quinta-feira, 17 de abril de 2014

DVD: A Porta

Mads: nem sempre o passado é mais seguro. 

Existem filmes que dariam um ótimo episódio seriado Além da Imaginação, o dinamarquês A Porta é um desses. O filme funciona bem no seu misto de drama e suspense, conseguindo manter o interesse mesmo quando sua trama fica mais estapafúrdia. Tenho que ressaltar que ter no alto dos créditos um ator do porte de Mads Mikkelsen ajuda bastante a desbravar o filme. Ele encarna David, um artista plástico que coleciona amantes, apesar de ser casado e ter uma filha. David é um sujeito tão descarado que tem um caso até com a vizinha sem que a esposa desconfie. É por conta de um desses encontros secretos que ele deixa a filha sozinha em casa... e ela morre num acidente. Cinco anos se passam e vemos que David ainda não se recuperou da perda e da culpa que sente. Além disso, sua carreira foi pelo ralo, a esposa o deixou e resta a ele vagar por aí até que sua vida termine. Eis que numa dessas noites de depressão, David encontra uma caverna que revela-se uma espécie de fenda no tempo. Passando por ela, David retorna ao dia fatídico que mudou sua vida e consegue mudar o rumo das coisas ao salvar a filha do terrível acidente. O problema é que nem tudo são flores, já que, David encontra consigo mesmo no dia em que retorna ao passado e após uma briga acaba sendo o único David a existir (?!). Ficou confuso? A coisa piora depois. A filha dele observa que algo estranho aconteceu e resta a ele convencer a esposa (Jessica Schwarz) que tudo continua como antes. Baseado no livro de Akif Pirinçci, o roteiro de Jan Berger consegue ser bastante engenhoso ao não deixar claro ao espectador se tudo o que acontece é um delírio de David ou se realmente está acontecendo. Essa ambiguidade faz o que o filme tem de mais surreal funcionar amparado pelo desejo do espectador de mudar algo em seu passado, voltar a um ponto onde poderia mudar o rumo dos fatos e deixar tudo mais feliz, ou pelo menos, aparentemente. Na jornada de David pelo passado, ele ainda tem algumas coisas a acertar, já que seus casos extraconjugais ainda se mostram pedras no caminho de seu relacionamento com a esposa - que já precisava ser resgatado. Mads (que deve ter um dos rostos mais exóticos do cinema) consegue demarcar as emoções do personagem com precisão a cada transição do personagem, sempre deixando claro que ele esconde um doloroso segredo perante os que o cerca. O filme fica mais complicado quando a vida no passado é menos confortável do que parece, não apenas por conta das ações do protagonista, mas porque outras pessoas voltaram ao passado e precisaram se livrar de sua versão de cinco anos atrás - o que coloca em riscoa vida de todos, inclusive de sua esposa. Enquanto utiliza os dramas dos personagens para construir o suspense o filme funciona bem, quando começa a parecer um filme de terror com assassinatos e conspirações o filme perde um pouco do fôlego, se parecendo com vários outros do gênero, ainda assim, o filme comprova que a Dinamarca anda com uma cinematografia bastante interessante.

A Porta (Die Tür/Dinamarca-2009) de Anno Saul com Mads Mikkelsen, Jessica Schwarz, Tim Seyfi e Valeria Einsenbart. ☻☻☻

segunda-feira, 14 de abril de 2014

DVD: Uma Ladra sem Limites

Bateman e Melissa: frutos de uma dura transição. 

Ainda que hoje pareça que não existe tanto preconceito do artista que transita do cinema para a televisão, o inverso ainda não é tão evidente. A TV está aberta para astros do porte de Woody Harrelson, Kevin Bacon, Matthew McConaughey e Al Pacino, mas o cinema ainda resiste em abrigar os talentos da telinha. É verdade que existem artistas que dão sorte e conseguem uma transição tranquila de uma mídia para outra, já outros nem tanto. A comédia Uma Ladra Sem Limites  traz dois exemplos do árduo processo de ganhar a vida na tela grande: Jason Bateman e Melissa McCarthy. Bateman ficou famoso com a elogiada série Arrested Development, que em 2013 foi ressuscitada. Jason está sempre fazendo filmes, mas  seus papéis são sempre muito parecidos, ou seja, conseguiu fincar um tipo entre os produtores de Hollywood e quando conseguir subvertê-lo irá surpreender e ganhar prêmios. O difícil é conseguir sair da camisa de força que é o estereótipo no cinema... já McCarthy deu mais sorte, depois de utilizar seu tipo rechonchudo para construir personagens adoráveis na televisão (como em Gilmore Girls ou em Mike & Molly), no cinema ela prefere investir em personagens diferentes do que a TV gosta de apresentá-la. Foi assim que ela conseguiu vaga nas premiações como a madrinha abrutalhada de Missão Madrinha de Casamento (2011) e tem ganho o pão em produções como essa. Melissa tem se mostrado ótima em construir tipos diferentes para si e aqui ela se torna a maior graça de um filme que estica sua única piada ao limite. Sandy Patterson (Bateman) é o cara certinho que descobre que seu nome está manchado por conta da ação de um ladrão que clonou sua identidade - e o fato de ter um nome unissex facilita ainda mais a empreitada. Diante da burocracia da ação da polícia ele só poderá tomar alguma providência depois que cassar o estelionatário por sua própria conta e risco. É assim que ele encontra uma vigarista (McCarthy) que acostumou-se a ganhar a vida contraindo dívidas através de identidades falsas. Apesar a habilidade habitual de Jason, é Melissa que garante as risadas em cenas absurdas e até sórdidas (a noite no motel com um convidado especial da série Modern Familly é bastante estranha). Ainda que o roteiro saiba explorar a situação com tudo que ela pode proporcionar de absurdo no início, aos poucos o filme humaniza sua vilã e a mostra quase como uma vítima do sistema. Fosse feito nos anos 1980, Uma Ladra Sem Limites poderia ser uma diversão ainda mais radical com a disposição que sua atriz tem para arrancar gargalhadas da plateia. Conforme caminha para seu final previsível após a constante perseguição que vitima seus protagonistas (o casal é perseguido por assassinos profissionais), o filme perde um pouco do ritmo. No entanto, Melissa deixa claro que tem  um lugar garantido para ela em comédias despretensiosas na telinha ou na telona. 

