terça-feira, 10 de junho de 2014

CICLO DIA DOS NAMORADOS / FILMED+: Fim de Caso

Moore e Fiennes: amor intoxicante. 

Nunca achei justo que Julianne Moore tenha perdido o Oscar para Hillary Swank na edição do ano 2000 da premiação. A coisa piora mais ainda quando lembramos que Hillary (uma atriz que raramente acerta) tem duas estatuetas na estante e Julianne não tem nenhuma. Talvez seja aqui que Julianne tenha o papel mais marcante de sua carreira: uma heroína romântica cheia de falhas e por isso mesmo, fascinante. Baseado no livro de Graham Greene, o filme de Neil Jordan ousou manter a estrutura não linear do livro. Ambientado em 1946, a primeira parte é narrada pelo amargurado escritor Maurice Bendrix (Ralph Fiennes) que ainda não entendeu porque Sarah terminou o relacionamento que mantinha secretamente com ele. Sarah estava presa ao casamento com um diplomata que funcionava mais uma formalidade do que propriamente um matrimônio. Ainda assim, o traído Henry Miles (Stephen Rea) é bastante cortês com a esposa e o amigo, que se torna amante de sua mulher, o que torna ainda mais curioso que Maurice seja tão corroído pelo ciúme . Maurice chega a contratar um detetive para investigar Sarah e, talvez, descobrir os motivos que deram cabo do relacionamento entre os dois. Enquanto o detetive Mr. Parkins (Ian Hart) segue Sarah com a ajuda do filho adolescente, Maurice mergulha em suas lembranças do tórrido romance que tiveram. O que mais chama atenção na trama é o tempero religioso que Greene insere na trama, desde o primeiro momento quando Maurice anuncia que não se trata de uma história de amor ou quando vocifera contra Deus, Greene/Jordan demonstram os contornos ocultos dessa história de amor inusitada. Além do roteiro saber lidar brilhantemente com os diversos tempos da narrativa (com auxílio de uma edição impecável), ele consegue manter o que a história tem de mais surpreendente. Não bastasse isso, o elenco impressiona. Fiennes acerta no tom de um personagem difícil, corroído pelo ciúmes e mais desagradável do que os galãs costumam ser. Stephen Rea compõe o marido traído mais apaixonado pela esposa que eu já vi numa tela, sua atuação intimista colabora ainda mais para o contraste da relação de Sarah com Maurice. Já Julianne compõe uma personagem apaixonante presa às promessas que não pode cumprir. Suas cenas com Ralph Fiennes são intoxicantes (e valorizadas ainda mais pela belíssima fotografia caprichando no contraste das cores quentes com o clima cinzento de Londres). Fim de Caso é um dos melhores filmes românticos de todos os tempos. 

Fim de Caso (The End of the Affair/Reino Unido - EUA/ 1999) de Neil Jordan com Julianne Moore, Ralph Fiennes, Stephen Rea, Ian Hart e Jason Isaacs. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 9 de junho de 2014

CICLO DIA DOS NAMORADOS / FILMED+: Razão e Sensibilidade


Emma e Hugh: o amor guiado pela razão.

