com a ex-namorada de Macu e foi embora daquela  realidade. Existem outros personagens interessantes na trama, especialmente o núcleo familiar de Macu, mas o filme faz questão de mostrar que aquele dia comum onde se comemora o aniversário do protagonista com uma feijoada tenta abafar uma violência que se anuncia cada vez mais. É a opção de mostrar que mesmo no dia mais comum a violência pode aparecer e estragar tudo que Jeferson De arrasta cenas como o do jogo de sinuca, o almoço, a pelada no campinho de futebol, o passeio de carrão pela cidade ao som de Racionais enquanto descobrimos o plano em que o protagonista se meteu e carregou junto os seus amigos. Embora o filme tenha bons momentos, as partes em que tenta captar o cotidiano da vida na comunidade podem cansar. Podem até parecer autênticas, mas esse tipo de cena não me impressionam como narrativa, pelo contrário, faz tudo parecer mais do mesmo, mais um favela movie. A diferença é que Jeferson De prefere abafar a violência até a cena final onde o protagonista deve fazer a escolha mais difícil de sua vida. Até lá, ele embaralha os caminhos do trio de amigos num roteiro que precisa mostrá-los como pessoas comuns e reais. Quando para de reproduzir cenas "realistas" e resolve construir "cenas de cinema" (como o belo diálogo de Cássia Kiss com a filha que descobre-se grávida) o filme acerta em cheio, pena que nem sempre isso acontece. Bróder está longe de ser uma obra-prima, mas se beneficia da vontade de ser menos sensacionalista que a maioria dos filmes que compartilham a vida na favela com ele.

Bróder (Brasil/2009) de Jeferson De com Caio Blat,  Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cássia Kiss, Aílton Graça e Zezé Motta. ☻☻☻

DVD: O Grande Ano

Wilson, Martin e Black: transformando hobby em competição. 

O que esperar de um filme estrelado por Owen Wilson, Jack Black e o veterano Steve Martin? No mínimo umas boas risadas! Não é bem isso que vemos em O Grande Ano. Os risos até aparecem, mas são amarelados e com um longo espaço entre um e outro. Antes de qualquer outro comentário tenho que reconhecer que o produtor do filme teve muita coragem em acreditar que o público iria se interessar por um filme um grupo de observadores de pássaros que vivem brigando entre si  numa competição anual para saber quem observou mais pássaros durante o ano (?!). O objetivo de todos é tirar do topo do ranking o campeão Kenny Bostick (vivido por Owen Wilson - será que eles sabiam como esse nome de personagem soaria engraçado no Brasil?) - e o filme dedica vários momentos em histórias lendárias deste observador altamente competitivo e dedicado, tão dedicado que se interessa mais por uma ave de pata rosa do que pela esposa (Rosamund Pike) que está doida para engravidar. No caminho de Bostick estão dois sujeitos que são pouco conhecidos no ramo, um deles é o gorducho Brad Harris (Black) e o empresário Stu Preissler (Martin). Os dois acabam ficando amigos e enfrentam os dramas de esconder um do outro que estão competindo para o evento "Grande Ano". Se Kenny tem seus problemas com a patroa, Brad e Stu também tem a vida pessoal apresentada em doses homeopáticas e de forma nunca consistente. Brad flerta com a observadora Ellie (Rashida Jones) e ainda tem contas a ajustar com o pai (Bryan Dennehy) com a ajuda da mãe (Dianne Wiest). Enquanto isso, Stu aproveita o fato de ter um casamento bem resolvido e mal aproveita o fato de se tornar avô enquanto sua carreira profissional começa a sofrer descrédito devido sua fixação por aves raras. Até para quem não gosta de pássaros o filme pode ser atraente, mas o diretor David Frankel (de O Diabo Veste Prada/2006) nunca se esforça muito para fazer com que o filme seja mais do que um bando de marmanjos procurando passarinhos. Existe certa preguiça na condução do filme, talvez por acreditar no talento de seu trio de atores (o incrível é que o melhor em cena é Jack Black numa atuação mais contida e humana do que os outros dois que caem no exagero facilmente). A preguiça é tanta que fica transparente que cada episódio avesturesco dos observadores trata de um capítulo de livro - e é mesmo, já que o filme é adaptado do livro homônimo de Mark Obmascik. No fim das contas é um filme que se assiste mais pelas paisagens e pelas aves na bela fotografia do que pela história em si - que no final ainda cai naquela balela americana dos sacrifícios realizados para ficar em primeiro lugar. Prefiro ficar com a fala de um personagem que lá pelas tantas revela o motivo de minha implicância com a trama: "somente os americanos para transformar um passatempo em competição". Esse sabe das coisas...