Uma Ladra Sem Limites (Identity Thief/EUA-2013) de Seth Gordon com Melissa McCarthy, Jason Bateman e Robert Patrick. ☻☻

MTV MOVIE AWARDS 2014

Josh, Liz e J.Law: redimindo o Movie Awards.

Parece que o MTV Movie Awards voltou aos eixos. Depois de uma temporada destacando o que Hollywood fazia de pior para o público jovem, parece que o púbico do canal se renovou e começaram a escolher melhor. Há que se considerar que os candidatos ao melhor do ano melhoraram consideravelmente! O fato de ter indicados ao Oscar em várias categorias, só ressalta que a temporada 2013 também foi de grandes sucessos que agradaram público e crítica. É verdade que Jogos Vorazes - Em Chamas foi o grande vencedor da noite, mas ver entre os indicados artistas consagrados (além de Joan Rivers e William B. Jordan) e ideias bem sacadas como a categoria Melhor Transformação  e colocar Zac Efron em seu devido lugar prêmio, mostram que a premiação mais descolada do cinema voltou a ter estilo e bom senso (apesar do prêmio recebido por Rihanna). A seguir os ganhadores e os seus respectivos concorrentes:

Melhor Filme
Jogos Vorazes – Em Chamas
(12 Anos de Escravidão - Trapaça - O Hobbit: A Desolação de Smaug -  Lobo de Wall Street)

Melhor Ator
 Josh Hutcherson / Jogos Vorazes – Em Chamas
(Bradley Cooper/Trapaça - Chiwetel Ejiofor/12 Anos de Escravidão - Leonardo DiCaprio/O Lobo de Wall Street - Matthew McConaughey/Clube de Compras Dallas)

 Melhor Atriz
Jennifer Lawrence / Jogos Vorazes – Em Chamas
(Amy Adams/Trapaça - Jennifer Aniston/Família do Bagulho - Lupita Nyong’o/12 Anos de Escravidão - Sandra Bullock/ por Gravidade)

Maior Revelação
Will Poulter / Família do Bagulho
 (Liam James/O Verão da Minha Vida - Margot Robbie/O Lobo de Wall Street - Michael B. Jordan /Fruitvale Station: A Última Parada - Miles Teller/The Spectacular Now)
  
Melhor Aparição sem Camisa
Zac Efron / Namoro ou Liberdade
 (Chris Hemsworth/Thor: O Mundo Sombrio - Jennifer Aniston/Família do Bagulho - Leonardo DiCaprio/O Lobo de Wall Street - Sam Claflin/Jogos Vorazes – Em Chamas)
  
Melhor Luta
Orlando Bloom e Evangeline Lilly vs. Orcs / O Hobbit: A Desolação de Smaug
 (Jason Bateman vs. Melissa McCarthy/Uma Ladra Sem Limites - Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson e Sam Claflin vs. Macacos Mutantes/Jogos Vorazes – Em Chamas / Jonah Hill vs. James Franco e Seth Rogen / É o Fim  - O elenco de Tudo Por um Furo)

Melhor Beijo
Emma Roberts, Jennifer Aniston e Will Poulter, por Família do Bagulho 
(Ashley Benson, James Franco e Vanessa Hudgens/Spring Breakers – Garotas Perigosas -  Jennifer Lawrence e Amy Adams/Trapaça - Joseph Gordon-Levitt e Scarlett Johansson / Como Não Perder Essa Mulher - Shailene Woodley e Miles Teller / The Spectacular Now)
  
Melhor Vilão
Mila Kunis, por Oz, Mágico e Poderoso
(Barkhad Abdi / Capitão Phillips -  Benedict Cumberbatch/Além da Escuridão - Donald Sutherland/Jogos Vorazes – Em Chamas - Michael Fassbender/12 Anos de Escravidão
  
Melhor Momento Musical
 Backstreet Boys, Jay Baruchel, Seth Rogen e Craig Robinson/É o Fim
(Jennifer Lawrence/Trapaça - Leonardo DiCaprio/O Lobo de Wall Street - Melissa McCarthy/Uma Ladra Sem Limites - Will Poulter/Família do Bagulho) 

Melhor Perfomance Cômica
Jonah Hill/O Lobo de Wall Street
(Jason Sudeikis/Família do Bagulho - Johnny Knoxville/Vovô sem Vergonha - Kevin Hart/Ride Along - Melissa McCarthy/As Bem-Armadas)

Melhor Transformação em Tela
Jared Leto/Clube de Compras Dallas
(Christian Bale/Trapaça - Elizabeth Banks/Jogos Vorazes – Em Chamas - Matthew McConaughey/ Clube de Compras Dallas - Orlando Bloom/O Hobbit: A Desolação de Smaug)
  
Melhor Participação Especial
Rihanna/É o Fim
(Robert De Niro/Trapaça - Amy Poehler e Tina Fey/Tudo Por Um Furo - Kanye West /Tudo Por Um Furo - Joan Rivers/Homem de Ferro 3)

domingo, 13 de abril de 2014

Combo: O Evangelho Segundo a Discórdia

Com Noé colocando a tolerância dos religiosos para ferver não há como não lembrar de outros filmes que deram o que falar ao abordar personagens religiosos. Em 2014 parece que filmes religiosos estão em alta, depois de Russell Crowe construir a arca sob a batuta de Darren Aronofsky, em breve, Christian Bale irá guiar os hebreus rumo à terra prometida em Exodus, novo longa de Ridley Scott. Bale já interpretou Jesus num filme para a TV em 1999 e em dezembro chegará às telas na pele de Moisés. Será que a polêmica irá prejudicar suas investidas na temporada de ouro? A seguir cinco filme que ficaram famosos pelas polêmicas e bilheterias milionárias. 

