domingo, 29 de março de 2015

BREVE: Filth

McAvoy: longe do bom mocismo. 

Filth estreou no Reino Unido em 2013 e já foi lançado em DVD há tempos por lá, aqui, por enquanto, não conseguiu uma vaga entre as estreias semanais até agora. Baseado no livro de Irvine Welsh, (de Traispotting/1996) o filme de Jon S. Baird também quer soar tão modernoso quanto o clássico filme de Danny Boyle, mas o resultado está longe de ser genial, parecendo muitas vezes apenas gratuito. Claro que o filme sobre o policial viciado em drogas e sexo - que prejudica seus colegas para ganhar fama em torno das investigações de um caso de assassinato - tem elementos de sobra para que todos exercitem seu humor negro, especialmente James McAvoy que tem se esforçado para se livrar dos papéis de bom moço. O ator escocês vive o desagradável protagonista Bruce com grande desenvoltura, parecendo até que simpatizamos com ele - mesmo que ele não esteja valendo grande coisa. Quando sua imaginação realiza digressões sobre seus colegas a narrativa consegue ganhar agilidade, especialmente com o bom elenco de apoio formado por Jamie Bell, Eddie Marsan e Gary Lewis. Todos são policiais, todos vivem situações comprometedoras e todos vão fazer você soltar algum riso nervoso. Fosse apenas espinafrar os colegas de Bruce o filme poderia ser interessante, mas ele tem outros elementos que tornam a sessão um tanto confusa. Desde a primeira cena, a narrativa é pontuada pela mulher que acreditamos ser a esposa de Bruce, mas que nunca aparece em cena ao lado dele. Outros detalhes mostram que a sanidade não é o forte do protagonista (o que é ampliado pela participação do médico biruta vivido por Jim Broadbent), contrastando com os lampejos de normalidade de quando ele encontra a viúva de um amigo (vivida por Joanne Froggatt) ou quando uma jovem policial tenta ajudá-lo a colocar o mundo novamente em perspectiva (papel de Imogene Poots). Em sua segunda experiência em longa metragem, J.S. Baird não tem pudores em parecer subversivo, criando cenas que alguns diretores renomados hesitariam sem cerimonia, no entanto, o moço encontra dificuldade para alinhavar a narrativa com o ritmo adequado. Irregular, as loucuras de Bruce podem ficar repetitivas a partir de um determinado momento, assim como o desfecho poderia ser surpreendente se tudo já não soasse estranho o suficiente. No fim das contas temos um filme instigante, ainda que desengonçado, mas defendido por um elenco inspirado que não tem vergonha de submeter seus personagens a uma boa dose de ridículo (e se lembrarmos que são policiais  a coisa fica ainda mais divertida). A estranheza de Filth acaba remetendo mais à esquizofrenia de Tyler Durden em  Clube da Luta/1999 do que à célebre jornada de Mark Renton em Trainspotting, porém, está longe da genialidade das duas obras que marcaram o final do século XX.

Filth (Reino Unido - Alemanha - Suécia - EUA - Bélgica/2013) de J.S. Baird com James McAvoy, Jamie Bell, Eddie Marsan, Imogene Poots, Jim Broadbent, Gary Lewis e Shirley Henderson. ☻☻☻

terça-feira, 24 de março de 2015

Na Tela: Dois Lados do Amor

McAvoy e Chastain: juntando os cacos. 

