Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta sem evidências. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta sem evidências. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Na Tela: Sem Evidências

Reese: sem chegar a lugar algum. 

Sempre acho estranho quando resolvem pegar a história de um documentário e a transformar em um filme com personagens, atores, roteiro... Isso aconteceu com o documentário de José Padilha, Ônibus 174 (2002) que se tornou uma unanimidade documental, mas que se tornou o pífio drama Última Parada 174 (2008) nas mãos de Bruno Barreto, recentemente o mesmo ocorreu com GasLand (2010) que de documentário indicado ao Oscar virou o drama esquecido Terra Prometida (2013) escrito e estrelado por Matt Damon. Esses exemplos ilustram bem que o gênero documental pode não ser muito querido do grande público, mas permite uma abordagem mais completa do que as necessidades dramatúrgicas de outros gêneros. Sem Evidências de Atom Egoyan é mais um filme a entrar para esse grupo, sendo que já começa com a desvantagem de não contar em quase duas horas de duração o conteúdo de um documentário, mas de uma trilogia chamada Paradise Lost. O primeiro filme (com o subtítulo: Assassinatos de Crianças em Robin Hood Hill) foi lançado em 1996 e ganhou um Emmy por suas qualidades narrativas ao contar a triste história de três adolescentes acusados de matar três crianças na cidadezinha em que moravam. O segundo filme (com o subtítulo Revelações) foi lançado em 2000 e abordava as novas evidências que questionavam as circunstâncias em que os três adolescentes foram considerados culpados do crime (o filme foi indicado ao Emmy). O terceiro episódio (Purgatório) veio a público em 2011 e foi indicado ao Oscar por mostrar como as provas ignoradas na época do crime (incluindo um exame de DNA) inocentaram os jovens acusados mais de vinte anos depois do crime. Como dá para perceber, trata-se de uma das condenações mais polêmicas da história da justiça americana, tornando necessário um bocado de eloquência para fazer a coisa funcionar num único longa-metragem. O drama criminal começa bem ao montar o cenário da tragédia com os três meninos andando de bicicleta rumo ao bosque onde a tragédia acontecerá, consegue partir nosso coração quando os corpos são encontrados e instiga o espectador conforme surgem provas que são ignoradas no tribunal durante um julgamento de cartas marcadas. Egoyan mostra a histeria coletiva por vingança que cega a cidade sem muito esforço, mostrando como os boatos de seitas obscuras tornam-se bodes expiatórios para a cidade ocultar a incompetência ao lidar com as investigações. O simples fato dos jovens acusados gostarem de Heavy Metal já serve de evidência para o crime! O filme opta por uma edição fragmentada, cheia de idas e vindas, que dificulta ao espectador a acompanhar os rumos da investigação que envolve vários personagens (a maioria sub-aproveitados como o jovem instável vivido por Dane DeHaan ou a mãe maluquete encarnada por Mireille Enos). Mesmo contando com os oscarizados Reese Whiterspoon (como a mãe de um dos meninos) e Colin Firth (como um auxiliar da defesa), o filme nunca desenvolver eus personagens como deveria, optando por ficar em cima do muro em nome da imparcialidade. O resultado torna-se um tanto frustrante por acompanharmos várias pistas aparecendo e sendo descartadas rapidamente, deixando pontas soltas e interrogações sobre o caso. Sem uma direção a seguir (o roteiro podeira escolher qualquer personagem e acompanhar seu ponto de vista sobre o crime - ele até parece que fará isso com os personagens de Colin e Reese, mas a ideia se perde pelo caminho) o filme padece de um roteiro preguiçoso que se perdeu diante dos dados ricos que tinha em mãos. Egoyan é um bom cineasta e consegue envolver o espectador sobretudo quando repete um pouco os ingredientes que remetem à sua obra-prima (O Doce Amanhã/1997), sobretudo quando mostra o que há escondido debaixo dos cidadãos comuns da cidadezinha... mas o diretor erra ao pesar a mão para comover o espectador (com uma tragédia dessas  nem precisava, mas ele insiste e algumas cenas melodramáticas são quase risíveis). Por suas falhas Sem Evidências tem o gosto de uma confusa perda de tempo, uma história mal desenvolvida e sem saber muito bem para onde ir, sendo assim, mais uma vez, os documentários ganharam a disputa. Se você ficou interessado pela história e quer mais detalhes, veja a trilogia Paradise Lost/Paraíso Perdido, já que Egoyan alcança um desenvolvimento pior que as matérias criminais do Fantástico

Sem Evidências (Devil's Knot/EUA-2014) de Atom Egoyan com Colin Firth, Reese Whiterspoon, Alessando Nivola, James Hamrick, Seth Meriwwther, Amy Ryan, Bruce Greenwood, Dane DeHaan e Elias Koteas. ☻☻

segunda-feira, 20 de maio de 2024

PL►Y: À Procura

Reynolds: pai-herói sofrido.
 
