segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PL►Y: O Mistério de God's Pocket

Turturro e Hoffman: cidadezinha esquisita. 

John Slaterry ficou famoso com sua atuação na finada série Mad Men. Com seu charme de cabelos brancos, conquistou fãs entre o público feminino e masculino, além de cacife para dirigir cinco episódios do seriado onde vivia o conquistador Roger Sterling. John aproveitou que estava em alta e resolveu adaptar para as telas o livro de Peter Dexter, uma história cheia de possibilidades sobre um homicídio camuflado de acidente numa cidadezinha onde não há muita perspectiva de vida. God's Pocket (traduzindo: Bolso de Deus) é o tal lugar onde vive a voluptuosa Jeanie Scarpato (Christina Hendricks, colega de elenco de Slaterry em Mad Men) e seu atual marido, Mickey Scarpato (Phillip Seymour Hoffman em um dos seus últimos momentos na telona). Os dois moram numa casa suburbana com o filho de Jeanie, o projeto de delinquente Leon (o sempre estranho Caleb Landry Jones). Desde a primeira cena, o jovem não parece ser flor que se cheire e no trabalho, após provocar um dos colegas de serviço, o rapaz acaba morto. No entanto, quando a polícia chega, os colegas dizem que Leon morreu devido a um acidente.  O episódio servirá de ponto de partida para evidenciar a rede de relações da cidade, envolvendo um ladrão amigo de Mickey (John Turturro), um agente funerário (Eddie Marsan) e um jornalista renomado por escrever crônicas locais - que se torna responsável por cobrir o caso (papel de Richard Jenkins). Embora o filme comece promissor com a atmosfera sombria e fotografia desprovida de glamour, a expectativa de quem assiste vai diminuindo conforme o diretor deixa a atmosfera cada vez mais carregada, deixando tudo artificial perante os exageros na composição dos personagens. Carregando nos traços de uma comunidade um tanto sórdida, Slaterry se enrola no desenvolvimento da trama, se perdendo entre personagens que perdem seu aspecto curioso e se tornam cada vez mais distantes da promessa do início. Slaterry demonstra ambição na direção, mas ainda não tem a desenvoltura necessária para guiar seus atores durante a narrativa de um longa metragem, deixando a estranha sensação de que a narrativa ao invés de avançar, implode! O resultado carece de estilo e prova que um bom elenco não consegue salvar um roteiro esquemático, nem quando o diretor tenta exalar aquela atmosfera de filmes sobre pessoas comuns envolvidas com crimes da década de 1970. Enfim, Phillip Seymour Hoffman (falecido em fevereiro do ano passado), merecia uma despedida mais elaborada.  

O Mistério de God's Pocket (God's Pocket/EUA-2014) de John Slaterry com Phillip Seymour Hoffman, Christina Hendricks, John Turturro e Richard Jenkins. ☻☻

domingo, 29 de novembro de 2015

PL►Y: Encarcerado

Jerry e Ben: filho e pai presos um ao outro. 