05 O Código DaVinci (2006) Esse deve ser o filme mais insosso da lista, sempre fico pensando qual seria o tamanho de seu sucesso se não fosse toda a polêmica que ronda o livro de Dan Brown. O filme risca a trilha de pólvora com a premissa de que Jesus Cristo tinha um caso com Maria Madalena e deixou sua descendência sobre a Terra. O problema é que a narrativa cheia de segredos, suspeitas e tiro n'água de Brown pode até funcionar num livro, mas num longa metragem tudo soa covarde demais. Apesar da bilheteria abençoada,  o diretor Ron Howard, o astro Tom Hanks (na pele do pesquisador Robert Langdon) e a francesa Audrey Tautou ainda não se recuperaram desse pastel de vento em suas carreiras. 

04 Jesus Cristo Superstar (1973) Baseado no álbum conceitual de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, além do motivador sucesso na Broadway, o filme de Norman Jewison conta os últimos dias da vida de Cristo (vivido por Ted Neeley) de uma forma anacrônica através dos olhos de Judas (Carl Anderson). Lançado em 1973, o filme ambienta a jornada de Cristo por Jerusalém até sua crucificação em meio a gírias, alusões políticas e comportamentais da época em que a cultura hippie estava no auge. Quem embarcou na brincadeira gostou da ideia, mas a ambiguidade em torno de Cristo não agradou muita gente - ainda assim o filme ganhou aura cult com o passar dos anos. 

03 A Paixão de Cristo (2004) Não são poucos os que consideram que o diretor Mel Gibson exagerou nas tintas violentas ao contar a passagem bíblica nas telonas. Se Gibson radicalizou ao fazer seu elenco falar em aramaico, a coisa ficou mais pesada com a violência realista empregada no filme. Jim Caviezel está mais do que convincente na pele de Jesus, talvez por isso cada chibatada, jorro de sangue ou pedaço de pele que solta de seu corpo doeu ainda mais na plateia. O Evangelho Hardcore de Mel Gibson faturou milhões ao redor do mundo, mas deixou muita gente chocada com o tom agressivamente épico de sua narrativa. 

02 A Vida de Brian (1979) A mistura de comédia com religião costuma ser explosiva, mas o grupo Monty Python foi esperto ao contar a história de um homem judeu chamado Brian Cohen (Graham Chapman) que nasceu no dia de Natal e se alia a grupos de luta contra os romanos... e que é confundido com Jesus! Considerado o Messias ele é perseguido, cultuado e crucificado. O tom de palhaçada não evitou que os mais conservadores vissem no filme uma grande blasfêmia (ainda que a vida de Brian fosse mostrada paralelamente à vida do verdadeiro Messias). Ainda assim, o filme é considerado um dos melhores longas de todos os tempos. 

01 A Última Tentação de Cristo (1988) Se você achava que a história do affair entre Cristo e Madalena é uma novidade, você precisa conhecer este polêmico filme de Martin Scorsese que humaniza a história do Messias. Apresentando Cristo como um homem de inseguranças, desejos e falhas, o longa mexeu num verdadeiro vespeiro. Apesar de lançado em 1988, a trama foi escrita em 1951 pelo grego Nikos Kazantzákis num controverso romance. Willem Dafoe encarna Jesus, Barbara Hershey era a tentadora Madalena (pelo papel, Hershey foi indicada ao Globo de Ouro) e Harvey Keitel encarna Judas. Apesar de tanta polêmica, Scorsese faz um filme solene e até respeitoso que lhe rendeu a única indicação do filme ao Oscar: melhor diretor. Mexe com quem tá quieto...

Na Tela: Noé

Lerman e Crowe: Salvando o que restou de um mundo corrompido. 