Todo ator tem aquele momento em que quer ser levado a sério. Geralmente ele procura papeis mais dramáticos para demonstrar que pode inserir camadas diferentes nos personagens que defende e, se o filme for aclamado, sua carreira recebe novo fôlego com filmes de prestígio e até prêmios. Hoje Ryan Reynolds pode ser considerado um astro consagrado em Hollywood pelo seu apelo com Deadpool, personagem que podemos identificar que é repetido reinterpretado em vários outros filmes do moço desde então. No entanto, faz dez anos que o Sr. Blake Lively tentou ser reconhecido por seus músculos mais dramáticos no drama À Procura. A assinatura do cineasta Atom Egoyan garantiu até uma vaga na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2014, mas a crítica e o público encontraram dificuldades para ver grandes méritos no filme. A história gira em torno do desaparecimento de uma menina. O pai, Matthew (Reynolds), a deixou no carro enquanto foi em uma lanchonete para comprar uma torta, mas ao retornar, a pequena Cassandra não estava mais por lá. Começa então uma jornada para encontrá-la com a ajuda da investigadora Nicole Dunlop (Rosario Dawson) e o detetive Jeffrey Cornwall (Scott Speedman), este considerando que Matthew tramou para vender a própria filha para quitar suas dívidas. Com o desaparecimento, o casamento de Matthew com Tina (Mireille Einos) cai por terra, já que ela desconta toda sua raiva atribuindo culpa ao marido pelo desaparecimento da filha. Paralelo a esta família em ruínas, existe uma investigação para encontrar Cassandra que atravessa vários anos, sendo que a plateia sabe desde o início o que acontece com a menina. Sim, ela está viva e envolvida em situações sombrias na internet. Agora, pegue a sinopse apresentada acima e embaralhe os tempos na narrativa, indo e voltando no tempo de forma confusa, o que prejudica muito na construção de uma tensão gradativa ao longo do filme. A opção adotada pela montagem do filme prejudica ainda mais os problemas que o filme já possui, a começar pela forma pouco convincente como é apresentada a relação entre Cassandra (quando crescida vivida por Alexia Fast) com seu exagerado sequestrador (Kevin Durand). A tensão entre o pai com os outros personagens também é feita sem muito cuidado em sua construção, apresentando tudo de forma áspera e apressada, assim como a forma como caminhamos para a resolução da história que se conclui de forma simples e sem maiores surpresas. Ryan se esforça um bocado para dar dignidade ao seu personagem, mas o roteiro (assinado pelo diretor ao lado de David Fraser) e a montagem não ajudam muito a dar credibilidade à história que em busca de criar elementos originais para a história, acaba beirando o absurdo. O estrago feito pelo desaparecimento de filhos da vida dos pais é um tema recorrente na cinematografia de Egoyan, basta lembrar das semelhanças deste com Sem Evidências (2013) lançado um ano antes, baseado numa história real arrepiante dos Estados Unidos, além da obra-prima O Doce Amanhã (1997), que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e as indicações ao Oscar de roteiro adaptado e melhor direção. No entanto, À Procura rende menos que os seus semelhantes pela execução tão confusa quanto seu roteiro. 

À Procura (The Captive / Canadá - 2014) de Atom Egoyan com Ryan Reynolds, Cott Speedman, Rosario Dawson, Mireille Enos, Kevin Durand, Alexia Fast, Bruce Greenwood, William MacDonald.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

DVD: TWIN PEAKS - DEFINITIVE GOLD EDITION


David Lynch é um dos meus cineastas favoritos. Podem chamá-lo de picareta, enganador, pervertido que não estou nem aí. Podem me tacar pedra na rua, mas ainda acho que um cineasta de verdade é aquele capaz de construir narrativas inesquecíveis que ficam gravadas em nossa mente e não apenas um sujeito que diz “Ação” para os atores cuspirem o texto decorado diante de uma câmera. Lynch é um dos mestres da sétima arte e reconhecido como o pioneiro do surrealismo cinematográfico estadounidense, embora esteja desiludido ultimamente com a forma como os filmes de autor têm sido tratados em seu país (tanto que não lança um longa desde sua homenagem no Festival de Veneza em que lançou o radical Império dos Sonhos/2006), podemos perceber a influência do universo Lynchiano em sucessos recentes como A Origem de Chris Nolan, Cisne Negro de Darren Aronofsky além dos roteiros de Charlie Kauffman. Na década de 1990 o diretor foi convidado a realizar um programa para a televisão – numa época em que se alguém migrar do cinema para a TV era visto como decadência em Hollywood. Lynch se juntou ao parceiro Jack Frost para construir a história de um programa que recebeu carta branca da rede ABC (que estava à beira da falência) para fazer o que quisesse. Twin Peaks foi ao ar na páscoa de 1990 e fez história batendo recordes de audiência com um piloto de duas horas de duração (contando os comerciais) e uma pergunta que assombrava a audiência: “Quem matou Laura Palmer?”


Kyle e Lynch: terceira parceria.

Sempre me impressiono com o clima construído por Lynch em suas obras. Admiro a forma como consegue conduzir o lado sombrio de suas histórias com uma plasticidade que nos faz pensar porque cinema é uma arte. Digo cinema, apesar de ser um projeto televisivo, porque Twin Peaks foi pioneira a levar planos e ritmos cinematográficos para a TV. Muito do que vemos com sucesso na TV hoje, se deve a esse hibridismo pioneiro proposto por Lynch/Frost. Não serei o primeiro nem o último a dizer que sem Twin Peaks não existiria Arquivo X, Fringe e Lost (que flertam mais abertamente com a linguagem Lynchiana). Atrevo-me a dizer que sem Twin Peaks não existiria a possibilidade de produzir séries do porte cinematográfico de Família Soprano ou Six Feets Under, até mesmo as recentes aventuras televisivas de cineastas como Scorsese (Boardwalk Empire), Todd Haynes (Mildred Pierce) e Frank Darabonts (The Walking Dead). Acho que não preciso dizer mais sobre a importância de Twin Peaks sobre a cultura pop e sua influência na qualidade da TV americana. A série fez história com sua trama cheia de camadas, interpretações, crimes e mistérios e mostrou algumas das cenas mais estranhas que já foram feitas para a telinha. Twin Peaks é uma cidadezinha americana fictícia que fica perto do Canadá, a abertura da série explora a melancolia da trama com suas locações e trilha sonora. Pássaros, árvores e cascatas são mostrados evidenciando o aspecto bucólico do lugar, não precisa muito mais do que isso para percebemos que trata-se de uma cidade tranqüila com pouco mais de cinqüenta mil habitantes. A paz do lugar é ameaçada pela morte de uma jovem popular na cidade, Laura Palmer (Sheryl Lee) e a chegada de um agente do FBI que começa a deixar a população nervosa - já que qualquer um pode ser o assassino e, por isso mesmo, suas vidas são vasculhadas em busca de evidências, com isso as excentricidades e segredos de seus personagens ganham cada vez mais força. Kyle MacLachlan (um dos atores favoritos de Lynch que esteve presente no cultuado Veludo Azul/1986 e o mal compreendido Duna/1984) interpreta magistralmente o agente excêntrico Dale Cole, que busca uma resposta para o crime. Nesse processo conta com parceiros fiéis como o delegado Harry (Michael Ontkean), o policial chorão Andy (Harry Goaz) e a secretária tagarela Lucy (Kimmy Robertson). A lista de suspeitos é gigantesca e no piloto da série eles são expostos - sem perder de vista que Palmer era uma garota que guardava segredos perigosos em sua vida amorosa, envolvendo drogas e prostituição. O piloto da série coloca todas as fichas da série na mesa e o sucesso fez com que Lynch e Frost fossem convidados a dar continuidade ao projeto, com uma temporada de sete episódios que fez história na TV. 
TWIN PEAKS - PILOTO: "NORTHWEST PASSAGE" (1990)☻☻☻☻

