domingo, 22 de novembro de 2015

APOSTAS PARA O OSCAR 2016 - CAPÍTULO III

Spotlight
Há quem aponte esse drama jornalístico dirigido por Thomas McCarthy como o atual favorito ao Oscar 2016, por outro lado, existem aqueles que consideram que o filme passa longe da eficiência dos clássicos do gênero. Ainda que divida opiniões, Spotlight promete polêmicas ao abordar uma investigação jornalística sobre casos de pedofilia na igreja católica. Baseado numa matéria premiada no começo dos anos 2000, o filme tem um elenco que impressiona: Michael Keaton (em ótima fase), Rachel McAdams, Mark Ruffalo, Stanley Tucci e John Slattery. 

Brooklyn 
John  Crawley é um diretor britânico que recebe cada vez mais atenção - e parece que esse ano ele acertou em cheio com essa adaptação do livro de Colm Tóibín sobre uma jovem irlandesa (Saoirse Ronan) que se muda para os EUA nos anos 1950, precisamente no bairro do Brooklyn. Lá ela irá se envolver com um bombeiro de origem italiana (vivido por Emory Cohen) enquanto tenta se adaptar à nova realidade. O filme, com roteiro de Nick Hornby, colhe muitos elogios pela atuação de sua jovem estrela (já indicada ao Oscar aos doze anos por Desejo e Reparação/2007).

Joy
Nunca subestime o fôlego de um filme de David O. Russell. O diretor que mais cravou indicações ao Oscar nos últimos cinco anos (foram vinte e cinco indicações com três filmes lançados) conta agora a história real de Joy Mangano (Jennifer Lawrence em sua terceira parceria com o diretor), que conciliou sua vida de mãe solteira e inventora para se tornar uma das empreendedoras mais bem sucedidas dos Estados Unidos. Poucos viram o filme que é mantido a sete chaves pelo diretor, mas o elenco promete não decepcionar (conta ainda com Bradley Cooper, Robert DeNiro, Isabella Rossellini, Diane Ladd e Virginia Madsen). 

Sicario
Enquanto isso, o canadense Denis Villeneuve (indicado ao Oscar de filme estrangeiro pelo seu impressionante Incêndios/2010) tenta chamar a atenção da Academia pela segunda vez com esse filme (em cartaz no Brasil) sobre uma ação ambiciosa da CIA para destruir um chefão do tráfico de drogas mexicano. Em meio à ação, uma agente do FBI (Emily Blunt) irá testar seus limites morais e éticos. O Oscar não tem dedicado muita atenção a filmes do gênero, mas vai que... no elenco ainda estão Josh Brolin e Benicio Del Toro. 

Love & Mercy 
Aclamado como o filme mais pop no páreo desse ano, essa cinebiografia de Bryan Wilson, vocalista do antológico Beach Boys, coleciona cada vez mais admiradores pela forma como conta a trajetória de um ícone da música. Partindo do relacionamento com o pai abusivo, passando pelas excentricidades no processo criativo, o uso de drogas e o relacionamento com uma banda que não entendia todas as suas intenções, o filme de Bill Pohlad traz Paul Dano e John Cusack encarnando o músico em fases distintas de sua vida. O elenco ainda traz Paul Giamatti e Elizabeth Banks em papéis importantes na vida de Wilson. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PL►Y: Invencível

O'Connell: torturas em excesso comandadas por Angelina Jolie. 

