quinta-feira, 16 de abril de 2015

Na Tela: Vício Inerente

Katherine e Joaquin: paródia noir setentista. 

Devo confessar que fui assistir ao novo filme de Paul Thomas Anderson com baixa expectativa. Afinal, fiquei realmente escaldado com O Mestre, que das expectativas pós Sangue Negro/2007, revelou-se uma egotrip cansativa acima de todas as suas alardeadas qualidades. O efeito disso para quem ofertou seu coração ao cineasta após ver Boogie Nights/1997 e Magnólia/1999 não era fácil de ser digerido. Então vieram todas aquelas informações sobre a adaptação do diretor para a obra (dita inadaptável) Inherent Vice de Thomas Pynchon. Some às críticas complicadas no lançamento do filme e você poderá imaginar como eu esperava pouco do novo filme de Paul. Talvez tudo que estava contra ele tenha ajudado à apreciação dessa viagem noir lisérgica do diretor. O filme conta a história do detetive Larry "Doc" Sportello (Joaquin Phoenix), que recebe a visita de sua ex-namorada Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston) que se envolveu com um casal milionário metido  em tramoias. Não demora para que Shasta desapareça e Doc considere uma questão de honra encontrá-la. Esse é o pretexto para o personagem encontrar com uma verdadeira fauna setentista, como uma ex-viciada em heroína com dentes enormes (Jena Malone) que não sabe o paradeiro do esposo (Owen Wilson) - que torna-se o informante misterioso de Doc -, prostitutas que sabem mais do que deviam e outros personagens que estão lá mais para apontar para direções (que logo poderão ser abandonadas) ou simplesmente complicar mais ainda a vida de Doc - como o estranho policial "Bigfoot" Bjornsen (Josh Brolin, que muita gente acreditava que seria indicado ao Oscar pelo papel) ou outros tantos sujeitos com nomes bizarros (Adrian Prussia, um advogado chamado Sauncho Smilax, uma patricinha doidona chamada Japonica Fenway, um brutamontes chamado Puck Beaverton, sem falar em Chlorinda, Sortilège, Petunia, Amethyst...). Quem não perder tempo buscando sentido na trama apreciará o longa muito mais do que quem levar a sério todo o mistério que o filme sugere existir. Vício Inerente foi acusado de ser confuso, mas convenhamos que dez entre dez filmes noir são confusos com o seu emaranhado de crimes e personagens e, desse emaranhado, que surge o que o gênero possui de mais envolvente. O fato é que ao ambientar a busca de seu detetive viajandão na década de 1970, com personagens hippies, teorias conspiratórias, drogas, nazistas (?!) e sexo livre, todos os elementos do gênero ganham uma cara nova que beira a paródia. Todos os elementos noir estão lá, como o detetive confuso (ainda mais com o uso constante de maconha - e talvez por isso Robert Downey Jr. tenha abandonado o papel, já que agora seu passado doidão ficou para trás e é bom ninguém lembrar dele...), a femme fatale (numa atuação nasce-uma-estrela de Katherine Waterston), policiais corruptos, informantes escorregadios, pistas falsas... no entanto, não existe suspense a produzir, apenas uma espécie de brincadeira do diretor com todos esses signos na construção de um painel imaginário de sua adorada Los Angeles através da escrita de Pynchon. O Oscar entendeu o recado e indicou Anderson ao prêmio de roteiro adaptado (além de indicar o filme ao prêmio de melhor figurino). Vício Inerente me agrada mais do que a pompa de O Mestre, sua estranheza é mais pulsante do que o tom morno exibido naquele filme. Além disso, o fato de Paul Thomas Anderson conseguir atores de prestígio para participações especiais inusitadas em seu filme (Benício Del Toro, Reese Witherspoon, Maya Rudolph, Eric Roberts, Martin Short...), prova que o moço está cada vez mais próximo de seu ídolo, Robert Altman - além disso, faz esse humilde fã respirar aliviado diante da criatividade de um dos seus cineastas favoritos. 