O Grande Ano (The Big Year/EUA-2011) de David Frankel com Jack Black, Steve Martin, Owen Wilson, Rashida Jones, Dianne Wiest, Rosamund Pike, Jim Parsons e Anjelica Huston. ☻☻

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

LADIES & GENTLEMEN: Joseph Gordon-Levitt

Joseph Leonard Gordon-Levitt nasceu em 17 de fevereiro de 1981 e ele começou na carreira de ator somente sete anos depois no filme televisivo Stranger in my Land. O menino fez vários papéis na TV incluindo no cultuado seriado Caras e Caretas (1988) e na refilmagem do seriado Dark Shadows em 1991 (que recentemente virou filme nas mãos de Tim Burton).  Seu primeiro papel no cinema foi (mínimo) em Beethoven - O Magnífico (1992), mas no mesmo ano recebeu um papel mais relevante como um dos meninos na primeira parte de Nada É Para Sempre de Robert Redford. As coisas começaram a melhorar na tela grande quando foi o filho de Demi Moore em A Jurada em 1996 - mesmo ano em que ganhou destaque na TV como o chefe alienígena disfarçado de adolescente do seriado 3rd Rock From the Sun.   O seriado durou até 2001 - enquanto aparecia nas telas como um dos candidatos a defunto de Halloween H20 (1998), no hit 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999) e no drama indie Maníaco (2001) onde interpretava um jovem desajustado. Apesar de ter emprestado a voz para o filme Planeta do Tesouro (2002) da Disney, foi uma pequena produção independente que deixou evidente que aquele promissor garotinho cresceu: Mistérios da Carne. O filme de Greg Araki parece mais feito para chocar do que para ganhar prêmios, mas na pele de um adolescente que se torna garoto de programa após sofrer abusos na infância rendeu ao ator o prêmio de melhor ator no Festival de Seattle. A repercussão de seu trabalho rendeu o convite para estrelar A Ponta de Um Crime (2005) de Rian Johnson que foi indicado a vários prêmios em Festivais de cinema independente e recebeu o prêmio especial do júri em Sundance com sua mistura de filme adolescente e investigação policial. O filme fez tanto sucesso que rendeu à Joseph o papel principal em outro suspense: O Vigia (2007). Nele interpretava um rapaz que tem problemas de memória e que se envolve com perigosos assaltantes. Além disso, o ator ganhou papéis de destaque em trabalhos de diretores  independentes badalados como Lee Daniels (Matadores de Aluguel/2005), Kimberly Peirce (Stop-Loss/2008) e Spike Lee (Milagre em Sta. Ana/2008). Se em 2009 ele esteve na pagação de mico de G.I. Joe - A Origem de Cobra, a coisa melhorou muito quando apareceu em (500) Dias com Ela de  Marc Webb. O filme foi considerado uma das melhores comédias românticas de todos os tempos e foi indicado a vários prêmios - incluindo o  Globo de Ouro de Melhor Filme e melhor ator de Comédia e entrou na lista dos 10 melhores filmes do ano pelo National Board of Review. Assim, os filmes de pequeno porte que estava prestes a lançar (Hesher/2010 e Elektra Luxx/2010) ganharam alguma publicidade, mas o ator estava prestes a aparecer cada vez mais em super-produções. Foi assim que entrou para a patota de Christopher Nolan como o invasor de sonhos mais elegante de todos os tempos em A Origem (2010). No ano seguinte ele interpretou um rapaz com câncer na dramédia 50%  - que lhe valeu a segunda indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical. Neste ano, Joseph Gordon-Levitt deu as caras em alguns dos filmes mais aguardados do ano: é o aspirante a Robin em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), retomou a parceria com o diretor Rian Johnson em  Looper, será o primogênito de Lincoln na cinebiografia a ser lançada por Spielberg e ainda arranjou espaço para ser o ciclista perseguido em Perigo por Encomenda de David Koepp. Para o ano que vem ele tem apenas um filme programado - depois de dirigir quatro curtas, o ator se aventura pela primeira vez na direção de um longa-metragem: Don Jon's Addiction conta com Scarlett Johansson e Julianne Moore na trama de um admirador de filmes pornôs que precisa aprender a ser menos egoísta (quem viu a participação de Joseph no Saturday Night Live pode considerar aquilo como uma espécie de ensaio). 