Faz tempo que Angelina Jolie anuncia que irá se afastar da carreira de atriz, tanto que atua cada vez menos. A esposa de Brad Pitt anda cada vez mais interessada em firmar-se como cineasta. Para isso já caminha para seu terceiro longa metragem atrás das câmeras. Sua estreia em Na Terra de Amor e Ódio (2011) não empolgou público, crítica ou distribuidores, mas deixou evidente suas ambições com doses consideráveis de pretensão. Ano passado ela lançou seu segundo filme como diretora, a produção foi cercada de nomes de prestígio (o roteiro era dos irmãos Coen e a produção assinada pelo marido) e enriquecida com inúmeros comentários que pareciam colocá-lo entre os favoritos ao Oscar. É verdade que o filme concorreu em três categorias (fotografia, mixagem de som e edição de som), mas nada que empolgasse os envolvidos. Jolie não fez um filme ruim, mas carente de estilo. Sua linguagem é clássica demais (embora apele por embaralhar os tempos da narrativa) e sua história descamba para o patriotismo que concorreu diretamente com as qualidades ambíguas de American Sniper de Clint Eastwood (que concorreu a seis estatuetas, incluindo melhor filme). Invencível conta a impressionante história de Louis Zamperini (o ótimo Jack O'Connell demonstrando ter fôlego para astro), um rapaz de origem italiana, que torna-se atleta e recordista olímpico para pouco depois servir na Segunda Guerra Mundial, passar 45 dias num bote em alto mar, sendo resgatado por japoneses e sofrer tipos variados de tortura. Não é difícil perceber porque a vida de Zamperini virou filme, tão pouco o interesse de Jolie contar uma história de superação tão comovente, no entanto, a diretora inexperiente opta por alguns recursos que soam estranhos. Não consigo entender, por exemplo, o motivo do filme gastar tanto tempo esmiuçando as violências sofridas pelo protagonista (dando-lhe mais de duas horas de duração que mereciam ser mais enxutas), das inúmeras cenas em que apanha pelas mãos do cabo Watanabe (o andrógino Takamasa Ishihara, mais conhecido como o astro pop japonês Miyavi), passando pela parte em que Louis é socado por cada um dos prisioneiros de guerra que convivem com ele, ressalta menos a força de seu personagem e mais um certo sadismo. Para além do olhar maniqueísta sobre uma maldade "quase natural dos japoneses", o filme em momento algum menciona questões sobre o ataque a Hiroshima e Nagasaki, que seria crucial para o fim da guerra e a libertação dos personagens. Deslizes como esse tornam o filme menos interessante do que deveria, perdendo a oportunidade de aprofundar ainda mais as loucuras da guerra e a crueldade humana. Resta ao espectador apreciar a boa atuação de O'Connell e seu algoz Miyavi, numa química estranha, quase sadomasoquista que parece atrair muito a diretora. Ao que parece, as ambições de Jolie como cineasta encontraram terreno em Hollywood, mas depois de um trabalho aparentemente exaustivo, a atriz resolveu simplificar em seu próximo filme, À Beira Mar não terá cenas de guerra ou torturas, mas se dedicará a captar a crise de um casal vivido por Jolie e Pitt. 

Invencível (Unbroken/EUA-2014) de Angelina Jolie com Jack O'Connell, Domhnall Gleeson Miyavi, Jai Coutney, Garrett Hedlund e Finn Witrock. ☻☻

domingo, 15 de novembro de 2015

NªTV: Les Revenants - 2ª Temporada

Les Revenants: mistérios que continuam. 