Vício Inerente (Inherent Vice/EUA-2014) de Paul Thomas Anderson com Joaquin Phoenix, Katherine Waterston, Josh Brolin, Joanna Newson, Owen Wilson, Reese Witherspoon e Maya Rudolph. ☻☻☻☻

FESTIVAL DE CANNES 2015

Hoje a organização do Festival de Cannes divulgou a preciosa lista de filmes que serão exibidos esse ano e a lista faz qualquer cinéfilo salivar de expectativa! Se levarmos em consideração que os finalistas do Oscar desse ano Foxcatcher, Dois Dias, Uma Noite, Relatos Selvagens, Mr Turner, Como Treinar seu Dragão 2, Sal da Terra e Força Maior (além dos que chegaram muito perto de indicações como Mommy e The Homesman), dá para entender por que, ainda que ambientado em maio (esse ano com início no dia 13) o Festival ainda é inabalável. Esse ano ele conta com os novos de Todd Haynes, Dennis Villeneuve, Gus Van Sant, Paolo Sorrentino, Jacques Audiard, Nanni Moretti, Woody Allen e (até) Natalie Portman estreando na direção. A seguir a lista dos candidatos a filmes que darão o que falar em 2015:

Seleção Oficial 
“The Assassin” (dir. Hou Hsiao-Hsien)
“Carol” (dir. Todd Haynes)
“Dheepan” (dir. Jacques Audiard)
“The Lobster” (dir. Yorgos Lanthimos)
“Louder Than Bombs” (dir. Joachim Trier)
“Macbeth” (dir. Justin Kurzel)
“Marguerite et Julien” (dir. Valerie Donzelli)
“Mia Madre” (dir. Nanni Moretti)
“Mountains May Depart” (dir. Jia Zhangke)
“My King” (Maiwenn)
“Our Little Sister” (dir. Hirokazu Kore-eda)
"Sea Of Trees" (dir. Gus Van Sant)
"Sicario" (dir. Denis Villeneuve)
“A Simple Man” (dir. Stephane Brize)
“Son Of Saul” (dir. Laszlo Nemes)
“The Tale Of Tales” (dir. Matteo Garrone)
“Youth” (dir. Paolo Sorrentino)

Mostra "Un Certain Regard"
 “The Chosen Ones” (dir. David Pablos)
“Fly Away Solo” (dir. Neeraj Ghaywan)
“The Fourth Direction” (dir. Gurvinder Singh)
“The High Sun” (dir. Dalibor Matanic)
“I Am A Soldier” (dir. Laurent Lariviere)
“Journey To The Shore” (dir. Kiyoshi Kurosawa) 
“Madonna” (dir. Shin Suwon)
“Maryland” (dir. Alice Winocour)
“Nahid” (dir. Ida Panahandeh)
“One Floor Below” (dir. Radu Muntean)
“The Other Side” (dir. Roberto Minervini)
“Rams” (dir. Grimur Hakonarson)
“The Shameless” (dir. Oh Seung-Uk)
“The Treasure” (dir. Corneliu Porumboiu)

 Fora de Competição
“Inside Out” (dir. Pete Docter & Ronaldo Del Carmen)
“The Little Prince” (dir. Mark Osbourne) 
“Mad Max: Fury Road” (dir. George Miller)
“Standing Tall” (“dir. Emmanuelle Bercot) — Filme de Abertura

Exibições Especiais 
“Amnesia” (dir. Barbet Schroeder)
“Asphalt” (dir. Seamuel Benchetrit)
“A Tale Of Love & Darkness” (dir. Natalie Portman)
“Hayored Lema’ala” (dir. Elad Keidan)
“Irrational Man” (dir. Woody Allen)
“Panama” (dir. Pavle Vuckovic)
“Oka” (dir. Souleymane Cisse)

Mostra da Meia-Noite
 “Amy” (dir. Asif Kapadia)
“Office” (dir. Hong Won-Chan)

Cannes Classics
 “Ingrid Bergman: In Her Own Words”

quarta-feira, 15 de abril de 2015

PL►Y: Amores Imaginários

Xavier e Monia: amigos apaixonados pelo mesmo rapaz. 