Relações entre pai e filho já renderam filmes memoráveis, mas poucos possuem a tensão emocional de Encarcerado, afinal, o roteirista Johnatan Asser lava a roupa suja de um filho problemático com o seu pai ausente dentro da prisão - e o diretor David Mackenzie não tem medo de carregar nas tintas desse relacionamento que parece regrado por uma bomba relógio. Eric Love (Jack O'Connell) tem apenas dezenove anos, mas seu histórico repleto de agressividade e infrações é respeitável. Destinado a um presídio, sua fúria precisa ser domada para que as coisas não piorem para o seu lado (seja com os outros detentos ou com os policiais). Até esse ponto, o filme demonstra que não irá deixar de fora todos os elementos que já vimos em outros filmes do gênero, no entanto, a história ganha outras conotações quando Eric encontra no presídio o seu próprio pai, Neville (Ben Mendelsohn). Seu comportamento ainda mais estável com toda a carga de ressentimentos que existem entre os dois. É nessa dinâmica entre pai e filho que o filme consegue tornar-se original, mesmo quando os dois não estão juntos em cena, o diretor consegue manter o espectro de um sobre o outro a todo instante. Seja quando Eric participa de um grupo para domar sua agressividade (aconselhado pelo próprio pai), ou quando precisa lidar com a homossexualidade do pai dentro daquele universo repleto de testosterona. Os conflitos entre os dois crescem de tal forma que a tensão afeta os outros detentos e a própria administração da instituição, revelando ou escondendo interesses que ficarão mais evidentes ao final agressivamente catártico que se aproxima - o que não impede o diretor que criar belas cenas com seus personagens. Ben Mendelsohn alcança aqui seu melhor momento desde que ficou conhecido com, o também familiar, Reino Animal (2010) exalando uma paternidade conflituosa que parece mais atrapalhar do que ajudar seu rebento (que deseja tanto proteger naquele ambiente hostil). Por outro lado, o destaque fica mesmo com Jack O'Connell, aqui no seu primeiro passo rumo ao estrelato que chegou logo depois com Invencível (2014) de Angelina Jolie. O rapaz tem talento suficiente para dar conta de emoções complicadas sem perder uma certa ingenuidade que confere bastante humanidade ao seu personagem (sem parecer intimidado mesmo na já manjada cena de brigar peladão no chuveiro). Só pelos dois atores o filme já merece respeito. 

Encarcerado (Starred Up/Reino Unido-EUA/2013) de David Mackenzie com Jack O'Connell, Ben Mendelsohn, David Ajala, Rupert Friend e Frederick Schmidt. ☻☻☻☻

sábado, 28 de novembro de 2015

Na Tela: Sr. Holmes

Milo e Ian: dupla interessante. 

Já exibido em alguns festivais e mostras no Brasil, Sr. Holmes já pode ser visto nos cinemas. em torno do filme existe uma grande expectativa para gerar uma indicação ao Oscar a Ian McKellen, que dá corpo e alma para uma versão idosa do consagrado detetive Sherlock Holmes. O filme é assinado por Bill Condon, que finalmente lança um bom filme após uma década patinando em produções questionáveis. Condon e McKellen já trabalharam juntos em Deuses e Monstros (1998), filme que rendeu a primeira indicação ao Oscar de Ian e a estatueta de roteiro adaptado para o cineasta. Partindo da ideia de que é sempre interessante imaginar como seria o passar do tempo para personagens literários consagrados, o escritor Mitch Cullin lançou o livro "A Slight trick of the Mind", onde imagina como seria a velhice do personagem antológico de Arthur Conan Doyle no mundo real. Assim, Holmes já está aposentado e procura alguma lógica no mundo após ter visto duas Guerras Mundiais. Talvez por sentir-se derrotado perante os horrores que a humanidade foi capaz de realizar, Holmes vive recluso numa casa na costa da Inglaterra, onde convive apenas com a governanta (Laura Linney, em bom desempenho) e o filho dela, o pequeno Roger (Milo Parker, uma achado). Longe de querer ser um filme de Sherlock Holmes, o filme procura explorar a relação de Sr. Holmes com o pequeno Roger, enquanto a mente desse senhor de 93 anos começa a traí-lo a do menino está em ebulição criativa e curiosa. São nas conversas com Milo, que Holmes percebe a necessidade de passar sua história a limpo, do relacionamento com o amigo fiel Sr. Watson temos apenas um vislumbre e os casos começam a se confundir na mente do experiente detetive. O filme utiliza alguns elementos que remetem diretamente à atmosfera dos livros sobre o detetive, mas de forma a contemplar, como seria o olhar de Holmes sobre tudo o que aconteceu se ele realmente existisse. Ian McKellen está excelente em cena, atribuindo sutileza e inteligência ao personagem que recebeu versões mais modernas na última década, trata-se de um belo trabalho do ator que se beneficia de uma química excepcional com o novato Milo Parker, especialmente com a subtrama sobre abelhas e vespas, onde o menino demonstra ser um belo discípulo (do ator e do personagem). Ao contrário de suas produções anteriores, Bill Condon aposta na economia para conquistar o expectador e o resultado consegue ser melancolicamente envolvente graças a um tempero cômico. Trata-se do tipo de filme que não se tornará um grande sucesso de bilheteria, mas pode ficar na memória de quem embarcar nessa fantasia simples e bem construída. 