Depois de longa demora, finalmente chega ao ar no Brasil (pelo Canal MAX) a segunda temporada da minha série favorita do ano passado, a francesa Les Revenants. De lá para cá, a temática da série recebeu uma versão genérica confusa (Ressurrection) e uma versão americana mais literal e sem alma (The Returned) que só comprovam seus méritos. Aos fãs resta o consolo de que os franceses esperaram muito mais para conhecer novos acontecimentos da cidade onde os mortos voltaram a conviver com os vivos sem qualquer explicação. A primeira temporada estreou na França em novembro de 2012 e terminou sem pretensões de criar uma segunda. Com o sucesso mundial da série, a segunda temporada ganhou forma até que seu elenco e roteirista estivessem disponíveis -  o que demorou mais do que o esperado. Portanto, não sinta-se esquisito que você se sentiu um tanto deslocado nos dois primeiros episódios que já foram ao ar por aqui, parece que o efeito mundial foi esse mesmo. A segunda temporada tem sua história ambientada seis meses depois dos fatos do último episódio da primeira. Nesse período, houve uma enchente na cidade, fazendo com que alguns habitantes falecessem, outros fugissem e existisse uma divisão entre duas partes da cidade, em uma delas vive os moradores que se recusaram a partir, da outra estão os mortos que retornaram. Entre um grupo e outro, está um grupo de militares que tentam reorganizar a cidade e entender os boatos sobre os mortos que voltaram por ali. Não dá para contar muita coisa para não estragar o clima de mistérios e surpresas que a série conserva para seus novos oito episódios. Mas vale dizer que Adele (Chlotilde Hesme) gera um filho de seu ex-noivo Simon (Pierre Perrier), que ressuscitou na temporada anterior (mais de uma vez, registre-se) e que ninguém sabe os mistérios que ronda o bebê. Além disso, o pequeno Victor (Swann Nambotin, que cresceu bastante de uma temporada para a outra), que voltou após mais de trinta anos morto, continua sendo cuidado por Julie (Céline Sallette), - embora novas surpresas sobre sua família sejam reveladas nessa nova temporada. Alguns personagens parecem ter morrido na enchente e outros ainda procuram os desaparecidos, mas novas revelações devem acontecer ao longo dos episódios. Chama a atenção, que os produtores investiram numa linguagem visual diferente da utilizada anteriormente, com muitos planos abertos e mais longos gerando cenas quase documentais, deixando os expectadores com a sensação de que muita coisa mudou enquanto estivemos fora daquele universo (tal e qual os mortos que ainda devem voltar). O clima fúnebre, misterioso e melancólico continua crescendo gradativamente - e seu foco sobre as emoções de vivo e mortos no retorno ao convívio com seus entes queridos continua funcionando. O criador Fabrice Gobert já começou a dar forma à uma nova temporada na série criada a partir do filme homônimo (lançado por aqui com o nome de Eles Voltaram/2004) de Robin Campillo. Resta pedir para que não demore tanto para chegar à nossa TV. 

Les Revenants - 2ª Temporada (França - 2015) de Fabrice Gobert com Chlotilde Hesme, SWann Nambotin, Céline Salette, Pierre Perrier, Guillaume Gouix e Ana Girardot. ☻☻☻☻

CATÁLOGO: Por uma Vida Menos Ordinária

Ewan e Cameron: romance esquisito. 

A transição de cineastas europeus para o cinema hollywoodiano não costuma ser fácil, mesmo porque o estilo muitas vezes precisa ser traduzido para uma indústria de traços tem específicos, havendo dificuldades para ficar do jeito que o diretor quer ou do jeito que o produtor deseja. Se o diretor tiver sorte (e contar com um estúdio que banque sua visão das coisas) a transição pode ser menos traumatizante, caso contrário, sua carreira pode ficar por um fio. Essa foi a sensação que os fãs tiveram quando se depararam com Por Uma Vida Menos Ordinária, primeiro longa metragem com dinheiro americano do escocês Danny Boyle -  responsável por duas pérolas do cinema independente europeu dos anos 1990 (e se você ainda não viu Cova Rasa/1994 ou Trainspotting/1996, você está esperando o quê?) - que, aparentemente, desejava uma guinada na carreira quando resolveu fazer uma comédia romântica temperada com humor negro (recurso muito bem utilizado em seus filmes anteriores). O filme conta a história de Robert (Ewan McGregor), um faxineiro que perde o emprego quando seu patrão troca seus serviços pelos de uma máquina. Revoltado, e desempregado, ele resolve sequestrar a filha patricinha do magnata, a problemática Celine (Cameron Diaz). O relacionamento dos dois segue a velha cartilha das comédias românticas, os dois irão se desentender até o fim do filme, até que percebam que existe um certo interesse mútuo entre eles (mas o melhor momento do casal é a cena que se inspira nem antigos musicais). O filme demora para engrenar e está bem longe do ritmo estiloso que tornou Boyle conhecido mundialmente, deixando como toque mais original a dupla de anjos da pesada O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) que tenta manter o casal junto (a qualquer preço) seguindo métodos pouco ortodoxos (reza a lenda que o casal celestial foi concebido originalmente como uma dupla de matadores profissionais, mas na última hora, o diretor resolveu colocá-los como anjos adeptos do uso de violência). É verdade que o diretor capricha numa plasticidade moderninha vintage para ambientar os personagens, mantem a trilha sonora bacana como característica, mas perde pontos por nunca fazer um desenho competente dos personagens que sempre parecem um confusos no desenrolar da história. Robert e Celine contam com doses cavalares da dupla de atores para funcionar perante o público e pode até agradar se tivermos boa vontade com o típico jogo cênico de opostos que se atraem (ele é sonhador e escreveu um romance sobre a filha bastarda de Marilyn Monroe com John Kennedy e ela... bem... Celine parece um projeto de sociopata). Se o filme fez pouco sucesso na época, e tornou-se digno de pouca lembrança, vale conferir por ele marcar a despedida da parceria de Boyle com seu ator assinatura até então. Depois de três filmes juntos, o diretor e Ewan McGregor nunca mais trabalharam juntos. 