Quem conhece o trabalho de Darren Aronofsky jamais pensaria que ele faria um filme bíblico tal e qual o grande público espera. Por isso, é bom deixarmos a "surpresa" pelo resultado de Noé para os não iniciados à cinematografia do homem que já dirigiu Réquiem para Um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010). É verdade que Darren parece voltar aqui para as suas intenções no espinafrado (e bastante interessante) Fonte da Vida (2006), mas toda a embalagem e expectativa nos fazem acreditar que trata-se mais do que um filme bíblico, mas um verdadeiro blockbuster. Na verdade o filme tem a intenção de ser mais do que um filme religioso (talvez só o seu início que engana a maioria dos desavisados), trata-se de uma alegoria épica sobre problemas bastante contemporâneos, onde uma humanidade desgovernada não pensa muito na forma como explora as reservas naturais de onde vive, tão pouco as relações com os outros de sua espécie. Existe um forte jogo de poder entre os personagens, seja motivado por motivos mundanos ou de fanatismo religioso - é justamente nesse embate que o filme se sustenta em seus melhores momentos. Apesar das citações religiosas em seus filmes anteriores (seja o judaísmo na estreia em Pi/1998, crenças maias ou cristãs em Fonte da Vida/2006 ), descobri recentemente que Aronofsky é ateu, o que só ressalta a curiosidade e distanciamento na abordagem dessas temáticas. Noé trata do famoso trecho bíblico que conta a missão do personagem (vivido com gana por Russell Crowe) que recebe uma missão do Criador:  construir uma arca para abrigar casais de animais que precisam ser salvos diante de um grande dilúvio que irá destruir a humanidade corrompida. Vendo a terra sem vida, devastada pela ação predatória do homem é fácil perceber que faz tempo que a humanidade parou de zelar pela sua casa. As relações humanas ásperas propagadas pelos descendentes de Caim também justificariam a infelicidade do Criador perante a criatura que era para ser sua imagem e semelhança. A trama se aproxima e afasta da história que conhecemos por diversos momentos, investindo nos dilemas do protagonista perante a missão e investindo em algumas liberdades. Para aumentar a tensão na familia de Noé, o roteiro retira as noras de cena, deixando que o protagonista tenha a companhia da esposa Nameeh (uma inspirada Jennifer Connelly), dos filhos Shem (Douglas Booth), Cam (um eficiente Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll). As noras de Noé, foram substituídas por Illa (a cada vez melhor Emma Watson), filha adotiva histéril do patriarca. Quando o fim do mundo é anunciado, o maior medo de Naameh é que seus filhos não possam ter a chance ter esposas e filhos. Quanto à isso, Noé sente uma certa resignação que só aumenta o contexto para alguns dos momentos mais polêmicos do filme - já que o salvador dos animais não perceber que sua missão seja salvar a espécie que corrompeu a obra do criador (fato que pode levá-lo a tornar sua missão ainda mais dolorosa e afastá-lo para sempre de sua família). Aronofsky lida bem com os traços mais sombrios do roteiro escrito por ele e Ari Handel (baseado na Bíblia e textos antigos como os Pergaminhos do Mar Morto, O Livro de Enoque e o Livro dos Jubileus), mas destoa quando escancara o tom de fantasia usando o ancestral de Noé, Matusalém (um preguiçoso Anthony Hopkins) e a ajuda dos anjos caídos (castigados por Deus e transformados em gigantes de pedra). No entanto, Darren consegue criar um universo bastante harmônico ancorado num período de milagres e intervenções divinas bem demarcadas. Outro aspecto que desperta polêmica é a presença do vilão Tubal-Cain (Ray Winstone), que é mostrado sem muitas nuances, mas que cita pensamentos bastante atuais sobre a forma como o homem lida com o mundo em sociedade. Apesar de todas as críticas, o filme consegue se equilibrar entre a provocação e o respeito aos textos religiosos, prova disso são as belíssimas cenas da construção do mundo em sete dias (destaque para a colagem multifacetadas de Cains matando Abéis, ontem e hoje...), a vinda dos animais para a Arca e o próprio dilúvio, mostrado com todo o horror do povo que desejava ser salvo da inundação. O filme deve se tornar um sucesso mundial  e consolidar Darren como um dos diretores mais talentosos do cinema atual (ainda que eu considere que são nos momentos mais pesadelescos que sua mão se torne mais plena de bilhantismo). Noé mostra-se o passo seguinte (muito melhor do que seria ter quebrado o galho para o amigo Hugh Jackman dirigindo o pífio Wolverine 2 no ano passado), vale lembrar que antes o diretor fizera um indie de 13 milhões (Cisne Negro) que  arrecadou mais de 250 milhões pelo mundo, foi multi-indicado ao Oscar e levou um para casa. Nos 138 minutos da saga claustrofóbica da Arca, posso perceber o quanto custou para o diretor embarcar em sua primeira super-produção, cada tropeço da narrativa, cada ousadia, cada nó ou personagem com (ou sem) tridimensionalidade, transborda as angústias de Darren para completar sua missão de diretor autoral dentro da caixinha de um grande estúdio. O fato é que Noé funciona dentro das intenções do diretor (trabalhar personagens numa situação limite - uma obsessão em sua cinematografia) e merece ser visto como uma releitura de uma História antiga, capaz de refletir muito do mundo atual. 

Meo, Connely, Booth e Emma: a subjetiva leitura dos milagres do criador.

Noé (Noah/EUA-2014) de Darren Aronofsky com Russell Crowe, Jennifer Connelly, Emma Watson, Logan Lerman, Ray Winstone, Anthony Hopkins e Douglas Booth. ☻☻☻☻

segunda-feira, 7 de abril de 2014

The Hannibal Lecter Collection.

Hannibal: Lecter encontra uma Clarice diferente. 

Depois de O Silêncio dos Inocentes ter se tornado uma obra prima, obviamente que todo mundo queria ver (e lucrar) mais um pouco com o personagem canibal Hannibal Lecter (personificado com perfeição por Anthony Hopkins no filme de 1991), a começar pelo criador do personagem, Thomas Harris. Harris havia criado Dr. Lecter para ser coadjuvante em uma série de livros policiais. O primeiro deles era Dragão Vermelho, que publicado em 1981 virou filme dirigido por Michael Mann cinco anos depois. Sob o nome de Manhunter o filme não empolgou nas bilheterias, ainda que contasse com um elenco eficiente, a começar por Brian Cox que vivia o canibal que auxiliava o FBI em investigações (que no filme era chamado de Lektor), mas que tinha lá suas pendengas com o agente especial Will Graham (William Petersen). Independente da repercussão do filme, Harris utilizou Lecter posteriormente no sucesso editorial O Silêncio dos Inocentes, que chegou às livrarias em 1988. Hollywood ficou de olho no potencial do livro e resolveu passar a borracha no filme anterior e criar um universo próprio para a nova obra. Nascia um clássico do cinema, que dita referências para os filmes e séries de suspense até hoje. Com a consagração de Lecter e a agente Clarice (imortalizada por Jodie Foster nas telonas), Harris buscou inspiração para criar um livro que abordasse as entranhas de um dos maiores vilões do cinema. Assim, foi lançado em 1999 o aguardado livro Hannibal. Para quem esperou tanto tempo, a obra mostrou-se decepcionante. Talvez por estar fascinado pelo seu personagem, Harris foi criticado pelas descrições indigestas e a agressividade presente em seu novo livro. Desde o início começou a ser anunciada uma continuação para o sucesso de 1991, mas, diante do conteúdo da nova obra, Jonathan Demme e Jodie Foster não se mostraram interessados a se envolver. Hollywood se viu com um abacaxi nas mãos e convidou Ridley Scott (que anunciava seu retorno ao topo com Gladiador/2000) para dirigi-lo. Com Hopkins dentro do projeto, restava encontrar uma atriz à altura do desempenho colossal de Jodie. O convite foi para Julianne Moore. O resultado chegou aos cinemas em 2001 coberto de expectativas e disposição de gerar bilheterias milionárias. A bilheteria não decepcionou, mas quem esperava um filme à altura do anterior teve que se contentar com uma trama mal costurada e de gosto duvidoso. 