Sr. Holmes (Mr. Holmes/Reino Unido - EUA/2015) de Bill Condon com Ian McKellen, Laura Linney, Milo Parker e Hiroyuki Sanada. ☻☻☻

terça-feira, 24 de novembro de 2015

INDICADOS AO INDEPENDENT SPIRIT-2016

Tangerine: quatro indicações ao Independent Spirit.

Hoje foram divulgados os indicados ao INDEPENDENT SPIRIT AWARDS. A premiação do cinema indie americano torna-se cada vez mais um termômetro para o Oscar, já que com a renovação dos membros da Academia, muitos filmes costumam aparecer nas duas listas de indicados. Ano passado isso ficou ainda mais evidente quando quatro dos cinco filmes indicados ao prêmio de melhor filme do ISA estavam concorrendo também ao Oscar da mesma categoria (sendo o grande premiado em ambos o aclamado Birdman). Curiosamente o brasileiro Que Horas Ela Volta? ficou de fora da categoria de filme estrangeiro após sua premiação em Sundance - o que evidenciou ainda mais o húngaro Son of Saul como o favorito em língua estrangeira da temporada. Como era de se esperar, a premiação rompe paradigmas, indicando as atrizes trans de Tangerine em categorias femininas, a produção do Netflix Beasts of no Nation e Jennifer Jason Leigh como melhor atriz caodjuvante por Anomalisa. Vale lembrar que algumas produções que ambicionam uma indicação ao Oscar ainda não estrearam nos EUA e portanto, ficaram de fora dos indicados (como Joy e Hateful Eight). Os ganhadores do Independent Spirit serão anunciados no dia 27 de fevereiro de 2016. 

Melhor Filme
 Anomalisa
Beasts of No Nation
Carol
Spotlight
Tangerina

Melhor Direção
 Sean Baker, Tangerine
Cary Joji Fukunaga, Beasts of No Nation
Todd Haynes, Carol
Charlie Kaufman & Duke Johnson, Anomalisa
Tom McCarthy, Spotlight
David Robert Mitchell, Corrente do Mal

Melhor Atriz
 Cate Blanchett, Carol
Brie Larson, O Quarto de Jack
Rooney Mara, Carol
Bel Powley, O Diário de uma Adolescente
Kitana Kiki Rodriquez, Tangerine

Melhor Ator
Christopher Abbott, James White
Abraham Attah, Beasts of No Nation
Ben Mendelsohn, Mississippi Grind
Jason Segel, O Final do Tour
Koudous Seihon, Mediterranea

Melhor Roteiro
 Charlie Kaufman, Anomalisa
Donald Margulies, O Final do Tour
Phyllis Nagy, Carol
Tom McCarthy & Josh Singer, Spotlight
S. Craig Zahler, Bone Tomahawk

Melhor Atriz Coadjuvante
 Robin Bartlett, H.
Marin Ireland, Glass Chin
Jennifer Jason Leigh, Anomalisa
Cynthia Nixon, James White
Mya Taylor, Tangerine

Melhor Ator Coadjuvante
Kevin Corrigan, Results
Paul Dano, Love & Mercy
Idris Elba, Beasts of No Nation
Richard Jenkins, Bone Tomahawk
Michael Shannon, 99 Homes

Melhor Roteiro de Iniciante
 Jesse Andrews, Eu, Você e a Garota que vai Morrer
Joseph Carpignano, Mediterranea
Emma Donoghue, O Quarto de Jack
Marielle Heller, O Diário de uma Adolescente
John Magary, Russell Harbaugh, Myna Joseph, The Mend

Melhor Fotografia
 Beasts of No Nation
Carol
Corrente do Mal
Meadlowland
Songs My Brothers Taught Me

Melhor Documentário
 (T)error
Best of Enemies
Heart of Dog
The Look of Silence
Meru
The Russian Woodpecker

Melhor Filme Estrangeiro
 Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência
O Abraço da Serpente
Garotas
Mustang
O Filho de Saul

Melhor Filme de Iniciante
 The Diary of a Teenage Girl
James White
Manos Sucias
Mediterranea
Songs My Brothers Taught Me

Prêmio Robert Altman
 Spotlight

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

NªTV: Mr. Robot

Slater e Rami: tecnologia temperada com esquizofrenia. 