Sempre acho injusto quando chamam os filmes baseados nas obras de Jane Austen como voltados somente para o público feminino. Lembro quando ainda estava na faculdade e uma professora de História sempre ressaltava o quanto as obras da escritora eram preciosos retratos de uma cultura opressora tanto para os homens como para as mulheres. Com seus papéis tão demarcados e conveniências sociais tão rígidas é interessante como as tramas escritas por Jane podem parecer leves enquanto seus personagens sentem o peso da sociedade em que vivem sobre seus ombros. De vez em quando uma obra da escritora ganha uma nova versão no cinema ou na televisão, mas poucas conseguiram alcançar o nível de unanimidade de Razão e Sensibilidade, a primeira produção estrangeira dirigida por Ang Lee (graças à Emma Thompson que o convidou para dar vida ao seu roteiro escrito com precisão). Quando estreou, o filme surpreendeu os envolvidos com as inúmeras críticas positivas que conquistou no Festival de Berlim - que culminaram com o Urso de Ouro de Melhor Filme na mostra competitiva. O que faz o filme ser tão especial é a forma como aborda as relações amorosas guiada por duas irmãs de temperamentos bem diferentes: Elinor (Emma Thompson) e Marianne (Kate Winslet). As duas perderam o pai recentemente e sofrem com o fato de que não tem direito à herança, que deve ficar com um parente chamado John (James Fleet) que mal as visita. À família formada pelas duas irmãs, a mãe (Gemma Jones) e a irmã caçula (Emile François) cabe sobreviver com uma mesada simbólica que receberão por um longo período. Sem dotes e com a situação econômica cada vez mais complicada, o casamento parece ser a solução para as duas. No entanto, Elinor já se convenceu de que tem mais chances de continuar solteira do que encontrar um bom marido, enquanto Marianne vê o mundo com todas as possibilidades que o galanteador John Willougby (Greg Wise) lhe apresenta. Enquanto Marianne mergulha de peito aberto nas investidas de seu pretendente (sem notar que magoa profundamente outro pretendente, o coronel Christopher Brandon vivido por Alan Rickman), Elinor pensa várias vezes antes de corresponder à atenção do tímido Edward Ferrars (Hugh Grant). O filme se concentra basicamente na forma como as duas irmãs encaram o amor, seja como o sentimento avassalador que pode nos dominar (no caso de Marianne) ou como um sentimento que deve ser alimentado aos poucos para que não saia do controle (no caso de Elinor). A partir das relações entre os personagens, podemos perceber o quanto as convenções complicam as relações desde sempre, especialmente no final do século XVIII e início do século XIX, período em que Jane Austen viveu. Pelos romances que apresenta, Razão e Sensibilidade caiu como uma luva nas mãos de Ang Lee, um diretor fascinado por personagens que entram em conflito com o mundo ao seu redor. Romântico ao extremo, o filme chama a atenção pela perfeita sintonia do elenco, especialmente entre Thompson e Kate Winslet (que fora revelada no delirante Almas Gêmeas/1994 de Peter Jackson. Se Thompson já gozava o prestígio de ser reconhecida como uma das melhores atrizes do mundo (e ainda ganhou um Oscar pelo roteiro adaptado do filme), Kate já mostrava-se mais do que promissora. É dela a cena mais bela do filme, onde sua personagem enfrenta as ilusões que alimentava debaixo de uma tempestade. Razão e Sensibilidade já nasceu clássico e se você não quiser conhecer o retrato de uma época pode simplesmente torcer para que todos tenham um final feliz. 

Greg e Kate: o amor guiado pela emoção. 

Razão e Sensibilidade (Sense & Sensibility/EUA-1995) de Ang Lee com Emma Thompson, Kate Winslet, Hugh Grant, Greg Wise e Allan Rickman. ☻☻☻☻☻

DVD: Ernest & Célestine

Ernest e Célestine: a fofura contra o preconceito.  

