quinta-feira, 9 de outubro de 2014

DVD: Rush: No Limite da Emoção

Brühl e Hemsworth: rivalidade Hunt/Lauda no auge da Fórmula 1. 

Não me surpreendi quando o último filme de Ron Howard não alcançou o sucesso esperado nas bilheterias brasileiras (nos EUA lucrou quase cinco vezes o valor de seu orçamento), afinal de contas, o universo da Fórmula 1 rende causa cada vez menos fascínio em nosso país. Rush é bem feito, mas merece atenção por contar uma das rivalidade mais famosas da história da competição, a rixa entre o britânico James Hunt (Chris Hemsworth) e o austríaco Nick Lauda (Daniel Brühl). Enquanto Hunt era farrista, agressivo e mulherengo, Lauda era concentrado, correto e esforçado para provar o seu valor. Essas personalidades opostas influencia na conquista de patrocínios e apelo perante a mídia para cada um dos esportistas, no entanto, enquanto Hunt tem problemas com o seu temperamento (seja na vida profissional ou amorosa, já que casa-se quase que repentinamente com uma bela modelo - vivida por Olivia Wilde), Lauda tem os olhos voltados para a carreira e para a esposa. Tratados como dois lados de uma mesma moeda, Howard demonstra aqui a mesma desenvoltura em viajar na atmosfera de um tempo e espaço bastante específico, assim como aconteceu no excepcional Frost/Nixon (2008). Hunt/Lauda tem a mesma reconstituição de época envolvente, narrativa tensa e ótima caracterização dos seus atores principais (sobretudo Daniel Brühl que foi indicado ao Globo de Ouro de coadjuvante e merecia ter sido lembrado no Oscar), afinal, ainda que capriche nas cenas de corrida, o filme precisa ser apreciado como um retrato de um período em que a Fórmula 1 estava no auge de sua popularidade, justamente no período em que seus praticantes entravam na pista sem a certeza de que conseguiriam terminar o circuito, afinal, os limites dos veículos eram testados a todo instante, colocando em risco a vida dos corredores. Foi numa das pistas mais perigosas do mundo que Lauda sofreu um acidente que ficaria marcado na história das corridas. Nesse ponto, cabe destacar que Lauda colaborou com a escrita de Peter Morgan para o filme, talvez por isso seu personagem tenha ficado tão rico de nuances - por mais que o texto tente aparentar os reflexos de uma educação europeia rígida em sua formação.  Ainda que a atuação de Brühl seja mais interessante, Chris Hemsworth demonstra mais uma vez que pode interpretar papéis diferentes de Thor na telona. Embora o roteiro tenha algumas cenas que parecem criadas especialmente para o cinema (e você vai descobrir quais são), Ron Howard consegue construir um filme que vale a pena ser conferido, independente de você curtir Fórmula 1 ou não (vale lembtrar que Rush concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme dramático de 2013). 

Rush - No Limite da Emoção (EUA-Alemanha/2013) de Ron Howard com Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde e David Calder. ☻☻☻

CATÁLOGO: Zodíaco

Downey e Jake: Fincher muda o foco. 