Não deixa de ser surpreendente que quando Amores Imaginários foi lançado no Brasil, seu diretor, o canadense Xavier Dolan, tivesse apenas 22 anos. Depois de chamar atenção em sua estreia com Eu Matei a Minha Mãe! (2009), o rapaz mudou sua estética e tornou-se mais contido em seu segundo longa. Com fotografia que parece emoldurar um sonho, ele interpreta Francis, o melhor amigo de Marie (Monia Chokri). Os dois vivem grudados e vivendo experiências amorosas frustrantes com relacionamentos que mal duram uma noite. A vida do casal de amigos sofre mudanças quando o loiro Nicolas (Niels Schneider) cruza seus caminhos numa festa e se torna objeto de desejo de ambos. Assim, o que era uma dupla inseparável, torna-se um trio cada vez mais próximo, seja pelos interesses compartilhados por cinema e música, ou pelas segundas intenções que Francis e Marie nutrem pelo rapaz. Dolan não demonstra nenhum traço da histeria de sua estreia atrás das câmeras, preferindo uma abordagem mais sutil e contemplativa dos sentimentos conflituosos que começam a existir no trio quase amoroso. Afinal, somente no final, existem declarações de amor entre eles e o resultado era mais saboroso quando imaginário do que quando torna-se concreto - já que o sabor de desgosto é praticamente inevitável. Dolan (que começou a carreira como ator mirim na TV canadense), apresenta Francis como uma espécie de versão madura de Hubert Minel (seu personagem no filme anterior), numa espécie de possibilidade do que poderia ser o seu futuro (não por acaso, sua mãe nem aparece em cena, ou melhor, aparece, já que Anne Dorval faz uma breve participação como a mãe estapafúrdia de Nicolas). No entanto, apesar de ser a gênese de um quase triângulo amoroso, a relação de Marie com Francis é o que chama mais atenção em cena - já que formam uma espécie de casal perfeito até que a competitividade se instaure entre os dois. Ainda que não expresse em palavras, Amores Imaginários nutre-se especialmente do ciúme que os personagens despertam um no outro (seja como amigos ou amantes)  ou da própria solidão que emana deles. No entanto, o texto e a direção de Dolan nunca caem no lugar comum, deixando muito a cargo da mente do espectador. Por isso, torna-se importante ficar atento aos comentários em estilo documental aparentemente soltos de que podem revelar mais sobre Nicolas do que você imagina. Visualmente mais exuberante que seu filme anterior, o longa demonstra que Dolan pretendia amadurecer como diretor e, ainda que abordando mais uma vez um personagem homossexual, seu interesse está além de criar histórias voltadas para o público GLSBT. A naturalidade como retrata a sexualidade de seus personagens, sem gratuidade ou sensacionalismo, mostra-se aqui um dos seus maiores méritos. 

Anores Imaginários (Les Amours Imaginaires/Canadá-2010) de Xavier Dolan, com Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider e Anne Dorval. ☻☻☻

CATÁLOGO: Domésticas

Domésticas: o cartão de apresentação de Fernando Meirelles. 