O diretor Ned Benson criou uma trilogia ambiciosa para marcar sua estreia em longa metragem. The Disappearance of Eleanor Rigby é composto de três olhares sobre a mesma história: Him, Her e Them, que compõem a bordagem sobre a separação do casal Eleanor (Jessica Chastain) e Conor (James McAvoy), a primeira parte é a abordagem dele, a segunda é sobre o olhar dela e o último mistura as duas partes para criar um desfecho coeso para a trilogia. Como as duas primeiras partes não estrearam por aqui, começaremos do desfecho do projeto de Benson, que alguns críticos consideraram a melhor parte de sua obra (embora alguns considerem tudo um tanto cansativo). Apesar de ser vendido como uma história de amor, os filmes tratam daquele ponto onde o relacionamento termina e a difícil tarefa de seguir em frente precisa ser encarada. Eleanor depois de uma tentativa frustrada de suicídio volta a morar com os pais (vividos por Isabelle Huppert e William Hurt). Para colocar a vida nos eixos volta até a estudar, onde encontra na sisuda professora Lilian Friedman (Viola Davis) uma amiga e confidente. Enquanto isso, Conor enfrenta uma crise no restaurante que abriu junto a um amigo. Eis que um dia ele reencontra Eleanor meio que por acaso. Enquanto ele tenta juntar os cacos para que voltem a viver juntos, Eleanor é mais reservada. Um tanto cética sobre a vida a dois, ela prefere ser cautelosa para evitar outro naufrágio emocional. Ainda que compartilhem poucas cenas, Jessica e James apresentam boa química quando estão juntos na tela, seja nas cenas de antes ou depois da crise no relacionamento. Pleno em sua melancolia, Dois Lados do Amor parece ser até mais extenso do que sugere seus cem minutos de duração, talvez o problema seja que essa conclusão da trilogia seja semelhante demais à estrutura do excelente Namorados Para Sempre (2010) que fragmenta a história de um casal entre peças de passado e presente para demonstrar o contraste dos tempos distintos da narrativa. No entanto, enquanto o filme de Derek Cianfrance concentrava-se nos personagens, a obra de Ned Benson exagera na inadequação de seus personagens perante os papéis que devem desempenhar. Sendo assim, existe a professora que não gosta de dar aula, a mãe que não queria ter filhos, a amada que quer ficar sem o amado e o romântico que trai a amada... Ned Benson constrói sua história transformando essas dicotomias em "buracos emocionais" que se sobrepõem sempre que os personagens estão juntos em cena. O resultado é um filme tristonho ancorado em boas atuações e sempre distante do final feliz. 

Dois Lados do Amor (The Disappearance of Eleanor Rigby: Them) de Ned Benson com James McAvoy, Jessica Chastain, William Hurt, Viola Davis, Isabelle Huppert e Bill Hader. ☻☻☻

domingo, 22 de março de 2015

Eu sou você amanhã - Parte II

Existem alguns artistas que nem precisam de programa de computador para descobrir o efeito do tempo em sua aparência. Devido ao sucesso da primeira edição preparei mais uma pequena visão do que o futuro reserva para...

Christopher Mintz-Plasse será Ed Helms
Chris já deve estar acostumado com as comparações, afinal, utilizando sua aparência nerd para conseguir papéis, ele sabe que até quando crescer o filão está garantido - já que ele não deverá ser muito diferente de Ed Helms. Afinal, ambos compartilham o formato do rosto, o gosto por óculos, o mesmo sorriso e o apetite por comédias. A fôrma de Ed Helms foi usada em 1972 e reutilizada em 1989 quando nasceu Christopher. 

Luciana Gimenez será Anne Dorval
Conhecida como apresentadora, Luciana Gimenez possui três filmes no currículo - e ela ainda precisa melhorar muito para ser reconhecida como atriz. Se a brasileira se aplicar ela talvez se torne uma atriz tão boa quanto a canadense Anne Dorval. Ganhadora de vários prêmios internacionais, Anne é musa do prodígio Xavier Dolan e não faz feio diante da câmera. Nascida em 1960, Dorval atua desde a década de 1980, década em que Luciana começou a carreira como modelo. Nascida em 1969, Luciana topou ser apresentadora em 2001.

Adrien Brody será David Pasquesi
Espero que eu não seja o único a ter confundido os dois na série Veep. Adrien Brody tornou-se famoso como o mais jovem a receber o Oscar de melhor ator - graças à sua atuação em O Pianista (2002). No entanto, ele também tornou-se figura notória pelo seu nariz, digamos, inigualável... pelo menos até verem o de David Pasquesi! Nascido em 1960, Pasquesi também trabalha como roteirista. Já Adrien nasceu treze anos depois e ganha a vida fazendo filmes independentes. 