Zodíaco é um divisor de águas na carreira de David Fincher, depois de criar filmes de estética irretocável, mas repletos de maneirismos (Se7en/1995 e Clube da Luta/2000 são os mais notórios), David resolveu revisitar suas lembranças de infância e abordar a caça a um dos serial killers mais famosos dos Estados Unidos, o conhecido assassino do Zodíaco. O resultado é o filme mais pessoal do cineasta, já que ele banhou as cenas no medo genuíno que sentia do criminoso. Muita gente estranhou quando a narrativa mais lenta e contemplativa impressa pelo diretor. Embora tenha cenas de violência explícita, o filme mostra que David Fincher buscava novas texturas em sua obra, privilegiando o desenho dos personagens e o foco em uma narrativa simples, sem invencionices visuais. O roteiro foca em três personagens importantes das investigações: o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.) e o inspetor David Toschi (Mark Ruffalo), que cada um a sua maneira teve a atenção voltada para o assassino. A câmera acompanha o trabalho dos personagens na busca pela identidade de Zodíaco e as informações às vezes convergem, em outras se repelem, fazendo com que o trio de protagonistas se encontre pelo caminho de forma nem sempre cordial. Os crimes atribuídos ao serial killer começaram em dezembro de 1968 e seguiram até meados da década de 1970, num total de aproximadamente 37 vítimas, sendo que (conforme o filme deixa claro) não existe certeza sobre esse número ou autoria do crime - já que conforme a mídia cobria os crimes, vários lunáticos se identificavam como o assassino. Fincher utiliza vários atores no papel do criminoso para que o expectador não construa uma imagem sobre ele, no entanto, ainda que a imagem dele seja desconhecida, o diretor consegue criar uma atmosferas hipnoticamente sufocante de suspense. Seja na cena à beira da estrada, do porão ou qualquer outra em que sugere a presença do assassino, o filme mostra que não precisa de truques falsos para envolver a plateia. No entanto, o filme obteve baixa bilheteria por não apresentar uma solução para os crimes (afinal dizem que Zodíaco continua anônimo e na ativa, mesmo com suas misteriosas cartas cessadas há mais de 30 anos), mas o expectador esperto irá perceber que o foco do diretor é outro: a obsessão dos homens que buscam por ele. É visível a mudança que o mar de crimes, suspeitas e pistas variadas gera em Robert, David e Paul. Todos colocam suas vidas em risco com as investigações e Paul Avery mostra-se o mais transtornado com o universo em que mergulha - e a atuação de Robert Downey Jr. é memorável, merecendo ser lembrada aos que acham que o ator estreou no cinema com Homem de Ferro!!! Desde Zodíaco, Fincher aprendeu a concentrar sua força narrativa nos personagens e o resultado pode se ver em filmes que podem até ser menos estilosos, mas são  maduramente inquietos. 

Zodíaco (Zodiac/EUA-2007) de David Fincher com Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr, Mark Ruffalo, Brian Cox, Anthony Edwards e Chloë Sevigny. ☻☻☻☻ 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ladies & Gentlemen: Rosamund Pike

Filha única de um cantor de ópera (Julian Pike) e uma violinista clássica (Caroline Friend), Rosamund Mary Elizabeth Pike nasceu em 28 de janeiro de 1979 em Londres, Inglaterra. Devido à carreira dos pais, ela cresceu viajando pela Europa, ao ponto de falar fluentemente alemão e francês. Ela ainda era uma estudante quando começou a atuar no National Youth Theatre, chamando atenção numa montagem de Romeu e Julieta. Ainda que sua carreira como atriz fosse promissora, ela se formou em Literatura Inglesa na renomada Universidade de Oxford. Em 1998 começou a trabalhar em produções para a televisão inglesa, sendo acolhida pelo cinema com 007 - Um Novo Dia Para Morrer (2002) no papel de Miranda Frost naquele que seria o filme de despedida de Pierce Brosnan na franquia. Depois atuou no drama israelense Terra Prometida (2004) do diretor Amos Gitai e no controverso O Libertino (2004) ao lado de Johnny Depp, no qual sua atuação lhe valeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no British Independent Film Awards. No ano seguinte, ela foi escalada para viver a romântica Jane Bennet em Orgulho e Preconceito (2005). Embora os holofotes estivesse sobre Keira Knightley, Rosamund chamou atenção como a mais doce das irmãs Bennet, era questão de tempo para que Hollywood lhe desse atenção. A atriz apareceu em seguida no sci-fi Doom (2005) e fez par romântico com Ryan Gosling no suspense Um Crime de Mestre (2005). Atuou em filmes pequenos como Fugitive Pieces (2007) do canadense Jeremy Podeswa e na produção para TV The Tower (2008). Ela reencontrou com Carey Mulligan (que interpretara uma das irmãs Bennet) no elogiado Educação (2009) no papel da deslumbrada amiga Helen, depois ela atuou em outra produção para a televisão (Freefall/2009) e ao lado de Bruce Willis na ficção científica Substitutos (2009). No entanto, embora tivesse acesso às superproduções, são as produções mais alternativas que valorizaram mais seu currículo, caso de Minha Versão do Amor (2010), onde vive o grande amor de Barney (Paul Giamatti). Ela ainda atuou na comédia de suspense Burning Palms (2010) e fez uma pequena participação em Revolução em Dagenham (2010). Depois, Rosamund investiu em comédias (O Retorno de Johnny English/2011, O Grande Ano/2011 e Heróis de Ressaca/2013 com Simon Pegg), filmes de ação (Fúria de Titãs II /2012 e Jack Reacher /2012) e um suspense (The Devil You Know/2013). No entanto, sempre deixou a impressão que era melhor atriz do que os papéis que ofereciam para ela. Em 2014, Pike tem quatro filmes lançados: reatou a parceira com Simon Pegg  em Hector à Procura da Felicidade, além de estrelar duas dramédias O que Faremos no Feriado (ao lado de David Tennant e Billy Connolly) e Uma Longa Queda - baseado no livro de Nick Hornby. Porém, o grande divisor de águas de sua carreira será Garota Exemplar (2014) de David Fincher. Vivendo a mulher desaparecida a que o título se refere (em todas as suas neuroses), Rosamund Pike já é uma das atrizes mais cotadas para a temporada de ouro por virar do avesso toda a imagem de perfeição que sua beleza clássica evoca.