Se ao invés da categoria de Melhor Filme de Animação o Oscar tivesse uma outra categoria chamada "Filme Mais Fofo", o ganhador da última cerimonia seria Ernest e Celestine. o motivo é óbvio, basta ver a foto acima. A animação francesa (que perdeu a estatueta de melhor animação para Frozen da Disney) é uma das animações mais fofas da história do cinema! Eu sei que "fofura" não é um quesito de apreciação cinematográfica, mas, por falta de um adjetivo melhor, esse é o que pode fazer você, caro leitor, entender melhor o que esse humilde cinéfilo quer dizer quando se refere ao longa de Stéphane Aubier, Vincent Patar e Benjamin Renner. Baseado no famoso livro da ilustradora Gabrielle Vincent, o filme dá vida às ilustrações de traços encantadores numa bem vinda animação que parece pintada a mão. A história de amizade entre uma ratinha e um urso bonachão promete encantar os pequeninos e os grandinhos que se aventurarem a acompanhar  a história dos personagens.  Célestine é uma ratinha órfã que passa mais tempo do que deveria fazendo desenhos, especialmente de ursos - que é apontado como o grande inimigo dos ratos. Quando repreendida por gastar o tempo desenhando esses bichos enormes, Célestine não se mostra muito convencida de que os ursos possam ser tão ameaçadores. Como todo pequeno roedor da cidade, Célestine tem a missão de sair do mundo dos ratinhos nos esgotos e vir à cidade habitada por ursos para coletar dentes que serão usados em implantes de roedores cujos dentes ficaram muito gastos - impossibilitando uma vida saudável do roedor. É em uma noite dessas que ela encontra o grandalhão Ernest, um urso que acaba de acordar após um período de longa hibernação e, por isso mesmo, está morto de fome. Depois de convencê-lo a não comê-la, a astuta Célestine o convence a invadir uma loja de doces e, para ficarem quites, ela precisa da ajuda dele para roubar dentes do consultório de uma dentista. Acho que já contei demais. Ernest e Célestine aborda de forma bastante leve a amizade entre criaturas bastante diferentes e, por isso mesmo, detentoras de características que se completam e que revelam semelhanças que pareciam impossíveis. Ambos apresentam gostos diferente dos rumos que ditaram para suas vidas, ou seja, são outsiders verdadeiros rebeldes (pois é, as aparências enganam) - e, por isso mesmo, tornam-se companhias perfeitas um para o outro. Além da história sobre amizade, a plateia irá se empolgar com o ritmo de aventura quando os dois se tornam fugitivos da polícia e são julgados por interferir na lógica dos mundos distintos em que vivem (é impossível não notar o duplo sentido quando Célestine diz que o que não toleram é que ela more com um urso). Entre ratos e ursos, os protagonistas tem personalidades bem marcantes e tornam o traço da animação uma atração a parte. Várias cenas são belíssimas, mas as cenas em que é apresentada a cidade dos ratos ou o momento em que uma tempestade se aproxima são espetaculares. Ernest e Célestine, com toda a sua fofura pode até enganar que é um programa somente para os pequeninos, azar dos adultos que vão perder a oportunidade de conferir um dos filmes mais límpidos dos últimos tempos que revela-se uma bela fábula sobre de combate ao preconceito. O filme confirma a tendência francesa de realizar animações tradicionais de traços marcantes como vimos em Um Gato em Paris (2011), Persépolis (2007), As Bicicletas de Belleville (2003) - todas indicadas e derrotadas no Oscar, mas cheias de personalidade.   

Ernest e Célestine (França/2012) de Stéphane Aubier, Vincent Patar e Benjamin Renner com vozes de Lambert Wilson, Pauline Brunner e Anne-Marie Loop. ☻☻☻☻

domingo, 8 de junho de 2014

CICLO DIA DOS NAMORADOS: Amor aos Pedaços

Famke e Jon: casal real e não ideal. 