Depois de patinar com o pretensiosamente oco 360 lançado em 2011, Fernando Meirelles tem investido cada vez mais em trabalhos para a televisão, tanto que desde então seu único trabalho para o cinema foi no episódio "A Musa" do longa Rio, Eu Te Amo (2014). É engraçado que nessa espécie de hiato eu tenha visto seu primeiro longa metragem: Domésticas. Há de se dizer que o filme mal teve tempo de ser descoberto, já que pouco depois o diretor lançou o famigerado Cidade de Deus (2001), que deixou claro que no cinema brasileiro existia a possibilidade de criar uma obra de qualidade irrepreensível, digna de ser reconhecida mundialmente. Baseado na peça de Renata Mello, Domésticas é composto de pequenas histórias entrelaçadas sobre o cotidiano de um grupo de empregadas de São Paulo. As tramas são contadas com muito humor e com um olhar particular para as personagens que geralmente se reduzem a coadjuvantes na dramaturgia mundial. As histórias são costuradas por algumas cenas que parecem documentais, onde os atores olham diretamente para a câmera e tecem comentários como se fossem entrevistas. O elenco é excelente e chama a atenção para personagens como Roxane (Graziela Moretto) que sonha em ser modelo, Créo (Lena Roque) que tem problemas com a filha que não quer seguir na profissão, Rai (Cláudia Missura) que sonha em casar, Quitéria (Olivia Araújo) que não consegue estabilidade com patroa alguma e Cida (Renata Melo) que enfrenta problemas no casamento. Misturado às personagens femininas estão os homens que ajudam a compor um universo interessante. Existem cenas impagáveis como a que Créo procura ajuda com um pai de santo ou nas desventuras de Roxane num dilema com a profissão mais antiga do mundo. Com diálogos espirituosos (que tentam se equilibrar numa linha finíssima entre o divertido e o preconceituoso) e trilha sonora brega, Fernando Meirelles já demonstrava aqui sua preocupação técnica com a narrativa e o desenvolvimento dos personagens. Além disso, existe um subtexto social muito interessante nas situações que os personagens atravessam. Bem fotografado, editado e filmado, o diretor já demonstrava sua inquietação em busca da construção de uma narrativa mais moderna do que os diretores brasileiros estavam acostumados. Domésticas pode até não ser perfeito, mas consegue ser um dos filmes mais divertidos que o Brasil já produziu nesse século. 

Domésticas (Brasil/2001) de Fernando Meirelles com Olivia Araújo, Graziela Moretto, Cláudia Missura, Renata Melo, Tiago Moraes, Robson Nunes, Gero Camilo, Roberta Garcia, Cecília Homem de Mello e Luís Miranda. ☻☻☻☻

NªTV: DEMOLIDOR (NETFLIX)

Cox como Matt Murdock: guinada no mundo Marvel. 

Houve uma certa comoção quando o NETFLIX lançou os treze episódios de sua série original Demolidor, junto à Marvel, no dia dez de abril. Se você ainda não assistiu a todos os episódios... está esperando o que? A série estabelece uma nova linguagem para a produtora de Os Vingadores/2012, uma vez que investe num universo mais sombrio e agressivo do que as adaptações de seus heróis para a telona. Não por acaso, Demolidor parece ter sido a aposta certa para essa guinada, afinal, foi o mesmo personagem que criou uma quebra nos paradigmas da editora - quando Frank Miller, na década de 1980, tornou suas histórias mais voltadas para o público adulto. Embora exista Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D (cria direta dos Vingadores) e Agente Carter (cria de Capitão América/) foi o NETFLIX que beneficiou-se da repaginada de sua linguagem, especialmente no herói em questão depois que Ben Affleck padeceu com seu longa-metragem lançado em 2003. A série passa uma borracha no filme e começa na origem do personagem, quando seu alter-ego Matt Murdock começou a trabalhar como advogado e combatia o crime no muque durante a noite. A série mostra como Matt, ainda criança, teve que lidar com a cegueira e os sentidos aguçados por um acidente. Matt ainda tem o passado revelado em flashbacks, que contam um pouco de sua história ao lado do pai - que ganhava a vida no ringue - enquanto no presente, o personagem se encontra outros personagens dos quadrinhos. Coube ao inglês Charlie Cox (visto recentemente em A Teoria de Tudo/2014) vestir o uniforme do herói na série - e ele faz como manda o figurino. O herói promete gerar uma grande mudança na carreira do ator, que ganhou o primeiro papel de destaque na adaptação de outra HQ: Stardust (2007) de Matthew Vaughn. Quem estava acostumado com a aparência serena do ator deve se surpreender com sua personificação de Matt Murdock depois de dieta e malhação. Cox mostra-se muito a vontade no personagem, especialmente nas cenas de luta fenomenais (a que fecha o segundo episódio é espetacular em sua ação desenfreada e sem cortes). No entanto, os fãs dos longas da Marvel não terão do que reclamar, já que a série é ligada ao universo da editora. Agindo no soturno bairro de Hell's Kitchen, Demolidor enfrenta vilões que estão diretamente vinculados à reconstrução da cidade de Nova York depois que Thor, Homem de Ferro e seus amigos tiveram que deter a ameaça alienígena no filme mais bem sucedido do estúdio. Porém, Demolidor mostra o outro lado do mundo Marvel, um lado mais realista, com políticos corruptos, empreiteiras mal intencionadas, imprensa em busca de notícias, máfias, gangsteres, quadrilhas... sem um martelo mágico ou armadura multifacetada, O Demolidor tem apenas as habilidades de luta e inteligência aguçada pelos sentidos para combater os inimigos.  Animados com a repercussão da série (que fazem os fãs delirarem com os indícios dos rumos que o universo da editora tomará na telinha), Demolidor promete ter vida longa e injetar novo fôlego nas produções da Marvel. 