Orgulho e Preconceito: Pike e suas irmãs Bennet

Na Tela: Garota Exemplar

Rosamund e Ben: o casamento segundo o surrealismo Fincheriano.

Podem dizer o que quiser, o fato é que Garota Exemplar é um filme surreal. Acredito que quem acreditar que a proposta do filme é ser realista irá achar apenas defeitos no filme, seja pelos seus momentos mais absurdos ou mirabolantes. O fato é que o novo filme de David Fincher funciona melhor quando percebemos como o diretor abraça tudo que a trama pode ter de mais absurdo, ampliando as percepções da plateia em tudo que a trama do livro de Gillian Flynn (que também assina o roteiro) possui de superlativo quanto à vida no casamento, a influência da mídia e o poder do discurso sobre a mente do espectador.  O filme retrata as investigações acerca do desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike, já cotada para o Oscar), a escritora de poucos livros, rica, filha de escritores que criaram a cultuada série de livros infantis "Amy Exemplar". Amy conhece Nick Dunne (Ben Affleck), igualmente escritor, mas que teve de se contentar em dar aulas sobre redação criativa na cidade onde vive - mas ele gosta mesmo de frequentar o The Bar, um bar (oras!) em que administra junto com a irmã Margo (Carrie Coon). É no The Bar que Nick vai na fatídica manhã em que sua esposa desaparece. Quando ele retorna para casa existe sinais de que algo de ruim aconteceu e ele chama a polícia imediatamente. Encarregados do caso, a detetive Rhonda Boney (Kim Dickens, ótima) e  o oficial Jim Gilpin (Patrick Fugit) encontram alguns vestígios de que houve uma luta naquela casa e que Amy pode ter sido tão sequestrada quanto assassinada. Contar mais do que isso estragaria muito do meticuloso quebra-cabeça que Fincher oferece para a plateia. Resta revelar que acompanhamos a trajetória desastrosa de Nick em lidar com a mídia, que passa a crucificá-lo e apontá-lo como assassino da esposa, ao mesmo tempo que acompanhamos as anotações realizadas por Amy em seu diário. Durante boa parte da sessão, Amy e Nick disputam nossa credibilidade, ela sempre perfeita e ele mostrando-se cada vez mais falho. Fincher utiliza um ponto de partida simples para demonstrar como estamos vulneráveis às informações chegam até nós, exibindo as entranhas do mecanismo de produzir vilões, culpados e vítimas sem ressaltar o quanto a realidade é mais complexa e cheia de camadas de desejos e sentimentos de pessoas que lidam com papeis sociais e impressões constantemente. No entanto, perceber Garota Exemplar como uma alegoria sobre o papel da mídia seria simplificar as outras nuances que oferece ao público. Seja Amy presa à sua perfeição ou Nick aos seus defeitos, ambos se tornam vítimas dos estereótipos que aceitaram vestir, embora lidem com isso de forma distintas. Neste ponto, o casamento torna-se um verdadeiro campo de batalha quando as máscaras (que usaram um para seduzir o outro) começam a cair. Nesse ponto, o desfecho (que pode decepcionar a grande maioria que assiste ao filme como um suspense trivial) funciona como um espelho do casamento que tornou-se um refúgio seguro para o jogo de aparências, para a imagem de sucesso, da família perfeita, bela e feliz.  David Fincher trata a história com sua habilidade habitual em colocar surpresas pelo caminho com grande naturalidade e, mesmo quando tudo é mirabolante demais e o humor surge inevitável, o filme mantem seu tom sereno. Para cumprir essa tarefa mais complicada do que parece, o diretor escolheu um elenco preciso para viver os signos de sua história (basta lembrar que não importa o quanto Ben Affleck se esforce ele nunca convence os fãs de Batman!). Garota Exemplar, com seus traços que beiram o terror, é na verdade um romance às avessas que mistura Atração Fatal (1987) com O Reverso da Fortuna (1990) de uma forma tão engenhosa como as distorções da trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross.