Ainda que repleto de feriados (ou talvez por isso mesmo), novembro tem sido um mês bastante exaustivo, deixando pouco tempo para esse humilde ser escrever no blog. Esse é o motivo pelo qual somente agora terminei de assistir a cultuada Mr. Robot (exibida por aqui no canal Space com o nome de Sociedade Hacker, a série ainda está disponível no site do canal). Forte candidata a melhor série do ano, o programa surpreendeu ao ser lançada pelo canal USA, famosa por produções otimistas que sempre ficam fora do radar da crítica e das premiações - aqui o tom é totalmente diferente. A série criada por Sam Esmail era inicialmente um filme, mas que (por motivos que especularei mais a frente) acabou sendo abortado e transformado em série (o que deixou espaço de sobra para deixar a trama ainda mais elaborada). A trama conta a história do gênio da informática Elliot Alderson (Rami Malek que sabe usa muito bem usar seu rosto de traços incomuns), que trabalha numa empresa de segurança digital dirigida por Gideon Goddard (Michel Gill) ao lado da amiga de infância Angela Moss (Portia Doubleday). Entre os clientes da empresa está o conglomerado ECorp, uma corporação que abrange vários segmentos do mundo moderno (internet, celulares, produtos de informática, cartões de crédito...) e que possui uma ligação infeliz com o passado de Elliotr e Angela, afinal, foi a empresa responsável pela morte do pai dele e a mãe dela. Desde o primeiro episódio, sabemos que, nas horas vagas, Elliot é um hacker habilidoso, que passa o tempo investigando a vida de quem cruza o seu caminho, fazendo alguns atos heróicos (e outros nem tanto) no que acredita colaborar na criação de um mundo melhor. Suas ações chegarão a outro patamar, quando entrar para um grupo de hackers liderado pelo misterioso Mr. Robot (Christian Slater) que quer destruir a ECorp. O que poderia ser somente sobre a execução de um plano, recebe camadas surpreendentes quando descobrimos que Elliot está longe de ser um sujeito estável. Viciado em morfina e indisciplinado com sua psiquiatra e medicamentos, ao longo dos dez episódios da primeira temporada teremos muitos segredos a descobrir na série que flerta o tempo inteiro com a esquizofrenia de seu protagonista. Desde os primeiros minutos você irá perceber as semelhanças da série com Clube da Luta (1999) de David Fincher (o que deve ter causado o cancelamento do filme de Sam Esmail) e a semelhança não aparece apenas no plano que perpassa toda a temporada, mas também nos enquadramentos, filtros utilizados, cortes nervosos e narrativa não linear. Mas as fontes cinematográficas não param por aí, referências à V de Vingança (2005) e Psicopata Americano (2000) também aparecem na construção de um universo extremamente coeso e surpreendente. Mr. Robot ainda possui uma coleção de outros personagens instigantes - destaque para o jovem executivo sueco Tyrell Wellick (um impressionante Martin Wollström) e o andrógino WhiteRose (B.D. Wong) - e uma trilha que impressiona pelo uso de sonoridades eletrônicas (quase sempre ruídos) que inserem o espectador nas emoções do protagonista, fazendo nos sentir dentro dele,  como se fosse uma amigo imaginário do atormentado Elliot.  Desde o primeiro episódio a série já diz a que veio - o que a tornou na grande surpresa na temporada 2015. Mr. Robot teve sua segunda temporada garantida antes mesmo de estrear após a comoção gerada por seu piloto em exibições teste  (sorte da crescente legião de fãs que se pergunta quem bateu naquela porta no final do último episódio). 

Martin Wollström: o "American Psycho" Sueco.