Demolidor (Daredevil/EUA-2015) de Drew Goddard com Charlie Cox, Deborah Ann Woll, Elden Helson, Vincent D'Onofrio, Wai Ching Ho e Rosario Dawson. ☻☻☻☻

terça-feira, 14 de abril de 2015

PL►Y: Antiviral

Caleb: a idolatria como doença sem cura. 

David Cronenberg ficou reconhecido na década de 1980 com filmes de horror que mexiam com os sentidos e o estômago da plateia. Com a chegada do século XXI, ele tornou seu estilo menos grotesco, mas continuou a provocar. Acho que se perguntassem para Brandon Cronenberg, filho do cineasta, qual a melhor fase da carreira de seu pai, ele responderia, com certeza absoluta, que é a de décadas atrás. Antiviral marca a estreia de Brandon em longa metragem e, ao contrário de muitos filhos de diretores que preferem criar uma voz distante do legado paterno, Brandon prefere mergulhar fundo na cinematografia do pai. O filme retrata um futuro onde as pessoas são tão obcecadas por celebridades que são capazes de se contaminarem com as mesmas doenças que seus ídolos, apenas para sentirem que compartilham as mesmas sensações (febre, enjoo, náusea, dores pelo corpo...) dos seus famosos favoritos. É em uma empresa que fatura alto com essa venda de doenças de celebridades que trabalha o estranho Syd March (Caleb Landry Jones), além de convencer os fãs a se contaminarem com os produtos da empresa, Syd ainda fatura uns trocados contrabandeando os vírus  para empresas concorrentes utilizando o próprio corpo. Por conta de sua atividade ilícita (já que as doenças são patenteadas e alteradas para que não contaminem ninguém de graça, somente o fã que a comprou), Syd vive doente, se alimentando a base de sanduíches e suco de laranja. Num mundo onde as pessoas cobiçam a herpes de beldades como Hannah Geist (Sarah Gadon) ou a febre de Aria Noble (Nenna Abuwa), Syd recebe a missão de comprar a nova doença de uma dessas estrelas, mas com a esperança de contrabandear o tal vírus, acaba se contaminando com uma doença rara, incurável e mortal. A partir desse momento, enquanto o organismo de Syd deteriora-se, Brandon Cronenberg mergulha sem pudores no que o cinema de seu pai tinha de mais grotesco. Misturando referências que vão de Videodrome (1983) até A Mosca (1986), o que contamina a limpidez da brancura de sua estética. O diretor vai de encontro à temática que seu pai retrata em suas obras mais recentes (Cosmópolis/2012 e Mapas para as Estrelas/2014) sobre o culto exagerado à vida das celebridades e a sociedade alienante que o alimenta. Exibido no Festival de Cannes em 2012, o filme chamou atenção pela ousadia do diretor estreante, não satisfeito ele reeditou o filme com seis minutos a menos - e eu teria cortado mais alguns. Pode-se dizer que o filme tem quatro atos, sendo que a partir da metade, começa cansar em suas tentativas de gerar surpresas para o espectador, perdendo a oportunidade de ser mais enxuto (a parte em que Syd fica preso a um reality show poderia ter sido cortada sem pensar duas vezes). Apesar de seus tropeços, Antiviral consegue ter um final ainda mais estranho do que tudo o que vemos em sua projeção, mas devo ressaltar que a atuação de Caleb Landry Jones tem papel importante no cumprimento dos objetivos do diretor. O ator de vinte e e cinco anos pode ser lembrado como o mutante Banshee de X-Men: Primeira Classe/2011, mas é em personagens obscuros como o vivido em O Último Exorcismo (2010) e Antiviral que ele se mostra mais a vontade. Com uma expressividade que lembra a de um jovem Willem Dafoe, Caleb promete fazer uma carreira bastante interessante, assim como o jovem Cronenberg. 