Ana Paula Arósio será Elizabeth McGovern
A semelhança entre as duas chega a ser assustadora. Elizabeth foi uma das jovens atrizes mais queridas da década de 1980, sendo indicada ao Oscar em seu segundo trabalho para o cinema (Na Época do Ragtime/1981). Embora a década de 1990 tenha maltratado sua carreira, no século XXI voltou aos holofotes como a nobre Cora Crawley de Downton Abbey. Se Ana Paula Arósio assiste a série, ela já deve saber o que o futuro reserva para ela. Nascida em 1975, Ana é quatorze anos mais jovem que Elizabeth. 

Matthew Lewis será Clive Owen
O ex-patinho feio da franquia Harry Potter virou um dos jovens atores mais cobiçados da Inglaterra. Sorte que Lewis não precisou esperar tanto tempo para chamar atenção da mulherada como Clive Owen, que atuava desde a década de 1980 e só chegou ao estrelato quando chegou aos quarenta. O tempo deve fazer as semelhanças entre os dois ficarem ainda maiores. Lábios, olhos, formato do rosto, cabelo... não fique surpreso se em breve os dois encarnarem pai e filho em algum filme. Owen nasceu em 1964 e Matthew apenas vinte e cinco anos depois. 

PL►Y: Mommy

Die, Steve e Lyka: ótimas atuações. 

Steve é um adolescente de dezesseis anos que acaba de voltar para a casa depois de sair de uma instituição para jovens problemáticos. O motivo de seu retorno é ter colocado fogo na cozinha da instituição e provocado sérias queimaduras em um colega. A mãe, uma viúva com problemas financeiros, sabe que o retorno do pimpolho irá lhe causar problemas, especialmente porque embora tenha diagnóstico de ter Déficit de Atenção e Hiperatividade (o popular TDAH), Steve ainda demonstra uma violência inconsequente, o que pode até causar suspeitas de uma psicopatia. Sendo assim, num futuro próximo idealizado pelo diretor Xavier Dolan, Steve (o promissor Antoine-Olivier Pilon) poderia ser internado por conta de seu quadro comportamental, algo que sua mãe, Diane Després (a ótima Anne Dorval) quer evitar ao máximo, embora seu lar torne-se cada vez mais caótico (no qual seu apelido, Die - "morra" em inglês - parece uma espécie de profecia). Em poucos dias de convivência o relacionamento entre os dois chegará ao limite e, nesse momento, aparece a vizinha gaga Kyla (a igualmente ótima Suzanne Clément) que irá proporcionar algum equilíbrio no relacionamento entre mãe e filho. Se Steve tem um temperamento vulcânico, sua mãe não fica muito atrás, mas a presença contida de Diane traz novos ares para os dois, embora esteja impossibilitada de lecionar por conta da gagueira, aos poucos percebemos que ela é afetada diretamente pelo seu ambiente familiar claustrofóbico (e uma cena de embate com Steve soa como uma verdadeira libertação para a ela). Falando em claustrofobia e libertação, Xavier Dolan opta por utilizar um formato de tela quadrado durante quase toda a sessão (somente duas cenas utilizam a tela por completo), a opção gera desconforto, mas reforça o sentimento de isolamento, solidão e pressão existente sobre seus personagens defendidos por um elenco excepcional. Doval e Pilon deixa a emoção dos personagens sempre a flor da pele, num excelente contraponto à atuação certeiramente contida de Suzanne Clément. Com o trio, podemos até desviar a atenção de alguns problemas que o filme possui. Dolan é considerado por alguns um prodígio, afinal, aos vinte e cinco anos já dirigiu cinco longas em cinco anos de carreira, seus filmes almejam ser levados a sério, compondo uma obra autoral, mas algumas obsessões do cineasta colocaram alguns críticos no seu pé e, diante de Mommy percebemos claramente o motivo. O maior problema é que ele poderia ser mais curto, com mais de duas horas de duração o filme é cansativo a medida que o diretor utiliza alguns cacoetes estéticos para emular um estilo que ainda parece frágil. Alguns dizem que Xavier quer misturar tudo o que aprendeu na escola de cinema num único filme, sendo assim, repete alguns recursos à exaustão - como o recurso de utilizar canções pop para pontuar a narrativa, estão lá (entre outros) Oasis, Celine Dion, Lana Del Rey (a mais bem utilizada numa dolorida conclusão ao final aberto) e cenas de histeria que um tanto repetitivas. Até lá, Pilon e Doval já deixaram marcadas a essência de seus personagens, não precisa ficar repetindo os atritos entre os dois a cada dez minutos. No entanto, Xavier tem a criatividade suficiente para construir o magnífico plano em que mostra o futuro possível de Steve aos olhos de Diane numa sequência belíssima e profundamente emocional que arrebata o espectador sem aviso prévio( para depois criar um nó na garganta irremediável que permanece até a última cena). Ainda assim, comparado aos filmes de Dolan a que assisti (Laurence Anyways/2012 e Tom à La Ferme/2014) esse é seu filme mais polido (ainda que volte à sua fixação com a figura materna da estreia em Eu Matei a Minha Mãe/2009) e com o diferencial de se distanciar da temática LGBT. Ganhador do Prêmio do Júri, multipremiado no Canadian Screen Awards e indicado pelo Canadá a concorrer uma vaga (náufraga) no Oscar, Mommy ainda consegue envolver o espectador com suas mudanças bruscas concomitantes ao do jovem protagonista. Dolan nunca esteve tão perto de criar sua obra-prima. 