Mr. Robot (EUA/2015) de Sam Esmail com Rami Malek, Christian Slater, Martin Wollström, Portia Doubleday, Michel Gill, Ben Rappaport, Gloria Reuben, Stephanie Corneliussen e Frankie Shaw. ☻☻☻☻☻ 

PL►Y: A Entrevista

Diana Bang, Rogen e Franco: incidente diplomático por mais do mesmo. 

Assistir  A Entrevista foi um grande desafio para mim. Eu pensei que já estava acostumado com o humor chulo das comédias estreladas pela dupla Seth Rogen e James Franco, mas eu estava completamente enganado. Talvez eu tenha enjoado do estilo impresso pelos dois amigos, mas, por outro lado, penso que A Entrevista é um tanto preguiçoso - e seria um enorme fracasso se não fosse toda a polêmica envolvendo o ditador norte-coreano Kim Jong-un, que ameaçou até fazer uma guerra contra os Estados Unidos quando tomou ciência do filme. Não era para tanto, afinal, apesar da tonelada de palavrões e baixarias, o filme é bastante inofensivo para a política mundial. O filme começa interessante com o entrevistador Dave Skylark (Franco) conseguindo a confissão de que o rapper Eminem (vivido pelo próprio em participação especial) é homossexual. Seu produtor, Aaron Rapaport (Rogen) considera o "furo jornalístico" uma grande conquista, mas isso não altera em nada o desprezo que todos sentem pelo programa de Skylark - dedicado às futilidades do mundo das celebridades. Percebendo que não é muito conhecido pela credibilidade em abordar temas relevantes, Aaron tenta dar novo rumo à carreira televisiva quando Skylark descobre que é o entrevistador favorito de Jong-un (Randall Park). Eis que o produtor consegue uma entrevista com o ditador - o que chama a atenção da CIA que tenta aproveitar a oportunidade para matar o entrevistado. Apesar do clima de pastiche dos filmes de intriga internacional, as piadas seguem a linha dos outros filmes da dupla, mas com a diferença de James Franco aparecer mais idiota do que nunca e Rogen tentar manter a seriedade de seu personagem. Cenas sobre drogas e sexo aparecem muitas vezes, mas a graça acaba ficando com Randall Park, que apresenta uma química surpreendente com Franco enquanto seus personagens parecem ficar amigos entre um passeio de tanque e outro. No fundo o que torna o filme sem graça é a visão pouco original utilizada para fazer uma manjada troça da mídia, nesse ponto a imbecilidade exagerada de Skylark acaba deixando a desejar. 

A Entrevista (The Interview/EUA-2014) de Evan Goldberg e Seth Rogen com James Franco, Seth Rogen, Randall Park, Diana Bang e Lizzy Caplan. ☻

domingo, 22 de novembro de 2015

CATÁLOGO: As Duas Faces de Um Crime

Gere e Norton: roubando a cena. 

Existem filme que são salvos pela atuação de um ator. Ele torna-se responsável para que as pessoas vejam o filme (apesar de todos os defeitos que apresenta a sessão), torna-se a fonte de interesse para que as pessoas o assistam várias vezes e o motivo para que recomendemos aos amigos uma produção que por pouco seria medíocre. Quando estreou, As Duas Faces de Um Crime de Gregory Hoblit contava com o nome de Richard Gere no alto dos créditos para chamar a atenção do público. Ao seu lado estavam duas atrizes confiáveis (Laura Linney e Frances McDormand), mas que ainda não eram reconhecidas como deviam - mas que eram capazes de trazer credibilidade para as cenas mais estapafúrdias. Enquanto elas faziam o seu trabalho, Gere aperta os olhinhos, faz biquinho e faz charme para a câmera e justificar seu cachê milionário fazendo o público feminino achar que o filme vale o preço do ingresso ao vê-lo desemprenhar um advogado sem muita credibilidade. Portanto, a surpresa de ver um estreante mastigar todos os seus colegas de cena torna-se ainda mais saboroso. Edward Norton era um ilustre desconhecido quando foi escolhido para viver o suspeito de assassinato cujo o filme gira em torno. Um rapaz com cara, voz e jeito de uma ingenuidade insuspeita, mas que é acusado de matar um respeitado padre local sem motivos aparentes. O filme segue sem muito entusiasmo, com trilha jazzística, diálogos pouco elaborados, cortes rápidos e troca de olhares desprovidas de qualquer sutileza entre os atores, mas tudo muda quando se descobre que o ingênuo Aaron (Norton) sofre de dupla personalidade. A ideia poderia ser ridículo, mas são nesses momentos que percebemos como Edward Norton conseguiu (com um único filme) ser considerado um dos melhores de sua geração - e perceber o quanto todo o filme destoa de seu desempenho colossal. Chega a ser engraçado, ver Richard Gere imaginando que o filme é dele enquanto o novato rouba as cenas e provoca arrepios nas poucas cenas em que aparece. Ainda que tudo soe um tanto previsível, sempre que vejo o filme, agradeço a ele por ter revelado um ator que é capaz de fazer qualquer produção subir para outro patamar. Não por acaso, Edward Norton conseguiu aqui sua primeira indicação ao Oscar  - no caso, de ator coadjuvante, ele ainda seria indicado ao prêmio de melhor ator por American History X (1999) e coadjuvante por Birdman (2015). As Duas Faces de um Crime está longe de ser um grande filme, mas vale ser revisto como o registro do nascimento de um dos atores mais celebrados do final do século XX. 