(500) Dias com Ela: rumo ao primeiro time de Hollywood.

CATÁLOGO: A Ponta de Um Crime

Brendan e Brain: aprendizes de detetives.

Se você curtiu a engenhosidade de Rian Johnson no recente Looper (2012) vale a pena garimpar nas locadoras A Ponta de Um Crime, um filme de investigação ambientado numa escola, sem policiais e com fidelidade absoluta ao gênero noir. No início eu estranhei aqueles adolescentes misteriosos envoltos na atmosfera silenciosa, mas quando você entende a proposta do filme dificilmente  o abandona no meio do caminho. O filme acompanha Brendan (Joseph Gordon Levitt), aluno de uma high school que recebe um estranho telefonema da ex-namorada, Emily (Emilie de Ravin) dois dias antes de encontrá-la morta num túnel de esgoto. Com a descoberta do corpo, as palavras de Emily recebem um novo significado que o direciona até o submundo das drogas de sua escola. Esqueça a pretensão de Brendan não querer envolver a polícia na investigação e achar que pode encontrar o assassino de sua amada por conta própria, isso faz parte desta brincadeira (que se leva a sério até demais). Como parceiro de investigação, Brendan conta apenas com Brain (um ótimo Matt O'Leary),  nerd que parece alheio ao que acontece na escola, mas sabe exatamente quem é quem naquele universo peculiar. Agindo como informante, Brian interpreta as últimas palavras de Emily na direção de alguns alunos que traficam drogas. É assim, depois de apanhar um bocado, que Brendan entrará em contato com Dode (Noah Segan) - atual namorado de Emily -, o projeto de brutamontes Tugger (Noah Fleiss) e o soturno The Pin (Lukass Haas, que já passou dos 30 anos mas ainda convence como adolescente) que controla o submundo do colegial. Todos são suspeitos e, aparentemente, todos tem motivos para se livrar de Emily, até que um segredo da garota vem à tona.  Como um bom filme noir, na maior parte do tempo o investigador tenta juntar as peças que tem em mãos e com isso alguns personagens estão ali só para confundir, outros perdem espaço no decorrer dos fatos e outros (que pareciam confiáveis) se tornam cada vez mais turvos. Seguindo a cartilha do gênero, Johnson deixa seus personagens sempre ambíguos tornando seus atos sempre inesperados (se não fosse assim aquele desfecho no cômodo escuro não teria um terço do peso apresentado) e capricha nas garotas fatais que cruzam o caminho do protagonista. Além da confusa Emily, ele vive cruzando a com a beldade Kara (Meagan Good) e com a escorregadia Laura (Nora Zehetner) que se mostra uma autêntica femme fatale com seu rosto meigo e olhos enormes. Ao misturar dois gêneros distintos (o filme teen com o noir), A Ponta de Um Crime soa inovador e surpreende ao construir um universo próprio onde a escola parece povoado somente por alunos - e quando aparece o vice-diretor da escola ele mais parece um delegado. Essas analogias entre as personas de um gênero e de outro são bem mais interessantes do que algumas obviedades que o diretor poderia ter abandonado durante o filme, a que mais me incomoda é a trilha sonora forçosamente jazzística (própria dos filmes policiais clássicos em que o filme se inspira), com a atmosfera construída pelo diretor nem precisava dela - ter investido numa trilha sonora mais original tornaria o longa ainda mais inovador dentro do gênero. No fim das contas, A Ponta de um Crime é um belo exercício narrativo e se torna memorável pelo conjunto de personagens interessantes que apresenta num roteiro bem escrito que se desenrola cuidadosamente.

A Ponta de Um Crime (Brick/Canadá-2005) de Rian Johnson com Joseph Gordon Levitt, Lukas Haas, Nora Zehetner, Matt O'Leary, Nohan Segan e Noah Fleiss. ☻☻☻☻  

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Na Tela: Looper - Assassinos do Futuro

Levitt: matador duro de matar.