Acho que a Copa do Mundo no Brasil deixou o Dia dos Namorados em segundo plano. Para dar uma animada na plateia, resolvi fazer uma coletânea de alguns dos meus filmes românticos favoritos - e que ainda não foram comentados aqui no blog. Essa coletânea irá durar até o famigerado dia 12 de junho (já posso até ouvir os casais brigando porque prestam mais atenção no dia de abertura da copa do que na namorada). Para começar o primeiro "ciclo" cinematográfico do blog, vou sugerir uma comédia romântica que geralmente é esquecida pelo grande público: Amor aos Pedaços é um verdadeiro exemplo dentro de um gênero bastante desgastado no cinema americano. Acho que o que mais gosto no filme é que os personagens não ficam fingindo ser um casal de adolescentes inocentes e nem um casal enjoado que fica disputando para saber quem é mais inteligente que o outro. O casal do filme se conhece, se gosta, fica junto, enfrenta desafios e... vivem feito qualquer casal normal de mortais (o que não é tão comum nas telonas quanto parece). Chama atenção que os dois atores principais andam envolvidos com sagas de super-heróis de sucesso atualmente. Ela é Famke Janssen, a atriz holandesa de 1,80 que ficou conhecida como a bond girl de pernas poderosas em GoldenEye (1995) e mais ainda como a mutante Jean Grey da série X-Men (2000). Ele é Jon Favreau, responsável por dar forma às aventuras do Homem de Ferro (2008) nas telonas, agora ele até aparece na série como o amigo-motorista-guarda-costas de Tony Stark, mas aqui ele ainda tinha quilos a menos e conseguia convencer plenamente como um namorado real e não ideal. Famke é Kate Welles, uma jornalista esperta que trabalha numa revista feminina que vive podando seu olhar aguçado sobre os relacionamentos (basta ver a detalhada matéria sobre sexo oral que é vetada pela editora). Talvez por ser mais inteligente do que a maioria dos homens acha atraente, ela enfrenta o maior desafio da carreira quando lhe encomendam um guia de relacionamentos para uma mulher solteira e urbana. Em crise criativa, Kate passa a revisitar sua trajetória amorosa recheada de desastres (desde o primeiro amor, registre-se). É nesse processo que ela nos apresenta Adam (Jon Favreau), um artista plástico que gosta de criar quadros estranhos, mas que se transforma no grande amor de sua vida. Adam é bem-humorado, talentoso, inteligente e um pouco excêntrico. Não demora para que os dois passem a morar juntos e aos poucos, o tempo começa a corroer a relação conforme enfrentam os desafios da vida a dois. Valerie Breiman (que fez vários trabalhos como atriz, ainda que seja desconhecida) escreve um roteiro esperto que nunca perde a graça, nem mesmo quando mergulha num doloroso momento do relacionamento do casal. Por seu trabalho (que é quase uma contestação aos estereótipos das comédias românticas americanas), Breiman concorreu ao prêmio de melhor roteiro no Independent Spirit. A diretora ainda foi esperta por escolher a dupla perfeita para encarnar seus personagens. Famke Janssen sabe construir uma mulher de verdade que não acredita mais em príncipes encantados - e nem precisa, já que é maior e mais inteligente que a maioria deles (tanto que depois de Adam engata um romance com um ator abestalhado sabendo exatamente disso...) e Jon Favreau sabe fazer seu tipo quase ogral em um sujeito irresistível. Doce sem ser enjoativo e inteligente na medida exata, Amor aos Pedaços é um tanto surpreendente dentro da cartilha do gênero. 

Amor aos Pedaços (Love & Sex/EUA-2000) de Valerie Breiman com Famke Janssen, Jon Favreau, Noah Emmerich, Josh Hopkins e Kristen Zang. ☻☻☻☻

sábado, 7 de junho de 2014

Combo: Chifres

Com Malévola liderando as bilheterias mundiais (e com a promessa de muito mais com as férias escolares que se aproximam), muitos críticos já consideraram que o filme estrelado por Angelina Jolie é o clássico revisitado mais bem sucedido da Disney. Além disso, serviu para Jolie quebrar o jejum de quatro anos sem protagonizar um filme (acho que para os fãs esquecerem o mico que foi O Turista/2010) e tornar seu visual uma das coisas mais icônicas do ano. O visual fiel à personagem tornou até os chifres da fada malvada em item fashion. Inspirado pelo ornamento usado pela esposa de Brad Pitt, esse Combo é dedicado aos atores com os chifres mais marcantes do cinema!

5 Demolidor (2003) Eu sei, você nem se lembrava que o personagem das HQs tinha chifres. O fato é o que o detalhe pontudo não faz o menor sentido com o nome que o personagem recebeu em português, mas seus criadores devem ter achado que o nome original (Daredevil) exigia os chifrinhos no uniforme de couro vermelho. O homem cego que combate o crime com os seus sentidos aguçados foi criticado quando foi vivido por Ben Affleck num filme que era até divertido - ele agora viverá Batman (que não tem chifres, mas uma alusão às orelhas pontudas dos morcegos). Ah, a namorada Elektra não tem nada a ver com os chifres do rapaz. 

04 As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e O Guarda-Roupa (2005) revelou para o mundo um dos atores mais talentosos dos últimos anos, trata-se de James McAvoy que ficou mais famoso como o jovem Professor Xavier na franquia X-Men. Foi na pele do mitológico Mr. Tumnus, um simpático fauno que ajuda as crianças no mundo mágico a combater a ameaça da Rainha Branca. Mr. Tumnus tem chifres modestos, mas que combina com sua aparência gentilmente inofensiva. Ciente de que tamanho não é documento para ninguém, Tumnus é um dos personagens mais queridos da série criada por C.S. Lewis, seja na literatura ou no cinema. 