Os mocinhos: flerte com o sobrenatural e com belas mulheres.

A primeira temporada de Twin Peaks virou uma febre, foi a mais falada, a mais comentada e badalada da década de 1990. Elegeu musas em seu núcleo jovem (as saborosa Lara Flynn Boyle era a melhor amiga de Palmer e a suculenta Sherilyn Fenn era a colegial perigosa que morre de amores pelo agente Cole - ambas conseguiram até alguns projetos no cinema depois que a série terminou) e deu oportunidades para que Lynch ampliasse seu público em cenas hipnoticamente bizarras como as do sonho de cortinas vermelhas de Cole, o anão que fala e se move ao contrário, além de sugerir a existência de um mal existente que independe da vontade de quem o pratica. Além de todos os mistérios e audácia narrativa o que mais enche os olhos ao ver a primeira temporada é a qualidade da trama. São tantas camadas, referências e subtextos que é irresistível a atmosfera construída pela produção – sem falar que o filme dialoga diretamente com as outras obras do diretor (a presença dos sonhos, as alucinações, as fendas e orifícios, a duplicidade bem/mal, anjo/demônio de seus personagens, gritos, silêncios, trilha sonora magnífica de Angelo Badalamenti). Há muito de filosófico na série – e as introduções dos capítulos realizadas pela Mulher do Tronco (Catherine Coulson) é um bom exemplo disso. No último capítulo da temporada todos os ganchos possíveis para a segunda foram lançados. Porém, apesar de todas as expectativas e ideias lançadas o seriado teve uma queda brutal de audiência e perdeu muitas de suas qualidades nos episódios seguintes. Acho que o fato de ter 22 episódios fez com que tudo perdesse o ritmo e se tornasse exaustivo demais, isso sem falar pelos outros problemas enfrentados no caminho. A curta primeira temporada sobre a supervisão de Lynch/Frost deu a oportunidade para que vários diretores exercitassem sua criatividade narrativa durante a produção dos episódios – e para manter os mistérios os atores recebiam somente trechos de cada episódio. Tudo funcionava perfeitamente até que os exageros desenfreados acabaram destruindo a originalidade do seriado no ano seguinte. A obscuridade e o estranhamento constituíam a alma e a certa dose de humor de Twin Peaks. 
TWIN PEAKS - PRIMEIRA TEMPORADA (1990) ☻☻☻☻

Palmer: anjo ou diabo?

Curiosamente enquanto a primeira temporada virava mania pelo mundo, era exibida a segunda em que o seriado acabou se tornando uma autoparódia. A segunda temporada vale ser vista somente pelos primeiros e últimos capítulos (o que deve somar mais ou menos o número de episódios da primeira). Lynch falou muito que o assassino jamais deveria ser revelado, essa dúvida era a grande alma do programa, ela percorria todas as subtramas e fazia os personagens tão interessantes, afinal, enquanto não provassem a inocência perante o público, todos eram culpados. Nos primeiros episódios da segunda temporada descobrimos quem matou Laura Palmer – e apesar da descoberta do assassino lançar um novo mistério na trama, este mostrou-se menor para o interesse do público. Também não ajudou o fato de (por problemas interpessoais) não avançarem no novo foco da temporada: o envolvimento de Audrey (Sherilyn Fenn) e o agente Cole (MacLachlan), juntando isso ao distanciamento (por pirraça da revelação do assassino de Laura?) de Lynch (que zelava por Coração Selvagem/1990) e Frost (que investia em seu primeiro longa metragem) fez com que tudo saísse do eixo, com esquisitices vazias, piadas em exagero, personagens subaproveitados, resgate de outros que ninguém lembrava e um exagero de convidados especiais que fez tudo parecer uma novelinha aguada com direito a doninhas agressivas, mulheres caolhas com super-poderes e um rival do passdo de Cole que parece saído de um filme dos Trapalhões. Tudo que a série havia conquistado foi para o lixo e as constantes mudanças de horários não ajudava. É chocante o desleixo com que a série foi tratada no meio desta temporada. Diante do abacaxi, Lynch e Frost tomaram as rédeas da coisa na reta final, tentando evitar o inevitável, quando a temporada chegou ao seu derradeiro episódio final tentou se resgatar o clima inicial, os mistérios e as ideias presentes no subconsciente de seus personagens (mesclando o bem e o mal na figura confiável do agente Cole num gancho para a terceira temporada que nunca foi produzida). O último episódio é um dos melhores da série e deixou claro, que não é qualquer um que pode brincar de David Lynch. Afim de dar um final digno para sua obra, Lynch realizou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire walk with me / 1992) que padeceu com críticas pífias e que alegavam ser mais do mesmo, mas os fãs da primeira temporada gostaram do filme e perceberam novas revelações sobre os personagens que acompanharam em uma das séries mais inventivas de todos os tempos - para quem leu o livro do cineasta sobre meditação, a série fará ainda mais sentido. TWIN PEAKS - THE DEFINITIVE GOLD BOX EDITION traz muitos extras sobre (participação no Saturday Night Live, comerciais, entrevistas...) mas não conta com a participação de todos os atores (será que ficaram magoados com o processo de banalização da série?), é um box de colecionador que só não é mais completo por conta de não conter o longa dirigido por Lynch no ano seguinte em que a série terminou (o qual fico devendo uma resenha, mas diante do meu maior post de todos os tempos acho que você não vai se importar...).
TWIN PEAKS - SEGUNDA TEMPORADA (1991) ☻☻  
TWIN PEAKS - EXTRAS ☻☻