Por Uma Vida Menos Ordinária (Reino Unido -EUA/199) de Danny Boyle com Ewan McGregor, Cameron Diaz, Holly Hunter, Delroy Lindo e Stanley Tucci. ☻☻☻

sábado, 14 de novembro de 2015

§8^) Fac Simile: Ewan McGregor

Nosso repórter imaginário encontrou o ator Ewan McGregor numa festa à fantasia. Ewan acaba de comemorar vinte anos de casado com Eve Mavrakis, com quem tem quatro filhas. O ator aceitou responder cinco perguntas de nosso correspondente, nessa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) A sequência de Trainspotting, sai ou não sai?

Ewan Danny (Boyle) de vez em quando fala sobre isso, mas reclama que estamos muito bem para viver drogados quarentões. Vamos fazer um trabalho de piorar nossas vidas assim que ele mandar!

§8^) Vendo você vestido desse jeito não posso deixar de lembrar da época em que você era conhecido como "o peladão de Hollywood", por aparecer sem roupa em vários filmes: Trainspotting (1996), O Livro de Cabeceira (1996)...

Ewan Caramba! Nem me lembre dessa época...

§8^) ... O Beijo da Serpente (1997), Velvet Goldmine (1998)...

Ewan ... dia desses minhas filhas haviam encontrado um monte de fotos desse tempo! Na época eu não imaginava que as fotos estariam em evidência por tanto tempo... 

§8^) Eu ia perguntar se tinha algum motivo especial para você aparecer sem roupa em tantos filmes...

Ewan Puro exibicionismo. Sabe como é, queria ouvir as pessoas comentando. Sempre me elogiaram pelo meu talento e eu queria elogios por outra coisa. Talvez se eu não houvesse me despido tanto, já teria um Oscar na estante...

§8^) Voltaria a tirar a roupa em seus próximos filmes?

Ewan Talvez, mas acho que essa fase já passou e quem quiser me ver pelado é só procurar no Google. 

§8^) Esse negócio de ficar sem roupa vem da tradição escocesa de não usar cueca debaixo do kilt? 

Ewan Sempre lidei com naturalidade sobre a minha nudez, mas nunca tinha pensado nisso, mas é uma boa justificativa. Parece algo de resgate das origens... algo intelectual! Gostei! vou justificar assim da próxima vez! Mas não conta para as minhas filhas, ok? Você não faz ideia o que é ter cinco mulheres falando na sua cabeça!

PL►Y: Sangue Jovem

Ewan e Brenton: sem ter que fazer cara de bonzinho. 