03 Thor (2011) deveria ter desconfiado do uniforme de seu irmão Loki com aqueles chifres enormes e curvos por perto. Considerado na mitologia nórdica, o deus da "travessura e da trapaça", o chifre dourado é bastante apropriado para dar vida ao personagem dos quadrinhos. Além disso, a atuação do ator britânico Tom Hiddleston tornou o personagem em um dos mais populares do universo Marvel nas telonas. Tanto que garantiu sua participação em Os Vingadores (2012)  e Thor 2 (2013). Para desespero dos fãs, o chifrudo ficou de fora da próxima aventura do grupo de super-heróis a ser lançado no ano que vem. 

02 Hellboy (2004) Poucos heróis conseguem ser tão queridos em sua transposição para a telona quanto Hellboy. Nas HQs ele sempre foi mais cult do que famoso, mas os filmes de Guillermo Del Toro deram ao personagem a notoriedade que ele merece. Acredito que o fato do personagem ser uma espécie de diabo que luta contra sua própria natureza (e se torna um herói) seja o que mais agrada os diferentes públicos. Diante de seu dilema (e da atuação perfeita de Ron Perlman), nada mais simbólico do que o personagem cortar seus impressionantes chifres para que não tornem a sua origem ainda mais evidente.  

1 A Lenda (1985) Desculpem a obviedade, mas não posso de deixar de colocar em primeiro lugar o chifrudo em pessoa, afinal, ele se apossou do adereço com tamanha força no imaginário popular que é como se fosse sua marca registrada. Sendo assim, sua imagem cinematográfica que mais me aterrorizou na infância foi essa concebida por Charles Knode e construída em cada detalhe por Rob Bottin e Peter Robb-King (que foram indicados ao Oscar) neste famoso filme de Ridley Scott. Vivido por Tim Curry, o chamado Senhor das Trevas é o responsável por destruir um mundo de mágica fantasia. Para impedí-lo, somente um astro em início de carreira do porte de Tom Cruise seria capaz! Um clássico dos anos 1980!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

DVD: Reality - A Grande Ilusão

Aniello Arena e uma grande amiga: a vida é um reality show. 

Em 2008 o diretor italiano Matteo Garrone se tornou um dos diretores mais falados do mundo por conta de Gomorra (2008). Bastou o filme ganhar a Palma de Ouro em Cannes - entre outros prêmios que culminaram na indicação ao Globo de Ouro de filme estrangeiro - para todo mundo crer que o filme levaria fácil o Oscar. O filme acabou esquecido pela Academia, o que gerou vários protestos. Repleto de qualidades e ousadias, Gomorra era polêmico demais ao contar a história de vários personagens que tinham suas vidas atravessadas de variadas formas pelo crime organizado. Com a violência crua e uma estética quase documental, o filme tornou o diretor em um queridinho da crítica e teve seu novo projeto aguardado ansiosamente. Quando lançou Reality no Festival de Cannes, ele levou para casa o Grande Prêmio do Júri, no entanto, o filme pode desapontar os desavisados. Reality é uma comédia interessante, mas que está longe de ter a solidez de sua obra anterior. A trama conta a história de Luciano (o parrudo Aniello Arena), um vendedor de peixe que gosta de brincar de ator para animar festas. É durante um casamento quando um dos seus números é ofuscado por um participante do Grande Fratello (O Big Brother italiano) que o personagem começa a pensar em participar do programa. Pressionado pela família a se inscrever na atração ele comparece a todas as etapas seletivas, confiante de que será selecionado. Além de vender peixes, Luciano também vive de alguns golpes ao lado da esposa envolvendo um eletrodoméstico carinhosamente chamado de "robozinho", mas quando ele acha que está sendo vigiado pelos produtores do programa, sua vida muda drasticamente. O personagem desenvolve uma espécie de obsessão, que o leva a vender a peixaria e até doar as coisas de sua própria casa para os vizinhos e moradores de rua. Tanta loucura afeta seu relacionamento com a família, que percebe que alguma coisa saiu do lugar na cabeça daquele homem. O mais interessante do filme é o fato do diretor fazer o mundo do protagonista virar um Big Brother criado por ele mesmo, que sempre acha que está sendo espionado e julgado. As suas expectativas se mesclam à ilusão do sucesso e a necessidade de aceitação. As cenas em que o personagem deixa de desfrutar da companhia de familiares e amigos para assistir os participantes do programa dançando, flertando ou debaixo das cobertas mostram o quanto a vida de Luciano era muito mais interessante do que o programa de TV. Reality mergulha gradativamente na obsessão de seu personagem e torna-se cada vez mais sombrio. Ainda que não chegue a impressionar como Gomorra, Garrone merece elogios por evitar repetir-se e investir num ator que passou vinte anos de sua vida na prisão por participar de uma gangue de Nápoles. Aniello Arena faz aqui seu primeiro e único papel no cinema (até o momento), mas consegue dar conta da complexidade de seu personagem com bastante desenvoltura. Só pelo seu desempenho o filme já vale e pena. 