As Duas Faces de Um Crime (Primal Fear/EUA-1996) de Gregory Hoblit com Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton e Frances McDormand. ☻☻

APOSTAS PARA O OSCAR 2016 - CAPÍTULO III

Spotlight
Há quem aponte esse drama jornalístico dirigido por Thomas McCarthy como o atual favorito ao Oscar 2016, por outro lado, existem aqueles que consideram que o filme passa longe da eficiência dos clássicos do gênero. Ainda que divida opiniões, Spotlight promete polêmicas ao abordar uma investigação jornalística sobre casos de pedofilia na igreja católica. Baseado numa matéria premiada no começo dos anos 2000, o filme tem um elenco que impressiona: Michael Keaton (em ótima fase), Rachel McAdams, Mark Ruffalo, Stanley Tucci e John Slattery. 

Brooklyn 
John  Crawley é um diretor britânico que recebe cada vez mais atenção - e parece que esse ano ele acertou em cheio com essa adaptação do livro de Colm Tóibín sobre uma jovem irlandesa (Saoirse Ronan) que se muda para os EUA nos anos 1950, precisamente no bairro do Brooklyn. Lá ela irá se envolver com um bombeiro de origem italiana (vivido por Emory Cohen) enquanto tenta se adaptar à nova realidade. O filme, com roteiro de Nick Hornby, colhe muitos elogios pela atuação de sua jovem estrela (já indicada ao Oscar aos doze anos por Desejo e Reparação/2007).

Joy
Nunca subestime o fôlego de um filme de David O. Russell. O diretor que mais cravou indicações ao Oscar nos últimos cinco anos (foram vinte e cinco indicações com três filmes lançados) conta agora a história real de Joy Mangano (Jennifer Lawrence em sua terceira parceria com o diretor), que conciliou sua vida de mãe solteira e inventora para se tornar uma das empreendedoras mais bem sucedidas dos Estados Unidos. Poucos viram o filme que é mantido a sete chaves pelo diretor, mas o elenco promete não decepcionar (conta ainda com Bradley Cooper, Robert DeNiro, Isabella Rossellini, Diane Ladd e Virginia Madsen). 

Sicario
Enquanto isso, o canadense Denis Villeneuve (indicado ao Oscar de filme estrangeiro pelo seu impressionante Incêndios/2010) tenta chamar a atenção da Academia pela segunda vez com esse filme (em cartaz no Brasil) sobre uma ação ambiciosa da CIA para destruir um chefão do tráfico de drogas mexicano. Em meio à ação, uma agente do FBI (Emily Blunt) irá testar seus limites morais e éticos. O Oscar não tem dedicado muita atenção a filmes do gênero, mas vai que... no elenco ainda estão Josh Brolin e Benicio Del Toro. 