Fazia tempo que o ator escocês Ewan McGregor não aparecia num papel desagradável. O astro que ficou conhecido como o sarcástico Alex de Cova Rasa (1994) e ficou famoso como o viciado em heroína Mark Renton de Trainspotting (1996) se dedica cada vez mais aos papéis de bom moço. Portanto, o maior atrativo desse filme australiano (que nem chegou aos nossos cinemas) é o fato do moço viver um ladrão, líder de gangue e tudo mais. Porém, não espere novidades durante a exibição. O filme gira em torno de um jovem presidiário chamado JR (Brenton Thwaites), que descobre que a vida na prisão não é fácil (principalmente pelo risco de ser violentado sexualmente). Sorte que ele cai nas graças de um grupo de detentos chefiados por Brendan Lynch (McGregor), que irá lhe oferecer alguma proteção num ambiente tão hostil. No entanto, a pena de JR é curta e ele logo sai da prisão, mas retorna para auxiliar na fuga de Brendan e seu bando numa cena um tanto inverossímil. Essa é apenas a parte inicial do filme, já que JR irá ajudar Brendan num plano que poderá render milhões de dólares. Enquanto o tal plano não aparece, JR se envolve com a amante de seu mentor, Tasha (Alicia Vikander). Não chega a ser uma história ruim, mas não existe grande novidade no que vemos na tela, parecendo que o diretor Julius Avery fez uma colagem de vários filmes de bandido (o filme de presídio, o amor bandido e o filme de assalto) sem muita animação ou criatividade - e prejudicado pela falta de química entre Brenton e Alicia. O jovem casal anda cotado em Hollywood atualmente, mas aqui aparecem frios feito gelo. Talvez por isso eu tenha considerado o filme arrastado e sem emoção, fazendo com que os atores tenham que se virar com os personagens unidimensionais (em geral sabemos muito pouco sobre eles, tornando difícil a identificação da plateia). Não existem cenas memoráveis, diálogos bem escritos, restando ao público apreciar como Ewan McGregor é desperdiçado em papéis menores ao seu talento. Ainda que não seja um grande papel, na pele de Brendan Lynch, Ewan parece respirar aliviado em não ter que fazer cara de bonzinho durante toda a filmagem - e acredite, isso faz a diferença.

Sangue Jovem (Son of a Gun/ Austrália-Reino Unido/2014) de Julius Avery com Ewan McGregor, Brendon Thwaites, Alicia Vikander e Matt Nable. ☻☻

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

CATÁLOGO: Deuses e Monstros


Ian e Brendan: criador e... criatura?

Espero que a má fase de Bill Condon tenha passado, afinal, depois de dirigir dois filmes memoráveis (Deuses e Monstros/1998 e Kinsey/2004) ele parece ter se tornado um mero operário de Hollywood, capaz de fazer (meio mais ou menos) o que lhe pedem (Dreamgirls/2006, Saga Crepúsculo/2012) de forma que até quando tentou voltar a ser relevante em O Quinto Poder/2013  sobre o Wikileaks,  a coisa desandou. A coisa parece ter melhorado com Mr. Holmes - filme que deve render uma indicação ao Oscar para Ian McKellen -  o que só comprova que Condon é bom quando se concentra nos dramas de seus personagens e deixa o apelo mais popular de lado. Deuses e Monstros foi seu terceiro filme para o cinema, mas o primeiro em que exibiu sua verve de autor, contando a história do criador da clássica imagem que temos na cabeça quando falamos de Frankenstein. Mary Shelley criou a história do personagem, mas foi o cineasta britânico James Whale (1889-1957), radicado nos Estados Unidos que criou a estética da criatura no filme Frankenstein (1931) - e, posteriormente, de sua noiva de cabelos em pé. Whale ficou famoso por criar filmes de horror bastante populares nos anos 1930 e sua história já era bastante interessante. Nascido em 1889 em uma família de metalúrgicos (profissão para qual não tinha o menor jeito), Whale serviu o exército durante a I Guerra Mundial e tornou-se prisioneiro de guerra em 1917, mas ao voltar para casa encontrou o caminho ao dedicar-se ao teatro nos anos 1920. A carreira em Hollywood veio somente na década seguinte. O filme de Condon concentra-se quando o cineasta já era idoso, precisamente no ano de sua morte, onde já estava de lado pela indústria e se recuperando de um AVC. Whale (vivido magistralmente por Ian McKellen) vive aos cuidados da mal humorada governanta Hanna (Lynn Redgrave, perfeita e indicada ao Oscar de coadjuvante!), além de cheio de interesses pelo novo jardineiro musculoso, Clayton Boone (Brendan Fraser). Pois é, Whale era gay num período em que essa palavra dava urticária na terra do cinema. Baseado na biografia O Pai de Frankenstein de Christopher Bram, o roteiro do próprio Condon (ganhador do Oscar de roteiro adaptado) tem seus maiores méritos em explorar a mente já confusa de Whale, onde lembranças do passado se misturam com o presente, construindo uma narrativa envolvente e complexa sobre a personalidade do biografado. É sensacional a forma como brinca com as semelhanças anatômicas de Brendan Fraser com Frankenstein (a cena que ele observa Boone e diz: "Você tem uma cabeça muito bonita" é antológica), além disso mantém a tensão sexual entre os dois personagens masculinos sempre de forma elegante, até o final delirante de cores fortes. É verdade que Condon exige de nós uma certa ingenuidade para acreditar que não houve um relacionamento amoroso entre Whale e seu jardineiro na vida real, mas isso é apenas um detalhe de um filme cheio de qualidades. Além da direção segura de Condon e do roteiro elaborado, o filme ainda se beneficia de uma sintonia perfeita entre seu trio de atores (pena que Brendan Fraser não soube aproveitar a deixa e dar uma guinada em sua carreira que hoje mostra-se acabada, uma pena já que aqui ele demonstra que tinha talento para além do carisma).  Deuses e Monstros é um filme interessante sobre um personagem pouco lembrado na história do cinema e que merece todo respeito, pena que não foi suficiente para a Academia engolir seus preconceitos, afinal, Ian McKellen é um dos atores abertamente homossexuais de Hollywood e lhe conferir o merecido Oscar de Melhor Ator daquele ano parecia demais - o prêmio acabou ficando com Roberto Benigni por seu meloso A Vida é Bela. Ano que vem a Academia terá a chance de se redimir com o ator, que é um dos meus artistas favoritos. 