Reality - A Grande Ilusão (Reality-Itália/2012) de Matteo Garrone com Aniello Arena, Loredana Simioli, Claudia Gerini, Rafaelle Ferrante e Ciro Petrone ☻☻☻

DVD: Pussy Riot - O Protesto Punk

Pussy Riot em ação: performance satírica e prisão. 

A grupo punk feminista russo Pussy Riot ganhou as manchetes mundiais quando três de suas integrantes foram presas após realizar uma manifestação na histórica Catedral Cristo Salvador de Moscovo. Acusadas de vandalismo motivado por intolerância religiosa, as três se tornaram alvo da mídia e do tratamento jocoso de sua terra natal. O documentário da dupla Mark Lerner e Maxim Pozdorovkin utiliza esse fato para explorar algo que vai além do grupo de mulheres de roupas e capuzes coloridos, mas a situação da Rússia em seu árduo processo de transição para o capitalismo e o efeito de Vladimir Putin no imaginário dos descontentes. Putin é na verdade a maior causa para a apresentação malfadada das meninas, já que quando diziam "sujeira de Deus" na música gritada na Catedral, era a ele que se referiam e não à religião. Mas esse é apenas um dos aspectos abordados pelo filme, já que a produção busca o histórico das três punks que foram presas e exibe o quanto a história recente da Rússia afetou suas respectivas identidades. Não deve ser fácil ser jovem num país onde a contestação ao sistema vigente é visto como uma ameaça neo-bolchevique. Enquanto as meninas apresentam seus argumentos ideológicos, seus acusadores preferem ridicularizá-las e ofendê-las (com o auxílio do próprio nome da banda, que seria algo como "Greve das Vaginas"). Ao invés de argumentar contra o discurso anti-status quo presente na política ou na relação entre homens e mulheres na sociedade russa, as acusações que caem sobre o grupo chamam tanta atenção quanto ao tratamento que recebem na corte.  Quem ouviu apenas as reportagens veiculadas na televisão sobre o grupo irá se surpreender ao perceber que o grupo é formado por aproximadamente dez mulheres - e alguns ajudantes que filmam suas apresentações sempre em locais estratégicos para os protestos. As identidades são preservadas pelo uso de balaclavas coloridas que confere uma imagem ainda mais agressiva ao grupo, apesar das cores berrantes (o visual parece ter inspirado as personagens desmioladas do filme Spring Break/2013). Musicalmente o grupo é bastante sofrível, já que o punk rock gritado em russo pode não empolgar em sua musicalidade improvisada, geralmente apresentada sem muito ensaio, mas o que vale para as meninas são as letras de protesto, carregadas da insatisfação perante o quadro sócio-político que se consolidou nos últimos anos. No fim das contas, O Protesto Punk é um filme sobre os fantasmas da Rússia, já que pouco fala das influências musicais ou estéticas (e acredite, elas tem fortes referências) e mais sobre a história do país que gerou toda aquela confusão na igreja (que também tem sua história esmiuçada). Da preparação do julgamento das moças, passando pelas entrevistas dos familiares e da ira que despertam nos demais (que fingem não entender do que as garotas estão falando), o filme deixa bem marcado o quanto pode ser sufocante viver na terra de Lenin e Stalin. Mas no fim das contas, quando as meninas se declaram "palhaças" diante do júri, para pouco depois as outras integrantes fazerem um show diante do presídio, vemos que o circo continua a todo vapor seja dentro ou fora do palco. 