Antiviral (Antiviral/Canadá-França/2012) de Brandon Cronenberg com Caleb Landry Jones, Sarah Gadon, Douglas Smith, Salvatore Antonio e Lisa Berry. ☻☻☻

segunda-feira, 13 de abril de 2015

GANHADORES MTV MOVIE AWARDS - 2015

A Culpa é das Estrelas: filme do ano segundo público MTV.

Depois de um período meia-boca, parece que o MTV Movie Awards voltou a ser referência do que o cinema pipoca americano faz de melhor. Ontem aconteceu a edição 2015 de uma das premiações mais irreverentes do cinema americano e entre os indicados, os ganhadores reservaram algumas surpresas (talvez a maior delas seja Bradley Cooper ganhar o prêmio de melhor ator, provando que está realmente em alta entre os americanos). Os indicados e premiados foram os seguintes (em destaque):

Filme do Ano
Sniper Americano
Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1 
Guardiões da Galáxia
Garota Exemplar 
A Culpa é das Estrelas
Boyhood 
Whiplash 
Selma 

Melhor Atriz
Jennifer Lawrence - Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1
Emma Stone – Birdman 
Shailene Woodley - A Culpa é das Estrelas
Reese Witherspoon – Livre
Scarlett Johansson – Lucy

Melhor Ator
Bradley Cooper – Sniper Americano
Chris Pratt - Guardiões da Galáxia
Ansel Elgort - A Culpa é das Estrelas
Miles Teller - Whiplash
Channing Tatum – Foxcatcher

Performance mais Assustadora
Rosamund Pike - Garota Exemplar
Annabelle Wallis – Annabelle
Jennifer Lopez - O Garoto da Casa ao Lado
David Oyelowo - Selma 
Zach Gilford - Uma Noite de Crime: Anarquia

Melhor Cena sem Camisa
Zac Efron – Vizinhos
Chris Pratt - Guardiões da Galáxia
Channing Tatum – Foxcatcher
Ansel Elgort - A Culpa é das Estrelas
Kate Upton – Mulheres ao Ataque

Melhor Dupla
Channing Tatum & Jonah Hill – Anjos da Lei 2
Zac Efron & Dave Franco – Vizinhos
Shailene Woodley & Ansel Elgort - A Culpa é das Estrelas
Bradley Cooper & Vin Diesel - Guardiões da Galáxia
James Franco & Seth Rogen – A Entrevista

Revelação do Ano
Ansel Elgort - A Culpa é das Estrelas
Rosamund Pike – Garota Exemplar
David Oyelowo – Selma 
Dylan O’Brien - Maze Runner 
Ellar Coltrane – Boyhood 

Melhor Briga
Jonah Hill vs. Jillian Bell – Anjos da Lei 2
Chris Evans vs. Sebastian Stan – Capitão América 2 
Dylan O’Brien vs. Will Poulter – Maze Runner 
Seth Rogen vs. Zac Efron – Vizinhos
Edward Norton vs. Michael Keaton – Birdman 

Melhor Beijo
Ansel Elgort & Shailene Woodley- A Culpa é das Estrelas
James Franco & Seth Rogen – A Entrevista
Andrew Garfield & Emma Stone – O Espetacular Homem-Aranha 2
Scarlett Johansson & Chris Evans – Capitão América 2
Rose Byrne & Halston Sage – Vizinhos