Dragão Vermelho: hora de reciclar. 

Enquanto Hopkins tentava dominar o personagem, sua colega de elenco tinha que dar conta de uma Clarice endurecida e com menos nuances que a anterior. Essa diferença até que convence na mudança física da agente, que se mostra mais cansada com um FBI burocratizado e massacrante  - enquanto Lecter é considerado um dos dez assassinos mais perigosos do mundo. Lecter e Starling tem poucas cenas juntos e sobram cenas grotescas com vísceras e cérebro à mostra enquanto um vilão mal explicado (vivido por Gary Oldman) quer se vingar há tempos do amigo canibal. Longe de ser memorável, o filme serviu apenas para reencontrar os personagens anos depois, o problema é que o passar do tempo lhes fez muito mal. O problema da franquia estava instalado! O próprio autor, o cinema e o público (que deu a Hannibal uma bilheteria maior que o filme anterior) entenderam que esse era o mundo do personagem, com muito sangue e carnificina, deixando para trás o que era mais bacana: o jogo psicológico traiçoeiro entre os personagens e o público. Cientes de que o filme havia passado dos limites, mas sedentos de bilheteria robustas, convidaram Brett Ratner para baixar o tom na refilmagem de Manhunter, agora devidamente batizado de Dragão Vermelho - tal e qual o livro que lhe deu origem. Lançado em 2002, Dragão Vermelho fez sucesso, ainda que modesto se comparado aos filmes anteriores. Lecter voltava a ser coadjuvante e Will Graham (agora vivido por Edward Norton) vivia uma espécie de Clarice Starling de calças que precisava lidar com suas pendengas pessoais com o canibal enquanto buscava o assassino do título (vivido por Ralph Fiennes). Apoiado por um bom elenco (que ainda contava com Emily Watson e Harvey Keitel), Dragão Vermelho era um filme modesto, mas que consegue entreter o público melhor do que a versão anterior do livro. Apesar disso, os fãs percebiam que nenhum outro filme conseguiria chegar ao nível de O Silêncio dos Inocentes. Assim, Anthony Hopkins disse não voltar  a personificar o famoso personagem. Diante disso, os fãs mais ferrenhos queriam mais Hannibal em cena e Thomas Harris teve a brilhante ideia de voltar à juventude do psiquiatra erudito e psicótico. Lançado em 2006, o livro Hannibal Rising, contava a infância e adolescência do personagem. Assim sabemos que o personagem enfrentou os horrores dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial na Lituânia, perdendo os pais na guerra e a irmã caçula num ataque de soldados canibais (?!). Hannibal cresce e busca vingança, torna-se estudante de medicina e se envolve com a viúva oriental de seu tio. 

A Origem do Mal: Hannibal meio francês.

Se a história já parecia perder de vista o personagem que conheciamos, a coisa ficou mais complicada quando escolheram o francês Gaspard Ulliel para viver o personagem no cinema na versão lançada em 2007. Diante de nenhuma semelhança de Ulliel com Hopkins o filme parecia anunciar um reinício para o personagem. A fraca atuação de Ulliel só evidencia como Harris perdeu o poder sobre o personagem, já que ao invés de ser um dos vilões mais celebrados do cinema, Hannibal torna-se quase um herói numa trama estapafúrdia. Nem podemos culpar o diretor Peter Webber que tinha pouco a fazer com a trama desengonçada. Diante da decepção geral de público e crítica, o personagem parecia engavetado por um bom tempo. Em 2013 os detentores dos direitos do personagem perceberam que não podiam deixar um sujeito tão interessante de lado e lançaram a série Hannibal, que aos poucos encontra o tom mais acertado do que as últimas produções do canibal na telona. 

Manhunter - Caçador de Assassinos (EUA-1986) de Michael Mann com William Petersen, Brian Cox, Kim Greist, Joan Allen e Stephen Lang. 
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O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs) de Jonathan Demme com Anthony Hopkins, Jodie Foster, Scott Glenn e Ted Levine. 
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Hannibal (EUA-2001) de Ridley Scott com Anthony Hopkins, Julianne Moore, Ray Liotta e Gary Oldman. 
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Dragão Vermelho (Red Dragon - EUA/2002) de Brett Ratner com Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson e Anthony Hopkins. 
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Hannibal - A Origem do Mal (Hannibal Rising/EUA-2007) de Peter Webber com Garspard Ulliel, Gong Li e Rhys Iphans. ☻

Cox, Hopkins, Ulliel e Mikkelsen: as faces do mal. 

domingo, 6 de abril de 2014

FILMED+: O Silêncio dos Inocentes

Lecter: a personificação erudita do mal. 