Garota Exemplar (Gone Girl/EUA-2014) de David Fincher com Ben Affleck, Rosamund Pike, Kim Dickens, Carrie Coon, Patrick Fugit, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Missi Pyle e Sela Ward. ☻☻☻☻

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CATÁLOGO: Fome

Fassbender (sentado): 16 quilos a menos. 

Em 1981 um grupo de prisioneiros vinculados ao Exército Republicano Irlandês (o IRA) realizaram uma greve de fome em nome de serem reconhecidos como prisioneiros políticos. O termo lhes garantiria tratamento diferenciado perante outros presos, além de um olhar diferente da mídia e da população em geral. Conforme a introdução do filme deixa claro, a manifestação realizada dentro do presídio era acobertada pelos carcereiros e policiais, assim como outras medidas adotadas pelos prisioneiros (sujar as paredes com fezes, derramar urina por debaixo da porta, grudar comida na parede, não tomar banho...) tudo para que transformasse a situação insustentável dentro da prisão. No entanto, a situação tornava-se cada vez mais grave, seja pelas ações repressoras dos agentes penitenciários ou os discursos inflamados da então primeira ministra Margareth Thatcher que mostrava-se irredutível no tratamento dos membros do IRA como criminosos comuns. Fome utiliza até alguns trechos dos discursos de Tatcher para buscar um equilíbrio no olhar que o diretor Steve McQueen lança sobre essa história. Em seu filme de estreia, McQueen realiza uma obra sem concessões, sem tomar partido, apenas conta a sua história, sendo assim, a grande maioria das cenas é dsagradável de assistir, em diversos momentos, o odor das celas parece transpor a tela. O espectador torna-se infectado por aquela atmosfera, como se fosse uma testemunha de tudo o que acontece naquela espécie de mundo paralelo, onde ideologias se confrontam e tornam-se o único alento dos manifestantes ali presentes. A exploração sensorial da situação acaba chamando mais atenção do que os próprios personagens, pelo menos até que entra em cena o líder dos prisioneiros, Bobby Sands (Michael Fassbender, no papel que o revelou para o mundo). McQueen compõe o filme como se os atores passassem o bastão de um para o outro como foco da narrativa, começamos com o policial vivido por Stuart Grahan, depois presenciamos a rotina de dois jovens prisioneiros (Brian Milligan e Liam McMahom) até que a câmera revela Bobby numa cena brutal. McQueen compõe seu filme com muitos silêncios, poucos diálogos, imagens de violência física e simbólica, de forma que causa estranhamento quando no meio do caminho existe uma longa cena de câmera fixa, sem cortes de Bobby conversando com um padre sobre seus planos para a maior greve de fome que o presídio presenciou. Ciente de que ali o que importa são as ideologias dos personagens, vemos apenas seus perfis, quando a câmera exibe Bobby em close é para ele falar um pouco de si, do menino corredor que desde pequeno sabe reconhecer as motivações para sacrifícios. O longo diálogo é um divisor de águas na narrativa, já que dali em diante, Bobby Sands irá vivenciar uma greve de fome que levará seu corpo ao limite. Nesse ponto, podemos perceber porque Fassbender é ainda hoje o ator assinatura de Steve McQueen (um homônimo do ator que viveu de 1930 até 1980), já que poucos atores seriam capazes de se sujeitar à uma transformação física tão intensa e desagradável. Recentemente premiado por 12 Anos de Escravidão, McQueen pode ter sido absorvido pelo mainstream, mas sua voz grave na hora de contar histórias permanece única no cinema atual, sendo Fome um ótimo cartão de apresentação. 