Jospeh Gordon Levitt participou do primeiro filme de Rian Johnson, o noir colegial A Ponta de Um Crime (2005) e depois que Johnson chamou menos atenção do que deveria com Vigaristas (2008) o ator ajudou o amigo a produzir essa ficção científica que estava em várias listas de lançamentos mais aguardados de 2012. Looper trata de viagens no tempo com ideias que eu não lembro de terem sido utilizadas em outros do gênero. Obviamente que à primeira olhada Exterminador do Futuro (1984) é inevitável, mas o texto de Johnson amplia qualquer possibilidade quando nosso cérebro tenta se acomodar com o que vemos na tela. A história se passa em 2044, onde a viagem no tempo ainda não foi inventada, mas existem os chamados loopers, matadores que trabalham para a máfia do futuro. A coisa funciona mais ou menos assim: no futuro é muito complicado sumir com os corpos, então a máfia envia a vítima para 2044 de olhos vendados e um looper o executa e incinera o corpo sem que ninguém de falta dele. O protagonista da trama é Joe (Levitt), mas as coisas começam a complicar quando Seth (Paul Dano) recebe como vítima o Seth mais velho vindo do futuro. O velho Seth lhe conta que no futuro existe um tal Rainmaker, um novo líder do crime praticamente indestrutível e capaz das maiores atrocidades para fazer prevalecer o seu poder. É Rainmaker que ordena o extermínio dos loopers aposentados pelos próprios loopers do passado. Não vai demorar muito para que o próprio Joe tenha que dar cabo de sua versão mais velha - e assim como o amigo, fraqueje. Logo ele saberá que o velho Joe irá aproveitar sua viagem no tempo para eliminar a criança que crescerá e se tornará o temido Rainmaker. Ao contrário do que se pode pensar os dois Joes lutam por causas distintas (devido ao período de vida de cada um).  Esse é apenas o ponto de partida de um filme que promove várias surpresas e alguns dilemas morais de seus personagens, afinal, é justo eliminar uma criança pelo que ela se tornará no futuro? Não lembro de um diretor ter tanto cuidado em explicar o efeito que as alterações no presente causam na mente de um personagem enviado de volta ao passado (e o excelente diálogo entre Willis e Levitt deixa isso bastante evidente). Johnson mostra um futuro mais realista do que a maioria das produções futuristas e por isso mesmo, torna-se bastante crível. Além das cenas de ação e efeitos especiais usados com cautela, mas de forma eficiente, o filme conta com atuações dedicadas de Levitt - copiando expressões de Willis (confesso que estranhei aquelas lentes, sombrancelhas e lábios artificiais no ator)- e Willis assumindo o peso dos anos de forma despudorada. Para dar um jeito em tanta testosterona, Emily Blunt encarna uma mamãe durona de deixar a Sarah Connor de Linda Hamilton orgulhosa.  Bem editado e bem contado, o filme desenvolve a ação sem perder de vista as relações entre os personagens.  Looper consegue a proeza de injetar novo fôlego à uma ideia já desgastada (viagem no tempo), mesmo que apele um bocado ao mostrar o Rainmaker mirim como um personagem de filme de terror. 

Looper - Assassinos do Futuro (Looper/EUA-China/2012) de  Rian Johnson com Joseph Gordon Levitt, Bruce Willis, Emily Blunt, Jeff Daniels, Pierce Gagon, Paul Dano e Noah Segan. ☻☻☻☻

FILMED+: Sr. Ninguém

Leto: vidas paralelas de um senhor de 118 anos. 