Pode parecer exagero, mas quando O Silêncio dos Inocentes chegava aos cinemas em 14 de fevereiro de 1991, uma pequena revolução no cinema se anunciava. Se levarmos em consideração que o filme de Johnatan Demme permaneceria na memória de muita gente até o Oscar de 1992 a importância estilística do filme fica ainda mais evidente, já que O Silêncio é um dos três filmes na história do cinema que ganharam os cinco principais prêmios da Academia (Filme, diretor, ator, atriz e roteiro), os outros dois foram Aconteceu Naquela Noite/1934 e Um Estranho no Ninho/1975. Baseado no romance de Thomas Harris o filme é capaz de causar arrepios - o que já está provado que se deve principalmente à direção nada afetada de Demme (que passa boa parte do filme sugerindo uma crueldade - que quando aparece é arrebatadora). Existem ainda um trunfo poderoso na produção: a química entre o casal Anthony Hopkins e Jodie Foster. Não por acaso, a carreira de Anthony pode ser dividida em antes e depois de sua personificação de Dr. Lecter, já que, apesar do talento, ele nunca chegou a ser astro antes de viver o canibal mais célebre do cinema. Na pele de Hannibal Lecter, a intensidade de Hopkins permanece até quando ele não está em cena (e se você cronometrar, verá que ele aparece apenas por uns 15 minutos - o que torna sua atuação ainda mais impressionante).  O caminho de Lecter cruza com o da novata agente do FBI Clarice Starling quando ela  é convidada a auxiliar na captura do criminoso Buffalo Bill (Ted Levine que ficou famoso anos depois como o Stottlemeyer da série Monk). Starling deverá entrar em contato com um prisioneiro ardiloso, conhecido como Hannibal "O Canibal", ou, formalmente, Dr. Lecter. Lecter era um renomado psiquiatra que colaborava em investigações do FBI, até descobrirem que se tratava de um psicopata obcecado por saborear a carne humana. O mais interessante é como no decorrer do filme, percebemos que Demme dedica-se mais a explorar o estranho fascínio que o casal protagonista possui um pelo outro. Enquanto Lecter possui olhos capazes de ler (e confundir) a alma de quem se aproxima, Clarice, com sua inexperiência, parece uma presa fácil demais para ele. No entanto, as virtudes da personagem chamam a atenção de Lecter estabelecendo um jogo sedutor de atração e repulsa entre os dois. O filme torna-se ainda mais interessante conforme a relação entre os dois se intensifica e algumas surpresas acontecem. Anthony Hopkins criou um ser tão arrepiante que foi considerado um dos melhores vilões do cinema. Aqui ele consegue fazer com que o personagem não caia no ridículo nem em seus momentos mais grotescos. Já Jodie (renascida das cinzas com o Oscar por Acusados/1988 e celebrada por sua estreia na direção com Mentes que Brilham lançado no mesmo ano) está não menos magistral como a jovem agente que parece prestes a cair em tentação. No jogo instigante que se instala entre os dois personagens, repleto de dicotomias, o público perde o fôlego na atmosfera claustrofóbica criada pelo diretor. A atmosfera do filme inspirou produções como a série Arquivo X (1993-2002) e filmes celebrados como Sev7en (1995), mas nenhuma delas alcançou o surpreendente nível de perfeição do filme de Johnatan Demme (que fazia carreira dirigindo comédias até ali). Curioso imaginar que Hannibal já havia aparecido nos cinemas no pouco visto Caçador de Assassinos (1986) de Michael Mann (só que chamando-se Lektor e com a cara de Bryan Cox) que depois do sucesso e Hopkins ganhou uma refilmagem em 2002 (com o título de Dragão Vermelho). O filme ainda se consagrou como o único filme de terror a ser eleito o melhor filme no Oscar. Ainda hoje o filme que custou 19 milhões de dólares e arrecadou quase 300 milhões ao redor do mundo) é um exemplo de eficiência cinematográfica, pena que nenhuma das outras produções envolvendo seu universo tenha alcançado o mesmo resultado (mas é até uma covardia comparar). 

Clarice: um anjo prestes a cair?

O Silêncio dos Inocentes (The Silence  of the Lambs/EUA-1991) de Jonathan Demme com Anthony Hopkins, Jodie Foster, Ted Levine, Scott Glenn, Chris Isaak e Diane Baker. ☻☻☻☻☻

sábado, 5 de abril de 2014

NªTV: Bates Motel x Hannibal

Freddie e Vera: Acertando desde o início. 