Fome (Hunger/Reino Unido-Irlanda/2008) de Steve McQueen com Michael Fassbender, Stuart Grahan, Brian Milligan e Liam McMahom. ☻☻☻

domingo, 5 de outubro de 2014

DVD: 12 Anos de Escravidão

Fassbender, Lupita e Chiwetel: a coisificação do homem. 

Para nós brasileiros é difícil captar a importância de 12 Anos de Escravidão para a cinematografia americana, afinal, produzimos até novelas das seis sobre o tema. Nos EUA a abordagem da escravidão é coisa rara, podíamos perceber isso quando os críticos tentavam lembrar de outros longas para servir de parâmetro e a grande maioria lembrava das polêmicas de Manderlay (2005) e do satírico Django Livre (2012), além da cultuada série Raízes (1977). 12 Anos de Escravidão é o filme que faltava para abordar o tema no cinema hollywoodiano recente, principalmente porque o diretor inglês Steve McQueen não tem pudores em criar cenas cruéis para evidenciar como um homem pode coisificar o outro. O mais incrível é que ainda que a violência exposta do filme possa ser insuportável demais para os olhos assistirem, ela é apenas uma amostra minúscula do que a escravidão causou na história da humanidade. A partir da história de Solomon Northup, escravo liberto que foi sequestrado e vendido como escravo, Steve McQueen conta uma dolorosa história sobre a coisificação do homem. Transformado em propriedade, Solomon irá comer o pão que o diabo amassou e presenciar atrocidades por todo o seu caminho. Solomon é bastante culto, sabe ler, escrever, tocar violino, mas aprendeu que diante da vida a que estava subjugado, sabia que seus conhecimentos colocariam sua vida em risco. Vivido pelo inglês (filho de nigerianos) Chiwetel Ejiofor (que sempre foi ótimo, mas nunca recebeu o devido reconhecimento), Solomon é quem guia nossa jornada por uma parte da história americana que preferem que seja esquecida. Enganado e surrado logo no início do filme, Solomon é levado para longe de sua família e vive os primeiros anos nas propriedades dos Sr. Ford (Benedict Cumberbatch), que parece ser um bom homem, mas limitado pela percepção de seu tempo - o que impede que ajude Northup a sair daquela situação. Libertá-lo seria gerar prejuízo financeiro... por esse motivo prefere mandá-lo para a posse de Edwin Epps (Michael Fassbender, ator assinatura do diretor), um agricultor de algodão que não se contenta em ser vilão enquanto tenta lidar com suas contradições. É na fazenda de Epps que o filme torna-se mais rico, por acrescentar dois personagens fortes na narrativa. Fassbender (caprichando no sotaque sulista) se banha na crueldade de um homem que vê-se na encruzilhada de ser apaixonado por uma escrava, Patsey (Lupita N'Yongo, que nem precisa de muitas falas para provar que é um verdadeiro achado) enquanto é casado com uma branca. É evidente o efeito nocivo que esse desejo provoca em seus discurso de superioridade assegurada por Deus (acho que não é por acaso que escolheram o ator alemão para o papel), levando a crises violentas de ciúme (motivadas por um fazendeiro local que casou com uma negra amiga de Patsey) e uma eterna desconfiança de quem chega perto dela. Não bastasse ter que se deitar com o seu malfeitor, Patsey ainda come o pão que o escravocrata pisou nas mãos da Srª Epps (Sarah Paulson), de forma que a a escrava vê a morte como sua única chance de liberdade. Esse triângulo amoroso explosivo se desenvolve enquanto Solomon tenta conseguir ajuda para voltar a ter sua liberdade (vale lembrar que esse detalhe só ressalta o quanto todo negro era livre antes de ser escravizado, sacaram?). Como já vimos várias história do gênero, a novidade fica por conta da ausência de pudores do diretor  ao filmar as longas cenas de violência com uma veracidade absurda - com destaque para a trilha sonora modernosa que faz toda a diferença na criação da atmosfera agressiva do filme. 12 Anos de Escravidão ao resgatar um livro lançado em 1853 (e que nunca recebeu a devida atenção pelo seu valor histórico na Terra do Tio Sam) e mais importante do que os três Oscars que recebeu (Filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante para Lupita e outras seis indicações) é o fato do DVD e do livro receberem distribuição nas escolas e bibliotecas americanas no primeiro semestre desse ano. 