Suzanne, Antine, Xavier e Anne: prêmio em Cannes. 

Mommy (Canadá/2014) de Xavier Dolan com Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément, Patrick Huard, Viviane Pascal e Alexandre Goyette. ☻☻☻

quinta-feira, 19 de março de 2015

CATÁLOGO: Instinto Selvagem I e II

Sharon e Michael: quebrando paradigmas. 

De vem em quando me deparo com as reprises de Instinto Selvagem na TV e confesso que nunca consegui assistir ao filme por inteiro desde o seu lançamento. Chega a ser interessante como, ainda sendo um filme incandescente, existe um bocado de elementos cafonas no filme que ajudam a compor sua atmosfera de suspense sexy (ou thriller erótico, gênero que virou febre depois dele). Prova de que sua mistura funciona é que a continuação tardia, quis ser mais elegante e tornou-se um grande fracasso. O primeiro Instinto Selvagem criou grande alvoroço pelas cenas tórridas de sexo, defendidas por um elenco que se atraca com a mesma facilidade com que outros atores lacrimejam. Mais curioso ainda é imaginar que a protagonista Catherine Tremell foi um dos papéis mais rejeitados da década de 1990, oferecido anteriormente às louras consagradas do porte de Kim Basinger e Michelle Pfeiffer, mas nenhuma delas viu que uma escritora bissexual suspeita de assassinato poderia ter efeito positivo em suas carreiras. O papel acabou ficando com a então desconhecida Sharon Stone, que incorporou o papel de Catherine com unhas e dentes, construindo algumas das cenas mais marcantes do final do século XX. Seu par, Michael Douglas, que vive o detetive Nick Curran, estava mais preocupado em apresentar boa forma aos 52 anos (e aproveitar o efeito de todo marketing que seu conhecido vício em sexo poderia gerar para o filme). O diretor Paul Verhoeven, ancorado pelo roteiro de Joe Eszterhas, flerta o tempo inteiro com o universo trash. A cena de abertura é uma cena de sexo que termina em morte (e adicionando um picador de gelo ao imaginário erótico da década de 1990), a cena mais falada do filme é uma reveladora cruzada de pernas e todas as mulheres são suspeitas de ser a tal assassina misteriosa (tornando todas as cenas de sexo em assassinatos iminentes). No entanto, o foco da câmera é a química erotizante entre Sharon e Michael em personagens ambíguos. Ela é a suspeita sociopata que curte brincar com o psicológico de quem cruza o seu caminho, ele é o policial com pendências complicadas e que está disposto a correr o risco de morrer pela loura sedutora. Entre os dois tem um bando de policiais babões (desprovidos de diálogos inteligentes) e uma psicóloga com cara de boazinha, louca por Nick e estressada até o último fio de cabelo (Jeanne Triplehorn). O mérito de Instinto Selvagem foi mandar às favas o conservadorismo americano, com nudez, sexo, bissexualismo, gays, lésbicas, drogas num jogo doentio movido entre Catherine e o próprio espectador. Como resistir ao olhar predatório de Catherine sempre que avista sua presa? Pela atuação Sharon foi alçada ao posto de estrela e indicada ao Globo de Ouro de atriz dramática, e poderia ter figurado no Oscar pela forma como devora uma personagem bem diferente dos pequenos papéis bobos que fizera até então. Bela e talentosa, Hollywood usou sua sexualidade ao máximo, mas quando a atriz quis ser algo mais (motivada pela indicação ao Oscar de atriz por Cassino/1995), passou a ser ignorada pelos estúdios. Ela tentou voltar ao topo com Instinto Selvagem 2 (2006), mas seu esforço foi inútil. Dirigido pelo irregular Michael Caton-Jones, o filme pode até funcionar como suspense, mas está longe de honrar o rebuliço que o original causou em 1992. Orquestrado como um filme independente do anterior, o filme resgata Catherine como suspeita de assassinato e seu passado a condena mais do que a do policial que cuida do caso, o aparentemente certinho Michael Glass (David Morrissey). As cenas de sexo são comportadas, as reviravoltas um tanto sem sentido e o casal não tem a química necessária - embora Sharon interprete Catherine com a mesma desenvoltura de vinte e quatro anos atrás. Enquanto Instinto Selvagem marcou época com sua ousadia kitsch, sua sequência foi destinada ao esquecimento (e a carreira da estrela por pouco não foi pelo mesmo caminho). A carreira de Stone concentra-se atualmente em filmes de pequeno orçamento sem grande projeção - e em breve ela tentará a sorte na televisão. De vez em quando o filme volta à pauta da atriz em entrevistas em que revela detalhes como não saber que sua antológica cruzada de pernas seria filmada (e mostrada) daquele jeito - ou seja, o filme de Paul Verhoeven ainda se tornou folclórico.