Pussy Riot - O Protesto Punk (Pussy Riot - A Punk Prayer/Rússia - Reino Unido / 2013) de Mark Lerner e Maxim Pozdorovkin ☻☻☻

quarta-feira, 4 de junho de 2014

DVD: Super

Ellen e Rainn: heróis perturbados. 

Quando a Marvel diz que tem filmes planejados até o ano de 2028, com uma média de dois longas por ano, temos a ideia de como os filmes de super-heróis devem ficar na moda por bastante tempo (principalmente se levarmos em consideração que a  DC Comics também lançará vários títulos até lá). De vez em quando aparece um filme que bebe na fonte desses seres poderosos com um olhar diferente. Foi assim com Corpo Fechado (2000) e seu personagem inquebrável, nas referências clássicas presentes na família de Os Incríveis (2004) e no realismo ultraviolento de Kick-Ass (2010). O pouco famoso Super é quase um primo pobre de Kick-Ass. Super é sobre um homem comum, que não é bonito, não é milionário e nem tem super poderes, mas que resolve fazer justiça de sua maneira... desengonçada. Esse sujeito é vivido com toda a peculiaridade que lhe cabe por Rainn Wilson, seu Frank Darbo possui elementos que podem lhe conferir tons cômicos e trágicos com toques de desequilíbrio emocional. Afinal, ele tem um emprego sem graça numa lanchonete e a única motivação de sua vida é a bela esposa (Liv Tyler) - mas eis que ela se cansa do relacionamento seguro e se rende num caso perigoso com um sujeito esquisito chamado Jacques (Kevin Bacon), o qual Frank sempre chama de Joke. Se Frank tem algum super-poder são as  alucinações que tem de vez em quando que lhe avisam sobre o mal que as pessoas possuem e, depois de uma revelação num sonho bem esquisito, ele descobre que precisa ser um herói para combater o crime. Assim, surge Crimson Bolt, o herói com o uniforme mais mal-feito de todos os tempos. Sua arma secreta é uma chave grifo que desce sobre seus oponentes sem cerimônia. No entanto, Frank mostra-se um cada vez mais perturbado no combate ao crime (chegando a agredir pessoas que furam fila), mas ele ainda perde para sua parceira de empreitada, Boltie (Ellen Page), uma garota tresloucada que parece entender que a vantagem de ser super-herói é a licença para usar a violência sobre seus desafetos. Não demora para que o roteiro aponte Jacques como o grande vilão da história e que a esposa de Frank é a mocinha a ser resgatada. O maior problema de Super é que o roteiro é frouxo e mistura referências das HQs sem uma boa costura, assim aparece o fetiche pelos uniformes até as onomatopéias num universo onde o humor infantil tenta conviver harmoniosamente como a violência explícita de sangue jorrando, tentativa de estupro e miolos espalhados. O resultado pode até fazer rir em alguns momentos, mas fica devendo no tratamento propositalmente tosco que o diretor James Gunn imprime à produção - que tem lá seu grau de ousadia. Gunn tem um histórico bastante coerente com o estilo de humor que vemos na tela, afinal ele já assinou o trash Seres Rastejantes (2006) e Super o credenciou para dirigir o episódio Beezel do filme Para Maiores (2013) - aquele curta do gatinho mal caráter que tem fetiche pelo dono. Mas o seu olhar cômico diante dos super-heróis fez a Marvel lhe confiar a direção do aguardado Guardiões da Galáxia que é um dos filmes mais esperados de 2014. Super deve ser seu último filme de pequeno porte. 

Super (EUA/2010) de James Gunn com Rainn Wilson, Ellen Page, Kevin Bacon e Liv Tyler. ☻☻☻

domingo, 1 de junho de 2014

NªTV: The Normal Heart

Bomer e Ruffalo: a ameaça da "peste gay" nos primeiros anos da AIDS.  