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave/EUA-Reino Unido/2013) de Steve McQueen com Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Sarah Paulson, Lupita N'Yongo, Michael Kenneth Williams, Brad Pitt e Scoot McNairy. ☻☻☻☻

DVD: Praia do Futuro

Moura e Schick: cenas tórridas. 

Praia do Futuro deve ser o filme brasileiro mais polêmico do ano, menos por sua história tratada com sutileza pelo diretor Karim Aïnouz e mais pelas cenas tórridas estreladas pelo astro Wagner Moura e o alemão Clemens Schick. O fato de algumas salas exibidoras carimbarem nos ingressos que os espectadores foram avisados sobre as cenas protagonizadas pelas cenas de sexo gay renderam grande burburinho na mídia e gerou comentários sobre homofobia e anti-homofobia durante a trajetória do filme nas telas. O fato é que apesar de toda a confusão, Praia do Futuro tem uma história de amor bastante simples, se não fosse pelos preconceitos que evoca na plateia mais conservadora (ironicamente é o medo desse preconceito que move o protagonista a viver a vida em outro lugar). Wagner Moura interpreta com grande competência o protagonista Donato, um salva-vidas da célebre praia cearense que fica atormentado ao enfrentar a sua primeira tentativa de salvamento fracassado. O afogado em questão é o amigo do alemão Konrad (Schick), de quem Donato se aproxima por conta das providências a serem tomadas sobre o corpo. Os dois acabam tendo relações no carro de Donato e começam um relacionamento conturbado pelos pudores do salva-vidas assumir sua homossexualidade diante da família, especialmente do irmão caçula, Ayrton. Entre a vida que tem e a vida que gostaria de ter, Donato parte para a Alemanha e, embora pareça satisfeito com a vida ao lado do namorado, o contraste entre o ensolarado litoral nordestino e a beleza sisuda de Berlin é inevitável para o seu desgaste emocional. Esse desgaste é mostrado vagarosamente por Aïnouz, que pontua o filme com longos silêncios, cenas simples do cotidiano que parecem servir para mostrar o quanto Donato está deslocado diante de sua escolha - e Wagner Moura merece aplausos por seu destemor em encarnar um personagem totalmente diferente de seu icônico Capitão Nascimento de Tropa de Elite  (2007) seja em cenas de nudez ou de alcova com outro homem. As coisas complicam ainda mais com o passar do tempo  e a visita de Ayrton (agora adolescente vivido pelo elogiado Jesuíta Barbosa) que forçará o irmão a pensar mais uma vez nos rumos que pretende tomar. A Paria do Futuro pontua seus silêncios e tom arrastado com cenas de amor brutas entre seu casal protagonista e explora bastante os contrastes das escolhas de Donato. Apesar de se distanciar dos clichês com maestria, o diretor pesa demais a mão em alguns momentos, fazendo com que o filme perca um pouco em sua fluência e se torne longo demais. No entanto, acho interessante como o filme começa e termina com locações em praias completamente diferentes - é impossível não pensar que a que vemos no final é a do título, semelhante ao deserto emocional que aflige tantos donatos dentro de seus desejos proibidos. 