Instinto Selvagem 2: destinado ao esquecimento. 

Instinto Selvagem (Basic Instinct - EUA/1992) de Paul Verhoeven com Michael Douglas, Sharon Stone, Jeanne Tripplehorn, Stephen Tobolowksy e Wayne Knight. ☻☻☻

Instinto Selvagem II (Basic Instinct II - EUA/2006) de Michael Caton-Jones com Sharon Stone, David Morrissey, David Thewlis, Hugh Dancy e Charlotte Rampling. ☻

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pódio: Jennifer Aniston

Bronze: a chefe tarada. 
3º Quero Matar Meu Chefe (2011)
Depois de viver tantos papéis de moças comportadas, Jennifer quis provar que daria conta de uma mulher mais pervertida em seu currículo. Na pele da dentista Julia Harris ela provoca risadas por ser o contrário de tudo a que estamos acostumados a ver Jennifer interpretar. A doutora que assedia o funcionário descaradamente (arquitetando planos sexuais mirabolantes) funcionou tão bem que esteve presente na recente sequência desse besteirol de elenco essencialmente masculino. Jennifer nunca apareceu tão sexy numa tela de cinema. 

Prata: a mulher insatisfeita. 
2º Por um Sentido na Vida (2002)
Numa época em que todos os seus colegas do seriado Friends procuravam um lugar ao sol de Hollywood, Jennifer aceitou viver a personagem insatisfeita do longa de Miguel Arteta. A caixa de supermercado que trai o marido com um rapaz mais novo, foi visto por alguns como uma releitura de Madame Bovary para o século XXI e rendeu elogios para a atriz (que chegou a ser uma das pré-candidatas ao Oscar). A indicação não veio, mas Aniston aprendeu que sempre que quisesse fugir dos personagens cômicos, o cinema independente seria um porto seguro. 

Ouro: a dolorida. 
1º Cake (2014)
Aos 45 anos, Jennifer quis provar que era uma atriz madura, capaz de lidar com personagens complicadas. Para isso, perdeu o glamour em uma personagem marcada por cicatrizes e dores. As tragédias pessoais de Claire lhe proporcionam um olhar bastante cáustico sobre a a vida (e contamina sua relação com a terapeuta, com o ex-marido, com os amigos, com a empregada...). Aniston capricha nos dramas da personagem, mas não perde a oportunidade de provar que seu timing cômico faz a diferença em uma personagem difícil. Indicada ao Globo de Ouro e ao SAG pela atuação, só faltou o Oscar reconhecer seu trabalho. 