Momento #WTF
Seth Rogen & Rose Byrne – Vizinhos
Jonah Hill – Anjos da Lei 2
Jason Sudeikis & Charlie Day - Quero Matar Meu Chefe 2
Miles Teller – Whiplash 
Rosario Dawson & Anders Holm – Top Five

Melhor Vilão
Rosamund Pike – Garota Exemplar
J.K. Simmons – Whiplash 
Jillian Bell – Anjos da Lei 2
Meryl Streep – Caminhos da Floresta
Peter Dinklage – X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Melhor Herói
Dylan O’Brien – Maze Runner 
Shailene Woodley – Divergente: Insurgente
Jennifer Lawrence – Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1
Martin Freeman – O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos
Chris Pratt – Guardiões da Galáxia

Melhor Momento Musical
Jennifer Lawrence – Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1
Chris Pratt – Guardiões da Galáxia
Seth Rogen & Zac Efron – Vizinhos
Bill Hader & Kristen Wiig - Irmãos Desastre
Miles Teller – Whiplash 

Melhor Performance de Comédia
Channing Tatum – Anjos da Lei 2
Chris Pratt – Guardiões da Galáxia
Rose Byrne – Vizinhos
Chris Rock – Top Five
Kevin Hart – Padrinhos Ltda.

Melhor Transformação na Tela
Eddie Redmayne – A Teoria de Tudo
Elizabeth Banks – Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1
Zoe Saldana – Guardiões da Galáxia
Steve Carell – Foxcatcher
Ellar Coltrane – Boyhood 

Prêmios Especiais:

MTV Generation Award: Robert Downey Jr.
MTV Trailblazer Award: Shailene Woodley
MTV Comedic Genius Award: Kevin Hart


sexta-feira, 10 de abril de 2015

PL►Y: Eu Matei a Minha Mãe!

Dorval e Xavier: tempestade entre mãe e filho. 

Depois de assistir Mommy (2014), último e premiado longa de Xavier Dolan, fiquei instigado com a carreira do cineasta de 25 anos. A estreia desse jovem canadense na direção aconteceu em 2009 com esse filme que está longe de retratar um matricídio literal. Querido no Festival de Cannes, Dolan foi celebrado como autor assim que seu filme foi exibido - e ele mal havia completado vinte anos. Eu Matei a Minha Mãe! tem elementos autobiográficos sobre a relação do diretor com a mãe, mas merece mais atenção por retratar o complicado processo de crescimento de seu protagonista. Hubert Minel (o próprio cineasta), vive com a mãe (a ótima Anne Dorval) em um relacionamento tempestuoso, mas se ela tem lá seus momentos de chatice, Hubert é de longe um sujeito mais difícil de conviver. Hubert grita muito o filme inteiro, no entanto, sua inquietação pode ser atribuída às angústias de seus dezesseis anos, sua vontade de alçar voo, sem ter condições concretas para tanto. Prova disso é o fato de querer morar sozinho num apartamento, mas sua mãe boicotar por considerar completamente absurdo que ele o faça tão jovem. Por outro lado, Dorval compõe uma mãe quase contida, que tenta ser paciente com a explosão hormonal de seu filho - mas que nem sempre consegue. Hubert tem aspirações de tornar-se escritor, tem na professora a sua confidente e melhor amiga (vivida por Suzanne Clément) e namora o amigo Antonin (François Arnaud) sem que sua mãe saiba. O relacionamento caótico entre mãe e filho irá direcionar o jovem Hubert para um colégio interno e sua distância emocional com a mãe irá se tornar ainda maior. O diretor utiliza vários recursos para expor os pensamentos do personagem, mas mesmo assim, a dimensão humana impressa por Anne Dorval consegue ser maior do que qualquer filosofice de Dolan. Hubert parece sofrer de uma espécie de histeria crônica, que não comove e muitas vezes beira o cômico. Por outro lado, as cenas em que sua mãe descobre que o filho tem um namorado consegue ser mais emocionante do que qualquer grito afetado de Hubert. O título Eu Matei a Minha Mãe! é referente a uma mentira contada por Hubert na escola, mas ilustra com precisão a dificuldade que o jovem personagem encontra para seguir seus caminhos, inclusive quando se trata de assumir a homossexualidade para a pessoa que esteve ao seu lado desde antes do nascimento (e essa dicotomia nas emoções aparece em algumas das melhores reflexões do personagem), enfim, Freud explica! Para quem curtiu Mommy, vale a pena conferir o debut do diretor e perceber as semelhanças (que vão além das atrizes do diretor) entre as duas obras, que resultam quase complementares.