Ryan Murphy é um diretor que ganhou fama na TV à frente de séries como Popularidade (1999/2001), Glee e American Horror Story. À frente de filmes ele ainda pena para ser reconhecido, embora tenha realizado um dos filmes mais bacanas sobre adolescência que eu já assisti (o subestimado Correndo com Tesouras/2006). Depois do fracasso ele resolveu ser mais convencional quando topou adaptar Comer Rezar Amar (2010) onde Julia Roberts tornou a história insossa em sucesso de bilheteria. Não deixa de ser interessante que o diretor volte a ousar como cineasta, mas dessa vez num telefilme feito para a HBO. The Normal Heart é baseado numa peça sobre o efeito dos primeiros anos da AIDS num grupo de amigos homossexuais. O sucesso de Clube de Compras Dallas (2013) é a prova de que vasculhar a história da doença é sempre bem vinda e Ryan faz o mesmo aqui. No entanto, é preciso lembrar o contexto da história que acontece após a revolução sexual da década de 1970, onde os gays viveram todas as emoções que podiam entre até o início da década de 1980, quando o HIV surgiu como um freio, primeiro para eles e depois para o resto da humanidade para uma vida marcada por múltiplos parceiros sexuais. Os minutos iniciais do filme são utilizados para apresentar esses anos dourados, antes que a misteriosa doença aparecesse para trazer à tona o moralismo, que uma sociedade pretensamente liberal ainda escondia. A começar pela pecha que a AIDS recebia de "câncer gay" sob a colaboração do sarcoma de Kaposi. Não ia demorar muito tempo para que fosse classificada como peste gay (o que é muito bem trabalhado em E a Vida Continua/1993) e "praga", ou seja, um quadro clínico é logo rotulado com elementos impregnados de conotações religiosas. No meio disso tudo, a narrativa é centrada em Ned Weeks (Mark Ruffalo) uma espécie de líder de um grupo de amigos gays que percebe um padrão dentro das mortes de seus amigos próximos. Em meio às mortes que cruzam seu caminho, ele conhece a médica Emma Brookner (Julia Roberts), que enquanto não tem repostas para o que está acontecendo pede para que os amigos de Ned parem de manter relações sexuais. O que é recebido com risadas e frases de afronta perante o que consideravam ser sinais de um moralismo tosco. É no meio do medo que o câncer gay provoca entre seus amigos que Ned conhece o jornalista Felix Turner (Matthew Bomer com a pinta de Superman que apresenta na série White Collar), com que passa a ter um relacionamento sério. Ned e seus amigos se articulam para exigir pesquisas sobre a doença e além do descaso dos governantes (que não queriam se envolver com a palavra "gay" em seu discurso), da patrulha heterossexual e do sensacionalismo da mídia, ainda tinham que lidar com as dificuldades do próprio grupo lidar com o temperamento de Ned. Entre os amigos. Sempre existe uma queda de braço entre ele e Bruce Niles (o sempre insosso Taylor Kitsch) que tenta ser apaziguada por Tommy (Jim Parsons) diante do estresse crescente da narrativa. A jornada dos personagens de The Normal Heart merece ser conhecida, no entanto o diretor Ryan Murphy carrega no exagero. Na maior parte do tempo, o tom está acima do ideal. Grita-se muito e nem sempre as explosões de desespero parecem autênticas. Mark Ruffalo faz de Ned um sujeito quase insuportável, o qual podemos compreender seu desespero, mas que tendemos a concordar com seus amigos que ele sempre passa da conta. Mas existem outros colegas de elenco que também padecem de overacting quando deveriam brilhar na trama (e isso acontece até com Julia Roberts) que está melhor quando sua personagem é apenas amarga. No fim das contas, The Normal Heart funciona bem graças à atuação de Matt Bomer, que consegue dar conta de seu personagem sem pitis e com interpretação crível quando a exaltada perfeição física de seu personagem é devastada pela AIDS. Boomer confere a leveza que falta à histeria do filme (que deve ser lembrado nas premiações ao final do ano, embora Bomer possa ser esquecido pelo preconceito de ser um  homossexual interpretando um homossexual, como se héteros que interpretam héteros não merecessem reconhecimento). Sempre que Bomer que aparece em cena consegue nos contaminar com o que a aparição do HIV tem de mais doloroso: a interrupção irremediável da vida cheia de sonhos e possibilidades.

The Normal Heart (EUA/2014) de Ryan Murphy com Mark Ruffalo, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Julia Roberts e Jim Parsons. ☻☻☻