É interessante como duas produções inspiradas no passado de dois dos maiores psicopatas da história do cinema tenham chegado quase ao mesmo tempo na TV e, por consequência, têm a sempre complicada segunda temporada para mostrar se possuem fôlego para honrar os ícones que se imortalizaram no cinema. Entre Bates Motel (que explora a adolescência do célebre Norman Bates do clássico Psicose/1960) e Hannibal (que desbrava o passado do não menos famoso Doutor Lecter, famoso por sua inteligência, erudição e canibalismo). O curioso é que eu imaginava que em seu ano de estreia Bates Motel era o que tinha a tarefa mais complicada, afinal, está vinculada a uma das obras mais famosas de Alfred Hitchcock - que baseado na obra de Robert Bloch já tinha a sua cota de comparações e polêmicas a superar. A tarefa de Hannibal me parecia menos complicada, já que os fãs garantiriam a audiência e o dinamarquês Mads Mikkelsen já era por si só uma figura interessante para substituir a imagem criada por Anthony Hopkins. As séries trazem o passado dos personagens para os dias atuais e apresentam nuances interessantes quando já estavam com a psiquê indo ladeira abaixo. Bates Motel acabou agradando mais rápido com a atuação de Freddie Highmore (que já foi o  adorável moleque da versão de Tim Burton para A Fantástica Fábrica de Chocolate/2005 e hoje brinca com seu visual insosso), mostrando as duas faces de Norman. No entanto, enquanto Highmore tenta encontrar o tom do personagem e das mudanças que atravessa aos 16 anos - com seu contato com as meninas da escola, com a obsessão pela mãe e a presença de um irmão rebelde -, quem rouba a cena é Vera Famiga na pele de Norma Bates. Farmiga estava excepcional na primeira temporada (que lhe valeu indicação ao Emmy de Melhor atriz), fato que deve lhe conferir ainda mais destaque na segunda temporada. A atriz acerta na medida na construção da mulher vigorosa que assombrará Norman para sempre. Os criadores Carlton Cuse, Kerry Ehrin e Anthony Cipriano imprimiram uma narrativa pausada, lenta que revela aos poucos os personagens e a estranha influência que os segredos da cidade de White Pine Bay tem sobre a vida de Norman. Ao longo da temporada vimos o que o garoto tinha de sombrio e vulnerável, sendo que ao final da primeira temporada o comprometimento psicológico de Norman começa a aparecer, especialmente na cena final que marcou o nascimento de um monstro. A série utiliza muitos signos que estiveram presentes em Twin Peaks e conseguiu três milhões de espectadores em sua primeira temporada de dez episódios. Com a audiência que alcança pessoas de 18 aos 49 anos, a série espantou as suspeitas que pairavam depois do fracasso do remake de Gus Van Sant para o clássico de Hitchcock. A segunda temporada (que estreou nos EUA no dia 2 de março) mostra a obsessão de Norman com a morte de uma professora, o aumento dos conflitos entre os criminosos da cidade, além das novas tentativas de Noirma para salvar seu motel à beira da estrada (que está ameaçada pela construção de uma rodovia). Apesar das críticas favoráveis, a segunda temporada ainda não tem data para estrear no Brasil (a primeira foi exibida pelo Universal Chanel, enquanto nos EUA era exibida e produzida pelo canal A&E). 

Norman e Hannibal: aparentemente inofensivos. 

Enquanto as coisas já estreavam nos trilhos com Norman Bates, a história de Hannibal Lecter na TV foi mais complicada. Lecter ficou famoso no cinema com o espetacular O Silêncio dos Inocentes (1991) e depois apareceu em outras produções que apostavam justamente no oposto do filme de Johnatan Demme. Enquanto Demme investia em climas sutis e assustadores, os seguintes preferiram investir em tudo que o personagem evocava de grotesco. O fim do circo de horrores veio com a prequel fracassada Hannibal  - A Origem do Mal (2007) sobre a juventude (improvável) do personagem. Hollywood viu que acabara com a carreira de Lecter no cinema. Restava a televisão. O criador Bryan Fuller resolveu levar o personagem para um período pouco anterior ao seu livro de estreia (Dragão Vermelho de Thomas Harris), especificamente ao momento em que Hannibal conhece o investigador especial do FBI Will Graham. Nos cinemas o livro recebeu uma adaptação em que Edward Norton dava vida a Graham. Na telinha o personagem se tornou mais complexo e desafiador para Hugh Dancy, que recebe até mais destaque do que o personagem título. Will torna-se uma espécie de brinquedo psicológico de Hannibal Lecter, quando este ainda era colaborador do FBI. Dancy consegue dar conta dos tormentos de seu personagem - que se perde nas emoções dos assassinos que tenta compreender. Sua habilidade gera um colapso quando uma grava doença afeta seu cérebro. Apesar do destaque dado a Dancy, Mads tem a presença que já o consagrou como um dos melhores atores da Europa. Sua frieza em cena é magistral e sempre deixa claro que é ele que está no domínio dos personagens e das situações. Ainda que a série se aproprie de algumas ideias da finada série Dexter (2006-2013), Hannibal penou em sua primeira temporada por demorar para engrenar. Preocupava-se mais com as crueldades elaboradas na cena dos crimes do que com os personagens ricos que tinha em mãos. Sendo assim, somente próximo do final da temporada de treze episódios, tivemos a ideia da dimensão do nocivo relacionamento que havia entre os personagens. Sorte que na segunda temporada, com os personagens devidamente apresentados e com Will sendo suspeito de vários crimes, a série parece ter encontrado seu rumo. Os crimes grotescos permanecem (ok, entendo que muitos fãs do personagem curtem isso), mas a preocupação maior está no jogo que Lecter construiu e que em breve irá se virar contra ele. Criticado por não utilizar a trama de Dragão Vermelho, Fuller revelou que a trama será utilizada na terceira temporada da série e, confiante do sucesso, pensa até na quinta temporada em que Lecter finalmente conhecerá a agente Clarice Starling (imortalizada por Jodie Foster). Nada contra ambições e pretensões, mas no lugar dele eu continuaria de olhos bem abertos para deixar a segunda temporada tão boa quanto ela promete nos episódios que já foram ao ar pelo canal AXN aqui no Brasil. A série ficou na berlinda ao final de sua primeira temporada, já que a audiência não atingiu as expectativas da NBC, mas vários canais estavam interessados em dar prosseguimento à atração se a NBC desistisse da empreitada. Sorte que a NBC percebeu que a série estava encontrando o rumo. Podando os excessos carniceiros da estreia, Hannibal mostra que está entrando nos trilhos e não vejo a hora de Mads revelar o quão sórdido seu personagem é debaixo de toda a casca erudita que ostenta. 

Dancy (esq.) e Mads (dir.): encontrando o rumo. 