Eu Matei a Minha Mãe! (J'ai Tué ma mére/Canadá - 2009) de Xavier Dolan com Xavier Dolan, Anne Dorval, Suzanne Clément, François Arnaud e Niels Schneider. ☻☻☻

Na Tela: A Gangue

O novato carregado por seus amigos: sem palavras. 

O longa ucraniano A Gangue deverá ficar restrito aos festivais, portanto, se você souber que ele está passando em alguma mostra perto de você, é bom assistir sem pensar duas vezes se quiser vivenciar uma experiência única na sala de cinema. Exibido no Festival de Cinema em São Paulo, acabei me deparando com o filme por acaso, numa pequena mostra sobre personagens portadores de deficiência - e o longa metragem de Myroslav Slaboshptskiy foi o mais polêmico de todos. Ganhador de três prêmios em Cannes no ano passado, o filme parte de uma proposta única: protagonizado por jovens surdos, ele é todo falado em linguagem de sinais - mas sem legendas para traduzí-los (ironicamente, a única legenda existe para deixar isso bem claro a espectador). No entanto, as polêmicas acerca do filme surgiram da violência e das cenas de sexo protagonizadas por seus personagens, o resultado é um filme longo e sombrio, mas que resulta bastante intenso em suas intenções. A história relata a chegada de um aluno novo à uma escola de surdos (Grigoriy Fesenko), que na instituição conhece um grupo de alunos que ditam as regras por ali, numa espécie de poder paralelo dentro daquele universo - afinal, praticamente não existe funcionários na escola, são pouquíssimas as cenas em que aparecem professores ou funcionários da escola, na maior parte do tempo os adolescentes estão sós em cena, por outro lado, todo aquele silêncio também pode camuflar a violência abrigada ali dentro, criando uma ilusão de paz harmônica na escola (e a devastadora cena final parece nutrir-se disso).  Deixando a parte pedagógica de lado, o aluno novato irá conhecer aos poucos o rito de iniciação na gangue, o envolvimento dos alunos com prostituição, encontrará o amor e receberá o desprezo de seus colegas quando meter os pés pelas mãos. Denso, sombrio e sufocante, o filme tem um belo trabalho de fotografia, edição e movimentos de câmera, além de captar os sons de raiva, dor e prazer dos personagens e a expressividade física de todos eles (de forma que podemos não entender os sinais, mas compreendemos plenamente suas emoções). Ao final de sua exibição já é comum perceber que as opiniões da plateia são extremas, uns amam e outros odeiam. Há quem perceba no filme paralelos com a violência de Laranja Mecânica (1971) de Stanley Kubrick ou na melancolia juvenil de Elefante (2003) de Gus Van Sant, mas eu sinto que a influência mais forte do filme é o estilo do austríaco Michael Haneke, percebi em seu tom a rigidez, a lentidão, os longos planos e personagens perdidos em seus desejos silenciados. A gangue não é um filme agradável de se ver, mas em sua ausência de palavras faladas, ele consegue universalizar sua história, que pode acontecer em qualquer lugar do mundo. Original em seu conceito de romper paradigmas na linguagem cinematográfica, Myroslav não demonstra nenhuma preocupação em agradar o espectador - e eles retribuem isso à altura -, no entanto, poderia ter deixado menos evidente a sua intenção de chocar o público.

A Gangue (Plymia/Ucrânia - Holanda / 2014) de Myroslav Slaboshptskiy com Grigoriy Fesenko, Yana Novikova, Rosa Babiy, Ivan Tishko. ☻☻☻