TWIN PEAKS – THE DEFINITIVE GOLD BOX EDITION (2010) produzido por David Lynch e Mark Frost, com Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Ray Wise, Richard Beymer, Grace Zabriskie, Joan Chen, Piper Lauren, Mädchen Amick, David Lynch e David Duchovny.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

NªTV: Sharp Objects

Perkins, Amy e Patricia: bom elenco e sabor de pastel de vento. 

A minissérie Sharp Objects estreou com todo o peso que um dos programas mais esperados do ano poderia ter. Não bastasse ser uma produção da HBO, ainda era baseado em um cultuado livro de Gillian Flynn (autora das obras que deram origem ao sucesso Garota Exemplar/2014 e o mediano Lugares Escuros/2015) e contava com um elenco de respeito - começando por Amy Ryan na pele marcada da protagonista perturbada pelo passado e Patricia Clarkson como a mãe sufocante. A direção ficou por conta do canadense Jean Marc-Vallée, que além de seus filmes interessantes, tem no currículo o festejado Big Little Lies, produção da mesma HBO que foi o papa-prêmio lançado do ano passado e que, devido ao sucesso, ganhará mais uma temporada no ano que vem. No entanto, Sharp Objects estava longe de ter o mesmo clima do projeto anterior de seu diretor. Ao longo de oito episódios o que se viu foi uma trama lenta e arrastada, que muitas vezes se repetia numa espiral de referências sobre o passado da jornalista Camille (Ryan) e os crimes que a levam de volta para a sua cidade natal. A própria Camille carrega o peso da morte de sua irmã caçula por causas desconhecidas que abalou de vez o seu relacionamento com a mãe, Adora (Clarkson), e ambas não fazem muito esforço para se entenderem, pelo contrário, os diálogos entre as duas sempre se repetiam entre alfinetadas e farpas cheias de rancores e incompreensões. Esta tensão entre mãe e filha se repete em todos os episódios - e ganhou até mais destaque do que as evidências encontradas sobre o assassino das jovens locais. Completa ainda este delicado núcleo familiar, a irmão caçula de Camille, Amma (Eliza Scanlen) e o padrasto passivo, Alan (Henry Czerny). Tudo exalou mistério durante o programa. Cada olhar, cada comentário sobre o que se esconde debaixo da aparente tranquilidade da região, ninguém inspirou muita confiança, nem a tia falastrona (Elizabeth Perkins) ou o xerife (Matt Craven). A única ponta de sensatez que existia era o investigador Richard Willis (Chris Messina), que se envolve com Camille  enquanto tenta entender um pouco mais sobre o que está por trás dos crimes. Embora tenha um ponto de partida interessante, o último capítulo exibido ontem só consolidou a ideia de que o programa estava mais interessado nas relações doentias entre os personagens do que propriamente com o crime em si. As resoluções vieram sem clímax e de forma um tanto apressada, utilizando até mesmo o recurso de cena pós-crédito de menos de trinta segundos para explicar o que os oito capítulos não davam muita importância. Quem conhece a obra de Gillian Flynn já devia ter matado a charada desde o início (e as falas de Richard acusando de que a culpa é sempre da família só reforçaram a sensação de previsibilidade), mas os admiradores do programa ressaltavam que o importante eram os detalhes... bem, desde o primeiro episódio eu já sabia como a coisa terminaria. Acredito que Sharp Objects seria mais interessante se fosse um filme, mas esticado em oito episódios tudo me pareceu uma repetição cansativa. A atmosfera fúnebre criada por Vallée canibalizava a si mesma a cada episódio, mas amparada pelas boas atuações, fazia até o programa parecer envolvente. A sensação de que se assistia sempre a uma reprise era constante e me fez por vezes questionar o motivo de continuar acompanhando a trama. Vale ressaltar que ninguém questiona a qualidade dos programas da HBO, mas neste ano está difícil da emissora acertar. Now and Them estrelada por Tim Robbins e Holly Hunter foi cancelada antes mesmo da primeira temporada terminar (e eu a abandonei do terceiro episódio), a segunda temporada de Westworld também me pareceu bastante perdida em sua condução. A nova série Succession começou promissora, mas logo se perdeu em uma história que girava em círculos com personagens sem personalidades distintas no jogo de ambição de uma família milionária. O que todos estes programas tem em comum é a dificuldade em se desenvolver sem enrolar o espectador por uma temporada inteira, a sorte é que Sharp Objects acabou ontem e não tem chance de enrolar por mais uma temporada. 

Sharp Objects (EUA-2018) criada por Marti Noxon e dirigida por Jean Marc-Vallée, com Amy Adams, Patricia Clarkson, Chris Messina, Henry Czerny, Eliza Scanlen, Elizabeth Perkins, Matt Craven e Taylor John Smith. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Na Tela: Livre

Reese: reencontrando seu caminho. 