Deuses e Monstros (Gods and Monsters/Reino Unido - EUA/1998) de Bill Condon com Ian McKellen, Brendan Fraser, Lynn Redgrave e Lolita Davidovich ☻☻☻☻

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

APOSTAS PARA O OSCAR - CAPÍTULO II

45 Anos (45 Years)
Um casal está prestes a celebrar seus 45 anos de casamento quando recebe uma notícia inesperada: uma antiga namorada dele é encontrada morta após anos desaparecida. Isso basta para que todos os anos juntos sejam postos sob nova perspectiva num jogo de sutilezas, olhares e silêncios sob a batuta do diretor Andrew Haigh. Tão intimista quanto elogiado, o filme já se encontra em cartaz no Brasil e ganha cada vez mais destaque pelas atuações dos veteranos Tom Courtenay (já indicado duas vezes ao Oscar) e Charlotte Rampling (que nunca foi indicada ao prêmio - e conta com minha torcida para esse ano). A dupla já levou para a casa os prêmios de melhor ator e melhor atriz no Festival de Berlim desse ano. 

Carol
Outra bela sintonia de elenco é vista nesse drama dirigido por Todd Haynes, que recebeu o prêmio de melhor atriz em Cannes/2015 para Rooney Mara (o que surpreendeu muita gente que considerava que o prêmio iria para Cate Blanchett). O filme conta o relacionamento da elegante Carol (Blanchett) que enfrenta o divórcio e conhece a jovem Therese (Mara). As duas ficam cada vez mais próximas quando uma divergência familiar ocorre. Baseado no livro de Patricia Highsmith, Haynes comprova seu gosto pelo tom refinado da narrativa e o valor de atrizes vigorosas sob sua batuta.

As Sufragistas (Sufragettes)
Atrizes com chances de serem indicadas é o que não falta nesse filme de forte cunho feminista dirigido por Sarah Gavron. Carey Mulligan, Meryl Streep e Helena Bonhan Carter juntam forças nessa história sobre a luta pelo voto feminino na Inglaterra. Baseado em fatos reais é o filme mais politizado da temporada e deve render indicações para pelo menos uma de suas atrizes. A mais cotada no momento é Carey Mulligan, mas nunca ignore o poder de Carter e, ainda mais, de Meryl Streep. Fora isso, o tema sempre chama atenção numa tela grande. 

Mr. Holmes 
Outro filme de alma inglesa no páreo do Oscar é esse longa simpático de Bill Condon, que marca seu reencontro com Ian McKellen - e tudo indica que o ator deverá ser indicado ao Oscar pela terceira vez. O filme é uma fantasia sobre a existência real de Sherlock Holmes e o acompanha no ano de 1947, quando está com 93 anos e vive numa casa remota no litoral ao lado de sua governanta (Laura Linney) e o filho dela, o pequeno Roger (Milo Parker, um achado). Lidando com problemas de memória e saúde debilitada, o filme tem a chance de reparar o mico que foi tirar o Oscar de Ian por seu magnífico trabalho em Deuses e Monstros/1998 - trabalhando com o próprio Condon. 