Na Tela: Cake

Jennifer: dores, cicatrizes, fantasmas e humor negro. 

Pobre Jennifer Aniston. Desde que Cake foi exibido no (cada vez mais influente) Festival Internacional de Toronto, começaram as especulações sobre a sua indicação ao Oscar 2015 por enfrentar o papel de uma mulher mais complicada do que costuma viver em seus filmes. Com cicatrizes no rosto, dores constantes e obcecada com o suicídio de uma colega de terapia, sua indicação começou a ser cavada ali. Depois vieram prêmios por sua atuação em alguns pequenos festivais, elogios da crítica e as preciosas indicações ao prêmio de atriz dramática no Prêmio do Sindicato dos Atores (SAG) e ao Globo de Ouro, a partir daí, sua indicação era tida como certa - mas no fim das contas, Marion Cotillard surpreendeu todo mundo sendo indicada por Dois Dias, Uma Noite/2014. Não vou entrar no mérito de qual delas merecia mais a indicação, mas posso abordar como uma campanha equivocada pode comprometer o que poderia ser o momento alto da carreira de uma atriz bastante popular. Aniston é, em sua essência, uma comediante e isso torna o olhar sobre suas atuações visada por uma lente quase intransponível aos olhos de quem acompanhou sua carreira desde os tempos em que vivia Rachel do seriado Friends (1994-2004). Aniston já demonstrou que tinha dotes dramáticos em Por Um Sentido na Vida/2002 (e o aposto de Cake: Uma Razão para Viver prova o quanto carece de criatividade a divulgação de seus filmes mais sérios pelo mundo), mas queria mais e, talvez por conta disso, Cake foi vendido desde o início como um drama. No meu humilde ponto de vista não chega a tanto, o filme teria feito uma campanha melhor se fosse vendido como uma comédia dramática ou, melhor ainda, uma comédia de humor negro, já que Aniston dá conta de sua personagem sem abrir mão de seu timing cômico, que é aqui utilizado com maestria na construção de uma personagem amarga, mas que consegue pontuar seus comentários ácidos com toques de humor, ainda que cáustico. No entanto, se considerarmos que é o drama pesadão que querem nos convencer que é, Aniston parece traída (ironicamente) pelo seu próprio talento lapidado por anos em comédias que a subestimam como atriz. Só para ter uma ideia de onde quero chegar, Aniston recebeu mais elogios do que Amy Adams por Grandes Olhos (que terminou vencedora na categoria de atriz de comédia ou musical no Globo de Ouro), que também ficou de fora do Oscar. Penso que se os produtores tivessem feito a opção por valorizar o que Cake realmente é (uma comédia de humor negro), Jennifer teria levado o prêmio de atriz de comédia para a casa com facilidade (e cravado com mais força sua vaga no Oscar). O filme do diretor Daniel Barnz possui equilíbrio em seus elementos dramáticos e cômicos, o que não desmerece em nada o resultado final, especialmente pelas atuações afiadas do elenco. Claire Bennett (Jennifer Aniston) possui sua cota de tragédias pessoais para lidar e que conhecemos aos poucos. Além das cicatrizes e dores constantes, a personagem precisa lidar com alguns fantasmas pessoais  - incluindo o de uma colega suicida da terapia  (vivida por Anna Kendrick), de quem acaba aproximando-se do marido (Sam Worthington). Para lidar com o mundo, Claire conta com a ajuda de Silvana (a excepcional Adriana Barraza de Babel/2006) que é um misto de empregada, mãe e amiga colega de aventuras (que nem sempre saem como o previsto). Aniston dá conta de uma personagem complexa, sem perder a expressão da dor física que reflete muito a dor de uma perda irreparável (e que nem o vício em remédios consegue aliviar), porém, a atriz consegue criar diferentes nuances para essa mulher que poderia ser considerada apenas uma chata. Aniston abraça a dor, a rabugice, o desespero e quase loucura da personagem sem perder a esperança soterrada diante de tudo isso. Sua química com Adriana Barraza é bastante crível e compensa os tropeços do roteiro que tornam algumas situações dispensáveis. Mesmo que as intenções de Jennifer Aniston ao embarcar num projeto desses tenham naufragado, ela conseguiu provar que merece papéis de gente grande, afinal, aos 45 anos, ela tem plena consciência que não pode bancar a mocinha romântica e atrapalhada para sempre. Sua atuação é de fato um avanço na carreira e, ainda, coloca a Academia em dívida com ela nos próximos anos (resta à moça saber capitalizar esse momento).