Praia do Futuro (Brasil-Alemanha/2014) de Karim Aïnouz com Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta Barbosa, Fred Lima, Demick Lopes e Emily Cox. ☻☻☻

sábado, 4 de outubro de 2014

Combo: Passagem do Tempo

Ao contrário do que muita gente pensa, Boyhood não é o primeiro filme a registrar cenas com seu elenco ao longo dos anos. O filme de Richard Linklater demorou doze anos para ser feito, registrando a passagem da infância à adolescência de seus protagonistas. Ao longo dos anos, outros filmes partiram da mesma premissa:

5 - Irmãs Jamais (2010) de Marco Bellochio deve ser o filme menos conhecido dessa lista. O filme italiano foi lançado há quatro anos, sendo o resultado de um projeto para especialização cinematográfica criado pelo diretor. Narrado em pequenos episódios filmados de 1999 até 2008 no cerne de uma família, o filme conta a história das filhas de Sara, mulher que busca a carreira de atriz e deixa as filhas aos cuidados de duas tias (que temperam o filme com humor). Alternando o registro documental com o ficcional, a fotografia escura pode incomodar, assim como a indefinição da narrativa, mas a ideia até que funciona.

4 - Todos os Dias (2012) é dirigido por Michael Winterbotton (que consegue misturar ficção e documentário com maestria em vários filmes) e conta a história de um casal entre 2007 e 2012. A história gira em torno dos anos em que Ian (John Simm) ficou preso e o ápice de seus dias como detento é receber a visita da esposa (Shirley Henderson) e dos filhos. Winterbotton conta com excelente química entre seu elenco para captar realisticamente a magia do cotidiano dessa família comum, ao qual o pai está bem distante. O filme diz o tempo todo que essa é a maior punição de Ian - perder o que a vida tem de mais belo e comum ao lado da família. 

 3 - Basquete Blues (1994) causou a maior comoção quando chegou aos cinemas, chegando a ser considerado forte ameaça a Forrest Gump e sua premiação na categoria de melhor filme no Oscar, mas o filme acabou indicado somente ao prêmio de edição (e acabou perdendo). O filme conta a história de dois garotos que pretendem passar de jogadores de basquete colegiais à profissionais. William Gates e Arthur Agee são seguidos pela câmera do diretor Steve James no que seria o projeto de um curta-metragem, mas a trajetória de ambos foi tão interessante que a filmagem durou cinco anos! Simplesmente emocionante. 

02 Harry Potter (2001-2010) Não tem como evitar lembrar que acompanhamos o crescimento de Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson por dez anos em que a saga do bruxinho mais popular do cinema esteve nos cinemas. Nos filmes da série as crianças inglesas cresceram debaixo da desconfiança de críticos que sempre reclamaram de suas atuações, mas hoje o trio já mostrou que tem potencial para carregar filmes fora da milionária franquia. A ideia da série sempre foi acompanhar o crescimento dos personagens, o filme seguiu o mesmo caminho e, se todos os filmes do bruxinho formam um único, esse filme merece estar nessa lista como todos os outros. 

1 - Anna dos Seis aos Dezoito (1993) o diretor russo Nikita Mikhalkov foi o primeiro a ficar conhecido por acompanhar a passagem do tempo através do crescimento de uma criança diante de uma câmera. O filme que acompanha o crescimento de sua filha Anna com pequenas filmagens anuais (e algumas perguntas ao longo dos anos) emocionou muita gente ao mostrar as mudanças das percepções de uma criança sobre o mundo ao seu redor - além de seu amadurecimento diante dos olhos do pai. Simplesmente fofo - e você pode fazer o mesmo em casa, só precisa ter talento (e paciência) para editar com genialidade!

BREVE: Boyhood

Mason: no início, aos cinco anos...