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)
Não tem jeito, todo filme de Quentin Tarantino é um evento e tem sempre os holofotes da mídia voltados para ele - o que facilmente se converte em indicações a prêmios. Mesclando vários faroestes clássicos, o filme conta a história de vários passageiros de uma diligência que são impedidos de continuar a jornada por conta de uma nevasca. Como se não bastasse, eles se tornam vítimas de um grupo de criminosos. No elenco estão Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh... tudo é superlativo (e imprevisível) quando se trata de Tarantino... mas diálogos inacreditáveis estão garantidos!

domingo, 8 de novembro de 2015

FILMED+: Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Depp e Carter: tortas recheadas de vingança. 

Penso que é sempre difícil para um diretor realizar um grande filme e realizar outro de mesmo quilate em seguida. Poucos são capazes dessa façanha, a grande maioria começa a cometer obras menores até que encontre o caminho novamente. Posso citar o exemplo de Tim Burton. É público e notório que ele é um dos poucos diretores americanos que criaram um universo próprio para seus filmes, mas desde que lançou sua adaptação de Sweeney Todd  o diretor tem decepcionado em seus lançamentos seguintes. Alguns vão dizer que as qualidades do macabro musical lhe deram combustível para um grande filme e que esperamos algo no mesmo patamar, outros dirão que Burton tornou-se preguiçoso nos últimos anos e outros dirão que Burton encontrava-se no auge de sua criatividade e talento quando fez o filme. Burton é um cineasta tão peculiar, que mesmo quando utiliza histórias de outras pessoas, é capaz de imprimir sua assinatura autoral e tornar completamente suas. Em Sweeney Todd (originalmente escrito por por Hugh Wheeler com música e letra do bamba Stephen Sondhein e montada a primeira vez em 1979 na Broadway) sua assinatura é evidente, especialmente na capacidade de surpreender e fazer um musical calcado em ódio, raiva e vingança. As letras são pura ironia e ganham, nas atuações de Johnny Depp (no que considero o seu melhor momento como ator até hoje) e Helena Bonham Carter, toda a alma que merecem para transformar o filme em uma obra relevante. Depp encarna o barbeiro Benjamin Barker, que volta à Londres em busca de vingança contra o homem que destruiu sua família, mas para isso, assume a identidade de Sweeney Todd. Para se vingar do Juiz Turpin (Alan Rickman) - que ainda mantem a filha de Barker prisioneira de seus desejos mais impuros - Todd, conta com a ajuda de Mrs Lovett (Carter), que vende em sua loja as piores tortas de Londres. Aos poucos os dois colocam em prática a vingança do barbeiro, que, fora de controle, irá vitimar várias várias pessoas. A estética sombria do filme é de encher os olhos, com seus figurinos extravagantes, cenários grandiosos e personagens que não conseguem esconder suas almas atormentadas em canções bizarras. Entre golpes de navalha, tortas de recheios suspeitos e jorros de sangue, Burton conta a história de um homem tão cego pelo ódio que nem perceberá quando o amor aparecer diante dos seus olhos. Cego pela vingança, Todd é valorizado pela atuação vigorosa de Depp, que não perde a dimensão humana de seu instinto mais sanguinário - e ele é acompanhado com grande competência pela Srª Burton, já que Helena Bonhan Carter apresenta aqui um dos seus melhores momentos na tela. O espetáculo é tão coerente que nada está fora do lugar, algo raríssimo para quem flerta com o exagero. Graças aos deuses do cinema, Tim Burton não é Baz Lurhman, e consegue criar um conjunto harmônico, visceral que trata a música não como um artifício, mas um instrumento narrativo tão forte quanto as imagens carregadas de dramaticidade que compõem o filme. 

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd - The Demon Barber of Fleet Street/ EUA-Reino Unido - 2007) de Tim Burton com Johnny Depp, Helena Bonhan Carter, Alan Rickman, Timothy Spall e Sacha Baron Coen. ☻☻☻☻☻