Esse ano me dei ao luxo de conferir o maior número de indicados ao Oscar até o dia da cerimonia. Livre de Jean-Marc Vallée está em cartaz há mais de um mês no Brasil, mas o conferi só recentemente. Não sei se é por conta de uma antipatia recente sobre os filmes centrados especificamente em um ator em cena a maior parte do tempo (que parece ter uma luz piscante dizendo: "OSCAR! OSCAR!") ou uma ideia inconsciente de que filmes sobre gente em contato com a natureza costuma me deixar entediado a maior parte do tempo. O fato é que demorei para investir meu tempo nessa empreitada de Reese Witherspoon ao lado do diretor do premiado Clube de Compras Dallas/2013. A vida não andava boa para Reese desde que ganhou o Oscar de atriz como a esposa de Jonhy Cash em Johny & June (2005). De lá para cá ela se separou do ator Ryan Phillipe, teve problemas com álcool, sofreu um dos atropelamentos mais estranhos da história... e no trabalho as coisas não estavam melhores. Desde sua premiação teve dois filmes de sucesso (a comédia natalina Surpresas do Amor/2008 e Monstros e Alienígenas/2009 no qual fazia a voz da grandalhona Ginormica), mas nada que de relevante para quem tem um Oscar na estante. Hollywood parecia querer transformá-la em apenas uma loura (basta ver o que ela faz nos intragáveis Como você Sabe?/2010 e Guerra é Guerra/2012). Olhando assim, seus trabalhos eram mais interessantes antes de ganhar a cobiçada estatueta. Seria Reese mais uma vítima da maldição do Oscar que afetou Halle Berry, Jessica Lange e Mira Sorvino? Voltando os olhos para o início de sua carreira nos filmes independentes, Reese reencontrou seu caminho nos últimos anos em filmes de orçamentos modestos - mas de ideias consistentes para suas atuações em  Sem Evidências (2012), Amor Bandido (2012) e o recente Vício Inerente (2014). Essa longa introdução serve para demonstrar o que atraiu Witherspoon na jornada de Cheryl Strayed, que resolveu fazer a trilha pela costa do Pacífico para colocar sua vida sob nova perspectiva. Enquanto caminhava, com fome, sede e um pé maltratado por botas apertadas, Cheryl queria esquecer o fracasso do seu casamento, anos de sexo promíscuo, o vício em heroína e a morte da mãe vítima de câncer. Durante toda a jornada, Cheryl repete para si mesma que ao final voltará a ser a mulher que sua mãe esperava. É verdade que durante o caminho, Chreyl encontra outros desafios, de homens ameaçadores, água escassa, calor, frio, cobras, neve... tendo muitos momentos para pensar na vida e poucos de diversão, são essas experiências (misturadas às memórias em flashback da personagem) que torna sua jornada bastante intimista. No entanto, sua história não me envolveu. Não sei se não percebi, ou se de fato o roteiro nunca explica muito bem qual é a grande angústia da personagem para se impor aquela peregrinação toda. Com exceção da morte da mãe (vivida pela sempre competente Laura Dern, indicada ao Oscar de coadjuvante), todos os outros problemas de Cheryl poderiam ser revolvidos se ela caísse em si a qualquer momento em qualquer lugar. Percebo que existe uma dificuldade para dimensionar as motivações da personagem, mais isso não prejudica em nada a atuação de Reese (indicada ao Oscar de melhor atriz). A atriz se sai bem no desafio de imprimir veracidade às diferentes fases de Cheryl. Talvez a intenção de Vallée é demonstrar que, ao final da cansativa jornada (para Cheryl e para o espectador), a personagem perdoa a si mesma pelos tropeços que cometeu, mas até lá percebe que andar centenas de quilômetros por vários dias não afasta seus fantasmas, pelo contrário, os deixam ainda mais presentes e necessários para sua sobrevivência. 

Livre (Wild/EUA-2014) de Jean-Marc Vallée com Reese Witherspoon, Laura Dern, Thomas Sadoski, Kevin Rankin e Gabby Hoffman. ☻☻

terça-feira, 8 de outubro de 2024

PL►Y: Lobos

Pitt e Clooney: dupla experiente.

Se você me dissesse que um filme estrelado por Brad Pitt e George Clooney seria lançado diretamente no streaming, eu diria que você está louco. Diante do lançamento de Lobos exclusivamente na AppleTV eu percebi que louco é aquele que não consegue perceber que mudaram os parâmetros de Hollywood nos últimos anos. Basta lembrar que recentemente Alien: Romulus deixou de ser uma produção para streaming e fez sucesso nas bilheterias mundiais. O motivo do sucesso foi que os produtores acharam que o filme funcionaria muito bem numa telona, já com Lobos deve ter acontecido o contrário e, diante da trama (que parece tirada de um sucesso dos anos 1990), os produtores acharam melhor não arriscar com várias cópias, marketing e divisão de lucros com exibidores. O filme conta a história de dois profissionais que são especialistas em sumir com evidências de crimes (o que inclui corpos), são os chamados "faxineiros", uma profissão que prima pelo trabalho solitário na ilegalidade. No entanto, por conta de um acidente do destino, dois desses profissionais terão que trabalhar juntos, tudo por conta de uma conceituada promotora (Amy Ryan) que se viu com o corpo de um jovem rapaz morto ao lado de sua cama de hotel.  Desesperada, ela liga para um contato (Clooney) a ser usado somente para caso de emergência extrema. Acontece que a dona do Hotel (voz de Frances McDormand) também contratou um serviço semelhante diante do imprevisto, obviamente que o concorrente (Pitt), não é visto com bons olhos pelo outro (e vice-versa). No entanto, os dois precisam trabalhar juntos para livrar a tal promotora da enrascada. Só que nada sai como o esperado. A situação se complica cada vez mais em uma noite em que os dois irão reencontrar velhos conhecidos, antigos clientes e um bando de traficantes dispostos a gastar suas munições durante o filme. Com direção de Jon Watts (dos últimos filmes do Homem-Aranha), Lobos se garante mais pela química entre seus dois astros do que propriamente pelo roteiro bem humorado cheio de surpresinhas. O texto em si não tem nada demais, segue a cartilha já explorada por várias outras produções que misturam ação e piadinhas, sendo feito para agradar todos os públicos sem arriscar muito (tanto que a cena mais violenta do filme é apresentada somente perante as suas consequências). A conhecida química entre os amigos Brad e George já é mais do que testada e aprovada e aqui recebe uma conotação de pendenga entre duas gerações diferentes e implicâncias com experiência, idade e novidade. Quem acrescenta um frescor à trama é Austin Abrams na pele do "serviço" da dupla, um rapaz comportado que se meteu na noite mais complicada de sua vida e resta saber se ele vai resistir até o final desta jornada. Jon Watts conduz o filme com sua energia habitual regada à produção bem cuidada e uma certa ingenuidade, mas falta aquele sabor de novidade para colocar o filme em um patamar acima do que ele está. No entanto, Lobos é um filme redondinho que pode agradar quem procura um filme somente para passar o tempo e lembrar de um tempo em que cinema podia ser só entretenimento sem resquícios de culpa.
 