Love & Mercy 
Aclamado como o filme mais pop no páreo desse ano, essa cinebiografia de Bryan Wilson, vocalista do antológico Beach Boys, coleciona cada vez mais admiradores pela forma como conta a trajetória de um ícone da música. Partindo do relacionamento com o pai abusivo, passando pelas excentricidades no processo criativo, o uso de drogas e o relacionamento com uma banda que não entendia todas as suas intenções, o filme de Bill Pohlad traz Paul Dano e John Cusack encarnando o músico em fases distintas de sua vida. O elenco ainda traz Paul Giamatti e Elizabeth Banks em papéis importantes na vida de Wilson. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PL►Y: Invencível

O'Connell: torturas em excesso comandadas por Angelina Jolie. 

Faz tempo que Angelina Jolie anuncia que irá se afastar da carreira de atriz, tanto que atua cada vez menos. A esposa de Brad Pitt anda cada vez mais interessada em firmar-se como cineasta. Para isso já caminha para seu terceiro longa metragem atrás das câmeras. Sua estreia em Na Terra de Amor e Ódio (2011) não empolgou público, crítica ou distribuidores, mas deixou evidente suas ambições com doses consideráveis de pretensão. Ano passado ela lançou seu segundo filme como diretora, a produção foi cercada de nomes de prestígio (o roteiro era dos irmãos Coen e a produção assinada pelo marido) e enriquecida com inúmeros comentários que pareciam colocá-lo entre os favoritos ao Oscar. É verdade que o filme concorreu em três categorias (fotografia, mixagem de som e edição de som), mas nada que empolgasse os envolvidos. Jolie não fez um filme ruim, mas carente de estilo. Sua linguagem é clássica demais (embora apele por embaralhar os tempos da narrativa) e sua história descamba para o patriotismo que concorreu diretamente com as qualidades ambíguas de American Sniper de Clint Eastwood (que concorreu a seis estatuetas, incluindo melhor filme). Invencível conta a impressionante história de Louis Zamperini (o ótimo Jack O'Connell demonstrando ter fôlego para astro), um rapaz de origem italiana, que torna-se atleta e recordista olímpico para pouco depois servir na Segunda Guerra Mundial, passar 45 dias num bote em alto mar, sendo resgatado por japoneses e sofrer tipos variados de tortura. Não é difícil perceber porque a vida de Zamperini virou filme, tão pouco o interesse de Jolie contar uma história de superação tão comovente, no entanto, a diretora inexperiente opta por alguns recursos que soam estranhos. Não consigo entender, por exemplo, o motivo do filme gastar tanto tempo esmiuçando as violências sofridas pelo protagonista (dando-lhe mais de duas horas de duração que mereciam ser mais enxutas), das inúmeras cenas em que apanha pelas mãos do cabo Watanabe (o andrógino Takamasa Ishihara, mais conhecido como o astro pop japonês Miyavi), passando pela parte em que Louis é socado por cada um dos prisioneiros de guerra que convivem com ele, ressalta menos a força de seu personagem e mais um certo sadismo. Para além do olhar maniqueísta sobre uma maldade "quase natural dos japoneses", o filme em momento algum menciona questões sobre o ataque a Hiroshima e Nagasaki, que seria crucial para o fim da guerra e a libertação dos personagens. Deslizes como esse tornam o filme menos interessante do que deveria, perdendo a oportunidade de aprofundar ainda mais as loucuras da guerra e a crueldade humana. Resta ao espectador apreciar a boa atuação de O'Connell e seu algoz Miyavi, numa química estranha, quase sadomasoquista que parece atrair muito a diretora. Ao que parece, as ambições de Jolie como cineasta encontraram terreno em Hollywood, mas depois de um trabalho aparentemente exaustivo, a atriz resolveu simplificar em seu próximo filme, À Beira Mar não terá cenas de guerra ou torturas, mas se dedicará a captar a crise de um casal vivido por Jolie e Pitt. 

Invencível (Unbroken/EUA-2014) de Angelina Jolie com Jack O'Connell, Domhnall Gleeson Miyavi, Jai Coutney, Garrett Hedlund e Finn Witrock. ☻☻