Adriana e Jennifer: esquecidas no Oscar.

Cake: Uma Razão Para Viver (Cake/EUA-2014) de Daniel Barnz com Jennifer Aniston, Adriana Barraza, Anna Kendrick, Sam Worthington, Felicity Huffman, Lucy Punch, Chris Messina e William H. Macy. ☻☻☻

quarta-feira, 11 de março de 2015

Na Tela: O Amor é Estranho.

Lithgow e Molina: casal exemplar. 

Esse ano aconteceu algo muito interessante no Independent Spirit Awards, a premiação voltada somente para os indies - e é considerada o Oscar das pequenas produções - teve quatro de seus cinco concorrentes da categoria de melhor filme indicados ao Oscar de Melhor Filme do Ano: Boyhood, Birdman, Selma e Whiplash concorreram em ambas as premiações (que antes eram vistas como diametralmente opostas). O único que ficou de fora da festa da Academia foi esse O Amor é Estranho, filme que entra em cartaz essa semana no Brasil, mas que já podia ser conferido em pré-estreias e alguns festivais. O ISA indicou o longa a outras três categorias (roteiro, melhor ator para John Lithgow e ator coadjuvante para Alfred Molina) e poderia ser lembrado pelos votantes da Academia se não fosse a abordagem de sua temática com tanta naturalidade. Mais uma vez o diretor Ira Sachs volta sua câmera par um relacionamento homoafetivo, mas diferente do que fez em Deixe a Luz Acesa (2012) optou por uma linguagem contida, levemente cômica, nada tórrida e bastante afetiva de seu casal masculino. O resultado é um filme que mostra um casal gay maduro e bem resolvido, mas que poderia ser trocado por um casal heterossexual sem que afetasse os pilares da trama. Ao mostrar seus protagonistas distante dos estereótipos, Sachs se beneficia da universalização do desconforto vivido por eles perante o fato de ficarem sem teto. Embora não exista uma enfatização do preconceito contra os homossexuais, O Amor é Estranho tem sua trama desencadeada por um ato preconceituoso amparado pelos dogmas religiosos. Embora o roteiro não levante polêmicas, é justamente quando Ben (Lithgow) e George (Molina) resolvem se casar (depois de 39 anos vivendo juntos) que George perde o seu emprego de professor de música numa tradicional escola católica de Nova York. Todos na escola sabiam que George e Ben formavam um casal, mas o medo do escândalo muda drasticamente a vida do casal. Curioso a partir daí, Sachs coloca os dois dependendo dos convidados da cerimônia - que elogiavam tanto os dois como amigos, parentes e símbolo de amor e união... mas agora, quando dependem da ajuda a situação muda de figura. Os dois acabam tendo que viver separados, George vai morar com um amigo vizinho que tem sempre a casa cheia e barulhenta - o que atrapalha o seu sossego. Já Ben vai morar com um sobrinho (Darren E. Burrows) e acaba atrapalhando a esposa dele (vivida por Marisa Tomei) que é escritora (e fica impaciente sempre que Ben busca uma conversa e atrapalha o seu processo de escrita), isso sem falar no filho do casal, Joey (Charlie Tahan) que tem que dividir o quarto com aquele senhor de setenta e poucos anos a contragosto. Os conflitos entre os personagens são construídos de maneira branda pelo diretor, que sem escândalo destrincha a estranha sensação de ser um incômodo. O elenco está muito bem em suas atuações naturalistas e conseguem ser bastante convincentes, especialmente Lithgow e Molina que convencem como o casal que deve enfrentar um grande desafio - que curiosamente consiste em viver separado depois que se casam. Fazia tempo que John Lithgow não recebia um papel tão consistente e que lhe proporcionasse uma atuação tão emocional, da mesma forma, Alfred Molina está ainda melhor em sua inconformidade silenciada pela situação que atravessam. Quando estão em cena esquecemos até algumas superficialidades (como na abordagem das implicâncias da escritora temperamental com Ben ou o final doloroso dos protagonistas que quebra o clima do filme).  Ainda assim, o texto que Ira Sachs deixa nas entrelinhas consegue ser bastante interessante num mundo repleto de sensacionalismo. 