Lobos (Wolves / EUA - 2024) de Jon Watts com George Clooney, Brad Pitt, Austin Abrams Amy Ryan e Frances McDormand. ☻☻☻

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

PL►Y: Clemência

 
Alfre: um trabalho assustador. 

Alfre Woodard estreou no cinema ao final dos anos 1970 e em 1984 foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por seu papel em Retratos de Uma Vida. A indicação foi a confirmação de que Alfre estava destinada a ser uma das melhores atrizes dos Estados Unidos. Desde então a atriz se consagrou principalmente por seus trabalhos na televisão, por seus papéis na telinha a atriz recebeu um Globo de Ouro e históricas dezesseis indicações ao EMMY - que a premiou em quatro ocasiões., Bastante respeitada em Hollywood, Alfre quase foi indicada novamente ao Oscar por seu trabalho em Clemência. Cotada para o prêmio, ela acabou ficando de fora, provavelmente por se tratar de um filme pequeno e de atmosfera bastante mórbida, afinal, tem como cenário  um presídio destinado à condenados à morte (um tema sempre controverso para a Academia). Alfre interpreta Bernardine Williams, uma das diretoras da instituição que enfrentou problemas no decorrer de uma execução e isso traz à tona seus conflitos sobre as situações que presencia através dos anos. Para complicar ainda mais, a mídia está cada vez mais atenta ao próximo prisioneiro a ser executado, Anthony Woods (Aldis Hodge), que evidências recentes começam a colocar em dúvida se ele é realmente culpado do assassinato de um policial. Bernardine construiu uma verdadeira armadura para os seus sentimentos, assim suporta as pressões de superiores, imprensa, detentos, familiares... no entanto, em momentos de intimidade, ela passa a impressão que está cada vez mais difícil suportar sua rotina de trabalho. Afinal, passar a maior parte do dia convivendo com pessoas que morrerão pelas suas mãos não é uma tarefa fácil, porém, este distanciamento distanciamento começa a afetar a vida fora do trabalho. Some isso aos aspectos familiares que começam a surgir conforme a execução de Anthony se aproxima e o filme se sustenta sem dificuldades. Além da performance de Alfre, vale destacar a presença de Aldis Hodge no elenco, o ator que chamou atenção recentemente em O Homem Invisível e Uma Noite em Miami, aqui já demonstrava ser um ator para se ficar de olho, já que seu papel aparece pouco, mas consegue dar a exata dimensão de um  ser humano angustiado e prestes a perder a vida. Este é o segundo filme da diretora e roteirista Chinonye Chukwuque  que demonstra segurança para não fazer concessões e o bom senso de não fazer piadinhas durante a história. Sem se perder em discussões sobre ser contra ou a favor da pena de morte, ela apenas apresenta um recorte bastante interessante sobre personagens que vivem esta realidade. Clemência é um filme que merece atenção, especialmente por ressignificar o título, que aos poucos começa também a se aplicar à protagonista que perde um pouco de si diante do seu ofício ao longo dos anos. 

Clemência (Clemency - EUA / 2019) de Chinonye Chukwuque com Alfre Woodard, Richard Schiff, Aldis Hodge, Wendell Pierce, Danielle Brooks, Richard Gunn e LaMonica Garrett. ☻☻☻ 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

NªTV: Olhos que Condenam

Nó na garganta: cinco meninos injustiçados. 

Tirando o confuso Uma Dobra no Tempo (2018), a americana Ava DuVernay tem se mostrado uma cineasta contundente. Depois do aclamado Selma (2014) e do documentário A 13ª Emenda (2016), a diretora reconstitui um dos casos mais vergonhosos de racismo durante uma investigação nos Estados Unidos. Em 1989 cinco adolescentes negros do bairro do Harlem foram acusados de estuprar uma mulher que se exercitava no parque durante a noite. Ainda que não houvessem provas contra os cinco garotos, a forma como a investigação foi conduzida fez com que muita gente acreditasse que os cinco eram realmente culpados. Coube às famílias a árdua tarefa de provar que tudo era um grande engano. Passando por interrogatórios forjados, manipulação de provas e construção de evidências que nunca existiram, os cinco meninos comem o pão que o sistema judiciário amassou. Se de um lado está a promotora que se alimenta do sensacionalismo para sustentar o caso (e ganhar publicidade), do outro estão jovens que seriam capazes de dizer qualquer coisa para voltar para casa depois de todo aquele mal entendido. É tanta angústia que DuVernay divide sua história em duas partes distintas, nos dois primeiros episódios, conhecemos a forma como o caso é conduzido com contornos de pesadelo kafkiano - e a produção ganha ainda mais importância em tempos em que as convicções falam mais alto do que a própria justiça. Nos dois episódios finais vemos o que acontece com os cinco meninos após suas vidas terem sido interrompidas por conta de toda a repercussão que o caso recebeu - sem esquecer que as consequências afetam também os seus familiares. Perpassa a história uma mistura de histeria coletiva, injustiças, preconceitos e estigmas que ganham forma contundente no trabalho seguro da diretora. Ava arranca atuações marcantes de todo o elenco e embora a minissérie conte com rostos conhecidos como Vera Famiga, Felicity Huffman, Joshua Jackson, John Leguizamo e Famke Janssen, o destaque fica mesmo por conta dos  desconhecidos que aparecem na telinha. Caleel Harris (Antron), Ethan Herris (Yuseff), Marquis Rodriguez (Raymond) e Kevin (Asante Blackk) nem se conheciam antes quando são descobertos aleatoriamente pela polícia. Em comum eles moravam no mesmo bairro e estavam no tal parque no dia e na hora errada. No meio do caminho, Korey (Jharrel Jerome) resolve acompanhar o amigo Yuseff até a delegacia e sua história tem um desdobramento ainda pior do que os demais. Por ser o mais velho do grupo, o andamento de seu processo segue rumos ainda mais sombrios. Jharrel (que atuou em Moonlight/2016 e virou meme quando descobriu que o longa era o verdadeiro ganhador do Oscar de melhor filme) levou para casa o Emmy de Melhor Ator em Filme ou Minissérie. Ajudou muito para este reconhecimento ter o último episódio totalmente dedicado ao seu personagem. Vivendo Korey Wise da adolescência até a idade adulta, Jharrel (21 ano) tem momentos realmente marcantes. A minissérie foi indicada a dezesseis prêmios Emmy, oito deles para seu elenco, não por acaso ganhou também a estatueta de melhor diretor de elenco pelas ótima escalação. Olhos que Condenam é um grande acerto (no estômago).