Se o protagonista de Sr. Ninguém fosse um super-herói com certeza ele seria o Dr. Manhatan de Watchmen. Não que ele tenha a pele azul ou ande sem roupa por aí, mas pela forma como o diretor belga Jaco Van Dormael constrói sua história misturando diferentes possiblidades - que podem ser interpretadas dentro da teoria de que existem dimensões variadas pautadas nas escolhas do protagonista. Mesmo que o diretor não facilite a vida dos espectadores acostumados ao mais simples feijão com arroz, é possível acompanhar com grande interesse as inúmeras possibilidades exploradas sobre a trajetória de Nemo Nobody (Jared Leto) no roteiro que caminha para possibilidades infinitas. Podem considerar o filme pretensioso, mas toda a sua ousadia poderia resultar num tedioso exercício de exibicionismo se não houvesse um forte conceito por trás de tudo. Esse conceito é de que a vida nos oferece inúmeras possibilidades e são as nossas escolhas que ditam seu rumo. Dito assim parece óbvio, mas o desenvolvimento da história mostra o que há de complexo nessa premissa, envolvendo conceitos de físicos, cosmológicos, metafísicos e filosóficos - caminhando do universo em expansão pós Big Bang até o universo em contração do  Big Crunch. Todas as histórias giram em torno de uma entrevista sobre a vida do último mortal de nosso planeta, Nemo Nobody, que está com 116 anos. Em 2092 uma espécie de reality show irá desvendar esse sujeito misterioso que está impossibilitado de viver mais por não fazer reposição celular constantemente e não possuir um porco com células tronco capazes de prolongar sua existência. Ao ser entrevistado, Nemo (Leto com surpreendente expressividade debaixo de pesada maquiagem e até mais confortável do que quando está sem ela) conta sua vida a um repórter (Daniel Mays), mas suas lembranças começam desde antes de seu nascimento (quando por negligência dos anjos ele acaba nascendo com o dom de prever o futuro e suas diversas possibilidades). A história de Nemo se complexifica a partir do momento em que os pais se divorciam e pedem para que escolha com quem deseja ficar. É neste ponto que o filme dispara os primeiros destinos possíveis, ou então, como Nemo conduziu sua vida em cada mundo paralelo existente. Em cada vida Nemo possui uma amada diferente, a depressiva Elise (Sarah Polley), a negligenciada Jean (Lihn Dan Pham) e a favorita Anna (Diane Kruger). Será que essas histórias realmente aconteceram? Será que tudo é fruto da mente secular de Nemo? Será que Nemo não consegue distinguir o que aconteceu do que gostaria que acontecesse? É essa estranheza, devidamente amparada pelas cenas geradas pela criatividade de Dormael, que torna o filme tão interessante. Existe um bocado de momentos tristes e felizes na trajetória de Nemo e o filme consegue equilibrar seus inúmeros elementos com sabedoria, mesmo que em alguns momentos o espetáculo visual pareça que vai descambar para a gratuidade vazia. O filme só não é perfeito por conta de uma parte bem próxima do final onde explora uma realidade onde todos usam roupas xadrez. Ao criticar essa vida padronizada o filme parece ridicularizar sua premissa em explicações que acabam diminuindo o poder de sua narrativa multifacetada - mas até este ponto o filme nos proporciona um instigante jogo de cenas para pensarmos nas possibilidades que temos diante de nós todos os dias. Parece confuso? Bem, não se pode misturar ficção científica com romance, física quântica e filosofia sem quebrar alguns neurônios - tarefa essa que Sr. Ninguém executa com grande vigor. Aos 53 anos, Jaco Van Dormael tem apenas três longas metragens no currículo, mas já foi premiado em Cannes e no Festival de Veneza, sendo um nome para ficar de olho!

Sr. Ninguém (Mr. Nobody/Canadá-2009) de Jaco Van Dormael com Jared Leto, Diane Kruger, Sarah Polley, Rhys Ifans, Juno Temple, Toby Regbo e Linh Dan Pham. ☻☻☻☻☻

KLÁSSIQO: Memórias

Charlotte Rampling: musa complicada nesta pérola de Woody Allen.

Eu consigo entender o motivo pelo qual a maioria das pessoas que assistem aos filmes recentes de Woody Allen não conseguem vê-lo como o gênio que os fãs mais antigos enxergam nele. Então, se todo mundo critica sua obra mais recente (Para Roma com Amor/2012) é bom catar um filme mais antigo do diretor, um dos mais inventivos como esse Memórias de 1980. É impressionante como o filme ainda apresenta um frescor que o torna atemporal ao explorar como funciona a imaginação de um cineasta. Allen interpreta a si mesmo na pele do diretor Sandy Bates, que está prestes a enfrentar um festival de cinema dedicado à sua obra - justamente quando os produtores encrencam com sua obra mais recente em que pretende ser mais sério do que engraçado. O festival é um prato cheio para Allen fazer graça de todo tipo de gente que orbita em torno de sua obra, de cinéfilos que buscam significados em cada detalhe em cena ("o que você acha que significava aquele carro?" "Acho que significava o carro dele!" "AAh") ou fãs dedicados que lhe oferecem a própria esposa, passando por críticos que o consideram genial enquanto outros o veem apenas como mais um artista pretensioso. Enquanto enfrenta essas situações triviais o diretor dá entrevistas impagáveis que mais parecem uma espécie de espetáculo de stand up comedy (como o momento em que nega ser narcisista, já que se existe algum equivalente à ele na mitologia grega, essa equivalência seria com Zeus). Não bastasse toda essa exposição, ele ainda tenta dar um jeito em sua vida amorosa. Se suas memórias são dedicadas à ex-mulher/atriz problemática (a francesa Charlotte Rampling linda e em ótima atuação) ele tem um caso complicado com Isobel (Marie Christine Barrault) que acaba de deixar o marido tendo os filhos na bagagem (acho hilária a cena em que a filha caçula parece espinafrar o amante da mãe sem que ele entenda uma palavra), mas ainda encontra tempo para flertar com uma musicista (Jessica Harper) que acaba de conhecer. Allen conduz seu filme numa narrativa livre, com um fio condutor muito simples que deixa espaço para que sua imaginação viaje sem amarras, sendo assim a realidade se mescla com perfeição a situações imaginadas e memórias sem aviso prévio  - é nesta proposta que acompanha um grupo de admiradores de alienígenas nas redondezas do festival (o que dá origem aos diálogos interplanetários mais insanos da história). Ainda assim, o filme conta com uma cena dramática memorável (aquela em que Charlotte Rampling repete uma cena exaustivamente até acertar o tom, sem exagero, sua personagem é uma uma das melhores criações femininas do cineasta). A seriedade da fotografia em preto e branco serve de excelente contraponto ao humor surreal que o filme apresenta, especialmente em sua última cena onde os atores parecem comentar a própria obra do diretor (com os pais dele se indagando como o filho pode ganhar dinheiro com essa bobagem). O longa está para Allen assim como Oito e Meio (1963) está Felini ou All That Jazz (1979) está para Bob Fosse, a diferença é que mesmo com tanta inventividade narrativa o filme é bastante despretensioso - o que pode ter colaborado para ter recebido menos destaque do que os filmes citados onde os autores olham explicitamente para si.