O Amor é Estranho (Love is Strange/EUA-França-Brasil-Grécia/2014) de Ira Sachs com John Lithgow, Alfred Molina, Marisa Tomei, Darren E. Burrows, Charlie Tahan, Eric Tabach e Cheyenne Jackson. ☻☻☻☻

terça-feira, 10 de março de 2015

CATÁLOGO: O Quarto do Pânico

Kristen e Jodie: dupla em sintonia perfeita. 

Kristen Stewart deve ser uma das jovens atrizes mais espinafradas da história de Hollywood, o tipo de caso em que todo mundo adora falar mal. No entanto, nem sempre foi assim. Se aos 24 anos a moça busca o reconhecimento em  produções independentes, quando ganhou fama em 2002, ao protagonizar O Quarto do Pânico ao lado de Jodie Foster, Kristen era considerada um dos nomes mais promissores de Hollywood. Eu poderia especular horas sobre o que teria acontecido com o talento da mocinha adolescente de visual andrógino, mas basta dizer que se ela tinha algum crédito, a saga Crepúsculo tratou de enterrá-lo. Visto hoje, Quarto do Pânico não deixa de ser uma obra peculiar na carreira do cineasta David Fincher. Depois de radicalizar com Clube da Luta, ele queria pegar mais leve nesse filme onde mãe e filha lutam pela sobrevivência escondidas num quarto especial - projetado para protegê-las dos bandidos que invadiram a casa para qual acabaram de se mudar. O problema é que com a mudança recente elas não tiveram tempo de abastecê-lo com mantimentos ou uma linha telefônica para se comunicar com o mundo exterior. Ambientado em apenas um cenário, Fincher abusa de seus maneirismos com a câmera para tornar o suspense mais dinâmico e alcança seu objetivo com ajuda das atuações de suas protagonistas femininas, que apresentam uma sintonia bastante crível de mãe e filha. Fincher sempre dizia em entrevistas que O Quarto do Pânico difere de seus outros filmes porque não é um "film", mas um "movie", ou seja, algo muito mais voltado para o entretenimento do que para a arte. No entanto, o filme se beneficia das referências hitchcockianas, especialmente por fazer com que o cômodo do título exale segurança e perigo ao mesmo tempo, isso sem contar a protagonista feminina (e loira) fragilizada (por um doloroso divórcio) que aos poucos descobre um destemor que ela mesmo desconhecia. Jodie Foster dá conta do personagem com uma facilidade impressionante (e vale lembrar que o papel era de Nicole Kidman, antes dela quebrar uma costela nas filmagens de Moulin Rouge/2000) e Kristen funciona como ótima parceira de cena (como o momento em que a diabetes de sua personagem quase coloca tudo a perder). Entre os vilões Forest Whitaker faz o mesmo de sempre, Dwight Yoakam está estranho (como sempre) e Jared Leto sofre fisicamente como seu Angelface em Clube da Luta sendo o vilão mais interessante em cena. Simples em sua essência, mirabolante em sua forma e claustrofóbico em seu suspense, O Quarto do Pânico foi o último filme de David Fincher antes dele criar obras para ser levado a sério em premiações como O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), A Rede Social (2010)  e o recente Garota Exemplar (2014).

O Quarto do Pânico (Panic Room/EUA-2002) de David Fincher com Jodie Foster, Kristen Stewart, Forest Whitaker e Jared Leto. ☻☻☻