Olhos que Condenam (When They See Us - EUA / 2019) de Ava DuVernay com Jharrel Jerome, Caleel Harris, Marquis Rodriguez, Ethan Herris, Asante Blackk, Felicity Huffman, Joshua Jackson, Vera Farmiga, Michael Kenneth Williams, Niecy Nash, Aunjanue Ellis, Marsha Stephanie Blake, Chris Chalk, Freddie Miyares, Jovan Adepo e Famke Janssen. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 12 de março de 2013

DVD: Ninguém Além de Você

Sophie e Jean: mistério e humor na morte da Marilyn francesa. 

Misturar comédia e mistério é uma tarefa tão difícil que poucos diretores se aventuram pelo gênero.  Nos últimos tempos o que temos são paródias ou, no máximo, algo próximo de Se Beber Não Case (2009). Por isso mesmo o filme Ninguém Além de Você se torna uma grata surpresa pela forma como deixa sua trama envolvente a partir do (im)provável suicídio da garota mais querida de uma cidadezinha gélida nos cafundós do norte francês. O diretor Geráld Hustache-Mathieu consegue temperar com humor uma trama que poderia ser apenas mais uma filme policial mediano, mas esse tempero torna tudo que poderia ser insuportável em uma obra surpreendente - inclusive pelo final inesperado. O filme brinca o tempo todo com o cinema noir, com referência especial ao universo de James Ellroy - onde os personagens que desejam ser estrelas de cinema acabam padecendo em em redes conspiratórias e assassinatos. Para reforçar esse aspecto o protagonista é até um escritor de romances policiais. Rousseau (Jean-Paul Rouve) é um autor famoso que chega naquela pacata cidadezinha para conseguir escrever seu novo livro. Em busca de inspiração, acaba sendo informado sobre o estranho suicídio de uma estrela local: Candice Lecoer (Sophie Quinton), que ficou famosa por estampara a embalagem de um queijo ("Belle de Jura"). Candice chega até mesmo a narrar partes do filme, do período em que era uma criança perseguida na escola, até o momento em que é descoberta e começa a aparecer na televisão local e em campanhas publicitárias. Apelidada de Marilyn Monroe da região de pois de uma sessão de transgressão de memória, Candice era uma estrela promissora até seu corpo ser encontrado no meio da neve num bosque próximo de sua casa. Rousseau estranha o cenário daquela morte e começa  a investigar por conta própria, se metendo num emaranhado de suspeitos (leia-se amantes) que apontam cada vez mais para as evidências de que o ocorrido não foi um suicídio. Além de contar com a sensualidade na medida certa de Sophie - na pele de uma personagem que evoca alguns dos momentos antológicos de Marilyn (o envolvimento com uma família de políticos, as poses para a revista Playboy, o Happy Birthday mais famoso do mundo e até o desfecho de sua trajetória) -  o filme se beneficia bastante da atuação despojada de Jean Paul Rouve, que não precisa ter a postura endurecida de um policial, nem diante dos atentados que passa a sofrer. Sem pudores em ser desajeitado, Rousseau conta com a ajuda de um parceiro policial (Guillaume Gouix) que o ajuda a conseguir pistas sobre o caso - que só evidenciam que fãs, amigos e amantes tiveram sua parcela de culpa no final da promissora estrela. Com bons momentos de suspense e bem fotografado,  Ninguém Além de Você chamou atenção quando foi exibido na Mostra Internacional de São Paulo, mas fica ainda melhor quando visto numa daquelas tardes chuvosas debaixo das cobertas. 

Ninguém Além de Você (Poupoupidou/França-2011) de Geráld Hustache-Mathieu com Jean Paul Rouve, Sophie Quinton, Guillaume Gouix. ☻☻

terça-feira, 5 de março de 2013

DVD: Rota Irlandesa

Womack: um herói (quase) de ação. 