Memórias (Stardust Memories/EUA-1980) de Woody Allen com Woody Allen, Charlotte Rampling, Marie Christine Barrault, Jessica Harper, Daniel Stern e John Rothman. ☻☻☻

domingo, 14 de outubro de 2012

DVD: A Criança da Meia-Noite

Challal e Lindon: meio pai e filho. 

A Criança da Meia-Noite é o tipo de filme que exemplifica bem o olhar diferenciado que o cinema francês tem sobre seus personagens. Fosse feito em Hollywood, seus personagens provavelmente protagonizariam um melodrama sobre um garoto de 14 anos que não pode ser exposto aos raios UV. Ele seria um coitado vitimizado e o médio que cuida dele seria quase santificado em sua obstinação em ajudar o garoto a lidar com isso. Como se trata de um filme francês, a doença genética do menino serve de pano de fundo para contar sua intensa relação com o médico que o trata desde bebê. Um relacionamento que não é muito fácil, já que a o rapazinho vive o conflito de  lidar com a constante ameaça dos tumores que seu corpo produz ao mesmo tempo em que seus hormônios estão em crescente ebulição. Esse sentimento contraditório que nasce da curta expectativa de vida e os planos para o futuro fazem com que o jovem Romain (Quentin Challal) seja um tanto rude com as pessoas que estão ao seu redor. Curiosamente, seu médico, David (Vincent Lindon) também não prima pela simpatia - especialmente quando convidado para trabalhar na OMS e terá de conviver com uma substituta (Emmanuele Devos) mais jovem e inexperiente no trabalho com crianças com doenças semelhantes à de Romain. O filme da cineasta francesa Delphine Gleize pode causar estranhamento por sua opção de explorar os drama pessoais de seu personagem ao invés de aprofundar o caráter científico da trama, mas ainda assim, promete manter o interesse pela forma com que escancara a relação paternal existente entre David e Romain. Momentos em que conversam timidamente sobre sexo ou fazer a barba fazem a diferença na trajetória de um garoto abandonado pelo pai assim que este descobriu a rara anomalia de seu herdeiro. Pena que este conforto encontrado em David está com os dias contados, já que ele recebeu uma proposta de trabalho irrecusável. Gleize compensa com grande sensibilidade alguns tropeços de sua narrativa, mesmo sabendo conduzir as emoções de seus personagens quando elas não se mostram muito admiráveis há situações que poderiam ser melhor aproveitadas. Dentro dessa proposta, Vincent Lindon tem um momento notável como o médico envolvido emocionalmente com o paciente enquanto tem episódios de pura arrogância com a mulher que deverá substituí-lo na árdua tarefa. O pequeno Challal pode não ser brilhante, mas dá conta das emoções de seu personagem em momentos sensíveis como a cena em que se expõe a luz solar num misto de suicídio e destemor. É nesta necessidade de assumir riscos que Gleizer constrói seus heróis de carne e osso. Ah, claro, se fosse em Hollywood a esposa de David seria uma megera e ele acabaria tendo um caso com a substituta (ainda bem que trata-se de um filme francês). 

A Criança da Meia-Noite (La permission de Minuit/França-2011) de Delphine Gleize com Vincent Lindon, Quentin Challal, Emmanuele Devos e Caroline Proust. ☻☻☻