Outro filme aguardado presente no Festival do Rio 2014 é Boyhood (com estreia nacional prevista para dia 30 de outubro) que é saudado como mais do que um filme, mas um verdadeiro experimento cinematográfico. Embora o cinema de vez em quando crie documentários sobre pessoas comuns que crescem diante de uma filmagem, o diretor Richard Linklater teve a ideia de criar um filme de ficção com base na mesma premissa. Linklater trabalha no filme há doze anos. No entanto, somando todos os dias de filmagem, o filme consumiu 39 dias de filmagem, já que o diretor utilizava três ou quatro dias filmando por ano. No entanto, deve existir toneladas de material extra que ficou de fora do resultado final (e nem conte que caberão nos extras de um DVD). Em seus 163 minutos, seria pouco dizer que o diretor conta a história do menino Mason (Ellar Coltrane), quando na verdade, Boyhood é sobre o passar do tempo, as tristezas, alegrias e as lembranças que carregamos ou deixamos pelo meio do caminho. Parece cerebral demais? Pois tudo que Linklater quer é não ser cerebral, pelo contrário, seu filme poderia resultar numa espécie de releitura de Forrest Gump/1994 se a trama se apegasse demais aos fatos históricos ocorridos no período, no entanto, o diretor opta por deixar esses acontecimentos como detalhes - que assim como a onipresente música pop ou os livros de Harry Potter, servem para localizar o espectador no tempo e no espaço, tanto quanto o envelhecimento inevitável de seus atores diante da câmera. Da mesma forma, evita manobras como doenças terminais, falcatruas, crimes ou romances impossíveis que poderia desviar o foco diante de sua ideia principal. Mason vive com a mãe (Patricia Arquette) e a irmã (Lorelei Linklater), vendo o pai músico (vivido por Ethan Hawke) de vez em quando. Quando o filme começa, Mason tem cinco anos e pouca coisa para se preocupar. Com o passar do tempo precisa lidar com uma mudança de endereço, o novo casamento da mãe, o primeiro amor, o primeiro emprego, a independência financeira da matriarca, o gosto pela fotografia e termina com sua chegada à faculdade. Durante a narrativa não existem vilões, apenas alguns personagens pontuais que servem para que Mason aprenda a se impor como indivíduo no mundo. É uma experiência cinematográfica única, especialmente porque vemos como os próprios atores mirins crescem não apenas fisicamente, mas como interpretes diante da câmera. Da espontaneidade infantil passamos para o constrangimento adolescente e, conforme a narrativa avança, eles conseguem transmitir personalidade aos personagens (ainda que não saibamos, por exemplo, onde termina Ellar e começa Mason). Obviamente que a mídia clama que o filme marque presença nas premiações de fim de ano e ele tem chances, principalmente pela identificação inevitável de qualquer mortal com o menino que precisa tornar-se homem, ou de sua irmã que passa por processo semelhante - ou a mãe que também busca seu lugar no mundo (ainda que seja adulta). Linklater tem fortes chances de ser lembrado pelo seu esforço e determinação de conduzir seu processo de criação (que resulta bastante realista), mas acho que somente Patricia Arquette tem força para ser lembrada nas categorias das premiações. Sei que o filme de Linklater é mais do que qualquer estatueta dourada, mas ficaria muito feliz de ver Patricia celebrada como um dos nomes mais promissores dos anos 1990 - e que foi mais reconhecida na TV do que no cinema. Lidando com atores inexperientes a maior parte do tempo, ela serve como ótimo elemento para alinhavar as atuações dentro da proposta do diretor. Sua última cena é tão memoravelmente forte que instala um verdadeiro espectro na cabeça de Mason e da plateia. Boyhood tem uma ideia ambiciosa, mas funciona justamente pelo trato simples ao lidar com a magia do passar do tempo. O efeito é o mesmo que observar a areia de uma ampulheta projetada numa tela de cinema. 

No final (de beca): aos dezoito. 

Boyhood (EUA-2014) de Richard Linklater com Ellar Coltrane, Patricia Arquette e Lorelei Linklater. ☻☻☻☻