Ken Loach é famoso por seus filmes politizados. Seu engajamento costuma ser aclamado principalmente no Festival de Cannes, onde quase todos os seus filmes foram indicados à Palma de Ouro - e até ganhou uma com Ventos da Liberdade (2006). Em 2010 ele foi mais uma vez indicado ao prêmio máximo do Festival ao buscar uma abordagem diferente para sua temática favorita. Rota Irlandesa ao invés de investir nos tons dramáticos ou românticos opta por uma atmosfera de filme de ação que consegue até prender a atenção do espectador, mas exibe toda a falta de jeito de Loach com o gênero. Obviamente que é interessante ver doses cavalares de conteúdo e maior complexidade na trama do que a maioria dos longas do gênero oferece, no entanto ele se enrola com os longos diálogos e excessos de narrativas sobre eventos importantes que, nas mãos de qualquer outro diretor, teriam se tornado eficientes cenas de flashback. Ao optar pelas conversações o filme acaba pecando pelo ritmo, mas ainda consegue manter alguma tensão ao contar a história de dois amigos, Fergus (Mark Womack) e Frankie (John Bishop). O primeiro convenceu o segundo a partir com ele para trabalhar na "via mais perigosa do mundo", que fica entre o aeroporto de Bagdá e a famigerada zona verde (mais conhecida como os arredores do palácio que pertencia à Saddam Hussein). Foi nessa rota conhecida como "irlandesa" que Frankie foi vítima de um atentado mal explicado e que Fergus busca esclarecer. Pelo caminho de suas investigações (que parecem realizadas pelo Skype!!!) sobre alguns magnatas da indústria de armamentos, Fergus se depara com evidências de que tudo foi planejado para encobrir  um crime testemunhado pelo amigo. O maior desafio de Loach parece ser conciliar a carga emocional da perda do amigo com a violência que aparece durante a narrativa (incluindo uma cena de tortura que vai contra tudo que o protagonista pregou durante boa parte da sessão), no entanto, o maior do diretor foi construir uma trama repleta de obviedades. Sem novidades sobre a sempre criticada invasão do Iraque, o filme patina entre a falta de novidade e a pretensão. Talvez o maior problema do filme seja matar o suspense logo no início quando mostra o motivo de Frankie ter sido assassinado. Mark Womack (famoso por vários trabalhos na TV europeia) até consegue convencer com os dilemas de seu personagem, mas Rota Irlandesa carece de um rumo que não evidencie o tempo todo os conflitos de seu diretor com o gênero que adotou para contar a sua história. Do pacifismo à condenação aos métodos de tortura, o filme é repleto de boas intenções, mas funciona menos do que seu diretor gostaria - especialmente pelo final que pretende ser solene, mas consegue ser apenas gratuito.

Rota Irlandesa (Route Irish / Reino Unido / França / Bélgica / Itália / Espanha - 2010) de Ken Loach com Mark Womack, John Bishop, Jacques Herlin e Michael Lonsdale. 

domingo, 30 de dezembro de 2012

DVD: Tarde Demais

Bello e Sheen: atuações irrepreensíveis em tragédia familiar. 

Kate (Maria Bello) e Bill (Michael Sheen) formam um casal comum aparentemente feliz que está planejando as férias ao lado do filho que se encontra em seu primeiro ano na Universidade. Kate é a mais animada para a organização para esse tempo em que a família estará junta novamente. Essa expectativa pode ser explicada pela paradisíaca cena de abertura em que o casal se encontra na praia com o filho ainda menino numa praia, ainda que a imagem de cores quentes e alegria latente contraste com a voz tímida do rapazinho que deixa claro que o primeiro ano na faculdade não está sendo fácil. Sammy (Kyle Gallner) está visivelmente deslocado e mesmo quando conversa com seus pais por telefone não tem coragem de contar as suas angústias para aquelas que parecem ser as pessoas mais próximas de seu mundo particular. Uma conversa pela metade no telefone à noite e um dia depois chega a notícia de que a universidade em que Sammy estuda foi palco de uma dessas tragédias que parecem se tornar comum nos EUA: uma chacina com mais de vinte feridos. Bill e Kate não conseguem entrar em contato com o filho e após receberem a notícia pela manhã, a verdade bate à porta na pele de dois policiais cuja presença já serve para que Kate adivinhe que seu filho está morto. A tristeza transborda da tela e recebe novos contornos quando a dor da perda vivida pela mãe recebe o acrescimo de que foi seu filho o aluno que assassinou seus colegas e professores naquela manhã, "Mentiroso! Mentiroso!" ela grita aos policiais. Seu marido observa a notícia a distância e seu ar quase catatônico denota do que se trata a história que veremos a seguir. Tarde Demais é a história da tragédia vista pelos olhos dos pais do assassino, são eles que nos conduzem numa jornada triste e íntima em busca de explicações e justificativas que tentam substituir a ausência do filho com um pouco de culpa. Depois do processo natural de negação e a fuga da imprensa que os assedia, o diretor Shawn Ku faz a gentileza de adotar um ritmo lento e silencioso que auxilia o expectador em sua tarefa árdua de acompanhar o casal por seus questionamentos amparados pelo roteiro que mais sugere do que aponta evidências. Os dois se refugiam na casa do irmão de Kate e nos deparamos não apenas com as diferenças do casal em lidar com a situação, mas também com a superproteção dela com o sobrinho e com as ausências de Bill que podem sugerir indícios da construção da identidade de Sammy - mas nada que alivie a sensação de ver a opinião pública tratá-los como péssimos pais ou sempre se referir ao rapaz como "o atirador". Redes sociais, televisão, internet todos os veículos servem para reforçar a incômoda sensação que o casal vivencia - e a ausência do filho sempre se sobrepõe ao que ele fez (com direito a vídeos de despedida e outro de ameaças exibidos em rede nacional). Trata-se de um doloroso processo de destruição de referências e torna-se curioso que o filme compartilhe o mesmo tema que o recente Precisamos Falar Sobre Kevin (2011) mas opte por um caminho radicalmente diferente, mas igualmente interessante e devastador. Vale ressaltar as atuações de Maria Bello e Michael Sheen que estão excepcionais e ampliam tudo que o filme tem de mais doloroso. A forma como conduzem as reações e tropeços de seus personagens são de extrema dignidade, sem nunca abandonar o que seus Kate e Bill possuem de mais humano. Diante da imagem tímida do vulnerável Sammy em contraste com a tragédia que provocou, as respostas para o ato cometido por ele nunca chegam - e o espectador pode até ficar tentado a procurar motivos, mas o que fica ao fim da sessão é a tristeza acachapante da tragédia de seus personagens. 

Tarde Demais (Beautiful Boy/EUA-2010) de Shawn Ku com Maria Bello, Michael Sheen, Kyle Gallner, Bruce French e Austin Nichols. ☻☻☻☻