Bates Motel (2013-2014) de Carlton Cuse, Kerry Ehrin e Anthony Cipriano, com Vera Farmiga, Freddie Highmore, Max Thieriot e Olivia Cooke. ☻☻☻☻

Hannibal (2013-2014) de Bryan Fuller, com Mads Mikkelsen, Hugh Dancy, Caroline Dhavernas, Laurence Fishburne e Gillian Anderson. ☻☻☻

MOMENTO ROB GORDON: Lollapalooza & Cinema

É difícil ignorar completamente o maior festival de rock no Brasil, mesmo quando o assunto é cinema. Para ressaltar a ligação dos artistas do festival com a sétima arte, preparei essa lista:

05 Julian Casablancas
Apesar da carreira de Julian fora dos Strokes nunca vingar como deveria ele está no Lollapalooza. A maior ligação do cantor com o cinema é sua amizade com o diretor Roman Coppola (filho do Francis Ford, irmão de Sofia, sobrinho de Talia Shire, primo de Nicolas Cage e Jason Schwartzan...) que moldou a estética visual da banda. Obviamente que a voz de Casablancas colaborou em trilhas sonoras à frente do Strokes, sendo as mais célebres em Homem-Aranha  (2002) com When It Started e  Maria Antonieta (2006) com What Ever Happened. Não satisfeita com o apoio no filme de 2006, Sofia Coppola inseriu a minimalista I'll try Anything Once em seu filme seguinte (Um Lugar Qualquer/2010) e a canção se tornou uma espécie de arrepiante sinopse do filme.  

04 Johnny Marr
De nome você pode até não lembrar dele, mas com certeza já ouviu muito seus riffs. Famoso por ser um dos guitarristas mais elegantes de todos os tempos, Marr ficou famoso por tocar no The Smiths (e sempre brigar com o vocalista Morrissey). Apesar de nunca ter repetido o sucesso de sua banda dos anos 1980, Marr sempre cultivou outros projetos (o Electronic, ao lado de Bernard "New Order" Sumner é o mais famoso) e flerta constantemente com o cinema. Para além do uso de canções dos Smiths em infinitas trilhas (Curtindo a Vida Adoidado/1986, Closer/2004, 500 Dias com Ela/2009, As Vantagens de Ser invisível/2012...), Marr colabora em trilhas como em A Origem (2010) de Christopher Nolan (que foi até indicada ao Oscar) e até apareceu como ator em Powder (2011) de Mark Elliot, sobre uma banda emergente do Reino Unido. 

03 New Order
Sempre que vejo o New Order de hoje eu me espanto em ver que o tempo passou, mas a voz de bom rapaz de Bernard Sumner permanece a mesma. Quantas bandas podem se gabar de ter sua história contada em filmes? Pois é, o New Oder tem três filmes no currículo! Bem, na verdade os filmes não são sobre o NO, mas sobre a banda que deu origem a eles, o Joy Division. A história do Joy - e início do New - pode ser vista em A Festa Nunca Termina (2002), Control (2007) e no documentário Joy Division (2007), neles você fica conhecendo como a banda de Ian Curtis é fica para trás e tem início a nova sonoridade com os membros que restam. Além disso, New Order é um nome obrigatório em trilhas que retratam os anos 1980 e que ambicionam posar de moderninhas. Os caras podem ser ouvidos nos clássicos A Garota de Rosa Shocking (1986) e Trainspotting (1996) além de emprestar hits para Três Formas de Amar (1994), Psicopata Americano (2000), Maria Antonieta (2006), Ele Não Está Tão afim de Você (2009)...

02 Nine Inch Nails
Quase que o Nine Inch Nails ficou em primeiro lugar, afinal o NIN em pessoa - Trent Reznor e o parceiro Atticus Ross - tem até um Oscar na estante pela trilha sonora de A Rede Social (2010) e quase chegou lá com a trilha de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2011) que foi indicada somente ao Globo de Ouro. O flerte do NIN com o cinema faz bastante tempo, já que a sonoridade da banda caiu como uma luva para embalar atmosferas sombrias, sendo assim canções como Burn, Closer e The Perfect Drug serviram com perfeição às intenções de (respectivamente)  Assassinos por Natureza (1994), Sev7en (1995) e A Estrada Perdida (1997). Talvez seja em A Estrada Perdida que o trabalho da banda tenha se tornado mais fascinante na telona, já que o mestre David Lynch parece ter feito um belo clipe de 134 minutos para a as canções que Trent compôs para o longa. Vou encarar essa medalha de prata como uma forma de pressionar Lynch a voltar e filmar algo inspirado num álbum da banda!

01 Arcade Fire 
Quando ouvi pela primeira vez essa banda canadense (com a música Wake Up de 2004, do álbum Funeral) ela se tornou automaticamente uma das minhas favoritas. De lá para cá eles lançaram outros três álbuns inesquecíveis (e nunca vou esquecer quando The Suburbs, de 2010, papou o Grammy de álbum do ano). As marcantes canções da banda logo serviram para embalar os trailers de O Curioso Caso de Benjamin Button/2008 (com My Body is a Cage) e Onde Vivem os Monstros/2009 (com Wake Up), isso sem contar a colaboração na celebrada trilha da finada série À Sete Palmos/2001-2005 (com Cold Wind). O que coloca o Arcade no topo da lista é que Spike Jonze criou um curta baseado nas canções de The Suburbs chamado Cenas do Subúrbio (que foi exibido, elogiado no Festival de Berlim e lançado como cd bônus junto ao álbum em alguns países). A parceria com Spike Jonze continuou no filme Ela (2013), para o qual a banda compôs três canções. A trilha de Ela, assinada pelo vocalista Will Butler e seu parceiro Owen Pallett, concorreu ao Oscar desse ano.